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As motivações para a criação artística

Lançamos para alguns artistas que trabalham em grupos a provocação sobre o que os inspira a fazer arte e se há diferença que essa labuta artística seja gestada no Nordeste do Brasil. Essas reflexões nos ajudaram a escrever o texto Teatro de grupo no Nordeste: motivações para criar, a segunda coluna do Satisfeita, Yolanda? no site do Itaú Cultural.

Confira aqui a coluna Teatro de grupo no Nordeste: motivações para criar

Conversamos com artistas do O Poste Soluções Luminosas (PE), Casa de Zoé (RN), Coletivo de Teatro Alfenim (PB), Grupo Ninho de Teatro (CE), Cia Biruta de Teatro (PE) e Magiluth (PE).
Reunimos aqui todas as respostas desses criadores na íntegra. Foram conversas por mensagens de áudio e de texto, que revelam minúcias do entendimento sobre arte, Nordeste e posicionamento no mundo que vivemos.

Confira aqui a primeira coluna do Satisfeita, Yolanda? no site do Itaú Cultural

ENTREVISTAS

Naná Sodré, Samuel Santos e Agrinez Melo, criadores do O Poste Soluções Luminosas. Foto: Arlison Vilas Bôas

SAMUEL SANTOS, diretor do grupo O Poste Soluções Luminosas, do Recife, Pernambuco

O que me inspira é a vida. A possibilidade de construir na arte, no teatro, aquele momento de condensação entre a realidade, o sonho, a poesia, para gerar reflexão. Criar, conceber, estar no teatro, é um processo de evolução e de cura. Quando penso nessas inspirações vem as transpirações, o respirar e o fazer respirar com trabalho feito com a arte, pela arte, para o público. O teatro é por natureza concebido para o outro, pede a participação, a fruição do outro e os outros estarem em nós. Acredito que o teatro me salvou, me transformou e é com esses princípios que sigo em inspiração. Se não acreditar que a arte que faço pode salvar ou transformar alguém, como fez comigo, não há motivo para continuar. E continuo…

Faz toda diferença criar no Nordeste. Todas as minhas raízes são daqui. Toda a minha construção social, política, filosófica e ancestral vem desses Nordestes. Vem das matrizes africanas e indígena. Sou filho de uma descendente de indígena da Paraíba, sou recifense, sou da periferia da Zona Norte, sou filho de um homem do interior de Pernambuco. Todas as minhas raízes estão fincadas aqui. Claro que o meu filtro maior é dessa região, é da minha nação. Mas o trabalho que faço com o meu grupo, O Poste Soluções Luminosas, tem como poética a antropologia teatral, a transculturalidade, tendo como base a pesquisa de um corpo dentro das matrizes de religião africana, como o candomblé e a umbanda. Criamos aqui a primeira escola de Antropologia Teatral, a Escola O Poste de Antropologia Teatral, onde temos disciplinas como: Capoeira no jogo do ator, Tradições da Mata: Cavalo Marinho e Maracatu de Baque Solto na construção do ator, Dramaturgia dos orixás – Práticas de Treinamento Ancestral para o Ator, disciplina essa que surgiu dentro da pesquisa “O corpo ancestral dentro da Cena Contemporânea”, desenvolvida pelo Grupo O Poste Soluções Luminosas dentro dos terreiros de matriz africana. Toda essa relação das disciplinas com a cultura preta, nordestina, tem um propósito de ser: o de decolonizar, colocar também o nosso olhar como construtores para a formação do ator.

Temos aqui um espaço cultural, o Espaço O Poste, onde fazemos as nossas formações, apresentamos os nossos espetáculos e oferecemos o espaço para que outros grupos se apresentem. É um espaço de fruição, formação e intercâmbio. Pelo Espaço O Poste já passaram artistas da Argentina, Portugal, Colômbia, França, Angola. E por aqui esteve Eugenio Barba e Julia Varley, do Odin Teatret, da Dinamarca.

Fora isso, os espetáculos do nosso repertório já viajaram pelo Brasil e pelos principais festivais internacionais. Os nossos espetáculos já se apresentaram na Dinamarca, no Uruguai. Cordel do Amor sem Fim foi apresentado em 22 cidades ribeirinhas banhadas pelo Rio São Francisco. Apresentamos por todo o Nordeste. Fomos pouco para o Sudeste.

É uma lacuna que não preenchemos ainda e claro que isso conta no quesito visibilidade, projeção. Mas a nossa projeção está naquilo que objetivamos: levar o teatro a comunidades que raramente são pensadas ou cogitadas nos projetos de circulação ou formação. Fomos! Projetamos e visibilizamos o teatro na sua forma mais plena e democrática. Isso nos orgulha. Talvez se não fôssemos da região Nordeste, não teríamos essa preocupação ou objetivo. Sou grato, sou gratidão e axé.

Titina Medeiros, da Casa de Zoé. Foto: Brunno Martins

TITINA MEDEIROS, atriz do grupo Casa de Zoé, de Natal, Rio Grande do Norte

O que me inspira a criar e fazer arte é a nossa própria existência, nossas conexões com outros seres, com o mistério e com as incertezas. A arte, além de me dar oportunidade de ter voz, também me permite o delírio.

A verdade é que sempre fiz teatro no Nordeste, em um estado que não tem tradição de boas políticas para a cultura, e penso que essa realidade nos faz ter ainda mais consciência da importância de permanecermos no Rio Grande do Norte.

Sou de uma geração de artistas de teatro que resolveu ficar. Que se negou a ir para o Sudeste tentar a vida. Nossa lógica era: precisamos fomentar o teatro no nosso estado para que nossos conterrâneos nos conheçam e conheçam nossas obras. Era importante para nós essa representatividade. Daquele tempo para cá já se passaram quase trinta anos, e acredito que nossa estratégia foi e continua valiosa. Agora tudo isso só foi possível devido ao teatro de grupo, que nos uniu por uma causa comum.

Coletivo de Teatro Alfenim. Foto: Alessandro Potter

MÁRCIO MARCIANO, diretor e dramaturgo do Coletivo Alfenim, de João Pessoa, Paraíba

Como artista, sinto necessidade de dar um testemunho crítico sobre as contradições de meu tempo. O que me inspira é a convicção de que o ser humano, apesar de seus temores, misérias, baixezas e vilanias, é capaz de ser solidário na luta por um mundo mais habitável para todas e todos. Fazer arte é imaginar, no campo simbólico, o ensaio dessa transformação.

Da perspectiva dos vencidos, todo campo é um campo de luta possível. Não se trata de idealismo ou de uma noção romantizada do fazer artístico. Mas da constatação de que é necessário travar a guerra em todas as frentes. Nesse sentido, apesar das diferenças de ordem econômica e de circulação da forma mercadoria – e não podemos esquecer que a arte é também uma mercadoria –, todo lugar tem seu espaço possível de interlocução.

MONIQUE CARDOSO, atriz do Grupo Ninho de Teatro, do Crato, Ceará

Eu parto desse termo teatro nordestino, que já me inquieta bastante, porque eu não escuto por exemplo, teatro sulista ou teatro sudestino. Existe um termo forjado, e não por nós, nordestines, mas por outres, que tem a ver com todo o processo histórico desse país, de nos colocar numa posição de inferioridade na maioria das vezes. Para mim, o teatro nordestino é o teatro do mundo, que pode ser feito aqui ou em qualquer outro lugar. Que sim, carrega muito dos nossos corpos, das nossas memórias, dos nossos territórios, das nossas experiências, como qualquer outro teatro, como qualquer outro processo criativo feito por sujeitos. Isso não nos difere dos demais.

Independente das escolhas estéticas, éticas, políticas que são feitas no processo criativo, num trabalho montado por artistes nordestines sempre vai haver esse rótulo, essa chancela do teatro nordestino. Aliás, espero que não haja sempre, mas sempre há essa tendência a rotular. Espero que os debates, os trânsitos, os diálogos, façam com que a gente vá desmistificando, descontruindo uma série de estereótipos que foram criados, de ideias do que é uma arte produzida no Nordeste, que tem sempre como referência a ideia de seca, de fome, de miséria, de retrocesso. E essa é uma visão muito limitada do que é o Nordeste, do que seria o Nordeste, uma visão construída pela mídia e reforçada por tantos, desde políticos a empresas, a grandes veículos de comunicação.

Percebo um movimento para que a gente possa criar narrativas, ampliar essa percepção. Acho que essa coisa, de não ouvirmos teatro sudestino, teatro sulista, acho que existe um lugar, no próprio segmento da arte, no próprio nicho de mercado, de colocar o teatro produzido no Nordeste num outro lugar, um lugar inferior, um lugar quase unificado, no sentido de que haveria uma unidade, uma uniformidade no que é produzido aqui. E não é isso, a gente fala de um Nordeste que é imenso, que tem vários Nordestes, vários sotaques, várias experiências, vários territórios, corpos, ideias distintas. Então é muito pequeno limitar a um termo, teatro nordestino. Acho que o teatro nordestino é o teatro do mundo, o teatro que é produzido aqui ou em qualquer lugar do mundo, que parte da relação de um corpo com o espaço, mas que ganha dimensões muitas, camadas muitas. Que ganha uma dimensão a partir do encontro com o outro, da experiência do outro, como qualquer processo artístico, como qualquer encontro com uma obra de arte, independentemente de onde ela é produzida.

Edceu Barboza, ator do grupo Ninho de Teatro, no processo de criação do espetáculo Cabral. Foto: Elizieldon Dantas

EDCEU BARBOZA, diretor e ator no Grupo Ninho de Teatro, do Crato, Ceará

O que me inspira a criar e fazer arte é a possibilidade de dialogar por meio das artes da presença, das artes da cena com o público. E esse público, para mim, é uma microesfera da sociedade. Toda vez que eu, como artista, grupo, me encontro com os espectadores – como coletivo de espectadores e espectadoras – numa audiência teatral, entendo que ali tem uma microesfera da sociedade e que aquela troca pode, em alguma medida, mover, movimentar os sentidos das coisas todas que estão postas. Penso que a gente tem na arte esse campo de provocação. De provocar possíveis deslocamentos. E um olhar de curiosidade para aquilo que está ou estava naturalizado, até então. Um espetáculo ou qualquer obra de outra linguagem, pode ser esse despertador. E, portanto, vai impulsionando as pessoas e a sociedade a desnaturalizar as coisas todas que estão aí, desde as relações de poder ou mesmo questões mais íntimas, do público para o privado, do privado para o público. Isso é o que me inspira a fazer arte.

E quando eu me penso nesse lugar de fazer arte no Nordeste do Brasil, não encontro diferenças no sentido do estar e do ser artista. Não é ser nordestino ou estar na geografia Nordeste que me dá algo de menos ou algo de mais. Apenas sou. Tudo que produzi, sim, é afetado por isso, tudo diverso, por isso tudo múltiplo, por isso tudo contraditório, por isso tudo de tradição, por isso tudo de contemporâneo, de moderno, que é o Nordeste, que sou eu.
Óbvio que, por conta de um projeto que foi pensado para o Nordeste, dentro de uma perspectiva do poder geopolítico, orquestrado pelo Sudeste, pelo Sul/Sudeste do país, a gente encontra algumas dificuldades do ponto de vista de políticas públicas. Mas, para além disso, não vejo diferença.

Quando se pensa o interior do Nordeste entramos nessa mesma questão. Acho que a grande diferença é uma dificuldade ainda maior – e quando eu digo ainda maior é porque entendo que um país como o Brasil, onde a política pública de Cultura é ineficiente para o tamanho do país, quando se está nos interiores do Nordeste, ou outros interiores do Brasil, a dificuldade se amplia, esse abismo fica ainda maior, comparado, por exemplo, às grandes metrópoles. Não que as grandes metrópoles não tenham as suas dificuldades. Acredito que elas acabam sendo diferentes, sobretudo no acesso.

Esse Nordeste que se espera, ou esse Nordeste inventado, como diz o Durval (Muniz de Albuquerque Júnior), não é o Nordeste que nós operamos cotidianamente. Por exemplo, a região do Cariri cearense, onde o Grupo Ninho de Teatro atua, é um território verde, que pulsa água de nascente, cachoeiras, rios, com uma chapada imensa, com a reserva paleontológica importante pro mundo inteiro, com a diversidade, com a pluralidade de tradição popular, com mestres e mestras, com uma produção contemporânea riquíssima. Nesse sentido, estamos pulsando numa mesma ambiência, digamos, de muitos outros espaços do restante do Brasil. Mas que se diferencia disso que inventaram para a gente, que é essa imagem estática, amarelada, seca, rachada, com bichos e gente morrendo. Essa é a invenção. Esse é o projeto inventado, e querem nos encaixotar, mas a gente sabe que, estando aqui, existe um Nordeste diferente a cada cidade, a cada bairro de uma cidade. É um pouco por aí.

Cristiane Crispim, da Cia Biruta de Teatro. Foto: Rayra

CRISTIANE CRISPIM, atriz Cia Biruta de Teatro, de Petrolina, Pernambuco

Penso que o que me inspira a criar e a fazer arte, a mim e ao meu grupo, nesse processo coletivo, colaborativo, é uma coincidência com o que afeta todo e qualquer artista em qualquer lugar do mundo. A gente cria, somos motivados a criar, a partir do que nos afeta, das coisas que atravessam a nossa vida, as coisas com as quais a gente se relaciona, para entender a nossa existência. E isso tudo existe dentro de um contexto. Nossa existência no mundo se relaciona com um contexto. É uma vivência atravessada muito pelo sentido de comunidade, de coletividade, no nosso caso. Nunca foi individual, nunca foi um processo só pessoal. Muito por minha formação tanto na igreja, pela Pastoral da Juventude, Teologia da Libertação, quanto passando a ter contato com os estudos culturais, com as ciências sociais, com a militância política, isso tudo vai nos afetando, me afetando, e a gente cria muito motivado por isso, porque isso é o que atravessa a nossa existência, nossa caminhada no mundo. Parte desse lugar de se perceber quem é, se entender nessa existência e entender que essa existência faz parte de um processo histórico e cultural.

Sobre as diferenças desse fazer no Nordeste, além de pensarmos esse lugar histórico e social que a gente ocupa, na prática, sabemos que tem semelhanças com diversos outros lugares, mas também diferenças, que partem desse contexto. Porque esse contexto é marcado por uma construção política, social, que centraliza recursos, orçamento público, no Sul e Sudeste, e isso afeta obviamente a nossa produção, as dificuldades que a gente enfrenta para criar, para produzir, além das questões de identidade que a gente problematiza. Mas a dificuldade é a falta de recursos, de condições. É a ideia de que se relegou à região Nordeste menos recursos, mais precariedade em tudo. A forma como se entendeu, inclusive na produção cultural, o Nordeste como um lugar de exploração de mão de obra barata, nega a gente a ideia de um lugar de desenvolvimento de cidadanias diversas, múltiplas. Além disso temos uma construção interna mesmo, de uma lógica colonialista, de negação das presenças indígenas, dos movimentos sociais, dos quilombolas, e tudo isso afeta a criação, porque como eu te disse, se pensamos esse nosso lugar, essa nossa existência, vamos acabar fazendo todas essas relações, não só enquanto temática, mas enquanto produção de existência, enquanto grupo teatral. E, ao mesmo tempo que isso nos afeta gerando dificuldades, gerando restrições, também nos motiva a criar formas de resistência, que motivam essa produção. Acaba sendo muito em torno disso, da luta por existir.

E aí quando pensamos interior do Nordeste, vamos para outras camadas dessa lógica colonialista e centralizadora. Temos a situação de marginalização da região Nordeste diante de um “centro” do país, que seria o Sul e o Sudeste, e dentro do Nordeste existem também as capitais, que acabam ocupando esse lugar do centro, e o interior. Essas coisas acabam se multiplicando, essas negações acabam se acumulando no processo, porque vai tendo um afunilamento. E é a periferia da periferia da periferia, a margem da margem da margem. Você tem uma reiteração o tempo todo desse processo, exigindo ainda mais mobilização, ainda mais articulação, ainda mais projeto de resistência, porque é uma tendência em reproduzir a lógica internamente.

Quando falo que há essa relação com a coletividade, com a comunidade, não é nunca em oposição à pessoa, ao sujeito. Mas é saber que essa pessoa, com as suas subjetividades, que não devem ser negadas, pelo contrário, também devem ser estimuladas, para compor essa multiplicidade, essa diversidade. Essas subjetividades devem ser o tempo todo convocadas. Elas são atravessadas por relações, por ser nosso, do ser humano mesmo e não é uma briga, o individual e o comunitário. Não é pra ser. É só uma consciência desse corpo, que se coloca no palco e na vida, e que está sempre em relação. Nunca é só uma dor individual. Mesmo que seja individual, é sempre resultado de um processo maior e negar isso é a gente ceder a uma lógica de pensamento individualista, neoliberal.

Vamos no sentido de não descolar esse subjetivo do coletivo, do comunitário. Mas de forma alguma desconsiderando, inclusive produzindo as tensões que a gente precisa produzir o tempo todo nesse entendimento, nessa caminhada no mundo, de ser, estar e criar.

Grupo Magiluth. Foto: Pedro Escobar

GIORDANO CASTRO, ator do Grupo Magiluth, do Recife, Pernambuco

O que inspira a gente a criar e fazer arte é observar a vida. E aí quando falo de observar a vida não é nesse sentido poético. É observar o que acontece, as coisas que nos afetam. E aí começamos a entender que, de fato, a gente está completamente conectado. Pensamentos revolucionários, progressistas e emancipatórios, por exemplo, são pensamentos que atingem uma Primavera Árabe e um movimento como o Ocupe Estelita. As coisas estão conectadas. E aí temos que ver como é que essas coisas nos afetam, como é que a gente se coloca perante essas coisas e entender que problemas que são universais, são problemas também dentro do nosso quintal. É estar atento à vida, às coisas que estão acontecendo, estar atento ao movimento natural das coisas. Isso é o que nos motiva a estar criando, dialogar com o nosso tempo, que é universal.

Não faz diferença nenhuma criar em São Paulo, criar em Recife, criar num sítio no interior. A diferença, eu acho, é o depois de criar. É fazer com que esse trabalho se mantenha e, de alguma forma, seja bem remunerado por isso. E aí a gente não tem como negar que São Paulo, principalmente, existe muito mais investimento, injeta muito mais dinheiro nisso, do que outros lugares, até pelo tamanho da cidade, pelo próprio movimento. Mas enquanto criar não faz muita diferença. Não é somente uma diferença geográfica, estar criando em São Paulo. É onde está minha cabeça criadora quando eu estou em São Paulo. E a minha cabeça criadora está sempre em Recife, de alguma forma.

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Festival Reside abraça programação pernambucana

Paul Davies conduz Residência Artística, com apresentação de resultado do processo e workshop

Da Laje-palco respeitável público o Alto, espetáculo de Triunfo, no Sertão pernambucano
Foto Guilherme Andrade

O mundo é grande e há tantas possibilidades de sintonias afetivas e cênicas, deve ter pensado a atriz e produtora Paula de Renor quando idealizou Reside Lab – Plataforma PE – Festival Internacional de Teatro, chamado de Câmbio, festival de teatro lá em 2018. Nestes tempos marcados pelo distanciamento físico e pela interdição de aglomerações, o programa ocorre na digital de 15 a 31 de março de 2021. A programação contempla 11 apresentações de 10 espetáculos, dois Encontros Reside, uma Residência Artística e um workshop com o britânico Paul Davies.

A residência artística reforça que o cérebro e o coração deste festival pernambucaníssimo são as trocas, os compartilhamentos, a cooperação, a coautoria com criadores do planeta Terra. O escritor, intérprete, desenhista e diretor britânico, com doutorado em Política, Paul Davies conduz a Residência (de 15 a 27 de março, com os inscritos selecionados) e envia aos participantes a provocação: “Em tempos de morte e de negação, ainda é possível termos apetite para a realização de sonhos ou a nossa imaginação sofreu um golpe mortal?

Depois de 13 dias de estímulos criativos e do convite que Davies fez aos integrantes da residência de darem um “salto no escuro”, no dia 31 de março será exibido o resultado do processo de investigação, que trabalha com o tema “Qual o Caminho para os Jardins?”, Diretor do Volcano Theatre (País de Gales/UK), Paul Davies apresenta seus métodos de criação e trabalhos realizados no Reino Unido, no workshop com estudantes, professores, artistas e público, no dia 29 de março, das 15h às 17h. É preciso fazer inscrição no site do Reside (www.residefestival.com.br)

CONFLUÊNCIAS

O 1º Encontro: Dramaturgia Ibero-americana na pós-pandemia vai discutir, no dia 20 de março, sobre o reflexo das novas concepções de teatro no campo da dramaturgia teatral. Os pesquisadores vão refletir sobre transformações, expansões e giros da escrita dessa cena para o período. Dessa saraivada de ideias participam o dramaturgo e encenador Diego Aramburo (Bolívia); o ator, encenador e dramaturgo Damián Cervanates (México) e a atriz, diretora e dramaturga Lorena Veja (Argentina), como palestrantes, e o professor, encenador e dramaturgo Rodrigo Dourado (PE/Brasil) na mediação. Inscrições no site do Reside (www.residefestival.com.br)

Há aproximadamente um ano, os terráqueos foram surpreendidos com um vírus desconhecido e de enorme poder letal. As atividades produtivas foram obrigadas a parar. A cultura foi um setor afetado pela pandemia. Apresentações artísticas e festivais foram cancelados em 2020. O 2º Encontro: Adaptações e Modelos de Festivais de Artes Cênicas trata das respostas e adaptações para o setor, no dia 27 de março, das 17h às 19h. Algumas perguntas são perscrutadas a exemplo de: Como um setor pode se reinventar em meio a uma pandemia? Qual é o futuro da programação inovadora para festivais internacionais em 2021? O formato híbrido seguirá existindo? Participam dessas visadas para o futuro o diretor artístico do Festival Cielos del Infinito Antonio Altamirano (Chile); o diretor Artístico do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica Gonçalo Amorim (Portugal); a curadora, produtora e performer Elizabeth Doud (Estados Unidos). E como mediador o diretor artístico do FIAC-Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia, Felipe Assis. Inscrições: site do Reside (www.residefestival.com.br)

ESPETÁCULOS

A programação de espetáculos abre no dia 16 de março com Transbordando Marias, uma homenagem do Reside à família Camarotti. Inspirado na personagem Maria Josefa da peça A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, as atrizes Maria Conceição e Maria Clara, mãe e filha, enveredam por suas liberdades em estado de isolamento.

