Geninha da Rosa Borges faz 100 anos
Viva a atriz!

Atriz Geninha da Rosa Borges. Foto Alexandre Severo

Sempre que perguntam sobre o titulo de “Grande Dama do Teatro Pernambucano” a atriz, diretora, professora Geninha da Rosa Borges costuma responder que essa honraria / qualificação pertence a outra intérprete Diná de Oliveira (1907-1998) esposa do fundador do Teatro de Amadores de Pernambuco, o médico, professor e crítico de arte Valdemar de Oliveira (1900–1977). É um gesto bonito, essa demonstração de humildade. Mas essas coisas correm a revelia do homenageado.

Geninha da Rosa Borges, uma excepcional intérprete brasileira, nasceu no Recife, Pernambuco, onde mora, e nesta terça-feira 21 de julho de 2022 completa 100 anos de vida. É uma façanha. Uma vida cheia de emoções. Os amigos e a família atestam que ela viveu tudo que quis viver, com coragem e alegria.

Filha de um amazonense e de uma carioca, Maria Eugênia Franco de Sá sinalizou desde muito jovem seu talento artístico. Junto com um grupo de moças do Colégio São José, do Recife, apresenta a peça teatral beneficente Noite de Estrelas. O dramaturgo e diretor Valdemar de Oliveira fica fascinado com sua performance e a convida para integrar o grupo, que seria a semente do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP).

O TAP passou a ser a extensão de sua casa, sua escola e seu refugio para treinar altos voos interpretativos.

Em 1941, Geninha protagoniza a montagem Primerose, de Robert de Flers e Gaston de Caillavet, sob a direção de Valdemar de Oliveira, quando é incensada pela critica pernambucana. Em 1946, Geninha se casa com Otávio da Rosa Borges, irmão de Diná de Oliveira e genro de Valdemar de Oliveira.

A artista também cravou sua marca na história do cinema pernambucano. Assinando Geninha Sá, ela protagonizou o elenco de O Coelho Sai, longa-metragem filmado em 1939 e lançado em 1942, dirigido por Newton Paiva e Firmo Neto. Maria Eugênia Franco de Sá da Rosa Borges, tinha à época das gravações 17anos e foi convidada por Firmo Neto.

O Coelho Sai foi o primeiro filme pernambucano sonoro, infelizmente destruído num incêndio. O registro está no livro Dicionário de Filmes Brasileiros, de Antônio Leão da Silva Neto. E eu peguei essa dica de uma matéria do crítico Luiz Joaquim.

Geninha fez pouco cinema, cerca de uma dúzia de produções audiovisuais. Depois de O Coelho Sai, ela voltaria ao set mais de quatro décadas depois, quando integrou o elenco Parahyba Mulher Macho (1983), de Tizuka Yamasaki, rodado no Recife. Conta a lenda que Tizuka teria perguntado: “Você é a Greta Garbo do Nordeste?”.

Atuou também em O Baile Perfumado (1997), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, filme da retomada do cinema pernambucano. E está no elenco dos curtas-metragens O Pedido (1995), de Adelina Pontual, Conceição (2002), de Heitor Dhalia, Nóis Sofre Mais Nóis Goza e A Partida (2002), ambos de Sandra Ribeiro.

Prima do ator Paulo Autran (1922-2007), ela pensou que tinha chegado a hora de trabalharem juntos em A Partida. Mas apesar de interpretar a avó do personagem de Autran quando jovem, eles não contracenaram. Geninha gravou no Recife e Autran em São Paulo. “E ele ainda telefonava para mangar de mim, me chamando de vovó”, lembrou a atriz em uma entrevista.

Faz sua primeira aparição na televisão em 2004, na novela Da Cor do Pecado, de João Emmanuel Carneiro, produzida pela TV Globo. De Carneiro fez ainda o papel de Angelina, na novela A Favorita.

Nasceu para brilhar

Com Sol no signo de Câncer, a zero grau, o que proporciona força e intensidade, Geninha da Rosa Borges ostenta o signo de Leão no meio do céu, no ponto mais alto do horóscopo. Esses dados foram traçados pelo astrólogo Haroldo Barros no dia 11/11/2011. E ele atesta que isso pode explicar a presença de palco, a sensibilidade, assim como a simpatia da atriz e a facilidade de se relacionar com as pessoas.

A Lua domina o mapa da artista, e segundo o astrólogo, é comum para a pessoa com esse tipo de configuração ter uma grande capacidade de viver a magia, o encantamento que a Arte propõe. E, acima de tudo, emocionar.

Mas vamos voltar ao teatro que é seu território por excelência. “Nada pode substituir a emoção de estar no palco, de ser muitas pessoas”, afirmou Geninha tantas vezes.

Geninha da Rosa Borges em Yerma. Foto: Divulgação

O teatro tomou conta da sua vida e ela se multiplicou em muitas mulheres marcantes, nos registros dramáticos e cômicos. O sucesso de Um Sábado em Trinta, de Luiz Marinho, ela atuou em alguns papeis . Fez Adela em A Casa de Bernarda Alba, e a personagem-título Yerma, ambas de Federico Garcia Lorca; Cassilde, em O Peru, de Georges Feydeau; tia Marta em Arsênico e Alfazema, Alaíde em Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues; senhorita Sirelli em A Verdade de Cada Um de Pirandello; Petra em As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Fassbinder.

Mais de 80 personagens ela “encarnou” com garra durante a carreira. Geninha foi dirigida por encenadores brasileiros e estrangeiros, como Bibi Ferreira, Zbigniew Ziembinski, Graça Melo, Flamínio Bollini Cerri Luís de Lima, Valdemar de Oliveira, entre outros. 

Geninha da Rosa Borges defende que teatro é dom. O ator estuda técnicas para ganhar aperfeiçoamento. Se for mesmo assim, ela sempre teve de sobra.

