Arquivo da categoria: Críticas

Viagem ao coração da vida
Sobre o espetáculo Do outro lado do Mar

Premiada peça da dramaturga Jorgelina Cerritos, de El Salvador, ganha montagem brasileira dirigida por Marcio Meirelles, com Edu Coutinho e Andrea Elia no elenco. Foto: Ramon Gonçalves / Divulgação

O acaso ostenta seus caprichos. Mas você pode chamar do que quiser. Sorte, destino, imprevisto. Ou tanto mais. Penso que foi uma encruzilhada. A fome de Edu Coutinho, a generosidade de Marcio Meirelles, a poesia de Jorgelina Cerritos. Essas coisas não estão em relação. É feito o cão o rio. E o fluxo de muita água. E tem muito mais dedicação e entusiasmo nessa travessia: Andrea Elia, Caio Terra, Ramon Gonçalves, Erick Saboya, Moisés Victório, Rafael Grilo, Clara Trocoli, Adriana Balsanelli.

A encenação Do Outro Lado do Mar, explora as potencialidades do virtual e dilata as fronteiras do teatro. Feito o pacto de plausibilidade, os personagens podem estar nas nuvens (e não somente com a cabeça), se misturar as águas e seguir por lugares que a arte pode levar.

Um balcão de atendimento para serviços burocráticos é montado em uma praia deserta. Encontramos nesse cenário paradisíaco a solitária Dorotea, com sua carga de projetos interrompidos ou adiados e uma dedicação ferrenha ao cargo público. O jovem Pescador chega para quebrar a monotonia, questionar regras, e reconduzir por um estranho caminho onde a vida não se contenta com vistos, carimbos e certidões.

Dorotea é responsável pela emissão de documentos Ela alimenta a ideia de sucesso ligada à produtividade

Pescador acredita que é livre, pois vive no mar sem preocupação com uma vida “oficial”

A primeira versão brasileira da peça da autora de El Salvador Jorgelina Cerritos envereda pelos (des)sentidos da burocracia, que em espiral remete a um pesadelo kafkiano. As palavras deslizam poeticamente buscando frestas, contornando, enfrentando, furando pedras num jogo delicioso e comovente entre os dois atuantes, Andrea Elia e Edu Coutinho.

A encenação de Marcio Meirelles trafega em polifonia por palavras e sentidos, imagem, som, fúria e silêncio. A impermanência do existir ganha o primeiro plano, mas divide o protagonismo com tantos outros assuntos que mareiam em terra firme.

Sabemos que o capitalismo se fortalece de regras excludentes. As dramaturgias exploram essas restrições, os isolamentos impostos pela sociedade e as contradições desses tempos. A peça nos faz refletir sobre as tentativas de enquadramentos, as identificações rápidas por idade, nome e gênero, que descartam os mais velhos, os insubordinados. E descortina as marcas de isolamento social para garantir o melhor controle.

O público pode mergulhar nessa viagem sensível – com atuações vibrantes, um percurso povoado por poesia e beleza de imagens e palavras –, neste domingo, 20 de junho, às 19h. A última sessão desta temporada de Do Outro Lado do Mar ocorre ao vivo, no Novo Vila Virtual, palco virtual do Teatro Vila Velha, de Salvador, Bahia. O projeto é realizado pela Companhia Teatro dos Novos em parceria com o Toró Teatro.

Ficha Técnica:
Texto: Jorgelina Cerritos.
Tradução: Edu Coutinho com a colaboração de Marcio Meirelles.
Direção: Marcio Meirelles.
Elenco: Andrea Elia e Edu Coutinho.
Direção musical: Caio Terra e Ramon Gonçalves.
Cenografia: Erick Saboya.
Desenho de luz e direção de transmissão ao vivo: Moisés Victório.
Vídeos: Rafael Grilo.
Assistência de direção: Clara Trocoli.
Arte gráfica: Ramon Gonçalves.
Assessoria de imprensa local: Núcleo de Comunicação do Teatro Vila Velha.
Assessoria de imprensa nacional: Adriana Balsanelli.
Produção: Edu Coutinho.
Realização: Toró Teatro, Companhia Teatro dos Novos e Teatro Vila Velha.

Serviço:
Espetáculo Do Outro Lado do Mar
Temporada: Até 20 de junho – Domingo, às 19h.
Ingressos: a partir de R$10
Vendas em www.sympla.com.br/vilavelha
Transmissão: Novo Vila Virtual – palco virtual do Teatro Vila Velha.