Os afetos, suas belezas e feridas, pulsam nas lembranças do protagonista de Brabeza Nata, um rapaz criado pela avó materna. O experimento virtual é baseado no conto homônimo de Luiz Felipe Botelho, tem direção de Cláudio Lira e interpretação do ator Alexandre Sampaio.

A construção do feminino, as lutas, as contradições, as estratégias de sobrevivências, apaziguamento de si e as contendas com o outro são potencializados pela atriz Márcia Cruz no espetáculo Vulvas de Quem? Direção de Cira Ramos e textos de Ezter Liu.

Um Brasil incendiado com sua história é uma reflexão que propõe o espetáculo Inflamável, a partir da atuação de um homem-espectro que tenta expurgar os males causados aos seus ancestrais brasileiros. É inspirado em três poemas do livro homônimo, de Alexsandro Souto Maior (O homem do Pau-Brasil; A margem; Descolonizado). Direção de Quiercles Santana e atuação de Paulo de Pontes.

Bruna Florie faz um convite para que enxerguem como olhar poético a comunidade Alto da Boa Vista, que é berço da cultura popular de Triunfo, no interior de Pernambuco, no trabalho Da laje-palco: respeitável público: o Alto. Já Dentra é para escutar o silêncio e atentar para os cuidados.

No meu terreiro tem Arte – Nós Sem Nossa Mãe, com Helena Nunes e Violeta Nunes. Foto: Rayra Martins

No seu teatro de memória, a brincante sertaneja, atriz, palhaça, cordelista e mãe Odília Nunes mistura de teatro, poesia, circo e tradição popular, em cenas construídas no seu território, o quintal de casa, na comunidade rural em Ingazeira, no sertão do Pajeú. Suas filhas, Violeta Nunes e Helena Nunes atuam com desenvoltura em No Meu Terreiro tem Arte.

O sentido de existir, resistir, persistir e a realidade de mortos por Covid-19, pela polícia, por feminicídio, pela fome são disparadores para Yorick e Os Coveiros Do Campo Santo De Elsinor (Parte 1). É inspirado a Cena I, Ato V, do Hamlet, de Shakespeare. Nessa primeira parte, a peça trata das possibilidades de contato em isolamento. A segunda se volta sobre a solidão desses tempos. Depois da apresentação está marcada uma conversa com a mediação de Elias Mouret.

Práticas Desejantes. Foto Guto Muniz / Divulgação

A abertura de Processo Práticas Desejantes – 1º Movimento mergulha na possibilidade de descolonização do fazer teatral. Quatro artistas pesquisador_s buscam, cada qual no seu quadrado, discutir estéticas e poéticas teatrais que contemplam questões de gênero, memória, narrativas de si, identidades étnicas, visibilidades. Participam Ana Paula Sá, Andrezza Alves, Daniele Ávila Small e Geraldo Monteiro.

Se em Próxima, monólogo de Cira Ramos apresentado em tempos pré-pandêmicos, a atriz, diretora e dramaturga investia no tema da expectativa para a cena, para o próximo filme, o próximo trabalho e os desafios que o tempo apresenta, em Sala de Espera, o mundo se ergue em suspeição e suspensão. Quando a vida volta à vida normal? Será que volta? O que é normal? Essa pandemia está fazendo a gente ficar mais pensativa.

ENTREVISTA // Paula de Renor

Atriz, diretora e produtora Paula de Renor, idealizadora do Reside. Foto Divulgação

Qual suas ideias para o Reside LAB para esse período pandêmico?
O edital de premiação da Lei Aldir Blanc possibilitou a realização desta edição especial, com realização totalmente virtual e em março. O Reside desloca seu olhar para cena teatral local, exibindo 10 espetáculos (11 apresentações) criados para plataforma digital. A primeira apresentação será o Transbordando Marias, de Clara Camarotti, com participação de Conceição Camarotti, e fiz questão de que este trabalho fosse o primeiro a ser exibido na programação, como uma homenagem do Reside à família Camarotti, todos tão importantes para o teatro pernambucano e particularmente para mim! Este trabalho revela também o que podemos esperar de todos os outros: a busca da reciprocidade de um outro olhar, uma nova dinâmica, uma conexão. Os olhares que se movem e encontram essa cumplicidade nas intimidades expostas, percorrendo frustações, medos, forças, dores, desejos, territórios. Uma nova forma de olhar… e através desta busca de uma aproximação via a intimidade escancarada do ator, eu defino meu olhar curatorial. O meu olhar, o seu olhar, no outro.

“Acho que só consigo ter coragem
e força para lutar tanto porque
sou mulher e as mulheres
têm esse poder de superação
quase sobrenatural, né?”

Além das medidas de distanciamento adotadas para evitar a propagação do vírus Covid-19, quais as outras dificuldades encontradas para realizar o festival neste ano?
A maior dificuldade é a falta de verbas para a cultura. Não contamos durante o ano de 2020 com nenhum edital federal, municipal ou estadual, exceto o Funcultura. Já no final do ano emplacamos a Lei Aldir Blanc, uma mobilização da classe artística e dos políticos a contragosto do Governo Federal. As empresas se retraíram nos patrocínios sem entender o alcance da divulgação de suas marcas nos eventos agora totalmente virtuais e os produtores também começaram aos poucos a entender todo esse processo. Eu não pensei em nenhum momento em fazer parte da programação presencial. Acho que até o final desta pandemia, quero que as pessoas fiquem em suas casas e esperem um pouco mais para irem aos teatros. Temos uma responsabilidade não só com o público, mas também com os artistas e por mais cuidado que se tenha, há sempre uma grande tensão e risco, assim eu prefiro restabelecer esse contato do público com o teatro através da tela.

Mas tudo tem um ponto positivo, quais você aponta.
A aproximação das pessoas, dos países, dos idiomas. O mundo ficou mais próximo e parece que menor. Claro que já existiam encontros e ações virtuais, mas nunca se pensou em se realizar por exemplo, mercados de artes cênicas totalmente virtuais. A pandemia apontou para esta possibilidade. Este ano participei da semana dos programadores do Santiago A Mil, no Chile, e do mercado do Festival Internacional de Buenos Aires e foi muito bom! Triplicou a quantidade de programadores do mundo inteiro assistindo aos trabalhos produzidos nestes países. As possibilidades de visibilidade se ampliaram! No Reside, realizaremos 2 Encontros com profissionais do Chile, Bolívia, Argentina, Portugal, Estados Unidos e México. Se fossem presenciais, os custos talvez não permitissem a realização. Esses encontros, trocas, diálogos estão fazendo parte de nosso dia a dia e este formato veio pra ficar! Conseguimos nos encontrar num mesmo momento, num planeta comum chamado “virtual”. Acho formidável!

“Estou cansada de só recebermos
produções e artistas de fora sem
nada que nos garanta nossa
participação lá fora. Não ter
perspectiva de retorno,
não me interessa”.

Adotar uma programação que não estratifica os espetáculos locais dos internacionais, por exemplo, me parece uma posição política de exercício de descolonização do olhar. Fale das suas ideias da programação que amalgama as micropolíticas de democratização.
Quando deixei o Janeiro de Grandes Espetáculos e lancei o CAMBIO em 2017, que em 2018 se transformou no Reside, o meu pensamento era complementar o que já existia na cidade e não repetir formatos. Senti que existia a necessidade do investimento maior nos intercâmbios e programações internacionais e optei em não programar espetáculos locais ou nacionais, para que os recursos, sempre muito poucos, se concentrassem nos intercâmbios e abertura de mercado internacional. A contribuição do Reside passa a ser então, a de preparação da produção local para o mercado internacional ( com perspectiva de 5 anos) e da possibilidade de compartilhar experiências e saberes, dos dois lados, uma via de mão dupla, um aprendizado mútuo! Todos os instrutores e artistas de fora do país que participaram das Residências e espetáculos em 2018 e 2019, deixaram ideias e várias perspectivas de parcerias futuras e isso é muito bom! Também já estou cansada de só recebermos produções e artistas de fora sem nada que nos garanta nossa participação lá fora. Isso acontece no Brasil inteiro! Estou atenta a isso, e essa postura de não se ter perspectiva de retorno, não me interessa. Essa edição do Reside é bem especial e totalmente diferente desse formato idealizado. Todas as apresentações são de trabalhos de Pernambuco e não poderia ser diferente. Temos que seguir a essência e ser fiel aos objetivos da Lei Aldir Blanc ( LAB), de apoio aos nossos artistas, de parcerias para circulação e visibilidade de nossa produção teatral nesse momento tão difícil para a cultura neste país. Respeitamos políticas sociais, de regionalização e de democratização e estamos satisfeitos com os resultados. Acho que todos os festivais tiveram esta postura e isso me orgulha muito!

Como você está se virando para dar conta do festival, da direção do Dona Linda, cuidar da família e da beleza?
Esta é lera né? Beleza já era há muito tempo!!! Já cortei até o cabelo pra nem ele me dar mais trabalho!!!Todo dia um desafio e uma gincana nas tarefas de casa e do trabalho num turno de quase 18 horas por dia! Todo dia uma corrida para execução das tarefas determinadas no cronograma de pendências que nunca se consegue por em dia! Acho que só consigo ter coragem e força para lutar tanto porque sou mulher e as mulheres têm esse poder de superação quase sobrenatural, né?

Paulo de Pontes em 72 DIAS_Foto Keity Carvalho / Divulgação

Cira Ramos em Sala de Espera. Foto: Divulgação

Bruna Florie em Dentra. Foto Divulgação

PROGRAMAÇÃO

16/03/21 – 20h – Transbordando Marias (YouTube do Reside)
Ficha Técnica
Concepção e Direção Geral: Maria Clara Camarotti
Elenco: Conceição Camarotti e Maria Clara Camarotti
Texto livremente inspirado na personagem Maria Josefa, da peça A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca
Equipe de criação: Maria Clara Camarotti, Nana Sodré, Maria Agrelli, Silvinha Góes, Conrado Falbo
Duração: 40 minutos
Classificação indicativa: Livre
Trabalho contemplando pelo edital emergencial Cultura em Rede do Sesc Pernambuco.

17/03/21 – 20h – Brabeza Nata (Instagram)
Ficha Técnica:
Texto: Luiz Felipe Botelho
Direção: Cláudio Lira
Elenco: Alexandre Sampaio
Realização: Cia Maravilhas de Teatro
Duração: 20 minutos
Classificação indicativa: 16 Anos

18/03/21 – 20h – Vulvas de quem? (Instagram)
Ficha Técnica:
Texto: Ezter Liu
Direção: Cira Ramos
Elenco e produção: Márcia Cruz
Sonoplastia: Fernando Lobo
Música: Flaira Ferro
Iluminação: Luciana Raposo
Fotos: Keity Carvalho
Realização: Cia Maravilhas de Teatro
Duração: 20 minutos
Classificação indicativa: 16 Anos

19/03/21 – 20h – Inflamável (Instagram)
Ficha Técnica:
Autor: Alexsandro Souto Maior
Diretor: Quiercles Santana
Atuação e Produção geral: Paulo de Pontes
Direção de Arte: Célio Pontes
Técnico de som, luz e vídeo: Fernando Calábria
Produção executiva: Márcia Cruz
Realização: Pontes Culturais
Duração: 25 minutos
Classificação indicativa: 16 Anos

20/03/21ENCONTRO Dramaturgia Ibero-americana na Pós-pandemia – Das 17h às 19h – YouTube do Reside
Participantes:
Diego Aramburo – Dramaturgo e encenador (Bolívia)
Damián Cervantes – Ator, encenador e dramaturgo (México)
Lorena Vega – Atriz, encenadora e dramaturga (Argentina)
Mediação: Rodrigo Dourado – Professor, encenador e dramaturgo (PE/Brasil)

21/03/21 – 20h – 72 dias (YouTube do Reside)
Ficha Técnica:
Dramaturgia: Paulo de Pontes e Quiercles Santana
Diretor: Quiercles Santana
Atuação e Produção geral: Paulo de Pontes
Direção de Arte: Célio Pontes
Músicas: Sonic Júnior
Técnico de som, luz e vídeo: Fernando Calábria
Streamer: Márcio Fecher
Produção executiva: Márcia Cruz
Fotos: Keity Carvalho
Realização: Pontes Culturais & Cia Maravilhas de Teatro
Duração: 45 minutos
Classificação indicativa: 18 Anos

22/03/21 – 20h – Bruna Florie: da laje-palco: respeitável público, o Alto e DENTRA (YouTube do Reside)
Ficha Técnica:
Direção, roteiro, atuação e produção: Bruna Florie
Assistente de produção e videomaker: Guilherme Andrade
Filmagens com drone: Maycon Jonathan
Maquiagem: Karol Virgulino
Participações especiais de artistas do Alto da Boa Vista: Joaneide Alencar, Carlinhos Artesão e Jéssica Caitano
Edição, fotografia e direção de arte: Bruna Florie
Trilha Sonora: “Beat the Burglar” – Scott Holmes, “Repente” – Jéssica Caitano & Chico Correa, “Música Lab II”- Jéssica Caitano & Paulo Beto, “Canarin” – Jéssica Caitano & Chico Correa
Duração: 15 minutos e 35 segundos.
ESPETÁCULO: Dentra
Ficha Técnica:
Direção geral e produção: Bruna Florie
Roteiro: Bruna Florie e Guilherme Andrade
Assistente de produção Ie videomaker: Guilherme Andrade
Assistente de produção II: Geibson Nanes
Trilha Sonora: “Sad walk with sad piano” – komiku, “Amaryllis Flower” – Ivy Meadows, “Dreaming of You” – Komiku
Edição, montagem, fotografia: Bruna Florie e Guilherme Andrade
Direção de arte, atuação e poema Dentra: Bruna Florie
Duração: 5 minutos e 31 segundos.
Classificação: Livre

23/03/21 – 20h – Meu Terreiro tem Arte (YouTube do Reside)
Ficha Técnica:
Brincantes/palhaças/atrizes : Odília Nunes, Violeta Nunes e Helena Nunes
Criação Geral: Odília Nunes
Duração: 33 minutos
Classificação indicativa: Livre

24/03/21 – 19h – Yorick e os Coveiros do Campo Santo de Elsinor (Parte 1) – (YouTube do Reside)
Ficha Técnica:
Criação Cênica e Dramaturgismo: Andrezza Alves, Enne Marx, Daniel Machado, Geraldo Monteiro, Marcondes Lima e Quiercles Santana
Dramaturgia: Quiercles Santana e William Shakespeare
Performance: Andrezza Alves, Enne Marx e Marcondes Lima
Direção de Arte: Marcondes Lima
Assistência de Direção, Foto, Vídeo e Edição: Daniel Machado e Geraldo Monteiro
Designer e Direção Musical: Daniel Machado
Criação em Arte-Tecnologia, Streaming e Plataformas Digitais: Geraldo Monteiro
Produção: Andrezza Alves
Direção Geral: Quiercles Santana
Duração: 45 minutos
Classificação Indicativa: 15 Anos

25/03/21 – 19h – Yorick e os Coveiros do Campo Santo de Elsinor (Parte 1) – (YouTube do Reside)

26/03/21 – 20h – Práticas Desejantes – Primeiro Movimento (YouTube do Reside)
Ficha Técnica:
Idealização e performance: Andrezza Alves e Daniele Ávila Small
Pesquisa, levantamento do material, criação do repositório, dramaturgia e curadoria: Ana Paula Sá, Andrezza Alves, Daniele Ávila Small e Geraldo Monteiro
Mediação dos encontros e produção: Ana Paula Sá, Andrezza Alves e Daniele Ávila Small
Edição, plataforma digital, gerenciamento e compartilhamento de conteúdos: Geraldo Monteiro
Identidade Visual: Analice Croccia
Fotografia: Guto Muniz – Foco in Cena
Duração: 30 minutos
Classificação Indicativa: 14 anos

27/03/21 – ENCONTRO: Adaptações e Modelos de Festivais de Artes Cênicas – das 17h às 19h – canal RESIDE no YouTube
Participantes:
Antonio Altamirano – Diretor artístico do Festival Cielos del Infinito (Chile);
Gonçalo Amorim – Diretor Artístico do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (Portugal)
Elizabeth Doud – Curadora, produtora e performer ( Estados Unidos)
Mediação: Felipe Assis – Diretor Artístico do FIAC-Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia

28/03/21 – 20h – Sala de Espera – (YouTube do Reside)
FICHA TÉCNICA:
Roteiro adaptado: Cira Ramos
Direção: Fernando Lobo
Supervisão Artística: Sandra Possani (Contatos remotos)
Assistência de direção: Cira Ramos
Atuação: Cira Ramos
Direção de fotografia: Fernando Lobo
Trilha sonora original: Fernando Lobo e Fábio Valois
Iluminação: Fernando Lobo
Sonoplastia: Fernando Lobo
Captação de áudio: Fernando Lobo
Assistente de captação de áudio: Alice Lobo
Assistência de Fotografia e iluminação: Julia Lobo e Alice Lobo
Animação: Julia Lobo e Alice Lobo
Edição e Montagem: Fernando Lobo
Imagens de Carnaval, cedidas do arquivo HIGH TECH Vídeos Profissionais.
Duração: 22 Minutos
Classificação Indicativa: 14 Anos

29/03/21WORKSHOP/Conversa – das 15 às 17h – Plataforma Zoom ( por meio de inscrição )
Com Paul Davies/Volcano Theatre (País de Gales/UK)

Dia 31/03/21Resultado da Residência Artística – às 19h YouTube do RESIDE
Qual o caminho para os Jardins?

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Episódio de censura com atriz trans Renata Carvalho inspira Evangelho Segundo Vera Cruz

Fotomontagem com Elke Falconiere em O Evangelho segundo Vera Cruz, peça pernambucana inspirada em  O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, com Renata Carvalho

Elke Falconiere e Joe Andrade, artistas trans na peça O Evangelho Segundo Vera Cruz. Foto: Ricardo Maciel

Elke Falconiere, Jailton Jr., Dante Olivier, Rodrigo Cavalcanti (abaixado), Joe Andrade. Foto: Ricardo Maciel

Como Jesus Cristo seria recebido neste século 21, se retornasse no corpo de uma travesti? Esse é um dos questionamentos do espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, escrito pela britânica Jo Clifford, e que ganhou uma adaptação no Brasil, traduzida e dirigida por Natalia Malo, com atuação de Renata Carvalho. Desde sua estreia, a peça sofreu uma série de retaliações, incompreensões (principalmente por quem nem assistiu à montagem), boicotes, censuras. Segundo a própria atriz, o episódio mais marcante em sentido negativo ocorreu em 2018, durante a 28ª edição do Festival de Inverno de Garanhuns, no Agreste pernambucano, que, ironicamente, tinha adotado para aquele ano o tema da liberdade.

Esses acontecimentos de censura ao espetáculo da atriz Renata Carvalho são retrabalhados em O Evangelho segundo Vera Cruz, do Teatro de Fronteira, grupo pernambucano que está completando 10 anos. De acordo com Rodrigo Dourado, dramaturgo e diretor do trabalho, a peça é um retrato desse momento político único e uma homenagem. “Como gesto artístico, é também uma ação para reverter essa condição de vulnerabilidade em que são lançadas as vidas LGBTs, mas também de negros, mulheres, e todos os que são alijados de seus direitos básicos”.

A peça é, especialmente, um manifesto pela representatividade, contando com forte presença da comunidade transgênera em seu elenco, com a estreia das atrizes Elke Falconiere, Joe Andrade e do ator Dante Olivier, acompanhados dos atores Rodrigo Cavalcanti e Jailton Jr.

A montagem O Evangelho segundo Vera Cruz está em temporada online por meio da plataforma Zoom, às quintas-feiras, 26/11, 03/12 e 10/12, às 20h. Ao final de cada apresentação, o grupo passa um chapéu virtual, no esquema Pague Quanto Puder, de contribuição livre, por meio de depósito bancário.

Rainha do Céu

Ao contrário de seus detratores, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu imprime um discurso de tolerância, exaltando a centelha divina de TODO ser humano. Defende que amar é uma ação revolucionária e que o perdão é basilar para uma convivência pacífica. Entre distribuição de pão e vinho, a protagonista faz uma reencenação, digamos, “pop” da Última Ceia. Predomina a serenidade no tom, com um linguajar jovial para levar à cena a proposição de que se Jesus regressasse como uma travesti seria novamente crucificado aos 33 anos. Ou menos.

