Arquivo da tag: MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo

MITsp 2026:
A batalha pela sobrevivência
entre a consagração europeia
e a urgência decolonial

Historia da Violência, com o escritor francês Édouard Louis (de costas) dirigido pelo alemão Thomas Ostermeier. Foto: Arno Declair / Divulgação

Quem matou meu pai. Foto: Jean Louis Fernandez / Divulgação

Vigiada e Punida, da canadense Safia Nolin, sobre ódios nas redes sociais. Foto: Maxim Pare Fortin 

Onze anos incendiários. Assim a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo se apresenta em 2026 como uma chama que resiste. Sob o mote da “violência e suas diversas formas de enfrentamento”, o festival se desenha como um espelho das fraturas, tensões e urgências do nosso tempo, ao mesmo tempo em que a própria mostra trava uma luta visceral pela sobrevivência em meio a um cenário de recursos em declínio.

A identidade visual desta edição, assinada pelo designer pernambucano Hélter Pessôa, materializa essa urgência através de um elemento simples e potente: o fogo. Uma caixa de fósforos resguarda a possibilidade de mudar o estado das coisas. Diante das incertezas, a arte persiste e o gesto teatral irradia como faísca flamejante, potencializando ações de diversidade e democracia. Três palitos de fósforo são um “lembrete de que essa chama não pode se apagar”, um convite para o mergulho nas profundezas do que o teatro ainda pode ser.

A estrutura curatorial da MITsp 2026 pode ser lida a partir de duas grandes linhas de força que operam em tensão constante: a consagração europeia, ancorada no prestígio de um teatro intelectualizado, de grande circulação internacional, que disseca as violências do Ocidente com precisão cirúrgica, e a urgência decolonial, uma força que emerge da necessidade, da luta pela existência e da resistência de corpos e territórios historicamente silenciados. Essas linhas revelam, na verdade, as contradições estruturais do próprio festival: entre o desejo de ser uma ponte global e a realidade de uma instituição brasileira operando com menos de 30% do orçamento necessário; entre a legitimidade do cânone europeu e a urgência de vozes que não podem esperar por reconhecimento internacional.

A primeira linha de força é encabeçada pela dobradinha entre o escritor francês Édouard Louis e o diretor alemão Thomas Ostermeier. O díptico formado por História da Violência – que parte de um estupro sofrido pelo autor para falar de homofobia e racismo – e Quem Matou Meu Pai – onde Louis expõe como a desigualdade destruiu seu pai – funciona como uma contundente análise social. Esses nomes  – Thomas Ostermeier, Édouard Louis e Milo Rau – representam um  teatro europeu que circula em festivais de renome mundial (Avignon, Veneza, etc). Eles são o “establishment do teatro contemporâneo”, operando dentro de um circuito já legitimado, com recursos, infraestrutura e visibilidade garantidos. A presença de Milo Rau com A Carta reforça essa curadoria que aposta no teatro como testemunho político, onde a ficção e a vida se confundem na formação de um ator entre gerações e conflitos, para refletir sobre as estruturas de poder. Embora essas obras sejam criticamente relevantes – dissecando homofobia, racismo e hipocrisia das democracias ocidentais – elas o fazem através de uma estética já consagrada e, de certa forma, “segura” para um grande festival internacional.

Contrapondo a hegemonia europeia, emergem “lugares de enunciação mais periféricos” que carregam uma potência distinta. Do Lado de Cá, do congolês Dieudonné Niangouna, traz a perspectiva do exílio e do artista cindido entre dois mundos – uma vinda celebrada por Antonio Araújo, idealizador e diretor artístico da MITsp, como uma “vitória” após o trauma de sua participação virtual em 2019, impedida pela perseguição política em seu país.

Vigiada e Punida, da canadense Safia Nolin com direção de Philippe Cyr, transforma o ódio misógino e gordofóbico das redes sociais em matéria cênica, oferecendo uma resposta à violência contemporânea. Mas talvez a presença mais  “radicalmente necessária” seja a abertura de processo de Três Estações e um Corpo, do artista palestino Mohammed Al Qudwa com direção da brasileira Martha Kiss Perrone. Em meio a um “genocídio em curso”, a obra surge como um testemunho urgente e fragmentado. A escolha de apresentar um trabalho em construção, sobre um corpo que sobrevive a cinco guerras, coloca o teatro em seu estado mais urgente e necessário: “o de dar nome ao indizível, de insistir na existência diante da aniquilação”.

Mandinga Major Ball Ballroom integra a PERFORMA12h. Foto: Alass Derivas / Divulgação

Se a ala internacional tematiza a violência, os espetáculos nacionais respondem com estratégias de resistência. A MITbr – Plataforma Brasil se firma como “uma mostra que luta pela democracia e reconhece a diversidade das vozes, ocupando todos os espaços”, nas palavras do produtor Guilherme Marques, um dos idealizadores e diretor geral de produção. Aqui, a urgência decolonial se torna protagonista.

Da Convocatória MITbr – Plataforma Brasil, em TA – Sobre Ser Grande, o Corpo de Dança do Amazonas se inspira na cosmologia Tikuna para discutir a resiliência dos povos originários. Para Mariela celebra quatro décadas do Grupo Sobrevento tecendo uma poética da imigração boliviana que, a partir de objetos cotidianos e sonoridades ancestrais, aponta a tensão entre sonhos de simplicidade e as complexidades do deslocamento. Em Epílogo (PR), a dupla chameckilerner usa corpos de idades e habilidades diversas para “dinamitar o etarismo e a ditadura do corpo padrão”.

A criação da PERFORMA12h – uma virada noturna dedicada a artistas negros que vibram na “resistência festiva” -, com curadoria de Rodrigo Severo, materializa a festa como tática de sobrevivência e afirmação política. Neste conjunto estão Aparição, Nego Fugido de Acupe (BA), que reencena a abolição sob a ótica quilombola, ressignificando a história através de uma encenação de reparação histórica que coloca os negros como protagonistas da conquista da abolição da escravatura; e Mandinga Major Ball de Puma Camillê (BA), um ritual contemporâneo de celebração e denúncia que articula sabedorias ancestrais às urgências do presente pela perspectiva LGBTQIAPN+, afirmando o corpo como linguagem política, arquivo vivo e estratégia de sobrevivência através do diálogo entre capoeira e vogue.

