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O corpo como documento
e o tribunal da memória
Crítica: Quem matou meu pai
Por Ivana Moura

Édouard Louis assume o papel de si mesmo em Quem matou meu pai. Foto Silvia Machado / MITsp 2026

Quem matou meu pai, na encenação de Thomas Ostermeier com Édouard Louis em cena, se constrói a partir de um gesto aparentemente simples mas avassalador: transformar o retorno do filho à casa do pai numa investigação sobre como a violência social se inscreve nos corpos. O que está em jogo ultrapassa a reconstituição de uma história familiar. A peça expõe uma engrenagem em que classe, masculinidade, trabalho e sexualidade deixam de ser assuntos paralelos e passam a operar como forças que se reforçam mutuamente.

A montagem aposta justamente nessa concentração. Em vez de ilustrar o livro de forma expansiva, escolhe fixar a atenção sobre um corpo, uma voz, poucos objetos e algumas imagens decisivas. A economia de meios produz nitidez. Tudo parece disposto para que o público perceba que, ali, o íntimo é a forma mais concreta do político.

O primeiro aspecto decisivo é a presença do próprio Louis em cena. Sua atuação altera o pacto de recepção. Não se trata do virtuosismo de quem representa um sofrimento, mas da exposição de alguém que se apresenta como portador daquilo que narra. Ainda assim, é importante não romantizar essa presença como se ela fosse puro acesso bruto ao real. Louis também constrói sua aparição, escolhe o que mostrar, o que reter, como dosar a fala, o humor, a pausa, o close, a vulnerabilidade. A autenticidade aqui é forma trabalhada como efeito de verdade.

Essa operação é potente porque o espetáculo ganha em franqueza o que perde em variação. O ritmo por vezes monocórdio, a emissão pouco modulada, a corporalidade não virtuosa criam um regime de presença em que a fala parece menos interpretada do que assumida. Mas a peça não é ingênua nesse ponto. Ela sabe que a autenticidade também é uma performance. E talvez sua força venha justamente dessa tensão entre testemunho e construção.

O trabalho de Ostermeier organiza essa presença sem recobri-la. A cena é mínima: laptop, cadeira, sofá, roupas casuais, espaço quase nu, além de imagens projetadas que acompanham o percurso da memória. Há, sobretudo, a imagem da estrada, que funciona como eixo simbólico da encenação. A projeção contínua de uma via cortando a paisagem rural francesa estabelece o tom do retorno. Não é apenas o caminho de volta para casa; é a figura de um retorno impossível. O filho volta, mas não pode reencontrar o mesmo lugar, porque o tempo, o trabalho e a violência já deformaram tudo. O pai já não é o pai da memória. O corpo agora é outro: quebrado, encurtado, prematuramente incapacitado.

É nesse ponto que a questão de classe se impõe como fundamento da obra de Édouard Louis e, também, desta encenação. Em Quem matou meu pai, a classe não aparece como pano de fundo sociológico, mas como força estruturante da subjetividade. O pai, esse homem duro, é um corpo produzido por determinadas condições históricas de trabalho, por uma cultura operária atravessada pela precariedade, pela humilhação e pelo desgaste físico. Fábrica, desemprego, benefícios cortados, reformas do Estado, dificuldade de mobilidade social. Tudo isso constitui a situação material da família e também seu repertório emocional.

Essa é uma das grandes qualidades do texto e da montagem. Mostrar que a brutalidade é um modo de sobrevivência e, ao mesmo tempo, uma forma de reprodução da opressão. A pobreza não aparece apenas como falta de dinheiro. Ela se manifesta como escassez de tempo, de linguagem, de repertório, de margem para delicadeza, de possibilidade de imaginar outros modos de existir. Numa família pobre, esmagada pelo trabalho e por sucessivas perdas, a masculinidade endurecida não é um detalhe cultural; é uma tecnologia precária de defesa. Uma defesa destrutiva, mas ainda assim defesa.

Mas há uma questão crucial: a classe do pai é a mesma classe do filho? O filho saiu da classe operária. Ele ganhou linguagem, educação, capital cultural. Ele agora circula em festivais internacionais, publica livros, é reconhecido como intelectual. Ele não é mais da classe operária.

Então, quando Louis volta para acusar a classe que o oprimiu, ele está falando de dentro ou de fora? Há uma diferença política importante aí. A denúncia de Louis é uma denúncia de classe, ou é uma denúncia de quem saiu da classe e agora a observa de fora, com a distância e o privilégio de quem conseguiu escapar?