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Vamos cuidar dos jardins!
Resultado da residência artística do Reside-LAB

Cena de Raimundo Branco. Foto: Captação de tela

Memórias da família de Alberto Braynner. Foto: Captação de tela

Conceição Santos e Fátima Aguiar. Foto: Captação de tela

Sônia como a funcionária da Madame Bierbard. Foto: Captação de tela

Andrezza Alves lembra que é preciso voar. Foto: Captação de tela

* A ação Satisfeita, Yolanda? no Reside Lab – Plataforma PE tem apoio do Sesc Pernambuco

Formação e colaboração, compartilhamento de experiências e saberes, intercâmbio e permuta são algumas guias mestras do RESIDE.FIT/PE, festival internacional de teatro, criado em 2018 no Recife como CAMBIO. Neste 2021 a edição ocorreu de forma totalmente virtual, Reside-Lab patrocinado pela Lei Aldir Blanc, com seminários, oficina e uma residência artística. Dez espetáculos da produção pernambucana (experimentos online, gravações ou aberturas de processos) participaram do programa e nós escrevemos sobre todos eles: Transbordando Marias, com Clara e Conceição Camarotti; Brabeza Nata, com Alexandre Sampaio, texto de Luiz Felipe Botelho e direção de Cláudio Lira; Inflamável, com Paulo de Pontes, a partir de poemas de Alexsandro Souto Maior, sob a direção de Quiercles Santana; Vulvas de quem?, com texto de Ezter Liu, direção de Cira Ramos e atuação de Márcia Cruz; Da laje-palco: respeitável público, o Alto e DENTRA com direção e atuação de Bruna Florie; 72 dias, com dramaturgia de Paulo de Pontes e Quiercles Santana, direção de Quiercles Santana e atuação Paulo de Pontes; Sala de Espera, com roteiro adaptado e atuação de Cira Ramos, direção de Fernando Lobo; No meu terreiro tem arte, com Odília Nunes, Violeta Nunes e Helena Nunes; Yorick e os Coveiros do Campo Santo de Elsinor, com criação cênica e dramaturgia de Andrezza Alves, Enne Marx, Daniel Machado, Geraldo Monteiro, Marcondes Lima e Quiercles Santana; e Práticas Desejantes, com idealização e performance de Andrezza Alves e Daniele Avila Small.

Paula de Renor, idealizadora do festival. Foto Captação de tela

O festival idealizado por Paula de Renor, com curadoria dela e relações internacionais e Coordenação dos Encontros de Celso Curi, traz sopros de esperanças. Seu investimento nas possibilidades de intercâmbio busca alargar horizontes. Para um mundo que pode ser grande, acolhedor, com empatia real. Isso não quer dizer que as negociações, os conflitos, as crises, os embates sejam eliminados, mas tudo pode ser mais respeitoso, humano, com possibilidade de revezamento de protagonismos.

Uma das alavancas de fomento da cena no Reside-Lab foi a residência artística com Paul Davies, diretor do Volcano Theatre, do País de Gales, Reino Unido, que durou duas semanas. Muitos aprendizados na peleja com o digital. “Vivendo e aprendendo a jogar, Nem sempre ganhando, Nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar”, como já cantava Elis Regina.

Qual o Caminho para a Cachoeira: Aventuras em Criatividade Digital é o título do trabalho, fruto dos encontros que ocorreram entre 15 e 27 de março de 2021, por vídeo conferência, com  Davies.

No início eram 20 participantes. 14 deles produziram materiais e toparam os desafios e as dinâmicas propostas pelo artista inglês. Ele trabalhou a ideia de jardins imaginários e reais, pintados e perdidos. Paul Davies lançou cápsulas criativas de temáticas políticas, do enfrentamento da pandemia, afetos, alguma coisa pós-moderna com o objetivo de estimular a criatividade.

Dos mais de 100 vídeos produzidos e enviados a Davies, muitos foram agrupados numa busca de compor uma narrativa, ou não. São eles: prólogo Antes da Água; No início: Juventude Colossal / Água Colossal; É neste momento que uma mulher velha diz; No final: secando novamente.

São cenas, flashes, extratos e recriação de peças de Nelson Rodrigues, exercícios de teatro psicofísico, entregas desses artistas que acendem seus corpos de urgências ditas em frases e silêncios. Percorremos com eles algumas veredas, fizemos travessias, torcemos, pensamos na realidade e até nos divertimos.

