Arquivo da categoria: Críticas

O corpo que dança
até cansar o cansaço
Juliana Linhares no Recife
Por Ivana Moura

Apresentação no Teatro de Santa Isabel, no dia 2 de agosto. Foto: Jessica Mendes / Divulgação

Show integrou programação do Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz. Foto: Jessica Mendes

O corpo cansado que dança é a poética que Juliana Linhares põe em movimento no palco do Teatro de Santa Isabel, lotadíssimo na noite de domingo (02/08). Até Cansar o Cansaço (segundo álbum transformado em espetáculo) parte do estado de exaustão da era da hiperconexão e responde com o que parece contraditório: em vez de repouso, mais corpo, mais presença, mais movimento. A artista potiguar, formada no teatro, faz do palco um campo de forças onde a canção é cena, a voz é gesto, e o cansaço não é o fim; é o ponto de partida.

Artista jovem, sim, mas com trabalho maduro, urdido durante anos em elaboração criativa com profissionais de diferentes campos – do teatro à neurociência, da canção popular à dramaturgia contemporânea. Já se tornou uma das maiores artistas da cena, da música e do teatro surgida nos últimos anos. A moça já ganhou um espaço imenso, mas tem tudo para voar muito mais alto.

Magnetismo e humanidade. Brilhantismo e humildade – qualidades que parecem combinar com Juliana. Há conceito, espessura e paixão na alegria que desperta e compartilha neste espetáculo. É impressionante a presença, a performance, o fascínio; é acalanto e cutucada a arte dessa moça.

No Carnaval deste ano, vi Juliana em ação duas vezes. No palco do Marco Zero, no centro do Recife, como convidada do Maestro Forró e da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, cantando Frevo Mulher, quando levantou a galera já acesa. E na Praça do Arsenal, num espetáculo inédito que reuniu a paraibana Cátia de França, a baiana Josyara e Linhares potiguar; três figuras do Nordeste no palco. O show percorria os mais de 50 anos de carreira de Cátia, além de canções do repertório autoral de Juliana e Josyara. Era um mergulho afetivo e político na trajetória da paraibana; uma artista que atravessa décadas de experimentação e resistência. Juliana brilhou nessas passagens, mas no Santa Isabel seu trabalho se revelou em outra dimensão: com densidade artística, construção cênica e repertório que as participações no Carnaval insinuavam.

O público reconhecia o que via. Quente, empolgado, participante; em grande parte já acompanhava a carreira de Linhares de outros carnavais e do álbum anterior, Nordeste Ficção(2021), que dialoga intimamente com identidades, territorialidades e representação cultural do Nordeste.

Até Cansar o Cansaço estreou recentemente no Rio de Janeiro, em 16 de julho, no Teatro Claro Mais, com recepção entusiástica do público e da crítica. No Recife, a apresentação ocorreu dentro da programação do Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz.

O repertório vibra na inquietude e na fadiga coletiva da era da hiperconexão, forjado no esforço de traduzir o nosso tempo sem desistir. Tem células das pesquisas do neurocientista Sidarta Ribeiro sobre os sonhos e do cruzamento de Juliana com o dramaturgo e encenador Marcio Abreu, da companhia brasileira de teatro; cujo texto Linha da vida ela interpreta no meio do show, afirmando que o sonho, a fé e a vida vivida são as matérias-primas do espetáculo.

Para atravessar tudo isso, ela faz do corpo o centro da cena. Pula. Dança. Faz piruetas. Canta deitada no chão. Desce à plateia, dança com uma espectadora, recita versos, subverte rimas numa movimentação que mistura o articulado dos bonecos de mamulengo, a irreverência dos brincantes de circo, o ritmo dos dançantes contemporâneos. É uma danada essa Juliana! Performática, ela mastiga a política e cospe feito fogo no já citado monólogo de Abreu, que expande, no palco, as narrativas do disco.

Espetáculo de Juliana Linhares empolgou a plateia pernambucana. Foto: Jessica Mendes / Divulgação

Juliana Linhares ganha espaço na cena nacional. Foto: Jessica Mendes / Divulgação

O teatro é o tronco na trajetória de Juliana. Desde os 9 anos no grupo teatral da escola, passando pela formação na faculdade de Artes Cênicas, na UniRio e pela estreia profissional em 1995, ela construiu uma identidade cênica que vibra em cada gesto no palco musical. Do trabalho com a coreógrafa Angel Vianna em O Tempo Não Dá Tempo” (2018), de Duda Maia, que celebrava os 90 anos de Angel, à investigação do corpo em cena na companhia brasileira de teatro, onde assinou a trilha sonora de Sonho Elétrico, de Marcio Abreu e fez participações especiais como atriz. Com João Falcão, atuou em A Ópera do Malandro e Gabriela, um musical. Atualmente está em cartaz com As Centenárias, de Newton Moreno, com canções de Chico César e direção de Luiz Carlos Vasconcelos, ao lado de Laila Garin.

O figurino faz extensão desse corpo talhado no teatro. Concebido em camadas por Jailson Fernandes, vai sendo revelado, transformado, desfeito, como a própria jornada do espetáculo.

O show chega com a faixa-título, Até cansar o cansaço (Juliana Linhares e Jeff Lyrio, 2026), cantada com travesseiro como adereço cênico e olhos que se agigantam para potencializar o sentido dos versos. É a cena-fundação: o corpo que cansa, o canto que resiste, o sonho como ato político.

A sequência, O rabo do jumento (Elino Julião, 1967), está carregada de humor nordestino. Supostamente baseada num fato real (um jumento que invadiu o roçado do vizinho Nascimento, comeu um pé de coentro, e teve o rabo cortado como castigo), a canção expõe a história de um homem que recusa o dinheiro da indenização e exige o impossível: “Eu não quero pagamento, Nascimento / Eu quero é outro rabo no jumento”. Juliana canta como quem conta um causo que ainda dói: há comicidade no absurdo, mas há também o retrato de uma relação de poder; o vizinho brabo que pune, ameaça e depois tenta comprar o silêncio. Riso e soco no mesmo gesto.

Em Conseguiram, parabéns (Manduka), o narrador bate palmas com sarcasmo para quem conseguiu o que ele jamais conseguiria: matar o próprio querer, sublimar a paixão, esquecer. No contexto do show, a música toca o nervo central: o que exaure é o esforço diário de ser quem não se é, de desintegrar no ar as montanhas de paixão para caber no que se espera. Questiona o preço de se encaixar. No palco, Juliana dá voz a quem se recusa a pagar.

Do pernambucano Juliano Holanda, criador de poesia urbana que enreda as relações humanas em imagens de rara densidade, vem Emaranhada (2024). A canção que tece um jogo de fios: “passando dedo por dedo, formando novo quadrado, losango feito de elástico”. A vida é jogo, e os fios que se cruzam nos arriscam: “o risco de amar no mínimo, risco de amar no máximo”.

No baião Vida virada, a artista canta parte da música deitada no palco, de costas para a plateia, com as pernas para cima e a cabeça virada – inversão que subverte a frontalidade do palco e reinventa a relação com quem assiste. Ela quebra convenções e o público segue encantado.

