Arquivo do Autor: Pollyanna Diniz

No tempo da delicadeza, sob o sol do Sertão
Crítica de No meu terreiro tem arte

Bandeira monta seu circo no quintal de casa, no Pajeú. Foto: Reprodução de tela

Odília Nunes, a boneca Ester e o teatro dos afetos. Foto: reprodução de tela

* A ação Satisfeita, Yolanda? no Reside Lab – Plataforma PE tem apoio do Sesc Pernambuco

Quando pensamos na arte do Pajeú, no Sertão pernambucano, logo lembramos da poesia, dos violeiros e repentistas, dos cordelistas. Dos encontros e festivais que perpetuam a oralidade da poesia, que traz junto a música, a rima, a performance desses artistas tanto nos palcos, quanto nas feiras, nos coretos das praças, nos terreiros, debaixo de alguma árvore frondosa. As narrativas, improvisadas ou não, muitas vezes bebem no imaginário popular e no cotidiano da própria região, nas vivências do povo do interior. “Quando é de manhãzinha/No tempo da trovoada/Canta alegre a passarada/Lá nas matas da serrinha/Vê se logo a andorinha/Voando sem direção/Quando vê preparação/Muito cedo se levanta/Toda passarada canta/Quando chove no Sertão” (Poesia de Efigênia Sampaio de Lima Barreto, publicada numa matéria da Revista Continente sobre as poetas do Pajeú, na edição de setembro de 2020).

A atriz, palhaça, dramaturga, cordelista, diretora e produtora Odília Nunes, nascida em São José do Egito, criada em Tuparetama, fez o caminho de muitos artistas que saem do interior para a capital e para outras regiões do país ou até para fora, que vão para longe dos seus quintais, em busca, geralmente, de aperfeiçoamento e crescimento profissional. Mas a jornada de volta é cada vez mais recorrente, ajudando a descontruir as narrativas de Nordeste às quais fomos habituados. O Nordeste da migração, o interior da dificuldade e da privação, o Sertão da terra esturricada.

Odília mora atualmente no Minadouro, comunidade rural da Ingazeira, justamente no Pajeú, e, há cinco anos, realiza o projeto “No meu terreiro tem arte”. A ideia é disseminar e promover a experiência do encontro com a arte para a população da própria região e, consequentemente, formar plateia, ampliar visões de mundo, oferecer um bocado de respiro, leveza, reflexão e boniteza.

Uma série de vídeos curtos tendo como protagonistas Odília e suas duas filhas, Violeta e Helena, foram exibidos em sequência no festival Reside Lab – Plataforma PE. Assim como os poetas e as poetas da região, Odília tem na contação de histórias, na oralidade e na presença alavancas do seu trabalho como artista.

Além disso, a pesquisa na palhaçaria se revela cada vez mais madura, pronta para despertar o sorriso e o encantamento no outro, a partir da simplicidade, da inocência e dos atos singelos da palhaça Bandeira. A última vez que me recordo de ter visto Bandeira já faz bastante tempo: foi em Divinas, talvez em 2011, espetáculo assinado pela Duas Companhias, ao lado das companheiras Uruba (Fabiana Pirro) e Zanoia (Lívia Falcão).

Muita água passou por debaixo dessa ponte. A pandemia, por exemplo, interrompeu, na medida da presença física, as atividades do projeto “No meu terreiro tem arte” no Minadouro. A última ação presencial foi em dezembro de 2020. 25 artistas de oito grupos chegaram à Ingazeira no dia 1º de dezembro. Ficaram todos em quarentena para que pudessem se apresentar, com o devido distanciamento, ao ar livre, no terreiro da igreja do sítio Minadouro, no terreiro de Dona Dia, no sítio Xique-Xique, e no terreiro de Aurinha, no sítio Caiçara. Todas as apresentações foram gravadas e depois exibidas no YouTube.

Mesmo neste período de quarentena, essas articulações com outros coletivos do interior continuaram, haja vista a organização da Ripa (Rede Interiorana de Produtores, Técnicos e Artistas de Pernambuco), e as criações artísticas, desta vez tendo a câmera como interface com o público.  

