Arquivo da categoria: Ensaio

Quem passa, dança
Circulação do espetáculo Passos
da Compassos Cia de Dança

Com 36 anos de estrada, a Compassos Cia de Dança leva o espetáculo Passo, criado em 2017, a quatro bairros entre Recife e Olinda. Foto: Morgana Narjara / Divulgação

As apresentações desse circuito são gratuitas e conta com oficina aberta e Libras em cena. Foto Divulgação

Na apresentação recente no Solo São Gens, no bairro do Recife. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

Uma praça num fim de tarde. Pessoas passam apressadas, distraídas, carregando sacolas e preocupações. De repente, seis corpos começam a se mover no meio do terreiro, sem palco, sem distância. Um convite silencioso. Quem quiser, entra. Quem quiser, dança. Quem quiser, apenas fica e sente o chão vibrar.

Essa é a ideia por trás de Passo, espetáculo da Compassos Cia de Dança que circula entre Recife e Olinda de 16 de outubro a 6 de novembro. A montagem acabou de passar pelo projeto Sextas da Gen(s)TE, no Solo Gens, e agora escolhe as periferias para continuar andando, com entrada gratuita.

Uma companhia que não para de andar

Raimundo Braanco, diretor da Compassos. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

A Compassos completa 36 anos em 2026 e está entre as companhias mais longevas em atividade no Brasil. Foi fundada em 1990 pelo bailarino e ator Raimundo Branco, formado no Balé Popular do Recife entre 1976 e 1984 e hoje uma das referências da dança pernambucana. Desde o primeiro trabalho, a companhia mistura dança popular e contemporânea com teatro, um caminho que rendeu prêmios ao longo da trajetória, como o de melhor espetáculo da Apacepe por Oratorium, em 2000, e cinco premiações com Em Anexo, em 2006.

Desde 2007, a companhia desenvolve a pesquisa Dança do cotidiano, que mistura movimento, memória e vocalidade e leva para a cena o corpo comum de quem trabalha, brinca e resiste. É dessa pesquisa que Passo se alimenta. Criado em 2017, o espetáculo estreou em circulação pelo interior de Pernambuco, com apoio do Funcultura, passando por 12 cidades e distritos, além de apresentações no Paço do Frevo e no Festival Internacional de Dança do Recife. Nove anos depois, continua em movimento.

Por que essa dança é para você

Seis artistas cruzam capoeira, cavalo-marinho, maracatu rural, teatro de bonecos e dança contemporânea,

A dança costuma parecer coisa distante. Coisa de quem estudou anos, de quem tem técnica, de quem vive no palco. Passo desmonta essa ideia. O espetáculo se assume como uma grande brincadeira de folgazões, aqueles que guardavam a semana inteira para cair na dança dos terreiros, entrando somente depois de pedir licença aos donos da casa.

Em cena, seis performers bailarinos e atores cruzam capoeira, cavalo-marinho, maracatu rural, teatro de bonecos e dança contemporânea, com saias penduradas em varas de bambu ocupando o espaço. O elenco reúne Ana Bione, Fernando Rybka, Patrícia Costa, Marcio Sá e Sandra Rino, artistas criadores de formações diversas. Eduardo Calixto completa o grupo como tradutor de Libras e performer, unindo a língua de sinais à dança.

Os artistas conversam, dançam, brincam e convidam quem cruza o caminho a experimentar o brinquedo. A fronteira entre palco e plateia desaparece. Quem assiste vira parte. Para Raimundo Branco, Passo é um rito de presença, de memória e de reinvenção, feito para circular e para ser visto de perto.

Um espetáculo que caminha

Sandra Rino, bailarina da Compassos. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

A inspiração vem de longe. O poema drmatático Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, atravessa a criação. Como a personagem Severino, que percorre estradas sem fim, Passo é um espetáculo migrante. Visita praças e terreiros, rios e córregos, no campo e no asfalto. Pede para estar em cada lugar e apresentar o seu brinquedo.

A caminhada começa no dia 16 de outubro no Ponto de Cultura Lua de São Jorge, na Cidade Tabajara, em Olinda. Segue pela Escola de Danças Populares Família Pernambuco, em Casa Amarela, pelo Centro de Artes e Comunicação da UFPE e termina no COMPAZ Atriz Leda Alves, no Pina. Em cada parada, oficina e apresentação, sempre com bate-papo depois. Parte dos locais escolhidos tem ligação direta com a história do diretor, centros de capoeira administrados por mestres que passaram pela sua formação nos anos 1980, um detalhe que mostra como a rota é afetiva.

Dança que acolhe todo mundo

Eduardo Calixto atua como tradutor de Libras e performer. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

A acessibilidade aqui não é detalhe. A Língua Brasileira de Sinais é performada pelos artistas e pelo tradutor-intérprete Eduardo Calixto, reconhecida como prática artística viva e contemporânea. Crianças, jovens, adultos, pessoas surdas, todos são bem-vindos. A programação é livre e gratuita.

Quem quiser ir além pode participar da oficina O Passo do Brincante, gratuita, para pessoas a partir de 12 anos. São três horas para experimentar os passos do frevo, do cavalo-marinho e da capoeira de Angola, além da movimentação dos caboclos do maracatu rural. Não é preciso saber dançar. É preciso ter vontade. Na turnê de 2017, a oficina foi além e convidou participantes locais para compor o elenco em cena, marca do espírito de troca do projeto.

Passo é um convite para redescobrir a dança como algo que pertence a todo mundo. Não como espetáculo distante, mas como brinquedo, encontro e memória viva das tradições populares. E a Compassos não pretende parar. Depois dessa temporada, Raimundo Branco segue em estudos para um projeto solo previsto para 2027, o próximo passo de uma caminhada que, aos 36 anos, ainda tem muita estrada pela frente.

Fernando Rybka, em primeiro plano. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

SERVIÇO

Temporada Passo, da Compassos Cia de Dança.
Entrada gratuita, classificação livre.

Ponto de Cultura Lua de São Jorge
(Av. Potiguar, 29, Tabajara, Olinda)
Dia 16/10, sexta-feira 16h, oficina O Passo do Brincante e bate-papo
19h, apresentação de Passo e bate-papo

Escola de Danças Populares Família Pernambuco
(Rua Visconde de Taunay, 207, Casa Amarela, Recife)
Dia 22/10, quinta-feira, 18h, oficina e bate-papo
Dia 24/10, sábado, 16h, apresentação de Passo e bate-papo

Centro de Artes e Comunicação da UFPE
(Campus Cidade Universitária, Recife)
Dia 28/10, quarta-feira, 19h, oficina e bate-papo
Dia 30/10, sexta-feira, 18h, apresentação de Passo e bate-papo (horário sujeito a alteração)

COMPAZ Atriz Leda Alves
(Rua José Rodrigues, 586, Pina, Recife)
Dia 04/11, quarta-feira, 19h, oficina e bate-papo
Dia 06/11, sexta-feira, 19h, apresentação de Passo e bate-papo

Mais informações no Instagram @compassosdanca

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José Manoel Sobrinho:
meio século de teatro como
projeto de vida e de territórios
Por Ivana Moura

José Manoel Sobrinho reúne nesta quinta-feira (17/09), pessoas amigas, para celebrar 50 anos de teatro. Foto: Rogério Alves

Diretor, professor e gestor cultural, Zé Manoel dirigiu mais de 100 espetáculos e formou mais de mil atores. Foto: Rogério Alves

Alguns artistas fazem carreira; outros fazem história. José Manoel Sobrinho pertence ao segundo grupo. E não por acaso. Sua trajetória de 50 anos não se conta apenas em espetáculos, embora sejam mais de 100; conta-se na capacidade rara de transformar teatro em política cultural, política cultural em formação de gente e formação de gente em cena viva. Celebrar seus 50 anos de arte é, portanto, celebrar uma parte decisiva da história do teatro pernambucano contemporâneo.

A origem explica muito. Agrestino de Bezerros, filho de um pai viajante, Zé Manoel mudou-se 30 vezes até os 11 anos, num vai-e-vem entre Bezerros, Pesqueira, Gravatá, Vitória de Santo Antão, Jaboatão, Sirinhaém e Recife. Essa infância nômade talvez lhe tenha dado cedo duas lições que atravessam toda a sua obra. A de que o fazer artístico não pertence a um único lugar e a de que a cultura precisa circular para existir. Aos 14 anos, o teatro chegou pelas mãos de uma professora de português no Colégio Paola Frassinetti, em Prazeres; a iniciação definitiva veio com o Teatro Experimental de Olinda e Valdi Coutinho, a quem ele credita “todas as oportunidades”. Foi ali que o jovem ator percebeu que o teatro podia problematizar a vida. E decidiu que aquilo seria seu ofício.