Chama da criança (Juliana Linhares e Demarca, 2024), do álbum Nasci no Brasil (2024) da Pietá (banda que a revelou), se entrelaça ao conceito do espetáculo em número que costura citações de Salve as folhas (Gerônio e Ildásio Tavares, 1989), Vapor barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) e A mulher do fim do mundo (Romulo Fróes e Alice Coutinho, 2015). “Nessa solidão desenfreada / Sigo me apoiando em quem tem fé / E acredito em forças encantadas / Chama da criança que ainda é”. Cada citação traz, em outra pulsação, o que o show inteiro sustenta: que a vida insiste.

E A palo seco (Belchior, 1973) traz um momento arrebatador do show: um chute coreográfico no ar corta o verso “Eu quero é que esse canto torto / Feito faca, corte a carne de vocês”. Sob ecos e reverbs que seguram a voz depois do último fôlego, ela fala em democracia e liberdade. Escrita em 1973, sob ditadura, a canção chega inteira a 2026: a provocação do corte na carne continua.

Cantando na plateia. Foto: Ivana Moura

“Maravilhosa!” soltou uma voz da plateia. Ao longo do show vieram outras – elogios, exclamações, devoções, saudações – até uma “Perfeita!” O que se vive no Teatro de Santa Isabel é um estado de entusiasmo, de comunhão coletiva. Não por acaso: o trabalho de Juliana Linhares é maduro, provocador, redondo, contagiante, ao mesmo tempo crítico e de bem com a vida. Arrebata o público e gera uma energia que é o reconhecimento partilhado de que algo está acontecendo com todos, ao mesmo tempo, na mesma sala. O consenso, aqui, não é problema; é fenômeno.

Tesoura do desejo (Alceu Valença, 1991) (no arranjo de Elísio Freitas, com a sanfona de Paloma Ronai) marca o momento em que Juliana desce do palco e canta no corredor do Santa Isabel, no meio da plateia pernambucana, bastante aplaudida. É a magia que se forma entre a artista, a banda e um público amante da arte de Linhares. Ela emenda com Balanceiro (Juliana Linhares, Khrystal, Moyseis Marques e Sami Tarik, 2021). E canta “Eu não posso mudar o mundo, mas eu balanço”; dança com uma espectadora, avisa que o corredor está liberado, e alguns se animam para dançar.

Ao lado dessa arquitetura cênica, uma banda precisa. A direção musical é do multi-instrumentista Elísio Freitas, arranjador do show e guitarrista da banda formada por Julia Rodrigues (bateria), Lucas Videla (percussão), Paloma Ronai (sanfona) e Nathanne Rodrigues (baixo). A sanfona de Paloma Ronai e a guitarra de Elísio Freitas entram numa conversa com os outros instrumentos em texturas que vão do baião ao rock, do frevo à balada, sem nunca perder o suingue nem o chamego sobre o que é ser nordestino. Teve também a participação de Helder Vasconcelos, que desenvolveu uma coreografia solo, e Linhares saudou as muitas parcerias com artistas pernambucanos.

A luz do espetáculo esculpe zonas de sombra e fulgor que acompanham os deslocamentos de Juliana pelo palco, potencializando o encontro entre o que se canta e o que se dança, entre a artista e a plateia.

No encerramento, Juliana fala emocionada. Cita o líder indígena e pensador Ailton Krenak: “a gente não pode perder a capacidade e a habilidade de sonhar, porque só sonhando a gente pode reinventar a vida”. Lembra de Angel Vianna, que lhe ensinou que podia se chamar de bailarina. Evoca Ariane Mnouchkine, diretora francesa do Théâtre du Soleil: “o teatro é o lugar onde os mortos veem os vivos”. Agradece ao neurocientista Sidarta Ribeiro, cujas pesquisas sobre os sonhos atravessam o espetáculo desde a primeira cena. E sintetiza: “eu sou o corpo. E através dele a gente pode tudo”. Diz que estava muito nervosa para o show e que preparou o seu melhor: “Espero que vocês saiam daqui um pouco menos cansadas, um pouco mais vivas e conectadas. E eu agradeço imensamente por sonhar acordada por causa de vocês.”

O público não arredava o pé e Juliana não economizava o verso. O espetáculo se prolongou depois do anúncio do fim. Ainda rendeu Tareco e mariola(Petrúcio Amorim, 1995) e outras canções tocadas no bis. Juliana Linhares está ocupando um território que conquistou e nele fincando a bandeira de uma artista que não pede licença para ser grande.

  • Ivana Moura é artista-pesquisadora, jornalista, dramaturga e crítica das artes vivas. Doutora em artes cênicas pela USP (Universidade de São Paulo). Idealizadora, editora e crítica na plataforma Satisfeita, Yolanda?. Foi editora e repórter no Diario de Pernambuco. Integrante da seção brasileira da IATC/AICT (Associação Internacional de Críticos de Teatro).
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Beckett, o esgotamento e a
cena com Nanini, Weber,
Helena Ignez e Ary França

Marco Nanini e Guilherme Weber em Fim de Partida. Foto: Annelize Tozetto

É perturbadoramente atual a condição de corpos confinados num espaço claustrofóbico, dependentes uns dos outros para a própria sobrevivência, diante de um mundo exterior que pode não existir mais. Samuel Beckett escreveu Fim de Partida nos anos 1950, sob a sombra ainda fresca da Segunda Guerra Mundial, e descreveu esse cenário com a precisão cirúrgica de quem dissecou o século 20 e encontrou, no fundo, apenas destroços. Mais de sete décadas depois, a peça  parece ter esperado o mundo alcançá-la.

Com Marco Nanini como Hamm e Guilherme Weber como Clov, o espetáculo chega ao Teatro Luiz Mendonça, no Recife, para quatro apresentações de quinta a domingo (entre os dias 23 e 26 de julho de 2026), após temporadas aclamadas em São Paulo, Brasília e Fortaleza.

Nanini já alimentava o desejo de encenar Beckett quando Weber lhe fez a provocação de voltarem a dividir o palco, vinte anos após A Morte do Caixeiro Viajante (2004) e mais de duas décadas desde Os Solitários (2002), ambos marcos da cena brasileira. A química entre os dois atores é apontada com um dos alicerces que sustentam a produção. São profissionais que acumulam décadas de palco e levam para a cena o peso de uma experiência que dialoga diretamente com a exaustão, a repetição e a paralisia que estruturam o universo beckettiano.

Ao lado da dupla central, duas presenças carregadas de história conferem ao espetáculo uma dimensão de reencontro afetivo. Helena Ignez, ícone do cinema brasileiro, com quem Nanini contracenou no início da carreira, vive Nell – aparição breve, porém luminosa, confinada numa lata de lixo ao lado de Nagg, interpretado por Ary França, parceiro de Nanini no premiado O Burguês Ridículo (1996). Quatro corpos que carregam a memória do teatro brasileiro e, ao mesmo tempo, encarnam personagens despidos de praticamente tudo – exceto da teimosa insistência em continuar existindo.

Helena Ignez e Ary França. Foto: Fernando Young / Diulgação

Portella chega a esta montagem em momento de consagração profissional, com espetáculos recentes como Tom na Fazenda, Ficções, Um Ensaio sobre a Cegueira (Grupo Galpão) e Ray. A partir dessa trajetória, propõe para Fim de Partida uma leitura estruturada em três fluxos de sentido que se sobrepõem sem se anular.