Homenagem

Geninha celebrou o centenário em casa, ao lado da família. Cuidados redobrados devido à pandemia da Covid-19, da gripe e de outras viroses. Mais cedo, ao meio-dia, o escritor pernambucano Marcelino Freire promoveu uma live em sua conta do Instagram para regar a memória e os afetos da atriz. Muitas historias de quem trabalhou com ela, de amigos e admiradores. Sua filha AnaMaria corroborou com com os depoimentos sobre a generosidade, determinação e dedicação. “Minha mãe viveu tudo o que ela sonhou viver”.

Nesta terça-feira, os amigos de Geninha postaram nas redes sociais um selo comemorativo aos 100 anos da artista, que se confunde com a própria história do teatro Pernambuco. Como poucos, dominou tudo do seu ofício, desenvolvido prioritariamente no palco amoroso do TAP.

Parabéns Geninha

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Sete peças, dentre muitas, para ver em São Paulo

 

Manifesto Transpofágico, com Renata Carvalho. Foto Danilo Galvão / Divulgação

Maria de Escócia, com  Kátia Naiane e Bete Dorgam

Kleber Lourenço em Pedreira!

Para quem gosta de teatro, como as Yolandas, São Paulo é um verdadeiro banquete. Muitas opções em vários gêneros, dos espaços mais tradicionais aos alternativos. Escolhemos sete da oferta generosa deste mês de junho. São peças que queremos ver e trazem questões que nos interessam.

Maria de Escócia recua até o século 16 para fazer um debate sobre domínios, duas rainhas, muitos súditos e conspirações para pensar sobre o poder e seus tentáculos.

Da obra homônima de João do Rio, situada no Rio de Janeiro do início do século 20, a Coletiva Rainha Kong busca investe nas questões de gênero para salientar a perseguição da polícia e do estado a determinadas corpas em O Bebê de Tarlatana Rosa.

O solo A Idade da peste, com atuação e direção de Cácia Goulart a partir de texto de Reni Adriano, aborda o racismo e disseca o mal-estar da branquitude 

Um filme de terror de baixo orçamento, de apelo cômico está no centro do espetáculo O Mistério Cinematográfico de Sendras Berloni. Com a peça, Extemporânea explora o potencial artístico do conceito de pós-verdade, falso e dublê.  

A Brava Companhia faz uma crítica contundente ao sistema capitalista em ruínas, com o espetáculo Terra de Matadouros. A montagem é livremente inspirada no texto Santa Joana dos Matadouros, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956).

Com direção de Fábio Resende, o elenco – formado por Ademir de Almeida, Elis Martins, José Adeir, Márcio Rodrigues, Max Raimundo e Paula da Paz –  se reveza na interpretação de dezenas de personagens, na operação técnica e na execução de músicas originais, que são tocadas e cantadas ao vivo.

O espetáculo Manifesto Transpofágico, da atriz Renata Carvalho é dividido em dois momentos: O primeiro é a apresentação do corpo travesti, suas historicidades, “transcestralidade” e as construções que rodeiam corpos trans/travestis. No segundo momento, Carvalho está na plateia e propõe uma conversa com o público expondo questionamentos pessoais e temas como cisgeneridade, passabilidade e perguntas de qualquer ordem.

O movimento que aciona a memória do corpo em Pedreira!, espetáculo de dança de Kleber Lourenço, é ao mesmo tempo pessoal e coletivo. O trabalho dançado sobre existências e ancestralidade tem a mitopóetica de Xangô como ponto de partida para uma releitura que tematiza a relação do homem negro com os territórios em que habita: a cidade, a natureza e suas ações de luta por justiça. 

 

Maria da Escócia – Teatro Cacilda Becker

Maria de Escócia, com Bete Dorgam e Kátia Naiane. Foto: Divulgação

O encontro fictício entre as rainhas Elizabeth I e Mary Stuart ocorre de 17 a 26 de junho (às sextas e aos sábados, às 21h, e aos domingos, às 19h). no Teatro Cacilda Becker. O espetáculo Maria da Escócia discute as relações de poder e os mecanismos de sustentação. Com texto de Fernando Bonassi e direção de Alexandre Brazil, a peça é interpretada por por Bete Dorgam e Kátia Naiane. Maria da Escócia é inspirada no texto Mary Stuart (1800), do alemão Friedrich Schiller.

Elizabeth I precisa lidar com muitas questões para se manter no poder, inclusive mandar cortar a cabeça da prima, Maria, acusada de conspiração. As duas rainhas estão cercadas por homens manipuladores e a mais poderosa das duas não consegue refletir sobre o contexto e exercer a sororidade com a parenta.

 Ficha Técnica
De Fernando Bonassi
Inspirado e baseado na obra Mary Stuart de Friedrich Schiller
Idealização e Direção: Alexandre Brazil
Co-Direção: Cacau Merz
Elenco: Bete Dorgam e Kátia Naiane
Cenário/Cenografia e Adereços: Mateus Fiorentino Nanci e Megamini
Música Original: Dan Maia
Iluminação: Felipe Tchaça
Figurino: Alexandre Brazil
Gola Rufo: Marichilene Artisevskis 
Visagismo: Sergio Gordin e Carmen Silva 
Assistente de Visagismo: Leninha Uckerman
Costura de Figurinos: Judite de Lima, Glória Amaral, Lili Santa Rosa e Maria Lúcia  
Fotografia: Philipp Lavra
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio
Produção Gráfica e Mídias Socias: Felipe Apolo 
Produção Executiva: Escritório das Artes 
Coordenação de Produção: Maurício Inafre
Direção de Produção: Alexandre Brazil
Gestão de Produção: Escritório das Artes
Realização: Alexandre Brazil da Silva – “Este projeto foi contemplado pelo EDITAL DE APOIO A PROJETOS CULTURAIS DESCENTRALIZADOS DE MÚLTIPLAS LINGUAGENS — Secretaria Municipal de Cultura”

Serviço
Maria da Escócia, de Fernando Bonassi
Temporada: 17 a 26 de junho
Às sextas e aos sábados, às 21h, e aos domingos, às 19h.
A estreia é gratuita. 
Teatro Cacilda Becker – Rua Tito, 295, Lapa
Ingressos: R$10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia-entrada)
Vendas online: através do site Sympla e 1 horas antes do início do espetáculo diretamente na bilheteria.
Duração: 60 minutos
Classificação: 14 anos
Capacidade: 198 lugares
 
Encontros:
Dia 19 de junho, às 20h15 – bate-papo com as atrizes;
Dia 25 de junho, às 17h  –  bate-papo sobre a direção artística e o processo do espetáculo com Alexandre Brazil e Cacau Merz;
Dia 25 de junho, às 18h – bate-papo sobre produção e o processo de montagem com Alexandre Brazil e Mauricio Inafre.
 