Ao longo deste último ano de tragédia no Brasil, temos visto uma experimentação vertiginosa das possibilidades de aproximação com a linguagem do audiovisual, neste teatro que necessita da mediação da tela para acontecer, para encontrar com o espectador. Alguns desses trabalhos se apropriam de recursos – digamos assim, mais incisivos. Talvez o principal deles seja uma edição menos linear, recortada, que vai dar direcionamento ao olhar do espectador a cada corte. Não existe uma categorização com conceitos delineados do que, neste momento de ainda mais fluidez de linguagens, seja ou não teatro. Também não há hierarquias, um manual de técnicas que você vá consultar para saber como fazer teatro online. Mas, muitas vezes, nem é preciso muita invenção: o simples bem-feito funciona em muitas situações. Como uma câmera aberta na paisagem do Sertão.

Bandeira usa brinquedo de madeira para contar história. Foto: reprodução de tela

Bandeira entra em cena: “Vixe, Nossa Senhora, que veio foi todo mundo. Opa, seu Mandacaru, como é que o senhor está?”. Apresenta a sua cena integrada à natureza e o desenrolar é tão natural àquela paisagem, como se uma roda de gente sentada em seus tamboretes estivesse acompanhando ali de pertinho. Ela monta o circo dela.

O traca-traca, um brinquedo artesanal, formado por umas plaquinhas de madeiras, se transforma em menino, cachorro, casa, peixe, cavalo e por aí vai, numa história de um menino que ama os animais, vê um disco-voador e fica amigo de um extraterrestre que sabe tocar sanfona. Tudo isso numa coisa só. “Tu não consegue ver um menino aqui? Tu tem que usar a tua imaginação, criatura, tu tá no teatro!”, passa a receita. Para quem está assistindo, a mesma coisa: precisa embarcar na história, se permitir imaginar e brincar também, porque as coisas podem ser tudo que a gente quer que elas sejam, diz Bandeira noutras palavras.

Violeta e Helena participam da brincadeira com a boneca de luva Ester, que ganha vida com os dedos da mãe-artista Odília, ao som da caixinha de música. O quadro é de uma delicadeza que extrapola as tentativas de explicação. A boneca de poucos centímetros, uma senhorinha preta esculpida em cada detalhe, de vestido florido, desperta e se coloca disponível para um jogo que é muito íntimo, que é do teatro feito em escala mínima, um para um, para dois ou três.

A boneca anda nas palmas das mãos, escala cabeças de crianças, se deixa acariciar, também alisa e beija os rostos das meninas, nos lembrando da potência que tem esse gesto que nos era tão corriqueiro. Que muitas vezes era automático, até para cumprir o protocolo social. Beijar uma avó, beijar a boneca Ester, neste momento mais do que nunca, é construção de teia de afetos, é mostrar que a gente precisa se concentrar no que importa.

Boneca Ester desperta para brincar com as crianças. Foto: reprodução de tela

Se a escala da Ester é de pouco centímetros, noutro quadro Cordelina é boneca gigante com cabeça feita de cabaça. O ritual inclui que o público acompanhe Odília se vestir de Cordelina. Emprestar seu corpo que já é relativamente alto para uma boneca de grandes dimensões que  dança entre as juremas pretas.

Noutro quadro, Nós sem nossa mãe, Viola (Violeta) e Gerimum (Helena), “Gerimum com g pois é gerimum gente e não Jerimum de comer”, explica Odília, também assumem o protagonismo e brincam como palhaças que estão se formando, aprendendo a existir no mundo. As duas encaram o jogo, se permitindo serem artistas e crianças, tendo liberdade para exercer a criatividade. Daqui a pouco a mãe chama, que o almoço está quase pronto.

Neste cenário de Sertão tem verde, céu azul, o fusca estacionado na frente de casa, o quintal com árvore que dá sombra. Mãe artista e suas filhas. Delicadeza para lembrar que a arte deixa a vida muito melhor. Dá até uma esperança, um quentinho no coração. A visita a esse terreiro está agendada, assim que o mundo girar e a vacina finalmente chegar.

Ficha técnica:
Brincantes/palhaças/atrizes: Odília Nunes, Violeta Nunes e Helena Nunes
Criação geral: Odília Nunes

A boneca Cordelina. Foto: reprodução de tela

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4º Crítica em movimento traz espetáculos, debates, podcasts e publicações

Épico, da Tercer Abstracto. Foto: Brendo Trolesi

Tempos de Errância – lado B [vídeo teatro], espetáculo do Núcleo 2 Coletivo de Teatro. Foto: Polly Rosa

A 4ª edição do Crítica em Movimento, realizado pelo Itaú Cultural, vai acontecer a partir desta quinta-feira (1) até domingo (4) com espetáculos, debates, lançamentos de podcasts e cadernos digitais, com textos sobre crítica e teatro, que serão publicados paulatinamente, de 1 a 22 de abril.

