Arquivo do Autor: Ivana Moura

Brasil Cena Aberta Ato 2020 pulsa “porque somos fortes e vingativos como o jabuti”

(IN)JUSTIÇA, Companhia de Teatro Heliópolis, mira os meandros do sistema judiciário brasileiro

(IN)JUSTIÇA. Foto: Rick Barneschi / Divulgação

Espetáculo Still Reich, da Focus Cia de Dança. Foto Paula Kossatz / Divulgação

O chão em que se pisa, a possibilidade de ir mais longe é ponto de reflexão de Wood Steps, inspirado na vida nômade, das pessoas que moram no “mundo” e fazem de seus pés as suas casas. Wood Steps é uma das quatro coreografias do espetáculo Still Reich, da Focus Cia de Dança. O trabalho, criado a partir de músicas do compositor norte-americano Steve Reich, com direção de Alex Neoral, está na programação desta terça-feira do Brasil Cena Aberta Ato 2020, que tem versão online transmitida diretamente do Teatro Cacilda Becker.

Também nesta terça-feira, a Companhia de Teatro Heliópolis, com direção de direção de Miguel Rocha, chega forte questionando ‘o que os veredictos não revelam?’, no ensaio cênico, (In)justiça, que mira o sistema jurídico brasileiro. Na peça, o jovem Cerol pratica um crime sem querer. A partir disso, a justiça vira um caleidoscópio, de avaliações praticadas pelo judiciário ou sentenciada pela sociedade.

Essa edição especial está intensa com espetáculos de teatro e dança, encontros entre artistas e curadores internacionais, bate-papos, workshops, apresentação de novos projetos e técnicos de palco e coxia. Além de uma feira de livros online, Página Aberta, com lançamento de livros de artes cênicas e afins. Já está rolando desde hoje até sexta-feira.

O ato tem como slogan a frase “Porque somos fortes e vingativos como o jabuti”, para demonstrar o desejo de toda a cadeia produtiva das artes cênicas de continuar produzindo mesmo depois da parada por conta da pandemia de Covid-19. “Nós, profissionais das artes cênicas, seguimos tateando o desconhecido e engatinhando em modo remoto. Os últimos setes meses aceleraram o processo de imersão virtual do setor, passamos por uma espécie de batismo de choque”, diz Andrea Caruso Saturnino, a idealizadora do Brasil Cena Aberta.

Uma das principais atrações do festival são os encontros entre artistas e programadores internacionais. E um ciclo sobre técnica e tecnologia na construção da cena, workshops, apresentação de novos projetos e outros bate-papos. Todas as atrações que envolvem convidados internacionais terão tradução simultânea.

Quanto aos espetáculos, está agendada a estreia do inédito Ôma, um ex-petáculo, da companhia ultraVioleta_s, que mistura teatro com o universo dos games.

Ao todo são dez espetáculos de dança e sete de teatro, com transmissão online do vídeo via streaming seguida por bate-papos com os artistas. As montagens de dança são: Dilúvio, de Joana Ferraz (o único espetáculo que se apresenta no formato live streaming); R.A.L.E. – Realidade Apropriada Libera Evidência, de Jessé Batista; O QUE MANCHA, de Beatriz Sano e Eduardo Fukushima; Still Reich, da Focus Cia de Dança; Paradoxo, de Zanzibar Vicentino; Desvios tático-estratégicos para sobreviver à vida urbana, do Grupo Três em Cena;  Filhxs – da – Po##@! TODA, do Coletivo Calcâneos; d o l o r e s, de Loretta Pelosi; Titiksha, de Nalini Cia de Dança; e Ägô, de Cristina Moura.

As peças de teatro são: Refúgio, de Alexandre Dal Farra; (In)justiça, da Companhia de Teatro Heliópolis; Manifesto Traspofágico, de Renata Carvalho; Outros, do Grupo Galpão; Desmonte, de Girino; Ôma, um ex-petáculo”, de ultraVioleta_s; e Os uns e os outros, da Cia. Livre de Teatro.

Confira a programação completa em http://www.brasil-cenaaberta.org/

Brasil Cena Aberta Ato 2020
Quando: 2, 3 e 4 de dezembro
Quanto
Para profissionais da área: encontros e apresentação de novos projetos: ): R$35 Inscrição pelos site http://www.brasil-cenaaberta.org/

Workshops profissionais (Gratuitos para profissionais inscritos no evento)
Para público em geral: peças apresentadas online com conversas entre público e artistas custam entre R$10 e R$40 (cada um paga quanto quiser).
Espetáculo Dilúvio (via streaming ao vivo); gratuito no canal de Youtube do Brasil Cena Aberta
Palestras e mesas redondas: aberta a todos no canal de Youtube do Brasil Cena Aberta (gratuito)

Onde: Encontros profissionais, apresentação de novos projetos e workshops: Por streaming (via Zoom).
Espetáculo Dilúvio (no Teatro Cacilda Becker, via streaming ao vivo); gratuito no canal de Youtube do Brasil Cena Aberta
Espetáculos: Por streaming (via Zoom) (de R$ 10 a R$ 40).
Mesas redondas e palestras: canal de YouTube do Brasil Cena Aberta (programação gratuita)
Encontros e lançamentos de livros (programação da feira Página Aberta): canal de YouTube do Brasil Cena Aberta (programação gratuita)

 

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Episódio de censura com atriz trans Renata Carvalho inspira Evangelho Segundo Vera Cruz

Fotomontagem com Elke Falconiere em O Evangelho segundo Vera Cruz, peça pernambucana inspirada em  O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, com Renata Carvalho

Elke Falconiere e Joe Andrade, artistas trans na peça O Evangelho Segundo Vera Cruz. Foto: Ricardo Maciel

Elke Falconiere, Jailton Jr., Dante Olivier, Rodrigo Cavalcanti (abaixado), Joe Andrade. Foto: Ricardo Maciel

Como Jesus Cristo seria recebido neste século 21, se retornasse no corpo de uma travesti? Esse é um dos questionamentos do espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, escrito pela britânica Jo Clifford, e que ganhou uma adaptação no Brasil, traduzida e dirigida por Natalia Malo, com atuação de Renata Carvalho. Desde sua estreia, a peça sofreu uma série de retaliações, incompreensões (principalmente por quem nem assistiu à montagem), boicotes, censuras. Segundo a própria atriz, o episódio mais marcante em sentido negativo ocorreu em 2018, durante a 28ª edição do Festival de Inverno de Garanhuns, no Agreste pernambucano, que, ironicamente, tinha adotado para aquele ano o tema da liberdade.

Esses acontecimentos de censura ao espetáculo da atriz Renata Carvalho são retrabalhados em O Evangelho segundo Vera Cruz, do Teatro de Fronteira, grupo pernambucano que está completando 10 anos. De acordo com Rodrigo Dourado, dramaturgo e diretor do trabalho, a peça é um retrato desse momento político único e uma homenagem. “Como gesto artístico, é também uma ação para reverter essa condição de vulnerabilidade em que são lançadas as vidas LGBTs, mas também de negros, mulheres, e todos os que são alijados de seus direitos básicos”.