João Augusto Lira em conversa com Madame Clessi. Foto: Captação de tela

Cira Ramos investe em Nelson Rodrigues Foto: Captação de tela

Ser ou não ser youtube, pergunta Raimundo Branco. Foto: Captação de tela

Augusta Ferraz e suas máscaras faciais. Foto captação de tela

Qual o Caminho para a Cachoeira: Aventuras em Criatividade Digital  junta imagens bonitas, fortes, engraçadas, frágeis, precárias, imagens que estimulam outras imagens. Somos voyeurs do banho de costas de Andrezza Alves; observamos um dia bom de Cira Ramos ser estragado aos poucos pelo som da companhia da bicicleta, latido do cachorro, buzina do carro, a chuva inesperada. Seguimos com Charles Firmino em sua busca por ângulos diferentes. Encontramos Sônia Bierbard na rede da sua casa a pensar poeticamente sobre encontros e o mar como um grande espetáculo.

Cira Ramos assume humor no papel de “achadora” oficial da casa; noutra cena enfrenta uma guerra imaginária e nos convoca a usar as armas que temos, mesmo que sejam só unhas e dentes; passeia por um trecho de Sonhos de uma noite de Verão; dá um tempo embaixo da cama; revisita Nelson Rodrigues.

Alguns tensionam o lugar da negação da pandemia, do desprezo pela máscara e do descuido pela aglomeração em quadros curtos e críticos, como o de Alberto Braynner, que dá um baile no vizinho; o de José Lírio Costa, que toma banho de roupa e o de Anna Batista que diz achar um absurdo não ter tido carnaval.

Conceição Santos observa a rua da varanda de casa, com muita força nesse olhar Fátima Aguiar também espreita o mundo pela janela. A combinação da cena de Conceição e Fátima, cada uma de sua casa, no processo de maquiagem ao espelho, instiga várias interpretações.

De forma mais irônica, Raimundo Branco questiona “ser ou não ser youtube?”; em outra ação psicofísica ele dobra roupas. Andrezza repete um movimento de empilhar frutas.

Anna Batista usa tecidos como extensões da pele. Augusta Ferraz produz máscaras com ações faciais e em outro momento – com o foco na tela de proteção do apartamento – comenta que o que a oprime nesta pandemia é a espera por um milagre no que diz respeito ao amor.

O gelo derrete na mão de José Neto Barbosa, que depois sugere relações afetivas usando imagens de duas toalhas, duas sandálias, duas escovas e a ideia convergente entre amor e morte. Andrezza quer asas para voar, pois voar não dói.

Aproximações com os felinos, calor e ventilador com Tiago Leal. A descoberta do prazer nas intenções de João Augusto Lira, memórias de Braynner. Sônia faz um tipo de funcionária que critica a Madame Bierbard por obrigá-la a usar máscara, numa chave de humor.

E há uma série de encontro com personagens de Nelson Rodrigues, dos textos do dramaturgo pernambucano ou a partir deles, construções inspiradas em peças como Vestido de Noiva, A Mulher sem Pecado, A Falecida, Álbum de Família, Senhora dos Afogados e outros. Diálogos com Madame Cleci, Olegário, Moema. Quase uma conversa atrás da porta

O Reside aposta na perspectiva da audácia teatral incentivando o público a ser participante ativo. Sigamos nos reinventado. Que o teatro seja um vibrante ataque aos sentidos. Que seja lírico, apocalíptico, extremo, perigoso, desestabilizador, ambicioso, inventivo. As sementes estão sendo lançadas na virtualidade. Aqui e ali.

Ficha Técnica

Qual o Caminho para a Cachoeira: Aventuras em Criatividade Digital / Wich Way to the Waterfall: Adventures in Digital Creativity.
Resultado do processo da residência com o britânico Paul Davies, da Cia Volcano de Teatro, do Reino Unido, que ocorreuu entre 15 e 27 de março de 2021.
Participantes da residência / Autores dos vídeos
Alberto Braynner
Andrezza Alves
Anna Batista
Augusta Ferraz
Charles Firmino
Cira Ramos
Conceição Santos
Fátima Aguiar
João Augusto Lira
José Lírio Costa
José Neto Barbosa
Raimundo Branco
Sônia Bierbard
Thiago Leal

Reside Lab – Plataforma PE – Festival Internacional de Teatro
Patrocinadores: Lei Aldir Blanc PE, FUNDARPE, Secretaria de Cultura, Governo de Pernambuco, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo e Governo Federal.
*Programa Pontes, parceria entre Oi Futuro e British Council.
*Apoio: Sesc Pernambuco
*Parceria: Satisfeita, Yolanda?