Essa energia se anuncia em outros espetáculos da MITbr. Na aba Espetáculos Convidados, Vogue Funk (RJ), da carioca Patfudyda, funde baile funk e vogue ball, festejando a potência criativa de corpos periféricos e dissidentes. Das vielas para os palcos, dos fios emaranhados dos postes ao fio dental das gatas: baile funk e vogue ball se cruzam neste espetáculo de dança. Originados em contextos geográficos e cronológicos distintos, os movimentos têm em comum a origem periférica e predominantemente preta, além de serem símbolos de resistência cultural, política e social. Também nesta aba, Filoctetes em Lemnos, de Vinicius Torres Machado, dirigido por Marina Tranjan, acompanha Filoctetes: herói, mas não o suficiente para suportar a dor de uma ferida que não cicatriza. A partir do mito grego, o artista apresenta a matéria do próprio corpo após a retirada de parte do seu nervo ciático e musculatura posterior, em decorrência do tratamento de um tumor, tratando da fragilidade corporal como experiência encarnada

A MITbr também apresenta aberturas de processo que revelam outra dimensão da criação teatral contemporânea. Wagner Antônio, com SSOL – Paisagem 03, expõe o laboratório de uma dramaturgia visual onde luz, som e vídeo atuam como linguagens ativas – uma investigação de dez anos sobre como integrar essas linguagens em espaços instalativos que borram as fronteiras entre passado, presente e futuro. Cris Meirelles e Jaya Batista, com Jukybox, compartilham uma criação em processo que emerge das festas populares e das vivências LGBTQIAPN+, onde a performance cênico-musical se constrói a partir de laboratórios como a Jukermesse e o Bailarico da Juky — experimentos que dialogam com manifestações populares como festividades e protestos. Essas aberturas de processo expõe as construções com suas fraturas, os riscos e as escolhas que constituem a criação. 

SSOL Paisagem 03, do Wagner Antônio. Foto: Micaela Wernicke

Cavucada – A Festa Não Será Amanhã. Foto: Patrícia Almeida

No projeto Conexões Centro-Oeste, com curadoria de Galiana Brasil e Carlos Gomes, do Itaú Cultural, Cavucada – A Festa Não Será Amanhã (MS), da Cia Dançurbana, dissolve o palco e transforma o teatro em pista de dança, um ato político em si. A Cia Dançurbana comemora mais de duas décadas de trajetória na pista de dança. Sem divisão entre palco e plateia, artistas e público rememoram juntos coreografias presentes no repertório da companhia, além de se movimentarem embalados por sonoridades festivas de diferentes estilos. O espetáculo-festa, cujo título faz referência a um passo de dança do brega funk, passeia por elementos presentes no hip-hop, no vogue, na dança contemporânea e em coreografias do TikTok. A obra privilegia o encontro, ressaltando seu potencial político e artístico, e valoriza a liberdade de cada intérprete.

A integração do Conexões Centro-Oeste à MITbr evidencia um movimento importante de “descentralização do olhar”, trazendo para São Paulo a produção de artistas de Brasília, Goiás e Mato Grosso. Trabalhos como Atrás das Paredes, focado na violência doméstica , galhada e Cabeça de Toco (refletindo sobre colapso ambiental), e Republikkk e Encruzilhada Não É Beco (processando a herança política de um Brasil polarizado) ampliam a geografia do festival enquanto questionam a própria centralidade de São Paulo como epicentro da produção teatral brasileira.

Ao longo da MITsp, três mostras acontecem na cidade de São Paulo, de forma paralela, com trabalhos e processos artísticos nacionais voltados ao público em geral e a programadores nacionais e internacionais: a Farofa do Processo, o Instituto Capobianco e o iBT – Instituto Brasileiro de Teatro. A programação de cada evento poderá ser consultada em suas respectivas redes sociais e sites, com dias e horários disponíveis e abertos ao público.

Prática da crítica

Um microcosmo da luta pela própria sobrevivência da crítica teatral se refletiu na negociação para o retorno da Prática da Crítica, eixo de reflexão que acompanha a mostra. Após a ausência do formato em 2025, uma carta aberta da AICT-Brasil (Associação Internacional de Críticos de Teatro) e uma pergunta de um integrante da associação durante a coletiva pressionaram a organização a fazer um esforço a mais como demonstração da importância deste espaço. O diretor Antonio Araújo confirmou a parceria, mas revelou suas limitações orçamentárias: “Neste momento a questão que a gente vai conversar é sobre o tamanho desta parceria”, disse ele em fevereiro.

Ações realizadas nos primórdios do festival, como a contratação de críticos residentes de outras regiões para uma cobertura remunerada e integral do festival, não se concretizaram diante da escassez de verbas. A existência da crítica, assim como a do próprio festival, está atrelada à disponibilidade de recursos. A crítica, como definiu um integrante da AICT, é “quase que a prima pobre da cena teatral”, lutando para caminhar junto.

A Prática da Crítica retorna em um novo modelo “piloto”, menor, com cobertura crítica em texto e vídeo realizada por quatro integrantes da AICT residentes em São Paulo: Daniel Guerra (coordenador), Artur Kon, Amilton de Azevedo e Malu Barsanelli. Essas críticas textuais serão disponibilizadas no site da MITsp, enquanto pílulas críticas em vídeo circularão no Instagram da MITsp e da AICT-Brasil. A curadoria geral da Prática da Crítica é coordenada por Daniel Guerra, Guilherme Diniz, Ferdinando Martins e Julia Guimarães, com colaboração de integrantes da AICT-Brasil.

A programação de duas mesas fazem parte da Prática da Crítica, oferecendo espaços de reflexão sobre a própria condição da crítica e sobre as obras apresentadas. A primeira mesa, Autonomia na Crítica Contemporânea: Paradoxos, Disputas e Dissensos, acontece em 9 de março, segunda-feira, das 14h às 15h30, no iBT – Instituto Brasileiro de Teatro (1º andar), com entrada gratuita e reserva de ingresso pela Sympla. Reúne Ivana Moura, Kil Abreu, Luciana Romagnoli, Marcos Alexandre, Wellington Junior e Valmir Santos para irradiar sobre os espaços de autonomia para a crítica teatral contemporânea, a precarização econômica do ofício, as relações entre autonomia e dissenso, e o lugar da crítica na esfera pública brasileira, etc.

A segunda mesa, Cenas Contemporâneas: Panoramas Críticos, ocorre em 15 de março, domingo, das 13h às 14h, no TUSP, também com entrada gratuita e reserva pela Sympla, propondo que integrantes da Prática da Crítica debatam aspectos dos espetáculos apresentados e, a partir deles, questões estético-políticas sobre a cena teatral contemporânea. Participam Amilton de Azevedo, Artur Kon, Daniel Guerra  e Malu Barsanelli 

Guilherme Marques e Antonio Araújo. Foto Silvia Machado / Divulgação

Apesar da potência curatorial e das novidades, um velho fantasma assombra os bastidores da MITsp: a precariedade financeira estrutural que define – e limita – cada decisão tomada. Guilherme Marques expõe a fratura entre o desejo e a realidade. Com um orçamento captado de R$ 3,7 milhões, o festival opera com menos de 30% do que seria necessário (R$ 13 milhões) para cumprir sua vocação original de apresentar 15 produções nacionais e 15 internacionais. Essa realidade impõe uma curadoria oculta, ditada não apenas pela relevância artística, mas pelo custo.