A peça é, especialmente, um manifesto pela representatividade, contando com forte presença da comunidade transgênera em seu elenco, com a estreia das atrizes Elke Falconiere, Joe Andrade e do ator Dante Olivier, acompanhados dos atores Rodrigo Cavalcanti e Jailton Jr.

A montagem O Evangelho segundo Vera Cruz está em temporada online por meio da plataforma Zoom, às quintas-feiras, 26/11, 03/12 e 10/12, às 20h. Ao final de cada apresentação, o grupo passa um chapéu virtual, no esquema Pague Quanto Puder, de contribuição livre, por meio de depósito bancário.

Rainha do Céu

Ao contrário de seus detratores, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu imprime um discurso de tolerância, exaltando a centelha divina de TODO ser humano. Defende que amar é uma ação revolucionária e que o perdão é basilar para uma convivência pacífica. Entre distribuição de pão e vinho, a protagonista faz uma reencenação, digamos, “pop” da Última Ceia. Predomina a serenidade no tom, com um linguajar jovial para levar à cena a proposição de que se Jesus regressasse como uma travesti seria novamente crucificado aos 33 anos. Ou menos.

A média de vida de uma pessoa trans é de 35 anos, quando a média do brasileiro chega a 75. De acordo com o Boletim nº 4 de Assassinatos contra travestis e transexuais da Associação Nacional de Transexuais e Travestis (Antra), em 2020, 129 pessoas trans foram assassinadas de janeiro a 31 de agosto no Brasil, o que registra um aumento de 70% em relação a 2019. Entre 2017 e 2020, 436 pessoas trans foram mortas. Em 2019 foram registrados no Brasil 124 assassinatos de pessoas transsexuais, o que dá uma média de um homicídio a cada três dias, segundo o levantamento. É um genocídio, com a mão ou conivência do Estado.

A peça já havia sido censurada em Jundiaí, no interior paulista, no Rio de Janeiro e em Salvador. E foi boicotada em muitos outros lugares. No interior de Pernambuco, o golpe foi duro. O espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu foi convidado pela curadoria do Festival de Inverno de Garanhuns, retirado do festival, reinserido, apresentado na garra e apartado da programação. Cenário de intransigência cultural, “trapalhadas” políticas, e demonstrações de reacionarismo.

A atriz Renata Carvalho enfrentou um calvário de intolerância, cujo ápice ocorreu em 27 de julho de 2018, o que ela considera o “episódio de censura mais violento” que já viveu, com ação de boicote do festival, oficiais de justiça e até a explosão de uma bomba caseira no local da apresentação, numa noite tensa e chuvosa.

Repúdio de líderes religiosos. Mandado de segurança. Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns e Região. Tribunal de Justiça de Pernambuco cede à pressão da igreja. Liminar proíbe apresentação da peça. Desembargadores dão decisão favorável à (re)inclusão do espetáculo no FIG. Secretaria de Cultura e Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco sustentam exclusão.

Esse episódio todo foi de um desrespeito muito grande. Foi a transfobia institucionalizada. Claro, toda censura agride, como aconteceu em Salvador, em Jundiaí e até no Rio de Janeiro. Mas essa de Garanhuns foi sem dúvidas a mais violenta que nós já sofremos com a peça.
Renata Carvalho, ao The Intercept_Brasil

O dramaturgo e diretor Rodrigo Dourado acompanhou de perto toda essa movimentação. “A questão se converteu num problema político eleitoral, pois prefeito (Izaías Regis) e governador (Paulo Câmara) pertencem a polos opostos do espectro político”, pontua. Dourado integrou o grupo de agentes culturais que fez uma mobilização para que Rainha do Céu fosse apresentada, de forma independente da programação do FiG. “Após inúmeras ameaças e conflitos, Renata Carvalho decidiu realizar a performance mesmo desprovida de todos os aparatos técnicos, contando para isso com o apoio da plateia que desejava vê-la em cena”.

Rodrigo avalia que aquele episódio emoldurou duas energias morais e políticas muito fortes que têm se antagonizado no Brasil. “De um lado, um conservadorismo neofascista e censório, que deseja apagar formas de vida e de expressão não normativas. De outro, movimentos civis que resistem à onda reacionária e exigem seu direito à existência e à cidadania”.

A própria Renata Carvalho alertou à época que aquele não era um caso isolado direcionado contra uma artista trans, mas a demonstração de que a censura estava colocando suas garras para fora.

Dito e feito. Os discursos de ódio e intolerância foram contemplados nas urnas de 2018 e posições conservadoras, reacionárias mostram um orgulho de discriminar o outro – seu dessemelhante.

Entrevista // Rodrigo Dourado, dramaturgo e encenador

Rodrigo Dourado. Foto: Ricardo Maciel / Divulgação

Quais as motivações para erguer O Evangelho segundo Vera Cruz? E durante a pandemia não ficou mais difícil?
Nesse período de 2020, a gente tinha programada uma série de ações para comemorar os 10 anos do Teatro de Fronteira. Precisamos rever tudo. A partir de março, fizemos a primeira temporada de Luzir é Negro!, que era a primeira ação e a temporada já foi bastante prejudicada pela quarentena. O público já foi bem baixo. Então, a gente aprovou várias ações em editais emergenciais como o Arte como Respiro, do Itaú Cultural, Cultura em Rede, do SESC Pernambuco, e o ConVida, do SESC Nacional. O Evangelho Segundo Vera Cruz foi a ação apoiada pelo Cultura em Rede, do SESC de Pernambuco. Esse texto, que tinha sido escrito por mim em 2019, estava engavetado, não tinha sido montado nem publicado e decidimos submeter ao edital.  Quando foi aprovado, começamos o trabalho de montagem no formato online. No início, sim, foi muito difícil a adaptação às plataformas online. A gente não sabia muito bem lidar com tudo aquilo. Foi um aprendizado enorme, porque além da tecnologia em si, quer dizer, os recursos que a plataforma tem, a gente tinha situações de acesso à internet muito diversas, realidades sociais muito diversas dentro do elenco. Precisamos criar uma harmonia, uma unidade entre essas situações, para chegar a um ponto mínimo, ter um denominador comum que nos permitisse uma qualidade mínima de transmissão e a utilização dos recursos da plataforma.
Mas, eu não posso dizer que foi mais difícil do que montar um espetáculo presencialmente. Teve as suas especificidades, mas o processo em si, o tempo, a quantidade de ensaios, a pesquisa, o trabalho de ator, as descobertas da encenação, tudo isso é muito parecido com formato presencial. O que muda somente é o meio.