O Bebê de Tarlatana Rosa – Sesc Pinheiros – Espaço Expositivo (2º andar)

Aleph antialeph, Helena Agalenéa, Jaoa de Mello e Vitinho Rodrigues em O Bebê de Tarlatana Rosa. Foto: Karen Mezza

Livremente inspirado no conto homônimo de João do Rio (1881-1921), O Bebê de Tarlatana Rosa leva dados da vida dos artistas LGBTs em cena para ampliar o debate sobre questões de gênero.

Situada no Rio de Janeiro do início do século 20, a peça fala de um Brasil em fase de transição. Do processo de higienização no centro do Rio de Janeiro, e o enaltecimento de tudo que era europeu, branco e cisgênero.

Coletiva Rainha Kong traça um paralelo com dois Brasis, o do passado e o do presente, para levantar a pergunta dos corpos eleitos e de corpos mirados pela necropolítica.

Ficha Técnica
Direção: Rainha Kong
Dramaturgia: criação coletiva livremente inspirada em texto de João do Rio
Elenco: Aleph antialeph, Helena Agalenéa, Jaoa de Mello, Vitinho Rodrigues
Desenho e operação de luz: Felipe Tchaça
Sonoplastia: Rainha Kong e Nãovenhasemrosto
Operação de som: Nãovenhasemrosto
Arte: Aleph antialeph
Material fotográfico e videográfico: Karen Mezza, Natt Fejfar, Normélia Rodrigues, Thomas BF” e VM Filmes
Produção: RK Produção
Coordenação de produção: Iza Marie Miceli
Assessoria de imprensa: Canal Aberto

SERVIÇO
O Bebê de Tarlatana Rosa
De 16 a 25 de junho de 2022
No dia 16, às 19h, e nos dias 17, 18, 23, 24 e 25, às 20h30
Duração: 60 minutos
Classificação: 14 anos
Local: Sesc Pinheiros – Espaço Expositivo (2º andar) – R. Pais Leme, 195 – Pinheiros
Ingressos: R$30 (inteira), R$15 (meia-entrada) e R$9 (credencial plena), compre aqui ou direto nas bilheterias do Sesc

O Mistério Cinematográfico de Sendras Berloni – Espaço Cultural A Próxima Companhia

O Mistério Cinematográfico de Sendras Berloni, com Alexandre Marchesini e Giovana Telles. Foto: Sue Adur

Em O Mistério Cinematográfico de Sendras Berloni, quatro personagens tentam desvendar o desaparecimento misterioso do dublê Sendras Berloni durante as filmagens do longa-metragem Uma Noite Para Não Esquecer, em 1999. Cada um vai tentar trazer o dublê de volta “aos pedaços”, através da evocação de diferentes partes do seu corpo (rosto, voz, alma e joelhos).

A Cia. Extemporânea Investiga o conceito da pós-verdade com o crescimento das fakes news e da realidade virtual a partir do espetáculo.

Com direção de Ines Bushatsky e dramaturgia conjunta de Bruno Conrado, Clara Martins Hermeto e João Mostazo, a encenação junta as linguagens teatral e cinematográfica.

Ficha técnica
Direção: Ines Bushatsky.
Assistência de direção: João Mostazo.
Dramaturgismo: Bruno Conrado, Clara Martins Hermeto, João Mostazo.
Elenco: Alexandre Marchesini, Débora Gomes Silvério, Giovana Telles, Henrique Natálio.
Participação: Beatriz Silveira e Letícia Calvosa.
Audiovisual: Clara Martins Hermeto, Sue Adur.
Video mapping: Sue Adur. Luz: Francisco Turbiani.
Cenografia e Arte Gráfica: Cenogram.
Produção de vídeo: Cabograma, Extemporânea.
Realização: Extemporânea.

Serviço:
O Mistério Cinematográfico de Sendras Berloni
Temporada de 18 de junho a 3 de julho – Sábados às 21h e domingos 20h.
Duração: 80 min
Ingressos: Inteira: R$40,00; Meia: R$20,00; Ingresso Solidário R$5,00; Ingresso Apoie o Espetáculo R$ 80,00
Classificação etária: 14 anos
Onde: Espaço Cultural A Próxima Companhia: Rua Barão de Campinas, 529 – Campos Elíseos. Capacidade 40 lugares.
Vendas online: https://www.sympla.com.br/ciaextemporanea

Terra de Matadouros – Centro Cultural de Santo Amaro

Terra de Matadouros, com A Brava Companhia. Foto: Jardiel Carvalho / Divulgação

Dirigida e adaptada por Fábio Resende, a peça Terra de Matadouros é livremente inspirada no texto Santa Joana dos Matadouros, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956).

Em cena, aparecem duas tramas se desenrolam na peça. De um lado está um grande industrial da carne enlatada, que inventa artimanhas para prosseguir lucrando diante da crise financeira em Chicago, nos Estados Unidos, dos anos de 1930. Do outro, a ingênua Joana Dark batalha para abrandar o sofrimento dos desempregados e desalentados. 

A montagem cria uma aproximação com o contexto atual do Brasil, considerado um dos maiores produtores de carne do mundo. 