Direção e Curadoria: Paula de Renor
Realização: Remo Produções.
Produção Executiva: Fervo Projetos Culturais
Designer/Programação Visual: Clara Negreiros
Assessoria de Imprensa: Manoela Siqueira
Programador Site: Sandro Araújo
Redes Sociais e vídeos Youtube: Alexandre Barbosa
Monitoramento: Renata Teles
Acessibilidade Comunicacional: VouSer Acessibilidade – Andreza Nóbrega
Relações Internacionais e Coordenação dos Encontros: Celso Curi
Coordenação Pedagógica Residência e Assistência: Maria Clara Camarotti
Tradução Residência: Cyro Morais

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Sobre desejos, descolonização e mal-estar
Acompanhamento de processo de Práticas Desejantes

Práticas Desejantes utiliza dispositivo do jogo de tabuleiro. Foto: Guto Muniz

* A ação Satisfeita, Yolanda? no Reside Lab – Plataforma PE tem apoio do Sesc Pernambuco

A abertura de processo da pesquisa Práticas Desejantes me instigou a pesquisar sobre a mexicana sor Juana Inés de la Cruz (1648 ou 1651-1695), uma freira poeta, dramaturga, considerada a primeira escritora de língua espanhola na América. Uma matéria da revista Época diz: “Sor Juana manejou como ninguém os maneirismos do barroco – a retórica elevada, o virtuosismo linguístico, o gosto pela contradição e pelo exagero. Compôs poemas, comédias teatrais, defendeu o direito da mulher à educação e se envolveu num acirrado debate teológico com o padre Antônio Vieira, expoente do barroco luso-brasileiro”. Octavio Paz escreveu sobre a mexicana no ensaio Sor Juana Inés de la Cruz ou As armadilhas da fé, uma obra de fôlego misturando biografia, história, antropologia e crítica literária, que entrou na lista de próximas leituras depois da minha breve pesquisa.

Sor Juana é uma das mulheres que compõem o jogo “Who´s She?”, dispositivo utilizado no processo de Práticas Desejantes para desencadear uma série de possibilidades de sentidos. Frestas de luz que são abertas a cada nova interação entre as jogadoras, Daniele Avila Small e Andrezza Alves. Quem foi criança ou interagiu com uma nas décadas de 1980 e 1990 provavelmente vai lembrar do jogo que inspirou Who´s She?: Cara a Cara, era muito comum.

Descobri que é vendido ainda hoje, inclusive numa versão princesas da Disney. Duas pessoas jogam e a ideia é descobrir, pelas características físicas, quem é o personagem do seu adversário. Em Who´s She?, as perguntas sobre aparência foram substituídas pelas biografias, conquistas, feitos de mulheres de tempos diversos, desde o Egito Antigo, até a jogadora de tênis Serena Williams e a mais jovem ganhadora do Nobel da Paz, Malala. Ela era artista? Ativista? Inventou algo? Ocupou algum cargo político? Pelo que vi no site da fabricante do jogo, Playeress, ainda não há uma versão em português.

Como espectadores, acompanhamos o jogo e a só aparente, pelo clima de descontração, despretensiosa conversa entre Daniele e Andrezza. Não há aleatoriedades – nem na forma e nem na escolha de dar espaço a biografias de mulheres que é, por si, política, ainda mais quando lembramos do contexto de pandemia e de como as mulheres são as mais prejudicadas nessa situação de tragédia sanitária, seja pelas consequências no mercado de trabalho, seja pelo aumento do trabalho não-remunerado, como os cuidados com a casa, com os filhos, com os parentes mais próximos. 

No Cara a Cara versão Who´s She? que Daniele e Andreza jogaram, entre tantas mulheres incríveis, como Hedy Lamarr, Aretha Franklin, Yoko Ono, Chimamanda Ngozi Adichie, só há duas latino-americanas: a freira Juana Inés de la Cruz e Frida Kahlo. Numa versão mais recente, a brasileira Marielle Franco foi incluída. No instagram da marca, o anúncio dizia: “Como muitos de vocês pediram, nós decidimos fazer uma pequena substituição no nosso jogo de cartão. A partir de agora, vocês poderão aprender mais sobre a história de Marielle Franco, feminista e política brasileira que sacrificou sua vida para lutar pelos direitos humanos, especialmente daqueles que vivem em bairros pobres do Brasil”.