O primeiro é a relação simbiótica entre Hamm e Clov – dependência física e emocional atravessada por violência cotidiana, jogos de poder e uma crueldade que se disfarça de rotina. O segundo é uma alegoria política: Hamm como tirano arbitrário, figura que alude à lógica da guerra e do militarismo, cuja autoridade se funda no poder bélico e opressivo; Clov como corpo submisso, soldado em vigília permanente, sempre de pé, incapaz de repouso, a serviço de uma engrenagem que não faz nenhum sentido. O terceiro é o metateatro.

Essa dimensão metalinguística encontra, na concepção cenográfica arquitetada por Daniela Thomas, sua materialização mais eloquente. A diretora de arte instala no palco uma espécie de caixa cênica retangular dentro do qual Hamm e Clov se movimentam. Acima, duas janelas no teto. Trata-se de um palco dentro do palco. Clov é o clown, o operador da cena, o ridículo; Hamm é o ator principal, o narrador canastrão que se sustenta na fabulação de si mesmo. O teatro se dobra sobre si próprio – e essa dobra é, talvez, a afirmação mais esperançosa (ou mais desesperada) que a montagem promete: mesmo reduzido a escombros, o gesto artístico insiste em se fazer.

A concepção visual do espetáculo – iluminação de Beto Bruel projetada para recortar o espaço cênico, figurinos de Antonio Guedes concebidos para transportar os personagens a um universo devastado de tecidos recortados e sobrepostos, trilha original de Federico Puppi que pontua com discrição os momentos de maior tensão – tem provocado, desde a temporada paulistana, um debate crítico que merece registro.

Gustavo Assano, em texto publicado em junho no site Outras Palavras, sustentou que a montagem “abusa de recursos visuais e tenta embelezar o que deveria permanecer inquietante e vazio de sentido”. Para ele, Beckett teria brigado com encenações que tentassem criar alegorias com o espaço, e a opulência cênica representaria um recuo diante do insuportável da obra – uma domesticação do horror.

Contrasta com essa leitura a percepção registrada em maio, no blog Mise-en-scène, da Folha de S.Paulo, de que o espetáculo constitui “um acontecimento teatral de rara força e inteligência” que não apenas revisita o clássico com o respeito que a obra-prima exige, mas o revitaliza ao propor uma leitura contemporânea afiada. Nessa perspectiva, a riqueza visual evidencia o absurdo ao trazê-lo para novas perspectivas, transformando o cenário de devastação em constructo cênico que coloca a plateia como observadora de um mundo impossível de localizar.

A montagem de Beckett permanece resistente a leituras unívocas. Foto: Annelize Tozetto / Divulgação

Fim de Partida é, como observou Theodor W. Adorno, o retrato de um impasse. O título é irônico; pois não se trata da conclusão de uma partida, mas do fechamento fatal das possibilidades de que ela ocorra. Hamm e Clov perguntam ou afirmam, repetidas vezes, se estão diante do término: “acabou, está acabando, quase acabando, deve estar quase acabando.” Mas nada se conclui. A ação continua, com menos mundo. A fala continua, com menos confiança. O corpo continua, com menos promessa.

A referência de Adorno está em seu ensaio “Versuch, das Endspiel zu verstehen” (Tentativa de compreender Fim de Partida), publicado originalmente em 1961 e incluído na coletânea Noten zur Literatur (Anotações sobre Literatura); com edição em português pela Editora 34. Nesse texto, o filósofo sustenta que o objeto de Beckett não é a catástrofe em si, mas a vida que continua após ela, num mundo em que nem mesmo os sobreviventes conseguem sobreviver. Adorno identifica uma tensão estrutural, ou seja, a pulsão de morte de Hamm coincide com seu próprio princípio vital, ao passo que a vontade de viver de Clov talvez venha a provocar a morte de ambos.

Beckett não oferece atenuantes. Não há redenção, não há sequer a dignidade de um sofrimento personalizado. Hamm e Clov são figuras despidas de individualidade que espelham um processo mais amplo. A violência despersonalizada e anônima do capitalismo tardio, ou, em termos mais imediatos, a persistência de relações de poder mesmo quando não existe mais nada a dominar.

Serviço

Fim de Partida
Local: Teatro Luiz Mendonça — Parque Dona Lindu (Av. Boa Viagem, s/n, Boa Viagem, Recife)
Datas e horários: 23, 24 e 25 de julho (quinta, sexta e sábado), às 20h
26 de julho (domingo), às 19h
Classificação indicativa: 16 anos
Ingressos: R$ 75 a R$ 200 (inteira) / R$ 100 (meia-entrada)
Vendas: teatroluizmendonca.byinti.comFicha técnica

Ficha técnica

Texto: Samuel Beckett
Direção: Rodrigo Portella
Tradução: Fábio de Souza Andrade
Direção de Arte e Cenografia: Daniela Thomas
Iluminação: Beto Bruel
Trilha Original e Direção Musical: Federico Puppi
Figurino: Antonio Guedes
Assistência de Direção: Zé Mancini
Visagismo: Leila Turgante
Comunicação: Pedro Neves
Gerência de Projetos: Carolina Tavares
Produção Executiva: Ártemis
Produtor: Fernando Libonati
Realização: Pequena Central de Produções
Instagram: @pequenacentral_

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Semana Hermilo:
Entre arquivo, cena e pensamento

Hermilo Borba Filho e corredor do teatro que leva seu nome, em imagem editada com AI. Programação gratuita no Recife relê a obra de HBF com exposição, espetáculos, palestras e atividades formativas. Foto: Andréa Rêgo Barros e Arquivo

Exposição Mão Molenga – 40 anos de história. Foto: Carla Denise

A cada nova edição, a Semana Hermilo recoloca uma pergunta simples e decisiva: o que uma cidade faz, de fato, com a obra de um autor que ajudou a pensar sua cena cultural? Neste ano, entre 4 e 11 de julho, a programação gratuita promovida pela Prefeitura do Recife no Teatro Hermilo Borba Filho responde a essa questão com uma combinação de exposição, espetáculos, palestras e ações formativas em torno de Hermilo Borba Filho (1917-1976), escritor, encenador, professor, crítico e ensaísta nascido em Palmares, cuja atuação foi central para a formulação, em Pernambuco, de uma literatura e de um teatro ligados à cultura popular nordestina.

Realizada desde 2002, a Semana se firmou como um dos principais espaços públicos de circulação da obra e do pensamento de Hermilo no Recife. Essa permanência também passa pela atuação de Leda Alves (1931-2023), atriz, escritora, gestora cultural e companheira de Hermilo, com quem fundou, nos anos 1960, o Teatro Popular do Nordeste (TPN). Formada em Arte Dramática pela UFPE, Leda teve papel preponderante na defesa da cultura popular e na preservação desse legado no campo institucional. Foi secretária de Cultura do Recife entre 2013 e 2020, além de ter dirigido o Teatro Santa Isabel e presidido a Cepe e a Fundarpe. Sua trajetória ajudou a manter em circulação a memória de Hermilo, como também uma leitura de sua obra vinculada à cultura popular como prática artística e como política pública.

A edição de 2026 distribui esse legado em três frentes. Há um eixo de memória e visualidade, com a exposição do Mão Molenga; um eixo de cena, com Sob Julgamento e O Traidor; e um eixo de reflexão crítica, com palestras voltadas à dramaturgia, à ficção em prosa e ao projeto do Teatro Popular do Nordeste.