A média de vida de uma pessoa trans é de 35 anos, quando a média do brasileiro chega a 75. De acordo com o Boletim nº 4 de Assassinatos contra travestis e transexuais da Associação Nacional de Transexuais e Travestis (Antra), em 2020, 129 pessoas trans foram assassinadas de janeiro a 31 de agosto no Brasil, o que registra um aumento de 70% em relação a 2019. Entre 2017 e 2020, 436 pessoas trans foram mortas. Em 2019 foram registrados no Brasil 124 assassinatos de pessoas transsexuais, o que dá uma média de um homicídio a cada três dias, segundo o levantamento. É um genocídio, com a mão ou conivência do Estado.

A peça já havia sido censurada em Jundiaí, no interior paulista, no Rio de Janeiro e em Salvador. E foi boicotada em muitos outros lugares. No interior de Pernambuco, o golpe foi duro. O espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu foi convidado pela curadoria do Festival de Inverno de Garanhuns, retirado do festival, reinserido, apresentado na garra e apartado da programação. Cenário de intransigência cultural, “trapalhadas” políticas, e demonstrações de reacionarismo.

A atriz Renata Carvalho enfrentou um calvário de intolerância, cujo ápice ocorreu em 27 de julho de 2018, o que ela considera o “episódio de censura mais violento” que já viveu, com ação de boicote do festival, oficiais de justiça e até a explosão de uma bomba caseira no local da apresentação, numa noite tensa e chuvosa.

Repúdio de líderes religiosos. Mandado de segurança. Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns e Região. Tribunal de Justiça de Pernambuco cede à pressão da igreja. Liminar proíbe apresentação da peça. Desembargadores dão decisão favorável à (re)inclusão do espetáculo no FIG. Secretaria de Cultura e Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco sustentam exclusão.

Esse episódio todo foi de um desrespeito muito grande. Foi a transfobia institucionalizada. Claro, toda censura agride, como aconteceu em Salvador, em Jundiaí e até no Rio de Janeiro. Mas essa de Garanhuns foi sem dúvidas a mais violenta que nós já sofremos com a peça.
Renata Carvalho, ao The Intercept_Brasil

O dramaturgo e diretor Rodrigo Dourado acompanhou de perto toda essa movimentação. “A questão se converteu num problema político eleitoral, pois prefeito (Izaías Regis) e governador (Paulo Câmara) pertencem a polos opostos do espectro político”, pontua. Dourado integrou o grupo de agentes culturais que fez uma mobilização para que Rainha do Céu fosse apresentada, de forma independente da programação do FiG. “Após inúmeras ameaças e conflitos, Renata Carvalho decidiu realizar a performance mesmo desprovida de todos os aparatos técnicos, contando para isso com o apoio da plateia que desejava vê-la em cena”.

Rodrigo avalia que aquele episódio emoldurou duas energias morais e políticas muito fortes que têm se antagonizado no Brasil. “De um lado, um conservadorismo neofascista e censório, que deseja apagar formas de vida e de expressão não normativas. De outro, movimentos civis que resistem à onda reacionária e exigem seu direito à existência e à cidadania”.

A própria Renata Carvalho alertou à época que aquele não era um caso isolado direcionado contra uma artista trans, mas a demonstração de que a censura estava colocando suas garras para fora.

Dito e feito. Os discursos de ódio e intolerância foram contemplados nas urnas de 2018 e posições conservadoras, reacionárias mostram um orgulho de discriminar o outro – seu dessemelhante.

Entrevista // Rodrigo Dourado, dramaturgo e encenador

Rodrigo Dourado. Foto: Ricardo Maciel / Divulgação

Quais as motivações para erguer O Evangelho segundo Vera Cruz? E durante a pandemia não ficou mais difícil?
Nesse período de 2020, a gente tinha programada uma série de ações para comemorar os 10 anos do Teatro de Fronteira. Precisamos rever tudo. A partir de março, fizemos a primeira temporada de Luzir é Negro!, que era a primeira ação e a temporada já foi bastante prejudicada pela quarentena. O público já foi bem baixo. Então, a gente aprovou várias ações em editais emergenciais como o Arte como Respiro, do Itaú Cultural, Cultura em Rede, do SESC Pernambuco, e o ConVida, do SESC Nacional. O Evangelho Segundo Vera Cruz foi a ação apoiada pelo Cultura em Rede, do SESC de Pernambuco. Esse texto, que tinha sido escrito por mim em 2019, estava engavetado, não tinha sido montado nem publicado e decidimos submeter ao edital.  Quando foi aprovado, começamos o trabalho de montagem no formato online. No início, sim, foi muito difícil a adaptação às plataformas online. A gente não sabia muito bem lidar com tudo aquilo. Foi um aprendizado enorme, porque além da tecnologia em si, quer dizer, os recursos que a plataforma tem, a gente tinha situações de acesso à internet muito diversas, realidades sociais muito diversas dentro do elenco. Precisamos criar uma harmonia, uma unidade entre essas situações, para chegar a um ponto mínimo, ter um denominador comum que nos permitisse uma qualidade mínima de transmissão e a utilização dos recursos da plataforma.
Mas, eu não posso dizer que foi mais difícil do que montar um espetáculo presencialmente. Teve as suas especificidades, mas o processo em si, o tempo, a quantidade de ensaios, a pesquisa, o trabalho de ator, as descobertas da encenação, tudo isso é muito parecido com formato presencial. O que muda somente é o meio.

A peça recria os episódios de censura sofridos pela atriz Renata Carvalho com seu espetáculo, no ano de 2018, na cidade de Garanhuns/PE. Como é feita essa recriação? Quais aspectos são destacados na peça?
Eu participei daquele movimento que levou a peça a Garanhuns, junto com várias outras pessoas. Eu fui observador e, desde aquele momento, quando estávamos ainda inseridos nele, vivendo, eu já sentia essa teatralidade pulsante de tudo que estava acontecendo. O debate público que o teatro estava gerando, os conflitos sociais, no sentido dos estudos da performance um certo ‘Drama Social’ que o espetáculo estava ocasionando. Então, já me parecia tudo muito teatral: a sociedade garanhuense, pernambucana, discutindo nas ruas esse tema; o coro público, a voz das ruas, o teatro midiático que foi feito em cima disso nas redes sociais, na imprensa; os shows na Praça Guadalajara e as provocações nos shows; todos esses elementos foram trazidos de alguma forma para dentro da dramaturgia. É uma dramaturgia que transita bastante entre o épico, o narrativo, as formas mais populares de narrar, personagens-tipo, a gente tem também uma citação ao mamulengo numa determinada cena. E tem seus traços dramáticos, porque na peça existe um conflito paralelo ao conflito público que estava acontecendo, que é a história de um casal LGBT formado por um homem cis e um homem trans, da cidade de Garanhuns, e que estão na linha de frente do movimento que levou a peça à cidade. E também tentamos, de alguma forma, nos aproximar da história de vida da Renata, das questões da atriz. Então, tem uma questão da intimidade da Renata que é recriada. Agora tudo isso com alguma liberdade artística. Não temos um compromisso factual 100%. A gente recria algumas coisas, poetiza algumas coisas; dramaturgicamente eu posso dizer que o arranjo é esse.

Renata Carvalho participou de alguma das apresentações? Como ela recebeu a iniciativa da peça?
Nesta versão da peça, atual, que é a terceira, Renata participa fazendo uma voz em off, uma locução de um trecho da peça. Mas também há vários depoimentos dela que foram resgatados da Imprensa e utilizados na peça. Ela não assistiu à peça ainda, mas tem acompanhado o processo. Leu o texto, fez sugestões, críticas e junto com o elenco trans a gente foi debatendo, discutindo, confrontando aspectos da dramaturgia para que, de alguma forma, ficasse mais justa e mais fidedigna à experiência de vida trans, já que eu sou um homem cis escrevendo sobre essas experiências. Então Renata esteve sempre no suporte, no apoio a todo esse processo, mas ela não assistiu à peça ainda.

Para quem não acompanhou esse episódio, você poderia falar sucintamente do caso de censura à peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, com Renata Carvalho, em Garanhuns, em 2018?
A peça foi escalada para a programação do Festival de Inverno de Garanhuns, em 2018, pela curadoria da Fundarpe/Secult/PE. Assim que a programação foi anunciada pela imprensa, o prefeito da cidade, Izaías Regis, foi aos meios de comunicação anunciar que não aceitaria receber a montagem, alegando que a cidade era cristã e que, supostamente, o trabalho feriria a comunidade local por trazer uma travesti na personagem de Jesus Cristo. Vários veículos de imprensa da cidade apoiaram o prefeito, que, na sequência, recebeu ainda apoio do bispo local e de representantes da comunidade evangélica. O Governador Paulo Câmara e a Fundarpe, a princípio, sustentaram que a peça se manteria na programação e que, uma vez proibido pelo prefeito o uso do teatro municipal (Luiz Souto Dourado), buscariam apoio de outras entidades para acolher a encenação. A questão se converteu num problema político eleitoral, pois prefeito e governador pertencem a polos opostos do espectro político e o governador buscava a reeleição. Logo, o prefeito passou a fazer uso eleitoral do episódio a fim de desgastar a imagem do governador. Com o apoio da bancada evangélica no Assembleia Legislativa, ameaçando mobilizar seu rebanho contra o governador, não demorou muito para que Paulo Câmara recuasse de sua decisão, anunciando que a peça tinha sido excluída da programação. Rapidamente, um grupo de agentes da sociedade civil mobilizou-se e empreendeu um movimento para arrecadar fundos e levar a peça à cidade de maneira independente. Houve inúmeras ameaças a esse movimento e à própria vida da atriz e a apresentação aconteceu sob forte sigilo. A justiça também foi invocada para impedir a realização da apresentação. Num último instante, a Fundarpe decidiu apoiar o espetáculo, oferecendo infraestrutura técnica de som, luz, etc. Mas uma decisão judicial de última hora foi emitida, após o transcorrer da primeira apresentação, proibindo que a peça se realizasse. Ao receber a notificação, a Fundarpe começou a desmontar toda a infraestrutura que havia disponibilizado, atrapalhando a realização da segunda récita. Após inúmeras ameaças e conflitos, Renata Carvalho decidiu realizar a performance mesmo desprovida de todos os aparatos técnicos, contando para isso com o apoio da plateia que desejava vê-la em cena.

Como observador privilegiado e um dos articuladores da desobediência à ordem esdrúxula dos governantes, quais os sentidos que foram despertados em você naquele momento, e quais sentimentos guarda até hoje?
Para mim, aquele episódio emoldurou duas energias morais e políticas muito fortes que têm se antagonizado no Brasil. De um lado, um conservadorismo neofascista e censório, que deseja apagar formas de vida e de expressão não normativas. De outro, movimentos civis que resistem à onda reacionária e exigem seu direito à existência e à cidadania. Trata-se de um momento histórico do teatro brasileiro do século XXI, porque a peça já havia sido censurada em diversas cidades, mas em nenhum lugar, como em Pernambuco, houve um movimento tão potente de resistência e desobediência ao poder institucionalizado. Em O Evangelho segundo Vera Cruz, eu tomo claramente lado, o lado desses sujeites que escapam aos padrões, dessas vidas dissidentes, já que sou um homem gay que sofreu e sofre na pele os horrores do preconceito e da perseguição aos desviantes. A peça é, portanto, um retrato desse momento político único e uma homenagem a essas vidas precárias. Como gesto artístico, é também uma ação para reverter essa condição de vulnerabilidade em que são lançadas as vidas LGBTs, mas também de negros, mulheres, e todos os que são alijados de seus direitos básicos.

O teatro que é transmitido pelas redes realmente derrubou barreiras geográficas, pois numa mesma apresentação podemos ver gente de várias partes do Brasil e do mundo. Como você (s) percebe (m) a recepção da peça? Dá para fazer um pequeno percurso desde a estreia?
Sobre a recepção à peça: a gente teve duas situações muito diferentes até agora. A gente fez um processo aberto pelo Sesc. Primeiro, realizamos um debate sobre a peça, depois fizemos um ensaio aberto com a exibição de pequenas cenas. Esses dois tiveram uma presença muito boa de público interessado em conhecer um processo teatral, de saber como se desenvolve um processo teatral. Esse aspecto de uma pedagogia mesmo do espectador. E no terceiro momento, no Sesc, a gente teve a apresentação em si da leitura, havia 150 pessoas na sala do Zoom nos assistindo, uma plateia gigante, muito participativa. Ao final, fizemos mais uma linda conversa. Foi muito bonito ver as contribuições, as colaborações, as intervenções, as indagações trazidas por esse público ao longo desse processo todo que a gente viveu no Sesc.
Num segundo momento, a gente apresentou a peça em Guaramiranga, no Festival Nordestino de Teatro. E aí sim, a gente não fez a peça para a plateia no Zoom, retransmitimos o que estávamos fazendo no Zoom pelo YouTube. Então a plateia pôde assistir à peça pelo YouTube e interagiu bastante com a peça via YouTube. Já era uma segunda versão com substituição de atores, com mudança na dramaturgia, com a chegada da Elke Falconieri, a saída de Marconi Bispo. Então, a gente tinha ampliado a representatividade trans do elenco. Foi muito bom fazer essa versão em Guaramiranga, porque no dia seguinte tivemos um debate em que pudemos ouvir os curadores e conhecer as impressões, os apontamentos deles, que também ajudaram a peça a chegar até essa terceira versão, que nós estamos apresentando agora. Agora, a gente tá enfrentando uma dificuldade maior de público, porque estamos fazendo uma temporada com ingressos pagos, com bilheteria. As outras ocasiões foram todas gratuitas, porque a peça já estava comprada, subsidiada – digamos assim – pelas instituições que nos convidaram. Agora é um momento nosso, de uma temporada independente. E aí sim, está sendo mais difícil a chegada desse público. Talvez por conta das dificuldades financeiras, pelo cansaço do formato online, já que a gente está se aproximando do final do ano, várias questões que a gente tem levantado para entender, para compreender essa dificuldade com o público. Mas é quase como se a gente estivesse na forma presencial, enfrentando aquela dificuldade de fazer teatro presencial na base da bilheteria, caçando público, fazendo um esforço gigante para chegar ao público. E só para fazer um complemento, nessas ocasiões todas a gente teve público do Brasil inteiro, Minas, Pará, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, outros estados do Nordeste, Centro-Oeste. É muito bonito ver o movimento do Brasil podendo conferir essas obras nesse formato online.

Gostaria que você falasse do elenco. Houve alterações, ampliação participativa de artistas trans, como se deu isso? E mesmo que pareça óbvio tem coisas que precisam ser reditas, qual a razão das escolhas?
Desde o início, eu como homem cis escrevendo essa peça, tinha convicção de que, primeiro, o texto precisava ser submetido a uma crítica sistemática da comunidade trans. E que a gente precisava ter representatividade no elenco, porque toda a questão que atravessa o debate levantado por Renata diz respeito à representatividade, à presença de corpos e cidadãos/sujeites trans nas peças que trazem narrativas de vida trans. Essa era uma questão central para mim desde o início. A princípio foram convidados Joe Andrade e Dante Olivier, que foram alunos meus na UFPE; a Joe do curso de teatro e o Dante do curso de artes visuais, mas fez comigo uma disciplina que ofereço de “Teatro, Gênero e Sexualidades Dissidentes”. E a gente tinha o elenco do Fronteira, Marconi (Bispo), Rodrigo Cavalcanti e o Jailton Júnior, que também foi meu aluno da Federal e agora integra o Fronteira. Marconi precisou se afastar do grupo e eu imediatamente pensei em convidar a Elke Falconiere, que também foi minha aluna na UFPE, que é uma mulher trans, foi minha orientanda de TCC. E, para ampliar essa representatividade, inclusive, trazendo a Elke para interpretar personagens cis, não só personagens trans. O caminho foi por aí. Para a gente, é fundamental; não faz sentido essa peça existir sem essa presença. Hoje a gente tem maioria trans no elenco, temos três pessoas trans e duas  cis. A presença delas é fundamental. Não só do ponto de vista dessa crítica que elas podem fazer aos conteúdos e às formas da peça, mas sobretudo como uma forma de inserção no mercado artístico, de visibilização do trabalho delas. Está sendo muito importante para nós.

“A montagem é também um gesto criativo diante das dificuldades pandêmicas, uma forma de manter a chama do teatro acesa, explorando para isso os meios virtuais”. Já que o assunto é tocado… quando a pandemia se instalou houve uma discussão sobre se o que é apresentado via internet é teatro ou não. Sem julgamentos de posições, já que estamos num processo de desbravar territórios e rever paradigmas, qual sua avaliação desse momento teatral?
Sobre a questão do teatro online: lá atrás, quando começou a pandemia, mais ou menos em abril, eu escrevi um artigo chamado “Teatros da pandemia: o giro viral”, em que faço uma provocação e um prognóstico de que esse momento iria gerar uma virada de chave no teatro, no sentido de, ao invés do teatro parar e se deparar com uma encruzilhada sem solução – já que não há presença, não há teatro – que caminhos o teatro iria tomar. E de lá para cá, a gente viu que o formato online foi bastante ocupado, foi bastante explorado, está sendo explorado, dilatado. Para mim, já nem é mais uma discussão essa de se o teatro online é teatro ou não. É teatro online. É uma forma que fricciona as formas digitais, as formas audiovisuais, as formas teatrais, mas que claramente se distingue de outras formas audiovisuais e online; se distingue da novela, se distingue do cinema, se distingue da videoarte, se distingue dos canais do YouTube, se distingue das formas digitais como o videogame ou outras mídias digitais, do streaming. Então, acho que tem uma especificidade aí do teatro ocupando esse espaço, que para mim já está muito clara. Além disso, tem uma lida também com os arquivos de teatro. A gente tem muito arquivo de espetáculos gravados, filmados, sendo revisitados e pesquisados e vistos, servindo como material didático, também ocupando um certo espaço dessa experiência presencial do teatro. E um retorno que o público tem nos dado, frequentemente, é que estar no teatro online é como estar no teatro. As pessoas se encontram na plateia, na antessala, no hall. Saber que as pessoas estão ali cria uma noção de convívio, de convivialidade, aquilo que Jorge Dubatti tem chamado de tecnovívio. A gente saiu de um convívio para um tecnovívio. Tem essa precariedade também, do artesanato teatral feito online, então tem improviso, tem jogo, tem as possibilidades infinitas que a internet oferece, que estão sendo explorados, mas também tem a instabilidade da internet que nos obriga a jogar, a improvisar como no teatro.
Tem a sensação do ao vivo, tem o bastidor, que é a casa dos atores. É quase como se as formas tradicionais do teatro, elas tivessem encontrado outras maneiras de ser. Tá tudo lá. A sensação que eu tenho é que está tudo lá. Para mim é um ganho, uma dilatação, é uma expansão das possibilidades do teatro, que não apaga nem dissolve ou desfaz o teatro presencial – que já está retornando em alguns lugares e vai retornar – mas que cria outras outras veredas.

Bem, como anda o teatro pernambucano?
Eta nós! Acho que o teatro pernambucano está vivíssimo como sempre esteve. Acho que a gente tem um movimento na cidade, de teatro grupo, de grupos de jovens. Grupo Bote de Teatro, Grupo Resta 1, Grupo AmarÉ, o Teatro Bordô, Coletivo Despudorado, Grupo Afrocentradas. Acho que o teatro local irremediavelmente está dialogando com as questões raciais, étnicas, com as questões da mulher, com as questões LGBTs, com as questões trans, com as questões periféricas. Nosso teatro está nesse movimento. Acho que a gente tem aí grupos que já tão na maturidade, como Totem, Fiandeiros, Cênicas; o Teatro de Fronteira está chegando aos 10 anos, eu diria que é um adolescente ainda, mas que já tem uma estrada. Então é um teatro que sim, tá vivo, é um teatro que de alguma forma encontrou seus caminhos também pela internet. A gente tem visto experimentos, sejam da Casa Maravilhas, com as suas lives; seja o Grupo O Poste fazendo suas lives e seus experimentos também; a Criative-se Cultural realizou um pioneiro trabalho online por aqui; temos os grupos de teatro como a Fiandeiros e a Cênicas de Repertório mantendo as atividades de ensino. A gente tem o Fronteira aí também experimentando o formato online, não somente como o Evangelho, mas também com o Puro Teatro (Arte Como Respiro), disponibilizando ainda arquivos de suas peças. Hermínia Mendes performando para o Arte como o Respiro; o Coletivo Angu lançando um texto inédito de Marcelino Freire também no Arte como Respiro; a gente teve vários experimentos que foram feitos para o Sesc-PE, como os experimentos de Paulo de Pontes (dirigido por Quiercles Santana), o de Clara Camarotti; a força sertaneja de Odília Nunes vertendo para o online; as Violetas da Aurora clownando para as redes; outras produções de conteúdo pelo Coletivo Grão Comum, Grupo Cênico Calabouço, por meio de diálogos online; um coletivo de artistas pernambucanos, radicados no RJ, encenando Muribeca, de Marcelino Freire (criação de Wellington Jr. Breno Fittipaldi, Reinaldo Patrício); o Magiluth reproduzindo as experiências pioneiras de teatro não-presencial um-a-um que iniciaram sendo feitas na Europa, nos EUA. Cito uma delas em meu artigo, da Cia. La Colline, de Paris. Pode ter inspirado o grupo. Enfim…
Então acho que é um teatro que encontrou seus caminhos também nesse formato online. Eu penso que o nosso teatro é muito contemporâneo, ele está em diálogo com tudo que está acontecendo aí pelo mundo, apesar das dificuldades financeiras e econômicas, que são na verdade uma realidade do Brasil inteiro. Eu acho que a gente continua resistindo e persistindo em fazer teatro.