Marielle Franco é uma das cartas da nova versão do jogo Who´s She?. Foto: reprodução Instagram

A pesquisa do projeto Práticas Desejantes tem muito a ver com Há mais futuro que passado – um documentário de ficção, dramaturgia de Clarisse Zarvos, Mariana Barcelos e Daniele Avila, que também assina direção. São cruzamentos e expansões: a peça resgata as obras e as histórias de artistas latino-americanas que não têm vez diante da narrativa hegemônica, masculina, sobre a história da arte. A encenação percorre  os caminhos de uma palestra-performance, tema que Daniele estudou no doutorado em Artes Cênicas na Unirio.

A abertura de processo experimenta na forma, manejando os códigos teatrais, fazendo com  que o espectador se pergunte: o que é mesmo uma peça de teatro? Quais as características que definem o que convencionamos chamar de espetáculo? Se desestabilizar esses limites já trazia fricções interessantes, como o formato da palestra levado ao palco, com a explosão do teatro digital, parece que as fronteiras estão sendo alargadas cada vez mais. A questão é se perguntar se aquela forma atende às aspirações com relação ao conteúdo. Alinhar essas expectativas é uma das questões que o grupo deve encarar ao longo do processo, já que os desejos ainda são maiores do que o que está posto como encenação e dramaturgia.

Andrezza Alves e Daniele Avila Small jogam Who´s She?. Foto: Guto Muniz

 

Desejos e descolonização – Na segunda metade da abertura do processo, outras pessoas entraram na live exibida durante a programação do festival Reside Lab – Plataforma PE: Ana Paula Sá, Analice Croccia e o namorado, Carlos Manoel Valença, Geraldo Monteiro e Lais Machado. No mesmo registro da conversa, da coloquialidade, as discussões sobre as intenções do projeto foram esmiuçadas a partir do jogo do tarot, indicando caminhos de como será o processo desse grupo, decidido a enveredar pelo desejo de descolonização dos pensamentos e da prática artística.

Neste momento de retrocesso do mundo, em que constatamos mais uma vez as desgraças do “capitalismo do desastre”, como pontua Naomi Klein, estamos lutando a duras penas para resguardar e manter a luta, nos nossos processos de emancipação. Pelo que percebo, Práticas Desejantes faz parte disso, uma tentativa, ao mesmo tempo aguerrida e afetuosa, de causar fissuras aos modelos do nosso inconsciente colonial.

No prólogo que Paul B. Preciado escreve para Esferas da Insurreição – notas para uma vida não cafetinada, de Suely Rolnik, tem um trecho que me parece ser exatamente o que esses artistas discursivamente expressam que estão buscando, tateando, transpondo ao ambiente das artes da cena, mas explodindo para a vida: “A revolução não se reduz a uma apropriação dos meios de produção, mas inclui e baseia-se em uma reapropriação dos meios de reprodução – reapropriação, portanto, do ‘saber-do-corpo’, da sexualidade, dos afetos, da linguagem, da imaginação e do desejo. A autêntica fábrica é o inconsciente e, portanto, a batalha mais intensa e crucial é micropolítica”.

Pela interpretação de Lais Machado, comentada pelos demais participantes da live, as cartas do tarot falaram em conflito, em trabalhar mesmo longe dos holofotes, em buscar as reais motivações, em reconhecer privilégios e lugares de descoberta. Continuo com Preciado citando Rolnik, porque os textos imbricados agregam muito significado aos mistérios do tarot: “Diferentemente das receitas de felicidades instantâneas e do feel good, a condição de possibilidade de resistência micropolítica é ‘sustentar o mal-estar’ que gera nos processos de subjetivação a introdução de uma diferença, uma ruptura, uma mudança. É preciso reivindicar o mal-estar que tais rupturas supõem: resistir à tendência dominante da subjetividade colonial capitalística que, reduzida ao sujeito, interpreta o mal-estar como ameaça de desagregação e o transforma em angústia (…)”

O mal-estar faz parte do processo de quem deseja descolonizar práticas e pensamentos. O conflito, os erros e os acertos. Mas há vários caminhos possíveis e as artes da cenas são espaço pulsante para essa investigação e experimentação. O processo parece longo, desafiador e exaustivo. Mas precisamos, não só os artistas de Práticas Desejantes, na vida, percorrê-lo, se estivermos interessados em construir outros mundos possíveis.