A abertura da programação será com a mesa “Considerações sobre a recepção crítica na vida contemporânea” nesta sexta-feira, às 20h. Valmir Santos, co-curador do Crítica em Movimento, jornalista e crítico do site Teatrojornal, conversa com a pernambucana Clarissa Diniz, curadora, pesquisadora e crítica de artes visuais, atualmente professora e curadora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, e com Alcir Pécora, professor e crítico literário da Universidade Estadual de Campinas.

Na sexta-feira (2), às 20h, começam as apresentações de espetáculos com Épico, peça do grupo Tercer Abstracto, que trabalha com artistas do Chile e do Brasil desde 2012. No espetáculo, o grupo coloca em paralelo uma peste mortífera que assolou a Europa em 1348 e a situação da Covid-19 no mundo desde o ano passado. O espetáculo faz parte do Projeto Manifestos, que investiga na cena as propostas e manifestações teatrais do início do século XX. Neste caso, o ponto de partida é Bertolt Brecht. Depois da apresentação, haverá uma conversa com o professor-adjunto do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará, Héctor Briones.

A programação continua no sábado (3), às 20h, com Tempos de Errância – lado B [vídeo teatro], espetáculo do Núcleo 2 Coletivo de Teatro, de Minas Gerais. O espetáculo parte de três fotogramas recentes e contemporâneos da paisagem latino-americana, buscando rastros de devastação pela violência armada. Pós-apresentação, o público acompanha o bate-papo do diretor artístico Narciso Telles com a atuadora gaúcha Tânia Farias.

No domingo (4), a companhia Enxame Circo, de São Paulo, apresenta o espetáculo Enxame. A sinopse diz que quatro indivíduos à espera de que algo aconteça acabam subvertendo a ordem das coisas dentro de um fluxo de acontecimentos não-rotineiros. A encenação traz técnicas circenses tradicionais, como corda lisa, malabarismo, palhaçaria e paradas-de-mão, elementos do teatro e da dança, e ainda projeção de vídeo. Logo depois, a conversa será conduzida por Fátima Pontes, atriz, produtora cultural e professora de teatro, que há 20 anos coordena as áreas executiva e artística da Escola Pernambucana de Circo.

O podcast Crítica em Movimento possui cinco episódios, que serão liberados todos ao mesmo tempo a partir desta sexta (1), no site do Itaú Cultural e nos aplicativos de podcast. O primeiro episódio tem como tema “Quais os enfrentamentos da prática da crítica de teatro hoje?”, com participação do crítico e jornalista Macksen Luiz e da crítica e pesquisadora Daniele Avila Small, da revista Questão de Crítica, com a mediação de Valmir Santos. No segundo programa, participam Lourdes Macena, pesquisadora e artista cearense, e o ator e diretor Rogério Tarifa, com mediação do professor paraibano Diógenes Maciel, a partir do tema “Como a crítica se relaciona com a noção do popular nas artes cênicas?”.

Maria Fernanda Vomero, jornalista, crítica, curadora e pesquisadora, faz a mediação do terceiro episódio que tem como pergunta disparadora “Qual a percepção de quem cria a respeito do travalho da crítica?”. Participam a atuadora Tânia Farias, da gaúcha Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, e o dramaturgo e diretor Edyr Augusto Proença, do paraense Grupo Cuíra. No quarto programa, o tema é “Como exercer olhares e escutas a partir da cena remota?”, com mediação da jornalista e crítica Luciana Romagnolli, do site Horizonte da Cena. O último episódio, com mediação da professora, crítica e jornalista Julia Guimarães tem como tema “Qual o lugar da resistência na formação da crítica?”, com Dodi Leal, professora do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Universidade Federal do Sul da Bahia, e Henrique Saidel, diretor, performer, curador e professor gaúcho.

O Crítica em Movimento traz ainda a publicação de oito caderno com 24 textos. Ivana Moura, jornalista e crítica aqui do Satisfeita, Yolanda? escreveu para o primeiro caderno, que sai nesta quinta-feira (1), com o tema “O papel da crítica de teatro no Brasil: do jornal impresso à plataforma digital”. Também escrevem neste caderno Edson Fernando (PA) e Macksen Luiz (RJ) a partir do tema O papel da crítica de teatro no Brasil: do jornal impresso à plataforma digital.