Qual o seu posicionamento sobres políticas públicas culturais, tanto do Governo do Estado de Pernambuco, quanto da prefeitura do Recife?
Acredito que as políticas públicas para a cultura em Pernambuco e no Recife são já precárias e vêm se precarizando cada vez mais. Ao longo dos oito anos da gestão do prefeito Geraldo Júlio (PSB), houve um desmonte absurdo de diversas políticas culturais, de equipes. Equipamentos culturais foram sucateados, como o Teatro Apolo-Hermilo. Não existe uma política de programação, de fomento à pesquisa de grupos, de formação de plateia. O Parque está sendo entregue agora, às vésperas da eleição. O importantíssimo Festival Recife do Teatro Nacional foi esvaziado. Não houve canal de diálogo com a classe teatral. O SIC foi retomado num formato estranho, priorizando eventos que contam com a participação de membros da prefeitura em suas equipes de criação. Por sua vez, a Fundarpe tem se mostrado incompetente na gestão do Funcultura, com atrasos sistemáticos de prazos, além dos atrasos nos pagamentos de cachês de artistas e a criação de instrumentos sem a escuta da sociedade civil, como no caso do Prêmio Pernalonga. É preciso que haja mais recursos, mais escuta, mais celeridade e que se desenhe, de fato, um Programa Cultural a ser cumprido durante as gestões e não apenas como promessas de campanha. Mais importante: é preciso separar o doméstico do público, entendendo o espectro cultural em sua amplitude, em sua diversidade, e não apenas atendendo às crenças e valores privados dos gestores.

FICHA TÉCNICA || O Evangelho Segundo Vera Cruz
Atuação: Dante Olivier, Elke Falconiere, Jailton Júnior, Joe Andrade y Rodrigo Cavalcanti
Direção e dramaturgia: Rodrigo Dourado
Produção: Rodrigo Cavalcanti
Designer de luz: Natalie Revorêdo (Farol Ateliê da Luz)
Efeitos sonoros: Jailton Júnior
Teasers: Dante Olivier
Registro Fotográfico e Identidade Visual: Ricardo Maciel
Realização: Teatro de Fronteira

Serviço:
O Evangelho Segundo Vera Cruz, do Teatro de Fronteira 
Exibição: Plataforma do Zoom
Quando: Quintas-feiras, às 20h, até 10 de dezembro
Classificação Indicativa: 16 anos
Duração: 70 minutos
Informações: teatrodefronteirape@gmail.com | @teatrodefronteira

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José Manoel Sobrinho dá “nó em pingo d’água”

 

José Manoel Sobrinho, encenador, professor e gestor cultural. Foto: Anderson Freitas

Pelo porte franzino, ele bem que poderia ser um personagem de Ariano Suassuna, João Grilo ou Chicó. Pela atitude ligeira e o gosto pelos desafios e os triunfos nas pelejas da vida pode lembrar Trupizupe, o raio da Silibrina, figura criada para o palco por Bráulio Tavares. José Manoel Sobrinho é um agrestino de Bezerros, que tem sua marca na história do teatro brasileiro a partir de Pernambuco.

Não são poucas as suas façanhas. De montagens teatrais que dirigiu, ele contabiliza mais de 100. Além de encenador e ator, tornou-se um articulador afiado nas reentrâncias da política cultural.

Durante 42 anos foi funcionário do Sesc-PE, chegando ao cargo de gerente de cultura, o mais importante do organograma para a área. Foi desligado da instituição no mês de agosto e recebeu o apoio da classe artística que redigiu uma carta dos fazedores da Cultura para exaltar a importância da atuação de “Zé Manoel”. Sob sua liderança, foram estruturadas redes de fortalecimento da cultura pernambucana e com o Brasil.

Por alguns dias sentiu na pele a insegurança que é comum à maioria dos artistas brasileiros, que vivem de produção. Desde os 17 anos, trabalhava com emprego fixo. Mas, uma semana depois, ele já está envolvido com várias atividades culturais, algumas remuneradas, outras não. É a sua natureza. Não ficar parado e ser generoso.

Acostumado com a casa cheia de gente desde criança, de parentes e agregados, ele adotou isso como hábito e seu apartamento é sempre um pouso para os amigos. Isso diz muito do seu jeito de encarar a vida, com trocas e aprendizados.

“Sou um artista, um educador que se transformou em gestor da cultura e isso não foi sem dor, sem luta. É triste de dizer, mas optar por artes em um país como o Brasil é quase uma insanidade”. Quem pode dizer que ele não tem razão? Com tudo que ocorre neste país? A sensação que temos é que a Cultura está sempre em risco. “Sempre que se instaura uma crise é a cultura a mais penalizada”.

Vamos “ouvir” o que o filho de Seu Eloi e dona Estefânia, pai-do-coração de Cláudio Siqueira, tem a nos contar sobre sua experiência neste Planeta azul. É uma longa entrevista.

 

Meu pai viajava muito, por conta das empresas em que ele trabalhava.
Eram aventuras incríveis: até os meus 11 anos eu me mudei 30 vezes

Como foi sua infância? Quais as lembranças mais marcantes?

Meu avô paterno, João Noel, era sanfoneiro, tocava 8 baixos. Eu adorava ficar vendo. Aprendi a ler com os livros de cordel, os almanaques do Biotônico Fontoura, Carta do ABC, Tabuada. Minha tia-madrinha, Zoé, cantava lindamente. E dançava. E eu dançava muito nos bailes de forró que aconteciam na casa de meu avô paterno. Eu cantava e dançava muito. Cantava agudíssimo seguindo o tom de minha madrinha. E durante a semana passava as tardes no bananal, cortando cachos de banana e cantando o repertório. Depois ia cortar palma pras vacas ou fazer farinha na Casa de Farinhas.

Em Bezerros, ainda no sítio, tinha as festas na fazenda de Dona Carmem Moury Fernandes: São João (pamonha, canjica, milho assado, fogueira e fogos) , Natal, Páscoa, as manifestações populares, o pau-de-sebo, os fogos de artifício. Tinha também os terços e as noitadas religiosas onde eu cantava nos catecismos, acompanhava as rezas.

Teve uma época que eu achava que seria padre.

Outro dado da minha infância é que fiquei pouco tempo fixo em uma escola: meu pai viajava muito, por conta das empresas em que ele trabalhava. Eram aventuras incríveis: até os meus 11 anos eu me mudei 30 vezes: Bezerros, Pesqueira, Gravatá, Vitória de Santo Antão, Jaboatão dos Guararapes, Sirinhaém e Recife. Era um vai-e-vem enorme, ficávamos pouco tempo nos lugares.

Meu pai trabalhava em consertos de estradas, pistas, vias públicas e a gente o acompanhava para todo canto. Por isso, somente entrei em uma escola regular na antiga quarta série. Tive que fazer um exame de admissão, porque não tinha nenhum registro escolar, anterior. Tenho poucas memórias de escolas, professores, amigos de turma até chegar aos 12 anos de idade.

Bom, é importante que diga que éramos muito pobres, meu pai chegou a pedir esmolas para nos dar alimentação. Ele mesmo passou muita fome procurando emprego, foi vítima de exploração de mão de obra, trocou voto por vaga de emprego sem nem sequer saber o que era isso. Muito subemprego, trabalho assalariado, abuso de poder, coronelismo no Agreste, empreiteiros, usineiros. Meu pai chegou a se deslocar de Bezerros até Timbaúba – uns 180 km, de bicicletas -, à procura de emprego, por causa de um boato de que uma usina abrira vagas. E era boato mesmo.

Mas, as minhas memórias são de um casal feliz, trabalhador, “fazedor de menino”. Lembro do nascimento de minha irmã, Jô Francisca, bilheteira do Teatro Arraial Ariano Suassuna. Foi uma noite de fogos, pirão de frango, arroz branco e, para os adultos, cachimbada, uma bebida alcoólica, com mel. E muitas visitas com presentes para a menina.

E sua juventude?

Minha juventude foi de muito trabalho. Sou de família pobre. Sou uma pessoa de classe média. Desde os 12 anos que trabalho. Fui vendedor de picolé em Prazeres e na Praia de Piedade, – cheguei a vender 200 por dia; vendi bananas na feira, vendi sandálias, revistas e gibis, vendi artesanato de isopor na feira de San Martin. Ainda fui entregador de refeição a motoristas e cobradores de ônibus. Depois comecei aos 14 anos a dar aula de reforço escolar; cheguei a ter mais de 20 alunos. Finalmente, virei comerciante em casa, abrimos uma “vendinha” que no começo eu tomava conta.

Tirei muita água de dentro de casa. Quando chovia, a nossa casa era inundada. Foram muitas noites acordados, enfrentando as cheias de Prazeres. Foi uma juventude cheia de aventuras e trabalho.

Sofri muito bullying, porque não tinha farda ou sapato pra ir à escola e porque era magro, tímido e sem porte de elegância. Esse período foi ruim – era sempre o último nas filas, mesmo quando eu era o mais alto da turma.

E estudava muito. Lia todas as revistas e gibis e colecionava álbuns de figurinhas. Eu inventava muita coisa. Estudei um pouco da trajetória da italiana, de Gênova, Beata Paola Frassinetti, criadora da Congregação das Irmãs Doroteias, para participar de um programa de TV, que, graças a Deus, não fui: Silvio Santos.

Nesse período andei quilômetros de bicicleta, dancei em muitas festas na minha casa ou nas dos vizinhos. E, realmente, namorei. Naquela época eram namoros românticos, de jovens, mas depois dos 17 anos dei um tempo. Melhor pular essa parte.

Aos 14 anos comecei a fazer Teatro no Colégio Paola Frassinetti, em Prazeres. Frequentei muito a Biblioteca Central de Pernambuco e o Gabinete Português de Leituras – nossas viagens eram de trem. Alguns passeios me são inesquecíveis: a Festa da Pitomba dos Montes Guararapes, andar de lancha da CTU no Rio Capibaribe com meus irmãos menores, ir à Praia de Piedade. Ah! E no final de ano passear pelo Recife para ver a decoração de Natal.

Lia tudo o que era publicado em edições populares da Literatura Brasileira. Aos 17 anos já estava dando aulas em uma escola e aos 18 comecei a dar aulas no mesmo Colégio Paola Frassinetti, meu primeiro emprego formal.

 

DE ATOR A ENCENADOR

 

Sistema 25, sobre o sistema prisional. Fotos: Rogério Alves

Foto de 1974, no Colégio Paola Frassinetti, primeira ação em Teatro: O Deus Único, de Érico Veríssimo.

Mário Antonio Miranda, José Manoel e Carlos Lira em A bomba, de 1979

A bomba, de Alexandrino Souto, com direção de Mário Antonio Miranda. 

Mário Miranda, Carlos Lira e José Manoel

Montagem Beckett and Lispector  com direção de Breno Fitipaldi, no Teatro Joaquim Cardozo

Então como você foi atraído para o teatro?

Fui atraído para o teatro por uma professora de português do Colégio Paola Frassinetti, em Prazeres, Jaboatão dos Guararapes, e depois pelo Teatro Experimental de Olinda, com Valdi Coutinho. Foi Valdi quem me deu todas as oportunidades, me iniciou em tudo. Comecei como ator sob direção de Carlos Bartolomeu, no espetáculo Debu Le Rá, com adaptação de Bartolomeu a partir de obra de Oswald de Andrade.

Como ator fiz poucas coisas e me orgulho muito de ter passado pelo Teatro de Amadores de Pernambuco em A Capital Federal e A Promessa, de Luiz Marinho, como ator substituto. Dividir cenas com Geninha da Rosa Borges, Reinaldo de Oliveira, Diná de Oliveira, Renato Phaelante, Fernando de Oliveira, Vicentina do Amaral… Fico comovido quando penso nisso: dividir cenas com esses e essas gigantes. 

Você atuou pouco como ator, por quê?

Eu me transformei em encenador por necessidade, por sorte, por senso de oportunidade, mas eu queria mesmo era ser ator. E depois que eu comecei a dirigir, essa rotina foi enfraquecendo o ator que há em mim. Muito comprometido com a direção de espetáculos fiquei sem tempo para estudar e praticar interpretação. Conto nos dedos os espetáculos que fiz como ator: 3 no Teatro Experimental de Olinda; 6 na TTTrês Produções Artísticas; 2 no Teatro de Amadores de Pernambuco e alguns poucos independentes, dentre eles Seltrap, com Luiz Felipe Botelho e Beckett and Lispector, com Breno Fittipaldi, em ambos eu dei muito trabalho aos diretores.

Fui dirigido ainda por Carlos Bartolomeu, Mário Lima, Reinaldo de Oliveira, Geninha da Rosa Borges, Antônio Carlos Vander Vélden, Mário Antônio Miranda, Carlos Varella: poucos, para quem tem 45 anos de carreira, mas com quem aprendi muito.

Além de pouco tempo pra estudar interpretação, comecei a ficar com medo. É uma pressão muito grande, uma cobrança muito grande, talvez excesso de zelo ou insegurança mesmo. O fato é que tenho certeza, eu deveria ter me focado mais na carreira de ator.

Como foi sua formação na área?

Como eu disse, o início como encenador foi uma necessidade do grupo, uma urgência, era difícil ter diretores disponíveis para trabalhar com artistas e grupos da periferia. Participei de muitos cursos, oficinas, ações formativas, movimentos políticos e, principalmente, muitos festivais de teatro. Os festivais foram as principais escolas de minha geração.

Como você qualificaria sua educação formal?

Absolutamente atípica. Já falei que entrei numa escola e me mantive com regularidade a partir da quarta série, depois fui pra escola privada, graças a uma bolsa que meu pai conseguiu com Maria de Lourdes Chaves, proprietária e Diretora do Colégio Paola Frassinetti. Ela foi minha maior incentivadora. Lá eu fui presidente do Centro Cívico e vivi a experiência do movimento estudantil. Concluí o antigo primário e o científico (fundamental e médio), já emendei com a Fesp, cursando História, depois fui para a Funeso – Olinda, novamente História, de onde saí para a Universidade Federal de Pernambuco, Licenciatura Plena em Educação Artística (fui jubilado no quinto ano). Depois fui fazer Administração em Marketing, que odiei, e finalmente, o Curso de Letras (Vernáculo). Cursei todas as disciplinas de uma Especialização em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, mas não apresentei o texto final. Explico: Eu fazia muito Teatro e viajava muito, passava muito tempo fora do Recife e com isso eu atrasava o curso e desistia. Errei. Pronto. Reconheço. Entrei em muitas faculdades, mas sai de todas. Somente me formei em Letras, aos 50 anos. Não faria isso, hoje. Mudaria o rumo dessa prosa.

Quais são as suas expertises?

Não sei cozinhar, nem dirigir veículos, nem nadar, nem tocar instrumentos musicais: queria muito tudo isso. Andar de bicicleta é meu maior orgulho, andar bem. Sou datilógrafo de certificado e tudo. A vida me levou por muitos caminhos e lugares. Acho que minha maior expertise é viajar, fazer amizades, reconhecer os méritos de todos os outros. Sou um trabalhador inveterado e incansável,

Você montou mais de 100 espetáculos no período de 1977 até 2020. Como foi essa proeza?

Hoje eu entendo que foram muitas as motivações e pelo fato de não ter medo de arriscar. Foram escolhas por força do meu desejo de associar o trabalho de encenador ao de ativista político. Quando eu dirigia um espetáculo para um grupo eu aproveitava para, na medida do possível, participar do processo de organização e fortalecimento do grupo. Muitos desses trabalhos eu fiz por meio de projetos e como conclusão dos vários cursos que ministrei. Também pelos muitos convites que recebi de produtores. Tive a oportunidade de trabalhar com quase todos os produtores do Recife dos anos 1980 e 1990. Tem um fato que preciso frisar, eu era muito organizado com as questões de tempo, agenda muito disciplinada o que me dava condições de dirigir alguns espetáculos, simultaneamente.

De que forma você classificaria essas encenações? É possível agrupá-las por temática? O que existe em comum entre essas montagens?

De certo modo é possível agrupar: montagens de conclusão de cursos e de projetos; espetáculos da TTTrês Produções Artísticas e dos grupos do Sesc; montagens dos grupos independentes e dos produtores. Em comum entre a maioria, a narrativa política, recortes ideológicos, compromisso social. Nunca desassociei meu trabalho de encenador das lutas políticas. Agrupar por temáticas (luta das mulheres, erotismo, morte, lutas sociais, liberdades humanas etc.), ainda poderia identificar espetáculos para crianças e jovens, de rua, para espaços alternativos.

Avoar, de 1987, pela TTTRES Produções Artísticas, ficou 10 anos em circulação. Com direção musical de André Filho, iluminação de Xislane Ramos de Pontes . Elenco: Carlos Lira , Cira Ramos, Paulo De Pontes, Flávio Santos, Otacílio Júnior, Rudimar Constâncio, Ivone Cordeiro, Célio Pontes, Hamilton Figueiredo e Kátia Ribeiro. 

O que motivou as escolhas, esses espetáculos, esses autores?

Não há uma resposta conclusiva, porque foram muitas as motivações. Sobre a dramaturgia brasileira recaíram muitas das minhas opções: autores nacionais, pernambucanos, jovens autores. Há um autor com o qual trabalhei muito, o paulistano Vladmiir Capella. Conheci a obra dele através da Ingrid Dormien Koudela. Vladimir era defensor de um teatro sem faixa etária e eu também. Nós dois escolhemos trabalhar pensando nas crianças e nos jovens por um bom tempo, mas tratando de todos os temas, sem receio e da obra dele eu dirigi Como a Lua (3 versões), Avoar, Com Panos e Lendas, Antes de ir ao Baile e Píramo e Tisbe. Com ele me aproximei da APTIJ – Associação Paulista de Teatro para a Infância e a Juventude e isso fez toda a diferença. Também acompanhar os trabalhos de Ilo Krugli e Bia Lessa. A primeira montagem de Como a Lua foi decisiva para muito do que eu fiz até agora.

Por esses dias, começando a trabalhar com a Cia. Oxente, de João Pessoa, observei que além de pernambucanos, os autores paraibanos estiveram presentes na minha trajetória: Bráulio Tavares (Trupizupe, o Raio da Silibrina e Quinze Anos Depois), Altimar Pimentel ( Flor do Campo e Viva a Nau Catarineta) e José Bezerra Filho (Lampiaço, o rei do Cangão) e isso começou durante as várias temporadas que fiz em João Pessoa e no Festival de Campina Grande.

Durante um tempo fiz espetáculos como O Mágico de Oz, O Menino do Dedo Verde, Cantigas ao Pequeno Príncipe e O Regresso. Poderia elencar muitos recortes, acho que fico devendo, quem sabe eu mesmo faça um estudo mais aprofundado sobre minhas escolhas.

Há alguma peça que você se orgulha mais ou que riscaria do seu currículo? 

Nenhuma tiraria do meu currículo. Tenho o maior orgulho, inclusive dos meus maiores erros como encenador. Ao decidir dizer tantos sim, claro, que corri muitos riscos, mas quem me convidou, também se arriscou. Tenho muito orgulho de nos anos 1990 ter montado Jesus Homem, de Plínio Marcos e, de, para interpretar Jesus, ter escolhido uma atriz negra (Nika di Oliveira). Igualmente ter montado Cantigas ao Pequeno Príncipe com Érico José, também negro para interpretar uma personagem tão obviamente loura. E não só isso, pelo fato de serem negros, mas pelo fato de que nós desconstruímos narrativas enrijecidas, estereótipos.

Também me orgulho de ter, no começo dos anos 1990, ter dirigido Janos Adler, de Luiz Felipe Botelho sobre a temática do HIV. Nos anos 1980 eu montei Anjos de Guarda, de Zeno Wilde e realizamos o Teatro em Residências (De Porta-em-Porta), com mais de 100 apresentações, mais que um espetáculo, uma vivência para nós e para todas as famílias que nos receberam. Um Barco chamado Brasil, texto de Romildo Moreira para o Projeto Vamos Teatralizar a Constituinte de 1988.

Avoar, de Vladimir Capella, foram mais de 10 anos, ininterruptos, em cena e, mais recentemente a minha experiência um pouco radical com o Sistema 25, inspirado em conto de Plínio Marcos, com dramaturgia dos atores.

Essa é uma pergunta de respostas infinitas, melhor para nesses exemplos.

Ah! Tenho muito orgulho de ter trabalhado com o Grupo Loucas de Pedras Lilás, com as meninas da Casa de Passagem, com a atriz e produtora Socorro Raposo e com o produtor Bóris Trindade.

Por que foram rareando seus trabalhos?

De 1977 a 1999 fiz muitos espetáculos, mas com o meu crescimento dentro do Sesc, na função de gestor e as tarefas nos diversos projetos, inclusive na condução das políticas de cultura em Camaragibe e, por ministrar muito cursos e oficinas, a minha produção como encenador foi rareando. Tem outro fator: os grupos e as produtoras foram sendo extintos e as opções foram reduzindo. Também a minha opção por estudar literatura no curso de Letras me deixou com tempo mais reduzido. Outras escolhas, outras funções, outros caminhos.

 

ARTICULAÇÃO, AÇÃO, LINGUAGENS

 

Como foram seus processos de montagem?