Terra de Matadouros
Ficha Técnica:
Criação: Brava Companhia. 
Texto original: Bertolt Brecht. 
Adaptação:  Fábio Resende, com colaboração de Ademir de Almeida. 
Elenco: Ademir de Almeida, Elis Martins, José Adeir, Márcio Rodrigues, Max Raimundo e Paula da Paz. 
Direção: Fábio Resende. 
Direção de arte, criação e confecção de cenários, adereços e figurinos: Márcio Rodrigues
Assessoria de arte e pintura do cenário: Peu Pereira Direção musical: Max Raimundo. 
Assessoria musical: Lucas Vansconcelos. 
Assessoria vocal: Gleiziane Pinheiro. 
Músicas originais e arranjos: Max Raimundo, Lucas Vasconcelos e Brava Companhia. 
Trilha sonora: Max Raimundo e Lucas Vansconcelos. 
Iluminação: Fábio Resende e Márcio Rodrigues. 
Arte gráfica: Ademir de Almeida e Bora Lá! Agência Popular de Comunicação e Marketing. 
Fotos: Fábio Resende e Jardiel Carvalho. 
Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli. 
Produção: Kátia Alves.

Serviço:
TERRA DE MATADOUROS, COM A BRAVA COMPANHIA
Classificação: 12 anos
Duração: 105 minutos
Ingressos: grátis, são distribuídos uma hora antes de cada apresentação nos teatros. Nas apresentações na rua, basta chegar ao local no horário marcado.
Centro Cultural de Santo Amaro – Avenida João Dias, 822, Santo Amaro
Dia 16 de junho de 2022, quinta-feira (feriado) às 16h e às 19h.
Dia 18 de junho de 2022, sábado, às 20h.
Dia 19 de junho de 2022, domingo, às 18h.

Dias 1º e 3 de julho de 2022 – Sexta às 10h30 e 20h. Domingo às 18h.
Dia 2 de julho de 2022, sábado às 16h30 e às 20h.
Dia 3 de julho de 2022, domingo às 18h.
Apresentações para escolas e grupos: Dias 15, 22, 29 e 30 de junho, às 10h30.

Manifesto Transpofágico – Centro Cultural São Paulo – Sala Jardel Filho

Manifesto Transpofágico, com Renata Carvalho. Foto Danilo Galvão / Divulgação

A atriz, diretora, dramaturga e ativista Renata Carvalho convida, em cena, o público a olhar o seu corpo travesti. A artista fala baixo, pausada e ao microfone para “acalmar os olhos e os ouvidos cisgêneros” ao verem ou ouvirem a palavra travesti, repetida e iluminada diversas vezes, e pergunta: “Alguém quer me tocar?”.

 

No espetáculo Manifesto Transpofágico Renata Carvalho “se veste” com seu próprio corpo para narrar a historicidade da sua corporeidade. Se alimenta da sua “transcestralidade”. Come-a, digere-a. Uma transpofagia. O Corpo Travesti como um experimento, uma cobaia. Um manifesto de um Corpo Travesti. O letreiro pisca TRAVESTI. TRAVESTI. TRAVESTI.

 

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia e atuação: Renata Carvalho
Direção: Luiz Fernando Marques (Lubi)
Luz: Wagner Antônio
Video Art: Cecília Lucchesi
Operação e adaptação de luz: Juliana Augusta
Produção: Rodrigo Fidelis / Corpo Rastreado
Co-produção: Risco Festival, MITsp e Corpo Rastreado.
Difusão: Corpo a Fora e FarOFFa

SERVIÇO
Manifesto Transpofágico
Temporada: De 15 a 19 de junho de 2022
Quarta a sábado, 21h; e domingo, 20h
Ingressos: Grátis
Local: Centro Cultural São Paulo – Sala Jardel Filho
Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso, São Paulo – SP
Capacidade: 321 lugares
Classificação indicativa: 16 anos
Informações: (11) 3397-4002

A idade da peste – Sesc Pinheiros

A Idade da Peste, com Cácia Goulart. Foto de Cacá Bernardes / Divulgação

A Senhora C. assiste ao assassinato do filho da empregada, pela polícia, dentro da sua casa de classe média alta, no espetáculo A idade da peste. Esse fato desencadeia na protagonista um exame de consciência de sua posição e os desejos inconfessados da branquitude. 

O conceito de justiça é convocado, mas a partir de que leis e de que parâmetros? 

A figura branca não se autoelogia “antirracista” nem performa mea culpa ou comiseração. Ela não ostenta o “complexo de Princesa Isabel”. Ela sabe da infâmia do lugar racial que ocupa.

Com texto de Reni Adriano, um dramaturgo negro, e atuação de Cácia Goulart, uma atriz branca, o solo A idade da peste mobiliza e tensiona os marcadores identitários raciais para apontar a perversão da branquitude. Em cartaz até 2 de julho, no Auditório do Sesc Pinheiros.

FICHA TÉCNICA
Texto: RENI ADRIANO
Direção e Atuação: CÁCIA GOULART
Voz OFF: SAMUEL DE ASSIS
Assistente de Direção: INÊS ARANHA
Desenho de Luz: WAGNER PINTO
Música original e Sound Design: MARCELO PELLEGRINI
Cenário e Figurino: CÁCIA GOULART
Colaboradores: JOSÉ GERALDO JR./EDMILSON CORDEIRO
Captação Imagens Vídeo: NELSON KAO
Edição e Videomapping: ANDRÉ GRYNWASK/PRI ARGOUD (Um Cafofo)
Fotos: CACÁ BERNARDES
Operador de Luz: FELIPE MIRANDA
Operador de Som e Vídeo: PEDRO RICCO NOCE
Assessoria de Imprensa: MÁRCIA MARQUES (Canal Aberto)
Produção executiva: JOSÉ GERALDO JR.
Direção de Produção: CÁCIA GOULART
Produção: NÚCLEO CAIXA PRETA da Cooperativa Paulista de Teatro
Realização: SESC

SERVIÇO
A IDADE DA PESTE
Com CÁCIA GOULART
De 9 de Junho a 2 de Julho de 2022.

