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Episódio de censura com atriz trans Renata Carvalho inspira Evangelho Segundo Vera Cruz

Fotomontagem com Elke Falconiere em O Evangelho segundo Vera Cruz, peça pernambucana inspirada em  O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, com Renata Carvalho

Elke Falconiere e Joe Andrade, artistas trans na peça O Evangelho Segundo Vera Cruz. Foto: Ricardo Maciel

Elke Falconiere, Jailton Jr., Dante Olivier, Rodrigo Cavalcanti (abaixado), Joe Andrade. Foto: Ricardo Maciel

Como Jesus Cristo seria recebido neste século 21, se retornasse no corpo de uma travesti? Esse é um dos questionamentos do espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, escrito pela britânica Jo Clifford, e que ganhou uma adaptação no Brasil, traduzida e dirigida por Natalia Malo, com atuação de Renata Carvalho. Desde sua estreia, a peça sofreu uma série de retaliações, incompreensões (principalmente por quem nem assistiu à montagem), boicotes, censuras. Segundo a própria atriz, o episódio mais marcante em sentido negativo ocorreu em 2018, durante a 28ª edição do Festival de Inverno de Garanhuns, no Agreste pernambucano, que, ironicamente, tinha adotado para aquele ano o tema da liberdade.

Esses acontecimentos de censura ao espetáculo da atriz Renata Carvalho são retrabalhados em O Evangelho segundo Vera Cruz, do Teatro de Fronteira, grupo pernambucano que está completando 10 anos. De acordo com Rodrigo Dourado, dramaturgo e diretor do trabalho, a peça é um retrato desse momento político único e uma homenagem. “Como gesto artístico, é também uma ação para reverter essa condição de vulnerabilidade em que são lançadas as vidas LGBTs, mas também de negros, mulheres, e todos os que são alijados de seus direitos básicos”.

A peça é, especialmente, um manifesto pela representatividade, contando com forte presença da comunidade transgênera em seu elenco, com a estreia das atrizes Elke Falconiere, Joe Andrade e do ator Dante Olivier, acompanhados dos atores Rodrigo Cavalcanti e Jailton Jr.

A montagem O Evangelho segundo Vera Cruz está em temporada online por meio da plataforma Zoom, às quintas-feiras, 26/11, 03/12 e 10/12, às 20h. Ao final de cada apresentação, o grupo passa um chapéu virtual, no esquema Pague Quanto Puder, de contribuição livre, por meio de depósito bancário.

Rainha do Céu

Ao contrário de seus detratores, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu imprime um discurso de tolerância, exaltando a centelha divina de TODO ser humano. Defende que amar é uma ação revolucionária e que o perdão é basilar para uma convivência pacífica. Entre distribuição de pão e vinho, a protagonista faz uma reencenação, digamos, “pop” da Última Ceia. Predomina a serenidade no tom, com um linguajar jovial para levar à cena a proposição de que se Jesus regressasse como uma travesti seria novamente crucificado aos 33 anos. Ou menos.

A média de vida de uma pessoa trans é de 35 anos, quando a média do brasileiro chega a 75. De acordo com o Boletim nº 4 de Assassinatos contra travestis e transexuais da Associação Nacional de Transexuais e Travestis (Antra), em 2020, 129 pessoas trans foram assassinadas de janeiro a 31 de agosto no Brasil, o que registra um aumento de 70% em relação a 2019. Entre 2017 e 2020, 436 pessoas trans foram mortas. Em 2019 foram registrados no Brasil 124 assassinatos de pessoas transsexuais, o que dá uma média de um homicídio a cada três dias, segundo o levantamento. É um genocídio, com a mão ou conivência do Estado.

A peça já havia sido censurada em Jundiaí, no interior paulista, no Rio de Janeiro e em Salvador. E foi boicotada em muitos outros lugares. No interior de Pernambuco, o golpe foi duro. O espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu foi convidado pela curadoria do Festival de Inverno de Garanhuns, retirado do festival, reinserido, apresentado na garra e apartado da programação. Cenário de intransigência cultural, “trapalhadas” políticas, e demonstrações de reacionarismo.

A atriz Renata Carvalho enfrentou um calvário de intolerância, cujo ápice ocorreu em 27 de julho de 2018, o que ela considera o “episódio de censura mais violento” que já viveu, com ação de boicote do festival, oficiais de justiça e até a explosão de uma bomba caseira no local da apresentação, numa noite tensa e chuvosa.

Repúdio de líderes religiosos. Mandado de segurança. Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns e Região. Tribunal de Justiça de Pernambuco cede à pressão da igreja. Liminar proíbe apresentação da peça. Desembargadores dão decisão favorável à (re)inclusão do espetáculo no FIG. Secretaria de Cultura e Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco sustentam exclusão.

Esse episódio todo foi de um desrespeito muito grande. Foi a transfobia institucionalizada. Claro, toda censura agride, como aconteceu em Salvador, em Jundiaí e até no Rio de Janeiro. Mas essa de Garanhuns foi sem dúvidas a mais violenta que nós já sofremos com a peça.
Renata Carvalho, ao The Intercept_Brasil

O dramaturgo e diretor Rodrigo Dourado acompanhou de perto toda essa movimentação. “A questão se converteu num problema político eleitoral, pois prefeito (Izaías Regis) e governador (Paulo Câmara) pertencem a polos opostos do espectro político”, pontua. Dourado integrou o grupo de agentes culturais que fez uma mobilização para que Rainha do Céu fosse apresentada, de forma independente da programação do FiG. “Após inúmeras ameaças e conflitos, Renata Carvalho decidiu realizar a performance mesmo desprovida de todos os aparatos técnicos, contando para isso com o apoio da plateia que desejava vê-la em cena”.

Rodrigo avalia que aquele episódio emoldurou duas energias morais e políticas muito fortes que têm se antagonizado no Brasil. “De um lado, um conservadorismo neofascista e censório, que deseja apagar formas de vida e de expressão não normativas. De outro, movimentos civis que resistem à onda reacionária e exigem seu direito à existência e à cidadania”.

A própria Renata Carvalho alertou à época que aquele não era um caso isolado direcionado contra uma artista trans, mas a demonstração de que a censura estava colocando suas garras para fora.

Dito e feito. Os discursos de ódio e intolerância foram contemplados nas urnas de 2018 e posições conservadoras, reacionárias mostram um orgulho de discriminar o outro – seu dessemelhante.