A peça recria os episódios de censura sofridos pela atriz Renata Carvalho com seu espetáculo, no ano de 2018, na cidade de Garanhuns/PE. Como é feita essa recriação? Quais aspectos são destacados na peça?
Eu participei daquele movimento que levou a peça a Garanhuns, junto com várias outras pessoas. Eu fui observador e, desde aquele momento, quando estávamos ainda inseridos nele, vivendo, eu já sentia essa teatralidade pulsante de tudo que estava acontecendo. O debate público que o teatro estava gerando, os conflitos sociais, no sentido dos estudos da performance um certo ‘Drama Social’ que o espetáculo estava ocasionando. Então, já me parecia tudo muito teatral: a sociedade garanhuense, pernambucana, discutindo nas ruas esse tema; o coro público, a voz das ruas, o teatro midiático que foi feito em cima disso nas redes sociais, na imprensa; os shows na Praça Guadalajara e as provocações nos shows; todos esses elementos foram trazidos de alguma forma para dentro da dramaturgia. É uma dramaturgia que transita bastante entre o épico, o narrativo, as formas mais populares de narrar, personagens-tipo, a gente tem também uma citação ao mamulengo numa determinada cena. E tem seus traços dramáticos, porque na peça existe um conflito paralelo ao conflito público que estava acontecendo, que é a história de um casal LGBT formado por um homem cis e um homem trans, da cidade de Garanhuns, e que estão na linha de frente do movimento que levou a peça à cidade. E também tentamos, de alguma forma, nos aproximar da história de vida da Renata, das questões da atriz. Então, tem uma questão da intimidade da Renata que é recriada. Agora tudo isso com alguma liberdade artística. Não temos um compromisso factual 100%. A gente recria algumas coisas, poetiza algumas coisas; dramaturgicamente eu posso dizer que o arranjo é esse.

Renata Carvalho participou de alguma das apresentações? Como ela recebeu a iniciativa da peça?
Nesta versão da peça, atual, que é a terceira, Renata participa fazendo uma voz em off, uma locução de um trecho da peça. Mas também há vários depoimentos dela que foram resgatados da Imprensa e utilizados na peça. Ela não assistiu à peça ainda, mas tem acompanhado o processo. Leu o texto, fez sugestões, críticas e junto com o elenco trans a gente foi debatendo, discutindo, confrontando aspectos da dramaturgia para que, de alguma forma, ficasse mais justa e mais fidedigna à experiência de vida trans, já que eu sou um homem cis escrevendo sobre essas experiências. Então Renata esteve sempre no suporte, no apoio a todo esse processo, mas ela não assistiu à peça ainda.

Para quem não acompanhou esse episódio, você poderia falar sucintamente do caso de censura à peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, com Renata Carvalho, em Garanhuns, em 2018?
A peça foi escalada para a programação do Festival de Inverno de Garanhuns, em 2018, pela curadoria da Fundarpe/Secult/PE. Assim que a programação foi anunciada pela imprensa, o prefeito da cidade, Izaías Regis, foi aos meios de comunicação anunciar que não aceitaria receber a montagem, alegando que a cidade era cristã e que, supostamente, o trabalho feriria a comunidade local por trazer uma travesti na personagem de Jesus Cristo. Vários veículos de imprensa da cidade apoiaram o prefeito, que, na sequência, recebeu ainda apoio do bispo local e de representantes da comunidade evangélica. O Governador Paulo Câmara e a Fundarpe, a princípio, sustentaram que a peça se manteria na programação e que, uma vez proibido pelo prefeito o uso do teatro municipal (Luiz Souto Dourado), buscariam apoio de outras entidades para acolher a encenação. A questão se converteu num problema político eleitoral, pois prefeito e governador pertencem a polos opostos do espectro político e o governador buscava a reeleição. Logo, o prefeito passou a fazer uso eleitoral do episódio a fim de desgastar a imagem do governador. Com o apoio da bancada evangélica no Assembleia Legislativa, ameaçando mobilizar seu rebanho contra o governador, não demorou muito para que Paulo Câmara recuasse de sua decisão, anunciando que a peça tinha sido excluída da programação. Rapidamente, um grupo de agentes da sociedade civil mobilizou-se e empreendeu um movimento para arrecadar fundos e levar a peça à cidade de maneira independente. Houve inúmeras ameaças a esse movimento e à própria vida da atriz e a apresentação aconteceu sob forte sigilo. A justiça também foi invocada para impedir a realização da apresentação. Num último instante, a Fundarpe decidiu apoiar o espetáculo, oferecendo infraestrutura técnica de som, luz, etc. Mas uma decisão judicial de última hora foi emitida, após o transcorrer da primeira apresentação, proibindo que a peça se realizasse. Ao receber a notificação, a Fundarpe começou a desmontar toda a infraestrutura que havia disponibilizado, atrapalhando a realização da segunda récita. Após inúmeras ameaças e conflitos, Renata Carvalho decidiu realizar a performance mesmo desprovida de todos os aparatos técnicos, contando para isso com o apoio da plateia que desejava vê-la em cena.

Como observador privilegiado e um dos articuladores da desobediência à ordem esdrúxula dos governantes, quais os sentidos que foram despertados em você naquele momento, e quais sentimentos guarda até hoje?
Para mim, aquele episódio emoldurou duas energias morais e políticas muito fortes que têm se antagonizado no Brasil. De um lado, um conservadorismo neofascista e censório, que deseja apagar formas de vida e de expressão não normativas. De outro, movimentos civis que resistem à onda reacionária e exigem seu direito à existência e à cidadania. Trata-se de um momento histórico do teatro brasileiro do século XXI, porque a peça já havia sido censurada em diversas cidades, mas em nenhum lugar, como em Pernambuco, houve um movimento tão potente de resistência e desobediência ao poder institucionalizado. Em O Evangelho segundo Vera Cruz, eu tomo claramente lado, o lado desses sujeites que escapam aos padrões, dessas vidas dissidentes, já que sou um homem gay que sofreu e sofre na pele os horrores do preconceito e da perseguição aos desviantes. A peça é, portanto, um retrato desse momento político único e uma homenagem a essas vidas precárias. Como gesto artístico, é também uma ação para reverter essa condição de vulnerabilidade em que são lançadas as vidas LGBTs, mas também de negros, mulheres, e todos os que são alijados de seus direitos básicos.