O ator, porém, deu lugar ao encenador por necessidade. Faltavam diretores para os grupos da periferia, e foi preciso assumir a direção como uma urgência coletiva. Essa virada é emblemática do seu modo de operar – o artista que se faz na lacuna, que converte ausência em invenção. Em 1979, com Carlos Lira e Mário Antônio Miranda, fundou em Prazeres, Jaboatão dos Guararapes, a TTTrês Produções Artísticas, e com ela o Movimento de Teatro Periférico, articulando a Região Metropolitana do Recife numa época em que Jaboatão vivia um vazio cênico. A sede do grupo era a sua própria casa, onde também nasceu a Biblioteca Orlando Miranda de Carvalho. Mais de quatro décadas depois, a TTTrês segue ativa, um raro exemplo de continuidade na cena independente do estado.

Teatro, gestão e militância sempre caminharam juntos na sua biografia, inclusive na presidência da Feteape, a Federação de Teatro de Pernambuco, primeira entidade representativa da sociedade civil nas artes cênicas do estado, fundada em 1976. Quando ocupou cargo nos anos 1980 chegou a ser persona non grata na Fundação de Cultura do Recife por defender a categoria, ironia que ele próprio conta com humor décadas depois.

Espetáculo Sistema 25. Foto: Divulgação

À frente da Feteape coordenou os projetos Coringa e Alvará de Expressão, levando arte a oito presídios de Pernambuco. Essa experiência, vivida entre extremos e dores, marcou fundo sua visão de mundo: “Vi a arte mudando a vida das pessoas, se não para mudar a condição, mas para fazer refletir sobre os pactos de convivência.” Ela desembocaria, mais tarde, em um dos trabalhos mais emblemáticos de sua carreira: Sistema 25, sobre o sistema prisional brasileiro, inspirado no conto Em Osasco, de Plínio Marcos. A montagem reuniu 25 atores, seis compositores e cerca de 30 cenas construídas coletivamente num processo que o diretor chamou de Jogos de Aproximação – um teatro de resistência puro sangue, realizado sem patrocínio, movido pela paixão dos atores e a militância do encenador.

O capítulo mais longo e estruturante foi o Sesc-PE. Foram 42 anos (de 1977 a 2020) que o viram passar de prestador de serviços a professor, coordenador e, finalmente, gerente de Cultura, o posto mais alto do organograma da área. Sob sua liderança, o Sesc pernambucano deixou de ser uma instituição de serviços para se tornar um dos principais vetores de formação e difusão cultural do estado: cursos, festivais, equipamentos e uma capilaridade impressionante com o interior, que ele sempre defendeu como marca inegociável. Mais de mil alunos passaram por suas aulas em todo o Brasil. Seu nome permanece vivo no Espaço Cultural Fábrica de Criação Popular José Manoel Sobrinho, do Sesc em Triunfo.

Mas os 42 anos de Sesc não foram só de Sesc. Ainda dentro deles, em meados dos anos 1990, um convite da Prefeitura de Camaragibe abriu a José Manoel uma segunda escola, a do poder público. Ele chegou para dar um curso de teatro, três turmas nascidas de um compromisso de campanha; e antes de encerrar as aulas, já era diretor de Cultura da cidade. Ficou dez anos. Quando a gestão do prefeito Paulo Santana criou a Fundação de Cultura, Turismo e Esportes, passou um ano como vice-presidente e seis como presidente. Ali, no corpo a corpo de uma cidade pequena e de orçamento curto, ele aprendeu que a política cultural se decide primeiro no município; e que é lá que ela se torna concreta, ou não passa de intenção. Camaragibe reservou 5% do orçamento para a Cultura, número raro no país, e ergueu as bases de um Sistema Municipal de Cultura, mesmo com resistência na Câmara e dinheiro escasso. “Camaragibe foi uma grande escola de gestão da Cultura para quem viveu a experiência”, diz. Quem o ouve hoje articular município, estado e nação como uma cadeia única de responsabilidades ouve alguém que aprendeu essa lição no chão de Camaragibe.

A saída do Sesc, aos 62 anos, poderia ter sido um ponto final. Foi, ao contrário, um recomeço. E aí reside outra constante de sua trajetória: a recusa ao imobilismo. Em 2021, presidiu por um ano (de 1º de janeiro a 30 de dezembro) a Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR), braço executivo da política cultural municipal no primeiro mandato do prefeito João Campos, cargo que deixou no fim daquele mesmo ano. Hoje atua como assessor parlamentar de cultura no gabinete da vereadora Cida Pedrosa e está empenhado na campanha dela a deputada estadual pelo PCdoB, nas eleições de outubro. Em 2025, concluiu o mestrado em educação na UFPE, com dissertação sobre a política de cultura na rede pública de ensino do Recife – fechando, aos 50 anos de teatro, um ciclo que ele próprio reconhece ter deixado para tarde. Formou-se em Letras apenas aos 50 anos, depois de entrar e sair de várias faculdades, sempre adiado pelas viagens e pela cena. 

Como a Lua, montagem de 2014. Foto Laryssa Moura / Divulgação

No teatro para crianças e jovens, campo em que poucos sustentam uma obra por tanto tempo, ele encontrou em Vladimir Capella um autor para toda uma vida. O paulista defende um teatro sem faixa etária, e José Manoel fez dessa defesa a sua. Dele dirigiu a delicadeza de Como a Lua, que fala de nascimento e morte sem subestimar a plateia, montada em 1984 e remontada em 2014 com música de João Falcão; a longevidade rara de Avoar, mais de dez anos ininterruptos em cartaz; e ainda Com Panos e Lendas e Píramo e Tisbe. Assinou O Mágico de Oz, O Menino do Dedo Verde e Cantigas ao Pequeno Príncipe. Em 1993, levou à cena As Incríveis Aventuras do Barão Langsdorff, de Sidnei Cruz, sobre o naturalista alemão que percorreu o Brasil no século 19. Mais recentemente, encenou Ave Guriatã, de Robson Teles, livre inspiração do cordel de Marcus Accioly, com alunos do Curso de Interpretação para Teatro do Sesc.

Na cena adulta, as escolhas também dizem quem ele é. Sistema 25, a partir de Plínio Marcos, com 25 atores e dramaturgia construída em sala de ensaio, é o retrato de um teatro de resistência feito sem patrocínio. Esquecidos por Deus, monólogo sobre o livro de Cícero Belmar, com Murilo Freire, investiga memória e apagamento. Formigas bebem absinto no armazém do caos, do paraibano Everaldo Vasconcelos, mergulha nas relações humanas em crise. Janos Adler, de Luiz Felipe Botelho, enfrentou o tema do HIV no início dos anos 1990, quando o assunto ainda era tabu. E Sobre os Ombros de Bárbara, no ano passado, devolveu corpo e voz a Bárbara de Alencar por Augusta Ferraz.

O repertório, aliás, nunca se deixou aprisionar por uma única origem. Montou pernambucanos como Alexandrino Souto, Luiz Felipe Botelho, Marcus Accioly, Robson Teles e Cícero Belmar; paraibanos como Bráulio Tavares (Trupizupe, o Raio da Silibrina), Altimar Pimentel (Viva a Nau Catarineta) e Everaldo Vasconcelos; paulistas como Capella, Plínio Marcos, Oswald de Andrade e Fauzi Arap; e o gaúcho Érico Veríssimo, cujo O Deus Único marcou sua primeira ação em teatro, em 1974.

Hoje, em fase de produção de Araras Vermelhas, novo espetáculo a partir da obra homônima de Cida Pedrosa (livro finalista do Prêmio Jabuti), dividindo com Samuel Bennaton a direção do espetáculo e com Colette Dantas e Rogério Alves no elenco, Zé Manoel segue fazendo o que sempre fez: reunir pessoas em torno da arte. O encontro desta quinta-feira, na Rua Mamede Simões, com música, conversa no Bar Super 8 e a presença de ex-alunos, autores, músicos e amigos, é o retrato fiel do artista que investe na convivência e na troca. “50 anos de teatro, sem nenhum intervalo. Meu Deus, eu nem acredito. Por isso que eu quero comemorar. Mereço esse momento.” Merece – e a cena pernambucana comemora com ele.