O que torna essa situação ainda mais reveladora é a estrutura de financiamento que a sustenta. Diferentemente de festivais europeus como Avignon – que operam com €17 milhões (cerca de R$ 105 milhões) em grande parte subsidiados pelo Estado – a MITsp depende fundamentalmente de captação privada. Essa diferença de escala vai além da questão orçamentária, ela define modelos distintos de autonomia curatorial, de capacidade de risco artístico e de possibilidade de experimentação. A MITsp persiste apesar de. Persiste apesar da escassez, apesar de um sistema que força seus curadores a negociar “o tamanho da parceria” com a crítica, com os artistas, com a própria possibilidade de existência.

 

Serviço
MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – 11ª Edição
06 a 15 de março de 2026
Programação completa no site www.mitsp.org

Identidade visual criada pelo designer pernambucano Hélter Pessôa

  • A cobertura da MITsp que será realizada pelo Satisfeita, Yolanda? só é possível graças a ação entre amigos que colaboraram com apoio afetivo, material e financeiro para o  deslocamento, estadia e outras despesas da crítica Ivana Moura do Recife para São Paulo.
    Agradecemos ao apoio e à parceria de Paula de Renor, Carla Estefan, Nilza Lisboa, Ricardo Florêncio, Ronaldo Correia de Brito, André Brasileiro, Tadeu Gondim, Lina Rosa Vieira, Pollyanna Diniz, Carla Valença, Marcelo Canuto, Arquimedes Amaro, Eneida Moura, Elisabete Moura, Eliane Moura, Everson Melquíades, Dione Barreto, Maria Paula Costa Rêgo, Cida Pedrosa, Silvia Sabadell, Ely Anna Oliveira, Ana Paula Andrade, Fátima Holanda, Júnior Sampaio, Celso Curi, Wesley Kawaai, Silvana Meireles, Inocência Galvão…

  • O Satisfeita, Yolanda? passa a aceitar apoios financeiros diretos para sua manutenção, já que não dispomos de editais ou outras verbas de suporte neste momento. Quem desejar colaborar com esta casa, que completa 15 anos existência neste ano de 2026, pode depositar qualquer valor na chave PIX (81) 99996-2372.
    Arigato!

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Convocatória MITbr: últimos dias
de inscrições na Plataforma Brasil 2026

Grupo Cena 11, de Florianópolis (SC)  na MITbr 2024 com Eu não sou só eu em mim. Foto: Silvia Machado

A contagem regressiva começou. Entram na reta final as inscrições para a MITbr – Plataforma Brasil 2026, vitrine estratégica da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) dedicada a dar projeção internacional às artes cênicas brasileiras. O prazo se encerra em 15 de setembro no mitsp.org, e a convocatória — gratuita — é um convite a artistas, coletivos e companhias do país que queiram dialogar com curadores e programadores do circuito global.

Esta chamada é uma oportunidade de circulação, articulação e troca. Ao reunir espetáculos e proposições que refletem a diversidade estética e territorial do Brasil, a MITbr funciona como pontilhão entre a criação brasileira e os palcos do mundo.

Em 2025, a MITbr registrou 454 inscrições, um termômetro da vitalidade do setor e do interesse crescente pela plataforma. Para 2026, a expectativa é de ampliação desse alcance.

O que é a MITbr e por que ela importa 

  • É a plataforma da MITsp dedicada a apresentar um recorte curatorial da produção contemporânea brasileira (teatro, dança, performance) para programadores nacionais e internacionais.
  • O objetivo é acelerar convites, turnês, coproduções e residências, fortalecendo a internacionalização de artistas, companhias e coletivos do Brasil.
  • A curadoria é independente, e a seleção privilegia diversidade de estéticas, territórios e vozes, com atenção a grupos historicamente sub-representados.
  • Aumento da presença de artistas brasileiros em festivais e temporadas no exterior.
  • Fortalecimento de parcerias e coproduções, com impacto na sustentabilidade dos projetos.
  • Curadoria atenta a diversidade de linguagens (teatro, dança, performance e hibridismos), trazendo obras que tensionam formas e discursos.
  • Ampliação do olhar para além dos grandes centros, com maior atenção a territorialidades múltiplas.

Desafios em pauta

  • Logística e financiamento: a viabilização de turnês e deslocamentos segue como grande gargalo, especialmente para projetos de regiões distantes dos principais eixos de transporte.
  • Representatividade e acesso: refletir a pluralidade brasileira na programação exige políticas ativas e contínuas, considerando recortes étnico-raciais, de gênero, de deficiência e de território.
  • Diferenças de escala: obras intimistas e de pequeno porte competem, no radar internacional, com produções de maior orçamento — um equilíbrio que demanda mediação curatorial e negociação com a rede de programadores.
  • Sustentabilidade: pensar circulação de modo mais responsável (carbono, materiais, logística) tornou-se pauta transversal.
  • Apesar dos obstáculos, a MITbr vem acumulando resultados concretos: maior visibilidade no exterior, redes de colaboração mais densas e um diálogo curatorial que se atualiza a cada edição.

O que os curadores costumam observar

  • Intelecção artística: uma obra com proposição estética nítida e coerência entre linguagem, tema e dispositivo cênico.
  • Potencial de circulação: condições técnicas claras, adaptabilidade a diferentes espaços, e documentação audiovisual que reflita a experiência de público.
  • Singularidade e contexto: projetos que tragam vozes, territorialidades e imaginários pouco vistos no circuito internacional chamam atenção — especialmente quando articulam rigor formal e potência política                                                                                                                                   

Serviço — MITbr 2026

MITbr – Plataforma Brasil 2026 (chamada pública)
Inscrições: Até 15 de setembro de 2025
Divulgação dos selecionados: até 1º de dezembro de 2025
Apresentações: de 5 a 15 de março de 2026, em São Paulo
Taxa: inscrições gratuitas
Onde: site oficial da MITsp — mitsp.org

 

A MITsp em Avignon 2025:
Projeção Cultural Brasileira e Seus Desdobramentos

História do Olho, de Janaina Leite (São Paulo/SP). Foto: Reproduão do Instagram

A participação da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) no Festival Off Avignon, realizada entre 5 e 13 de julho de 2025, constituiu um esforço notável na estratégia de projeção cultural brasileira no cenário internacional. Organizada no âmbito da Temporada Brasil França 2025 e respaldada por financiamento do Ministério da Cultura e patrocínio da Petrobras, a iniciativa buscou estabelecer um intercâmbio substancial, apresentando um recorte da produção nacional a um público e a programadores globais.