Quinta, sexta e sábado, às 20h.
Ingressos: R$ 30,00 (inteira), R$ 15,00 (meia-entrada) e R$ 9,00 (credencial plena)
Local: Auditório (3º andar) SESC PINHEIROS (Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo, SP)
Duração: 70 minutos.
Classificação: 16 anos. 
*Informações sobre venda de ingressos no site www.sescsp.org.br
Tel.: 11 3095-9400.

Pedreira – Sesc Belenzinho

Pedreira!, com Kleber Lourenço. Foto: Felipe Sales / Divulgação

 O ator e dançarino Kleber Lourenço explora a dureza e a leveza da pedra como metáfora para investigar os caminhos abertos (e fechados) da justiça. O projeto Pedreira! surgiu em 2019 como pesquisa de criação. Prossegue com as investigações com dança, performance e manifestações culturais afro-diaspóricas.

Pedreira! carrega uma expressão verbal de força. No espetáculo, o artista convoca corpos que que se deslocam em diáspora do terreiro para a cidade, em ações de luta e sobrevivência.

Pedreira! maneja uma confluência de forças: presenças e ausências que se organizam na ação. Xangôs deste tempo cortando o espaço de agora. Dança de evocação.    

Pedreira!, espetáculo de dança, com Kleber Lourenço
Quando: De 17 a 26 de junho; Sextas – sábados às 20h e Domingos às 17h
Onde: Sesc Belenzinho Sala de espetáculos II
Duração: 60 minutos
Ingressos de R$ 12 a R$ 40
classificação etária 16 anos.

Ficha Técnica
Criação, Dramaturgia e Atuação: Kleber Lourenço
Orientação Corporal e Dramatúrgica: Wellington Duarte
Criação de Trilha e Direção Musical: Missionário José
Criação e Operação de luz: Dedê Ferreira
Operação de som: Clevinho Ferreira
Direção de arte (cenografia e figurino): Su Martins
Designer (peças gráficas): Anapê Maich
Fotografias (divulgação): Felipe Sales
Produção executiva: Bia Machado
Redes sociais: Ayla Ketlen
 

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A arte do dissenso sem aniquilar o outro
Crítica do espetáculo ragédia e Perspectiva I – O Prazer de Não Estar de Acordo

Tragédia e Perspectiva tem texto do brasileiro Alexandre Dal Farra e direção do argentino Lisandro Rodríguez. Foto: Guto Muniz

Tragédia e Perspectiva. Foto: Guto Muniz

O título ferveu minha cabeça

                                                                 Tragédia
                                                                                      Perspectiva
                                                                                                               Prazer

–Não estar de acordo. Contestar. Ir de encontro.

– Acordo. convénio entre duas ou mais partes ou uma resolução premeditada de uma ou mais pessoas.

– Negocie suas dívidas.

– Dívida? O que o Brasil deve? A quem? Eu devo pagar?

– Não é esse acordo.

– Que acordo?

– Concordar?

– Harmonia; conciliar.

– Sempre soube que seu desejo era de aniquilar.

– É tudo dissenso!

– Eu sabia, de um jeito ou de outro, a vontade é de destruir.

– Enlouqueceu? Estou te ouvindo. Vendo as grandes palavras sair por bocarra…

– Tá vendo? Estão vendo? Ele não me acolhe. Não diz nenhuma palavra Con-creta!

– Mas você disse que estava com expectativa.

– Eu?

– Falou que o título ferveu sua cabeça?

– É… mas depois congelou. Não consigo pens…

– Isso era expectativa.

– Abaixo a expectativa.

– Vamos dar nomes aos bois!

– Nomes aos bois?… isso é de um filme antigo.

– Antigo? O que é antigo? 30 anos é antigo? 35 anos é antigo?

– Você é antigo…

– Eu não tenho nem 40.

– Quantos anos você tem?

– O que eu já vivi, eu os perdi, não os tenho mais.

– Somos amigos?

– Somos amigos.

– E aquele abraço?

– Não quero.

– Por que não?!

– Não estou com vontade.

(É tanta solidão que… o rejeitado dobra-se sobre si. Bateu na quina aquela dor. O fantasma da psicanálise apareceu, de repente, uma convulsão)

– Gritou-se o escândalo.

– Criou-se o trágico.

– Um rio de lágrimas.

– Convulsão.

– Mas se as palavras não dão conta, para o acerto.

– Depois da solidão extremada, vamos resolver no corpo.

– No corpo-a-corpo.

– Testosterona explodindo.

– Ode à capacidade de sustentar a divergência, vivenciar o desacordo sem a necessidade de aniquilar o outro. Isso se sustenta?

– De tudo um pouco.

– Muito pouco.

– Fica um pouco.

– Do seu asco.

– Isso não tem lógica!!!

– Tem Lacan!

– Impotência do Eu.

– Eu grande Eu pequeno.

– Terreno movediço.

– Gozo… mistura de prazer e insatisfação.

A dramaturgia do espetáculo Tragédia e Perspectiva I – O Prazer de Não Estar de Acordo  me inspirou a escrever esses diálogos cruzados, pensamentos suspensos de um possível encontro. Esse texto meu vai na cola do que percebi do texto do Dal Farra e da encenação do argentino Lisandro Rodríguez.

Aldo Bueno, uma presença forte na peça. Foto; Guto Muniz / Divulgação

Rafael Sousa Silva, Pedro Guilherme (em pé), Aldo Bueno, Flow kountouriotis e Rodrigo Bianchini.  Foto: Guto Muniz

A célula da escola é bem contundente. Foto; Guto Muniz / Divulgação

O espetáculo Tragédia e Perspectiva I – O Prazer de Não Estar de Acordo junta cinco atores. É uma produção da MITsp, com texto do brasileiro Alexandre Dal Farra e direção do argentino Lisandro Rodríguez. O processo criativo ocorreu, em parte, de forma remota durante a pandemia. Dal Farra já disse que a peça está/estava sendo um work in progress. Parece que continua.

Não é evidente o propósito ou o lugar, e qual a relação entre as cinco pessoas, que surgem uma a uma enquanto o diretor toca ao violão uma canção enigmática (quero mesmo dizer enigmática? Ou ambígua?).