Samuel Bennaton, Rogério Alves, José Manoel e Colette Dantas no ensaio de Araras Vermelhas. Foto: Divulgação

Serviço

O quê: Encontro pelos 50 anos de teatro de José Manoel Sobrinho
Quando: quinta-feira, 17 de setembro, a partir das 18h
Onde: Rua Mamede Simões, Recife
Programação: apresentações musicais com artistas convidados e conversa com o homenageado no Bar Super 8

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O palco entre o permitido
e o proibido: os anos 1960
do teatro no Recife
Livro de Leidson Ferraz
Por Ivana Moura

Pesquisa de Leidson Ferraz, com incentivo do Funcultura, reconstrói uma década em que o strip-tease convivia com a censura, a crítica arrasava peças sem pudor e o picante fazia a sua própria política. Foto: Fábio Anjos

Toda Donzela Tem um Pai Que é Uma Fera, 1964, com Barreto Júnior no papel de Porfírio, um velho conquistador, falso celibatário, que procura os amores de uma jovem, foi apresentado no Teatro de Santa Isabel, Foto: Acervo Projeto Memórias da Cena Pernambucana 

Teatro Marrocos, com Luiz Lima. Foto: Divulgação

O Recife que entrou em 1960 era uma cidade em plena inauguração de si mesma. Em 1º de janeiro, Miguel Arraes tomava posse na Prefeitura; em abril, nascia Brasília; em maio, numa sexta-feira 13, abria na Avenida Conde da Boa Vista, nº 629, o primeiro Teatro de Arena do Nordeste, o terceiro do país, com ar-condicionado Westinghouse e reserva de cadeiras por telefone, luxos para a época. Em junho, a televisão chegava primeiro pelo Canal 6 da Rádio Clube, dias depois pelo Canal 2 do Jornal do Commercio, pronta para disputar com o palco atores, técnicos e plateias. E na Praça da República, a poucos passos do Palácio do Campo das Princesas, sede do governo estadual, e do Teatro de Santa Isabel, o Teatro Marrocos anunciava “muita pimenta, pouca roupa e muito humor”. O Marrocos, porém, não nascera ali: criado em 1954 pelo humorista Barreto Júnior como um barracão de madeira de 400 lugares na Avenida Dantas Barreto, fora derrubado em 1958 para o alargamento da via e reconstruído na Praça da República, onde se tornara no período, talvez, o único teatro de strip-tease do Brasil, com os ingressos mais caros nas primeiras filas, o “gargarejo”, de onde se via de perto as vedetes.

É esse território que o jornalista e pesquisador Leidson Ferraz, doutor em Artes Cênicas pela UNIRIO e atualmente em pós-doutorado na UFSJ, reconstitui ano a ano no livro Do Picante à Política: o teatro no Recife dos anos 1960, mergulhando em milhares de jornais, periódicos, fotografias raras e programas de espetáculo. A pesquisa começou em 2024 e levou mais de dois anos. O que o autor mais insiste em destacar é a pluralidade da cena teatral no Recife: “A gente sempre teve uma diversidade enorme de produções”, diz, ao recusar a ideia de que essa variedade seria uma marca exclusiva dos anos 1960.

O que a década teve de específico, segundo o Leidson, foi uma dualidade: a convivência entre o que podia e o que não podia chegar ao palco. “Eu cito vários textos que não puderam vir à cena, e ao mesmo tempo toda a polêmica com esse teatro picante, esse teatro rebolado. Se pensar na ideia de espírito do tempo, fica como um espírito contraditório”. O livro documenta essa contradição em casos concretos. Um Santo Homem, texto de Otto Prado, ficou proibido de 1968 a 1972, apesar de sucessivos recursos. Aconteceu em Paris, espetáculo levado por Hamilton Fernandes, esperou meses pelo parecer da censura já centralizada em Brasília. Em 1963, O Homem dos Chifres de Ouro, comédia apimentada de Ítalo Cúrcio, empresário carioca que levava suas companhias ao Marrocos, saiu da mão do censor rebatizada O Homem da “Testa” de Ouro. No fim da década, em 1969, De Bocage a Nelson Rodrigues, espetáculo erótico do grupo carioca Mini-Teatro da Guanabara, provocou escândalo moral a ponto de o vereador Wandenkolk Wanderley tentar censurá-lo, em meio a debate sobre seus méritos artísticos.

Antes de chegarmos ao fim da década, porém, vale voltar a um dos momentos em que o palco respondeu à censura com mais firmeza. Em outubro de 1961, o Teatro de Arena de São Paulo trouxe ao Santa Isabel Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, com direção de José Renato e figurinos de Ded Bourbonnais. A peça chegava premiada pela Comissão de Teatro de São Paulo, recomendada pela Ação Católica Nacional, depois de cinco meses de temporada no Rio e seis em São Paulo. Para o Recife, a previsão era modesta: cinco dias e seis récitas, com patrocínio das Lojas Paulistas, da Loide Aéreo e do Hotel São Domingos, e entradas populares.

A pré-estreia, na tarde de 26 de outubro, foi dedicada aos estudantes da Universidade do Recife. Mas o chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas de Pernambuco, Olímpio Mendonça, já havia determinado que a palavra “revolução” fosse substituída por “movimento” em todo o texto, inclusive no título, por considerá-la “altamente subversiva”. Ao conferir a primeira sessão, com 659 pessoas na plateia, e ver que suas instruções não haviam sido cumpridas, o censor levantou-se da poltrona, caminhou até a ribalta e ameaçou interditar o Santa Isabel e prender a equipe inteira caso a “façanha” se repetisse.

O impasse terminou na política. O prefeito em exercício, Artur Lima Cavalcanti, tranquilizou os artistas; e o vice-governador Pelópidas Silveira entrou no teatro na noite seguinte, enquanto o censor mantinha treze páginas de cortes e a classificação para maiores de 18. A conversa foi curta: Pelópidas pediu que deixassem o caso com ele, a obra seria apresentada. Submisso, Mendonça declarou encerrada a sua missão. A União Brasileira de Escritores, seção Pernambuco, ainda mandaria telegrama ao governador Cid Sampaio, falando em “censura mais descabida”. O desfecho: a Prefeitura ampliou a temporada em mais sete récitas, e 5.221 pessoas viram a peça, numa recepção que Medeiros Cavalcanti resumiu em “surpresa e entusiasmo” diante de um “texto absolutamente moderno, fluente e empolgante”.

A liberdade conquistada por aquele texto, porém, era a exceção que confirmava a regra: a censura barrava palavras e vigiava corpos. Em 1966. Les Girls em Op-Art, espetáculo carioca de travestis que se tornara referência desde a estreia na boate Stop, no Rio, em 1964, foi expulso do Santa Isabel por decisão do prefeito Augusto Lucena depois de 11 sessões e 9.445 espectadores, caso que o livro trata abertamente como homofobia do período. Valdemar de Oliveira, crítico do Jornal do Commercio, comemorou o veto; Adeth Leite e Ângelo de Agostini defenderam o espetáculo. Em 1967, o transformista Mendez, que se apresentava em rádio e casas de espetáculo do Recife, foi eleito Rei Momo do carnaval e teve o mandato cassado por causa da profissão.

O golpe, aliás, já havia produzido a primeira baixa do teatro pernambucano: A Grande Estiagem, tragédia de Isaac Gondim Filho que o conjunto Os Bancários pretendia montar em abril de 1964, foi adiada sem data e depois abortada, porque o Sindicato dos Bancários, sede do grupo, era visto como polo de subversão comunista. A peça, que seria a terceira versão da obra, nunca chegou ao palco. No mesmo 1º de maio de 1964, o teatro picante fazia o caminho oposto: Barreto Júnior, dono do Marrocos, programou uma vesperal em homenagem ao Dia do Trabalho e às novas autoridades, convidando pessoalmente o governador Paulo Guerra, o prefeito Augusto Lucena, o comandante do IV Exército, general Justino Alves Bastos, e os comandantes da 7ª Região Militar, do 3º Distrito Naval e da 8ª Base Aérea. “A lembrança do ator Barreto Júnior em homenagear o Dia do Trabalho e as autoridades constituídas foi recebida com aplausos gerais dos profissionais do teatro no Recife”, registrou Adeth Leite. O picante, sugere a pesquisa, também era um lugar de poder, e de adesão.