A delegação brasileira em Avignon foi composta por um programa com quatro espetáculos de teatro e dança, três filmes e três conferências. No palco francês, obras como História do Olho, de Janaina Leite (São Paulo/SP), foram apresentadas, explorando a fronteira entre o ficcional e o documental. AZIRA’I – Um Musical de Memórias, da atriz indígena Zahy Tentehar, trouxe à cena narrativas que ressoaram pela sua pertinência e pela performance de sua criadora. Fábio Osório Monteiro, com Bola de Fogo, propôs uma interação que mesclava o preparo de um quitute tradicional com discussões sobre identidades, enquanto Eles Fazem Dança Contemporânea, de Leandro Souza, abordou questões sobre a presença negra na arte contemporânea ocidental. Foram exibidos os filmes O Diabo na Rua no Meio do Redemunho, de Bia Lessa; A Queda do Céu, de Éryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha; e As Cadeiras, de Luís Fernando Libonati. A programação foi enriquecida por conferências com intelectuais como Geni Núñez, Rosane Borges e Vladimir Safatle, que ofereceram análises sobre o Brasil contemporâneo sob perspectivas indígenas, raciais, de gênero e políticas.

Passados dois meses do evento, a recepção da presença brasileira em Avignon registrou resultados observáveis. A crítica especializada francesa dedicou cobertura às obras brasileiras, com comentários que abordaram a diversidade de temas, a inventividade das linguagens e a performance dos artistas. Sessões nas salas de La Manufacture registraram presença de público compatível com as expectativas, especialmente para os espetáculos que já possuíam um histórico de apresentações em festivais no Brasil. A imprensa francesa, incluindo publicações como Le Monde e Libération, veiculou comentários sobre a abordagem curatorial da MITsp, que procurou apresentar aspectos variados da cultura brasileira.

No que tange aos programadores e profissionais do setor, a exposição das obras brasileiras foi um objetivo cumprido. Relatos da própria MITsp e informações veiculadas indicam que discussões foram iniciadas com diversos programadores de festivais e espaços culturais de distintos países para possíveis futuras apresentações e parcerias. Guilherme Marques, diretor geral de produção da MITsp, indicou que o nível de engajamento alcançado foi significativo. As conferências e sessões de filmes também registraram participação considerável, o que agregou um componente de debate e reflexão à apresentação artística.

Em relação ao investimento e à percepção pública, a participação da MITsp em Avignon foi sustentada por financiamento público e privado. A repercussão da imprensa brasileira, tanto no período pré-evento quanto no pós-evento, focou predominantemente nos anúncios e na apresentação da iniciativa, com alguns veículos indicando desdobramentos positivos em termos de interesse e visibilidade para os espetáculos. 

A narrativa observada na cobertura midiática sugere que o aporte financeiro é contextualizado pela projeção da cultura brasileira e pela busca de novas avenidas de intercâmbio, cujos resultados tangíveis, como convites concretos para novas apresentações, ainda se encontram em fase de maturação e negociação. Tal perspectiva alinha-se à compreensão de que ações de projeção internacional, especialmente no campo cultural, demandam tempo para que seus impactos e retornos se manifestem plenamente.

 

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O palco do mundo para além do eurocentrismo 9ª edição da MITsp investe no decolonial

Broken Chord [Acorde Rompido] faz a abertura da MITsp. Foto: Thomas Müller / Divulgação

Na sua nona edição, a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo aprofunda sua essência experimental e crítica, apostando numa perspectiva curatorial que destaca espetáculos oriundos das margens das hegemonias geográficas. Encontramos aqui obras e artistas cujas raízes territoriais, étnicas e culturais manifestam diversificadas teatralidades e investigações. A presença de criadores, grupos e pesquisadores/as da África, Ásia, Oriente Médio e América Latina reflete um esforço da MITsp de descentralizar do cânone  das narrativas eurocêntricas do teatro e ampliar o palco para outras vozes. “Neste sentido, a curadoria intensificou a perspectiva decolonial”, afirma Antonio Araujo, no material de divulgação. 

Araujo, diretor artístico, e Guilherme Marques, diretor geral, idealizadores da Mostra, aquecem as provocações sobre nosso tempo com as discussões que atravessam os trabalhos, carregadas de novos olhares para questões como memória, racismo, transfobia, identidade, conhecimento, colonialismo, entre outros.

A MITsp é um dos principais eventos de artes cênicas do país e funciona em quatro eixos principais: Mostra de Espetáculos, Ações Pedagógicas, Olhares Críticos e MITbr – Plataforma Brasil.  A programação ocorre entre entre os dias 1º e 10 de março de 2024 e conta com nove montagens internacionais, uma estreia nacional, dez espetáculos na MITbr série de oficinas, debates e conversas ao longo dos dez dias de evento.

O espetáculo Broken Chord [Acorde Rompido], uma colaboração entre Gregory Maqoma e Thuthuka Sibisi, faz a abertura dessa intensa maratona cênica no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros. A obra mergulha  A peça mescla dança e música tradicionais africanas com elementos da dança contemporânea e música clássica europeia, e mergulha nos efeitos duradouros do apartheid, para investigar as feridas históricas.

Também da África do Sul, O Circo Preto da República Bantu, solo de Albert Ibokwe Khoza, discute racismo e violência contra corpos negros através da história dos zoológicos humanos na Europa.

Lolling and Rolling, do sul-coreano Jaha Koo. Foto de Marie Clauzade

Nesta edição da MITsp o foco se volta para a obra do diretor e compositor sul-coreano Jaha Koo, que traz ao evento sua Trilogia Hamartia, composta por Lolling and Rolling, Cuckoo e A História do Teatro Ocidental Coreano. Essa série explora a intersecção e o impacto do encontro entre culturas orientais e ocidentais na vida individual, ancorada no conceito grego de “hamartia”, que se refere a um defeito ou falha trágica.

Contado pela Minha Mãe, do libanês Ali Chahrour, outra obra da mostra, utiliza uma combinação de dança, teatro e música para narrar a história de uma mãe que se recusa a aceitar a morte de seu filho, criando poemas e canções na esperança de seu retorno.

Profético (nós já nascemos), da costa-marfinense Nadia Beugré, aborda questões de racialidade, transsexualidade e preconceito com um enfoque crítico e engajado.