Mão Molenga. Foto Fábio Caio

A abertura, no dia 4, começa com a exposição Mão Molenga – 40 anos de história, em cartaz até 4 de agosto. Criado em 1986, o Mão Molenga Teatro de Bonecos é um dos grupos mais duradouros do teatro de animação em Pernambuco. O grupo ostenta uma trajetória continuada de pesquisa em bonecos, formas animadas, oficinas, vídeo e TV, além de manter um acervo de mais de 300 bonecos e cerca de 600 figurinos de época. A formação histórica do coletivo reúne Marcondes Lima, Fábio Caio, Carla Denise e Fátima Caio, hoje lembrada in memoriam.

A mostra leva para dentro da Semana uma tradição concreta do teatro popular nordestino, em que o boneco atua como linguagem, invenção plástica e permanência cultural. Ao aproximar Hermilo de uma prática artística viva e de longa duração, a exposição reforça um ponto essencial: a cultura popular que atravessa sua obra é campo material de criação, transmissão e memória.

Na mesma noite, entra em cena Sob Julgamento, com nova sessão no dia 5. Com concepção e direção de Marcondes Lima, a montagem assume um ideário brechtiano e se organiza em cinco episódios, correspondentes a etapas de um processo judicial: citação do réu, resposta do réu, instrução probatória, alegações finais e sentença. As cenas reúnem situações construídas a partir de fatos reais e outras extraídas de obras de Bertolt Brecht, intercaladas por canções do cancioneiro brasileiro.  A presença do espetáculo na abertura ajuda a qualificar o elo entre a Semana Hermilo e o ambiente de formação: trata-se de um trabalho realizado por alunos do curso de teatro da UFPE, em sintonia com a vocação do Centro Apolo-Hermilo como espaço de pesquisa e prática cênica. 

De 6 a 9 de julho, o centro da programação passa a ser o ciclo de palestras, que amplia o alcance da homenagem. Na segunda-feira (6), a mesa Da manhã à meia-noite – A modernidade expressionista nas dramaturgias de Nelson Rodrigues e Hermilo Borba Filho, com Samantha Lima de Almeida e Anco Márcio Tenório Vieira, e mediação de Carlos Carvalho, tem apoio direto em pesquisa acadêmica. Em dissertação defendida na UFPE em 2021, Samantha sustenta que tanto Nelson quanto Hermilo recorrem a elementos dramáticos expressionistas, embora avancem por trajetórias diferentes: Nelson voltado ao chamado Teatro Desagradável, e Hermilo comprometido com um Teatro do Nordeste, ligado a temas e formas da região.

Na terça-feira (7), a programação se volta para Os Ambulantes de Deus, novela de Hermilo Borba Filho discutida na palestra Êxodo, desordem e mito – A sátira menipeia em Os Ambulantes de Deus, com Raphael Victor Alves de Jesus e Marcondes Lima, também sob mediação de Carlos Carvalho. A aproximação da novela com ideias como êxodo, mito e desordem aponta para uma prosa atravessada por deslocamento, imaginação religiosa e tensão simbólica, deslocando a leitura de Hermilo para além de um quadro de costumes ou de uma marca estritamente regional.

Na quarta-feira (8), o foco recai sobre o romance Agá, na palestra Metaficção e intermidialidade no romance Agá, de Hermilo Borba Filho, com Eron Villar e Yuri Jivago Amorim Caribé, com mediação de Carlos Carvalho. Também aqui há respaldo acadêmico. Em dissertação defendida na UFPE em 2023, Eron analisa Agá a partir de categorias como metaficção, intertextualidade e intermidialidade, mostrando um romance em que o eu-narrador articula elementos de ficção e realidade e estabelece relações com outras linguagens, como teatro, dança e histórias em quadrinhos. O interesse desse recorte está em reposicionar Hermilo como escritor de construção complexa, atento às passagens entre literatura e outras artes.

Na quinta-feira (9), a mesa Hermilo Borba Filho. TPN, o teatro do mundo retoma um dos núcleos decisivos de sua trajetória: o Teatro Popular do Nordeste. Participam da conversa Luiz Reis e a jornalista Ivana Moura, com mediação de Carlos Carvalho. Hermilo fundou o TPN em 1960, com o objetivo de abrir caminho para um teatro de arte em caráter profissional na região. Seu trabalho buscava um espetáculo nordestino, com estética épica apoiada nos folguedos populares. Luiz Reis é autor da tese de doutorado Fora de cena, no palco da modernidade: um estudo do pensamento teatral de Hermilo Borba Filho, defendida na UFPE em 2008. A expressão “teatro do mundo” sugere justamente isso: um projeto que parte do Nordeste não para confiná-lo, mas para transformá-lo em linguagem de cena, leitura de país e ambição estética.

A programação inclui ainda atividades formativas como o workshop Teatro como insurreição poética, com Quiercles Santana, e a oficina O cavalo-marinho na construção do corpo cênico, com Mestre Fábio Soares. As atividades formativas acontecem ao longo do período de 6 a 9 de julho e têm duração de três ou quatro horas, reforçando a vocação da Semana para articular fruição e transmissão, cena e pensamento.

O encerramento cênico acontece com O Traidor, em sessões nos dias 10 e 11 de julho. A peça, adaptada e dirigida por Carlos Carvalho, retoma um dos núcleos mais políticos da obra de Hermilo.

Ao articular arquivo, formação, pesquisa e encenação, a edição de 2026 reafirma a função que a Semana cumpre desde 2002: manter Hermilo Borba Filho em circulação pública.

Peça com alunos do curso de teatro da UFPE, com concepção e direção de Marcondes Lima. Foto: Divulgação

Sob Julgamento leva Brecht, rito jurídico e formação universitária para a abertura da Semana

Escolhido para abrir a programação cênica da Semana Hermilo, Sob Julgamento conjuga procedimento teatral, matéria jurídica e formação universitária. Com concepção e direção de Marcondes Lima, o espetáculo se baseia no ideário brechtiano e se estrutura em cinco episódios que acompanham o curso de uma ação judicial: citação do réu, resposta do réu, instrução probatória, alegações finais e sentença.

As cenas são construídas a partir de fatos reais e de trechos extraídos da obra de Bertolt Brecht, costurados por músicas do cancioneiro brasileiro. O resultado, segundo a proposta da montagem, é um percurso por julgamentos justos e injustos, num tempo em que o tema da sentença, da culpa e da disputa por verdade se impõe no espaço público.

O espetáculo reúne no elenco Amanda Camyle, Ana Carolina, Anne Oliveira, Brenda Lima, Carlos Alberto, Diana Goiana, Gusttavo Revorêdo, Laura Ianes, Letícia Gonçalves, Lia Mariz, Marcus Azevedo, Marcus Carvalho, Maria Morim, Nívia Mariana, Ocean, Rayssa Tawane e Vinny Carvalho. Tem apoio pedagógico e assistência de direção de Marina Lino, produção de Grazielly Santana e Mariana Castelo, cenografia e figurino de Marcondes Lima e coletivo, maquiagem de Marina Lino e coletivo, iluminação de Nelba Santos, sonoplastia de Marina Lino e coletivo, coordenação do LAFACE por Rose Mary Martins e Marcondes Lima, além de design gráfico e fotografia do Estúdio Dionísio.