Uma experiência que destaco foram as montagens para a rua, dentre elas, Um Barco Chamado Brasil, com texto de Romildo Moreira, para o Projeto Nacional Vamos Teatralizar a Constituinte e O que se Enxerga depois do Medo, de Wilma Lessa e Williams Sant’anna, com o Teatro Pesquisa Sesc: Núcleo Domínio Público.

Muita coisa mudou em cada geração, seja nos sistemas de produção, seja na dramaturgia, nas narrativas, nos temas, no modo de fazer, de lidar com atores e atrizes. Mas, foi na relação com os públicos que senti as maiores mudanças. Mais até do que nos aspectos estéticos. Antes, eram públicos enormes, hoje, o teatro é para poucos: esta mudança me chega de maneira pouco vibrante.

Quando você começou havia uma dificuldade de comunicação. Atualmente, com todos os recursos tecnológicos, é possível acompanhar procedimentos, estéticas e resultados de grupos distantes. Você entende que houve mudanças de criação e registro?

Tudo mudou muito: nos processos de criação, na temporalidade dos espetáculos, nos sistemas de produção, na estrutura dos grupos, na estética, nos modos de organização das experiências e nos registros. Algumas coisas mudaram para melhor, mais autonomia para os criadores, maior descentralização dos processos. Também muitas mudanças nas relações com a crítica e com os registros. Hoje se escreve mais, se registra mais, só os públicos que chegam menos.

Como você define sua estética e sua ética na criação dos trabalhos?

Quando paro pra pensar em tudo o que fiz, identifico claramente uma vertente política em meu teatro, uma presença ideológica. Não adianta: eu preciso me sentir útil. Há um certo compromisso com a pedagogia, com a educação, com o conceito de experiência. Sempre gostei da ideia de um espectador ativo, dentro do jogo, em muitos casos, quase atuando, pouco passivo. Sou um encenador de poucos elementos visuais, mas não abro mão de uma luz conceitual. Dos anos 1970 a 1990 eu também fui iluminador, meus espetáculos tinham forte dramaturgia de luz, e até hoje é assim> O que mudou é que eu não faço mais luz. Sou econômico em direção de arte, gosto de palco mais nu, porém, a música é um elemento dramático que recorro, antes funcionava como personagem, agora, na estética contemporânea, como dramaturgia.

Trabalho e trabalhei com muitos criadores musicais: André Filho, Allan Sales, Sérgio Kyrillos, Nando Lobo, Toinho Alves (do Quinteto Violado), Ediel Guerra (de Arcoverde), Osvaldo Costa (do Cabo de Santo Agostinho), Sagrama (Cláudio Moura), Sônia Guimarães e mais recentemente, Samuel Lira. Hoje, observo que meu teatro conseguiu acompanhar o tempo, passei por muitos fundamentos, mergulhei em muitos universos, estou em diálogo com a cena contemporânea porque entendo o fluxo e a dinâmica da cultura. É difícil, mas eu busco, estudo, pesquiso.

Como são feitas as escolhas e procedimentos de linguagens?

Não há uma regra. Muitos fatores interferem nas tomadas de decisão: o momento politico, a estrutura de produção, o perfil dos artistas, a dramaturgia de referência. Atualmente, me sinto mais frágil na relação com atores, preciso estudar mais, entender melhor este universo, mas isto não me deixa inseguro, fico mais inquieto. A juventude me provoca, me chama e eu vou.

 

TEATRO PRA CRIANÇAS E JOVENS 

 

Há especificidades, como defendia Marco Camarotti, do teatro que deve ser feito para crianças e adolescentes?

Não tenho elementos teóricos para contradizer Marco Camarotti, nosso maior estudioso e pesquisador da arte realizada para crianças e jovens, porque sei que o processo de evolução das pessoas é algo em camadas, crescente, a partir do que descobrem e experienciam em suas trajetórias. E a arte precisa reconhecer essas fases. Porém, também entendo e Marco falava sobre isso, que cada pessoa é um mundo, um universo, um mistério. E, sendo assim, reconhecemos que cada um desenvolve o seu potencial de modo diferente, a depender de sua realidade e de seu padrão social, das oportunidades e das escolhas.

Quando dirijo um espetáculo para crianças e jovens procuro construir um sistema de ações que possibilitem leituras e relações simultâneas por públicos das mais diversas idades. Sou contra a indicação etária, a classificação por idade. Eu faço porque as leis exigem e o padrão social hierárquico e autoritário me impõem. O discurso da moralidade e a prática da falsa moral cristã enclausuram , mediocrizam e enquadram os seres: tudo sob a égide da defesa da família. Sob o falso discurso da imoralidade.

Nós sabemos que a criança ao ver um corpo nu jamais trata com imoralidade ou criticidade, é apenas um corpo nu. A indecência está na cabeça dos adultos, com seus interesses e limites e medos. Objetivamente, eu construo meus espetáculos sem esta preocupação de separar crianças e jovens. E posso dizer, por causa vivida, a criança entra no jogo, basta haver a oferta da possibilidade. Quando ela não quer, dorme. E eu também acho isso bastante normal. Cabe à criança definir como e por quanto tempo se relacionará com uma obra de arte.

O que mudou para esse público desde que começou a fazer teatro?

Já tratei de temas como a morte para crianças e o resultado foi muito satisfatório, da mesma maneira que lidei sobre o nascimento sem falar de cegonha e sem esconder a verdade. Trabalhar para crianças e jovens é sempre um desafio muito grande. Pra mim, a diferença hoje em relação ao século XX é a relação com as tecnologias, e não somente com as crianças. As tecnologias estão isolando muito as pessoas e isso tem repercutido no universo do espetáculo. Penso que essa questão do isolamento social em decorrência do uso das novas tecnologias é que estará exigindo dos artistas de teatro um olhar especial e cuidadoso. Mas haverá saídas, isso haverá.

Hoje os desafios são maiores?

Não maiores, nem menores, têm a dimensão de seu tempo.

José Manoel Sobrinho, Foto: Acervo pessoal

SAÍDA DO SESC… FUTURO

 

O que significou o Sesc na sua vida?

Difícil sintetizar. Entrei no Sesc aos 19 anos e lá me mantive até os 62. Penso como sendo um território amplo, aberto, cheio de possibilidades. No Sesc fui professor de teatro (minha carteira profissional está assinada como professor de teatro, no dia 1º de Junho de 1979).
De 1977 a 1979 fui prestador de serviços e já comecei dando aulas e dirigindo o Grupo de Teatro Amador do Sesc, na Unidade de Santa Rita, no Recife. Por mais de 20 anos fui professor. Depois assumi a coordenação de cultura do Sesc Santo Amaro, no Recife, depois coordenador de Cultura do Sesc Pernambuco e finalmente Gerente de Cultura. Foi uma empresa que me reconheceu pelo trabalho. Ajudei a construir uma Rede incrível de Arte e Cultura no Sesc de Pernambuco e do Brasil. Tenho um amor enorme pelo Sesc e uma profunda gratidão. Não consigo pensar diferente. Por meio desta instituição vi surgirem artistas, pesquisadores, técnicos, professores de artes. Conheci pessoas geniais. Muito de minha formação humana, artística, intelectual foi forjada em seus territórios. Tive muita autonomia para trabalhar, pude inventar e desenvolver muitas coisas. O Sesc está conectado à minha vida, não tem como me desconectar.

Quando exercemos uma atividade com paixão, o trabalho se torna mais que obrigação / sacrifício/ meio de sobrevivência. Parecem-me que suas ações de trabalho sempre tão apaixonadas passavam de longe desse limite labutar do capitalismo. O que é o trabalho?

O trabalho? Um direito, lugar de fruição, de construção de relações. Não separo muito trabalho, construção, diálogo, enfrentamento, planejamento, carreira, salário, formação. Claro que estou me espelhando em minha experiência. Para muitos, trabalho também é violência, arbítrio, autoritarismo: nem sempre a sociedade industrial, patriarcalista, escravocrata permitiu que o trabalho fosse um lugar de libertação. Não sou ingênuo. Seja no Sesc ou nos outros lugares onde atuei, o meu trabalho esteve associado à ideia de coletivo e de criação. Ah! Não posso desassociar trabalho de renda, salário, construção de bens que me possibilitassem vida justa.

A classe artística / cultural de Pernambuco fez uma petição pública (Carta dos Fazedores da Cultura ao SESC PE) com questionamento ao Sesc por sua saída e de apoio a você pelos projetos desenvolvidos ao longo de sua trajetória. O que achou disso? [A carta e a resposta do Sesc estão copiadas abaixo da entrevista]

Eu fiquei profundamente sensibilizado com as reações de apoio a mim, tanto da classe, quanto dos integrantes da Rede Sesc em todo o Brasil e no estado. Em relação aos setores da Cultura penso que o fato de ter estabelecido uma relação franca foi o que mais me fez bem. Em uma função como a de gerente de Cultura do Sesc, a gente se vê diante de muitos desafios.

Há um princípio que eu procurei seguir sempre: se a pessoa procurava o Sesc com uma proposta e se eu percebesse que não havia possibilidade, eu dizia o não, de imediato. É preciso saber dizer não, rápido, objetivo e explicar o porquê do não. Eu disse muitos nãos, mas explicava. Se fosse algo compatível, o sim era logo e se eu tivesse dúvida pedia tempo para avaliar. Acho que essa postura me ajudou muito nas relações com o setor.

A Cultura é uma área muito penalizada e não dá para ficar adiando posicionamento. E tudo precisa ser explicado. As pessoas merecem e têm esse direito.

Sobre a carta, acho importante, um ato político, um posicionamento do setor que só tem acumulado perdas. Não me refiro ao fato de ser em minha defesa, mas por ser um alerta para todos. A luta é grande. Também um ato de generosidade para comigo. Não foi um pedido para um retorno meu, foi antes, uma reação com receio do que poderia acontecer depois. A carta é um ato político de resistência da categoria.

O que achou da escolha do seu sucessor, Rudimar Constâncio?

Rudimar Constâncio é um profissional muito preparado, um artista, pesquisador, estudioso da Cultura e da Educação, um homem formado em História, Mestre e concluindo um doutorado com o desenvolvimento de duas pesquisas, absolutamente necessárias. Um jovem de posições firmes, muito querido e respeitado no meio. Também conhece muito a Rede Sesc, tem um serviço prestado há 28 anos à Instituição e aos seus clientes. Já foi gerente das unidades do Sesc em Arcoverde e Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, e vinha conduzindo o Teatro Samuel Campelo. Diretor, professor e ator de Teatro com vasto conhecimento e incursão pelo interior de Pernambuco.

Não tenho nenhuma dúvida de que dará certo. Ele, no entanto, vai precisar muito do apoio da Direção do Sesc.> Não se faz politica de cultura sem recursos, sem liberdade de criação. Não me preocupo com a condução do Sesc, o que me preocupa é a ação predatória do atual Governo Federal com as intervenções nocivas do presidente e de seus aderentes das politicas econômicas. O ministro da Economia, Paulo Guedes, é o segundo maior inimigo da Arte, da Cultura, da Educação, da Saúde e de todas as politicas sociais da atualidade.

Quais são seus planos agora? Projetos adiados devem ser retomados ou iniciados, não?

Vou me candidatar a um mestrado, de preferência na área da gestão cultural. Pretendo estudar e contribuir com o setor público, principalmente junto com aos municípios. Não dá mais para que os municípios deixem as políticas de Cultura em décimo plano. Vou estruturar minha consultoria em gestão da Cultura e oferecer os meus serviços. Ajudar na estruturação do setor. Vou intensificar meu trabalho de encenador e devo acelerar o meu trabalho com a Cia Oxente de Atividades Culturais de João Pessoa. Gostaria de realizar um trabalho de ator, estou conversando com Érico José, quem sabe eu consiga construir uma proposta com ele.

Nós, da Cultura, somos militantes. Se precisar trabalhar 15 horas num dia a gente trabalha.
Isso faz uma diferença enorme 

Como diz a sabedoria popular, 42 anos não são 42 dias. É muito investimento emocional, físico, intelectual depositado nesse emprego. Conte algo que você considera especial que ocorreu no seu período de instituição? E algo absolutamente abominável? 

Nós, da Cultura, somos militantes. Se precisar trabalhar 15 horas num dia, a gente trabalha. Isso faz uma diferença enorme. Nesses 42 anos, poucos funcionários da Cultura não se engajaram nesse processo. Foram muitas as realizações, difícil nominar uma. Acho que a efetivação da Rede Sesc de Cultura no estado e sua conexão com o país. A construção ou reforma dos equipamentos de Cultura: eu estive envolvido em todos. Também a criação dos postos de trabalho, eu estive envolvido. E a direção sempre acolheu. Tenho o maior orgulho. Também na criação dos principais projetos, participei ativamente.

Tem um fato que aconteceu nos anos 1980 que foi difícil. O ex-presidente do Sesc, Manoel Ramos de Almeida se candidatou a deputado estadual pelo antigo PDS e queria que eu o apoiasse. E eu me neguei e cheguei a ser convidado a deixar o Sesc. Eu o enfrentei e não saí. Foi bem difícil. E foi caso único, porque o Sesc é apartidário, não se envolve em lutas partidárias, trabalha com as gestões independente de sua tendência. O Sesc tem autonomia.

Nessa trajetória, você tem arrependimentos? Principalmente na vida pessoal, de ter deixado de fazer algo pelas obrigações com a carreira na empresa?

Não me arrependo de nada do que fiz, sou um homem que faz escolhas. Talvez me arrependa do que não fiz. Tenho experiências incríveis na minha vida. Comecei como professor de teatro no Sesc e fui construindo uma relação com a Instituição. Comecei pelo Sesc Santa Rita, depois fui para Casa Amarela, depois Santo Amaro e por fim para compor a equipe junto à direção. O Sesc me deu muitas oportunidades e eu aproveitei todas. O reconhecimento que obtive foi resultado de muito trabalho e empenho, mas também é muito coletivo. O meu reconhecimento está associado às oportunidades.

Outra coisa difícil é esta sensação de que o setor da Cultura está sempre em risco.
Sempre que se instaura uma crise é a cultura a mais penalizada. O Brasil é assim… 

 

A ARTICULAÇÃO NACIONAL

 

Em 2019, vistoriando a construção do Cinema do Sesc no Centro de Produção Cultural de Garanhuns, ao lado de Naruna Freitas, da área do Audiovisual do Sesc Pernambuco

Como funcionou a articulação das ações do Sesc PE com nacional?

O Sesc é uma instituição federativa, com autonomia administrativa em cada estado, mas tem o Departamento Nacional que cumpre um papel fundamental para o país. É o DN o órgão responsável pela formulação das políticas do Sesc para o Brasil. O Sesc Nacional é muito importante, organiza, amplia os espaços de reflexão, articula toda a Rede Sesc. O Regional de Pernambuco ocupa um lugar de muito prestígio nesta rede e isso independe de pessoa, são muitas pessoas. Eu fui apenas parte desta rede, deste colegiado. Tive a sorte de ter participado nos grupos de trabalho que formularam várias políticas do Sesc: política de Cultura do Sesc para o Brasil, das Artes Cênicas, da Literatura. Ainda: participei em menor escala das formulações das políticas de Música, Artes Visuais e da criação dos Marcos Referenciais de Memória Social e Patrimônio Cultural e também de Arte-Educação. Direito e diversidade são os princípios das políticas do Sesc para o Brasil e eu creio que serão mantidos. O diálogo da Cultura com a educação e com a ação social são outros eixos e eu participei dessas construções. Isso faz parte da missão do Gerente de Cultura do Sesc e eu, felizmente, tive todas essas oportunidades. Pude trabalhar diretamente com muita gente com destaque como Álvaro de Melo Salmito, Sidnei Cruz, Márcia Rodrigues Costa, Wagner Campos, Maria Helena Kuhner, Maria José Gomes Duarte, Marcos Henrique Rego, dentre muitos em âmbito nacional. Em Pernambuco, trabalhar com o Professor Josias Albuquerque, Edson Wanderley Neves, Antônio Inocêncio Lima, Silvia Cavadinha, Teresa Ferraz e, ultimamente, com o diretor Oswaldo Ramos foram oportunidades que agregam valor a qualquer profissional. O professor Josias me deu muitas oportunidades de trabalho, de crescimento e me permitiu atuar na construção desta rede de teatros, galerias de artes, salas de experimentação em artes e cultura. Professor Josias fez a grande diferença na minha carreira.

 

A ARTICULAÇÃO COM O INTERIOR SEM COLONIZAÇÃO

É muito frágil a construção das políticas de cultura nos municípios brasileiros, em todos, independente de se é capital ou interior, mas no interior é muito mais difícil

Os saberes existem em toda parte, mas nossa história está carregada de hierarquias e dominações. Como você liderou na prática a articulação com o interior sem colonização?

Minha relação com o interior do estado é anterior ao Sesc, muito anterior. Começou com o Teatro Experimental de Olinda, TEO, em 1977, com o Protec – Projeto Teatro Comunitário, que eu participei e coordenei por um bom tempo. Com o Protec, além do Recife, nós trabalhamos com Igarassu, Limoeiro, Caruaru e Arcoverde. Arcoverde foi nosso principal polo descentralizado. Trabalhamos com núcleos de articulação. Depois com o grupo TEO no espetáculo Os Mistérios do Sexo, nos apresentamos em várias cidades.

Depois da experiência com o TEO vieram as ações com a TTTrês Produções Artísticas, nosso grupo de Jaboatão dos Guararapes. Com o nosso Projeto de Circulação de Teatro pelo Interior fomos a mais de 40 cidades do estado. Finalmente, o Sesc e a possibilidade de uma atuação mais continuada. E a ação junto com a Federação do Teatro de Pernambuco, Feteape e as diversas oportunidades de trabalho com o Festival de Inverno de Garanhuns, FIG, e trabalho em Caruaru, quando Arari Marrocos me contratou para uma ação junto à Casa de Cultura José Condé.

Além do tempo de trabalho com Leda Alves na cidade do Cabo de Santo Agostinho e a experiência com Camaragibe. Tudo isso foi me mostrando a grande potência criativa fora da capital. Sou agrestino, sou de Bezerros e isso também me influenciou muito.

Outra vez eu preciso afirmar: nada foi só. Nunca trabalhei sozinho, nem minha articulação foi algo que me isolou, ao contrário, só foi possível porque foi uma ação em coletivo. Muita gente, muitos trajetos diferentes. Aprendi muito com os movimentos populares, com as periferias, inclusive aprendi que NÃO HÁ CENTRO, todo lugar é centro. Certa vez, numa roda de conversas em Palmas, Tocantins, eu caí na besteira de dizer que o Tocantins era longe. De imediato alguém da plateia disse: não. Recife é que é longe, tudo depende de onde se vê. Nunca mais eu disse que um lugar era longe.

Sei que esses processo de valorização das ações feitas no interior vêm de muitos anos. O incentivo a festivais, fortalecimentos de grupos. Como você lidou com as peculiaridades de cada regional / cidade ?

Aprendi com Viola Spolin que criatividade é um fenômeno que todo mundo tem, basta ser provocado, estimulado, potencializado. Não importa se mora em Bezerros, no sítio Serra dos Bois, onde eu nasci, ou se mora em São Paulo. Todo mundo pode e merece oportunidade. As políticas necessitam sair deste lugar de centro. Bodocó é um grande centro de criação, assim como Triunfo, Goiana.

A questão é que a construção das políticas não passa pelo sentido de direito. As oportunidades estão associadas ao poder econômico e aos acessos à comunicação e isto é uma aberração. Sempre procurei trabalhar com os artistas, técnicos, produtores e públicos em situação de igualdade, mas é muito difícil. É muito frágil a construção das políticas de cultura nos municípios brasileiros, em todos, independente de se é capital ou interior, mas no interior é muito mais difícil. Os criadores e trabalhadores da Cultura com atuação no interior do estado passam por muitas dificuldades e reparações são urgentes.

Tenho certeza que isso passa pela lógica eurocentrista, capitalista, branca, machista, patriarcal, colonizadora. 

Claro que eu não comecei com uma consciência formada, cometi muitos erros nessa trajetória, mas fui permitindo a mim mesmo aprender, pela escuta, pela troca, pelos afetos e pelas construções. Você mesma, Ivana Moura, participou, como artista e como jornalista e crítica de artes de muitos momentos estruturadores. Você acompanhou muito as ações do interior do estado nas áreas de teatro e dança, principalmente. Muitas lideranças artísticas se destacaram a partir do trabalho realizado em Caruaru, Palmares, Limoeiro, Timbaúba, Surubim, Goiana, Garanhuns, Belo Jardim, Pesqueira, Arcoverde, Serra Talhada, Salgueiro e Petrolina, para destacar alguns outros polos de criação. Eu sempre fui muito misturado, não foi apenas por meio do Sesc, mas o Sesc, os últimos 20 anos, foi fundamental.

 

FORMAÇÃO DE ATORES 

 

O curso de formação do Sesc foi ganhando espaço na lacuna do CFA e da Fundaj do Derby?