A Argentina contribui com duas estreias: PERROS – Diálogos Caninos, uma colaboração entre Monina Monelli, Celso Curi e Renata Melo, explora a complexidade das relações entre humanos e cachorros; enquanto Wayqeycuna [Meus Irmãos], de Tiziano Cruz, investiga a memória e a identidade cultural através dos quipus, um artefato andino tradicional.

A MITsp investiu como produção nacional na estreia de Agora tudo era tão velho – FANTASMAGORIA IV, sob a direção de Felipe Hirsch, marcando a continuidade do festival em ser uma plataforma de lançamento para obras de artistas brasileiros renomados e emergentes.

A MITsp de 2024 reforça que é um evento chave no calendário cultural da cidade de São Paulo, e do Brasil, e reflete o compromisso do festival em oferecer um espaço para diálogos transculturais e a exploração de temas contemporâneos através do teatro, dança e performance.

Em 2024, a MITsp tem patrocínio  da Redecard, Sabesp e Prefeitura Municipal de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Cultura. A mostra tem correalização do Sesi, Consulado Francês, Instituto Francês, Centro Cultural Coreano no Brasil e Goethe Institut; e copatrocínio do IBT – Instituto Brasileiro de Teatro. A realização do evento é da Olhares Cultural, ECUM Central de Produção, Itaú Cultural, Sesc SP e Ministério da Cultura – Governo Federal.

MITbr Plataforma Brasil

Lançada em 2018, a MITbr – Plataforma Brasil emerge como um componente vital da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), dedicada à promoção e internacionalização das artes cênicas brasileiras. A cada ano, a plataforma se propõe a apresentar uma seleção de obras nas áreas de teatro, dança e performance, enfatizando a diversidade regional do Brasil e abordando temas contemporâneos e urgentes.

Para a seleção dos projetos, a MITbr conta anualmente com a expertise de curadores convidados, que são encarregados de escolher entre 10 e 12 trabalhos de um conjunto de inscrições que, desde sua primeira edição, supera a marca de 400 candidaturas. O objetivo é destacar a riqueza e a qualidade da cena artística brasileira em um contexto global.

Neste ano, os curadores Marise Maués, Cecilia Kuska e Marcelo Evelin analisaram 446 inscrições provenientes de 19 estados do Brasil, do Distrito Federal e de países da América Latina. A seleção resultou em dez obras que serão vistas entre o público geral por um grupo composto por cerca de 100 programadores nacionais e internacionais, uma investida para  ampliar o reconhecimento e a circulação das artes cênicas brasileiras no cenário mundial.

As obras escolhidas para a nona edição da MITsp são representativas da riqueza artística brasileira, cada uma originária de diferentes cidades do país, demonstrando a vasta gama de estilos e temáticas abordadas pelos artistas nacionais:

Ané das Pedras da Coletiva Flecha Lançada Arte, é uma obra que vem do Crato (CE) e da aldeia Kariri-Xocó (AL). O espetáculo explora a relação indígena com a terra e a natureza através de um ritual de plantação de pedra, destacando a visão indígena sobre a existência e a comunicação com o meio ambiente. Por sua vez, Dança Monstro”, da Cia. dos Pés, vem de Maceió (AL) e investiga a interação entre o corpo humano e a natureza, utilizando a dança como meio de conexão com o essencial.

EU NÃO SOU SÓ EU EM MIM – Estado de Natureza – Procedimento 01, do Grupo Cena 11, originário de Florianópolis (SC), propõe uma reflexão sobre a identidade brasileira, misturando dança e teoria para questionar o conceito de “povo brasileiro”. 

Gente de Lá, de Wellington Gadelha, traz uma perspectiva de Fortaleza (CE), apresentando um olhar crítico sobre a violência estrutural dirigida à população negra no Brasil, através de uma performance que mescla artes visuais e movimento.

Já O que mancha, de Beatriz Sano e Eduardo Fukushima, é um projeto de São Paulo (SP), que desafia as fronteiras entre o movimento e o som, questionando dualidades como humano/animal e masculino/feminino. 

Meu Corpo Está Aqui”, produzido pela Fábrica de Eventos do Rio de Janeiro (RJ), aborda as experiências de pessoas com deficiência, explorando questões de relacionamento, corpo e desejo.

Lança Cabocla, da Plataforma Lança Cabocla, é um espetáculo multimídia que une São Luís (MA), Fortaleza (CE), Salvador (BA) e São Paulo (SP), explorando danças populares e afrodiaspóricas em um contexto contemporâneo.

7 Samurais, de Laura Samy do Rio de Janeiro (RJ), inspira-se no clássico filme Os Sete Samurais para criar uma ponte entre os guerreiros japoneses e os artistas de hoje, investigando suas lutas e existências.

Eunucos, das Irmãs Brasil, com origens em São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ), reflete sobre a castração, a transição de gênero e as performances de gênero em uma abordagem crua e simbólica.

Wilemara Barros é a artista em Foco da MITbr e apresenta o espetáculo Preta Rainha. Foto: Luciano Gomes

E por fim, a peça da “Artista em Foco” deste ano. Preta Rainha é um solo autobiográfico que percorre a vida de Wilemara Barros, bailarina e educadora vinculada à Cia. Dita, sediada em Fortaleza. Aos 60 anos, Barros apresenta uma obra que funciona tanto como uma introspecção pessoal quanto uma exposição pública de sua rica jornada artística. 

Preta Rainha é mais do que uma performance; é um mergulho profundo nas memórias pessoais e afetivas de Barros, traçando sua evolução desde os primeiros passos no balé clássico até a consagração como artista contemporânea. Este solo narra a história de sua vida e reflete sobre a herança cultural e ancestral que lhe foi transmitida por sua família. A peça se destaca por seu caráter introspectivo e pela maneira como Barros se apropria de seu legado, reafirmando sua identidade e contribuição para a dança brasileira.

Além de criar uma vitrine para os talentos brasileiros no cenário global, a MITbr – Plataforma Brasil, incorporou uma série de programas educacionais e de reflexão, como o Seminário de Internacionalização das Artes Cênicas Brasileiras e workshops destinados a capacitar artistas e produtores locais. Guilherme Marques destaca a importância da preparação além da produção artística. Ele ressalta que o mercado internacional, com sua estrutura altamente organizada, exige dos profissionais não apenas excelência artística, mas também um profundo entendimento das dinâmicas de negociação e comunicação. Isso é fundamental para que as obras alcancem os programadores e plataformas ideais. Marques aponta para a lacuna existente no Brasil em relação ao papel do agente-difusor, uma figura chave no mercado internacional de artes, mas ainda pouco presente no contexto nacional.