Jogo de tarot é o dispositivo utilizado na segunda parte da abertura de processo. Foto: Guto Muniz

Uma das etapas do projeto, contemplado pela Lei Aldir Blanc de Pernambuco, é a “Semana da Invasão”, com conversas abertas com artistas pernambucanas. Confira a programação:

Tema: Interfaces Artísticas e Matrizes de Identidade
Quando: 21 de abril (quarta-feira), às 18h30
Com Anne Mota, Iara Campos, Íris Campos e Lau Veríssimo
Onde: Youtube e Zoom 

Tema: Produção, ocupação de territórios e identidades coletivas
Quando: 22 de abril (quinta), às 18h30
Com Odília Nunes, Paula de Renor e Sophia William
Onde: YouTube  e Zoom 

Ficha técnica:
Práticas Desejantes
Idealização e performance: Andrezza Alves e Daniele Avila Small
Pesquisa, levantamento do material, criação do repositório, dramaturgia e curadoria: Ana Paula Sá, Andrezza Alves, Daniele Avila Small e Geraldo Monteiro
Mediação dos encontros e produção: Ana Paula Sá, Andrezza Alves e Daniele Avila Small
Edição, plataforma digital, gerenciamento e compartilhamento de conteúdos: Geraldo Monteiro
Identidade visual: Analice Croccia
Fotografia: Guto Muniz – Foco in Cena

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TAPA abre processo de A Brasiliense, a mulher “do lar” que transita nas esferas do poder

A Brasiliense, adaptação do texto do francês Henry Becque para o Planalto Central. Foto: Divulgação

O dramaturgo francês Henry Becque (1837-1899) teria um vasto material para experimentar seu humor mirando os bastidores do poder no Brasil atual. O Grupo TAPA faz esse deslocamento com a peça A Parisiense, escrita em 1885, que passa a se chamar A Brasiliense, na abertura de processo nesta segunda, 19/04, às 19h, com acesso gratuito, através da Sympla, e bate-papo ao final, com diretor Eduardo Tolentino de Araujo e elenco formado por com Andre Garolli, Brian Penido Ross, Bruno Barchesi e Camila Czerkes.

La Parisienne escandalizou o público da época com a história de uma mulher casada e seus dois amantes. O texto chegou ao Brasil pelas mãos do diretor francês Antoine no fim do novecentos. Teve uma montagem de sucesso em 1966, intitulada A mulher do todos nós, na versão de Millôr Fernandes, com Fernanda Montenegro, Sérgio Britto, Ítalo Rossi.

Na investida do Grupo TAPA, essa sátira contundente põe no centro da cena uma nova mulher, que ostenta um discurso conservador e reacionário, mas por trás revela um comportamento amoral, principalmente na uso da máquina pública à serviço dos seus interesses.

Essa habitante do planalto central do século 21, sob a capa de “Do lar”, transita com desenvoltura nas esferas do poder e nas alcovas vantajosas. Pátria, religião e Família acima de tudo são o lema dessa “Brasiliense”.

Os ingressos podem ser resgatados até o horário da transmissão e o público pode contribuir com o SOS Tapa.

Ficha Técnica
A Brasiliense – Work in Progress
Texto: Henry Becque
Tradução: Eduardo Tolentino de Araujo e Fernando Navarro
Direção: Eduardo Tolentino de Araujo
Elenco: André Garolli, Brian Penido Ross, Bruno Barchesi e Camila Czerkes
Voz Off: Guilherme Sant’Anna
Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli
Design Gráfico: Mau Machado
Assistência de Produção: Nando Barbosa, Nando Medeiros
Produção Geral: Ariel Cannal

Serviço
A Brasiliense – Work in Progress
Quando: Nesta segunda, 19/04, 19h
Onde: https://www.sympla.com.br/a-brasiliense—work-in-progress__1143837

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Precisamos repensar o sentido de existir
Crítica de Yorick e os Coveiros do Campo Santo de Elsinor (Parte 1)

Andrezza Alves e Marcondes Lima em Portugal e Enne Marx, no Recife. Foto Captação de tela

* A ação Satisfeita, Yolanda? no Reside Lab – Plataforma PE tem apoio do Sesc Pernambuco

Yorick e os Coveiros do Campo Santo de Elsinor (Parte 1) se apresenta como um experimento cênico virtual, uma abertura de processo, um work in progress. No material de divulgação, os artistas afirmam que, – diante do quadro em que o Brasil se encontra, com as mortes pela Covid-19, pela Polícia Militar, por feminicídio e por fome – “precisamos repensar, mais que nunca, o sentido de existir, resistir, persistir. Yorick … é um dos frutos dessa reflexão”.

Exibido em duas sessões ao vivo durante o Festival Reside – Lab, com debate na sequência, o espetáculo em construção toca ou aproxima-se de questões nevrálgicas nesses dias de peste e da peste. Aponto algumas que consegui captar: valorização do ser humano, autoimagem, Lei Aldir Blanc e sua implantação em Pernambuco, direito ao trabalho e valorização do conhecimento de todos, empatia seletiva, direito ao luto, imigração, como lidar com o contato à distância, etiqueta no online, como produzir humor, como sobreviver sem atropelar o outro e sem perder a ternura.