O primeiro que chega, Pedro Guilherme, parece que tem um delay na fala e na ação. E isso cria um efeito estranho. Um efeito. Rafael Sousa Silva, o mais magro – que adiante vai pedir um abraço – é o segundo a aparecer. Rodrigo Bianchini, o terceiro. Flow kountouriotis, artista trans masculino, é o quarto. Mas também não tenho certeza dessa ordem.

O quinto é Aldo Bueno, que carrega no corpo tantos zumbis, tantos malandros. Parece que está prestes a dizer “pode ser a gota d’agua”, mas adia. Aldo anda mais lento, tem mais histórias e fala menos. Cria um foco solar em torno de si com o seu quase zombeteiro “não sei”. E por fim canta.  

Dal Farra tenta tirar o discurso direto da polarização e suspende o teor virulento do campo da política dura nas questões das discordâncias. Mas o assunto está lá. É difícil começar, pois a conversa anda em círculos de supostas banalidades – uma garrafa d’água, se é ou não é cerveja.

Ideias são jogadas na roda enquanto os atores trabalham com a propositalmente irritante função de enrolar e desenrolar um pano que será colocado em algum momento numa posição plano infinito.

É difícil expor as engrenagens da faceta totalitária, fugindo dos clichês dos coturnos. Tudo é mais sutil nessa Tragédia e Perspectiva I. Um gesto, uma palavra e o clima muda, as portas fecham, os sentimentos viram.

O recorte é de um microcosmo, um grupo de homens supostamente amigos que fazem um exercício de linguagem. Nesse percurso a linguagem pode ser um bloco monolítico com difíceis passagens ou o voar de uma pluma. Falando sobre (*o quê?), a peça projeta quadros voláteis das variações de atitudes a partir das argumentações. Uma coreografia que se quebra, formando outros desenhos, e outros, e outros, extraindo segregação e consenso.

Ao pôr em cena os atritos, o trabalho levanta que a diferença precisa desses espaços de discórdia para existir, para não sucumbir, não aniquilar o outro, seu próximo.

A célula da escola é dinâmica, cruel, cáustica para projetar tempos de Brasis com tudo que tem de doente dos exploradores da bíblia, dos usuários da bala e do agrogenocidas. Em palavras e gestos, eles fermentam uma atmosfera risível, mas de perspectiva (ou realidade) trágica.

É possível viver em desacordo sem extinguir o outro? Parece que a peça quer sustentar essa possibilidade. Como quero apostar na ampliação dessa vontade. A montagem busca defender esse espaço no meio da guerra.

 

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Até onde somos humanos?
Androide protagoniza espetáculo perturbador
Crítica de Vale da Estranheza

Escritor e dramaturgo alemão Thomas Melle e o seu duplo robô. Foto: Guto Muniz / Divulgação

Na peça-palestra, Melle expõe as intervenções da tecnologia na vida de um homem surdo. Foto Guto Muniz

Já sabemos desde (quando, mesmo?!)… que aquela figura sentada diante da plateia não é humana. Parece, sim. Mas não é. E talvez essa informação tenha motivado alguns de nós a ir conferir de perto. Sabemos que esse espetáculo do grupo alemão Rimini Protokoll é protagonizado por um modelo animatrônico, uma máquina, um robô. Sua não-humanidade é “denunciada” pelo sutil zunido de motores minúsculos, que pode ser notado com seus movimentos de cabeça ou braços; ou na engrenagem exposta atrás de sua cabeça.

“Se você veio aqui para ver um ator, está no lugar errado”, provoca o protagonista de Vale da Estranheza (Uncanny Valley), à certa altura da peça. “Mas se veio para ver algo autêntico, está no lugar errado também.”

Gente é algo autêntico? Cada vez duvido mais disso. As pessoas podem ser bem artificiais e essa ocorrência desliza de forma subterrânea durante toda a peça-palestra. “Eus naturais” versus “eus artificiais”.

Uma das principais atrações da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, Vale da Estranheza, dirigida pelo suíço Stefan Kaegi, aciona as percepções de limites do que é humano, do que é máquina, essas fronteiras embaralhadas entres humanoides e algoritmos. Convoca para reflexões éticas, mesmo que isso não esteja em primeiro plano.

Modelo animatrônico expõe processo de criação. Foto: Guto Muniz / Divulgação

Sentado em uma cadeira está o duplo animatrônico quase perfeito do escritor e dramaturgo alemão Thomas Melle. O Melle real publicou em 2016 um livro em que examina o transtorno maníaco-depressivo, conhecido como bipolaridade, do qual é vítima. Tem ao seu lado um copo d’água, que não bebe, e à frente um laptop da Apple. O outro assunto da palestra é a vida de Alan Turing, o pioneiro cientista da computação. 

O texto e o discurso da peça, de Kaegi e Melle, provocam cortes profundos na percepção do ser humano como centro do universo. Apontam testes em que robôs burlam a segurança e se passam por humanos. E pontuam aproximações com a rotina metódica de tanta gente, que se mostra similar a uma repetição robótica.

A estranheza do título remete ao fenômeno identificado pelo roboticista japonês Masahiro Mori na década de 1970. De que, ao mesmo tempo que fascina, essas máquinas ultrarrealistas geram um desconforto emocional.

A performance salienta o domínio da tecnologia contemporânea nas nossas vidas e as possibilidades abertas de campos de experimentação.

É um programa habilidoso, instigante, diria até poético. Com mobilidade reduzida, o protagonista fica o tempo todo sentado, com uma perna cruzada sobre a outra, movimenta mãos e cabeça e fala muito.  O dinamismo é instalado por outros elementos da cena como luz, som, projeção de vídeo e outros dispositivos.

Humanoide empático e sarcástico. Foto: Guto Muniz / Divugação

Instabilidade emocional

Seguindo essa linha da palestra sobre instabilidade emocional em humanos é possível pensar que a tecnologia provoca esses estados alterados, do fenômeno do título à tensão cotidiana dos algoritmos nas redes sociais, que chegam a determinar as decisões.