Entrevista // Rodrigo Dourado, dramaturgo e encenador

Rodrigo Dourado. Foto: Ricardo Maciel / Divulgação

Quais as motivações para erguer O Evangelho segundo Vera Cruz? E durante a pandemia não ficou mais difícil?
Nesse período de 2020, a gente tinha programada uma série de ações para comemorar os 10 anos do Teatro de Fronteira. Precisamos rever tudo. A partir de março, fizemos a primeira temporada de Luzir é Negro!, que era a primeira ação e a temporada já foi bastante prejudicada pela quarentena. O público já foi bem baixo. Então, a gente aprovou várias ações em editais emergenciais como o Arte como Respiro, do Itaú Cultural, Cultura em Rede, do SESC Pernambuco, e o ConVida, do SESC Nacional. O Evangelho Segundo Vera Cruz foi a ação apoiada pelo Cultura em Rede, do SESC de Pernambuco. Esse texto, que tinha sido escrito por mim em 2019, estava engavetado, não tinha sido montado nem publicado e decidimos submeter ao edital.  Quando foi aprovado, começamos o trabalho de montagem no formato online. No início, sim, foi muito difícil a adaptação às plataformas online. A gente não sabia muito bem lidar com tudo aquilo. Foi um aprendizado enorme, porque além da tecnologia em si, quer dizer, os recursos que a plataforma tem, a gente tinha situações de acesso à internet muito diversas, realidades sociais muito diversas dentro do elenco. Precisamos criar uma harmonia, uma unidade entre essas situações, para chegar a um ponto mínimo, ter um denominador comum que nos permitisse uma qualidade mínima de transmissão e a utilização dos recursos da plataforma.
Mas, eu não posso dizer que foi mais difícil do que montar um espetáculo presencialmente. Teve as suas especificidades, mas o processo em si, o tempo, a quantidade de ensaios, a pesquisa, o trabalho de ator, as descobertas da encenação, tudo isso é muito parecido com formato presencial. O que muda somente é o meio.

A peça recria os episódios de censura sofridos pela atriz Renata Carvalho com seu espetáculo, no ano de 2018, na cidade de Garanhuns/PE. Como é feita essa recriação? Quais aspectos são destacados na peça?
Eu participei daquele movimento que levou a peça a Garanhuns, junto com várias outras pessoas. Eu fui observador e, desde aquele momento, quando estávamos ainda inseridos nele, vivendo, eu já sentia essa teatralidade pulsante de tudo que estava acontecendo. O debate público que o teatro estava gerando, os conflitos sociais, no sentido dos estudos da performance um certo ‘Drama Social’ que o espetáculo estava ocasionando. Então, já me parecia tudo muito teatral: a sociedade garanhuense, pernambucana, discutindo nas ruas esse tema; o coro público, a voz das ruas, o teatro midiático que foi feito em cima disso nas redes sociais, na imprensa; os shows na Praça Guadalajara e as provocações nos shows; todos esses elementos foram trazidos de alguma forma para dentro da dramaturgia. É uma dramaturgia que transita bastante entre o épico, o narrativo, as formas mais populares de narrar, personagens-tipo, a gente tem também uma citação ao mamulengo numa determinada cena. E tem seus traços dramáticos, porque na peça existe um conflito paralelo ao conflito público que estava acontecendo, que é a história de um casal LGBT formado por um homem cis e um homem trans, da cidade de Garanhuns, e que estão na linha de frente do movimento que levou a peça à cidade. E também tentamos, de alguma forma, nos aproximar da história de vida da Renata, das questões da atriz. Então, tem uma questão da intimidade da Renata que é recriada. Agora tudo isso com alguma liberdade artística. Não temos um compromisso factual 100%. A gente recria algumas coisas, poetiza algumas coisas; dramaturgicamente eu posso dizer que o arranjo é esse.

Renata Carvalho participou de alguma das apresentações? Como ela recebeu a iniciativa da peça?
Nesta versão da peça, atual, que é a terceira, Renata participa fazendo uma voz em off, uma locução de um trecho da peça. Mas também há vários depoimentos dela que foram resgatados da Imprensa e utilizados na peça. Ela não assistiu à peça ainda, mas tem acompanhado o processo. Leu o texto, fez sugestões, críticas e junto com o elenco trans a gente foi debatendo, discutindo, confrontando aspectos da dramaturgia para que, de alguma forma, ficasse mais justa e mais fidedigna à experiência de vida trans, já que eu sou um homem cis escrevendo sobre essas experiências. Então Renata esteve sempre no suporte, no apoio a todo esse processo, mas ela não assistiu à peça ainda.

Para quem não acompanhou esse episódio, você poderia falar sucintamente do caso de censura à peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, com Renata Carvalho, em Garanhuns, em 2018?
A peça foi escalada para a programação do Festival de Inverno de Garanhuns, em 2018, pela curadoria da Fundarpe/Secult/PE. Assim que a programação foi anunciada pela imprensa, o prefeito da cidade, Izaías Regis, foi aos meios de comunicação anunciar que não aceitaria receber a montagem, alegando que a cidade era cristã e que, supostamente, o trabalho feriria a comunidade local por trazer uma travesti na personagem de Jesus Cristo. Vários veículos de imprensa da cidade apoiaram o prefeito, que, na sequência, recebeu ainda apoio do bispo local e de representantes da comunidade evangélica. O Governador Paulo Câmara e a Fundarpe, a princípio, sustentaram que a peça se manteria na programação e que, uma vez proibido pelo prefeito o uso do teatro municipal (Luiz Souto Dourado), buscariam apoio de outras entidades para acolher a encenação. A questão se converteu num problema político eleitoral, pois prefeito e governador pertencem a polos opostos do espectro político e o governador buscava a reeleição. Logo, o prefeito passou a fazer uso eleitoral do episódio a fim de desgastar a imagem do governador. Com o apoio da bancada evangélica no Assembleia Legislativa, ameaçando mobilizar seu rebanho contra o governador, não demorou muito para que Paulo Câmara recuasse de sua decisão, anunciando que a peça tinha sido excluída da programação. Rapidamente, um grupo de agentes da sociedade civil mobilizou-se e empreendeu um movimento para arrecadar fundos e levar a peça à cidade de maneira independente. Houve inúmeras ameaças a esse movimento e à própria vida da atriz e a apresentação aconteceu sob forte sigilo. A justiça também foi invocada para impedir a realização da apresentação. Num último instante, a Fundarpe decidiu apoiar o espetáculo, oferecendo infraestrutura técnica de som, luz, etc. Mas uma decisão judicial de última hora foi emitida, após o transcorrer da primeira apresentação, proibindo que a peça se realizasse. Ao receber a notificação, a Fundarpe começou a desmontar toda a infraestrutura que havia disponibilizado, atrapalhando a realização da segunda récita. Após inúmeras ameaças e conflitos, Renata Carvalho decidiu realizar a performance mesmo desprovida de todos os aparatos técnicos, contando para isso com o apoio da plateia que desejava vê-la em cena.