A peça não ignora essa questão – ela a encena. Mas talvez não a resolva completamente. Há algo de ambíguo em Louis estar em cena, falando sobre a destruição do pai, enquanto ele mesmo é o exemplo vivo de mobilidade social bem-sucedida. Essa mobilidade pode ser lida como conquista pessoal, mas também como traição de classe. 

Encenação de Thomas Ostermeier. Foto Silvia Machado / MITsp 2026

Ao mesmo tempo, a peça não cai no determinismo fácil. O pai é vítima da estrutura, mas não deixa de ser agente da violência. Essa tensão é importante. Historicizar a homofobia e a dureza masculina não significa absolvê-las. Significa compreendê-las na espessura concreta em que surgem. O espetáculo é mais forte quando mantém essa duplicidade. O pai é ferido e fere; é esmagado e reproduz esmagamento.

Daí a importância da genealogia da masculinidade que a peça desenha. Há o pai, há o pai do pai, e há Édouard. Não são apenas três indivíduos, mas três posições numa cadeia de transmissão da dureza. O avô surge como sombra de um regime masculino mais fechado, mais autoritário, mais impermeável à expressão afetiva. O pai aparece como herdeiro e vítima desse regime; ele reproduz a norma ao mesmo tempo que é destruído por ela. Sua identidade masculina depende do trabalho pesado, da autoridade doméstica, da recusa ao sensível. Mas o mesmo mundo que exige isso dele é o mundo que o quebra fisicamente. O filho, então, ocupa o lugar da falha e da crise; aquele cujo corpo, voz, gosto e desejo não se acomodam à forma dominante do masculino.

A peça é perspicaz ao mostrar que a sexualidade de Édouard, dentro dessa família careta, pobre e com pouco repertório intelectual, não surge como “diferença individual”, mas como ponto de colapso de uma ordem doméstica inteira. Se ser homem é a única forma de conservar alguma dignidade num universo de humilhação de classe, qualquer fissura nessa identidade se torna intolerável. O filho é interpretado como ameaça porque torna visível que aquele ideal de masculinidade não é natural: é uma construção frágil, violenta, sustentada à força.

É aí que entra a camada psicológica mais funda do espetáculo. O jovem que se vê julgado, vigiado, ridicularizado por sua sexualidade vive  a dor da rejeição, mas vive também a experiência devastadora de perceber que o amor familiar pode ser condicional. A homofobia doméstica produz efeitos profundos: vergonha, medo, ressentimento, desejo de fuga, necessidade desesperada de aprovação, culpa por decepcionar, raiva por precisar pedir licença para existir. Louis trabalha bem essa zona afetiva porque não purifica seus sentimentos. Ele não se apresenta como vítima angelical. O que aparece é um sujeito dilacerado por afetos contraditórios. Ele quer escapar da família, mas quer ser reconhecido por ela; quer denunciar o pai, mas também protegê-lo; sente amor, ressentimento, piedade, culpa, ternura e ódio em proporções instáveis.

Essa ambivalência é um dos maiores trunfos de Quem matou meu pai. A peça entende que o sofrimento não produz discernimento espontâneo. E talvez seja por isso que um dos momentos mais fortes seja justamente a admissão da vingança. Quando Louis relata que, depois de ter sido ferido pelo comentário da mãe – reproduzindo o juízo da vizinhança sobre haver “um viado” na família -, provoca uma briga entre o pai e o irmão, a dramaturgia abandona a zona confortável da denúncia linear e entra num terreno mais incômodo. Aqui, a obra rejeita a imagem da vítima íntegra e moralmente superior. Mostra como a humilhação pode se internalizar e retornar sob a forma de cálculo, crueldade e retaliação íntima.

Esse movimento é central porque revela que a violência social não se limita a descer de cima para baixo; ela se infiltra nos vínculos, contamina afetos, redistribui-se na escala doméstica. O sofrimento não eleva automaticamente ninguém. Às vezes, deforma. E reconhecer isso é uma das qualidades mais rigorosas de Louis. Ao mesmo tempo, a peça também não faz dessa vingança uma absolvição. Ela a expõe como gesto compreensível, mas perturbador. O filho também faz escolhas. O filho também pode ferir. Isso complexifica a narrativa sem dissolver a assimetria de poder que a originou.