O Melle máquina conversa com o público por meio de uma série de imagens e vídeos explorando o processo de sua própria criação. A palestra exibe como o robô foi feito, com o Melle humano submetido a horas de moldagem, um processo claustrofóbico que o dramaturgo intitulou de “Máscara da Morte de Silicone”. 

Ele questiona certezas humanas e isso chega a ser engraçado, pois atua feito um oráculo que devolve enigmas. E um problematizador de éticas.

No seu monólogo denso e sério, com algumas piadinhas no meio, o autômato se mostra empático e sarcástico. No ambiente da apresentação se revela muito mais empático do que muita gente. E mesmo que os cientistas digam que máquinas não pegam doenças e não envelhecem, o algo triste do Melle robô refuta de alguma forma essa ideia.

Dois pontos ficam acesos (em mim) dessa peça depois da saída do teatro. A fragilidade do robô, o que há de falho nele, sua vulnerabilidade, muito mais que o que existe de perfeito, como projeção desse humano imperfeito e bipolar e o que e possível explorar dessa perspectiva. O imponderável, o erro que pode abrir caminhos surpreendentes.

E a presença forte da máquina na cena como experiência teatral. O robô carregado de memória humana. E o teatro acontece.

Ao final aplaudimos o modelo animatrônico que expôs com gestos delicados seu percurso, reforçando a linha tênue do que é ficção. Inquirindo o que nos diferencia do robô. O Melle máquina não agradece e a equipe técnica que faz a coisa toda acontecer continua nos bastidores. Enquanto isso, os espectadores curiosos tentam pegar mais uma lasquinha do humanoide, com fotos para suas redes sociais.  

 

 

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Todo texto é salvo quando é lido
Resenha da leitura dramática A Pedra do Navio
Por Sidney Rocha*

João Augusto Lira, Márcia Luz e Paulo de Pontes. Foto: Alexandre Sampaio / Divulgação

Atores leem peça de João Denys. Foto: Alexandre Sampaio / Divulgação

O texto e o contexto

João Denys escreveu A Pedra do Navio em 1979. O texto pode ser “lido” em separado, mas faz parte de uma trilogia, do Seridó, e João Denys dedicou boas décadas a esse trabalho.

Em 2007, o texto foi re-escrito e publicado na Antologia do teatro nordestino (Fundação José Augusto) e penso ser sobre essa versão que Conexão 3×4 artes & atos trabalhou a leitura dramatizada, ontem, dia 8 de junho de 2022, no Teatro Luiz Mendonça, no Recife.

Em 1979, ainda sob a ditadura, era comum, só a um passo a menos do obrigatório, no Nordeste, o texto teatral ter algo das teorias de Bertolt Brecht ou do cinema de Glauber Rocha. Da estética da seca e da fome. A Pedra do Navio se ancorava nessas vozes, tanto quanto em teorias marxistas, comunistas, sertanistas, bem ou mal digeridas por quem as encenasse ou assistisse, além de ainda ventilar um pouco da estética do romance de 30 e do modernismo que, de algum modo, terminaram por paradoxalmente atrasar a modernização do palco no Brasil.

O texto é, portanto, seu próprio contexto. Onde certo datismo não o reduz. Talvez o didatismo, a estética da manifestação, sim.

Vivia-se por aqui, na literatura, no cinema, no teatro, (não sei na pintura, mas logo falaremos dela) o máximo da ideia tosca do “resgate” cultural.

Mas, nesse ponto dos “ares de manifesto”, expressão de Alfredo Bosi, o teatro vence a literatura daqueles fins dos anos 1970, onde há bons textos, porém a dramaturgia teatral dessa época, no Nordeste, é menos ensaística ou retórica.

Vemos, hoje, de novo, um descambo dessa literatura para o discurso. O discurso pelo discurso. De novo com exceções.

Pois bem: A Pedra do Navio é mais social que sociológico. No texto, o nordestino deixa de ser resultado de um determinismo biológico, algo eugenista, para ser definido, e isso também significa “reduzido”, por um determinismo social. Eis o drama.

Já a trama começa quando um ônibus atropela a procissão de Nossa Senhora, lá em Currais Novos. Está montada em tipos populares como beatas, pedintes-pidões cegos, pagadores de promessas, padres interesseiros, crentes, viúvas, trabalhadores, príncipes e princesas do sertão mágico.

Pode-se pensar que o dramaturgo buscou criar uma atmosfera geral para contar o verdadeiro mundo dos trabalhadores, do povo oprimido por Deus e pelos “desembargadores” do capitalismo, sob a alegoria da conscientização. Pensar numa urdidura dessas salvará o texto. Mas o texto não precisa de nossas senhoras nem de salvação.

A leitura é sempre aberta. Todo texto é salvo, e só é salvo, quando é lido. O resto é opinião.

Em A Pedra do Navio faltam personagens mais definidos. E o dramaturgo sabe criá-los. Mas, e não preciso defender o texto, Denys talvez tenha preferido essa ideia mais diluída, de personagens como uma hidrameba. Ou esses tipos se escondem nas coxias de seus dramas particulares para poder melhor aparecer a viúva Teodora, heroína morta a tiros pelos donos da mineradora e, depois, tomada por santa pelo povo, outro tópos do imaginário nordestino.

Aqui há nome a se considerar no contexto, que o Conexão 3×4… pode ressuscitar em suas leituras dramatizadas: o paraibano Altimar Pimentel. Ele escreveu a peça Flor do campo, encenada em 1987. O texto traz relações claras com o assassinato da líder sindical Margarida Maria Alves, também por um tiro, por conta de sua luta pela reforma agrária, ao lado dos trabalhadores do campo. Esse feminicídio ocorreu em 1983. João Denys, como poeta, foi aí, portanto, algo profético com sua Teodora?