Como observador privilegiado e um dos articuladores da desobediência à ordem esdrúxula dos governantes, quais os sentidos que foram despertados em você naquele momento, e quais sentimentos guarda até hoje?
Para mim, aquele episódio emoldurou duas energias morais e políticas muito fortes que têm se antagonizado no Brasil. De um lado, um conservadorismo neofascista e censório, que deseja apagar formas de vida e de expressão não normativas. De outro, movimentos civis que resistem à onda reacionária e exigem seu direito à existência e à cidadania. Trata-se de um momento histórico do teatro brasileiro do século XXI, porque a peça já havia sido censurada em diversas cidades, mas em nenhum lugar, como em Pernambuco, houve um movimento tão potente de resistência e desobediência ao poder institucionalizado. Em O Evangelho segundo Vera Cruz, eu tomo claramente lado, o lado desses sujeites que escapam aos padrões, dessas vidas dissidentes, já que sou um homem gay que sofreu e sofre na pele os horrores do preconceito e da perseguição aos desviantes. A peça é, portanto, um retrato desse momento político único e uma homenagem a essas vidas precárias. Como gesto artístico, é também uma ação para reverter essa condição de vulnerabilidade em que são lançadas as vidas LGBTs, mas também de negros, mulheres, e todos os que são alijados de seus direitos básicos.

O teatro que é transmitido pelas redes realmente derrubou barreiras geográficas, pois numa mesma apresentação podemos ver gente de várias partes do Brasil e do mundo. Como você (s) percebe (m) a recepção da peça? Dá para fazer um pequeno percurso desde a estreia?
Sobre a recepção à peça: a gente teve duas situações muito diferentes até agora. A gente fez um processo aberto pelo Sesc. Primeiro, realizamos um debate sobre a peça, depois fizemos um ensaio aberto com a exibição de pequenas cenas. Esses dois tiveram uma presença muito boa de público interessado em conhecer um processo teatral, de saber como se desenvolve um processo teatral. Esse aspecto de uma pedagogia mesmo do espectador. E no terceiro momento, no Sesc, a gente teve a apresentação em si da leitura, havia 150 pessoas na sala do Zoom nos assistindo, uma plateia gigante, muito participativa. Ao final, fizemos mais uma linda conversa. Foi muito bonito ver as contribuições, as colaborações, as intervenções, as indagações trazidas por esse público ao longo desse processo todo que a gente viveu no Sesc.
Num segundo momento, a gente apresentou a peça em Guaramiranga, no Festival Nordestino de Teatro. E aí sim, a gente não fez a peça para a plateia no Zoom, retransmitimos o que estávamos fazendo no Zoom pelo YouTube. Então a plateia pôde assistir à peça pelo YouTube e interagiu bastante com a peça via YouTube. Já era uma segunda versão com substituição de atores, com mudança na dramaturgia, com a chegada da Elke Falconieri, a saída de Marconi Bispo. Então, a gente tinha ampliado a representatividade trans do elenco. Foi muito bom fazer essa versão em Guaramiranga, porque no dia seguinte tivemos um debate em que pudemos ouvir os curadores e conhecer as impressões, os apontamentos deles, que também ajudaram a peça a chegar até essa terceira versão, que nós estamos apresentando agora. Agora, a gente tá enfrentando uma dificuldade maior de público, porque estamos fazendo uma temporada com ingressos pagos, com bilheteria. As outras ocasiões foram todas gratuitas, porque a peça já estava comprada, subsidiada – digamos assim – pelas instituições que nos convidaram. Agora é um momento nosso, de uma temporada independente. E aí sim, está sendo mais difícil a chegada desse público. Talvez por conta das dificuldades financeiras, pelo cansaço do formato online, já que a gente está se aproximando do final do ano, várias questões que a gente tem levantado para entender, para compreender essa dificuldade com o público. Mas é quase como se a gente estivesse na forma presencial, enfrentando aquela dificuldade de fazer teatro presencial na base da bilheteria, caçando público, fazendo um esforço gigante para chegar ao público. E só para fazer um complemento, nessas ocasiões todas a gente teve público do Brasil inteiro, Minas, Pará, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, outros estados do Nordeste, Centro-Oeste. É muito bonito ver o movimento do Brasil podendo conferir essas obras nesse formato online.

Gostaria que você falasse do elenco. Houve alterações, ampliação participativa de artistas trans, como se deu isso? E mesmo que pareça óbvio tem coisas que precisam ser reditas, qual a razão das escolhas?
Desde o início, eu como homem cis escrevendo essa peça, tinha convicção de que, primeiro, o texto precisava ser submetido a uma crítica sistemática da comunidade trans. E que a gente precisava ter representatividade no elenco, porque toda a questão que atravessa o debate levantado por Renata diz respeito à representatividade, à presença de corpos e cidadãos/sujeites trans nas peças que trazem narrativas de vida trans. Essa era uma questão central para mim desde o início. A princípio foram convidados Joe Andrade e Dante Olivier, que foram alunos meus na UFPE; a Joe do curso de teatro e o Dante do curso de artes visuais, mas fez comigo uma disciplina que ofereço de “Teatro, Gênero e Sexualidades Dissidentes”. E a gente tinha o elenco do Fronteira, Marconi (Bispo), Rodrigo Cavalcanti e o Jailton Júnior, que também foi meu aluno da Federal e agora integra o Fronteira. Marconi precisou se afastar do grupo e eu imediatamente pensei em convidar a Elke Falconiere, que também foi minha aluna na UFPE, que é uma mulher trans, foi minha orientanda de TCC. E, para ampliar essa representatividade, inclusive, trazendo a Elke para interpretar personagens cis, não só personagens trans. O caminho foi por aí. Para a gente, é fundamental; não faz sentido essa peça existir sem essa presença. Hoje a gente tem maioria trans no elenco, temos três pessoas trans e duas  cis. A presença delas é fundamental. Não só do ponto de vista dessa crítica que elas podem fazer aos conteúdos e às formas da peça, mas sobretudo como uma forma de inserção no mercado artístico, de visibilização do trabalho delas. Está sendo muito importante para nós.