O teatro que é transmitido pelas redes realmente derrubou barreiras geográficas, pois numa mesma apresentação podemos ver gente de várias partes do Brasil e do mundo. Como você (s) percebe (m) a recepção da peça? Dá para fazer um pequeno percurso desde a estreia?
Sobre a recepção à peça: a gente teve duas situações muito diferentes até agora. A gente fez um processo aberto pelo Sesc. Primeiro, realizamos um debate sobre a peça, depois fizemos um ensaio aberto com a exibição de pequenas cenas. Esses dois tiveram uma presença muito boa de público interessado em conhecer um processo teatral, de saber como se desenvolve um processo teatral. Esse aspecto de uma pedagogia mesmo do espectador. E no terceiro momento, no Sesc, a gente teve a apresentação em si da leitura, havia 150 pessoas na sala do Zoom nos assistindo, uma plateia gigante, muito participativa. Ao final, fizemos mais uma linda conversa. Foi muito bonito ver as contribuições, as colaborações, as intervenções, as indagações trazidas por esse público ao longo desse processo todo que a gente viveu no Sesc.
Num segundo momento, a gente apresentou a peça em Guaramiranga, no Festival Nordestino de Teatro. E aí sim, a gente não fez a peça para a plateia no Zoom, retransmitimos o que estávamos fazendo no Zoom pelo YouTube. Então a plateia pôde assistir à peça pelo YouTube e interagiu bastante com a peça via YouTube. Já era uma segunda versão com substituição de atores, com mudança na dramaturgia, com a chegada da Elke Falconieri, a saída de Marconi Bispo. Então, a gente tinha ampliado a representatividade trans do elenco. Foi muito bom fazer essa versão em Guaramiranga, porque no dia seguinte tivemos um debate em que pudemos ouvir os curadores e conhecer as impressões, os apontamentos deles, que também ajudaram a peça a chegar até essa terceira versão, que nós estamos apresentando agora. Agora, a gente tá enfrentando uma dificuldade maior de público, porque estamos fazendo uma temporada com ingressos pagos, com bilheteria. As outras ocasiões foram todas gratuitas, porque a peça já estava comprada, subsidiada – digamos assim – pelas instituições que nos convidaram. Agora é um momento nosso, de uma temporada independente. E aí sim, está sendo mais difícil a chegada desse público. Talvez por conta das dificuldades financeiras, pelo cansaço do formato online, já que a gente está se aproximando do final do ano, várias questões que a gente tem levantado para entender, para compreender essa dificuldade com o público. Mas é quase como se a gente estivesse na forma presencial, enfrentando aquela dificuldade de fazer teatro presencial na base da bilheteria, caçando público, fazendo um esforço gigante para chegar ao público. E só para fazer um complemento, nessas ocasiões todas a gente teve público do Brasil inteiro, Minas, Pará, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, outros estados do Nordeste, Centro-Oeste. É muito bonito ver o movimento do Brasil podendo conferir essas obras nesse formato online.

Gostaria que você falasse do elenco. Houve alterações, ampliação participativa de artistas trans, como se deu isso? E mesmo que pareça óbvio tem coisas que precisam ser reditas, qual a razão das escolhas?
Desde o início, eu como homem cis escrevendo essa peça, tinha convicção de que, primeiro, o texto precisava ser submetido a uma crítica sistemática da comunidade trans. E que a gente precisava ter representatividade no elenco, porque toda a questão que atravessa o debate levantado por Renata diz respeito à representatividade, à presença de corpos e cidadãos/sujeites trans nas peças que trazem narrativas de vida trans. Essa era uma questão central para mim desde o início. A princípio foram convidados Joe Andrade e Dante Olivier, que foram alunos meus na UFPE; a Joe do curso de teatro e o Dante do curso de artes visuais, mas fez comigo uma disciplina que ofereço de “Teatro, Gênero e Sexualidades Dissidentes”. E a gente tinha o elenco do Fronteira, Marconi (Bispo), Rodrigo Cavalcanti e o Jailton Júnior, que também foi meu aluno da Federal e agora integra o Fronteira. Marconi precisou se afastar do grupo e eu imediatamente pensei em convidar a Elke Falconiere, que também foi minha aluna na UFPE, que é uma mulher trans, foi minha orientanda de TCC. E, para ampliar essa representatividade, inclusive, trazendo a Elke para interpretar personagens cis, não só personagens trans. O caminho foi por aí. Para a gente, é fundamental; não faz sentido essa peça existir sem essa presença. Hoje a gente tem maioria trans no elenco, temos três pessoas trans e duas  cis. A presença delas é fundamental. Não só do ponto de vista dessa crítica que elas podem fazer aos conteúdos e às formas da peça, mas sobretudo como uma forma de inserção no mercado artístico, de visibilização do trabalho delas. Está sendo muito importante para nós.

“A montagem é também um gesto criativo diante das dificuldades pandêmicas, uma forma de manter a chama do teatro acesa, explorando para isso os meios virtuais”. Já que o assunto é tocado… quando a pandemia se instalou houve uma discussão sobre se o que é apresentado via internet é teatro ou não. Sem julgamentos de posições, já que estamos num processo de desbravar territórios e rever paradigmas, qual sua avaliação desse momento teatral?
Sobre a questão do teatro online: lá atrás, quando começou a pandemia, mais ou menos em abril, eu escrevi um artigo chamado “Teatros da pandemia: o giro viral”, em que faço uma provocação e um prognóstico de que esse momento iria gerar uma virada de chave no teatro, no sentido de, ao invés do teatro parar e se deparar com uma encruzilhada sem solução – já que não há presença, não há teatro – que caminhos o teatro iria tomar. E de lá para cá, a gente viu que o formato online foi bastante ocupado, foi bastante explorado, está sendo explorado, dilatado. Para mim, já nem é mais uma discussão essa de se o teatro online é teatro ou não. É teatro online. É uma forma que fricciona as formas digitais, as formas audiovisuais, as formas teatrais, mas que claramente se distingue de outras formas audiovisuais e online; se distingue da novela, se distingue do cinema, se distingue da videoarte, se distingue dos canais do YouTube, se distingue das formas digitais como o videogame ou outras mídias digitais, do streaming. Então, acho que tem uma especificidade aí do teatro ocupando esse espaço, que para mim já está muito clara. Além disso, tem uma lida também com os arquivos de teatro. A gente tem muito arquivo de espetáculos gravados, filmados, sendo revisitados e pesquisados e vistos, servindo como material didático, também ocupando um certo espaço dessa experiência presencial do teatro. E um retorno que o público tem nos dado, frequentemente, é que estar no teatro online é como estar no teatro. As pessoas se encontram na plateia, na antessala, no hall. Saber que as pessoas estão ali cria uma noção de convívio, de convivialidade, aquilo que Jorge Dubatti tem chamado de tecnovívio. A gente saiu de um convívio para um tecnovívio. Tem essa precariedade também, do artesanato teatral feito online, então tem improviso, tem jogo, tem as possibilidades infinitas que a internet oferece, que estão sendo explorados, mas também tem a instabilidade da internet que nos obriga a jogar, a improvisar como no teatro.
Tem a sensação do ao vivo, tem o bastidor, que é a casa dos atores. É quase como se as formas tradicionais do teatro, elas tivessem encontrado outras maneiras de ser. Tá tudo lá. A sensação que eu tenho é que está tudo lá. Para mim é um ganho, uma dilatação, é uma expansão das possibilidades do teatro, que não apaga nem dissolve ou desfaz o teatro presencial – que já está retornando em alguns lugares e vai retornar – mas que cria outras outras veredas.