No caderno 2 “O vão entre a crítica e o circo” escrevem Alice Viveiros de Castro (RJ), Daniel Lopes (SP), Ermínia Silva (SP) e Fátima Pontes (PE). O caderno 3 traz textos de Carlos Alberto Pereira dos Santos (RS), Daniel Kairoz (SP) e Rosa Primo (CE) com o tema “Estados da crítica de dança”.

Pollyanna Diniz, jornalista e crítica aqui do Yolanda escreveu para o caderno 4 a partir do tema “Espaços digitais empenhados em artes cênicas”, que tem ainda como autores Diogo Spinelli (RN) e Walmeri Ribeiro (RJ). No caderno 5 “A dificuldade da crítica em contracenar com o teatro de rua” os autores são Altemar DiMonteiro (CE), Lindolfo Amaral (SE) e Marta Haas (RS). Fernando Cruz (MS), Nena Inoue (PR) e Onisajé (Fernanda Júlia|BA) escrevem no caderno 6 “A cena engajada no contexto contemporâneo”. O caderno 7 propõe o tema “Teatros peculiares na mão dupla com Cuba e Brasil”, com os autores Camila Scudeler (Colômbia), Luis Alonso-Aude (BA) e Luvel Garcia (Cuba). E, por fim, o caderno 8 “Panorama do teatro latino-americano visto da ponte” reúne textos de Alice Guimarães (Bolívia), Andrea Hanna (Argentina) e Héctor Briones (Chile/CE).

PROGRAMAÇÃO CRÍTICA EM MOVIMENTO

Mesa Considerações sobre a recepção crítica na vida contemporânea
Com Alcir Pécora (SP), Clarissa Diniz (RJ) e Valmir Santos (co-curador desta edição do Crítica em Movimento – SP)
Quando: Quinta-feira (1), às 20h
Onde: Pela plataforma Zoom, com ingressos via Sympla
Quanto: Gratuito
* Com tradução simultânea em espanhol

Clarissa Diniz (foto: Portrite) e Valmir Santos (foto: Agência Ophélia) participam de mesa de abertura

Épico, da Cia Teatral Tercer Abstracto (Chile/Brasil)
Após a apresentação, acontece um bate-papo com mediação de Héctor Briones (CE)
Quando: Sexta-feira (2), às 20h
Onde: Pela plataforma Zoom, com ingressos via Sympla
Quanto: Gratuito
* Com legenda em espanhol

Tempos de Errância – lado B [vídeo teatro], do Núcleo 2 Coletivo de Teatro (MG)
Após a apresentação, acontece bate-papo com o ator Narciso Teles, mediado por Tânia Farias (RS)
Quando: sábado (3), às 20h
Onde: Pela plataforma Zoom, com ingressos via Sympla
Quanto: Gratuito
* Com legenda em espanhol

Enxame, da companhia Enxame Circo. Foto: Daniel Carvalho

Enxame, do Enxame Circo (SP)
Após a apresentação, acontece um bate-papo com mediação de Fátima Pontes (PE)
Quando: domingo (4), às 20h
Onde: Pela plataforma Zoom, com ingressos via Sympla
Quanto: Gratuito

PROGRAMAÇÃO DE PUBLICAÇÕES, no site do Itaú Cultural

1 de abril, quinta-feira:
Caderno 1: O papel da crítica de teatro no Brasil: do jornal impresso à plataforma digital
Autores: Edson Fernando (PA), Ivana Moura (PE) e Macksen Luiz (RJ)

Caderno 2: O vão entre a crítica e o circo
Autoras: Alice Viveiros de Castro (RJ), Daniel Lopes (SP), Ermínia Silva (SP) e Fátima Pontes (PE)

8 de abril, quinta-feira:
Caderno 3: Estados da crítica de dança
Autores: Carlos Alberto Pereira dos Santos (RS), Daniel Kairoz (SP) e Rosa Primo (CE)

Caderno 4: Espaços digitais empenhados em artes cênicas
Autores: Diogo Spinelli (RN), Pollyanna Diniz (PE) e Walmeri Ribeiro (RJ)

15 de abril, quinta-feira:
Caderno 5: A dificuldade da crítica em contracenar com o teatro de rua
Autores: Altemar DiMonteiro (CE), Lindolfo Amaral (SE) e Marta Haas (RS)

Caderno 6: A cena engajada no contexto contemporâneo
Autores: Fernando Cruz (MS), Nena Inoue (PR) e Onisajé (Fernanda Júlia | BA)

22 de abril, quinta-feira:
Caderno 7: Teatros peculiares na mão dupla com Cuba e Brasil
Autores: Camila Scudeler (Colômbia), Luis Alonso-Aude (BA) e Luvel Garcia (Cuba)