O Curso de Interpretação para Teatro – CIT surge como uma continuidade ao que surgiu nos anos 1980. Ele nasceu nos anos 1980, antes do da Fundaj e do CFA (Curso de Formação do Ator, da UFPE) – só que era mais tímido. Chamava-se Curso Regular de Teatro – CRT. Muita gente deu aula entre os anos 1980 e 1999: Luiz Felipe Botelho, Williams Sant’anna, Gilberto Brito, Leila Freitas, Otacílio Júnior, Amélia Conrado, Kalyna de Paula, Wellington Júnior, Paulo Henrique Ferreira, Roberto Lúcio, Galiana Brasil, vários outros… A partir de 2000, ele ganha outra dimensão. Sob a coordenação de Galiana Brasil, nós, juntamente com Roberto Lúcio, construímos uma nova grade programática, atualizamos o conceito do curso. Reconfiguramos para atender aos ditames dos novos tempos. Muita gente foi aluna do CIT, desde quando era CRT (Curso Regular de Teatro). De 2015 para cá, ele tem passado por outras reformulações, agora com Rita Marize Farias, Rodrigo Cunha, Almir Martins. Muita gente tem dado aulas no curso nestes últimos 8 anos, dentre eles Luís Reis, João Denys, Cira Ramos, Paula de Renor, Antonio Cadengue, Mariane Consentino, Anamaria Sobral, Maria Clara Camarotti, Leidson Ferraz, Samuel Bennaton, entre outros vários.

Quais avanços foram feitos desde a criação do primeiro curso?

O CIT tem cumprido um papel estratégico fundamental no Recife e em Jaboatão dos Guararapes, seus dois núcleos. Rudimar Constâncio tem cumprido um papel importante para o CIT no Sesc Piedade. Mais uma vez a equipe tem estudado novas atualizações, mas o CIT atualmente está sintonizado com o pensamento do teatro contemporâneo. A estruturação da coordenação pedagógica do curso com Rodrigo Cunha e Almir Martins, o novo sistema de avaliação, o acompanhamento do desempenho dos alunos foram avanços mais recentes da pedagogia do curso.

Qual o diferencial do curso de formação do Sesc em relação a outros oferecidos em Pernambuco?

Pernambuco tem uma oferta muito boa para quem deseja estudar Teatro, não apenas no Sesc. Felizmente, muitos egressos dos cursos da Universidade Federal de Pernambuco, especialistas, mestres, doutores estão criando outros ambientes no estado e eu acho isso muito relevante. No caso do Sesc, tem a marca da Instituição, sua própria história, a qualidade de sua equipe de professores. Mas, sinceramente, as outras escolas também tem profissionais muito bons, cada um com sua pedagogia e com suas metodologias. Seguramente, o maior diferencial são os resultados históricos dos cursos do Sesc.

Qual o período que você esteve no Curso Básico à Formação de Atores da Fundaj?

Iniciei na Fundaj em 1990 e fui até 1996. Cuidei de duas disciplinas, em turmas diferentes: improvisação para o teatro e Interpretação e em três turmas fui responsável pelas montagens de conclusão: Flor do Campo, de Altimar Pimentel; Píramo e Tisbe, de Vladimir Capella; e Janos Adler, de Luiz Felipe Botelho.

Como era o funcionamento lá dentro?

Foi uma experiência e uma oportunidade importante pra mim, muita gente surgiu ou cresceu vivendo as experiências nos corredores da Fundaj, no Derby. Aliás, sinto falta dos trabalhos da Fundaj, do Teatro José Carlos Cavalcanti Borges, uma linda casa de espetáculos.

Se não me falha a memória, foi numa montagem de conclusão de curso da Fundaj que você recebeu uma crítica em que dizia mais ou menos que os alunos-atores derraparam na lama e nunca se ergueriam?

Sim, foi na montagem de Janos Adler, que era uma encenação na lama, um crítico insinuando que o texto e a montagem estavam além do elenco. Não concordei, como não concordo até hoje… dentre outros artistas, lá estavam Robson Queiróz, Janine Aroucha, Márcia Cruz, dentre outros. Um elenco incrível que o tempo se encarregou de consolidar.

O que você pensa da crítica feita em Pernambuco? Há pouco tempo alguns artistas afirmaram para uma revista local que não existe crítica teatral. Você concorda com isso?

Leio tudo o que posso, me reabasteço lendo as análises, observações, considerações dos críticos de artes. Sinto muita falta dos espaços, das colunas, do trabalho dos críticos. Já tive alguns embates, diálogos bem significativos. A crítica nos ajuda, orienta, problematiza.
Há dois momentos bem distintos, que eu alcancei: de 1976 a 2000 e de 2000 pra cá: um tempo em que os críticos atuavam nos grandes veículos de comunicação e depois os críticos nos veículos online. E há ainda o período de transição, de 1990 a 2005. Não tenho muita segurança nestas datas, mas é o que me salta os olhos.

Em qualquer época, a crítica cumpriu e cumpre um papel muito importante. Havia uma maior sistematização, antes. E um certo glamour. Adoro ler os livros dos críticos dos anos 1970 a 1990, lá estão informações e reflexões muito potentes sobre o teatro, a arte que se produziu. Penso que ainda faltam escolas que estimulem esta função. Sinto falta. O crítico cumpre um papel de mediação, necessário, relevante.

Como você avalia a pedagogia do teatro desde sua entrada nessa função e as mudanças ocorridas ao longo dos anos?

De 1977 até 2010, aproximadamente, eu dei aulas, muitas. Tenho certeza de que mais de 1 mil alunos de teatro passaram por mim, no Brasil inteiro. Dei aula em quase todos os estados do Brasil, em cursos e oficinas de curta duração, e em muitas cidades de Pernambuco. No Recife e na RMR dei aulas seguidamente, a muitas turmas. Mas, parei. Chegou um momento em que percebi que, para dar aulas, eu teria que estudar e pesquisar muito mais. E eu não tinha tempo.

Minhas tarefas na gestão, no Sesc Pernambuco, na Rede Sesc no Estado e no Brasil, meu envolvimento com formulação de políticas, a minha relação com a Literatura, tudo me fazia perceber que ministrar aulas de teatro seria uma irresponsabilidade. Com muita dor, eu parei. De vez em quando eu ministro alguma oficina, mas somente se me sentir seguro. Preciso ter responsabilidade com o que faço e sala de aula é algo primoroso. Quero e vou voltar, mas antes vou me preparar.

Ocorreram muitas mudanças, as pedagogias de ensino do teatro foram ressignificadas e eu não acompanhei a contento. Por isso, parei. O pensamento da mulher e do homem contemporâneos e as lutas da atualidade levaram as artes à revisão de pensamento e novos valores foram elevados, as lutas dos movimentos por reparação, os direitos humanos interferindo diretamente nas artes, as questões de acessibilidade, a afirmação da politica de direito, as novas estéticas, o pensamento performativo, as novas tecnologias, tudo fez com que o Teatro se reconfigurasse. Um exercício duro e penoso para a minha geração, mas necessário. E urgente.

 

O PROJETO GIL VICENTE E O
GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA

 

O que foi o projeto Gil Vicente e em que condições ele funcionou?

A poeta e escritora Maria de Lourdes Hortas foi diretora de Cultura do Gabinete Português de Leitura, no Recife, e me convidou para coordenar um projeto denominado Projeto Gil Vicente. E eu fui. Foi uma oportunidade excelente para eu estudar a dramaturgia de Portugal e sua relação com o Brasil. Realizamos muitas ações, trabalhos, também, com a poesia, um mergulho em Fernando Pessoa, as narrativas de Almeida Garret, também estudamos a dramaturgia dos anos 1990.

No final de 1989 começamos os trabalhos que se prolongaram até 1992. Em pouco tempo, a direção do Gabinete montou uma galeria de artes e um teatro, ambos no pavimento térreo do lindo prédio da Rua do Imperador e, com um elenco incrível eu dirigi A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, em versão adaptada por João Denys Araújo Leite, direção de arte de Luiz Felipe Botelho, músicas e sonoplastia de André Filho. Gostei muito da experiência, dirigir esse espetáculo, cumprir temporada e participar de outras ações no Gabinete. Dirigi também um trabalho a partir da obra de Fernando Pessoa.

O que você lembra do Recife dessa época?

Tenho medo de parecer saudosista, mas eram tempos de muita ebulição, Recife tinha muitos grupos, produtores, casas de espetáculos com temporadas, espetáculos de longa vida, espaços alternativos. Na contramão, não tinha aparatos públicos, nenhum edital. Os artistas trabalhavam muito e não ganhavam quase nada. Aliás, nesse último aspecto não mudou.

Outro dado que eu lembro e sinto falta, as Universidades e Faculdades tinham grupos muito importantes: UFPE, Unicap, Fafire, As Instituições bancárias: Bandepe, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil. Tinha os grupos da Fundaj, AABB, Sindicato dos Bancários, Chesf, Coperbo, além dos do Sesc. Esses grupos eram muito independentes, mesmo sendo vinculados às empresas, contratavam diretores, montavam obras da dramaturgia pernambucana, brasileira ou estrangeira, algo pujante. Lembro da movimentação e das lutas politicas, constantes e de resistência. Havia até o Prêmio Espontâneo para os Melhores do Ano. E muita briga, muita briga, muita resistência do pessoal das artes.

 

AS AÇÕES NOS PRESÍDIOS

 

Em que consistiam as ações desenvolvidas nos presídios?

A atriz pernambucana Maria Rita Freire Costa, uma atriz que merece ser estudada, havia realizado experiências com teatro em unidades prisionais em São Paulo, Belém e Brasília e apresentou ao Ministério da Justiça uma proposta para realização de um projeto de ressocialização por meio da arte. E eles toparam e lançaram uma proposta nacional por meio de diversas entidades.

A entidade que se interessou em Pernambuco foi a Feteape – Federação do Teatro de Pernambuco. O Projeto Nacional chamava-se Nimuendaju – Aquele que constrói o seu próprio caminho, uma expressão do Tupinambá. Num encontro em Brasília, Pernambuco foi representado por Teresa Amaral. A Feteape assumiu o projeto em Pernambuco para realização conjunta com a Secretaria de Justiça de Pernambuco. A assistente social Iluminata Rangel Macedo assumiu a coordenação na Secretaria.

Em Pernambuco, o projeto aconteceu em dois momentos distintos e com nomes diferentes: Projeto Coringa e Projeto Alvará de Expressão, em ambos eu fui o coordenador artístico. Consistia na realização de ações formativas (oficinas, cursos, palestras, rodas de conversa, seminários e encontros sobre artes e teatro) ministradas por artistas do estado. E ações de fruição com apresentações de espetáculos nas unidades prisionais. Foram mais de 50 espetáculos de teatro e dança.

Na fase seguinte foram estruturados grupos de teatro nas unidades, com diretores teatrais fixos, com a realização de montagens, estreias, temporadas nos presídios, circulação dos espetáculos entre as unidades e diversas apresentações em teatros, dentre eles o Teatro de Santa Isabel, Teatros Apolo, Barreto Júnior, e no Cabo de Santo Agostinho e Garanhuns. Todas as etapas do projeto foram realizadas com residentes dos Presídios Aníbal Bruno, Barreto Campelo, no Feminino do Bom Pastor, no Hospital de Custódia Psiquiátrica de Itamaracá e na Unidades de Palmares e Pesqueira. Também com passagem pelas Unidades de Caruaru, Limoeiro e na Penitenciária Agrícola de Itamaracá.

Quais as forças você precisou desafiar para pôr em prática ações humanitárias com relação aos presos?

Por incrível que pareça, as forças que tivemos que enfrentar foram os dirigentes religiosos das unidades prisionais e os advogados que não entendiam porque um preso se envolveria com teatro no presídio. Recebemos muito apoio das equipes da Secretaria de Justiça, das áreas de segurança e dos juízes das varas de execução penal. Nunca houve nenhum incidente envolvendo os mais de 200 artistas que passaram pelo projeto.

O que houve de desdobramento desse trabalho?

O que destaco dessas experiências é a comprovação de que a arte é potente, humaniza, tem potência social, inclusive em casos extremos, como são os presídios de segurança máxima. Não há romantismo nesta minha leitura, o que eu vivenciei foi um aprendizado excepcional para todos nós, inclusive para a área de segurança dos presídios. Em mais de cinco anos não houve, sequer, um incidente envolvendo a área de segurança.

Quais as linhas ideológicas de sustentação do projeto?

A base conceitual e prática do projeto eram as ideias de Paulo Freire, Augusto Boal, Bertold Brecht, Grotowski: teatro político e pedagogia do teatro. Muitos espetáculos foram montados com dramaturgia brasileira e, também, com dramaturgias criadas pelos participantes dos grupos por meio de oficinas de escrita dramatúrgica com Williams Sant’anna, Wilma Lessa, Romildo Moreira, Carlos Lira, Normando Roberto Santos, Paulo Oliveira Lima e eu. Textos de Samuel Beckett (Esperando Godot), Timochenco Wehbi (A longa jornada de Zero à Ene), Marcus Acioly (LatinoAmérica), dentre outros. Muitos grupos e artistas do teatro e da dança participaram deste projeto. Além de Teresa Amaral, Zácaras Garcia também participou da coordenação do projeto, iniciado no governo de Miguel Arraes e encerrado no governo de Jarbas Vasconcelos.

Como e por que acabou?

Um secretário de Justiça achou que o projeto não deveria continuar.

 

ENTIDADES DE CLASSE E GESTÃO PÚBLICA

 

Existe uma tradição combativa em Pernambuco das organizações artísticas. Conta como foi, quais os cargos e quais as lutas enfrentadas na Feteape, Confenata.

Vou dizer um chavão; teatro é arte de coletivo. E eu sempre levei muito a sério isso. Trabalhei muito com produtores e elencos, mas são os grupos a minha paixão. É um mecanismo fantástico, as relações são diferentes. O modo de produzir, de criar, no grupo ganha uma dimensão da vida, uma extensão, algo que me fascina. Por conta disso, meu engajamento, desde cedo nos processos de formação política e de fortalecimento de grupos.

Assumir em 1980 a presidência da Associação de Grupos de Teatro de Jaboatão dos Guararapes foi o primeiro exercício. Era um movimento incrível, com várias ações, festivais. Logo depois, com a TTTrês Produções Artísticas fizemos o Movimento de Teatro Periférico, uma articulação pelas cidades da Região Metropolitana do Recife e, concomitantemente, o Projeto Teatro no Interior com circulação por muitas cidades de Pernambuco, Paraíba, Ceará. Como consequência, a presidência da Federação do Teatro de Pernambuco, Feteape, seguida da coordenação da Coordenadoria de Teatro para o Interior, também na Feteape. Depois a Confederação Nacional do Teatro – Confenata, onde fui Secretário-Geral e depois Diretor da Regional Nordeste II (da Bahia a Paraíba).

Essas organizações da sociedade civil, entidades de representação dos grupos e artistas do Teatro foram, juntamente com os festivais locais e nacionais, a minha maior escola de formação. Antes de me formar em Letras, pela Fafire, passei pela Fesp/UPE e pela Funeso nos cursos de História, e por quase 5 anos, pelo Curso Licenciatura Plena em Educação Artística, da UFPE: nenhum deles eu concluí, viajava muito e não conseguia. Entrei na universidade com 18 anos, mas só me formei no ano que completei 50: escolhas. Isso eu mudaria hoje, mas…

Como surgiu e o que fez a TTTrês Produções?

A TTTrês Produções Artísticas foi fundada em 1979, em Prazeres, Jaboatão dos Guararapes, por mim, Carlos Lira e Mário Antônio Miranda, todos vindos do Sesc e do Teatro Experimental de Olinda. O nosso desejo era ter mais autonomia para trabalhar, definir nossas propostas de trabalho. Aprendemos cedo que cada artista necessita ser protagonista de sua história.

A TTTrês tinha como objetivo principal ser nosso espaço de experimentação. Todos seriamos atores, dramaturgos e encenadores e depois de termos o nosso espetáculo faríamos uma circulação por 500 cidades do Brasil. Elaboramos uma lista de 500 cidades – ao final, nos apresentamos em aproximadamente 100. Foram muitas montagens, muita circulação pelo Brasil, sem edital, sem recursos públicos, a maioria dependendo de renda de bilheteria ou de sobras do meu salário do Sesc. Nossos espetáculos eram seguidos de ações formativas: cursos, oficinas, debates, encontros com grupos. Um incrível exercício de troca entre artistas e públicos.

A cidade de Jaboatão estava meio parada, no quesito teatro, quando você sacudiu o pedaço? Como foi isso?

A nossa experiência de grupo, nós levamos para a proposta de criação da Associação de Grupos de Teatro de Jaboatão dos Guararapes, quando eu fui o seu primeiro presidente. Eram uns 11 grupos da cidade. Realizamos festivais, mostras, temporadas, cursos, oficinas, debates, envolvendo artistas de todos os grupos, uma experiência de gestão cultural por meio de uma entidade da sociedade civil. A sede da Associação era na minha casa, onde também era a sede de nosso grupo e onde nós criamos a Biblioteca Orlando Miranda de Carvalho: no bairro de Prazeres. Naquela oportunidade iniciamos uma parceria com a Diretoria de Cultura de Jaboatão dos Guararapes, cujo diretor era um multiartista, ex-padre, Antônio Carlos Vander Vélden. Com direção dele, chegamos a montar dois espetáculos contando com as participações de artistas de todos os grupos da cidade. Um desses espetáculos era sobre a saga do Padre Vitor Miracapillo, expulso do Brasil pelo regime ditatorial. Era um movimento político de muita força e representatividade e por isso mesmo sofremos muita pressão política e policial. Foi um movimento fundamental para os jovens artistas da cidade.

Não se faz política pública sem recurso,
não se faz Cultura sem investimento.

O que foi o Projeto Camará?

Fui convidado pela Prefeitura de Camaragibe, por meio do seu Departamento de Cultura, para realizar o Projeto Teatro Camará, um curso com até três turmas para atender a uma proposta de campanha. Havia um compromisso do ex-prefeito João Lemos e o convite a mim era para realizar os cursos. E assim foi: três turmas, super lotadas. Antes de terminar os cursos, os alunos deveriam passar por um processo de orientação, principalmente quem era integrante de grupo. Porém, antes de terminar as aulas eu fui convidado e aceitei ser diretor de Cultura de Camaragibe. Aceleramos o processo de escrita e prática de uma política de cultura para a cidade, situada na Região Metropolitana do Recife, com 150 mil habitantes.

Como consequência deste trabalho, fui mantido na equipe de Cultura da cidade, na gestão do Prefeito Paulo Santana, quando foi criada a Fundação de Cultura, Turismo e Esportes de Camaragibe. Por um ano eu fui vice-presidente e por mais 6 anos eu fui presidente e pudemos viver uma experiência trabalhosa, mas com muitas realizações, culminando com o uso de 5% do orçamento da cidade para a Cultura, algo raro ainda hoje no Brasil.

A estruturação das políticas de Cultura, Turismo e Esportes foi um desafio muito grande e urgente. Paulo Santana foi um prefeito exemplar para a Cultura: o mais difícil era o fato de que o orçamento da cidade ainda hoje é pequeno, sobrevive do Fundo de Participação dos Municípios e do comércio local. Mesmo sendo um percentual acima do padrão, era pouco, porque a cidade tem poucos recursos, quando comparamos com outras da RMR. E não se faz política pública sem recurso, não se faz Cultura sem investimento. No entanto, com a organização de todos os setores das artes foi menos difícil construir as bases de um Sistema Municipal de Cultura. Muitos foram os conflitos, principalmente os meus: é muito ruim querer e não poder, saber da importância e atuar com tantos limites.

Como é ser um artista febril e um gestor ousado diante das limitações impostas pela política, pelo mandato e pela mentalidade que impera até hoje de que cultura não é “item” de primeira necessidade?

Bom, eu sou um artista, educador que se transformou em gestor da cultura e isso não foi sem dor, sem luta. É triste de dizer, mas optar por artes em um país como o Brasil é quase uma insanidade. No caso de Camaragibe, foram muitos os enfrentamentos por causa da estrutura precária e da falta de espaços e equipamentos para a Cultura. E claro, a visão de parte da população e de grande parte dos políticos.

Para muitos cultura é supérfluo. Hoje ainda predomina esta lógica. Camaragibe realizou projetos de referência, fez parcerias, mesmo que ainda na época não existissem o Funcultura ou outros editais. Uma equipe muito atuante esteve à frente das políticas em Camaragibe, a cidade conquistou muitos prêmios internacionais e nacionais nas áreas de gestão pública, saúde e educação e isto repercutiu no campo da Cultura. Os habitantes compraram a ideia do projeto e a cidade passou a ter muitas opções e ofertas em programação cultural.

Esse movimento em Camaragibe teve quais reflexos?

Como consequência, novos espaços foram surgindo, grupos e artistas, além de novos gestores a exemplo de Carminha Lins, Saulo Uchôa, Sávio Uchôa, Joabson Guerra, Paula de Tássia, Janaina Amorim, Vilde Menezes, Ciça Portela, Cláudio Siqueira, Bruno Marinho, Lucila Gomes, Vânia Oliveira, entre vários outros. Novas gerações surgiram, posteriormente como desdobramento dessas experiências. Também, Lela Menezes, Uel Silva e Geraldo Cosmo que já atuavam na cidade, mas ampliaram as suas expertises como gestores. Camaragibe foi uma grande escola de gestão da Cultura para quem viveu a experiência.

 

AS RELAÇÕES COM O NORTE DO BRASIL

São muitos Nortes, mas há alguns traços que merecem destaque: o tempo amazônico, o preço amazônico, as distâncias amazônicas e os mistérios dos encantados das matas

O Nordeste ficou pequeno para você, que traçou relação com o Norte do Brasil. O que encontrou e descobriu naquela região? O que se pode aprender dessa ponte com os nortistas?