Bem, como anda o teatro pernambucano?
Eta nós! Acho que o teatro pernambucano está vivíssimo como sempre esteve. Acho que a gente tem um movimento na cidade, de teatro grupo, de grupos de jovens. Grupo Bote de Teatro, Grupo Resta 1, Grupo AmarÉ, o Teatro Bordô, Coletivo Despudorado, Grupo Afrocentradas. Acho que o teatro local irremediavelmente está dialogando com as questões raciais, étnicas, com as questões da mulher, com as questões LGBTs, com as questões trans, com as questões periféricas. Nosso teatro está nesse movimento. Acho que a gente tem aí grupos que já tão na maturidade, como Totem, Fiandeiros, Cênicas; o Teatro de Fronteira está chegando aos 10 anos, eu diria que é um adolescente ainda, mas que já tem uma estrada. Então é um teatro que sim, tá vivo, é um teatro que de alguma forma encontrou seus caminhos também pela internet. A gente tem visto experimentos, sejam da Casa Maravilhas, com as suas lives; seja o Grupo O Poste fazendo suas lives e seus experimentos também; a Criative-se Cultural realizou um pioneiro trabalho online por aqui; temos os grupos de teatro como a Fiandeiros e a Cênicas de Repertório mantendo as atividades de ensino. A gente tem o Fronteira aí também experimentando o formato online, não somente como o Evangelho, mas também com o Puro Teatro (Arte Como Respiro), disponibilizando ainda arquivos de suas peças. Hermínia Mendes performando para o Arte como o Respiro; o Coletivo Angu lançando um texto inédito de Marcelino Freire também no Arte como Respiro; a gente teve vários experimentos que foram feitos para o Sesc-PE, como os experimentos de Paulo de Pontes (dirigido por Quiercles Santana), o de Clara Camarotti; a força sertaneja de Odília Nunes vertendo para o online; as Violetas da Aurora clownando para as redes; outras produções de conteúdo pelo Coletivo Grão Comum, Grupo Cênico Calabouço, por meio de diálogos online; um coletivo de artistas pernambucanos, radicados no RJ, encenando Muribeca, de Marcelino Freire (criação de Wellington Jr. Breno Fittipaldi, Reinaldo Patrício); o Magiluth reproduzindo as experiências pioneiras de teatro não-presencial um-a-um que iniciaram sendo feitas na Europa, nos EUA. Cito uma delas em meu artigo, da Cia. La Colline, de Paris. Pode ter inspirado o grupo. Enfim…
Então acho que é um teatro que encontrou seus caminhos também nesse formato online. Eu penso que o nosso teatro é muito contemporâneo, ele está em diálogo com tudo que está acontecendo aí pelo mundo, apesar das dificuldades financeiras e econômicas, que são na verdade uma realidade do Brasil inteiro. Eu acho que a gente continua resistindo e persistindo em fazer teatro.

Qual o seu posicionamento sobres políticas públicas culturais, tanto do Governo do Estado de Pernambuco, quanto da prefeitura do Recife?
Acredito que as políticas públicas para a cultura em Pernambuco e no Recife são já precárias e vêm se precarizando cada vez mais. Ao longo dos oito anos da gestão do prefeito Geraldo Júlio (PSB), houve um desmonte absurdo de diversas políticas culturais, de equipes. Equipamentos culturais foram sucateados, como o Teatro Apolo-Hermilo. Não existe uma política de programação, de fomento à pesquisa de grupos, de formação de plateia. O Parque está sendo entregue agora, às vésperas da eleição. O importantíssimo Festival Recife do Teatro Nacional foi esvaziado. Não houve canal de diálogo com a classe teatral. O SIC foi retomado num formato estranho, priorizando eventos que contam com a participação de membros da prefeitura em suas equipes de criação. Por sua vez, a Fundarpe tem se mostrado incompetente na gestão do Funcultura, com atrasos sistemáticos de prazos, além dos atrasos nos pagamentos de cachês de artistas e a criação de instrumentos sem a escuta da sociedade civil, como no caso do Prêmio Pernalonga. É preciso que haja mais recursos, mais escuta, mais celeridade e que se desenhe, de fato, um Programa Cultural a ser cumprido durante as gestões e não apenas como promessas de campanha. Mais importante: é preciso separar o doméstico do público, entendendo o espectro cultural em sua amplitude, em sua diversidade, e não apenas atendendo às crenças e valores privados dos gestores.

FICHA TÉCNICA || O Evangelho Segundo Vera Cruz
Atuação: Dante Olivier, Elke Falconiere, Jailton Júnior, Joe Andrade y Rodrigo Cavalcanti
Direção e dramaturgia: Rodrigo Dourado
Produção: Rodrigo Cavalcanti
Designer de luz: Natalie Revorêdo (Farol Ateliê da Luz)
Efeitos sonoros: Jailton Júnior
Teasers: Dante Olivier
Registro Fotográfico e Identidade Visual: Ricardo Maciel
Realização: Teatro de Fronteira

Serviço:
O Evangelho Segundo Vera Cruz, do Teatro de Fronteira 
Exibição: Plataforma do Zoom
Quando: Quintas-feiras, às 20h, até 10 de dezembro
Classificação Indicativa: 16 anos
Duração: 70 minutos
Informações: teatrodefronteirape@gmail.com | @teatrodefronteira

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Para percorrer as nervuras do mundo, palestra não acadêmica com Rabih Mroue

Estreia mundial de Antes de cair procure o amparo da sua bengala, do libanês Rabih Mroue ocorre nesta segunda-feira (23), às 19h, em apresentação única e gratuita via YouTube da Complexo Sul. Foto: Bobby Rogers

O trabalho que o diretor de teatro, performer, dramaturgo e artista visual Rabih Mroué desenvolve é simplesmente apaixonante. Se pensarmos em temática ampla, ele vasculha vida e morte. Para quem cresceu atravessado pela experiência da Guerra Civil Libanesa (1975-1990), ele tem muito a questionar. E o artista nos envolve com perguntas ampliadas sobre a representação, o poder das imagens e a natureza subjetiva da história. A política contemporânea do Oriente Médio pulsa nas suas obras, que ardem de dúvidas sobre o estado da humanidade. Suas investigações sobre o estatuto das imagens e sua influência na percepção já levaram esse libanês radicado Beirute a muitos lugares do mundo. Inclusive ao Brasil. Mroué participou da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, em 2017, com três peça Revolução em pixels (2012), Cavalgando nuvens (2013) e Tão pouco tempo (2016).

Rabih Mroué já disse que considera o teatro e as artes como a filosofia, que, talvez, não possam mudar o mundo, mas podem fabricar novas inquietações, inspirações, estímulos a novos debates. A palestra não acadêmica Antes de cair procure o amparo da sua bengala versa sobre arte e esfera pública, o que inclui um instigante diálogo sobre legitimação da arte e dos artistas e esgarça ainda mais os limites entre ficção e realidade. Quais são as fronteiras entre arte e vida quando estas se encontram fora da instituição da arte? Como um objeto de arte perde a sua definição enquanto arte, e se torna um objeto-ameaça? São instigações que desencadeiam e se entrelaçam com outras histórias, como os panfletos de aviso jogados por aviões de guerra estadunidenses em diferentes ocasiões, como os bombardeios a Hiroshima e Nagasaki (1945), a Guerra do Iraque (2003-2011) e a Guerra Civil Libanesa (1975-1990).