Trilha sonora pop permite que Louis  imite seus ídolos. Foto Silvia Machado / MITsp 2026

A trilha sonora e a cultura pop cumprem papel decisivo nessa arquitetura afetiva. A presença de Aqua ajuda a compor uma atmosfera sarcástica e crítica disfarçada de diversão; enquanto Britney Spears e, sobretudo, Céline Dion, por meio de My Heart Will Go On, vem com o registro da memória sentimental compartilhada, do melodrama, do gosto interditado, daquilo que pode ser vivido como “coisa de viado” ou “coisa que homem não faz”. Quando Louis dubla, canta, brinca, dá close, ele está encenando um corpo dissidente, cuja performance pop tensiona a disciplina do masculino operário.

Nesse sentido, o episódio de Titanic é exemplar. Sim, há algo de clichê nele, mas é um clichê bem-construído. O menino deseja o filme; o pai decreta que aquilo não é “coisa de homem”; mais tarde, o filme aparece num combo, e a lembrança retorna como dobra afetiva inesperada. Ao som de Céline Dion, o espetáculo toca numa memória sentimental coletiva para reabrir, em escala íntima, a pergunta sobre o que a masculinidade proibiu ao pai e ao filho. O melodrama, aqui, é forma de acesso a uma verdade afetiva que o discurso político sozinho não alcançaria. O pedido de perdão e o “tudo bem” não cancelam a violência, mas suspendem por um instante a lógica do dano absoluto. Essa suspensão não reconcilia plenamente, mas humaniza.

O risco de manipulação emocional existe, claro. Mas talvez seja mais interessante reconhecer que a peça usa a emoção como instrumento de pensamento. Ela sabe que não basta enumerar reformas, cortes e nomes de ministros. É preciso fazer sentir o que essas políticas produzem no corpo, no amor, no desejo, na memória de um filho e na ruína de um pai.

Políticos franceses são apontados como responsável pela destruição do saúde do pai de Louis 

É por isso que o “J’accuse” final funciona com tanta força. Quando Louis nomeia Hollande, Valls, El Khomri, Hirsch, Sarkozy, Macron, Bertrand, Chirac – ou variações da lista conforme a circulação da montagem -, o teatro se transforma em tribunal. Cada nome rompe a abstração da política e devolve rosto e responsabilidade àquilo que tantas vezes aparece como fatalidade econômica. O corpo destruído do pai deixa de ser “caso triste” para se tornar denúncia histórica. A peça insiste: a história do sofrimento tem nomes. A história do corpo denuncia a história política.

É certo que há aí uma inflexão didática. Depois de tanta ambiguidade afetiva, de tanta complexidade psíquica e de tanta espessura moral, a enumeração direta de responsáveis pode parecer uma simplificação. Mas essa frontalidade também cumpre uma função: impedir que a plateia saia apenas comovida. O espetáculo rejeita a leitura puramente íntima. Obriga o público a conectar a lágrima ao orçamento, o afeto à lei, o adoecimento ao Estado. Em vez de diluir a política em metáfora, recoloca a política como mecanismo concreto de produção de sofrimento.

Essa opção recoloca outra tensão importante: a da gentrificação do trauma – o processo pelo qual a dor de classe é transformada em espaço de consumo cultural de elite. Quando uma obra como essa circula em festivais prestigiados, diante de plateias intelectualizadas, surge inevitavelmente a pergunta sobre o destino da dor operária quando transformada em valor cultural. Até que ponto o espetáculo denuncia uma violência real e até que ponto essa mesma violência é domesticada e assimilada pelo próprio sistema que a acolhe? A contradição existe e não deve ser apagada. Há algo de desconfortável – e talvez inevitável – em ver a dor operária ser consumida como objeto de prestígio por quem, muitas vezes, está protegido das condições materiais que ela denuncia. 

Mas talvez seja interessante não oferecer solução para essa contradição, mas em forçar a plateia a habitá-la. Édouard Louis denuncia o sistema enquanto circula por ele, levando para os salões respeitáveis da literatura e do teatro internacional corpos e histórias que normalmente são expulsos do debate público. Não há pureza nisso, mas há fricção – e essa fricção importa. Porque o espetáculo pode, sim, falar para convertidos, mas pode também deslocar o olhar de quem nunca se viu obrigado a pensar que, para a classe trabalhadora, política nunca foi abstração: sempre foi pão, coluna, remédio, exaustão, vergonha, sobrevivência.