Os povos da floresta vivem em um mundo especial e particular. Fui muito para a região Norte por meio do Sesc, no início, mas depois, continuei um trabalho no contato com outras organizações ou mesmo por conta própria. Por 10 anos seguidos minhas férias foram no Norte do Brasil. Participei de inúmeros festivais, mostras, encontros, ministrei cursos, palestras, oficinas, fui analista de espetáculos, orientei grupos. Tem muitos pernambucanos no Norte, atuando com a Cultura e no início foram os meus interlocutores: Suely Rodrigues, Judilson Dias e Fabiano Barros, todos foram coordenadores de Cultura do Sesc Rondônia. Porto Velho foi minha porta de entrada, depois trabalhei no Acre, Amapá, Roraima, Amazonas, Tocantins e Pará. No Pará foi onde menos trabalhei.

Cada estado tem suas particularidades, são muitos Nortes, mas há alguns traços que merecem destaque: o tempo amazônico, o preço amazônico, as distâncias amazônicas e os mistérios dos encantados das matas. São muitas culturas, muitos hábitos e a arte explode em suas particularidades. As capitais concentram grande produção, mas eu ainda visitei Xapuri/Acre, terra do Chico Mendes, e Parintins/Amazonas, terra dos Bois Garantido e Caprichoso: mundos indescritíveis. O que mais me chamou a atenção foi a existência de um certo preconceito com a arte produzida no Norte, por parte do restante do país, como se não entendesse a dinâmica e as particularidades da arte produzida no Norte. É uma arte de uma força e de uma dimensão excepcionais.

E o pensamento sobre democracia e mundo que pode ser apreendido.

Os artistas do Norte têm um compromisso visível com as lutas do povo brasileiro, acrescido de suas próprias lutas, têm compromisso com seus púbicos, e realizam uma arte bastante comprometida. Me identifico muito com o que se produz na Amazônia.

 

José Manoel Sobrinho

É BOM SABER O QUE DIZER NA FRENTE DAS CRIANÇAS

Educar uma pessoa a partir do seu próprio corpo, de sua relação com o corpo tem um significado especial

Como você se enxerga? Quais os defeitos do Zé?

Minha avó paterna dizia que eu “era feinho, mas muito inteligente e bonzinho”. E eu cresci acreditando nisso. Ela me comparava a um primo que ela dizia “o outro é tão bonitinho, mas é uma peste”. Eu preferiria, mil vezes, ser lindo e uma peste. Principalmente, ser lindo. E depois, adolescente, eu dizia que não importava ter espelho em casa.

O que eu tiro de aprendizado é que, de fato, precisa ter cuidado com o que se diz a uma criança, porque as verdades, mesmo que relativas, viram absolutas quando ditas de maneira descuidada para uma criança. Ainda mais se quem diz tem a força e o significado de uma avó.

Já adulto, tenho um mantra: “fazer o quê, se a pessoa é fraca de feição?!” Depois eu construí um mantra mais meu: “Ah! Eu só vou namorar com gente bonita. Se eu quiser ver gente feia me olho no espelho”.

O fato é que isso teve uma repercussão muito grande na minha vida: amo o mar e as águas, mas não sei nadar e isto está relacionado a um estranhamento que construí com o meu corpo. E por que eu falo isso hoje? Porque por causa disso eu deixei de ser um ator-bailarino-pesquisador com toda a dimensão que essas profissões têm. Sempre falei isso para os meus amigos e só estou falando isso agora porque sinto que tem função pedagógica. Educar uma pessoa a partir do seu próprio corpo, de sua relação com o corpo tem um significado especial, fará toda a diferença para o que a pessoa será e como será, no futuro. Sei que isso me caracteriza como uma pessoa com preconceito, principalmente comigo mesmo e isso me tirou de muitos ambientes. Não tenho defeito físico, mas construí um conceito sobre meu corpo que não me ajudou e isto é difícil de mudar, nem meus quase 10 anos de terapia tem conseguido. 

Quem você fez sofrer na vida?

Eu, mais do que qualquer outra pessoa. Minha mãe, seguramente, porque sempre fui muito independente e, de certo modo, egoísta. Quando decidi sair de casa, nem conversei, sai. E sei que ela sofreu.

Você me contou que existe uma espécie de tradição na sua família de agregar pessoas. Por exemplo, seus avós adotaram parentes, seus pais também adotaram pessoas e que essa herança passou para você. Agregar, hospedar, acolher são ações comuns na sua vida, que gosta de ter uma casa cheia. São outros laços de família que você compõe. Gostaria de saber mais sobre isso.

Nas casas de meus avós maternos e paternos nunca estavam somente eles e os filhos, sempre tinha mais alguém. Venho de uma família muito grande, mais de 10 tios e tias paternos e também mais de 10 maternos e primos e primas. Fui criança lidando com tia adotiva, depois na minha casa meus pais sempre receberam meus tios e tias e primos e primas. Dividir o quarto de casa era algo muito comum. E era muito bom. Fui criança e adolescente com a casa sempre com pessoas morando, gente muito querida. Nossos beliches (camas duplas) eram territórios de alegria, conversa e risadas. Quando eu fui crescendo isso foi ficando mais sólido.

Entrar no teatro foi definidor. Mesmo na casa dos meus pais ter alguém dormindo, passando dias, noites, era algo comum e corriqueiro. Eles, duas figuras incríveis, nunca me colocaram limites ou brigaram comigo e recebiam a todas e todos muito bem. A receptividade de meus pais e de meus irmãos, o fato de nunca contestarem, penso que me dava muita liberdade para estar sempre convidando alguém. Às vezes, 2 ou 3 ou até mais.

Certa vez, a Equipe Teatral de Arcoverde – Etearc, veio se apresentar em Prazeres, com sua montagem de O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna. Não deu outra, todos ficaram hospedados na minha casa, umas 12 pessoas. Meus pais saíram do quarto deles e colocaram todas as meninas do grupo. Eles dormiram no chão.

Quando sai de casa e vim morar no Recife, não vim morar só: primeiro fui adotado por Rudimar Constâncio, que me acolheu em seu apartamento da Rua do Hospício. Acho que fiquei uns 2 anos morando na casa de Rudimar. Depois, aluguei um apartamento e fui morar, desta vez dividindo com Cláudio Siqueira e Vilde Menezes. Pronto. A partir daí, nunca morei sozinho. Por muitos anos minha casa foi território de pouso pra algumas pessoas amigas, artistas na luta por uma oportunidade, na busca por seu desenvolvimento humano.

Não há necessidade de citar nomes, mas posso dizer que em minha casa moraram artistas de Arcoverde, Sertânia, Petrolina e Camaragibe. Tenho certeza que foi herança de meus avós e de meus pais. É importante dizer que não é porque sou bonzinho, é uma cultura, uma oportunidade para mim. aprendi muito sobre a vida, a arte, a complexidade para se fazer arte e educação no Nordeste do Brasil, no Brasil, por melhor dizer.

Carrega algum sentimento de culpa por algo que fez ou deixou de fazer?

Sempre digo que sou cristão burro, aquele dramático que sofre por todos, tem pena de tudo. Mas arrependimento eu não tenho não, muito menos culpa. Tem uma coisa que eu me queixo, de não ter escrito tudo o que experimentei e vivenciei. Ah! Sim! Entrei na faculdade aos 18 anos, na Fesp – Faculdades de Pernambuco, hoje UPE, mas só me formei aos 50 anos, no ano que completei 50 anos, na Faculdade Frassinetti do Recife – Fafire. Disso eu me arrependo e muito. Também me arrependo de não ter comprado minha casa própria, isso é muito importante que todo jovem faça logo. O Brasil é um país medíocre para o envelhecimento, é importante construir alguma estrutura.

Como você definiria sua vida intelectual? A experiência de vida compartilhada com muita gente pelo seu trabalho forjou ou expandiu sua humanidade?

Poxa! É difícil uma autoavaliação assim. Me considero uma pessoa muito humana, mas sou meio estourado e às vezes magoo as pessoas. Tento me redimir. Dizem que sou difícil de ser convencido, que tenho argumentos pra tudo e isso parece ser uma coisa ruim. A experiência de vida compartilhada me mostrou que, de fato, a vida é bela. Penso que a gente veio a este mundo pra ser feliz e o que for ao contrário, que me deixe ou deixe o outro infeliz, não vale a pena.

Sou um homem de muitas limitações intelectuais, o que me salva é a minha reconhecida generosidade. Eu corro muito, vou atrás, sou entusiasta. O que me fortalece é o meu entusiasmo e a minha energia, sempre fui “assulerado”. Ainda vou desenvolver melhor uma metodologia de pesquisa e estudo. Não tive tanto acesso a um conhecimento universal, tenho muitas limitações, fui um leitor sem muitas opções de escolha, não tinha poder aquisitivo e isso tem repercussões muito sérias no futuro de uma pessoa.

 

ANDAR COM FÉ, MAS COM ESPÍRITO CRÍTICO

Se o Brasil fosse independente não teríamos tanta fome e tanta dor em nossas terras, nem tanta escravidão, poucos bilionários e milhões na pobreza. 

Como é sua espiritualidade?

Sou católico, de origem familiar, mas muito crítico da Igreja Católica, tenho pavor da história de crimes das religiões; tenho muitos amigos e familiares evangélicos, mas acho hoje os mais radicais e intolerantes, os grandes culpados por termos este presidente do Brasil, pessoa que não gosto nem de dizer o nome. O que me alivia é minha espiritualidade, minha relação com a natureza, com as pessoas, com o tempo. Sou uma criatura que reza muito, agradeço a Deus, gosto dos Santos Católicos, procuro entender a força dos Orixás, peço ajuda às minhas amigas espíritas.

Não frequento templos, igrejas de nenhuma religião ou seita, mas se tiver uma cerimônia e se eu me interessar eu vou. Amo conversar com Deus, com Nossa Senhora, rezo o Credo, rezo para os Anjos e para o Meu Anjo da Guarda. Visito templos como se fossem centros culturais. Tenho medo da morte. Ou seja, sou uma pessoa misturada.

Tenho maior carinho e admiração por Dom Helder Camara e por Dom Pedro Casaldáliga. Gritei muito nas ruas em defesa da Teologia da Libertação. Também não celebraria uma missa pela Independência do Brasil, igual fez o Padre Vitor Miracapillo. Se o Brasil fosse independente não teríamos tanta fome e tanta dor em nossas terras, nem tanta escravidão, poucos bilionários e milhões na pobreza. Acho que tenho um espirito revoltoso.

Em alguns momentos da história, as religiões vão bem além de um apoio espiritual. Também serviram como setores de proteção aos mais vulneráveis. Temos como exemplo no Recife a atuação de Dom Helder Camara, que protegeu os mais fracos. Como você vê a atuação das religiões atualmente no Brasil, no Recife?

As cristãs, vejo como um mercado livre, cheias de interesses escusos, com patronos e líderes milionários, cada vez mais dominando os veículos de comunicação, desrespeitando a Constituição Brasileira que garante o livre exercício religioso. Igrejas tradicionais que violentam os povos de religiões afro-brasileiras, intolerantes, segregacionistas que se utilizam da miséria e da fragilidade humana. Religiões históricas que se utilizam da dor dos fiéis para o enriquecimento e a dominação.

Tenho me preocupado com as muitas denúncias de crimes de lideres das religiões de maior espiritualidade. As várias denúncias, que vem de longe, mas seguem até hoje, da invasão dessas religiões em comunidades dos povos originários, demonizando as crenças ancestrais. Padres e pastores que invadem as florestas em flagrante agressão à crença ancestral. Sou cético e descrente das religiões por causa de seus líderes. Muito abuso de poder, perseguição e uso da fé para vender mercadorias.

Jamais votarei em padre ou pastor para função pública. Quem quiser ser politico partidário, de carreira que deixe a liderança religiosa para quem tem vocação e fé suficientes. Por outro lado, sou um homem crente, recorro muito a Deus, confio, creio e agradeço, mas a cada dia fujo de lideres religiosos. Claro que há as exceções, desses, normalmente eu gosto muito.

Você já leu a Bíblia ou a lê com regularidade?

Li a Bíblia como livro de história, acho uma obra linda, de uma humanidade comovente, mas não sou um leitor contumaz. Vou aproveitar o estimulo desta pergunta e reler, terei muito a aprender. Encontro nela princípios fundamentais para a pessoa de boa-vontade, um livro que deveria ser lido por todas as pessoas, como lugar de reflexão para se entender o nosso lugar no mundo. Acho a história de Cristo uma referência para se entender o sentido de reciprocidade, de luta, de crença.

 

AÇÕES AFIRMATIVAS

Se os próximos 520 anos fossem de politicas de reparação, ainda assim não conseguiríamos reparar todos os crimes contra as pessoas pretas, contra os povos originários, contra as mulheres, as pessoas com deficiência, os lgbtqi+, os pobres, os imigrantes

Quais os tipos de posicionamentos frente aos novos movimentos de afirmação? É possível reparação? Negros, índios, mulheres, etc.?

É revoltante viver no Brasil atual, com tanta intolerância e com a chancela do crime, da violência institucionalizada. O Estado brasileiro patrocinando a violência, o arbítrio, a violência desumana contra as pessoas indefesas. Se os próximos 520 anos fossem de politicas de reparação, ainda assim não conseguiríamos reparar todos os crimes contra as pessoas pretas, contra os povos originários, contra as mulheres, as pessoas com deficiência, as pessoas lgbtqi+, as pessoas pobres, os imigrantes.

O mundo tem muitos débitos, o Brasil tem muitos débitos com a humanidade. Eu sou um homem nordestino, classe média, desnutrido, gay e sinto na pele todas as punições por isto.  Mas sou branco. Jamais saberei a dor do desrespeito para com as pessoas negras. Meu corpo não sofreu a punição perversa, não sofreu a pressão da perseguição, não carrega as marcas do degredo e da escravidão. Nunca fui perseguido em um supermercado, mesmo carregando em mim todas as marcas de um povo pobre.

Você pergunta se é possível a reparação e eu digo, é inadiável, mas não será fácil com o Estado brasileiro dominado, um Estado perseguidor; todas as instâncias do legislativo sem credibilidade, atuando apenas para os seus interesses; um judiciário sem posição, que muda de acordo com os ventos; uma polícia enfraquecida como instituição que violenta, inclusive os policiais, estruturas envelhecidas, patriarcais. O trabalho brasileiro absolutamente precarizado. A gestão pública em frangalhos com desmontes da saúde e da educação; os municípios endividados, com a escuta popular cada vez mais escamoteada.

Todos nós não negros, não índios precisamos ter a responsabilidade humana e trabalharmos para diminuir tantas dores, respeitando as diversidades. Sinceramente, este é um tema que me deixa fora do eixo, me chama à responsabilidade para superar os meus limites e não silenciar, não pactuar, não ficar omisso. Tenho consciência de que nunca saberei, em mim, a dimensão dessa dor e de todos os desrespeitos e violências, as macro e as microviolências. Me sinto inteiramente incompetente diante dessa, de fato, pandemia.

Como você se define como homem branco, sempre no comando?

Eu sou um trabalhador brasileiro, militante da cultura. Não tenho protetores. Os espaços que conquistei foram resultado de muitas lutas e suor. Sou defensor dos direitos de todas e de todos, da igualdade de oportunidades; inteiramente comprometido com as lutas libertárias e com as lutas por reparação a todas e todos que tiveram os seus direitos reduzidos por qualquer motivo.

Não tenho dúvidas de que sou um privilegiado e tenho que ficar atento, permanentemente. Tenho contra mim o fato de ser originário de uma sociedade branca, autoritária, repressora, machista, excludente, hierárquica, de politica de balcão, eurocentrista, colonizadora, violenta, escravocrata, de uso da força e do poder. Mas, eu não me sinto herdeiro, não desejo ser herdeiro; também, por motivos já falados nessa entrevista, sou violentado e excluído. Mas, repito: não sou negro e nem sou trans e isso faz uma diferença grande a meu favor. Entendo que não basta ser antirracista, tenho que trabalhar, também, para impedir novos danos. Esta é uma responsabilidade inadiável, de todos. Sofro quando reconheço que poderia ter sido mais propositivo e atento à questões humanas de tanta urgência.

Você viajou muitíssimo a trabalho, mas nunca resolveu sair, se mudar do Recife ou da Região Metropolitana, por quê? Você não teria uma cidade ideal para morar?

No ciclo dos anos de 1980 a 2000 eu recebi muitas propostas de trabalho para São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Rondônia, mas nunca foi minha meta. Acho que tem a ver, primeiro com a minha relação com meus pais, preciso ser sincero. Mas, também, porque sempre raciocinei que, se todos fossem, como seriam os territórios de origem?

Uma das minhas maiores felicidades durante os governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram as inaugurações das Faculdades e dos Institutos Federais no interior do Estado e do Brasil. Tenho alunos desde cedo e ouvi muitas narrativas daqueles que, mesmo sem querer, tinham que sair de suas cidades para vir estudar no Recife. E como eram comuns as lágrimas e os desabafos, cresci vendo e ouvindo. Cresci acompanhando o êxodo rural, meu pai, meus tios, primos, todos foram embora para São Paulo, trabalhar na construção civil, depois voltavam, casavam e levaram as mulheres. E nunca mais voltavam. Tive a sorte que meu pai não gostou, minha mãe foi salva do êxodo, mas na cabeça dela este foi um fantasma que sempre a rondou.

Sou herdeiro do êxodo rural, das dores das saudades, e acho, tenho certeza, que fui profundamente influenciado por isso. Daí porque nunca sai.

Claro que perdi em alguns campos, as informações chegavam aqui mais tardiamente, a comunicação toda no Sudeste dominava o povo brasileiro, por isso a força das novelas, dos programas de TV.

Participei do movimento pela Regionalização da Programação da Televisão e do Rádio brasileiros, não podíamos aceitar aquele modelo centralizador, economicamente predatório, excludente. Tudo isso me influenciou para não sair de Pernambuco.

Eu, de minha parte, adoraria morar em Manaus, João Pessoa, Salvador, Brasilia, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo ou Porto Alegre. De Pernambuco… Arcoverde, Petrolina e Triunfo são as que mais me comovem. Do ponto de vista do teatro, adoro os públicos de Pernambuco, tenho muito o que dialogar com todos, não vejo motivos para sair, posso ir e voltar sempre, assim, como sempre fiz. E não me arrependo.

 

HUMANO, DEMASIADO HUMANO

 

Você é querido por muitos. Mas é “persona non grata” em algum lugar ou para alguém?

Não tenho como negar que sou muito querido, sinto isso no dia a dia. Claro que sou persona non grata. Quando fui presidente da Federação do Teatro de Pernambuco, Feteape, nos anos 1980, do século XX, eu era persona non grata dentro da Fundação de Cultura da Cidade do Recife. Quando eu era presidente da Fundação de Cultura, Turismo e Esportes de Camaragibe tinha uma oposição feroz na Câmara de Vereadores, era pequena, mas me criava muitos problemas. E olha que eu acho a existência das oposições algo fundamental para a democracia, a vigilância, a fiscalização e para cobrar o serviço público, mesmo que depois, quando está no poder, não faça.

Penso que muitos artistas e produtores que ouviram um não, de mim, saíram me odiando nos expedientes da fundação. Sou professor desde os meus 14 anos e profissionalmente desde os 18. Claro que tive alunos que me odiavam, não era o professor bonzinho, era bem severo no cumprimento dos acordos.

No Sesc Pernambuco, fiquei muitos anos como Gestor de Cultura, igualmente muita gente deve ter insatisfações. E, tanto na Fundação de Cultura de Camaragibe, quanto no Sesc, eu tinha o papel de ligar e desligar pessoas e ninguém aceita e gosta de ser demitido. Há pessoas que não falam comigo até hoje.

Bom… Como pessoa humana, cidadão do mundo, sinceramente, não vislumbro muitos desafetos, mas eles existem, poucos declarados, mas existem. Sou uma pessoa cheia de contradições, arroubos e isso deve ter incomodado muita gente. E minha capacidade de argumentação e muitas vezes descabida insistência, seguramente, me deu dissabores.

O que significa o silêncio?
Respiração, pausa, Intervalo de grande profundidade, quando o som se permite ouvir na sua sublimação, espaço pra decisão, momento quando o olhar ganha mais força e protagonismo, raciocínio, oxigenação, intervalo do pulso, hora do bocejo, interregno da pulsação, momento oportuno para mudar de direção, de posição. Boa hora pra perdoar, boa hora pra atacar, suspensão da dor, momento exato da morte, momento exato do primeiro, hora exata do nascimento. Movimento imperceptível.

 

POLÍTICA, UMA ARTE DIFÍCIL

 

Você trabalhou durante um tempo com políticas culturais públicas, na articulação. E em Camaragibe no governo mais diretamente. Sua visão é privilegiada. Gostaria que você fizesse uma análise sincera das políticas cultuais que são realizadas especificamente pela Prefeitura do Recife e pelo Governo do Estado de Pernambuco. Sei que essas questões são espinhosas, mas seu olhar é importante. Por que as relações de compadrios e os muros baixos nas políticas pernambucanas são tão fortemente marcadas por resquícios do coronelismo? 

Vou direto ao assunto. Enquanto os setores públicos da Cultura ficarem dependentes e reféns dos partidos políticos não se vai a lugar algum. Enquanto as secretarias e departamentos de Cultura ficarem reféns da Casa Civil ou das Secretarias de Governo, Gabinete, Administração, Economia, Finanças, Planejamento, não se chegará a lugar nenhum.