“A montagem é também um gesto criativo diante das dificuldades pandêmicas, uma forma de manter a chama do teatro acesa, explorando para isso os meios virtuais”. Já que o assunto é tocado… quando a pandemia se instalou houve uma discussão sobre se o que é apresentado via internet é teatro ou não. Sem julgamentos de posições, já que estamos num processo de desbravar territórios e rever paradigmas, qual sua avaliação desse momento teatral?
Sobre a questão do teatro online: lá atrás, quando começou a pandemia, mais ou menos em abril, eu escrevi um artigo chamado “Teatros da pandemia: o giro viral”, em que faço uma provocação e um prognóstico de que esse momento iria gerar uma virada de chave no teatro, no sentido de, ao invés do teatro parar e se deparar com uma encruzilhada sem solução – já que não há presença, não há teatro – que caminhos o teatro iria tomar. E de lá para cá, a gente viu que o formato online foi bastante ocupado, foi bastante explorado, está sendo explorado, dilatado. Para mim, já nem é mais uma discussão essa de se o teatro online é teatro ou não. É teatro online. É uma forma que fricciona as formas digitais, as formas audiovisuais, as formas teatrais, mas que claramente se distingue de outras formas audiovisuais e online; se distingue da novela, se distingue do cinema, se distingue da videoarte, se distingue dos canais do YouTube, se distingue das formas digitais como o videogame ou outras mídias digitais, do streaming. Então, acho que tem uma especificidade aí do teatro ocupando esse espaço, que para mim já está muito clara. Além disso, tem uma lida também com os arquivos de teatro. A gente tem muito arquivo de espetáculos gravados, filmados, sendo revisitados e pesquisados e vistos, servindo como material didático, também ocupando um certo espaço dessa experiência presencial do teatro. E um retorno que o público tem nos dado, frequentemente, é que estar no teatro online é como estar no teatro. As pessoas se encontram na plateia, na antessala, no hall. Saber que as pessoas estão ali cria uma noção de convívio, de convivialidade, aquilo que Jorge Dubatti tem chamado de tecnovívio. A gente saiu de um convívio para um tecnovívio. Tem essa precariedade também, do artesanato teatral feito online, então tem improviso, tem jogo, tem as possibilidades infinitas que a internet oferece, que estão sendo explorados, mas também tem a instabilidade da internet que nos obriga a jogar, a improvisar como no teatro.
Tem a sensação do ao vivo, tem o bastidor, que é a casa dos atores. É quase como se as formas tradicionais do teatro, elas tivessem encontrado outras maneiras de ser. Tá tudo lá. A sensação que eu tenho é que está tudo lá. Para mim é um ganho, uma dilatação, é uma expansão das possibilidades do teatro, que não apaga nem dissolve ou desfaz o teatro presencial – que já está retornando em alguns lugares e vai retornar – mas que cria outras outras veredas.

Bem, como anda o teatro pernambucano?
Eta nós! Acho que o teatro pernambucano está vivíssimo como sempre esteve. Acho que a gente tem um movimento na cidade, de teatro grupo, de grupos de jovens. Grupo Bote de Teatro, Grupo Resta 1, Grupo AmarÉ, o Teatro Bordô, Coletivo Despudorado, Grupo Afrocentradas. Acho que o teatro local irremediavelmente está dialogando com as questões raciais, étnicas, com as questões da mulher, com as questões LGBTs, com as questões trans, com as questões periféricas. Nosso teatro está nesse movimento. Acho que a gente tem aí grupos que já tão na maturidade, como Totem, Fiandeiros, Cênicas; o Teatro de Fronteira está chegando aos 10 anos, eu diria que é um adolescente ainda, mas que já tem uma estrada. Então é um teatro que sim, tá vivo, é um teatro que de alguma forma encontrou seus caminhos também pela internet. A gente tem visto experimentos, sejam da Casa Maravilhas, com as suas lives; seja o Grupo O Poste fazendo suas lives e seus experimentos também; a Criative-se Cultural realizou um pioneiro trabalho online por aqui; temos os grupos de teatro como a Fiandeiros e a Cênicas de Repertório mantendo as atividades de ensino. A gente tem o Fronteira aí também experimentando o formato online, não somente como o Evangelho, mas também com o Puro Teatro (Arte Como Respiro), disponibilizando ainda arquivos de suas peças. Hermínia Mendes performando para o Arte como o Respiro; o Coletivo Angu lançando um texto inédito de Marcelino Freire também no Arte como Respiro; a gente teve vários experimentos que foram feitos para o Sesc-PE, como os experimentos de Paulo de Pontes (dirigido por Quiercles Santana), o de Clara Camarotti; a força sertaneja de Odília Nunes vertendo para o online; as Violetas da Aurora clownando para as redes; outras produções de conteúdo pelo Coletivo Grão Comum, Grupo Cênico Calabouço, por meio de diálogos online; um coletivo de artistas pernambucanos, radicados no RJ, encenando Muribeca, de Marcelino Freire (criação de Wellington Jr. Breno Fittipaldi, Reinaldo Patrício); o Magiluth reproduzindo as experiências pioneiras de teatro não-presencial um-a-um que iniciaram sendo feitas na Europa, nos EUA. Cito uma delas em meu artigo, da Cia. La Colline, de Paris. Pode ter inspirado o grupo. Enfim…
Então acho que é um teatro que encontrou seus caminhos também nesse formato online. Eu penso que o nosso teatro é muito contemporâneo, ele está em diálogo com tudo que está acontecendo aí pelo mundo, apesar das dificuldades financeiras e econômicas, que são na verdade uma realidade do Brasil inteiro. Eu acho que a gente continua resistindo e persistindo em fazer teatro.