Na leitura de Carlos Carvalho, a presença de Sob Julgamento na Semana faz sentido também pela forma. Trata-se de um espetáculo anti-ilusionista, afinado com um ambiente de pesquisa e formação, realizado por estudantes do curso de teatro da UFPE. Nesse sentido, a peça entra na programação como trabalho convidado e como sinal de continuidade entre estudo, cena e pensamento teatral.

Ingressos gratuitos serão distribuídos uma hora antes do início de cada sessão.

Fátima Aguiar e Paulo de Pontes em O Traidor. Foto: Divulgação

O Traidor leva ao palco Zumba e a violência do poder

Entre os trabalhos apresentados na Semana Hermilo, O Traidor ocupa um lugar particular. A montagem, definida como adaptação livre do conto homônimo de Hermilo Borba Filho, tem dramaturgia e direção de Carlos Carvalho e se apoia, segundo a equipe, na experiência do elenco e numa cena de linguagem essencial, anti-ilusionista, centrada na palavra e na interpretação.

É a história de Clerivaldo dos Santos da Silva, conhecido como Zumba Dentão, sapateiro, militante bolchevique e figura popular de Palmares, na Zona da Mata Sul de Pernambuco. Inserido numa sociedade marcada pelo coronelismo, pelo poder dos usineiros e pela desigualdade social, Zumba dedica a vida à militância por uma sociedade igualitária. Por causa dessa atuação, é preso e torturado diversas vezes, o que transforma seu apelido em Zumba Sem Dente.

Casado com Discleide, também comunista – e, na peça, apreciadora de filmes de bangue-bangue americanos -, Zumba decide se candidatar a prefeito. O ponto de ruptura da história se dá quando ele é sequestrado e torturado. A peça incorpora ainda um dado trágico decisivo: Zumba era analfabeto. Quando a cidade busca encontrar uma tentativa de libertá-lo da cadeia, um bilhete é enviado para avisá-lo sobre a ação. A versão espalhada por Cabo Luiz, no entanto, é a de que o sapateiro teria entregado o conteúdo às autoridades, provocando prisões. Em seguida, a rádio noticia que Zumba, em suposta tentativa de fuga, teria sido abatido a tiros. Discleide recebe o corpo mutilado.

O elenco é formado por Paulo de Pontes, Fátima Aguiar e Cleusson Vieira. Paulo de Pontes interpreta Zumba; Fátima Aguiar, Discleide; e Cleusson Vieira, Cabo Luiz. Carlos Carvalho assina ainda desenho de luz, figurino e adereços. A peça tem 45 minutos de duração e busca um diálogo direto entre atores e plateia, com ênfase na palavra viva e na exposição da narrativa sem ilusão de naturalismo.

Serviço

Semana Hermilo 2026

De 4 a 11 de julho
Teatro Hermilo Borba Filho
Entrada gratuita

Programação

04/07 – Sábado
19h – Abertura e estreia da exposição Mão Molenga — 40 anos de história
20h – Espetáculo Sob Julgamento , com alunos do CAC/UFPE

05/07 – Domingo
19h – Espetáculo Sob Julgamento, com alunos do CAC/UFPE

06/07 – Segunda-feira
19h – Palestra Da manhã à meia-noite — A modernidade expressionista nas dramaturgias de Nelson Rodrigues e Hermilo Borba Filho, com Samantha Lima de Almeida e Anco Márcio Tenório Vieira
Mediação: Carlos Carvalho

07/07 – Terça-feira
19h – Palestra Êxodo, desordem e mito — A sátira menipeia em Os Ambulantes de Deus, novela de Hermilo Borba Filho, com Raphael Victor Alves de Jesus e Marcondes Lima
Mediação: Carlos Carvalho

08/07 – Quarta-feira
19h – Palestra Metaficção e intermidialidade no romance Agá, de Hermilo Borba Filho, com Eron Villar e Yuri Jivago Amorim Caribé
Mediação: Carlos Carvalho

09/07 – Quinta-feira
19h – Palestra Hermilo Borba Filho. TPN, o teatro do mundo, com Luiz Reis e Ivana Moura
Mediação: Carlos Carvalho

10/07 – Sexta-feira
19h – Espetáculo O Traidor, adaptação do conto homônimo de Hermilo Borba Filho, com dramaturgia e direção de Carlos Carvalho

11/07 – Sábado
19h – Espetáculo O Traidor, adaptação do conto homônimo de Hermilo Borba Filho, com dramaturgia e direção de Carlos Carvalho

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Festival celebra infâncias no Recife em julho

 

O 22º Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco reúne 15 espetáculos, inclusive a produção portuguesa Vamos para Bremen, da companhia TeatroPlage, de Lisboa.  

Pluft, o Fantasminha, da Cênicas Cia de Repertório Foto: Wilson Lima / Divulgação 

Edição homenageia os 40 anos do Mão Molenga. Foto: Reprodução do Youtube

Um balão que não consegue voar, um burrinho que decide sair de casa, uma menina em busca de um baobá sagrado, um Pinóquio em versão musical e até um Hamlet levado para o circo. A 22ª edição do Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco aposta na versatilidade de linguagens, temas e formatos. De 4 a 26 de julho, o evento ocupa os teatros de Santa Isabel, do Parque e Barreto Júnior com 15 espetáculos, além de programação gratuita em espaços públicos e ações formativas voltadas a artistas, educadores e público.

Com o tema “Aplausos para a Imaginação”, essa edição se organiza em três frentes: palco, com os espetáculos apresentados nos teatros; rua, com atrações gratuitas de artes cênicas e circo; e formação, com o 12º Colóquio do Teatro para Infâncias e Juventude, oficinas e palestras presenciais e online. A realização é da Métron Produções, de Edivane Bactista e Ruy Aguiar, com incentivo do SIC – Sistema de Incentivo à Cultura do Recife, Fundação de Cultura Cidade do Recife, Secretaria de Cultura e Prefeitura do Recife.

A curadoria deste ano é assinada por Marcondes Lima, Ruy Aguiar e Williams Sant’Anna. Marcondes atua como encenador, cenógrafo, figurinista, maquiador, ator e docente; Ruy Aguiar reúne trabalhos em coordenação de produção, dramaturgia, direção e gestão cultural; e Williams Sant’Anna transita entre teatro e circo, com atuação como pesquisador, encenador, palhaço, ator, dramaturgo e gestor cultural. O festival homenageia os 40 anos do Mão Molenga Teatro de Bonecos, grupo pernambucano de referência na cena para infâncias.

A abertura, no Teatro de Santa Isabel, será com Vamos para Bremen, da companhia portuguesa TeatroPlage, de Lisboa. Inspirado em Os Músicos de Bremen, dos irmãos Grimm, o espetáculo parte da história de personagens que seguem juntos em busca de outro lugar, apoiando-se na ideia de cooperação. Ainda no Santa Isabel, o festival reúne dois títulos baseados em contos já conhecidos do público infantil. O Sapatinho de Cristal, de Roberto Costa Produções / Yuri Costa, retoma a história de Cinderela, a jovem explorada pela madrasta e pelas irmãs até ter o destino alterado pelo baile e pelo famoso sapato perdido. Já Bonezinho Vermelho, da Métron Produções, parte do universo de Chapeuzinho Vermelho para uma encenação musical. Fecha a programação no Santa Pluft, o Fantasminha, da Cênicas Cia de Repertório, nova passagem do clássico de Maria Clara Machado sobre o fantasma que teme gente e acaba encontrando amizade na convivência com a menina Maribel.