Quem Matou Meu Pai é um espetáculo que não oferece pureza política, não oferece inocência psicológica, não oferece catarse fácil. Oferece uma pergunta insistente e incômoda: quem matou meu pai? E devolve ao espectador a resposta mais dura: às vezes não foi um indivíduo, mas um conjunto de políticas, uma classe em guerra contra outra, uma masculinidade que mutila para sobreviver, uma família que ama mal porque aprendeu a viver sob privação. Para certas vidas, política nunca foi conceito. Sempre foi corpo.

FICHA TÉCNICA
De Édouard Louis
Direção: Thomas Ostermeier
Com: Édouard Louis
Vídeo: Sébastien Dupouey, Marie Sanchez
Cenografia: Nina Wetzel
Figurino: Caroline Tavernier
Composição: Sylvain Jacques
Dramaturgismo: Florian Borchmeyer, Elisa Leroy
Produção: Anne Arnz, Elisa Leroy
Iluminação: Erich Schneider
Assistência de direção: Elisa Leroy, Amalia Starikow
Assistência de cenografia: Felix Remme
Gerente de palco: Roman Balko

Quem Matou Meu Pai é uma produção da Schaubühne Berlin e do Théâtre de la Ville Paris.
Apoiado pelo Departamento do Senado para Cultura e Europa (Berlim, Alemanha)

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MITsp 2026:
A batalha pela sobrevivência
entre a consagração europeia
e a urgência decolonial

Historia da Violência, com o escritor francês Édouard Louis (de costas) dirigido pelo alemão Thomas Ostermeier. Foto: Arno Declair / Divulgação

Quem matou meu pai. Foto: Jean Louis Fernandez / Divulgação

Vigiada e Punida, da canadense Safia Nolin, sobre ódios nas redes sociais. Foto: Maxim Pare Fortin 

Onze anos incendiários. Assim a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo se apresenta em 2026 como uma chama que resiste. Sob o mote da “violência e suas diversas formas de enfrentamento”, o festival se desenha como um espelho das fraturas, tensões e urgências do nosso tempo, ao mesmo tempo em que a própria mostra trava uma luta visceral pela sobrevivência em meio a um cenário de recursos em declínio.

A identidade visual desta edição, assinada pelo designer pernambucano Hélter Pessôa, materializa essa urgência através de um elemento simples e potente: o fogo. Uma caixa de fósforos resguarda a possibilidade de mudar o estado das coisas. Diante das incertezas, a arte persiste e o gesto teatral irradia como faísca flamejante, potencializando ações de diversidade e democracia. Três palitos de fósforo são um “lembrete de que essa chama não pode se apagar”, um convite para o mergulho nas profundezas do que o teatro ainda pode ser.

A estrutura curatorial da MITsp 2026 pode ser lida a partir de duas grandes linhas de força que operam em tensão constante: a consagração europeia, ancorada no prestígio de um teatro intelectualizado, de grande circulação internacional, que disseca as violências do Ocidente com precisão cirúrgica, e a urgência decolonial, uma força que emerge da necessidade, da luta pela existência e da resistência de corpos e territórios historicamente silenciados. Essas linhas revelam, na verdade, as contradições estruturais do próprio festival: entre o desejo de ser uma ponte global e a realidade de uma instituição brasileira operando com menos de 30% do orçamento necessário; entre a legitimidade do cânone europeu e a urgência de vozes que não podem esperar por reconhecimento internacional.

A primeira linha de força é encabeçada pela dobradinha entre o escritor francês Édouard Louis e o diretor alemão Thomas Ostermeier. O díptico formado por História da Violência – que parte de um estupro sofrido pelo autor para falar de homofobia e racismo – e Quem Matou Meu Pai – onde Louis expõe como a desigualdade destruiu seu pai – funciona como uma contundente análise social. Esses nomes  – Thomas Ostermeier, Édouard Louis e Milo Rau – representam um  teatro europeu que circula em festivais de renome mundial (Avignon, Veneza, etc). Eles são o “establishment do teatro contemporâneo”, operando dentro de um circuito já legitimado, com recursos, infraestrutura e visibilidade garantidos. A presença de Milo Rau com A Carta reforça essa curadoria que aposta no teatro como testemunho político, onde a ficção e a vida se confundem na formação de um ator entre gerações e conflitos, para refletir sobre as estruturas de poder. Embora essas obras sejam criticamente relevantes – dissecando homofobia, racismo e hipocrisia das democracias ocidentais – elas o fazem através de uma estética já consagrada e, de certa forma, “segura” para um grande festival internacional.