Os secretários de Cultura precisam de autonomia politica, financeira e administrativa para governar. Há que se ter politica de estado e não politica de governo. Os prefeitos precisam ter responsabilidade na hora de nomear os secretários ou diretores de Cultura. Para mim, falta clareza por parte dos prefeitos e, em muitos casos, responsabilidade, na hora de definir o gestor da área. Não quero, nem devo nomear aqui nenhum município, modo geral, este é um grande problema.

Também não há formação politica nas Câmaras de Vereadores na hora da construção e aprovação de leis para a área: elas precisam ser reparadoras, protetivas, promotoras, para acessibilidade. Há pouca ou quase nenhuma escuta, os interesses são diversos, menos para a área. Não se entende a força que a Cultura tem como geradora de economias: quanto mais se investe na produção local, mais há geração de economia no próprio município. É preciso que se entenda, a prioridade de investimento tem que ser na produção, no artista, no técnico local.

Isso tem inúmeros desdobramentos locais. Na representatividade, na reparação, na democratização, na democracia cultural, na geração de postos de trabalho, na economia e nas finanças, no comércio local, na educação, na saúde, na segurança, na mobilidade urbana, no turismo, na acessibilidade, na estima do município e das pessoas, artistas ou não.

Há que se separar política de Cultura da realização de eventos. No caso de uma capital como o Recife, para mim este é um fator cruel. O evento é muito importante, deve fazer parte da politica cultural, mas não pode ser “a política”.

Quando a secretaria fica à disposição do Carnaval, São João e Natal e as questões prioritárias ficam secundarizadas não tem jeito. Há que se resolver esta equação e isto é uma decisão politica.

Sem querer partidarizar, mas o governo do João Paulo, no Recife, deu sinais de que é possível: não conseguiu consolidar, não deu tempo, mas foi um avanço.

Fortalecer os setores da sociedade civil, ampliar a escuta; honrar os compromissos financeiros com todos, mas em especial com a produção do estado e dos municípios; qualificar os equipamentos culturais com investimentos e com equipe qualificada, treinada; afirmar os Sistemas de Cultura: Conselhos, Fundos, Órgãos públicos da Cultura, investimentos; garantir no mínimo 5% do orçamento para a Cultura; criar linhas de investimento; criar aproximação com a iniciativa privada para que haja investimentos de setores importantes.

São muitas frentes, seguramente aqui ainda falta uma infinidade de questões. Mas, seguramente, não pode ser uma tarefa apenas dos secretários ou diretores de Cultura. Isso precisa ser um compromisso, uma responsabilidade dos governantes e dos legisladores. Será que isso é uma utopia?

Qual sua reação diante do avanço de um pensamento e uma prática mais conservadores, das ideias e atitudes fascistas que povoam o mundo nessa fase?

Sem tolerância nenhuma, inadmissível, criminosos ao extremo, sem chance de diálogo. Tenho medo, tenho muito medo porque os defensores da violência e da morte criminosa são extremistas e eu sou defensor da paz entre os povos. O crescimento da direita fascista no mundo é preocupante. Também é preocupante a adesão de parte da imprensa às ideias conservadoras. Todos sabemos que muitos dos retrocessos brasileiros contaram com o apoio e a ação direta de grandes veículos da imprensa e das comunicações. Políticos, empresários, banqueiros, grupos de comunicação têm participação ativa nos avanços dessa politica excludente, que beneficia as grandes fortunas e empurram os pobres para situação extremada, basta ver o crescimento da fome no mundo.

A arte continuará lutando contra abusos de poder, contra a dominação dos grandes grupos econômicos. E contra as forças politicas que oprimem, basta que a gente observe as reformas implementadas nos governos Temer e no atual: precarização do trabalho, perdas de conquistas históricas, aumento da criminalidade e da violência, crescente armamento da população, perdas no processo de aposentadoria, desmonte das estruturas públicas das áreas da educação, saúde, meio ambiente, cultura, direitos humanos, sem deixar de falar na existência do gabinete do ódio e toda a sua estrutura de disseminação de mentiras e da promoção de perda de segurança.

Como você traçaria uma cartografia dessa situação, desse avanço?

Com o golpe de 1964, o brasileiro ficou impedido de exercer o seu direito ao voto, à escolha de seus lideres e gestores, foram os tempos dos políticos biônicos. Agora, em pleno 2018 o brasileiro, por meio do voto fez escolhas. Isso me assusta, a memória é curta, a significativa eleição de quadros opressores para a condução do Brasil e de estados deixa visível que nossa memória é muito frágil .

Me preocupa a partidarização do Judiciário, a presença do Judiciário em articulação com corruptos, usurpadores do bem da coletividade, a baixa qualidade dos senadores e deputados federais, a presença de líderes religiosos cristãos no Senado, na Câmara Federal, nas Câmaras Estaduais e nas Câmaras de Vereadores, desviando os objetivos e interferindo na ética dessas instituições. Nunca votei, nem votarei em padre ou pastor para cargo eletivo público, as experiências no Brasil são desastrosas, sectárias, excludentes.

Não traçarei uma cartografia da situação, mas chamo a atenção de todos nós, porque não podemos ficar distantes das lutas, das construções politicas para garantir um quadro de líderes políticos mais coerentes e comprometidos com as reais necessidades das comunidades.

 

CARTA DOS FAZEDORES DE CULTURA AO SESC PE

Para: SESC DE PERNAMBUCO

O SESC de Pernambuco tem sido fundamental para a memória, formação e difusão cultural no nosso Estado. Aproximou pessoas – trabalhadores e trabalhadoras da cultura e PÚBLICO. Promoveu inclusão, valorizou e iluminou a diversidade. Criou fluxos de trocas de arte e conhecimento antes nunca vislumbrados. Revelou que a Arte e a Cultura pulsam em todos os rincões pernambucanos. E que Cultura é Direito, é símbolo da nossa identidade, é força econômica.
Toda essa marca histórica foi possível porque José Manoel Sobrinho, nosso Zé Manoel, compreendeu a Missão da Instituição e soube com maestria promover a inclusão definitiva do SESC-PE na História da Cultura Pernambucana, como qualquer um pode comprovar nos registros oficiais e na memória de todos os que testemunharam as realizações que ele promoveu.
Conhecedor como poucos, das realidades do interior do nosso estado, respeitando e valorizando toda sua diversidade, Zé foi – e é – um gestor responsável e consequente, um técnico e especialista ousado, um parceiro generoso e acolhedor.
Neste tempo de agora, em que a cultura tem sido constantemente atacada desde suas bases, a demissão de Zé Manoel, cai sobre nós como mais uma agressão, por tudo que ele representa, e por toda contribuição que com certeza poderia dar, não só para o SESC, mas, enquanto SESC, também para a cultura pernambucana.
Agradecemos a Zé Manoel por ter dedicado 42 anos de sua vida a essa instituição!
Quando o SESC demite um profissional como José Manoel Sobrinho, nos demite também como cidadãos e como artistas.
 

Resposta do SESC ( Oswaldo Ramos, diretor regional) 
Prezada Sra. Paula de Renor,

Registramos o recebimento de carta encaminhada por Vossa Senhoria representando o grupo intitulado “Fazedores de Cultura do Estado de Pernambuco”.
Inicialmente, gostaríamos de agradecer as referências ao Sesc de Pernambuco com relação à sua importância para a memória, a formação e a difusão cultural em nosso Estado. Esse reconhecimento por parte de um grupo seleto de pessoas que subscrevem a referida carta nos envaidece e reforça nosso compromisso com o desenvolvimento cultural no território pernambucano.
Também nos associamos ao reconhecimento do papel extraordinário e essencial do colega José Manoel para a construção desse ativo, que transborda as fronteiras do nosso Estado. Ao longo dos 42 anos de trabalho no Sesc, José Manoel escreveu uma belíssima história de sucesso, que deixa sua marca presente e muito forte no acervo e nas ações promovidas pelo Sesc. Temos certeza de que sua contribuição para a Cultura do nosso Estado continuará, como sempre, bastante relevante e efetiva, independentemente do seu vínculo empregatício com o Sesc PE.
Por outro lado, no próprio Sesc PE, teremos oportunidade de escrever outros capítulos dessa história, se for do desejo dele, pois José Manoel poderá exercer outro importante papel de protagonista, atuando de forma estratégica como consultor, com base na sua experiência e conhecimento em outros trabalhos em nossa instituição.
De forma muito respeitosa, como sempre convivemos, gostaríamos de agradecer mais uma vez, cada segundo desses 42 anos que José Manoel dedicou ao Sesc PE. O seu legado e a sua história permanecerão nos inspirando e nos fortalecendo para continuar essa caminhada, seguindo as diretrizes da Política Cultural do Sesc no Brasil.

Cordialmente,
Oswaldo Ramos

 
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Edital de emergência confere ânimo para artistas

Alguns selecionados do edital Arte como respiro: múltiplos editais de emergência: Herminia Mendes, PE (foto: Rogério Alves); Jéssica Teixeira, CE (Reprodução do FB); Núcleo Bartolomeu de Depoimento, SP (foto: Divulgação); Clowns de Shakespeare, RN (foto: Bruno Soares): Maikon K, PR (foto: reprodução do FB)

O número de inscritos no edital Arte como Respiro: múltiplos editais de emergência – Artes Cênicas, do Itaú Cultural, nos oferece uma dimensão da crise no setor cultural diante da paralisação das atividades relacionadas à área. Entre os dias 6 e 10 de abril, na busca por sobrevivência, mais de 7.200 propostas foram recebidas.

Dessas, o instituto escolheu 200, 80 a mais do que estava previsto. A grande maioria dos projetos – 158 – já foram ou serão produzidos neste período de quarentena; outros 42 são gravações prévias ao isolamento.

No Nordeste, 37 propostas foram selecionadas, sendo dez de Pernambuco. Uma delas é da atriz e diretora Hermínia Mendes, que escrutina os sintomas dessa época através de janelas possíveis, inclusive dos aplicativos da Internet. Poesia Performática – Pedaços questiona perspectivas de olhares e cria paralelos dos retalhos de gentes e coisas, deixando rastros, as mortalidades pelos cantos, cabelos pela casa, unhas cortadas, os lençóis amarfanhados, escritos na parede, o reflexo no espelho. 

Onde está todo mundo? é a proposta de montagem de um “espetáculo virtual” do Coletivo Angu de Teatro, do Recife, com texto inédito de Marcelino Freire. A encenação será dirigida virtualmente por Marcondes Lima, que está morando em Portugal. Os atores André Brasileiro, Gheuza Sena, Ivo Barreto, Luis Cao, Lilli Rocha e o próprio Marcondes atuam de suas casas, utilizando como cenografia, figurino e maquiagem o material de que dispõem neste momento. O trabalho dos atores vai ser gravado e depois editado por Tadeu Gondim.

A proposta é exibir uma “Live farsesca”, que não ocorre, porque ninguém chega para o programa, nem o autor Marcelino Freire, nem seus personagens. O trabalho brinda uma parceria exitosa entre autor e grupo no ano em que o livro Angu de Sangue completa 20 anos de lançamento – sendo Angu de Sangue o primeiro espetáculo do Coletivo Angu e que deu nome ao bando.

Opá, Uma Missão, é um monólogo da atriz e diretora Lívia Falcão, que convocou para essa investigação artística sua Palhaça Zanoia, uma benzedeira, descendente direta da xamã mais velha, de terras distantes, que já foi lugar de abundâncias e milagres. Para encontrar a dádiva-diamante escondida em seu corpo, Zanoia carrega por missão das antepassadas a de rir de si mesma nas ‘sete direções’: Leste, Oeste, Norte, Sul, Acima, Abaixo e Dentro. É uma criação coletiva, de Lívia, de Silvia Góes e Andrea Macera, que agora aceita o desafio de seguir virtualmente durante o isolamento.

No Ceará, um dos projetos escolhidos é da atriz, produtora e diretora cearense Jéssica Teixeira, que traz para o debate o seguinte questionamento: “Ser artista solo mulher e com deficiência no Brasil antes e durante o isolamento. E depois?”.  Sua investigação pessoal atua no seu próprio corpo estranho, numa pesquisa sobre “Corpo Impossível”, mola propulsora para a criação do seu primeiro solo “E.L.A”. Nesse trabalho, que fez temporada no Sesc Pompeia, em São Paulo, no ano passado, e agora vai estar disponível online, a artista desestabiliza e potencializa outros corpos e olhares. A peça investe em questões como beleza, saúde, política, feminilidade e acessibilidade, utilizando vídeo, artes plásticas e dramaturgia através de colagens e textos autobiográficos que refletem acerca da aceitação e do nosso lugar no mundo.

Confira a crítica do espetáculo “E.L.A”

Um dos projetos aprovados no Rio Grande do Norte é do grupo Clowns de Shakespeare. A atual circunstância de confinamento social imposta pela pandemia do COVID-19 confere à ficção fantástica Abrazo uma curiosa concretude. Imagine um lugar onde estão proibidos os abraços? Há três meses essa ideia só poderia ser encarada como ditatorial. A proposta da montagem era justamente essa: uma obra sem palavra, várias reflexões sobre repressões e cerceamento de liberdade. O espetáculo infanto-juvenil Abrazos – inspirado em O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano – foi censurado na temporada na Caixa Cultural em Pernambuco, em 2019.

O vídeo da encenação será disponibilizado online na íntegra, acompanhado de uma ação de desdobramento a partir de três pontos de vista: do grupo, do público e de convidados. Essas repercussões podem chegar no formato de textos (dramático, poético ou em prosa), vídeo ou canções, propondo uma atualização da provocação de Abrazo. O grupo também vai instigar o público a enviar material para os Clowns. Alguns parceiros, como Eduardo Moreira (Grupo Galpão/MG), Maurice Durozier (Théâtre du Soleil/França), Ana Correa (Yuyachkani/Peru), e outros, participam da ação.

No Sul, 19 projetos serão apoiados. Um deles é do artista da performance, Maikon K, que vive em Curitiba, e pesquisa formas de expansão da consciência, tendo o corpo e sua capacidade de alterar percepções como centro. O trabalho Proteja-se (Meditação) é o um registro de uma performance curta, feita com o celular, com cerca de 4’30’. Maikon K propõe uma ação de limite e resistência, ao vestir um preservativo na sua cabeça, respirando até que o látex se rompa. Com o trabalho, o artista fricciona tempo atual em meio à solidão, necessidade de proteger-se do mundo exterior e do contato com outrxs, a angústia, o sufocamento, a persistência, a busca por sobrevivência e fôlego.

Da região Sudeste, 126 projetos foram aprovados, sendo 82 de São Paulo, estado com o maior número de selecionados no país. Um deles é do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, que avança nas proposições do espetáculo Terror e Miséria no Terceiro Milênio – Improvisando Utopias. Na peça, nove atores e dois DJs ensaiam confinados em um teatro. O debate deriva da dramaturgia de Bertolt Brecht para aventar a falência contemporânea. Novas questões foram colocadas com o advento da pandemia. Inspirada nas ideias do filósofo camaronês Achille Mbembe, o grupo desafia o neoliberalismo/ necroliberalismo como sistema que sempre operou com um aparato de cálculo, e agora expõe outra face ainda mais terrível: o que é mais importante a economia ou a vida? A necropolítica segue operando de maneira global para decidir quem tem direito à vida. 

Confira matéria sobre Terror e Miséria no Terceiro Milênio – Improvisando Utopias.

Galiana Brasil. foto André Seiti / Divulgação

ENTREVISTA // GALIANA BRASIL, gestora de Artes Cênicas do Itaú Cultural

Primeiramente acredito que os artistas reconhecem o esforço do Arte como respiro: múltiplos editais de emergência, mas de que forma o instituto pretende avançar no apoio aos artistas durante o período de pandemia da Covid-19?
Penso que as ações de apoio começaram ainda antes do edital, com a decisão de manter pagamentos de cachês de todos os grupos e artistas que tinham agenda confirmada para apresentação neste semestre, para que pudessem contar com esse respiro financeiro com compromisso de mais adiante, a partir do segundo semestre, acomodarmos nova agenda de programação. Passado o edital – ou em paralelo à execução dos trabalhos selecionados, ainda faremos curadorias, convites e manteremos programação no site e plataformas parceiras.

Foram mais de 7,2 mil inscrições de todo o país, sendo selecionados 200 trabalhos de 25 estados. Que análise é possível fazer desses números? Sobre políticas culturais no Brasil? Sobre a atuação do Itaú Cultural? 
Olha, eu penso que já havia uma crise instaurada antes, pré-pandemia, e esse estado agora  sangrou mais vivamente um setor que já vinha sofrendo com a ausência de políticas públicas, de interrupções e falta de continuidade de projetos, orçamento incerto e precarizado e tantos ataques que maculam a noção de política pública.

Quais os critérios foram adotados para escolher esses selecionados?
O edital foi concebido em dois eixos. No primeiro, que permitia inscrição de trabalhos produzidos antes da pandemia, tínhamos um único requisito de partida que era uma solicitação para que o artista olhasse para essa obra “antiga” e propusesse algo que pudesse refletir no tempo presente, na forma que tivessem melhor condição de fazer – um texto crítico, uma reflexão, um bate-papo com os criadores que poderia ser através de live – achamos importante essa inserção porque subir um vídeo de um trabalho feito lá atrás – registro filmado de espetáculo – é algo bem menos complexo do que conceber e se desafiar a criar algo em situação de isolamento, com os recursos e possibilidades que se tenha, como foi o eixo segundo do edital. Afora esse critério mais objetivo que aplicamos no eixo 1, para ambos os eixos consideramos a relevância da proposta para o momento, a capacidade de comunicação com diferentes públicos, o histórico do grupo/artista e sua relação com aquele segmento.

O que podemos entender como “ampla representatividade” do resultado?
A diversidade de territórios, de segmentos nas linguagens. De termos contemplado trabalhos de performance, teatro de animação, dança e teatro para crianças. O fato de termos artistas com corpos desviantes, LGBTs, em especial trabalhos com protagonismo de artistas trans, artistas com deficiência, proponentes indígenas, trabalhos de cultura popular – mamulengo, maracatu -, trabalhos vindos de favelas, zona rural, agreste, circo tradicional. Os trabalhos de intérpretes e coletivos negros com força de número e conteúdo. Essa tentativa real de interferirmos nas assimetrias que ainda parece tímida nos números finais, mas que sabemos que é uma batalha frente às forças hegemônicas de séculos, basta considerar, apenas no quesito regionalidade, que mais de 64% dos inscritos foram da região Sudeste.

Como vocês estão trabalhando no Itaú Cultural durante esse período de quarentena?
Estamos trabalhando remotamente tanto quanto intensamente, desde uns dias antes do anúncio oficial de isolamento aqui em São Paulo. Estamos também em articulação com grupos, artistas, veiculando e programando diversos projetos no nosso site, que tem sido palco virtual de todas as linguagens artísticas. Apenas alguns exemplos das Artes Cênicas, encerramos recentemente as inscrições para a EAD Dramaturgia Negra – A Palavra Viva, com a professora Dione Carlos e, a partir de sábado (dia 9), estrearemos a série virtual “Camarim em Cena”, sendo este primeiro programa com a atriz Maria Alice Vergueiro.

Já existe uma agenda para a exibição dos projetos selecionados? Serão divididos por blocos? Quais serão as categorizações?
Estamos trabalhando justamente nessa acomodação, nesse momento pós anúncio dos selecionados. Em breve teremos essas informações.

Você consegue vislumbrar ações (articulações, pensamentos), dentro ou fora do instituto, do que fazer para que os artistas, nesta realidade de capitalismo, não fiquem tão vulneráveis economicamente, como a maioria vive agora?
Essa é a pergunta mais difícil de ser respondida, Yolandas. A pessoa que vos fala também nunca viveu algo assim e, porque humana, também se sente vulnerável e sente medo. Desde que começou o isolamento trabalhamos intensamente na busca de formas de apoio e rede de proteção para o setor, que não se encerrará na criação de um edital, até porque a situação parece longe de suavizar. Vamos combinar que, se a ideia é despertar a espécie, vemos que ainda tem muita gente dormindo ou num estado de nem uma coisa nem outra, o que é um tanto pior. Penso que precisaremos rever pensamentos de base (que tem a ver com tua próxima pergunta), e isso vale para toda a cadeia – do artista ao gestor. É nesse ponto que estamos agora, e isso é mais difícil porque não há distanciamento, então a tendência é encarar o momento com os instrumentos do “antes”. Porém, certamente, eles parecerão insuficientes, então precisaremos de novos significados para apoio, aporte, parceria… eu não tenho essas respostas, mas outras tantas dúvidas, eu tenho problemas e eles são motor para quem pesquisa, então vamos juntes criar formas para nos conectarmos com esse devir.

A discussão do momento é se o material que circula online por artista da cena, performance, pode ser considerado teatro. Se realmente existe teatro sem presença, sem o compartilhamento do tempo que arde no calor da hora entre artistas e público. O que você pensa sobre isso?
Acho a discussão pertinente, e não apenas pelo momento, mas, considerando a origem e natureza do teatro que é sim arte do encontro, da presença. Tal tensionamento, inclusive, não tem nada de novo, porém, a chegada desse vírus, forma de contágio e suas consequências trazem um caráter de imposição, de urgência que sim, nos atravessa como algo inaugural. E penso que vai ser interessante – ou condicionante -, deslocar esse desconforto e tentar “encarná-lo” em formas de fazer, porque o horizonte próximo sugere a criação de novos protocolos para convivência. Particularmente não estou pronta para imaginar uma existência sem encontro, mas preciso estar preparada – e mesmo motivada – a ampliar essa noção de encontro, o que talvez seja chave importante para acessar essa nova dimensão de nossa existência.

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