Dia da Libélula. Foto: Raffael Quirino / Divulgação

A programação vem com um recorte mais heterogêneo no Teatro do Parque. Hélio, o Balão que não Consegue Voar, de Cleyton Cabral e Coletivo de Artistas, usa formas animadas e manipulação de objetos para contar a história de um balão de loja de festas que não consegue fazer aquilo que todos esperam dele. A peça tem dramaturgia premiada no Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia e trata do autismo por meio da trajetória desse personagem. Em O Dia da Libélula, da Companhia Teatralizar, o centro da ação é Babete, uma jovem libélula que descobre que viverá apenas um dia e, a partir daí, atravessa um pântano habitado por figuras estranhas e poéticas. É uma peça construída como jornada: há uma personagem, uma descoberta e um percurso.

Também no Parque, Helô, em Busca do Baobá Sagrado, da DoceAgri, acompanha uma menina negra de cabelos crespos que percebe a tristeza se espalhar pelo lugar onde vive. Orientada pela avó, conhecida como Velha Cachimbeira, e acompanhada pelo pai, Helô sai em busca do baobá sagrado, numa história que articula aventura, ancestralidade e identidade. João e o Pé de Feijão, da Capibaribe Produções, leva ao palco a narrativa do menino que troca a vaca da família por feijões mágicos e sobe até o território do gigante. Os 3 Super Porquinhos, de Roberto Costa Produções / Yuri Costa, transforma o conto dos porquinhos e do lobo em comédia musical. Já Queijo & Goiabada, da Cia 2 em Cena, aparece como uma das estreias da grade e parte de uma recriação para infâncias de Romeu e Julieta, filtrada por referências populares. Encerrando a programação do Parque, Quem Mente o Nariz Cresce, uma História de Pinóquio, da Arretado Produções, retoma o personagem criado por Carlo Collodi em montagem que combina teatro, música, circo e bonecos animados.

No Teatro Barreto Júnior, a sequência convoca alguns dos trabalhos mais marcados pela visualidade. O Burro Errante, da dupla Habib e Valeria, é baseado no livro homônimo de Habib Zahra e acompanha um burrinho criado numa família superprotetora que decide partir. A montagem utiliza teatro de sombras coloridas e música ao vivo, apoiando-se mais na construção imagética da travessia. Os Protetores dos Oceanos, do Espaço Cultural Vovozito/Falcões Produções, usa teatro de bonecos para narrar a saga de animais marinhos e, a partir dela, discutir a relação humana com o mar e com a preservação ambiental. Em Histórias Pontilhadas, da Companhia Conta Gotas, o público acompanha Zeca, Olga e Bina, uma família de alfaiates e costureiras que percorre caminhos reais e imaginários com sua carroça-casa. Já Hamlet no Circo, da Circus Produções Artísticas / Davison Wescley, desloca a tragédia de Shakespeare para a linguagem do circo e da palhaçaria.

No festival convivem clássicos reencenados, dramaturgias recentes, teatro de bonecos, sombras, musicais, circo e formas animadas. E com isso apresenta um recorte do que diferentes grupos têm produzido para crianças hoje, com companhias de Pernambuco, Paraíba e Portugal.

Ao homenagear os 40 anos do Mão Molenga Teatro de Bonecos, o festival celebra nesta edição uma referência importante da cena pernambucana para crianças. Fundado em 1986, o grupo construiu uma trajetória ligada ao teatro de bonecos e ao diálogo entre elementos visuais, música e atuação. A escolha do Mão Molenga também encontra eco na própria programação, marcada pela presença de bonecos, formas animadas e encenações em que a visualidade tem peso decisivo.

O Burro Errante. Foto: José Rebelatto / Divulgação

Programação

Teatro de Santa Isabel

04 de julho, 16h30Vamos para Bremen – TeatroPlage (Lisboa, Portugal)
05 de julho, 11hO Sapatinho de Cristal – Roberto Costa Produções / Yuri Costa (Paulista-PE)
11 de julho, 11hBonezinho Vermelho – Métron Produções (Recife-PE)
12 de julho, 16h30Pluft, o Fantasminha – Cênicas Cia de Repertório (Recife-PE)

Teatro do Parque

05 de julho, 11hHélio, o Balão que não Consegue Voar – Cleyton Cabral e Coletivo de Artistas (Recife-PE)
11 de julho, 11hO Dia da Libélula – Companhia Teatralizar (Abreu e Lima-PE)
12 de julho, 16hHelô, em Busca do Baobá Sagrado – DoceAgri (Recife-PE)
18 de julho, 11hJoão e o Pé de Feijão – Capibaribe Produções (Moreno-PE) – estreia
19 de julho, 11hOs 3 Super Porquinhos – Roberto Costa Produções / Yuri Costa (Paulista-PE)
25 de julho, 16hQueijo & Goiabada – Cia 2 em Cena (Recife-PE) – estreia
26 de julho, 16h – Quem Mente o Nariz Cresce, uma História de Pinóquio – Arretado Produções (João Pessoa-PB)

Teatro Barreto Júnior

11 de julho, 11h – O Burro Errante – Habib e Valeria (Olinda-PE)
12 de julho, 16hOs Protetores dos Oceanos – Espaço Cultural Vovozito / Falcões Produções (Igarassu-PE)
18 de julho, 11hHistórias Pontilhadas – Companhia Conta Gotas Produções / Tarcísio Vieira (Recife-PE)
19 de julho, 11hHamlet no Circo – Circus Produções Artísticas / Davison Wescley (Jaboatão dos Guararapes-PE)

Rua

A programação inclui apresentações gratuitas de artes cênicas e circo em espaços públicos do Recife

Formação

12º Colóquio do Teatro para Infâncias e Juventude
Oficinas e palestras presenciais e online
Atividades gratuitas para artistas, educadores e público

Serviço

22º Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco
Quando: de 4 a 26 de julho de 2026, aos sábados e domingos
Horários: 11h, 16h e 16h30
Onde: Teatro de Santa Isabel, Teatro do Parque e Teatro Barreto Júnior, no Recife
Ingressos: entre R$ 30 e R$ 120; ingressos sociais entre R$ 40 e R$ 50
Realização: Métron Produções
Incentivo: SIC – Sistema de Incentivo à Cultura do Recife / Fundação de Cultura Cidade do Recife / Secretaria de Cultura / Prefeitura do Recife
Informações: teatroparacrianca.com.br

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Jorge Lafond e a memória adiada
Crítica e bate-papo:
Jorge pra Sempre Verão

Jorge pra Sempre Verão. Em primeiro plano Aretha Sadick e Alexandre Mitre. Foto Guará Siqueira / Divulgação

Poucos espetáculos recentes do teatro brasileiro assumem com tanta frontalidade a tarefa de disputar a memória quanto JORGE pra Sempre VERÃO. A peça dirigida por Rodrigo França, com dramaturgia de Aline Mohamad e Diego do Subúrbio, surge da vontade de homenagear Jorge Lafond, eternizado no imaginário popular como Vera Verão. Mas parte, antes, de uma espécie de atraso histórico de um país que consagrou a imagem do artista em horário nobre, transformou seu corpo em signo reconhecível da cultura de massa, mas não converteu essa centralidade em um esforço de preservação e reconhecimento à altura da complexidade de sua trajetória, nem em vida nem depois da morte. Mais do que relembrar um ícone cômico dos anos 1990 ou promover uma justiça sentimental em torno de um artista querido, a montagem interroga os mecanismos que fazem certos corpos virarem patrimônio e outros, caricatura. Nesse sentido, a peça acerta ao recolocar Jorge Lafond para além da moldura estreita do bordão, da gargalhada fácil e da memória televisiva achatada. A encenação insiste em perguntar quem foi esse homem negro, afeminado, popular, inteligente e solitário – e o que a sociedade brasileira fez com ele.