Contrapondo a hegemonia europeia, emergem “lugares de enunciação mais periféricos” que carregam uma potência distinta. Do Lado de Cá, do congolês Dieudonné Niangouna, traz a perspectiva do exílio e do artista cindido entre dois mundos – uma vinda celebrada por Antonio Araújo, idealizador e diretor artístico da MITsp, como uma “vitória” após o trauma de sua participação virtual em 2019, impedida pela perseguição política em seu país.

Vigiada e Punida, da canadense Safia Nolin com direção de Philippe Cyr, transforma o ódio misógino e gordofóbico das redes sociais em matéria cênica, oferecendo uma resposta à violência contemporânea. Mas talvez a presença mais  “radicalmente necessária” seja a abertura de processo de Três Estações e um Corpo, do artista palestino Mohammed Al Qudwa com direção da brasileira Martha Kiss Perrone. Em meio a um “genocídio em curso”, a obra surge como um testemunho urgente e fragmentado. A escolha de apresentar um trabalho em construção, sobre um corpo que sobrevive a cinco guerras, coloca o teatro em seu estado mais urgente e necessário: “o de dar nome ao indizível, de insistir na existência diante da aniquilação”.

Mandinga Major Ball Ballroom integra a PERFORMA12h. Foto: Alass Derivas / Divulgação

Se a ala internacional tematiza a violência, os espetáculos nacionais respondem com estratégias de resistência. A MITbr – Plataforma Brasil se firma como “uma mostra que luta pela democracia e reconhece a diversidade das vozes, ocupando todos os espaços”, nas palavras do produtor Guilherme Marques, um dos idealizadores e diretor geral de produção. Aqui, a urgência decolonial se torna protagonista.

Da Convocatória MITbr – Plataforma Brasil, em TA – Sobre Ser Grande, o Corpo de Dança do Amazonas se inspira na cosmologia Tikuna para discutir a resiliência dos povos originários. Para Mariela celebra quatro décadas do Grupo Sobrevento tecendo uma poética da imigração boliviana que, a partir de objetos cotidianos e sonoridades ancestrais, aponta a tensão entre sonhos de simplicidade e as complexidades do deslocamento. Em Epílogo (PR), a dupla chameckilerner usa corpos de idades e habilidades diversas para “dinamitar o etarismo e a ditadura do corpo padrão”.

A criação da PERFORMA12h – uma virada noturna dedicada a artistas negros que vibram na “resistência festiva” -, com curadoria de Rodrigo Severo, materializa a festa como tática de sobrevivência e afirmação política. Neste conjunto estão Aparição, Nego Fugido de Acupe (BA), que reencena a abolição sob a ótica quilombola, ressignificando a história através de uma encenação de reparação histórica que coloca os negros como protagonistas da conquista da abolição da escravatura; e Mandinga Major Ball de Puma Camillê (BA), um ritual contemporâneo de celebração e denúncia que articula sabedorias ancestrais às urgências do presente pela perspectiva LGBTQIAPN+, afirmando o corpo como linguagem política, arquivo vivo e estratégia de sobrevivência através do diálogo entre capoeira e vogue.

Essa energia se anuncia em outros espetáculos da MITbr. Na aba Espetáculos Convidados, Vogue Funk (RJ), da carioca Patfudyda, funde baile funk e vogue ball, festejando a potência criativa de corpos periféricos e dissidentes. Das vielas para os palcos, dos fios emaranhados dos postes ao fio dental das gatas: baile funk e vogue ball se cruzam neste espetáculo de dança. Originados em contextos geográficos e cronológicos distintos, os movimentos têm em comum a origem periférica e predominantemente preta, além de serem símbolos de resistência cultural, política e social. Também nesta aba, Filoctetes em Lemnos, de Vinicius Torres Machado, dirigido por Marina Tranjan, acompanha Filoctetes: herói, mas não o suficiente para suportar a dor de uma ferida que não cicatriza. A partir do mito grego, o artista apresenta a matéria do próprio corpo após a retirada de parte do seu nervo ciático e musculatura posterior, em decorrência do tratamento de um tumor, tratando da fragilidade corporal como experiência encarnada