A Mandrágora de Maquiavel, segundo trabalho do TPN, apresentado no Teatro do Parque, foi “um retumbante fracasso perseguido até pela Igreja Católica”. Com direção de Hermilo Borba Filho, e com Clênio Wanderley, José Pimentel, Hiran de Lima Pereira, Joel Pontes, Otávio da Rosa Borges, entre outros. Foto: Divulgação

O teatro que se queria moderno também produziu sua maior polêmica. Em 1962, o Teatro Popular do Nordeste (TPN), fundado por Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna, estreou A Bomba da Paz, farsa política escrita e dirigida por Hermilo. O próprio autor a definiu como “uma peça de circunstância, que nasceu de uma raiva pessoal”, de uma desavença com Germano Coelho, então à frente da Secretaria de Cultura e do Movimento de Cultura Popular (MCP). A farsa, que satirizava o comunismo de uma perspectiva cristã e ridicularizava o MCP, foi recebida com críticas majoritariamente negativas, expondo as tensões internas de um grupo que se queria de esquerda, em disputa com irmãos de causa.

A régua da crítica, porém, mudava conforme o alvo. Em 1960, A Mandrágora, de Maquiavel, comédia renascentista sobre adultério e engano, foi atacada como “imoral”; Medeiros Cavalcanti chegou a compará-la, em desvantagem, às comédias populares de Procópio Ferreira. Seis anos depois, o mesmo grupo, com O Inspetor, adaptação de Gógol dirigida por Hermilo, seria celebrado como o mais importante espetáculo de um grupo local em cinco anos, com 81 apresentações. A crítica que condenara o clássico do adultério coroou a sátira à corrupção.

A crítica feita ao Teatro Novo do Recife em sua estreia foi, segundo Leidson Ferraz, uma das mais violentas da década. A casa abriu as portas na noite de 4 de outubro de 1968, num casarão da Avenida Rui Barbosa, no bairro das Graças, que até pouco antes servira de residência ao arcebispo. Dom Hélder Câmara, no exercício do cargo, havia acabado de trocar o aristocrático imóvel pela sacristia da Igreja das Fronteiras, e o prédio anexo ao Palácio dos Manguinhos virou sala de 80 lugares, com estacionamento privativo, bancada pelo monsenhor Marcelo Carvalheira, pela socialite Helena Pessoa de Queiroz e até pelo prefeito Augusto Lucena. À frente do grupo, homônimo da casa, estava o ator e diretor Marcus Siqueira.

Para a inauguração, a aposta foi O Doente Imaginário, de Molière, com Clênio Wanderley, convidado, no papel do hipocondríaco Argan, e figurinos doados pelo estilista Marcílio Campos. A direção coube ao francês Jean Claude Tabet, e a proposta declarada era desmistificar o clássico, sublinhando o popularesco sem trair o autor. A peça ficou em cartaz até 10 de novembro, atraindo bom público e personalidades.

A reação nos jornais foi marcante. Ângelo de Agostini, no Diário da Manhã de 4 de novembro, arrasou o espetáculo, chamando-o de “amontoado inteiramente fragmentado de cenas e sequências da pior categoria possível” e ironizando a pretensão de modernidade que, na sua leitura, não passava de bagunça. O crítico também não perdoou Marcus Siqueira pela contracapa do programa, em que o ator e diretor definia Molière como “de mau gosto, grosseiro, vulgar, chanchadeiro, mas antes de tudo, a obra de um gênio”, contradição que Agostini tratou como sintoma do equívoco geral. Valdemar de Oliveira, no Jornal do Commercio de 13 de novembro, foi na mesma direção, apontando “astigmatismo de direção” e um estilo “anti-Molière”. Quando um espectador escreveu a Agostini lamentando a violência da crítica, o jornalista não recuou: “Não sabemos mentir, nem tirar de uma cartola mágica palavras de aplausos que não refletem a verdade”.

 O Noviço, comédia de Martins Penna, com direção de Alfredo de Oliveira, do Teatro de Arena em 1961. No elenco, Yara Lins, Margarida Cardoso, José Pimentel, Paulo Ribeiro, Belarosa Azolino, Octávio Catanho, Barbosa Santos, Edmilson Catunda e o garoto Bianor de Oliveira. Foto: Divulgação

O Burguês Fidalgo, com Paulo Autran como protagonista e produtor, Isolda Cresta e elenco grande, cumpriu temporada entre novembro e dezembro de 1968, no Teatro de Santa Isabel.  Foto: Divulgação

I Festival de Teatro do Nordeste, ocorreu em 1969, no Santa Isabel, promovido pelo TUP. Foto: Divulgação

Os últimos anos da década trouxeram o fechamento de palcos. O Santa Isabel, que em 1963 deixara de exigir paletó do público, fechou para obras; o Teatro do Parque também; o Marrocos virou “Novo Marrocos” e seria demolido em fevereiro de 1973. O epílogo do livro registra ainda o fechamento do TPN, do Teatro Novo do Recife e do Teatro da AIP. Sob o AI-5, com as plateias minguando, o Recife recebeu em setembro de 1969 a remontagem de Morte e Vida Severina, o poema de João Cabral de Melo Neto musicado por Chico Buarque, dirigida por Silnei Siqueira, o mesmo encenador da versão histórica de 1965. Era a quarta temporada nacional da Companhia Paulo Autran, que já circulava com Liberdade, Liberdade, Édipo-Rei e O Burguês Fidalgo; Paulo Autran vivia o Mestre Carpina, e Carlos Miranda, o Severino, papel que já fizera na primeira montagem da obra, em 1958. A equipe ficou hospedada no Grande Hotel, com apoio do governo do estado, e a renda da primeira apresentação foi destinada às crianças do Juizado de Menores. No mesmo ano, a cidade sediou a única edição do I Festival de Teatro do Nordeste, de 29 de julho a 3 de agosto, no Santa Isabel, promovido pelo TUP. O evento foi repleto de atropelos: convidados do Rio e de Alagoas não vieram, palestras foram canceladas, e apenas cinco grupos se apresentaram, entre eles a Comédia Cearense e o TEA de Caruaru, com Feira de Caruaru, primeiro grande sucesso de Vital Santos. Não havia prêmios, apenas troféus de participação.

Curiosidades não faltam pelo caminho desse livro que já é uma referência sobre teatro no Recife na década de 1960, com mais de 600 páginas. O pernambucano Aguinaldo Silva, então com 20 anos, jornalista e cofundador do Teatro de Equipe de Pernambuco, teve a primeira peça, O Estranho Caso do Homem Que Gostava de Mulher, montada pelo grupo em outubro de 1963, com direção de Clênio Wanderley; apesar da forte publicidade, foi um fracasso comercial. Ele se tornaria, décadas depois, um dos autores mais conhecidos da teledramaturgia brasileira. Em 1960, Procópio Ferreira fizera longa temporada no Marrocos com comédias ligeiras como Essa Mulher é Minha e A Família do Antunes.

A capa de Do Picante à Política resume a aposta do livro: em cima, o glamour do teatro de revista, personificado pela modelo Daise Alves, cuja foto foi gentilmente liberada pelo site Universo Retrô; embaixo, os porões da Ditadura. Com design de Claudio Lira, a publicação estará disponível para download gratuito no site www.leidsonferraz.com.br a partir da noite do lançamento, na quarta-feira (26 de agosto), às 19h, no Teatro Arraial Ariano Suassuna (rua da Aurora, 457, Boa Vista), com entrada franca e projeção de imagens raras do processo de pesquisa.

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7º Chama Violeta transforma
Sertão do Pajeú em palco mágico

Entre terreiros, alpendres e sonhos coletivos, festival de artes integradas celebra resistência cultural com 15 atrações do Brasil e Argentina. Foto: Divulgação

O Sítio Minadouro fica na área rural de Ingazeira, no Sertão pernambucano do Pajeú, cerca de 420 km do Recife

Odilia Nunes, atriz, palhaça, brincante, gestora cultural e coordenadora do Chama Violeta

“Entendi que amor é escolha”, é um mote e no Sítio Minadouro, área rural de Ingazeira, no Sertão pernambucano do Pajeú (cerca de 420 quilômetros do Recife), essa opção ganha forma de palhaçaria, mamulengo, dança, poesia e outras linguagens. Entre os dias 19 e 21 de dezembro, o 7º Chama Violeta acende mais uma vez a centelha da arte, provando que cultura não aceita fronteiras geográficas nem limitações orçamentárias.