Mas a peça não escolhe o caminho mais óbvio. Em vez de construir uma biografia convencional, organizada em marcos de vida, ascensão, fama e queda, opta por uma dramaturgia de memória fragmentária e biografia coletiva. Essa é uma de suas escolhas mais potentes. Aline não pretende falar em nome total de Jorge, nem reconstituir uma verdade definitiva sobre ele. O espetáculo prefere assumir o recorte, a falta, o fragmento, a memória incompleta. E, com isso, realiza um movimento particularmente interessante: desloca Jorge do lugar de indivíduo isolado e o reinscreve numa constelação de experiências negras, suburbanas, LGBTQIA+, afeminadas e periféricas.

É daí que vem a força mais política da peça. Jorge não aparece apenas como “ele mesmo”, mas como ponto de convergência de muitas histórias. A ofensa “Vera Verão” como apelido de humilhação, a vergonha de ser associado a um corpo afeminado, o processo de ressignificar isso como potência, o convívio com a exclusão dentro e fora de casa, a tentativa de sobreviver a uma sociedade racista e homofóbica: tudo isso é convocado para que o espetáculo fale não só de Jorge, mas a partir de Jorge. A recepção do público confirma esse movimento. Repetidamente, surgem relatos de identificação – menos no sentido de reconhecer apenas a trajetória de uma figura pública e mais no de se perceber na cena em pedaços de si, de suas feridas, da infância e das próprias experiências de exclusão.

No plano artístico, a montagem também encontra soluções expressivas. A divisão entre Jorge e Vera em corpos distintos é uma escolha feliz, porque dramatiza o desdobramento entre sujeito e entidade, pessoa e figura pública, homem e símbolo. Em vez de repetir a mímica da personagem televisiva, o espetáculo a desloca para outro plano. Vera deixa de ser somente caricatura humorística e ganha espessura mítica, política e afetiva. A presença de Aretha Sadick nesse eixo é decisiva. Ao assumir Vera como uma mulher preta e trans, a peça atualiza o debate sobre gênero e dissidência, como propõe uma leitura crítica daquilo que Jorge talvez não pudesse nomear ou viver publicamente em seu tempo. Essa decisão é reforçada por um projeto de cena coerente: corpos pretos retintos no palco, figurinos e direção de arte que não banalizam a imagem de Lafond, uso de imagens de arquivo que ajudam a contextualizar sua trajetória e uma iluminação que costura, com precisão, os movimentos entre documento, evocação e rito.

Outro ponto alto está na forma como a montagem lê o desamparo estrutural de Jorge Lafond como condição persistente de um artista que ocupava um lugar ao mesmo tempo central e sem amparo. Jorge foi um rosto nacionalmente reconhecido, um corpo que sustentou humor, audiência e impacto popular por anos. Ainda assim, a peça insiste em mostrar que ele seguia só. O episódio relacionado à entrada de Padre Marcelo Rossi no programa em que Lafond atuava é tratado como síntese desse mecanismo: a dor maior não está na exposição pública em si, mas na descoberta de que a estrutura que lucra com você não necessariamente o sustenta. O espetáculo é especialmente forte quando identifica que o sofrimento de Jorge vem do preconceito da sociedade, mas também da ausência de respaldo das engrenagens que se beneficiaram de sua presença.

Também merece atenção a maneira como a obra se posiciona no debate sobre apagamento histórico. O espetáculo já realizou mais de 100 apresentações, circulou por diferentes cidades e chega ao Recife carregando a marca de uma trajetória de resistência material. Não por acaso, o tema do financiamento aparece com força no bate-papo. A comparação feita por Aline Mohamad com o reconhecimento póstumo dado a Paulo Gustavo é incômoda, mas eficaz. Enquanto alguns artistas se tornam rapidamente nome de rua, musical, filme, lei e grande projeto de memória, Jorge Lafond precisou esperar décadas por uma peça montada com orçamento muito mais precário. A observação não vale como competição simplista entre trajetórias, e sim como denúncia da desigualdade racial na administração da memória cultural brasileira.

Espetáculo também expõe os limites, as lacunas e os impasses de uma obra que tenta devolver humanidade a ao artista Jorge Lafond. Foto Guará Siqueira / Divulgação

E é justamente por ser forte que a peça também pede leitura crítica. E aqui vamos pensar em suas zonas mais tensas. A primeira delas está no tratamento dado ao subúrbio, à família e ao entorno social. O espetáculo tem razão ao reivindicar a cultura suburbana carioca como matriz sensível e política. Mas acontece que, em alguns momentos, essa reivindicação parece excessivamente protegida pela própria dramaturgia. Há afeto, há pertencimento, há memória coletiva – mas nem sempre há fricção suficiente. O resultado é que certas dimensões da violência cotidiana, da homofobia doméstica, do conservadorismo comunitário e das ambiguidades familiares surgem suavizadas em excesso. Em vez de expor plenamente essas rachaduras, a peça por vezes prefere uma forma de acolhimento que as amortece.

Mais do que individualizar a violência em figuras isoladas, a peça parece interessada em mostrar como racismo, homofobia e apagamento circulam de forma difusa, atravessando linguagem, afetos, instituições e sociabilidades. Esse enfoque tem força, porque impede uma leitura simplificadora em que bastaria localizar “culpados evidentes” para dar conta do problema. Ao mesmo tempo, essa opção faz com que, em certos momentos, a violência apareça mais como atmosfera histórica e social do que como conflito efetivamente tensionado em cena.

Há também passagens em que a peça parece reencenar, sem atrito suficiente, resíduos de violência internalizada. Isso aparece, por exemplo, na conversa entre Jorge e Vera sobre a cor do batom – “charque” ou “carne de sol” – e no gesto usado para indicar que uma tia era “sapata”. Nos dois casos, a cena pode ser lida menos como simples reprodução de uma fala social e mais como reativação de um imaginário preconceituoso que a montagem nem sempre desarma por completo. São momentos breves, mas significativos, porque introduzem uma ambiguidade importante: a peça critica a violência, mas, em alguns instantes, também deixa escapar traços dela sem submetê-los a maior tensão crítica.

Outra questão é a reiteração. Mesmo que, em alguma medida, a repetição pareça deliberada – ao insistir na dor, no insulto, no apagamento e na exclusão, como quem sabe que uma única formulação não basta para enfrentar a amnésia social -, há trechos em que a ênfase retorna mais como reafirmação do já dito do que como desdobramento novo.