A MITbr também apresenta aberturas de processo que revelam outra dimensão da criação teatral contemporânea. Wagner Antônio, com SSOL – Paisagem 03, expõe o laboratório de uma dramaturgia visual onde luz, som e vídeo atuam como linguagens ativas – uma investigação de dez anos sobre como integrar essas linguagens em espaços instalativos que borram as fronteiras entre passado, presente e futuro. Cris Meirelles e Jaya Batista, com Jukybox, compartilham uma criação em processo que emerge das festas populares e das vivências LGBTQIAPN+, onde a performance cênico-musical se constrói a partir de laboratórios como a Jukermesse e o Bailarico da Juky — experimentos que dialogam com manifestações populares como festividades e protestos. Essas aberturas de processo expõe as construções com suas fraturas, os riscos e as escolhas que constituem a criação. 

SSOL Paisagem 03, do Wagner Antônio. Foto: Micaela Wernicke

Cavucada – A Festa Não Será Amanhã. Foto: Patrícia Almeida

No projeto Conexões Centro-Oeste, com curadoria de Galiana Brasil e Carlos Gomes, do Itaú Cultural, Cavucada – A Festa Não Será Amanhã (MS), da Cia Dançurbana, dissolve o palco e transforma o teatro em pista de dança, um ato político em si. A Cia Dançurbana comemora mais de duas décadas de trajetória na pista de dança. Sem divisão entre palco e plateia, artistas e público rememoram juntos coreografias presentes no repertório da companhia, além de se movimentarem embalados por sonoridades festivas de diferentes estilos. O espetáculo-festa, cujo título faz referência a um passo de dança do brega funk, passeia por elementos presentes no hip-hop, no vogue, na dança contemporânea e em coreografias do TikTok. A obra privilegia o encontro, ressaltando seu potencial político e artístico, e valoriza a liberdade de cada intérprete.

A integração do Conexões Centro-Oeste à MITbr evidencia um movimento importante de “descentralização do olhar”, trazendo para São Paulo a produção de artistas de Brasília, Goiás e Mato Grosso. Trabalhos como Atrás das Paredes, focado na violência doméstica , galhada e Cabeça de Toco (refletindo sobre colapso ambiental), e Republikkk e Encruzilhada Não É Beco (processando a herança política de um Brasil polarizado) ampliam a geografia do festival enquanto questionam a própria centralidade de São Paulo como epicentro da produção teatral brasileira.

Ao longo da MITsp, três mostras acontecem na cidade de São Paulo, de forma paralela, com trabalhos e processos artísticos nacionais voltados ao público em geral e a programadores nacionais e internacionais: a Farofa do Processo, o Instituto Capobianco e o iBT – Instituto Brasileiro de Teatro. A programação de cada evento poderá ser consultada em suas respectivas redes sociais e sites, com dias e horários disponíveis e abertos ao público.

Prática da crítica

Um microcosmo da luta pela própria sobrevivência da crítica teatral se refletiu na negociação para o retorno da Prática da Crítica, eixo de reflexão que acompanha a mostra. Após a ausência do formato em 2025, uma carta aberta da AICT-Brasil (Associação Internacional de Críticos de Teatro) e uma pergunta de um integrante da associação durante a coletiva pressionaram a organização a fazer um esforço a mais como demonstração da importância deste espaço. O diretor Antonio Araújo confirmou a parceria, mas revelou suas limitações orçamentárias: “Neste momento a questão que a gente vai conversar é sobre o tamanho desta parceria”, disse ele em fevereiro.

Ações realizadas nos primórdios do festival, como a contratação de críticos residentes de outras regiões para uma cobertura remunerada e integral do festival, não se concretizaram diante da escassez de verbas. A existência da crítica, assim como a do próprio festival, está atrelada à disponibilidade de recursos. A crítica, como definiu um integrante da AICT, é “quase que a prima pobre da cena teatral”, lutando para caminhar junto.

A Prática da Crítica retorna em um novo modelo “piloto”, menor, com cobertura crítica em texto e vídeo realizada por quatro integrantes da AICT residentes em São Paulo: Daniel Guerra (coordenador), Artur Kon, Amilton de Azevedo e Malu Barsanelli. Essas críticas textuais serão disponibilizadas no site da MITsp, enquanto pílulas críticas em vídeo circularão no Instagram da MITsp e da AICT-Brasil. A curadoria geral da Prática da Crítica é coordenada por Daniel Guerra, Guilherme Diniz, Ferdinando Martins e Julia Guimarães, com colaboração de integrantes da AICT-Brasil.