Coordenado pela incansável Odília Nunes – palhaça, brincante, gestora cultural e alma inquieta do teatro popular -, o Chama Violeta é muito mais que um festival. É um abraço coletivo, uma festa de resistência, um laboratório de afetos onde 60 artistas e técnicos de Pernambuco, Paraíba, Bahia, Rio Grande do Norte, Distrito Federal, São Paulo e Argentina se encontram para semear encantamento.

“O critério da curadoria é afetivo. Primeiro a gente escolhe o tema e a partir dele vai montando a programação. É intuitivo”, revela Odília, que há três anos mora em São Paulo como atriz da premiada Cia do Tijolo, integrando o elenco dos espetáculos Guará Vermelha (2023) e Restinga de Canudos (2025).

A revolução dos terreiros pela arte que vai à casa das pessoas

Chama Violeta promove uma experiência diferenciada de fruição artística. 

O grande diferencial do Chama Violeta está na inversão completa da lógica tradicional dos festivais. Enquanto a maioria opera na dinâmica de “venha até nós”, o Chama Violeta funciona no “vamos até vocês”. Não são as pessoas que precisam se deslocar para chegar até a arte, é a arte que chega até as pessoas, literalmente em suas casas.

Os espetáculos acontecem nos terreiros e alpendres das casas dos moradores: Terreiro de Mariquinha, Terreiro de Seu Expedito e Dona Lourdinha, Terreiro de Edileuza, Alpendre da Casa de Odília. Cada espaço é gentilmente cedido por familiares e amigos, criando uma intimidade única entre artista e público. Para muitos moradores do Minadouro, especialmente crianças e idosos, essa é a primeira oportunidade de assistir a um espetáculo teatral profissional.

Essa filosofia revolucionária leva teatro de bonecos, circo, dança contemporânea e música para pessoas que, muitas delas, nunca pisaram em um teatro convencional, revelando que não são elas que precisavam ir ao teatro, o teatro é que precisava chegar até elas.

Essa mudança de paradigma cria uma experiência única de fruição artística. Sem a barreira física e simbólica do teatro tradicional, sem ingressos, sem dress code, sem hierarquias urbanas, a arte acontece no ambiente familiar e acolhedor dos quintais sertanejos. A plateia se torna parte do espetáculo numa atmosfera de roda, de círculo de afeto onde todos estão incluídos. Crianças assistem de perto, adultos participam espontaneamente, idosos dividem memórias com os artistas após as apresentações.

O ano das famílias que fazem arte junta

Piruá e Paraqueta, com os artistas Rodrigo Bruggemann e filha Amora Maux, do Rio Grande do Norte

Este ano, sem qualquer incentivo do poder público, mais do que nunca o Festival Chama Violeta é feito com a garra e a parceria dos artistas e companhias participantes, que abriram mão do cachê para compartilhar sua arte. O tema “Entendi que amor é escolha” ganhou ainda mais significado na curadoria de grupos familiares – casais, pais e filhos que fazem arte juntos.

O festival celebra os 50 anos de casamento dos pais de Odília, que são pessoas muito atuantes na comunidade e na realização do Chama Violeta, e de outro casal, Cícero Gomes e Dona Maria, do Samba de Coco de Trupé de Arcoverde, presentes desde a primeira edição.

Entre os grupos familiares da programação estão Piruá e Paraqueta (Rodrigo Bruggemann e filha Amora Maux, do Rio Grande do Norte), o casal baiano Anelise Mayumi e Douglas Iesus com Embalanceio: dançar sonhos pequeninos, a Cia Bode com Pequi (casal Pedro Milhomens e Clá Solar com a filha Aruna) e a Cia das Marionetes, da Argentina.

Quando sonhos coletivos viram cinema

Filme Um dia Havia de Ver o Mar, de Odília Nunes

 Teatro de lambe-lambe Dona Ló com Catarina Calungueira (RN) 

Espetáculo Cícera, com Contadores de Mentira. Foto: Valeria Félix / Divuolgação

Entre as novidades da programação está o filme Um dia Havia de Ver o Mar, dirigido por Odília Nunes. A história nasceu de um pedido simples de uma criança local: “Um menino, um dia, me pediu pra levar ele na praia. Cumpri minha promessa. Mas não fomos só em dois. É que esse sonho era coletivo. O filme é o registro desse encontro”, conta a diretora.

No Minadouro, as crianças aprendem desde cedo a amar a chuva e brincar na água dos riachos, barreiros e açude, mas sonham conhecer o mar. O filme documenta essa jornada de descoberta, simbolizando o espírito do festival: transformar sonhos individuais em conquistas coletivas.

O festival abraça diversas linguagens e formatos. Há espetáculos teatrais como Vereda dos Mamulengos (Casa Moringa-DF), onde Conceição e Benedito enfrentam as cobranças do senhor João Redondo com humor e lirismo, acompanhados de trilha sonora ao vivo com cantos de trabalho e cantigas de roda da tradição oral brasileira.

O teatro de bonecos se faz presente com O Auto do Boi Aurora (Catarina Calungueira-RN), onde Catirina luta contra o autoritário capitão João Redondo para libertar o boi Aurora, e com Antologia das Marionetes (Cia das Marionetes-Argentina), um cabaré que reúne personagens criados ao longo da trajetória da marionetista Rocío Walls, cada um carregando marcas de diferentes épocas e encontros pelo mundo.

A música ganha destaque com Nordeste Futurista de Luana Flores (PB), artista que vem se destacando internacionalmente ao fundir ritmos e estética da cultura popular nordestina ao universo da música eletrônica, e com Sons de Resistência do Samba de Coco de Trupé de Arcoverde (PE), grupo que desde 2009 preserva o legado do samba de coco, honrando a herança cultural afro-indígena.

A dança contemporânea se apresenta através de Embalanceio: dançar sonhos pequeninos, onde o casal de artistas e pais Anelise Mayumi e Douglas Iesus encara a pergunta: “como adiar o fim do mundo?” com um espetáculo que usa elementos naturais do sertão baiano e a força da imaginação para semear encantamento.

O circo aparece em Piruá e Paraqueta, onde pai e filha montam seu próprio circo apresentando números de malabarismo, equilibrismo, magia e ciência, descobrindo que felicidade não tem milhões de seguidores.

Formação e Empoderamento

O festival também promove oficinas formativas. A Voz da Poesia, ministrada por Isabelly Moreira (São José do Egito-PE), faz parte do projeto nacional que empodera mulheres do campo através da literatura, exercitando leitura, escrita e declamação com foco em quadras e sextilhas, além de reflexões sobre papel da mulher na sociedade e questões ambientais.

A oficina Confecção de Calungas de Pano, com Catarina Calungueira (RN), propõe imersão criativa no teatro de bonecos tradicional do Nordeste, conectando participantes com as encantarias do teatro popular.

As rodas de conversa são marca do festival. Vô, deixa minha mãe brincar, conduzida por Gabriela Romeu (SP), jornalista e documentarista criadora do projeto Infâncias, é uma conversa intergeracional sobre memórias de infância, lembrando a infância como “relicário das singelezas do viver”.

O Chama Violeta é uma das ações do projeto No Meu Terreiro Tem Arte, criado por Odília em 2015 para promover intercâmbio cultural, residências artísticas e formação durante o ano todo no Minadouro. O reconhecimento veio com o Prêmio Pernalonga de Teatro (2019) do Governo de Pernambuco e o Prêmio Inspirar (2021) do Instituto Neoenergia, que contempla iniciativas lideradas por mulheres.

O figurino de Bandeira, a palhaça sertaneja, é feito de material reciclado

Decripolou Totepou, solo de Odília que completa 20 anos em 2025

Um dos momentos mais simbólicos é o retorno de Decripolou Totepou ao lugar onde nasceu. O solo de Odília completa 20 anos em 2025. “Este foi meu primeiro solo. Nesses vinte anos, várias crianças do Minadouro assistiram, mas a nova geração ainda não conheceu. Nada melhor do que comemorar esse aniversário onde tudo começou”.