Ações críticas e pedagógicas

O segmento Olhares Críticos destaca a participação de Achille Mbembe, renomado filósofo, historiador e acadêmico camaronês. Mbembe, uma figura proeminente nos estudos pós-coloniais, é conhecido por suas análises afrocêntricas dos impactos do colonialismo tanto na África quanto globalmente, além de ter introduzido o conceito de necropolítica. Sua participação na MITsp inclui uma aula magna programada para ocorrer na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) no dia 4 de março, marcando um dos pontos altos do evento.

Para o ano de 2024, a curadoria do Olhares Críticos está sob a responsabilidade de Leda Maria Martins, ensaísta, dramaturga e professora, que visa fomentar o debate sobre as intersecções entre as artes cênicas e questões contemporâneas. Este eixo do evento será enriquecido por uma série de atividades que incluem conversas com pensadores e pesquisadores de diversas disciplinas, além da publicação de uma variedade de materiais críticos, como críticas, artigos e entrevistas. Entre os destaques da programação estão as sessões de Reflexões Estético-Políticas, Pensamento-em-Processo, Diálogos Transversais e Prática da Crítica, prometendo um ambiente rico em diálogo e reflexão crítica sobre o papel e a influência das artes cênicas na sociedade contemporânea.

No segmento de Ações Pedagógicas da MITsp, sob a curadoria de Dodi Leal, que é performer, docente e investigadora, o público é convidado a mergulhar no universo criativo dos artistas participantes por meio de uma programação diversificada que inclui diálogos, oficinas, apresentações musicais e atuações. Um dos pontos centrais é o Encontro de Pedagogias Teatrais, que visa a renovação das técnicas de criação no teatro através da exploração de metodologias educacionais influenciadas pelos conhecimentos transgêneros. Outra iniciativa significativa é o Laboratório de Pedagogias da Performance, que promove o encontro de artistas e acadêmicos, tanto nacionais quanto internacionais, para discutir e praticar a arte performática, destacando-se a participação da artista argentina Susy Shock.

Além desses eixos, a MITsp oferece a edição de Cartografias, um catálogo que funciona como um compêndio de ensaios, entrevistas e artigos elaborados por pesquisadores e artistas do Brasil. Esta publicação resulta de uma colaboração com o Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), sendo editada pelo professor e pesquisador de artes cênicas, Ferdinando Martins. Cartografias busca não apenas documentar as diversas vozes e perspectivas presentes na MITsp, mas também contribuir para o debate acadêmico e prático dentro das artes cênicas contemporâneas.

9ª MOSTRA INTERNACIONAL DE TEATRO DE SÃO PAULO

Quando De 1º a 10 de março 

Onde: São Paulo: Biblioteca Mário de Andrade, Centro Cultural Olido, CCSP – Centro Cultural São Paulo, Cúpula do Theatro Municipal de São Paulo, Itaú Cultural, Teatro Cacilda Becker, Teatro Paulo Autran – Sesc Pinheiros, Teatro Antunes Filho – Sesc Vila Mariana, Teatro Anchieta – Sesc Consolação, Teatro do Sesi-SP e Tendal da Lapa.

A programação completa está disponível no site www.mitsp.org.

 

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MITsp lança plataforma com programação inédita e de acervo

Réquiem, direção de Romeo Castellucci, abre programação. Foto: Pascal Victor/ArtComPress

 

Pensamento em Processo com elenco de Isto é um negro? está disponível na plataforma. Foto: Nereu Jr

O ano era 2014. Na plateia cheia do Auditório Ibirapuera, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, muita gente conhecida da cultura. Havia um burburinho, pairava um clima que era uma mistura de ansiedade e entusiasmo. Há muito tempo, talvez desde os festivais de Ruth Escobar, que o Brasil não tinha um festival internacional na dimensão que se projetava a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, sob a direção de Guilherme Marques e Antonio Araújo.

Naquele ano, além da abertura com Romeo Castellucci e o seu Sobre o conceito de rosto no filho de Deus, vimos espetáculos de nomes como Mariano Pensotti, Guillermo Calderón, Rodrigo Garcia, Angélica Lidell, Marcelo Evelin. Só para citar alguns. Quem não tinha ingresso garantido, como era o nosso caso, já que estávamos contratadas para fazer críticas, enfrentava filas gigantescas, três horas de espera para conseguir o tíquete para ver os espetáculos.

Acompanhamos ainda, talvez o grande diferencial da MITsp desde aquele ano inicial, uma programação crítica e reflexiva com uma potência que era… incrível. Sei o peso do adjetivo, mas escolho usar com consciência, não encontro outro nome olhando para trás. Debates a partir dos espetáculos com pessoas de outras áreas que não o teatro, conversas com todos os encenadores, publicação de críticas diárias, um catálogo, com textos de vários acadêmicos.

Lembro que, depois daqueles dias, do tanto de troca que aconteceu naquele curto período, voltamos ao Recife com a sensação de que tinha rolado uma pós-graduação inteira. A cabeça fervilhava. Dali surgiu, por exemplo, a DocumentaCena – Plataforma de Crítica.

Nunca mais deixamos de acompanhar a MITsp como críticas e, durante alguns anos, como equipe de produção, já que eu assumi a coordenação de conteúdo editorial da mostra durante três edições: 2017, 2018 e 2019. Claro que sempre fizemos a propaganda do quão importante seria ter mais pernambucanos acompanhando a programação da MITsp. E voltávamos com as malas pesadas, carregadas de catálogo para quem pedia.

A distância, os custos financeiros, a disponibilidade de tempo para se ausentar da cidade por um período mais longo, sempre foram impeditivos para que tivéssemos mais pernambucanos vivendo essa experiência conosco.

Com a pandemia, o fechamento dos teatros, o suporte da internet, as coisas mudaram. A partir desta sexta-feira (12), começa a programação da MIT+ (www.mitmais.com), um dos braços do festival, que é uma plataforma virtual de conteúdo de arquivo e de outros inéditos. O acesso é gratuito, sendo necessário apenas um cadastro. Para as exibições de espetáculos, no entanto, há horários pré-definidos, assim como um festival tradicional. O acervo de encenações não fica disponível por todo tempo.

“Democratizar o acesso a todo esse arquivo era uma ideia de 2016. A gente também queria conhecer o público da MIT, uma informação muito importante, para saber onde estávamos chegando, para ter um canal mais direto”, explica Natalia Machiaveli, idealizadora e diretora da plataforma. “Queremos disponibilizar todo o acervo da parte reflexiva e pedagógica, porque os espetáculos temos sempre uma questão de direitos autorais. Essa disponibilização vai ser ao longo do tempo, porque estamos reeditando, fazendo legendas, dando a cara da MIT+, o que leva um tempo e tem um custo”, complementa.