Com estreia internacional na Complexo Sul 2020, nesta segunda-feira, 23/11, no canal YouTube do Complexo Duplo (youtube.com/complexoduplo), Antes de cair procure o amparo da sua bengala teve como disparador um incidente que envolveu a polícia de Salzburgo, acionada para deter uma suposta ameaça aos cidadãos numa exposição de Mroué numa galeria na Áustria. A apresentação online ao vivo é em inglês com legendas em português e não ficará gravada. Após a apresentação, segue uma conversa com o artista, com tradução consecutiva, tendo como provocador o crítico de teatro e professor de filosofia Patrick Pessoa e mediação de Daniele Avila Small.

Nesta segunda edição da Complexo Sul, toda online, a reflexão e a experimentação da linguagem da palestra-performance norteiam as atividades deste ano de 2020, em novembro e dezembro.

A primeira parte da programação, ocorreu de 2 a 17 de novembro, no Palco Virtual do Itaú Cultural. A segunda parte da programação segue até 18 de dezembro, no canal do YouTube do Complexo Duplo. Esta edição da Complexo Sul conta com o Itaú Cultural, o Goethe Institut e o Consulado Geral da República Federal da Alemanha no Rio de Janeiro como realizadores.

OUTRAS AÇÕES – OFICINAS

Plataforma de intercâmbio internacional para artistas da cena, a Complexo Sul aposta na incrementação da tarefa criativa na perspectiva de que encenação, dramaturgia e pensamento crítico constituem faces de um mesmo trabalho, intrincados e interdependentes. Do Rio de Janeiro, os diretores artísticos do Complexo Duplo, Felipe Vidal e Daniele Avila Small, associados ao curador e produtor Paulo Mattos, investem em inscrever o Brasil no circuito de ações latino-americanas, para reforçar o diálogo da cultura teatral no continente.

As inscrições para os laboratórios criativos da Complexo Sul 2020 foram prorrogadas e podem ser feitas até o dia 25/11. Cada participante pode se inscrever em apenas um dos laboratórios. Os laboratórios conduzidos por Daniele Avila Small e Felipe Vidal serão realizados em português. A oficina de Andrés Castañeda, em espanhol. Em todos eles, haverá uma monitora presente para colaborar com o intercâmbio entre falantes de português e espanhol. Candidaturas podem ser feitas no site Complexo Sul – Plataforma de Intercâmbio Internacional, complexosul.com.br

Andrés Castañeda, do Mapa Teatro Laboratório de Artistas, da Colômbia. Foto: Reprodução do Facebook

SITIO SPECIFIC, UNA PUESTA ON-LINE
OFICINA ONLINE COM ANDRÉS CASTAÑEDA
Segundas e quartas das 15h às 18h, pelo Zoom
De 07.12.20 a 16.12.20

O artista interdisciplinar, ator, performer e diretor Andrés Castañeda, mestre em Teatro e Artes Vivas pela Universidade Nacional da Colômbia e integrante do Mapa Teatro Laboratório de Artistas, vai investir no site site-specific. Pode ser casa, escritório, rua, automóvel, edifício. O termo se refere a um tipo de trabalho especificamente desenhado para um lugar em particular, no qual se pretende uma interação única com o espaço. O laboratório se propõe a investigar as casas como ambientes de confinamento durante pandemia, numa condição de site specific (o banheiro, a cozinha, o quarto, a janela), para desta vez colocar estes lugares no plano da construção e da criação-poética. O trabalho será desenvolvido a partir dos textos: Espécies de espaços, de George Perec, Corpos dóceis, de Michel Foucault e O livro das passagens, de Walter Benjamin. A oficina será realizada em espanhol, com a presença de uma monitora para colaborar com o intercâmbio entre falantes de português e espanhol
Carga horária: 12 horas
Número máximo de participantes: 10
As inscrições devem ser feitas até o dia 25 de novembro pelo formulário https://forms.gle/W9vXSbypEcXEon327

Daniele Avila Small. Foto: Reprodução do Instagram

MUSEU, TEATRO E HISTÓRIA
LABORATÓRIO CRIATIVO ONLINE COM DANIELE AVILA SMALL
Encontros coletivos às terças e sextas das 10h às 12h, pelo Zoom
De 01.12.20 a 18.12.20
A crítica, pesquisadora e curadora de teatro Daniele Avila Small, Doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO, vai ministrar o laboratório, que busca é reunir artistas de teatro para experimentar a criação na linguagem da palestra-performance, tendo como tema as relações possíveis entre teatro e história em museus. Cada participante vai criar, ao longo dos encontros, uma palestra-performance online de curta duração que aborde alguma questão relativa ao tema proposto, exercitando uma espécie de crítica historiográfica das narrativas que aparecem em museus, sítios históricos ou monumentos, bem como as teatralidades dos seus dispositivos de apresentação. O laboratório será realizado em português, com a presença de uma monitora para colaborar com o intercâmbio entre falantes de português e espanhol.
O trabalho é um desdobramento das pesquisas iniciadas com a peça Há mais futuro que passado – Um documentário de ficção, projeto idealizado por Clarisse Zarvos e Daniele Avila Small, e que tem uma filmagem disponível neste link, com opção de legendas em inglês: https://vimeo.com/210527894
Número máximo de participantes: 20
As inscrições devem ser feitas até o dia 25 de novembro pelo formulário https://forms.gle/oFnzYYJbKcHmm7eW7[/caption]

Felipe Vidal. Foto: Reprodução do Instagram

OUTROS MUNDOS
LABORATÓRIO CRIATIVO COM FELIPE VIDAL
Encontros coletivos às terças e quintas das 18h às 20h, pelo Zoom
De 01.12.20 a 17.12.20

O diretor de teatro, ator, dramaturgo, tradutor e preparador de elenco de cinema e TV Felipe Vidal vai conduzir esse laboratório para dialogar com as canções do lado B do álbum Dois da Legião Urbana, continuando a pesquisa para a obra Dois (mundos) do Complexo Duplo. A ideia é que cada participante crie, ao longo dos encontros, uma palestra-performance online de curta duração que dialogue com uma das canções do álbum. Ao final, cada integrante deverá fazer uma apresentação de até vinte minutos. Como a equipe inicial de criação de Dois (mundos) parte do elenco de Cabeça (Um documentário cênico), que é formado só por homens, esta convocatória busca parceiras criadoras mulheres, atrizes e criadoras de teatro e cinema do Brasil e de toda a América Latina. O laboratório será realizado em português, com a presença de uma monitora para colaborar com o intercâmbio entre falantes de português e espanhol.

Link para o primeiro episódio do Lado A de Dois (mundos), Daniel da cova dos leões:
https://www.youtube.com/watch?v=mn8zwrsPm7g

Esse trabalho é também um desdobramento das pesquisas iniciadas com Cabeça (um documentário cênico), espetáculo do Complexo Duplo de 2016 e que tem uma filmagem disponível neste link: https://www.youtube.com/watch?v=7uqaNUpxO6Q

Número máximo de participantes: 18
As inscrições devem ser feitas até o dia 25 de novembro pelo formulário https://forms.gle/mzZDotmYJdLYKgQx8

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É urgente entender as Histórias de Nossa América

Maria Bonita é ficcionalizada pela dramaturga Dione Carlos e ganha leitura com direção de Malú Bazán

O diálogo histórico, social e político das Crônicas de Nuestra América,- escrita por Augusto Boal quando exilado pelo regime militar brasileiro nos anos 1970 – com os dias de hoje são disparadores que acendem reflexões inadiáveis dos atuais processos políticos novamente conturbados com anúncios e atos da repressão. O texto funciona como bússola para o projeto Histórias de nossas Américas, do Coletivo Labirinto, núcleo de pesquisa e criação cênica de São Paulo, que investiga a relação dos sujeitos com o seu panorama social através da dramaturgia latino-americana contemporânea.