Qual o seu posicionamento sobres políticas públicas culturais, tanto do Governo do Estado de Pernambuco, quanto da prefeitura do Recife?
Acredito que as políticas públicas para a cultura em Pernambuco e no Recife são já precárias e vêm se precarizando cada vez mais. Ao longo dos oito anos da gestão do prefeito Geraldo Júlio (PSB), houve um desmonte absurdo de diversas políticas culturais, de equipes. Equipamentos culturais foram sucateados, como o Teatro Apolo-Hermilo. Não existe uma política de programação, de fomento à pesquisa de grupos, de formação de plateia. O Parque está sendo entregue agora, às vésperas da eleição. O importantíssimo Festival Recife do Teatro Nacional foi esvaziado. Não houve canal de diálogo com a classe teatral. O SIC foi retomado num formato estranho, priorizando eventos que contam com a participação de membros da prefeitura em suas equipes de criação. Por sua vez, a Fundarpe tem se mostrado incompetente na gestão do Funcultura, com atrasos sistemáticos de prazos, além dos atrasos nos pagamentos de cachês de artistas e a criação de instrumentos sem a escuta da sociedade civil, como no caso do Prêmio Pernalonga. É preciso que haja mais recursos, mais escuta, mais celeridade e que se desenhe, de fato, um Programa Cultural a ser cumprido durante as gestões e não apenas como promessas de campanha. Mais importante: é preciso separar o doméstico do público, entendendo o espectro cultural em sua amplitude, em sua diversidade, e não apenas atendendo às crenças e valores privados dos gestores.

FICHA TÉCNICA || O Evangelho Segundo Vera Cruz
Atuação: Dante Olivier, Elke Falconiere, Jailton Júnior, Joe Andrade y Rodrigo Cavalcanti
Direção e dramaturgia: Rodrigo Dourado
Produção: Rodrigo Cavalcanti
Designer de luz: Natalie Revorêdo (Farol Ateliê da Luz)
Efeitos sonoros: Jailton Júnior
Teasers: Dante Olivier
Registro Fotográfico e Identidade Visual: Ricardo Maciel
Realização: Teatro de Fronteira

Serviço:
O Evangelho Segundo Vera Cruz, do Teatro de Fronteira 
Exibição: Plataforma do Zoom
Quando: Quintas-feiras, às 20h, até 10 de dezembro
Classificação Indicativa: 16 anos
Duração: 70 minutos
Informações: teatrodefronteirape@gmail.com | @teatrodefronteira

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a_ponte: cena do teatro universitário, do Itaú Cultural, prorroga o prazo até 5 de outubro

 

Sandra Vargas vai ministrar oficina Quem tem medo de teatro para criança? O artista, o Teatro e as Infâncias, junto com Brenda Campos; uma das cinco salas virtuais oferecidas. Foto: Marco Aurélio Olimpio 

Atenção estudantes de artes cênicas de todo o país! O Itaú Cultural prorrogou mais uma vez o prazo para as inscrições da convocatória a_ponte: cena do teatro universitário. Agora vai até o dia 5 de outubro, às 23h59, o prazo final, que devem ser feitas pelo site da instituição (www.itaucultural.org.br ).

A proposta busca manter o caráter pulsante das edições presenciais anteriores – da diluição de fronteiras e aproximando estudantes – desta vez em formato digital, como requer os protocolos de isolamento social devido a Covid-19.

São dois eixos oferecidos pelo programa: o primeiro, conta com aulas virtuais abordando pluralidade de dramaturgias, cena queer, figurino e maquiagem, problematização do corpo e teatro para criança. Já o segundo é direcionado a teses de conclusão de cursos práticos ou teóricos, que terão publicação posterior.

A Jornada de Aprendizagem Expandida oferece cinco opções de salas de aulas online temáticas, conduzidas por especialistas nas áreas, a serem escolhidas pelo candidato. São elas:

Sala 1Dramaturgias, palavra plural?, com a dramaturga Dione Carlos, orientadora artística do Núcleo de Dramaturgia da Escola Livre de Santo André, e Marcos Barbosa, dramaturgo formado pelo Instituto Dragão do Mar, do Ceará, e professor da Escola Superior de Artes Célia Helena, em São Paulo. A proposta é praticar a escrita dramatúrgica e analisar textos de vozes significativas do teatro contemporâneo brasileiro, para ir além dos cânones tradicionais de referência e chegar à narrativa pluriversal.

 Sala 2Discurso e práxis para uma cena Queer – É possível falar de cena Queer? Além da contextualização da presença e da memória LGBTQI+ nas artes performativas do Brasil, os encontros debatem sobre as subjetividades e identidades queer, a partir de referências artísticas e teóricas que observem os procedimentos dissidentes de criação estética. As aulas têm como orientadores a dramaturga, poeta, diretora, atriz e professora Ave Terrena e Rodrigo Dourado, professor do Curso de Teatro do Departamento de Artes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisador das áreas de Performatividade e Teatro Contemporâneo, Identidades de Gênero, Sexualidade e Teatro e Estudos Queer.

Sala 3, PoÉticas das materialidades da cena – O figurino e a maquiagem são marginais na criação? com Marcondes Lima, professor do Departamento de Artes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutorando em Artes Performativas e da Imagem em Movimento pela Universidade de Lisboa, além da participação do pernambucano Fábio Soares, figurinista, bailarino e brincante de cavalo-marinho, e de Cyntia Carla, professora da Universidade de Brasília (UnB), além de figurinista, diretora, professora, circense, atriz, cenógrafa e maquiadora. Esta classe apresenta um panorama sobre princípios e práticas da caracterização visual, enquanto linguagem nas artes da cena, especificamente no que diz respeito ao figurino e à maquiagem.

Sala 4Existe corpo na virtualidade? Dimensões pessoais e políticas do corpo: a cena como plataforma, comandada pelas atrizes e encenadoras Luciana Lyra e Tânia Farias, Aqui, a problematização do corpo, em tempos pandêmicos de inevitável virtualidade, é o ponto de partida para o desdobramento de estudos sobre a história do corpo, seus padrões e suas práticas, resultantes de múltiplas relações biológicas, biopolíticas, estéticas, culturais e ambientais.

Sala 5 aborda o tema Quem tem medo de teatro para criança? O artista, o Teatro e as Infâncias. Orientadas pela artista de teatro, pedagoga e pesquisadora Brenda Campos, e Sandra Vargas, atriz, diretora, dramaturga e uma das fundadoras do grupo SOBREVENTO, as aulas são realizadas por meio de exercícios práticos e reflexivos sobre o fazer teatral para as infâncias, provocando os participantes a perceberem caminhos possíveis para a criação de um espetáculo teatral voltado para crianças. 