Caderno 8: Panorama do teatro latino-americano visto da ponte
Autores: Alice Guimarães (Bolívia), Andrea Hanna (Argentina) e Héctor Briones (Chile/CE)

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As duras linhas do diário de um ator na pandemia
Crítica de 72 dias

Paulo de Pontes registra cotidiano de um artista em isolamento em 72 dias. Foto: Keity Carvalho

* A ação Satisfeita, Yolanda? no Reside Lab – Plataforma PE tem apoio do Sesc Pernambuco

A matéria da Folha de S. Paulo, publicada neste domingo, 28 de março de 2021, registra: “O Brasil voltou a bater recorde na média móvel de mortes por Covid neste domingo: 2.598. É o maior número desde o início da pandemia e um crescimento de 42% se comparado com a última semana, o que indica tendência de alta nos óbitos pela doença (…)”.

Nós não esperávamos tamanha tragédia. Nenhum pesadelo poderia ter previsto essa realidade. Para uma pessoa comum, não os estudiosos ou os infectologistas, ou gente da área, isso nunca passaria pela cabeça, que estaríamos vivendo uma pandemia nessas dimensões. E, mais ainda, que duraria tanto tempo.

Em março do ano passado, quando do dia para a noite tudo fechou e pairava uma sensação de incerteza e de insegurança diante de um risco que não conhecíamos, fizemos projeções. Boa parte delas a partir da gravidade da situação que acompanhávamos pela televisão na Europa e na Ásia. Mesmo assim, irreais. No solo 72 dias, exibido na programação do Reside Lab – Plataforma PE, o ator Paulo de Pontes conta que imaginou que o isolamento social duraria 15 dias. Um ano depois, o acachapante saldo de mais de 300 mil mortos no Brasil, ilusões desfeitas, cenário devastador de guerra. No experimento, como diz o título, foram 72 dias.

O solo se estrutura como um diário de criação gravado por um ator durante este período pandêmico. Na conversa com um amigo do outro lado da tela, ele insiste que não precisa de companhia, que ficaria bem sozinho nas duas semanas que durariam aquela situação mais grave. Como muitos de nós privilegiados, nos agarramos às possibilidades de encontrar coisas boas no meio de tudo aquilo: seria uma chance de parar um pouco, descansar, dedicar-se a atividades que não tínhamos tempo no cotidiano. Finalmente fazer yoga. Levanta a mão quem se identifica! No caso do personagem, montar um espetáculo solo depois de tantos anos de carreira, de ter se empenhado sem intervalos aos projetos de outras pessoas. A metalinguagem se coloca como recurso de maneira muito fluida, quase intuitiva. Somos nós, os espectadores, que estamos ali, aceitando o convite para acompanhar a peça sendo criada em tempo real, quando o pedido por companhia beira o desespero.

O material dramatúrgico se apoia praticamente por completo no real e no autobiográfico. Paulo de Pontes é um ator com uma carreira longeva e profícua, com muitos personagens e projetos em seu repertório. De fato, quando começou a pandemia, ele estava morando no teatro, o espaço da Casa Maravilhas, que serviu como cenário para a gravação. A dramaturgia foi criada em parceria com Quiercles Santana, que também assina a direção. Virou um mergulho nos sentimentos e nas emoções cotidianas que foram se modificando ao longo dos dias arrastados do isolamento. Veio o cansaço, a solidão, o medo, a exaustão.

Diante do acirramento da crise, com o material da vida real pulsando, também surge a preocupação com a situação dos artistas, a necessidade batendo à porta, a sobrevivência que se instaura como pressão diariamente. A campanha de demonização dos artistas como uma política que vem sendo colocada em prática há alguns anos, mas que agora sobe alguns degraus, fazendo jus e coro à necropolítica implantada por este desgoverno, enfrentada por gente como Paulinho. Gente como os artistas que participaram do Reside. Que continuam se articulando, criando, conversando, resistindo, questionando “Quem mandou matar Marielle Franco?”, cansando, mas levantando a cabeça no momento seguinte. E não por romantização, ato de bravura ou qualquer coisa que o valha, mas porque não há outra possibilidade. Porque o teatro é a vocação, faz falta ao corpo, ao espírito.