A programação de duas mesas fazem parte da Prática da Crítica, oferecendo espaços de reflexão sobre a própria condição da crítica e sobre as obras apresentadas. A primeira mesa, Autonomia na Crítica Contemporânea: Paradoxos, Disputas e Dissensos, acontece em 9 de março, segunda-feira, das 14h às 15h30, no iBT – Instituto Brasileiro de Teatro (1º andar), com entrada gratuita e reserva de ingresso pela Sympla. Reúne Ivana Moura, Kil Abreu, Luciana Romagnoli, Marcos Alexandre, Wellington Junior e Valmir Santos para irradiar sobre os espaços de autonomia para a crítica teatral contemporânea, a precarização econômica do ofício, as relações entre autonomia e dissenso, e o lugar da crítica na esfera pública brasileira, etc.

A segunda mesa, Cenas Contemporâneas: Panoramas Críticos, ocorre em 15 de março, domingo, das 13h às 14h, no TUSP, também com entrada gratuita e reserva pela Sympla, propondo que integrantes da Prática da Crítica debatam aspectos dos espetáculos apresentados e, a partir deles, questões estético-políticas sobre a cena teatral contemporânea. Participam Amilton de Azevedo, Artur Kon, Daniel Guerra  e Malu Barsanelli 

Guilherme Marques e Antonio Araújo. Foto Silvia Machado / Divulgação

Apesar da potência curatorial e das novidades, um velho fantasma assombra os bastidores da MITsp: a precariedade financeira estrutural que define – e limita – cada decisão tomada. Guilherme Marques expõe a fratura entre o desejo e a realidade. Com um orçamento captado de R$ 3,7 milhões, o festival opera com menos de 30% do que seria necessário (R$ 13 milhões) para cumprir sua vocação original de apresentar 15 produções nacionais e 15 internacionais. Essa realidade impõe uma curadoria oculta, ditada não apenas pela relevância artística, mas pelo custo.

O que torna essa situação ainda mais reveladora é a estrutura de financiamento que a sustenta. Diferentemente de festivais europeus como Avignon – que operam com €17 milhões (cerca de R$ 105 milhões) em grande parte subsidiados pelo Estado – a MITsp depende fundamentalmente de captação privada. Essa diferença de escala vai além da questão orçamentária, ela define modelos distintos de autonomia curatorial, de capacidade de risco artístico e de possibilidade de experimentação. A MITsp persiste apesar de. Persiste apesar da escassez, apesar de um sistema que força seus curadores a negociar “o tamanho da parceria” com a crítica, com os artistas, com a própria possibilidade de existência.

 

Serviço
MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – 11ª Edição
06 a 15 de março de 2026
Programação completa no site www.mitsp.org

Identidade visual criada pelo designer pernambucano Hélter Pessôa

  • A cobertura da MITsp que será realizada pelo Satisfeita, Yolanda? só é possível graças a ação entre amigos que colaboraram com apoio afetivo, material e financeiro para o  deslocamento, estadia e outras despesas da crítica Ivana Moura do Recife para São Paulo.
    Agradecemos ao apoio e à parceria de Paula de Renor, Carla Estefan, Nilza Lisboa, Ricardo Florêncio, Ronaldo Correia de Brito, André Brasileiro, Tadeu Gondim, Lina Rosa Vieira, Pollyanna Diniz, Carla Valença, Marcelo Canuto, Arquimedes Amaro, Eneida Moura, Elisabete Moura, Eliane Moura, Everson Melquíades, Dione Barreto, Maria Paula Costa Rêgo, Cida Pedrosa, Silvia Sabadell, Ely Anna Oliveira, Ana Paula Andrade, Fátima Holanda, Júnior Sampaio, Celso Curi, Wesley Kawaai, Silvana Meireles, Inocência Galvão…

  • O Satisfeita, Yolanda? passa a aceitar apoios financeiros diretos para sua manutenção, já que não dispomos de editais ou outras verbas de suporte neste momento. Quem desejar colaborar com esta casa, que completa 15 anos existência neste ano de 2026, pode depositar qualquer valor na chave PIX (81) 99996-2372.
    Arigato!

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