Serão selecionados até 40 estudantes para cada sala virtual, para cumprirem uma carga horária de 20 horas em 10 encontros realizados de 9 de novembro a 15 de dezembro. Os selecionados serão divulgados no dia 26 de outubro pelo site do Itaú Cultural.

O outro eixo é a Seleção de Trabalhos de Conclusão de Cursos (práticos ou teóricos), que destaca a produção acadêmica de teses sobre as artes cênicas realizadas no período 2019-2020.

Podem concorrer trabalhos de iniciação científica ou iniciação à docência. Serão selecionados até 20 trabalhos, com divulgação dos resultados a partir do dia 14 de janeiro de 2021, no site do Itaú Cultural. Posteriormente integrarão uma publicação digital.

SERVIÇO:
Convocatória a_ponte: cena do teatro universitário
Inscrições até 5 de outubro (segunda-feira), às 23h59
Pelo site do Itaú Cultural ( www.itaucultural.org.br )

Eixo 1: Jornada de Aprendizagem Expandida:
Divulgação dos selecionados: 26 de outubro de 2020 (segunda-feira)
Eixo 2: Seleção de trabalhos de conclusão de cursos de 2019/2020
Pelo site do Itaú Cultural ( www.itaucultural.org.br )
Divulgação dos selecionados: 14 de janeiro de 2021 (quinta-feira)

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Ciclo “a_ponte : cena do teatro universitário”, do Itaú Cultural, investe na expansão de intercâmbios
PRAZO PRORROGADO

Ave Terrena (foto Luciana Bati), Brenda Campos (foto Natália Campos), Dione Carlos (foto Malcolm Lima),  Marcondes Lima (foto Rogério Alves), no meio, Luciana Lyra (foto Fábio Gark/Estúdio Mudrah); Cyntia Carla (foto Luana Proença), Sandra Vargas (foto Marco Aurélio Olímpo), Tânia Farias (foto Mariana Rotilli) e Rodrigo Dourado (foto Ricardo Maciel) são alguns dos condutores da Jornada de Aprendizagem Expandida

A terceira convocatória de a_ponte: cena do teatro universitário, do Itaú Cultural, está com inscrições abertas nos dois eixos desta edição: Jornada de Aprendizagem Expandida (aulas virtuais sobre conteúdos pouco explorados nos currículos oficiais) e Seleção de Trabalhos de Conclusão de Cursos (teses de conclusão de cursos práticos ou teóricos, que terão publicação posterior). O programa – que ocorre em formato reformulado, digital e ampliado -, reforça o compromisso de renovação da cena teatral, dissolvendo fronteiras e congraçando estudantes.

Os interessados devem acessar o site do Itaú Cultural (www.itaucultural.org.br) para fazer a inscrição. Para o primeiro eixo, até às 23h59 desta sexta-feira, dia 25 de setembro de segunda-feira, dia 28 de setembro (prazo prorrogado, anunciou o Itaú, na manhã desta sexta-feira). Para o segundo núcleo, a data de acesso vai até 2 de outubro (a outra sexta-feira), no mesmo horário. 

a_ponte é norteada a estudantes maiores de 18 anos, vinculados a uma instituição de ensino de cursos técnicos e universitários de artes cênicas de todo o país.

A gerente do Núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural, Galiana Brasil, ressalta que (a mostra) a_ponte propõe um mergulho em saberes, dissidências e na recuperação de ausências curriculares há muito reclamadas, “com o intuito de agregar vozes, ligar interesses, e contribuir com o processo de formação que deve reverberar nos processos cênicos Brasil adentro”.

As duas primeiras edições de a_ponte: cena do teatro universitário foram realizadas presencialmente. Neste ano, o programa conecta-se ao virtual.

Fábio Soares participa da Sala que enfoca figurino e a maquiagem. Foto Panamérica Filmes

No eixo 1, Jornada de Aprendizagem Expandida, são oferecidas para inscrição cinco diferentes salas de aulas virtuais temáticas, conduzidas por especialistas nas áreas. A instituição oferece interpretação em Libras para os selecionados que o indiquem no ato da inscrição

Sala 1, Dramaturgias, palavra plural?, com a dramaturga Dione Carlos, orientadora artística do Núcleo de Dramaturgia da Escola Livre de Santo André, e Marcos Barbosa, dramaturgo formado pelo Instituto Dragão do Mar, do Ceará, e professor da Escola Superior de Artes Célia Helena, em São Paulo. A proposta é praticar a escrita dramatúrgica e analisar textos de vozes significativas do teatro contemporâneo brasileiro, para ir além dos cânones tradicionais de referência e chegar à narrativa pluriversal.

 Sala 2, Discurso e práxis para uma cena Queer – É possível falar de cena Queer? Além da contextualização da presença e da memória LGBTQI+ nas artes performativas do Brasil, os encontros debatem sobre as subjetividades e identidades queer, a partir de referências artísticas e teóricas que observem os procedimentos dissidentes de criação estética. As aulas têm como orientadores a dramaturga, poeta, diretora, atriz e professora Ave Terrena e Rodrigo Dourado, professor do Curso de Teatro do Departamento de Artes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisador das áreas de Performatividade e Teatro Contemporâneo, Identidades de Gênero, Sexualidade e Teatro e Estudos Queer.

Sala 3, PoÉticas das materialidades da cena – O figurino e a maquiagem são marginais na criação? com Marcondes Lima, professor do Departamento de Artes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutorando em Artes Performativas e da Imagem em Movimento pela Universidade de Lisboa, além da participação do pernambucano Fábio Soares, figurinista, bailarino e brincante de cavalo-marinho, e de Cyntia Carla, professora da Universidade de Brasília (UnB), além de figurinista, diretora, professora, circense, atriz, cenógrafa e maquiadora. Esta classe apresenta um panorama sobre princípios e práticas da caracterização visual, enquanto linguagem nas artes da cena, especificamente no que diz respeito ao figurino e à maquiagem.

Sala 4, Existe corpo na virtualidade? Dimensões pessoais e políticas do corpo: a cena como plataforma, comandada pelas atrizes e encenadoras Luciana Lyra e Tânia Farias, Aqui, a problematização do corpo, em tempos pandêmicos de inevitável virtualidade, é o ponto de partida para o desdobramento de estudos sobre a história do corpo, seus padrões e suas práticas, resultantes de múltiplas relações biológicas, biopolíticas, estéticas, culturais e ambientais.