Inspirado no Ato V, Cena I d’A Tragédia de Hamlet: Príncipe da Dinamarca, de William Shakespeare, a peça junta seis artistas: Andrezza Alves; Daniel Machado, Enne Marx, Geraldo Monteiro, Marcondes Lima e Quiercles Santana, que assina a direção. Os três que performam – Andrezza, Enne e Marcondes – foram estudar e morar em Portugal e passam – ou passaram, no caso de Enne, pela experiência da imigração no país europeu, nosso colonizador, e sentiram na pele a desconfiança que recai sobre estrangeiros. As performances deles estão carregadas dos atritos gerados por esses sentimentos de ressalvas no acolhimento pleno aos brasileiros em Portugal.

Andrezza e Marcondes. Foto captação de tela

Como sabemos, a cena dos Coveiros (Ato V, Cena I) de Hamlet, de Shakespeare está impregnada das marcas culturais do tempo em que foi escrita/encenada pelo bardo inglês. As milhares de versões dessa peça atualizam as marcas históricas de cada período. Na cena específica, dois coveiros, que ostentam a sabedoria do povo, chegam ao Cemitério de Elsinor, carregando pás e outras ferramentas.

No texto shakespeariano, as personagens citam as Escrituras, debatem a origem da nobreza, o julgamento de Ofélia, que tem como veredito o direito dela ganhar um enterro cristão, subvertem termos lógicos, produzem humor e podem instalar o riso pelo tom ambíguo, irônico e sarcástico. Hamlet e Horácio também entram na cena e o príncipe da Dinamarca filosofa sobre de quem seria um dos crânios desenterrados pelos coveiros. “Pode ser a cachola de um politiqueiro […] que acreditou ser mais que Deus”, na versão de Millôr Fernandes.

Fernandes indica inclusive que, no trato do humor, o tradutor não deve explicitar o que o autor busca deixar implícito, elucidar aquilo que ele quer deixar secreto, encorpar o humor que é fino ou tornar sutil o humor que é denso.

É uma sintonia fina. Penso que seja justamente esse o ponto mais susceptível do experimento. 

Traçar uma ligação entre a cena dos Coveiros e a realidade da pandemia que vivemos é um ideia interessante e pode-se seguir milhares de caminhos. Em Yorick há texto shakespeariano adaptado e a performance dos atores repleta de suas impressões, seus corpos atravessados pelas dores das centenas de milhares de vidas perdidas para a Covid-19. Em Hamlet, o humor funciona como um respiro da tensão trágica. 

Sabemos, como já nos ensinou o filósofo francês Henri Bergson, de que só há comicidade naquilo que é propriamente humano. Os mecanismos que provocam o riso são buscas constantes.

A literatura canonizada de Shakespeare foi escrita para ser encenada. Como prescreveria Hamlet à trupe de atores: – Adaptem a ação à palavra, a palavra à ação!

Rolhas de garrafas de vinho representam túmulos

O experimento utiliza um fundo de terra e sobre ele os quadrados se alternam, ocupam a tela inteira, dividem a tela, sem inovações no formato. E insistem na queda da conexão com a internet. Uma interação entre artistas e plateia executada durante a sessão é materializada nas perguntas feita aos espectadores. “Que figura pública você gostaria de ver enterrada?”; “O que te abate no dia a dia? O que te derruba? O que destrói fácil tua alegria”; “Que golpes, que traições, que rasteiras te arrasam?”…. Com direito a resposta do público pelo chat, que é visualizado na tela. São trocas que traçam vínculos de cumplicidade, mesmo que provisórios.

Todas as pontuações de sarcasmo e ironia com a imagem, a reputação e posicionamentos dos malditos políticos brasileiros são bem-vindas e elevam a temperatura. Muitas rolhas de garrafas de vinho são apresentadas como túmulos, que aumentam durante a conversa.

O trabalho começa com Andrezza batendo no teto. Depois olha para a câmera e pergunta: “A morte, a merda, a miséria, a pústula, a praga, a peste, a fome, a infâmia, a febre podem gerar uma boa dramaturgia?”.

Depois muda de registro – da live, abertura de processo, demonstração de trabalho, experimento cênico ou que seja – com o contraponto de Enne, que diz que soa um pouco arrogante o começo. A outra rebate que essa “simpatia sintética tem dado nos nervos, da afabilidade forçada…” E vira a chave, no tom de falsete de simpatia criticando quem é simpático no online. Pareceu-me afetado. E se a intenção era estabelecer a hilaridade da cena, para mim não funcionou.