A abertura dessa programação inicial é com Réquiem, versão de Romeo Castellucci para a missa fúnebre de Mozart, com orquestração do maestro Raphael Pichon. Depois do espetáculo, será exibida uma entrevista feita por Julia Guimaraes com o encenador italiano sobre sua trajetória.

A artista em foco da edição é a sul-africana Ntando Cele que, em 2018, apresentou Black Off. Imagina a imagem de uma negra, pintada de branco, peruca loura, como apresentadora de um talk show, querendo fazer piada com a plateia sobre racismo. Foi um dos principais destaques daquela edição, que será reexibido agora, ao lado do inédito Go Go Othello, onde a artista faz um paralelo com Otelo e intercala cenas de stand-up, videoarte, dança e música, perpassando a história de artistas negros, questionando os estereótipos racistas no mundo da arte. Ntando Cele vai conduzir ainda um workshop, uma residência e vai participar de uma conversa com a filósofa Denise Ferreira da Silva e a bailarina Jaqueline Elesbão.

Go Go Othello. Foto: Manaka Empowerment

A sul-africana Ntando Cele apresenta o inédito Go Go Othello. Foto: Manaka Empowerment

Janaina Leite, artista em foco na MITbr (braço com a programação nacional na mostra) no ano passado, abre o processo de Camming – 101 Noite. Janaina faz um paralelo entre o livro As Mil e umas Noites e as camgirls profissionais, que precisam garantir a atenção dos clientes. Depois das exibições, no dia 14 de março, vai acontecer também uma conversa sobre o processo de criação.

Da programação do acervo disponibilizada na plataforma e aberta a qualquer momento, há mesas e debates que fizeram parte dos eixos Olhares Críticos e Ações Pedagógicas, como uma conversa com o elenco de Isto é um negro? e todas as edições da Revista Cartografias, catálogo da mostra, além de conteúdos inéditos.

PROGRAMAÇÃO:

ESPETÁCULOS

Réquiem
Em sua versão de Réquiem, o encenador italiano Romeo Castellucci faz da missa fúnebre de Mozart um espetáculo de celebração à vida. O espetáculo é conduzido pela orquestração do maestro Raphaël Pichon, que faz uma costura entre a composição original e outras peças sacras, menos conhecidas, do compositor austríaco.
Quando: 12, 13, 14 e 15 de março, às 19h
Duração: 1h40min

Ntando Cele apresentou Black Off na MITsp 2018. Foto: Guto Muniz

Black Off
A sul-africana Ntando Cele aborda e enfrenta estereótipos racistas. Na primeira parte do espetáculo, numa espécie de comédia stand-up, a performer assume o seu alter ego, Bianca White, uma comediante, viajante do mundo e filantropa. Depois, numa mistura de performance musical e vídeo, Ntando passa a destrinchar estereótipos de mulheres negras e tenta descobrir como o público a vê.
Quando: 13, 14, 15, 16 e 17 de março, às 21h
Duração: 1h40min

Go Go Othello
Para discutir o espaço do negro no meio artístico, Ntando Cele faz um paralelo com Otelo, o mouro de Veneza, um dos raros protagonistas negros da história do teatro. Ela intercala cenas de comédia stand-up, performance, videoarte, dança e música num ambiente que remete a uma casa noturna. A sul-africana perpassa a história de artistas negros e se transforma em personagens diversos para questionar estereótipos racistas no mundo da arte.
Quando: 16, 17, 18, 18, 20 e 21 de março, às 20h
Duração: 1h20min

Descolonizando o conhecimento
Na palestra-performance, Grada Kilomba faz um apanhado de seu próprio trabalho e utiliza vários formatos, de textos teóricos e narrativos a vídeo e performance, para questionar as configurações de poder e de conhecimento.
Quando: 17 e 18 de março, às 18h
Duração: 1h10min

Entrelinhas
Num diálogo entre o passado e o presente, a coreógrafa e intérprete Jaqueline Elesbão discute a violência contra a mulher e evidencia como a voz feminina, em especial a da mulher negra, é historicamente silenciada dentro de uma sociedade machista e de mentalidade escravocrata.
Quando: 19, 20, 21, 22, 23 e 24 de março, às 20h
Duração: 30min

O encontro. Foto: Stavros Petropoulos

O encontro, de Simon McBurney. Foto: Stavros Petropoulos

O Encontro
Por meio de tecnologias de som, o inglês Simon McBurney leva o espectador a uma imersão pela Amazônia brasileira. Inspirado no livro Amazon Beaming, de Petru Popescu, ele conta a história de um fotógrafo que, no fim dos anos 1960, se viu perdido em meio à terra indígena do Vale do Javari.
Quando: 25, 26, 27, 28, 29, 30 e 31 de março, às 20h
Duração: 2h17min

sal., espetáculo de Selina Thompson, visto na MITsp 2018, está na programação. Foto: Guto Muniz

sal.
Em 2016, Selina Thompson embarcou em um navio cargueiro para refazer uma das rotas do comércio transatlântico de escravos: do Reino Unido à Gana e, de lá, à Jamaica. As memórias, questionamentos e sofrimentos desse percurso levaram a performer ao universo de um passado imaginário.
Quando: 26 de março, às 19h
Duração: 1h

Em Legítima Defesa
A performance, encenada em meio à plateia, logo após alguns espetáculos da MITsp 2016, traz discursos históricos entrelaçados a depoimentos pessoais, músicas e poesias. Em suas falas, os artistas do Coletivo Legítima Defesa remetem à diáspora negra e a seus desdobramentos históricos, numa ação que busca resistir à narrativa hegemônica e dar voz à própria história.
Quando: 28, 29 e 30, às 19h
Duração: 20min

ABERTURAS DE PROCESSO

Camming – 101 Noites
Janaina Leite faz um paralelo entre o livro As Mil e uma Noites – no qual Sherazade precisa entreter o rei – e as camgirls profissionais, que têm que garantir a atenção dos clientes, num trabalho que vai além do sexual, passando também pela narrativa imaginária, dramatúrgica e até terapêutica.
Quando: 12 e 13 de março, às 23h
Duração: 1h
Bate-papo: 14 de março, às 16h

Ué, Eu Ecoa Ocê’ U É Eu?
Celso Sim, Cibele Forjaz e Manoela Rabinovitch abrem o processo da performance audiovisual, que dialoga com a pandemia e o caos político. Os artistas apresentam dois ritos: um de antropologia funerária, em homenagem aos indígenas mortos em decorrência da Covid-19, e outro de canibalismo guerreiro, uma reação de caça ao inimigo. A performance tem duas versões, uma censurada (ela precisou receber cortes para ser apresentada em Brasília, em dezembro de 2020) e outra sem censura. Ambas serão transmitidas na sequência.
Quando: 22, 23 e 24, às 22h
Duração: 45min (as duas versões)