Bandeira, a palhaça sertaneja protagonista do espetáculo, carrega em sua mala sonhos e objetos que encantam através de mamulengos, malabares, brinquedos populares e truques de ilusionismo. Seu figurino de material reciclado é roupa e cenário sonoro, lembrando que “podemos brincar com qualquer coisa, se formos capazes de enxergar a simplicidade”.

A realização conta com uma rede de colaboradores locais. Produção geral e hospedagem por Lourdinha, Expedito, Violeta, Helena, Tamires, Gilvan, Heitor, Artur, Fran e Paulinho; alimentação por Deda, Fran e Ciene; coordenação de programação por Clá Solar; coordenação de transportes por Ana Carolina Lima; coordenação técnica por Cic Morais; design por Letícia Graciano; assessoria de imprensa por Ana Nogueira; produção local por Marcia Andreia, Gisele Garcez e José Mauricio. O festival conta com apoio do SESC PE e Editora Caixote.

📅 PROGRAMAÇÃO COMPLETA – 7ª EDIÇÃO CHAMA VIOLETA

🌅 SEXTA-FEIRA (19)

8h 📍 Escola Municipal do Jorge 🎭 Vereda dos Mamulengos com Casa Moringa (DF)
Conceição e Benedito enfrentam as cobranças do senhor João Redondo com sabedoria popular, humor e trilha sonora ao vivo

📍 Escola Municipal da Caiçara
🎭 Decripolou Totepou com Odília Nunes (PE)
A palhaça Bandeira celebra 20 anos tirando mágica da mala e ensinando que simplicidade é revolução

17h 📍 Terreiro de Mariquinha 🎭 Antologia das Marionetes com Cia das Marionetes (Argentina)
Cabaré de memórias onde cada boneco conta histórias de encontros pelo mundo

19h 📍 Terreiro de Seu Expedito e Dona Lourdinha 🎭 O Auto do Boi Aurora com Catarina Calungueira (RN)
Catirina luta contra João Redondo pela liberdade do boi

🎵 Show Nordeste Futurista com Luana Flores (PB)
Eletrônica que pulsa com coração nordestino

🌞 SÁBADO (20)

8h 📍 Sede da Associação de Agricultores do Minadouro 🎓 Oficina A Voz da Poesia com Isabelly Moreira (PE)
Mulheres que versam, resistem e se empoderam através da literatura

🎭 Teatro de lambe-lambe Dona Ló com Catarina Calungueira (RN)
A alegria de quem planta, cuida e espera a chuva chegar

17h 📍 Terreiro de Edileuza 🎭 Caminhos com Cia Bode com Pequi (Pedro Milhomens e Clá Solar) (PE)
O palhaço Sequinho transforma receitas ancestrais em mágica, utensílios de cozinha em números circenses

19h 📍 Terreiro de Expedito e Lourdinha 🎪 Piruá e Paraqueta com Rodrigo Bruggemann e Amora Maux (RN)
Pai e filha descobrem que felicidade não tem milhões de seguidores

🎵 Show Sons de Resistência com Samba de Coco de Trupé de Arcoverde (PE)
Ancestralidade afro-indígena que dança e canta há gerações

🌅 DOMINGO (21)

8h Sede Associação de Agricultores do Minadouro 🎓 Oficina Calungas com Catarina Calungueira (RN)
Imersão criativa na confecção de bonecos do teatro tradicional nordestino

14h 📍 Alpendre da casa de Odília 💭 Roda de conversa Vô, deixa minha mãe brincar com Gabriela Romeu (SP)
Diálogo intergeracional sobre infâncias e memórias afetivas

17h 📍 Terreiro de seu Expedito e dona Lourdinha 💃 Embalanceio: dançar sonhos pequeninos com Anelise Mayumi e Douglas Iesus (BA)
Como adiar o fim do mundo através da dança e da imaginação

🎬 Estreia Um dia Havia de Ver o Mar-Cine Clube Minadouro
Filme de Odília Nunes sobre sonho coletivo de crianças do sertão que se tornou realidade

🎭 Cícera com Contadores de Mentira (SP)
A jornada de uma mulher nordestina afro-indígena entre saudade e esperança

📱 Mais informações: @nomeuterreirotemarteoficial

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Vital Santos e a urgência
de um teatro que grita
Por Ivana Moura

Vital Santos, dramaturgo e encenador caruaruense. Foto: Jorge Clézio / Divulgação

Leidson Ferraz, autor do livro Dramaturgia Vital: o teatro popular e musical do pernambucano Vital Santos

“O dramaturgo e diretor Vital Santos continua mandando seus sinais. De alerta, de protesto, de indignação contra as desigualdades sociais e de solidariedade com a condição humana. Sua arma compõe-se de verbo, das imagens, do canto e dança através do teatro. […] Para Vital Santos, o palco deve servir de tribuna de discussão dos problemas dos seres humanos. Foi assim com Auto das Sete Luas de Barro, A Árvore dos Mamulengos ou Concerto Para Virgulino Sem Orquestra, algumas das peças escritas e dirigidas por ele. Sua temática social alia-se à linguagem poética para atingir a sensibilidade do espectador, provocar reflexões e mudanças de atitudes…” Em dezembro de 1994, quando escrevi sobre No Fim do Beco há um Bosque para o Diario de Pernambuco, não imaginava que minhas palavras se tornariam quase proféticas.

Três décadas depois, a voz de Vital Santos (pernambucano de Caruaru, falecido em 2013, aos 68 anos) ecoa mais uma vez. Agora não mais do eterno palco efêmero, mas das páginas permanentes de uma coleção que perpetua sua dramaturgia. Sua obra que por tanto tempo se manteve na fugacidade da cena e na memória dos que a testemunharam, finalmente ganha o registro que merece. A coleção Dramaturgia Vital: o teatro popular e musical do pernambucano Vital Santos, com organização, contextualização histórica e análise das obras do jornalista, historiador e doutor em Artes Cênicas Leidson Ferraz, é um ato de justiça à memória de um criador essencial. São dezessete peças completas, reunidas em dois volumes que somam 848 páginas e quase 200 fotografias raras. O lançamento ocorre nos dias 17 e 18 de dezembro de 2025, no Recife e em Caruaru.

Leidson Ferraz, que teve a oportunidade e o privilégio de atuar sob a direção de Vital em O Príncipe dos Mares de Olinda Contra a Fúria das Águas, conhecia de perto essa urgência. Como pesquisador, ele já havia documentado a trajetória do Grupo Feira de Teatro Popular em Memórias da Cena Pernambucana. Ferraz dedicou anos ao projeto, movido pelo rigor acadêmico e uma profunda admiração. E contou que já conhecia o desejo de Vital de publicar todas as peças, embora muitas tenham se perdido ao longo do tempo.

O registro permanente desses textos que moldaram a cena nacional das décadas de 1970 a 2010 merece saudação, pois muitas peças desse autor que ganhou prêmios como o Molière, o Mambembe e o APCA estavam dispersas, inacessíveis em formato de livro e corriam o risco de se apagar.

O projeto de edição foi vencedor do primeiro lugar na categoria Preservação de Acervos e Memória do edital Funarte Retomada 2023 e representa um marco na salvaguarda do teatro brasileiro. O título Dramaturgia Vital é um achado, pois aponta para a autoria de Vital Santos e, ao mesmo tempo, para a natureza pulsante e essencial de sua obra.

Cantigas do Sol Dom Quixote de Cordel Foto: Célio Pontes / Divulgação

A capacidade de traduzir a vida de pessoas simples está na essência do teatro de Vital Santos. O fio condutor de sua dramaturgia era a uma concretude da condição do povo brasileiro, com um olhar muito atento para o Nordeste. E com uma poesia desconcertante. Suas peças são radiografias de como homens e mulheres enfrentam a fome, a seca, a exploração, a violência urbana, e como, em meio a tudo isso, insistem em amar, sonhar e resistir. São personagens que se recusam a ser invisíveis.

É importante ressaltar: Vital não se propunha a “dar voz” a essas pessoas, termo problemático e em desuso nas análises contemporâneas. Ele criava um teatro que pulsava das próprias formas de expressão populares, refletindo suas experiências e modos de ser. Sua estética era uma tapeçaria rica, tecida com fios de cordel, a alegria do mamulengo, a força do reisado, a dança do bumba-meu-boi e as melodias das cantigas de trabalho. Santos utilizava os materiais culturais de Caruaru e região para abordar questões que tocam qualquer ser humano, ou seja, a busca por dignidade, o sonho de uma vida melhor, a luta contra a opressão. O drama de um migrante nordestino em Olha Pro Céu, Meu Amor dialoga diretamente com o trabalhador explorado em qualquer parte do mundo.