Tudo isso mostra que JORGE pra Sempre VERÃO é um espetáculo vivo, que admite disputa, leitura e tensão. Sua força está também em não se esgotar na reverência. A peça busca restituir complexidade a Jorge Lafond e ao mesmo tempo discutir o país que o transformou em sucesso e o deixou à margem de sua memória oficial. Ao fazer isso, revela que a cultura brasileira ainda escolhe com profunda desigualdade quais mortos quer monumentalizar e quais prefere apenas recordar de maneira superficial. O teatro, aqui, não reverte sozinho a violência histórica. Mas contribui para desnaturalizá-la.

Aline Mohamad (autora, prima de Jorge e atriz), Alexandre Mitre (ator) e Aretha Sadick (atriz). Foto: Ivana Moura

 

 

A voz dos criadores

Principais pontos do bate-papo com a plateia e a equipe da peça – Aline Mohamad (autora, prima de Jorge e atriz), Alexandre Mitre (ator) e Aretha Sadick (atriz) após a sessão de 26 de junho, na Caixa Cultural Recife. Mais do que celebrar Jorge Lafond, a conversa evidencia que o espetáculo se propõe a disputar a memória pública em torno de sua trajetória, interrogando quais nomes o Brasil escolhe preservar, sob quais enquadramentos os preserva e por que certos artistas ainda precisam lutar contra o apagamento para permanecer na história cultural do país.

A peça nasceu de um pedido de perdão

Aline Mohamad: “Tudo começou com uma carta. Uma carta de pedido de perdão que escrevi para o Jorge depois que ele já tinha falecido. Eu mandei para algumas pessoas, incluindo o Rodrigo França, e cheguei a apagar, mas o impacto foi imediato. Cinco pessoas me disseram que tínhamos a obrigação de montar essa peça. Demoramos cerca de dois anos e meio para captar recursos, enfrentando todas as barreiras possíveis, até que conseguimos realizar em 2022. A peça nasce desse desejo de cruzar histórias, porque descobrimos que todos nós temos uma grande história com o Jorge, tenhamos conhecido ele pessoalmente ou não.”

A recusa da biografia tradicional

Aline Mohamad: “Eu tinha uma única certeza: não seria uma biografia estrita. Eu não tinha o direito de tentar fazer isso. O que queríamos era construir a nossa biografia. A biografia de quem foi xingado de ‘Jorge Lafond’ ou ‘Vera Verão’ na infância. Para muitos de nós, esses nomes eram usados como ofensa. O texto, escrito com o Diego do Subúrbio, mistura as vivências das ‘bichas pretas’ urbanas com a minha história familiar. É uma costura de memórias fragmentadas, fotos e relatos orais para preencher os vazios que a história oficial deixou.”

O critério das escolhas dramatúrgicas

Aline Mohamad: “A gente foi descobrindo que todos nós tínhamos uma grande história com o Jorge, independente de ter conhecido ou não. Então a dramaturgia foi sendo montada a partir dessas vivências cruzadas. Era a minha história, a do Diego, a de outras pessoas, e tudo isso foi costurado para virar uma biografia coletiva.”

Alexandre Mitre: “Muitas vezes, na leitura do texto, eu travava porque aquilo me tocava num lugar muito pessoal. E isso acontece também com o público. Muitas pessoas chegam e falam: ‘você estava falando do que aconteceu comigo’.”

A solidão e a violência institucional

Alexandre Mitre: “A violência física que mostramos no palco não é maior que a dor da rejeição. Imagine um artista negro, nos anos 1990, sustentando sozinho o peso de ser o único corpo daquele tipo em um programa de humor líder de audiência. Quando ele precisou de apoio, após ser retirado do palco por uma pressão institucional externa e branca, ele se viu só. A emissora onde ele se fez não o protegeu. Essa falta de acalanto é o que desmonta o artista. Por que voltar para o camarim? Qual o fundamento de continuar se tudo o que você construiu cai diante da decisão de outro homem?”

A memória como quebra-cabeça e responsabilidade coletiva

Aretha Sadick: “A vida pessoal dele foi muito pouco registrada. Então o espetáculo também é um recorte de memórias. Tem o que alguém contou, tem o que apareceu numa foto, tem um relato daqui, outro dali. Isso faz com que a peça também compartilhe com o público a responsabilidade de manter essas histórias vivas, para que os próximos Jorges não sejam esquecidos da mesma forma.”

Corpos negros e trans no centro da cena

Aretha Sadick: “É raro termos um elenco 100% de pessoas pretas retintas no palco. Levar esses corpos escuros para os teatros do Brasil é uma demarcação política necessária. No nosso espetáculo, a Vera é deliberadamente uma mulher trans. Queríamos explorar essa possibilidade: se Jorge já sofria tanto por ser negro e afeminado, como seria se ele pudesse ter expressado essa identidade trans? Além disso, temos uma política de entrada gratuita para pessoas trans, porque queremos que esses corpos se vejam refletidos e reconhecidos.”

Aline Mohamad: “No nosso espetáculo, a Vera sempre será uma mulher preta e trans. Isso também faz parte da política da peça, assim como a decisão de montar uma equipe majoritariamente negra e LGBT.”

Dinheiro, racismo e o valor da memória

Aline Mohamad: “A comparação é inevitável. Nada contra o Paulo Gustavo, mas quando ele morreu, virou lei, musical, filme e rua. Jorge Lafond não teve nada disso, e ele abriu as portas para que muitos chegassem onde chegaram. Montamos essa peça com R$ 100.000,00, o que deve ser 10% do orçamento de um grande musical do eixo Rio-São Paulo. Existe um projeto de apagamento das nossas histórias. Precisamos que as instituições entendam que essas trajetórias importam e que precisamos de dignidade e recursos para circular além dos grandes centros.”

Alexandre Mitre: “Muitas personalidades pretas importantes para o entretenimento brasileiro pereceram no mais puro ostracismo, sem investigação, sem valorização. Jorge Lafond foi mais um desses nomes. Contar a história dele é também impedir que esse esquecimento continue.”

O apagamento como projeto de sociedade

Aretha Sadick: “A gente não gosta muito da palavra dívida, mas ao mesmo tempo é um projeto de sociedade: o apagamento, o esquecimento da história, propositalmente. A gente mantém a memória dessas pessoas vivas porque existe um projeto para que essas histórias sejam apagadas o tempo todo, como se passasse uma borracha.”

Ficha técnica

Espetáculo: JORGE pra Sempre VERÃO
Direção: Rodrigo França
Dramaturgia: Aline Mohamad e Diego do Subúrbio
Elenco na temporada atual: Alexandre Mitre, Aline Mohamad e Aretha Sadick; Noêmia Oliveira em etapas anteriores da montagem
Direção de movimento: Tainara Cerqueira
Trilha original: Dani Nega
Direção de imagens: Carolina Godinho
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Cenário: Rodrigo França e Wanderley Wagner
Figurinos: Marah Silva
Visagismo: Diego Narang

Serviço
JORGE pra Sempre VERÃO
Local: Caixa Cultural Recife
Endereço: Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife, Recife–PE

Quando: 2, 3 e 4 de julho de 2026, 19h30; Sessão extra no sábado: 16h30
Bate-papo com a plateia: após a apresentação de 3 de julho
Acessibilidade: sessões de sábado com tradução em Libras
Ingressos: R$ 30 e R$ 15

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