Sala 5 aborda o tema Quem tem medo de teatro para criança? O artista, o Teatro e as Infâncias. Orientadas pela artista de teatro, pedagoga e pesquisadora Brenda Campos, e Sandra Vargas, atriz, diretora, dramaturga e uma das fundadoras do grupo SOBREVENTO, as aulas são realizadas por meio de exercícios práticos e reflexivos sobre o fazer teatral para as infâncias, provocando os participantes a perceberem caminhos possíveis para a criação de um espetáculo teatral voltado para crianças.

Serão selecionados até 40 estudantes para cada uma das cinco salas virtuais, para cumprirem uma carga horária prevista de 20 horas. As aulas acontecerão por meio da plataforma crossknowledge em 10 encontros realizados de 9 de novembro a 15 de dezembro. Os selecionados serão divulgados no dia 26 de outubro pelo site do Itaú Cultural.

No Eixo 2 a_ponte: cena do teatro universitário busca valorizar a pesquisa com uma Seleção de Trabalhos de Conclusão de Curso (práticos ou teóricos), resultados de estudos concluídas nos anos de 2019 e/ou 2020. Podem se candidatar autores de trabalhos de iniciação científica ou iniciação à docência. A iniciativa visa atestar a necessidade dos programas de financiamento à pesquisa continuada nos bacharelados, nas licenciaturas e nos cursos técnicos nas áreas de artes e humanidades. Até 20 trabalhos inscritos serão selecionados, divulgados a partir do dia 14 de janeiro de 2021, no site do Itaú Cultural. Esse material fará arte, posteriormente, de uma publicação digital.

 

SERVIÇO:
Convocatória a_ponte: cena do teatro universitário
Inscrições:
Eixo 1: Jornada de Aprendizagem Expandida:
Até 25 de setembro (sexta-feira), NOVO PRAZO dia 28 de setembro (segunda-feira),  às 23h59
Pelo site do Itaú Cultural (www.itaucultural.org.br)
Divulgação dos selecionados: 28 de outubro de 2020 (segunda-feira)

Eixo 2: Seleção de trabalhos de conclusão de cursos de 2019/2020
Até 2 de outubro (sexta-feira), às 23h59
Pelo site do Itaú Cultural (www.itaucultural.org.br)
Divulgação dos selecionados: 14 de janeiro de 2021 (quinta-feira)

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Teatro de Fronteira encena Ligações Perigosas para falar da sociedade de hoje

Rodrigo Dourado (à esq.) e Rafael Almeida voltam a trabalhar como atores após anos afastados a partir do texto clássico de Choderlos de Laclos, com direção de João Denys. Foto: Ricardo Maciel

Rodrigo Dourado (à esq.) e Rafael Almeida voltam a trabalhar como atores após anos afastados a partir do texto clássico de Choderlos de Laclos, com direção de João Denys. Foto: Ricardo Maciel

O livro As ligações perigosas, clássico de Choderlos de Laclos, já seduziu muitos artistas no cinema e no teatro. Basta lembrar da versão levada ao cinema por Stephen Frears em 1988, que tomou um lugar cativo na cultura pop. A marquesa de Mertreuil e o conde de Valmont são mais do que personagens, mas arquétipos de uma elite insensível e libertina, que destrói vidas por pura diversão. O Teatro de Fronteira, que sempre apostou em uma linguagem mais documental, baseada no biodrama, usa o mesmo material para dar um ponto de inflexão em sua trajetória.

Em Ligações perigosas, que estreia nesta sexta (18) e fica em temporada até o próximo dia 29, no Teatro Hermilo Borba Filho, no Bairro do Recife, o vazio barroco da aristocracia pré-Revolução Francesa é mostrado em uma encenação mais próxima das origens do livro, um romance epistolar, focado na troca de cartas entre os aristocratas. Para quem não leu o livro nem viu as várias adaptações para o cinema, os ex-amantes competem entre si para ver quem corrompe garotas ou jovens mulheres, fazendo-as trair suas convicções de castidade e fidelidade.

Mais do que falar sobre intrigas amorosas, o texto é uma crítica social afiada de uma sociedade à beira do colapso, nada muito diferente de hoje, segundo o Teatro de Fronteira. Além de apontar o dedo para uma elite cuja insensibilidade parece ser eterna, o grupo também coloca em xeque um certo tipo de fazer teatral por meio da paródia. A decadência da elite francesa da época, alheia ao sofrimento do povo e entretida em seus jogos de sedução é posta em cena a partir da contracena dos dois atores ao redor de uma mesa, como se estivessem em um banquete.

A dissonância desse grupo social com a realidade, segundo Rodrigo, é sublinhada pelos elementos visuais do espetáculo. “A mesa é acionada como um local do encontro e também do enfrentamento. Ao mesmo tempo, o figurino e a maquiagem nos deixam com aspecto de usados, gastos, em referência a uma elite que insiste em permanecer fazendo um teatro enquanto o resto do mundo está se explodindo. Alguém pode pensar que estamos fazendo um ‘teatrão’ de fato, mas esse é o risco de fazermos uma paródia”.

A peça também traz de volta ao palco dois artistas que não pisavam nele havia alguns anos: Rodrigo Dourado, há dez anos sem atuar, e Rafael Almeida, há seis anos fora de cena. A dupla convidou, então, o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) João Denys Araújo Leite para dirigi-los em um processo que leva a teatralidade às últimas consequências. “Queríamos esse exagero. Acho que um bom texto é atemporal. Ele sempre vai falar a quem quiser ouvi-lo. Choderlos de Laclos põe as vísceras de uma sociedade sobre a mesa. Ligações perigosas fala muito das relações sociais e podemos usar a obra como metáfora para entender também o Brasil”, reflete Rafael.

O processo da montagem foi iniciado com a vontade de Rodrigo, também professor da Universidade Federal de Pernambuco, de voltar a trabalhar como ator, após consolidar uma carreira no Recife como diretor. Rafael, por sua vez, faz doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), já foi da Trupe do Barulho e trabalhou no teatro em várias frentes, seja como diretor ou como cenógrafo. O que liga ambos a João Denys é a ligação dos três com a palavra. “Sempre me interessei pelos clássicos e começamos uma pesquisa para um texto para dois atores e nos deparamos com esse texto. Minha formação é a da dramaturgia e minha escola de atuação é ‘old school’. Eu, Rafael e Denys temos em comum essa conexão com a literatura e enxergamos em As ligações perigosas uma potência teatral muito grande. Mertreuil e Valmont encenam os jogos de conquista deles. Eles brincam de interpretar”, detalha Rodrigo.