A denúncia social, como observei em No Fim do Beco há um Bosque, permeia sua dramaturgia, mas nunca de forma panfletária. A crítica surge das próprias situações dramáticas. A exploração dos artistas em Auto das Sete Luas de Barro, as lutas camponesas em A Noite dos Tambores Silenciosos, a degradação urbana em No Fim do Beco há um Bosque. Vital honrava a capacidade de sobrevivência e a força criativa do povo. Seus personagens, mesmo no extremo, mantinham a dignidade, a esperança e o humor. Não era romantização, mas o reconhecimento de que, onde há opressão, há luta; onde há desespero, há invenção.

Como encenador, Vital era um maestro, um alquimista da cena. Sabia como poucos movimentar os corpos dos atores e atrizes com poesia e precisão, transformando cada espetáculo em uma experiência física e sensorial. Suas montagens eram quadros vivos, onde a música e a dança eram o próprio coração pulsante da narrativa. O palco sob Vital era um lugar de milagres: luzes que pintavam paisagens, objetos de sucata que ganhavam alma, um balé de movimentos que extraía a riqueza das danças nordestinas. 

Concerto Para Virgulino Sem Orquestra

Vital, o Mestre do Exagero Criativo

Vital Santos era, acima de tudo, humano. E como (quase) todo bom contador de histórias nordestino, ele não se furtava de apimentar a narrativa, de dar um “tom” extra aos acontecimentos ou, por vezes, de simplesmente inventar. Sabia que o teatro vive de impacto, de emoção e de uma boa história, mesmo que esta ganhasse contornos fabulosos em sua boca.

Vital gostava de “aumentar as coisas”, de “valorizar os acontecimentos” para “ficar bem na fita”. Ele atribuía a Concerto Para Virgulino Sem Orquestra, por exemplo, premiações e elogios de críticos renomados como Barbara Heliodora e Yan Michalski, mesmo que tais comprovações nunca fossem encontradas nos arquivos. A pesquisa de Leidson Ferraz confirma que “esses ‘louros e confetes’ que Vital Santos jogava para si não causavam dano maior”, mas sim reforçavam o mito do artista que ele construía com maestria. Ele era um dramaturgo que não hesitava em usar de licença poética para si mesmo, um toque de “megalomania” criativa para tornar sua figura ainda mais cativante.

Outros detalhes revelam seu temperamento único. A inclusão de uma galinha de verdade no palco em Olha Pro Céu, Meu Amor, causando frisson entre os produtores; suas mudanças repentinas em ensaios, que faziam o elenco “não gostar”, mas que eram a marca de seu perfeccionismo; e a célebre disputa com Antônio Guinho sobre a autoria de Uma Canção Para Othello, mostrando que sua paixão era tão grandiosa quanto suas criações – e, por vezes, tão tempestuosa. A arte de Vital era viva, e sua vida era, em si, um grande espetáculo.

 Experiências e Percepções Sobre Vital Santos

A complexidade da figura de Vital Santos transparece nas vozes daqueles que o acompanharam de perto, revelando um artista de gênio forte e métodos exigentes. Gilberto Brito, que estreou como ator sob a direção de Vital em 1974, embora o reconheça como um “mestre”, não poupa palavras ao descrevê-lo como um “homem de muita vaidade, ególatra e centralizador a criar histórias megalomaníacas”. Brito é contundente ao classificar uma remontagem de Rua do Lixo, 24 por Vital, nos anos 90, como “desastrosa, já sem o vigor e o impacto de suas realizações passadas”.

Sebastião Alves, o Mestre Sebá, cuja própria história de vida inspirou a peça Olha Pro Céu, Meu Amor e que até hoje mantém vivo o legado de Vital, descreve o diretor como “perfeccionista e exigente”. Embora reconheça o “cuidado que mantinha com seus espetáculos”, Sebá aponta que “muitos da equipe não gostavam” das “mudanças constantes que [ele] fazia na cena”, evidenciando que o processo criativo de Vital também gerava atritos e tensões.

Essa mesma intensidade, capaz de encantar e testar limites, foi sentida por Fátima Aguiar. Embora inicialmente “arrebatada pela profusão de criatividade cênica” de obras como O Sol Feriu a Terra e a Chaga se Alastrou, ela vivenciou o “lado difícil de convivência” e o perfeccionismo exaustivo de Vital. Fátima descreve a estreia de Auto das Sete Luas de Barro como “complicada” e a relação em Concerto Para Virgulino Sem Orquestracomo “bastante desgastada”, culminando em um “duro golpe” quando Vital levou a montagem ao Rio de Janeiro sem o elenco original. Ela lembra que O Príncipe dos Mares de Olinda“resultou num certo fracasso” de público. Apesar das dificuldades, isso não “invalida a admiração que tenho pelas suas criações”, ressalva Fátima.

Já Samuel Santos, que encontrou em Vital sua “universidade” e “teatro escola”, destaca o “perfeccionismo” e a forma como Vital “primava pela coordenação poética da cena”, dedicando-se a “lapidar, mexer, descobrir a melhor maneira de apresentá-la ao público”. Samuel enfatiza que o trabalho com Vital exigia “desapego com o tempo e estar disponível para as construções e desconstruções das cenas”, ressaltando a ausência de um método formal, mas a presença de uma “forma de construir suas peças com alto grau de interesse a cada cena”.

Consagração e Controvérsia

Auto das Sete Luas de Barro. Sebá como Vitalino

Entre as 17 obras resgatadas, duas sempre se destacaram pela intensidade de sua recepção, uma pela aclamação unânime e a outra pela polêmica gerada. Auto das Sete Luas de Barro é, sem dúvida, a obra que catapultou Vital Santos ao patamar dos grandes nomes do teatro brasileiro. Reconhecida como uma “fantasia dramática e musical”, a peça narra a vida do Mestre Vitalino, o célebre ceramista de Caruaru, e, por extensão, a luta e o sofrimento dos artistas populares do Nordeste.

Minhas lembranças dessa obra são vívidas. Ela não apenas conquistou a crítica, mas arrebatou o público por onde passou. O crítico Yan Michalski, do Jornal do Brasil, elogiou-a efusivamente, chamando-a de “um barro que vale ouro” e destacando sua “absoluta originalidade no conteúdo e na forma”. Ele ressaltou a capacidade de Vital Santos de combinar a “inspiração de velhas tradições populares do Nordeste, a preocupação com os contrastes e conflitos sociais que afligem a região hoje em dia, e uma inventiva cênica capaz de sensibilizar o público de qualquer região do país”. A forma como os atores se transformavam em bonecos de barro, imitando as cerâmicas de Vitalino, foi particularmente celebrada por sua “inusitada beleza formal”.

Outros críticos, como Clóvis Garcia (O Estado de S. Paulo), a consideraram uma obra excepcional por sua capacidade de unir uma apresentação cênica bem realizada com uma poderosa mensagem social, denunciando a exploração dos artistas populares sem cair no “lixo cenográfico”. Carmelinda Guimarães (A Tribuna) a classificou como a “grande revelação” do Projeto Mambembão, um espetáculo de “elevado nível profissional” e “grande beleza estética”.

O reconhecimento se materializou em importantes premiações, como o Troféu Mambembe (melhor diretor para Vital Santos e categoria especial para o Grupo Folguedo de Arte Popular), o Prêmio Molière (melhor diretor) e o Prêmio APCA (categoria especial) em 1980. A peça foi um divisor de águas, mostrando a força do teatro vindo do interior do país. Mesmo décadas depois, como eu destaquei no Diario de Pernambuco em 1993, a obra “ainda comove a quem o assiste” e se mantém atual, sendo uma “pequena obra-prima” que aborda a odisseia dos artesãos populares e suas dificuldades. O texto continua sendo levado à cena por grupos, incluindo a atual Companhia Feira de Teatro Popular, de Caruaru, provando a perenidade de seu impacto.