É difícil sincronizar intenção, fala dos atores, tempo, sonoridade teatral e a função do clown contemporâneo de traçar papel social e político, ter tiradas aprofundadas, com enigmas, comentários de verdades profundas com humor.

Ou assumir a função de bobo da corte, daquele que com sagacidade conta para o rei aquilo que os outros não tem coragem de dizer, como já fez Yorick do título, de dizer as verdades brincando, como lembra Hamlet ao pegar no crânio de Yorick.

O experimento encerra com duas cenas gravadas, muito bonitas. A sequência em que Andrezza se maquila  e, vestida de Ofélia, entra no rio, quer dizer na banheira, e a passagem de Enne com uma ficha no pé em um local que lembra um necrotério. Isso ao som de La Llorona, uma canção popular mexicana de domínio público, com música de Andres Henestrosa, interpretada à capela por Marcondes Lima.

Andrezza, vestida de Ofélia

Para concluir, provisoriamente, minha reflexão sobre o experimento, traço uma linha da preocupação dos artistas com o sentido de existir e recorro a um ensaio, do qual gosto muito, da filósofa Judith Butler: Pode-Se Levar Uma Vida Boa Em Uma Vida Ruim?, na tradução de Aléxia Cruz Bretas.

Não há um caminho fácil de resposta. A vida de cada pessoa é única e o mundo é constituído de desigualdades, opressões, e cada vez mais formas de apagamento.

O texto de Judith Butler foi proferido durante a cerimônia de entrega do Prêmio Adorno, em Frankfurt, em 11 de setembro de 2012. Moral e política a partir das reflexões adornianas ganharam outros argumentos para discutir limites da ética na contemporaneidade. É possível levar uma “vida boa” frente aos dispositivos de desumanização, precarização da vida e partilha desigual da vulnerabilidade?

“A conduta ética ou a conduta moral e imoral é sempre um fenômeno social – em outras palavras, não faz absolutamente qualquer sentido falar em conduta ética e moral separadamente das relações entre os seres humanos, e um indivíduo que existe puramente para si mesmo é uma abstração vazia”.
Theodor W. Adorno,
Problems of Moral Philosophy, trans. Rodney Livingstone, Polity Press, Cambridge, 2000, p. 19, citado no ensaio de Judith Butler

Butler aponta que parece que a moralidade, desde o início, está ligada à biopolítica. “Por biopolítica entendo aqueles poderes que organizam a vida, inclusive os poderes que diferenciadamente descartam vidas à condição precária como parte de uma gestão mais ampla das populações através de meios governamentais e não governamentais, e que estabelecem um conjunto de medidas para a avaliação diferencial da vida em si”.

É uma negociação constante com essas formas de poder. Mas é desigual. E até a pergunta dói. “As vidas de quem importam? As vidas de quem não importam como vidas, não são reconhecidas como vivas, ou contam apenas ambiguamente como vivas?”
E ela então discorre que nos mecanismos políticos nem todos os seres humanos vivos têm o status de um sujeito que é digno de direitos e proteções, com liberdade e um sentimento de pertença política; ao contrário. As vidas de quem são passíveis de luto, e as de quem não são?

No Brasil comandado por Bolsonaro, a política de morte foi fortalecida, muito antes da pandemia da Covid-19. Não avistamos no horizonte um futuro seguro e vivemos com a sensação de vida danificada como experiência cotidiana.

É a necropolítica, um conceito concebido pelo filósofo, historiador, teórico político e professor universitário camaronense Achille Mbembe, que trata da soberania do Estado que dita quem pode viver e quem deve morrer.
Isso é inaceitável. Nossos corpos defendem vida digna para todos seres viventes.

Ficha técnica:

Yorick e os Coveiros do Campo Santo de Elsinor
Criação cênica e dramaturgia: Andrezza Alves, Enne Marx, Daniel Machado, Geraldo Monteiro, Marcondes Lima e Quiercles Santana
Dramaturgia: Quiercles Santana e William Shakespeare
Performance: Andrezza Alves, Enne Marx e Marcondes Lima
Direção de arte: Marcondes Lima
Assistência de direção, foto, vídeo e edição: Daniel Machado e Geraldo Monteiro
Designer e direção musical: Daniel Machado
Criação em arte-tecnologia e plataformas digitais: Geraldo Monteiro
Produção: Andrezza Alves
Direção geral: Quiercles Santana

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