Embora o Teatro de Fronteira tenha trabalhado, em seus espetáculos, um material dramatúrgico vindo diretamente da experiência de vida dos atores ou recorrido a uma dramaturgia costurada a partir de acontecimentos reais, Rodrigo não considera uma contradição montar Ligações perigosas. “Esta adaptação é bastante literária, metafórica e até um pouco barroca. Talvez o público estranhe essa opção por uma linguagem cheia de licenças poéticas em relação ao que ele tem visto como obra do nosso coletivo, mas, no fim das contas, acho isso bom. Teatro é conflito, e o grupo está vivendo esse paradoxo”, reflete Rodrigo.

Serviço:

Ligações Perigosas, do Teatro de Fronteira
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife)
Quando: 18 a 27 de maio de 2018 (sextas e sábados às 20h; domingos, às 19h)
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação Indicativa: 16 anos
Duração: 70 minutos
Informações: 3355-3320 / 3355-3321

Ficha Técnica:

Elenco: Rafael Almeida e Rodrigo Dourado
Direção: João Denys Araújo Leite
Adaptação dramatúrgica: Teatro de Fronteira
Direção de produção: Rodrigo Cavalcanti
Figurinos, adereços e maquiagem: Marcondes Lima
Confecção de adereços: Álcio Lins e Rafael Almeida
Cenografia: João Denys Araújo Leite
Assistentes de cenografia: Manuel Carlos e Rafael Almeida
Cenotecnia: Israel Marinho, Manuel Carlos e Rafael Almeida
Design e execução de luz: João Guilherme de Paula
Sonoplastia: João Denys Araújo Leite
Assistente de sonoplastia: Rafael Almeida
Execução de sonoplastia: Marconi Bispo
Identidade visual: Michel Souza
Fotos e vídeo: Ricardo Maciel
Assessoria de Imprensa: Cleyton Cabral
Realização: Teatro de Fronteira

 

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Vivência contra preconceitos

Espetáculo autobiográfico toca nas feridas do racismo, da homofobia e dos fundamentalismos religiosos

“Quando você descobriu que era negro?”, questiona o ator Marconi Bispo no espetáculo Luzir é Negro, do coletivo Teatro de Fronteira, com direção de Rodrigo Dourado. Pergunta carregada de história de discriminação e preconceito racial de um Brasil hipócrita e desigual. Luzir é Negro faz uma sessão especial de despedida da temporada deste ano no Espaço O Poste, neste domingo (04/12), às 17h.

De acordo com Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo IBGE em 2014, 53% dos brasileiros se afirmaram como negros e pardos, num acréscimo de 5 pontos porcentuais em analogia com pesquisa idêntica feita há dez anos.

O geógrafo brasileiro Milton Santos (1926 –2001), em uma palestra lembrou que os professores Florestan Fernandes e Otavio Ianni, escreveram “que os brasileiros, de um modo geral, não têm vergonha de ser racista, mas têm vergonha de se dizer que são racistas”. Essa tese provoca uma reflexão pertinente sobre discursos e aparências, sentimentos que mobilizam e processos de exclusão.

Marconi Bispo sentiu na pele a segregação no ambiente de trabalho, a desconfiança sobre suas guias ritualísticas do candomblé e a rejeição na vida afetiva.  O ator partiu para investigar essas cicatrizes do corpo e da alma a partir de sua própria vivência. E foi justamente o insucesso (?) na vida amorosa o gatilho para transformar suas experiências em  material dramatúrgico da montagem.

Marconi Bispo em Luzir é Negro

Marconi Bispo em Luzir é Negro. Fotos: Ricardo Maciel / Divulgação

A mentalidade misógina, homofóbica e racista e o fundamentalismo religioso e político são interrogados na montagem Luzir é Negro, a partir das experiências do intérprete, das violências simbólicas (e físicas) a que está exposto como homem negro, homossexual e do candomblé. Para traduzir a dimensão das ofensas e mágoas, a peça utiliza os procedimentos do biodrama e do teatro documental.

A dramaturgia é complementada por referências a textos como Os Negros, de Jean Genet, de Arena Conta Zumbi, musical escrito por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, Gota D’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes. Além de referências a acontecimentos como o que envolveu o diretor Cláudio Botelho, gravado em um rompante racista e em outras matrizes documentais: redes sociais, matérias e artigos de jornal, documentos históricos, etc.

Marconi, também cantor, é acompanhado em cena pelos músicos Kiko Santana e Basílio Queiroz.

O racismo mata. Das mortes físicas, o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, deste ano, aponta que 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados: 63 por dia, um a cada 23 minutos.

Mas há muitas outras formas de apagamento. Também cruéis. Luzir é Negro trata um pouco disso tudo a partir das histórias e memórias de um homem negro de 39 anos – destes, 21 dedicados ao teatro – situado no Pernambuco do Recife, no Nordeste do Brasil, um país que vem dando macha a ré nas conquistas pelos direitos e cidadania.

FICHA TÉCNICA
Atuação: Marconi Bispo.
Direção: Rodrigo Dourado.
Dramaturgia: Marconi Bispo e Rodrigo Dourado.
Preparação Corporal: Pollyanna Monteiro.
Direção de Arte: Marcondes Lima (figurinos) e Plínio Maciel (elementos cenográficos e adereços).
Coreografias: Edson Vogue.
Iluminação: João Guilherme de Paula.
Edição de trilha: Rodrigo Porto.
Assessoria de Imprensa: Cleyton Cabral.
Músicos: Kiko Santana (guitarra e direção musical) e Basílio Queiroz (contrabaixo).
Fotos e vídeos: Ricardo Maciel.
Identidade Visual: Arthur Canavarro.
Assistência de Produção: Rodrigo Cavalcanti.
Realização: Teatro de Fronteira.

SERVIÇO
Luzir é Negro, do Teatro de Fronteira
Quando: Sessão especial neste domingo (04/12), às 17h.
Onde: Espaço O Poste (rua da Aurora, 529, Boa Vista)
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)

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