Rinaldo Silva, Márcia Luz, Breno Melo Paulo de Pontes, João Augusto Lira e Jeims Duarte 

A leitura

Em Conexão 3×4: artes e atos, as atrizes Augusta Ferraz e Márcia Luz e os atores João Augusto Lira e Paulo de Pontes montaram leituras dramatizadas, no Recife. Dali surgiram As Cadeiras, de Ionesco, de A História do Zoológico de Edward Albee, Fala Baixo Senão Eu Grito de Leilah Assumpção a essa A Pedra do Navio, de João Denys. Em todos, a meu ver, outra conexão, algo que me interessa muito: o teatro de texto.

Outras relações: o zoo do norte-americano Albee e as cadeiras do romeno-francês Ionesco são do tutano do Teatro do Absurdo, coisa do fim dos anos 1950. Fala baixo…, da paulista Leilah Assumpção, tem o tom confessional, íntimo, talvez mais ao gênero pictórico chamado de conversação, no drama de duas personagens (como ocorre também em As Cadeiras).

E, então vem A Pedra…, do potiguar João Denys, o mais coletivo deles. E, penso, o mais difícil de se “ler”. João Denys, diretor e cenógrafo, constrói sua cena a partir de luz e cenário muito peculiares. As cenas têm interrupções bem arbitrárias. Algumas ocorrem simultaneamente. A estrutura do texto lembra a montagem e linguagem do cinema, com indicações de luz, cortes, fade out, fade in, split screen.

Por isso, flora e zoo de João Denys exigem mais do elenco: leitores & leitoras.

O segredo da leitura (branca, dramatizada) é sempre o tom. Pouca gente saber ler bem um texto. No teatro, quando a leitura dramatizada faz brilhar mais a dramatização que o texto ele-mesmo, isso pode ser um problema, a depender da exigência da plateia.

Por conta dessa estrutura do texto, do grande número de personagens vividos por três vozes no palco, das simultaneidades, das características dos personagens, repito: tipos, em A Pedra…, o elenco teve de se esforçar muito para esses tipos não descambarem ao mundo da caricatura, especialmente na cena da feira.

Em apresentações assim, o improviso pode se tornar um pesadelo.

E se o elenco se deixar enganar pela reação da plateia, fica sujeito a aumentar mais ainda o tom e exagerar na dramatização e, daí, para a caricaturização é um passo. Nas falas-rezas, nos trechos chupados das missas e das ave-marias, faltou melhor afinação e o uníssono funcionaria mais.

Em alguns momentos, numa das velhas de Lira, no cordelista e no americano (com sotaque algo turco), de Paulo, e na Teodora e sua boneca, de Márcia, isso se pré-anuncia.

Porém, o espetáculo tem rigor próprio, atores e atrizes têm muita estrada e conseguem estabelecer essa conexão do autor com seu texto, do texto com o ouvinte e a direção respeita cada uma dessas dicções. Não vi as outras leituras, embora conheça o texto de maioria, mas esse comentário servirá para as demais experiências dessa temporada de Conexão 3×4…, creio.

E sei que João Denys gostaria de ter visto a apresentação.

O extratexto: a imagem

Esses vários intradiscursos, intratextos, intercontextos, digamos, contribuem para justificar a intenção do grupo em ligar textos e imagens, que são discursos, também. A filósofa, psicanalista, feminista Julia Kristeva já disse bem: “Todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto.”

Uma leitura é uma transformação, antes de tudo. E absorção. Ler é abstrair, adicionar e subtrair.

O Conexão 3×4: artes e atos trouxe obras de Rinaldo Silva, Breno Melo e Jeims Duarte para o palco. E sua relação com o texto de João Denys é precisa como um GPS. Elas criam um tipo de cenografia fantasmagórica para o espetáculo. Isso é bom.

O artista e escritor Breno Melo termina por nos apresentar uma tela onde se desfiguram personagens dos Currais Novos (bem velhos) do mundo. Não sei se foi a intenção, mas a pintura de Breno Melo me fez apontar para as figuras de Vicente do Rego Monteiro e me fez projetar no tempo Retirantes, o quadro de Candido Portinari. Se aquelas figuras de Portinari têm um futuro, ele está na esqueletaria pintada por Breno Melo. A “cena” se conecta bem com o contexto da peça, dos mineradores, dos explorados, do povo, que o poder atropela todos os dias.

Rinaldo Silva se apossa do verde-amarelo para sua bandeira sangrada à faca e pisoteada de coturnos para se ligar ao texto justo nos momentos de intenções políticas mais claras, quando alguém confunde a luta por direitos como “coisa de comunista”, sintoma brasileiro bem atual.

Jeims Duarte, artista e pesquisador, oferece uma atmosfera mais mitológica. Para colocar luzes nas pedintes-cegas da feira, mas também no povo cego e para trazer alguma metáfora com a justiça, o artista apresenta seu desenho Tirésias, personagem também frequente no teatro surrealista, cujo mito tanto está ligado à sexualidade quanto à capacidade de profetizar.

E a peça de João Denys tem algo de profético, no que profetiza e mostra no “Hontem”. Basta ver a relação da tragédia da peça com as tragédias recentes do Recife, das chuvas. Da “realeza” visitando as vítimas. E de como a culpa, aqui e no texto, termina sendo sempre da vítima. 

Foi bom sair de casa para ver a leitura. Ainda estou confuso ao ver os rostos alguns sem máscaras, no teatro real, e me equivoquei com uma fisionomia ou outra.

Ao final, fiquei por ali, sentado, esperando o debate. Mania da minha geração. Talvez a interação entre artes plásticas e artes cênicas pudesse aparecer melhor na voz desses outros leitores, os pintores.

Mas depois notei que o milagre já acontecera. Trazer aquele espetáculo foi essa prova.

Tomo a liberdade, aqui, de ampliar a campanha do pix solidário.

Mande um para a chave 81 999697145, da produção. O valor fica a seu critério.

A temporada se encerrou ontem, mas creia em mim, vale mesmo ainda contribuir com esse trabalho.

* Sidney Rocha é escritor. 

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