Essas pequenas histórias da verve mordaz e bem-humorada de Boal foram escritas entre 1971 e 1976, no exílio forçado do dramaturgo em Buenos Aires, publicadas pelo jornal O PASQUIM, e lançadas em conjunto em 1977. Documento da época obscura das ditaduras, a escritura de Augusto Boal entra em diálogo com uma tendência do teatro contemporâneo de trazer a política do cotidiano para a arte. No programa Histórias de nossas Américas, do Labirinto, pulsa questões sobre as causas que desorientam pessoas e as conduzem a oprimir o outro e a si próprias.

Nesse conjunto de ações continuadas do Coletivo , o projeto Histórias de Nossa América inclui a montagem de dois espetáculos inéditos, a circulação de seu repertório por escolas públicas, um laboratório permanente de pesquisa aberto ao público, a criação e lançamento do site, a primeira edição da Revista impressa O Labirinto e um Ciclo de Leituras Encenadas de dramaturgia latino-americana. A programação começa nesta quarta-feira, 18/11, com a leitura interpretada de Bonita, texto de Dione Carlos, com direção de Malú Bazán, sobre a mulher mais famosa do Cangaço.

O Ciclo de Leituras destaca nove textos de nove países latino-americanos, escritos nos últimos 10 anos e que carregam relações entre os processos estéticos e políticos de cada região. São textos de autores do Uruguai, Peru, Argentina, Colômbia, Chile, Venezuela, Equador, Cuba e Brasil, que traçam um breve retrato da produção dramatúrgica contemporânea na América Latina.

São 9 encontros semanais, em três fases (novembro, janeiro e fevereiro). Cada leitura dramatizada conta com uma direção diferente, potencializando essas dramaturgias em diálogo com a perspectiva estética dos encenadores convidados. Ao final de cada leitura, o Coletivo promove uma reflexão com o público sobre os dispositivos e procedimentos utilizados, temáticas e abordagens.

Os encontros ocorrem às quartas-feiras, às 20h, por uma plataforma de vídeo-chamada. A entrada é gratuita. Para participar, basta preencher breve inscrição (https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScd_5haIRjAFwHDeMW1V43oVT6Pw2hZmD5M61A01Mz0-1jRdA/viewform), disponibilizada nas redes sociais do Coletivo Labirinto (@coletivo.labirinto) no início de cada semana de evento.

A realização desse Ciclo de Leituras Encenadas também envolve a tradução de oito textos teatrais de língua espanhola para a portuguesa, realizada pelos integrantes do Coletivo Labirinto, com revisão da encenadora e tradutora Malú Bazán. Essa compilação é a base para a formação de um acervo digital permanente, que será disponibilizado gratuitamente no site do Coletivo.

O projeto Histórias de Nossa América foi selecionado pela 35ª. Edição do Fomento ao Teatro Para a Cidade de São Paulo, que começa com o Ciclo De Leituras Encenadas e prevê para o primeiro semestre de 2021 a montagem do espetáculo Onde Vivem Os Bárbaros.

CICLO DE LEITURAS ENCENADAS – FASE 01 – NOVEMBRO DE 2020

18/11 – BONITA, de Dione Carlos – Brasil (2015); direção: Malú Bazán
A vida de Maria Bonita (1911-1938), sua relação com a sexualidade, a violência e o companheiro Lampião norteiam a trama e apresenta a participação das mulheres no Cangaço.

25/11 – EU QUIS GRITAR, de Tânia Cárdenas Paulsen – Colômbia (2017); direção: Érica Montanheiro
Nina e seu marido. A deterioração da relação do casal e a metamorfose de Nina, depois de  passar por zonas de extrema violência, ela vai se transformando em uma mulher que, pouco a pouco, devora seu esposo.

02/12 – A VIDA EXTRAORDINÁRIA, de Mariano Tenconi Blanco – Argentina (2018); direção: Lavínia Pannunzio
Aurora e Blanca são amigas de uma vida toda. Sem grandes conquistas, histórias trágicas ou aventuras inesquecíveis, Aurora é professora, tem um filho, um amante, um marido. E escreve poesia. Blanca é costureira, mora com a mãe, tem um namorado, depois outro, depois outro, sofre sempre. E também escreve poesia. 

CICLO DE LEITURAS ENCENADAS – FASE 02 – JANEIRO DE 2021

20/01 – IF – FESTEJAM A MENTIRA, de Gabriel Calderón – Uruguai (2018); direção: Carlos Canhameiro
Uma família perde o avô e terá dificuldades para lhe dar um enterro decente. Os sobreviventes, carregam a herança de erros e problemas não resolvidos, a acumulação histórica de tudo que é negativo e de tudo que é positivo.

27/01 – SOPA DE TARTARUGA, de Ana Melo – Venezuela (2017); direção: Rudifran Pompeu
Oito venezuelanos se encontram uma noite em um bistrô parisiense. Cada um deles personifica a Venezuela e a carrega como um casco de tartaruga. Mas algo que não esperavam acontece naquela noite. A obra é sobre a migração venezuelana e suas contradições, esperanças e frustrações.

03/02 – A REPÚBLICA ANÁLOGA, de Aristides Vargas – Equador (2010); direção: Dagoberto Feliz
Comédia que foca um grupo de intelectuais que, contrários à realidade que vivem em seu país, decidem formar uma nova república. Esse grande projeto será constantemente prejudicado por pequenos acidentes, entre cômicos e patéticos, que os farão enfrentar a realidade e as dificuldades para construir o país com o qual sempre sonharam.

CICLO DE LEITURAS ENCENADAS – FASE 03 – FEVEREIRO DE 2021

24/02 – SÊMEN, de Yunior García Aguilera – Cuba (2012); direção: Joana Dória
Parte do decálogo As 10 Pragas, a trama de Sêmen gira ao redor de uma família disfuncional – uma mãe que já não está mais, um pai anacrônico e duas filhas que veem o assassinato e a prostituição como formas para tentar sair do país. 

03/03 – LAPEL DUVIDE, de Vanessa Vizcarra – Peru (2017); direção: Rubens Velloso
Toda vez que olha para o vazio, Lapel sente vontade de se lançar. É sua condição de nascência. Ele não se sente atraído pela morte, mas pela queda. Ele busca evitar todos os acidentes, mas está cada vez mais difícil. Lapel vive em uma cidade sob um regime político autoritário, com a população insatisfeita, entretanto é difícil rebelar-se.