Experimento utiliza material biográfico. Foto: Keity Carvalho

O experimento é cru em sua natureza dramatúrgica. Escancara o cotidiano de muitos artistas durante a pandemia, que provavelmente passaram por situações semelhantes. Mas essa dureza também nos afasta em certa medida, porque é uma realidade que já nos é muito próxima, que está em nossas próprias casas. Criado no calor do momento, o experimento ainda carrega uma carência de elaboração poética, talvez semântica, talvez em sua capacidade de abstração. Faz falta transcender o cotidiano ou ser capaz de promover conexões que não se atenham só aos fatos mais óbvios, mas se desprendam, possam ir além.

Neste jogo, Paulo de Pontes é um ator com estofo, que agarra a nossa atenção em 72 dias sem nos permitir dispersar. As precariedades nessa experimentação da linguagem do audiovisual, no isolamento imposto por uma pandemia, são incorporadas à dimensão processual do trabalho e fazem sentido, inclusive na condução da dramaturgia. Afinal, trata-se de um ator que está se virando sozinho, como a grande maioria, para continuar criando, para não perder os laços com alguma dimensão de realidade. Para não perder a oportunidade da dimensão da cura que o teatro nos proporciona a cada novo mergulho. Em 72 dias, o teatro pulsa como necessidade, como linguagem que corre nas veias, que escorre pela câmera. Corte seco e direto.

Ficha técnica:
Dramaturgia: Paulo de Pontes e Quiercles Santana
Diretor: Quiercles Santana
Atuação e produção geral: Paulo de Pontes
Direção de arte: Célio Pontes
Músicas: Sonic Júnior
Técnico de som, luz e vídeo: Fernando Calábria
Streamer: Márcio Fecher
Produção executiva: Márcia Cruz
Fotos: Keity Carvalho
Realização: Pontes Culturais e Cia Maravilhas de Teatro

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Da culpa à libertação
Crítica de Vulvas de quem?

 

Márcia Cruz em cena no experimento Vulvas de quem?. Foto: Keity Carvalho

* A ação Satisfeita, Yolanda? no Reside Lab – Plataforma PE tem apoio do Sesc Pernambuco

No último domingo, 21 de março, morreu Nawal El Saadawi, escritora egípcia feminista, autora de mais de 50 livros, entre ensaios, romances e peças. Em A face oculta de Eva, Saadawi conta que, aos seis anos de idade, teve o clitóris cortado. A mãe sorria. O cenário era o chão de um banheiro. Ao longo de sua trajetória como ativista, o combate à circuncisão feminina foi uma das suas principais causas. Numa entrevista à Folha de S. Paulo, em 2016, a autora salientou a diversidade das mulheres e das suas lutas: “Vivemos em um mundo dominado por um sistema religioso, patriarcal e racista. Mas o nível de opressão varia de acordo com o tempo e de um lugar ao outro, segundo o grau de consciência da maioria e os poderes políticos das mulheres e homens lutando por liberdade, justiça e dignidade”.

Esse grau de consciência de que fala Saadawi tem se ampliado nas últimas décadas, num movimento que é complexo, porque as pautas feministas, assim como outras pautas sociais, são cooptadas pelo sistema capitalista, alienante por princípio. De toda maneira, a discussão sobre feminismo explodiu fronteiras, ganhou dimensão de debate público, embora ainda enfrente muitas distorções. Por exemplo: ontem à noite, 23 de março, o Brasil votou para que uma mulher que estava vivendo um relacionamento tóxico fosse eliminada do Big Brother Brasil. O principal oponente dela era um homem que fez piadas homofóbicas. O comportamento da mulher, taxada de trouxa aos quatro ventos do país, foi julgado, porque além de não perceber as armadilhas da relação, ela ainda se ajoelhou e fez uma declaração de amor em rede nacional.

Carla Diaz é uma atriz que cresceu sob os holofotes da televisão. Branca, loira, cabelão liso, magra, menininha, cumpre os pré-requisitos do estereótipo de beleza padrão. Ainda assim, não está a salvo do relacionamento abusivo. Nenhuma de nós está. Em qualquer idade, classe social, cumprindo ou não os padrões, mais um degrau na escala da opressão. A ressaca moral que, provavelmente, vai assombrá-la por um tempo, é parecida com àquela da personagem de Márcia Cruz em Vulvas de quem?, experimento cênico com direção de Cira Ramos e texto de Ezter Liu, uma realização da Cia Maravilhas de Teatro.

Aliás, talvez seja mais apropriado dizer “das personagens”. Sem seguir uma cronologia linear, Márcia Cruz vai dos 7 aos 93 anos, explorando os mecanismos da relação que se transforma em abuso, físico, psicológico, moral. “Quem vendou teus olhos com esse trapo sujo e depois te chamou de cega?”. “Quem queimou teu passaporte na pia do hotel e disse que ir não era uma opção?”. “Quem passou tua autoestima no liquidificador?”.