Um Jardim para Educar as Bestas
O ator Eduardo Okamoto, a diretora Isa Kopelman e o músico Marcelo Onofri realizam abertura de processo de duo para piano e atuação. A encenação alterna dança, música e a história de Seu Inhês, um sertanejo de olhos apertados que, como forma de evitar uma predição de morte da esposa, decide construir um jardim de pedras em meio ao sertão.
Quando: 26, 27 e 28 de março, às 18h30
Duração: 20min

WORKSHOPS

Petformances
A performer Tania Alice e a veterinária Manuela Mellão propõem aos participantes realizar práticas artísticas diversas (performances, escrita, fotografia, pintura etc.), sempre permeadas pelo afeto, ao lado de seus pets.
Quando: 18 de março, das 15h às 17g, e 19 de março, das 15h às 18h
Número de vagas: 20 (os participantes serão escolhidos por ordem de inscrição)

Curando a Branquitude
A sul-africana Ntando Cele propõe um trabalho em conjunto na tentativa de sanar traumas de uma sociedade marcada pela hegemonia da branquitude. A artista busca sabedorias ancestrais e pré-colonialistas na tentativa de reimaginar um futuro e criar um espaço não violento, em que se possa enfrentar a crise global de maneira coletiva.
O workshop será ministrado em inglês, com tradução para o português.
Quando: 20 de março, das 10h às 13h

RESIDÊNCIA

Inter Pretas
A residência virtual é voltada a mulheres artistas e ativistas, em especial pessoas não brancas, que queiram trabalhar com materiais biográficos. Nos encontros, a sul-africana Ntando Cele foca o autocuidado na prática artística e algumas estratégias de empoderamento, além de propor um espaço não violento para “sonhos coletivos”. Ela se alterna entre atividades em grupo e conversas individuais com as participantes.
Quando: de 25 a 28 de março, das 10h às 13h. Os horários dos atendimentos individuais serão combinados com as participantes
Número de vagas: 12

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Perspectiva descolonial na curadoria das artes cênicas

Teórica de artes cênicas, dramaturga e curadora Piersandra Di Matteo é a convidada do 2º Encontro sobre Curadoria em Artes Cênicas, da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Reprodução do Facebook

Problematizar estética, teorias e práticas na programação das artes cênicas contemporâneas é um dos focos que a teórica, dramaturga e curadora italiana Piersandra Di Matteo propõe para o curso que realiza no Brasil no mês de dezembro. Ela é a convidada do 2º Encontro sobre Curadoria em Artes Cênicas, da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. O programa In-Betweennes – Reciprocidade e dramaturgia urbana na curadoria de artes cênicas ocorre nos dias 4, 5 e 6 de dezembro de 2019, de quarta a sexta-feira, no Instituto Italiano de Cultura de São Paulo. E em Belo Horizonte nos dias 9 e 10 de dezembro, numa co-realização do Instituto Italiano de Cultura com a 18ª edição do Festival Teatro em Movimento.

As inscrições podem ser feitas até essa sexta-feira, 29 de novembro, e são gratuitas. Os interessados devem enviar um microcurrículo de cinco linhas e uma carta de intenção por e-mail. Será realizada uma seleção.

O convidado da primeira edição do encontro foi o alemão Florian Malzacher, curador independente, dramaturgo, escritor, diretor artístico do Impulse Theater Festival em Mülheim e região do Ruhr (Düsseldorf, Colônia e Wuppertal) e também curador do Festival Spielart, em Munique. A ação ocorreu em dezembro de 2015 no Goethe-Institut São Paulo, numa iniciativa conjunta do Goethe-Institut, da MITsp e do Observatório dos Festivais.

No curso deste ano, In-Betweennes – Reciprocidade e dramaturgia urbana na curadoria de artes cênicas, Piersandra Di Matteo mostrará alguns estudos de caso e discutirá suas experiências curatoriais baseadas na ativação de trocas teóricas e práticas. Entre eles, E a raposa contou ao corvo, vencedor do prêmio UBU 2014 de Melhor projeto organizacional curatorial; o Projeto Speciali, promovido pela Prefeitura de Bolonha sobre os trabalhos de Romeo Castellucci; e o projeto Creative Europe, oferecido pelo ERT (Emilia Romagna Teatro) em parceria com outros seis países europeus com o objetivo de testar a participação ativa de habitantes e migrantes por meio de formas de reapropriação do espaço urbano.

Diretora do mestrado de curadoria em artes cênicas da Universidade de Veneza (IUAV), a pesquisadora entende a prática curatorial como um gesto descolonial, ou seja, como uma série de ações capazes de romper barreiras que afastam os sujeitos, que ultrapassam os limites que isolam suas singularidades.

“Estou pensando em práticas que desafiem as dinâmicas do poder, que questionem a atitude colonial e patriarcal que se impõem na sociedade neoliberal”.  Piersandra Di Matteo

A dimensão política da curadoria será explorada no curso, delineando áreas de responsabilidade, a possibilidade de dar espaço à reciprocidade e à interação – dando vida a diferentes formas de espectadores – e a produção do espaço discursivo como forma de prática crítica, questionando formas de representação, memória e a construção do significado.

Atualmente, Piersandra é diretora artística da Bienal Atlas of Transitions (Bolonha, 2018-2020), um projeto que aproxima e cruza diferentes culturas por meio de linguagem diversas em artes cênicas que tem como proposta discutir os processos contemporâneos de migração, a convivência social e estratégias de cocriação entre nativos e migrantes.

SERVIÇO
In-Betweennes – Reciprocidade e dramaturgia urbana na curadoria de artes cênicas
Inscrições: Envio de currículo com cinco linhas e carta de intenção | Grátis

São Paulo/SP
Email para inscrição: seminario@mitsp.org
4 e 5 de dezembro, quarta e quinta-feira, das 10h às 18h
6 de dezembro, sexta-feira, das 10h às 12h.
Onde: Instituto Italiano de Cultura de São Paulo
Av. Higienópolis, 436 – Higienópolis, São Paulo

Belo Horizonte/MG
Email para inscrição: rubim@rubim.art.br
9 e 10 de dezembro, em local a ser confirmado.
Em Belo Horizonte, o Teatro em Movimento tem o patrocínio do Itaú e do Instituto Unimed-BH, via Lei Federal de Incentivo à Cultura.

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