10/03 – VIENEN POR MI, de Claudia Rodriguez – Chile (2018); direção: Janaína Leite
Com o objetivo é incentivar a biografia de travestis, transgêneros e transexuais, fazendo disso uma ferramenta política para quem ainda não disse nada, a peça é fruto de um devir da artista transgênere Claudia Rodriguez. Vienen Por Mi é um texto de poesia e denúncia, que traz um convite para perturbar a autoridade vigente de forma rude e coreográfica. É um ensaio inesgotável entre arqueologia, maquiagem e filosofia travesti, para propor metáforas que produzem pontes entre imagens e textos de xamãs, deusas, virgens, santas e loucas, num único corpo. Com: Fábia Mirassos.

FICHA TÉCNICA – CICLO DE LEITURAS ENCENADAS – HISTÓRIAS DE NOSSA AMÉRICA

ELENCO: Abel Xavier, Carol Vidotti, Emilene Gutierrez, Fábia Mirassos, Jhonny Salaberg, Marina Vieira, Ton Ribeiro e Wallyson Mota
DIRETORES CONVIDADOS: Malú Bazan, Érica Montanheiro, Lavínia Pannunzio, Carlos Canhameiro, Rudifran Pompeu, Dagoberto Feliz, Joana Dória, Rubens Velloso e Janaína Leite
AUTORES: Dione Carlos (Brasil), Tânia Cárdenas Paulsen (Colômbia), Mariano Tenconi Blanco (Argentina), Gabriel Calderón (Uruguai), Ana Melo (Venezuela), Aristides Vargas (Equador), Yunior García Aguilera (Cuba), Vanessa Vizcarra (Peru) e Claudia Rodriguez (Chile).
TRADUÇÃO: Coletivo Labirinto e Malú Bazán

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Carne da palavra para saudar a arte

As atrizes Andréia Horta, Bianca Comparato, Débora Falabella e Mariana Ximenes estão no espetáculo Cara Palavra, que cumpre a última semana da temporada, com transmissão on-line do Teatro Porto Seguro 

“Se o tempo fosse remédio / Nenhum mal existiria” cravou Emily Dickinson no poema que tensiona a lírica para falar do tempo e seus efeitos. Uma poética cênica que busca traduzir estados provocados pela passagem das horas, que mergulha nas questões atuais e cotidianas deste mundo pandêmico, da suspensão do “normal”, da subversão de um modo de viver são experimentados no trabalho Cara Palavra protagonizado pelas atrizes Andréia Horta, Bianca Comparato, Débora Falabella e Mariana Ximenes.

Com dramaturgia e direção de Pedro Brício, a peça é costurada com trechos de músicas, vídeos, cenas de ficção e textos biográficos. A poesia feminina contemporânea pulsa das obras de autoras como Ana Martins Marques, Angélica Freitas, Conceição Evaristo, Viviane Mosé, Ryane Leão e Natasha Felix. A cada sessão, as atrizes recebem uma escritora em participação especial. As convidadas do último fim de semana são Viviane Mosé (dia 14/11) e Conceição Evaristo (dia 15/11).

Chamado pelos artistas-criadores de sarau poético performático, o espetáculo investe na potência da palavra como forma de expressão intelectual e emocional, de confissão íntima e de atuação no mundo, Cara Palavra tem inserções sonoras de Chuck Hipolitho e Thiago Guerra.

Os temas escolhidos são os que tocam cada atriz, a percepção de cada uma sobre a vida. Elas falam sobre o cotidiano, o amor, a arte, a solidão e a reinvenção em tempos de Covid-19, reflexões sobre distopia, questionamento do universo político, divagações sobre a feminilidade e  valorização da palavra neste momento em que a Arte e a Cultura vêm sendo vilipendiadas pelos poderosos de plantão. 

Nesse formato híbrido, há imagens previamente gravadas, como uma sequência com Bianca Comparato rodada no deserto californiano, que se misturam às cenas ao vivo. Elas atuam de dentro dos seus apartamentos e do Teatro Porto Seguro.  No teatro, fica somente Débora Falabella, que interage com as outras atrizes através de entradas virtuais: Andreia no Rio de Janeiro, Mariana em São Paulo e Bianca na Califórnia, nos Estados Unidos. Os músicos Chuck Hipolitho e Thiago Guerra também se apresentam de seus apartamentos. 

Projeto

As atrizes desejavam realizar algo juntas. O músico Chuck Hipolitho propôs uma junção de música e palavra. O projeto Cara Palavra, que surgiu antes da quarentena, foi formatado no fim de abril, para o Instagram @cara.palavra, com a participação de Gustavo Giglio e Gianluca Misiti. Juntos eles produziram vídeos postados semanalmente, com textos variados de poesias de autoras brasileiras, letras de música, discursos políticos.

Mariana Ximenes. Bianca Comparato, Andréia Horta e Débora Falabella

Ficha Técnica:

Elenco: Andréia Horta, Bianca Comparato, Débora Falabella e Mariana Ximenes.
Dramaturgia e direção: Pedro Brício.
Interlocução artística: Christiane Jatahy.
Produção de Imagem: Gianluca Misiti e Gustavo Giglio.
Direção de fotografia: Azul Serra.
Direção de Palco: Jimmy Wong.
Produção de live, vídeo e sonoplastia: Rodrigo Gava.
Técnico de som e sonoplastia: Danilo Cruvinel.
Trilha sonora original: Chuck Hipolitho e Thiago Guerra.
Pesquisa e co-criação de vídeos: Luli (Fru) Carvalho.
Direção de arte: André Cortez e Stéphanie Fretin.
Colaboração em direção de arte: Luli (Fru) Carvalho.
Comunicação e design: Gustavo Giglio.
Produção: Corpo Rastreado.
Criação do espetáculo: Andreia Horta, Bianca Comparato, Débora Falabella, Mariana Ximenes e Pedro Brício. Idealização do projeto original: Andreia Horta, Bianca Comparato, Débora Falabella, Mariana Ximenes, Chuck Hipolitho, Gianluca Misiti, Gustavo Giglio e Thiago Guerra.

CARA PALAVRA
Até 15 novembro – Sábado e domingo às 20h.
Dia 14/11, sábado, às 20h – Participação especial de Viviane Mosé.
Dia 15/11, domingo, às 20h – Participação especial de Conceição Evaristo.
Ingressos: A partir de R$20.
Classificação: 16 anos.
Duração: 60 minutos.
TEATRO PORTO SEGURO
Vendas exclusivamente on-line no site: http://www.tudus.com.br
Dúvidas: contato@teatroportoseguro.com.br
Atendimento pelo telefone (11) 3226.7300 de sexta a domingo das 14h às 20h.
Cliente Porto Seguro: Na compra de um ingresso antecipado (até um dia antes) receberá um link extra de acesso para convidar alguém.
Formas de pagamento: Cartão de crédito e débito (Visa, Mastercard, Elo e Diners).
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Instagram: @teatroporto
Assessoria de Imprensa Teatro Porto Seguro: Adriana Balsanelli

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