A atriz trilha o caminho do reconhecimento, desse instante em que a mulher tem a coragem de se olhar, mergulhar em si, e admitir que caiu na esparrela do abusador. O cenário é um banheiro, com a personagem de frente para o espelho, o público, que a acompanha nesse exercício de dor profunda. Márcia é uma atriz que passeia pelas filigranas da atuação – vai do choro e do grito rasgado ao riso de libertação com desenvoltura de quem tem anos de experiência e talento.

Personagens se olham no espelho e percebem relacionamentos abusivos. Foto: Morgana Narjara

Como o cerne da questão é identificar o abuso, o sentimento inicial que escorre desse texto, dessa personagem, é o da culpa. Vulvas de quem? Culpa de quem? Como eu não percebi? Como não me dei conta? Só que, como num ciclo vicioso, que atravessa o tempo e as gerações, como explicita a dramaturgia, é muito difícil se libertar, tanto do relacionamento quanto da culpa, que não deveria nem nos pertencer. Há um limite tênue, tanto no experimento como na vida. Parem de nos culpabilizar. Paremos de nos culpabilizar.

O desafio é enorme: mostrar a realidade da violência e da opressão no teatro, num experimento cênico de poucos minutos, que envereda pela elaboração discursiva de um cenário fiel ao cotidiano. Não há muitas permissões para a abstração, além da poesia crua do texto. O fluxo da jornada dessas personagens é o da repetição, até que a música de Flaíra Ferro irrompe no ambiente. Como um mantra, uma oração que clama por cura. “Eu quero me curar de mim, quero me curar de mim”.

Há uma força, que se desprende do texto, da música e, principalmente da atuação, que é do campo da catarse – tanto que reforça a ideia da cura. Que nos alcança e nos fere diretamente pela identificação. O espelho está escancarado, refletindo os rostos de todas nós. Que, para além da consciência da opressão, venha a superação. Porque, como diria Guimarães Rosa, o que a vida quer da gente é coragem. Antes que seja tarde.

Ficha técnica:
Texto: Ezter Liu
Direção: Cira Ramos
Elenco e produção: Márcia Cruz
Sonoplastia: Fernando Lobo
Música: Flaíra Ferro
Iluminação: Luciana Raposo
Fotos: Keity Carvalho
Realização: Cia Maravilhas de Teatro

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Clara e Conceição foram ver o mar
Crítica de Transbordando Marias

Clara e Conceição Camarotti (foto) trabalham juntas em Transbordando Marias. Foto: Reprodução de tela

* A ação Satisfeita, Yolanda? no Reside Lab – Plataforma PE tem apoio do Sesc Pernambuco

No meu corpo, sou muitas. As que vieram antes, as que virão depois. Carrego comigo todas elas. Em Transbordando Marias, espetáculo que abriu a programação de encenações do festival Reside Lab – Plataforma PE, no corpo da atriz e bailarina Maria Clara Camarotti estão imbricadas as vivências da sua mãe e da sua avó, numa teia complexa que traça paralelos, coincidências e viradas de rumo entre histórias temporalmente distintas, mas ligadas pela ancestralidade.

Há algum tempo, ando absorvida pela leitura do livro Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Mergulhada na história de Kehinde, nascida em Savalu, no reino de Daomé, na África, em 1810. É uma personagem forte, que sente a ancestralidade pulsando no corpo, nos sonhos, nas crenças compartilhadas com o seu povo. Transbordando Marias me levou de volta às primeiras páginas do livro.

Kehinde era uma ibêji, como são chamados os gêmeos entre os povos iorubás. Pela tradição, ibêjis eram símbolo de boa sorte e de riqueza. Com Kehinde e Taiwo atadas ao próprio corpo, uma na frente e outra atrás, a mãe das crianças dançava no mercado para ganhar dinheiro. A primeira lembrança de existência de Kehinde eram os olhos da Taiwo. “Éramos pequenas e apenas os olhos ficavam ao alcance dos olhos, um par de cada lado do ombro da minha mãe, dois pares que pareciam ser apenas meus e que a Taiwo devia pensar que eram apenas dela. Não sei quando descobrimos que éramos duas, pois acho que só tive certeza disto depois que a Taiwo morreu. Ela deve ter morrido sem saber, porque foi só então que a parte que ela tinha na nossa alma ficou somente para mim”.