A adaptação de Vital Santos para a clássica tragédia de Shakespeare, Uma Canção Para Othello, chamou a atenção não apenas por sua audácia em transpor o drama para o cenário pernambucano, especificamente a comunidade de pescadores de Brasília Teimosa, mas também pela intensa polêmica que a cercou.

A peça, escrita em parceria com Antônio Guinho, narra a história de Othello, um líder negro do Maracatu Agulha de Prata e presidente da Associação de Moradores, que se apaixona por Desdêmona, filha de um racista Brabâncio. A inveja de Tiago, um falso amigo de Othello, tece uma trama de desconfiança e traição que culmina em tragédia. A obra mescla a cultura popular nordestina – Maracatu, palafitas, o mar revolto personificado – com referências shakespearianas, incluindo a introdução do próprio Shakespeare como um anjo no Cemitério dos Ingleses e as bruxas de Macbeth transformadas em mães de santo.

Contudo, a produção desta obra foi marcada por “inúmeros problemas” e uma “dor de cabeça” significativa para Vital Santos. A parceria entre Vital e Antônio Guinho, embora iniciada com um prêmio de Incentivo à Dramaturgia do Ministério da Cultura em 1996, deteriorou-se. A estreia original no Recife, em 1999, foi adiada, e uma segunda montagem em Caruaru, com um elenco mesclado de atores do Recife e da Companhia Feira de Teatro Popular, teve sua carreira “interrompida bruscamente por conta de ameaças de processo judicial”.

O estopim da polêmica foi a disputa sobre a autoria, com Guinho alegando ter escrito 90% do texto e sentindo-se desrespeitado pela forma como a obra era creditada. Segundo fontes, a menção de “coautoria” em Caruaru foi a gota d’água, levando Guinho a impedir uma récita no Recife por meio de um oficial de Justiça e a ameaçar Vital com um processo legal. Essa disputa resultou em um “rompimento da amizade que não se refez” e, como a filha de Vital Santos, Isabela Sobral, confirmou, gerou execuções fiscais que “deram muita dor de cabeça à família, até mesmo depois da morte dele”.

Apesar dos problemas, a obra teve um impacto notável. O próprio Leidson Ferraz  (escrevendo para a revista eletrônica @ponte) e outros críticos à época reconheceram a audácia da adaptação e a beleza do simples na encenação, com a “cara, a cor e o som do Recife”. Anos depois, em 2012, Vital Santos assinou sozinho uma versão da peça, Canção Para Othello, encenada em Santos/SP, sob a direção de Tanah Corrêa, o que sugere uma reescrita ou reivindicação total da autoria após a polêmica.

Rua do Lixo, 24, de 1976

Um dos principais objetivos da coleção é estimular novas montagens das obras de Vital Santos em todo o país. Quase todas musicais (e muitas inéditas em livro até agora), as peças poderão ser encenadas gratuitamente por grupos amadores, escolas e universidades, desde que a estreia seja comunicada à filha do artista, detentora dos direitos autorais. Então, a coleção abre novas portas para a perpetuação de um legado que, como diz Leidson, “merecia ter sua trajetória de vida artística e parte das suas inesquecíveis peças registradas em livro, como ele bem queria. Do povo para o povo”.

Embora Vital Santos já seja reconhecido nacionalmente, Ferraz acredita que o projeto amplia ainda mais a presença de seu nome no imaginário teatral brasileiro. “Há peças dele que considero verdadeiras obras-primas. Elas merecem novos olhares, novas encenações”, afirma. “Espero que os livros despertem o interesse pelas escritas e pelas montagens de Vital, que instiguem outros artistas a dialogar com essa obra. Quem sabe, assim, ele continue sendo sempre uma referência para quem pensa um teatro musical genuinamente brasileiro – algo pelo qual ele lutou a vida inteira.”

Os eventos de lançamento prometem ser uma verdadeira confraternização da turma do teatro pernambucano, com a participação de DJs, cenas de Auto das Sete Luas de Barro pela Companhia Feira de Teatro Popular, e a presença de tradutoras de Libras para inclusão da comunidade surda. Em Caruaru, a renda da venda dos livros será revertida para a manutenção do Theatro Mamusebá, capitaneado pelo Mestre Sebá, evidenciando o compromisso do projeto com a sustentabilidade da cultura local.

Esta é a oportunidade de conhecer a profundidade, o humor, a poesia e a relevância social da obra de Vital Santos, um artista que, com sua inventividade, continua a inspirar e a enriquecer o cenário cultural do Brasil.

O Universo Dramatúrgico:
As 17 Peças Publicadas

A coleção, que totaliza 848 páginas e quase 200 fotografias raras, oferece um panorama completo da produção de Vital Santos:

Auto das Sete Luas de Barro (1979): Obra-prima sobre Mestre Vitalino que catapultou Vital ao patamar nacional. Fantasia dramática e musical sobre a exploração dos artistas populares do Nordeste.

A Noite dos Tambores Silenciosos (1981): Musical nordestino sobre lutas camponesas pós-1964. Segue Cravo Branco, exilado que retorna a Olinda delirando entre lembranças da repressão.

Olha Pro Céu, Meu Amor (1983): “Ópera circense” sobre compositor de Caruaru que vai ao Rio sonhando ter músicas gravadas por Roberto Carlos. Explora desafios dos migrantes nordestinos.

Concerto Para Virgulino Sem Orquestra (1994): “Ópera cordel” que estabelece paralelos entre Jesus Cristo e Lampião, retratando volta do cangaceiro para salvar o povo nordestino.

No Fim do Beco há um Bosque (1994): Drama político em favela brasileira. Luta por espaço digno em meio à miséria urbana, buscando esperança através da organização coletiva.

Cantigas do Sol – Dom Quixote de Cordel (2009): “Cantata popular” usando Luiz Gonzaga como fio condutor para crítica da política da seca no Nordeste.

As Proezas do Rei Saul na Terra de Caruaru (2007): “Ópera baião” farsesca em reino medieval fictício, narrada por cordelista.

O Príncipe dos Mares de Olinda Contra a Fúria das Águas (1997): Única obra infantojuvenil, alegoria sobre preservação cultural criticando degradação de Olinda.

Uma Canção Para Othello (1996): Adaptação audaciosa de Shakespeare para Brasília Teimosa, transformando Othello em líder de maracatu.

Feira de Caruaru (1968): Retrato da cidade natal que causou alvoroço no município, marco na carreira de Vital.

Rua do Lixo, 24 (1969): Montagem icônica sobre condições precárias urbanas que deu origem ao Grupo Feira de Teatro Popular.

A Menor Pausa: Peça dos “áureos tempos” que consolidou Vital como dramaturgo.

A Árvore dos Mamulengos: Demonstra conexão com tradições populares nordestinas e teatro de bonecos.

O Sol Feriu a Terra e a Chaga se Alastrou: Obra de grande criatividade cênica abordando sofrimento nordestino com linguagem poética.

Solte o Boi na Rua: Texto que marcou início de Mestre Sebá no teatro.

Aparição e Vagabundo: Peça ensaiada por meses que, paradoxalmente, “sequer estreou”.

Bom Dia, Carmen Miranda!: Obra inédita incluída na coleção.

SERVIÇO
LANÇAMENTOS DOS LIVROS DRAMATURGIA VITAL

RECIFE

Data: 17 de dezembro de 2025 (quarta-feira), 19h
Local: SESC Santo Amaro (Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro – Recife)
Programação: DJ Vibra + cena da peça Auto das Sete Luas de Barro com a Companhia Feira de Teatro Popular
Acessibilidade: Tradutoras de Libras

CARUARU

Data: 18 de dezembro de 2025 (quinta-feira), 19h
Local: SESC Caruaru Teatro Rui Limeira Rosal (Rua Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru)
Programação: DJ Rudá + cena da peça Auto das Sete Luas de Barro com a Companhia Feira de Teatro Popular
Acessibilidade: Tradutoras de Libras
Especial: Renda da venda dos livros será destinada à manutenção do Theatro Mamusebá
PREÇOS DOS LIVROS: R$ 30 cada volume R$ 50 os dois volumes juntos
REALIZAÇÃO: Funarte
APOIO: SESC/PE
COLABORAÇÃO: Vereadora Cida Pedrosa
PROJETO GRÁFICO: Cláudio Lira
CONTATOS:Leidson Ferraz: E-mail: leidson.ferraz@gmail.com
Instagram: @leidsonferraz
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