Clara Camarotti dança, não no mercado, mas no espaço de um casa, como se fosse a mãe de Kehinde. Com a mãe e a avó, que também podem significar casa. Assim como o corpo que habitamos, com todas as suas singularidades, casa. Sabe que não é apenas uma. Tem consciência de que são três. São várias, incontáveis, presentes ali naquela sala, através da sua dança.

O elo entre as três mulheres é o número 9, aquele que simboliza o encerramento de ciclos. Que rompe com as estruturas de violência reproduzidas a cada geração. A avó foge dos maus-tratos do marido depois de nove anos, deixando a filha de nove anos, levando consigo apenas a mais nova, de nove meses. A mãe foge de casa com o circo, aos nove anos, porque queria ser atriz. A rejeição sofrida pelo grupo de amigas aos nove anos com a justificativa de que era uma criança feia.

Clara Camarotti dança a história das mulheres da família. Foto: Reprodução de tela

A perspectiva documental, autobiográfica, é uma das potências do trabalho, que consegue estabelecer zonas fluidas entre ficção e realidade. Afinal, memória também é construção, (re)elaboração de sentidos e narrativas. Quando contamos, nos insurgimos contra o esquecimento. Damos uma oportunidade, traço de imensa generosidade, para que os outros também se apropriem da narrativa, carreguem consigo, passem adiante.

Ao trazer para a cena a mãe, a atriz Conceição Camarotti, 67 anos, Clara entrega um presente precioso ao espectador. Conceição é uma atriz gigante, que preenche a tela, que instaura um tipo estranho e raro de cumplicidade imediata. Está em cena sendo questionada pela filha se gostaria de interpretar um papel, se preferia improvisar ou simplesmente ser ela mesma. Consegue fazer as três coisas. Ora provando o figurino, ora contando histórias deliciosas de uma jovem destemida numa sociedade patriarcal, sentada numa mesa, na cozinha de um sítio, ora reproduzindo, livremente, as falas da velha Maria Josefa, louca, mãe de Bernarda Alba, personagem célebre de Federico Garcia Lorca.

Texto tem trechos inspirados na personagem Maria Josefa, de Lorca. Foto: Reprodução de tela

Nesta situação de pandemia, quando morremos literalmente sem fôlego, numa metáfora materializada, triste e cruel da nossa realidade, Conceição pede que a filha abra a porta, que a deixe ver o mar. Assim como ela, a filha e os filhos da filha também terão cabelos brancos, como a espuma da onda do mar, bubuia, que é doce, beija a praia, mas tem a força de levar tudo embora. O tema da velhice perpassa a dramaturgia como condição inerente, espelho-tela refletindo a imagem da velha atriz preta, potência de vida, encarando o soco no estômago das limitações trazidas pelos anos. Ao mesmo tempo, existência, resistência.

Transbordando Marias foi criado em conjunto por uma equipe de artistas: além de Maria Clara Camarotti, Naná Sodré, do grupo O Poste Soluções Luminosas, Maria Agrelli, Silvinha Góes e Conrado Falbo, esses últimos parceiros de Clara no Coletivo Lugar Comum. O trabalho foi possível graças ao edital emergencial Cultura em Rede do Sesc Pernambuco. Gestado durante a pandemia, as questões técnicas, desde a captação das imagens e do som até a edição, são o ponto mais frágil do trabalho. A sensação é de que, embora tenha uma dramaturgia e uma atuação consistentes, com muitas possibilidades, trata-se ainda de uma semente, de um experimento que pode virar árvore frondosa.

Dá esperança pensar que podemos ter, em algum momento de um futuro que quiçá nos seja próximo, um espetáculo documental, Clara e Conceição Camarotti pisando o palco de um teatro. Ou um filme, já que as telas amam o talento de Conceição. Vou puxar a sardinha para o nosso lado, que venham logo, sem demora, as três batidas de estaca do Teatro de Santa Isabel, anunciando que a sessão já vai começar.

Clara Camarotti. Foto: Reprodução de tela

Ficha Técnica:
Concepção e direção geral: Maria Clara Camarotti
Elenco: Conceição Camarotti e Maria Clara Camarotti
Texto livremente inspirado na personagem Maria Josefa, da peça A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca
Equipe de criação: Maria Clara Camarotti, Nana Sodré, Maria Agrelli, Silvinha Góes, Conrado Falbo
Trabalho contemplado pelo edital emergencial Cultura em Rede do Sesc Pernambuco.

 

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