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MITsp 2026:
A batalha pela sobrevivência
entre a consagração europeia
e a urgência decolonial

Historia da Violência, com o escritor francês Édouard Louis (de costas) dirigido pelo alemão Thomas Ostermeier. Foto: Arno Declair / Divulgação

Quem matou meu pai. Foto: Jean Louis Fernandez / Divulgação

Vigiada e Punida, da canadense Safia Nolin, sobre ódios nas redes sociais. Foto: Maxim Pare Fortin 

Onze anos incendiários. Assim a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo se apresenta em 2026 como uma chama que resiste. Sob o mote da “violência e suas diversas formas de enfrentamento”, o festival se desenha como um espelho das fraturas, tensões e urgências do nosso tempo, ao mesmo tempo em que a própria mostra trava uma luta visceral pela sobrevivência em meio a um cenário de recursos em declínio.

A identidade visual desta edição, assinada pelo designer pernambucano Hélter Pessôa, materializa essa urgência através de um elemento simples e potente: o fogo. Uma caixa de fósforos resguarda a possibilidade de mudar o estado das coisas. Diante das incertezas, a arte persiste e o gesto teatral irradia como faísca flamejante, potencializando ações de diversidade e democracia. Três palitos de fósforo são um “lembrete de que essa chama não pode se apagar”, um convite para o mergulho nas profundezas do que o teatro ainda pode ser.

A estrutura curatorial da MITsp 2026 pode ser lida a partir de duas grandes linhas de força que operam em tensão constante: a consagração europeia, ancorada no prestígio de um teatro intelectualizado, de grande circulação internacional, que disseca as violências do Ocidente com precisão cirúrgica, e a urgência decolonial, uma força que emerge da necessidade, da luta pela existência e da resistência de corpos e territórios historicamente silenciados. Essas linhas revelam, na verdade, as contradições estruturais do próprio festival: entre o desejo de ser uma ponte global e a realidade de uma instituição brasileira operando com menos de 30% do orçamento necessário; entre a legitimidade do cânone europeu e a urgência de vozes que não podem esperar por reconhecimento internacional.

A primeira linha de força é encabeçada pela dobradinha entre o escritor francês Édouard Louis e o diretor alemão Thomas Ostermeier. O díptico formado por História da Violência – que parte de um estupro sofrido pelo autor para falar de homofobia e racismo – e Quem Matou Meu Pai – onde Louis expõe como a desigualdade destruiu seu pai – funciona como uma contundente análise social. Esses nomes  – Thomas Ostermeier, Édouard Louis e Milo Rau – representam um  teatro europeu que circula em festivais de renome mundial (Avignon, Veneza, etc). Eles são o “establishment do teatro contemporâneo”, operando dentro de um circuito já legitimado, com recursos, infraestrutura e visibilidade garantidos. A presença de Milo Rau com A Carta reforça essa curadoria que aposta no teatro como testemunho político, onde a ficção e a vida se confundem na formação de um ator entre gerações e conflitos, para refletir sobre as estruturas de poder. Embora essas obras sejam criticamente relevantes – dissecando homofobia, racismo e hipocrisia das democracias ocidentais – elas o fazem através de uma estética já consagrada e, de certa forma, “segura” para um grande festival internacional.

Contrapondo a hegemonia europeia, emergem “lugares de enunciação mais periféricos” que carregam uma potência distinta. Do Lado de Cá, do congolês Dieudonné Niangouna, traz a perspectiva do exílio e do artista cindido entre dois mundos – uma vinda celebrada por Antonio Araújo, idealizador e diretor artístico da MITsp, como uma “vitória” após o trauma de sua participação virtual em 2019, impedida pela perseguição política em seu país.

Vigiada e Punida, da canadense Safia Nolin com direção de Philippe Cyr, transforma o ódio misógino e gordofóbico das redes sociais em matéria cênica, oferecendo uma resposta à violência contemporânea. Mas talvez a presença mais  “radicalmente necessária” seja a abertura de processo de Três Estações e um Corpo, do artista palestino Mohammed Al Qudwa com direção da brasileira Martha Kiss Perrone. Em meio a um “genocídio em curso”, a obra surge como um testemunho urgente e fragmentado. A escolha de apresentar um trabalho em construção, sobre um corpo que sobrevive a cinco guerras, coloca o teatro em seu estado mais urgente e necessário: “o de dar nome ao indizível, de insistir na existência diante da aniquilação”.

Mandinga Major Ball Ballroom integra a PERFORMA12h. Foto: Alass Derivas / Divulgação

Se a ala internacional tematiza a violência, os espetáculos nacionais respondem com estratégias de resistência. A MITbr – Plataforma Brasil se firma como “uma mostra que luta pela democracia e reconhece a diversidade das vozes, ocupando todos os espaços”, nas palavras do produtor Guilherme Marques, um dos idealizadores e diretor geral de produção. Aqui, a urgência decolonial se torna protagonista.

Da Convocatória MITbr – Plataforma Brasil, em TA – Sobre Ser Grande, o Corpo de Dança do Amazonas se inspira na cosmologia Tikuna para discutir a resiliência dos povos originários. Para Mariela celebra quatro décadas do Grupo Sobrevento tecendo uma poética da imigração boliviana que, a partir de objetos cotidianos e sonoridades ancestrais, aponta a tensão entre sonhos de simplicidade e as complexidades do deslocamento. Em Epílogo (PR), a dupla chameckilerner usa corpos de idades e habilidades diversas para “dinamitar o etarismo e a ditadura do corpo padrão”.

A criação da PERFORMA12h – uma virada noturna dedicada a artistas negros que vibram na “resistência festiva” -, com curadoria de Rodrigo Severo, materializa a festa como tática de sobrevivência e afirmação política. Neste conjunto estão Aparição, Nego Fugido de Acupe (BA), que reencena a abolição sob a ótica quilombola, ressignificando a história através de uma encenação de reparação histórica que coloca os negros como protagonistas da conquista da abolição da escravatura; e Mandinga Major Ball de Puma Camillê (BA), um ritual contemporâneo de celebração e denúncia que articula sabedorias ancestrais às urgências do presente pela perspectiva LGBTQIAPN+, afirmando o corpo como linguagem política, arquivo vivo e estratégia de sobrevivência através do diálogo entre capoeira e vogue.

Essa energia se anuncia em outros espetáculos da MITbr. Na aba Espetáculos Convidados, Vogue Funk (RJ), da carioca Patfudyda, funde baile funk e vogue ball, festejando a potência criativa de corpos periféricos e dissidentes. Das vielas para os palcos, dos fios emaranhados dos postes ao fio dental das gatas: baile funk e vogue ball se cruzam neste espetáculo de dança. Originados em contextos geográficos e cronológicos distintos, os movimentos têm em comum a origem periférica e predominantemente preta, além de serem símbolos de resistência cultural, política e social. Também nesta aba, Filoctetes em Lemnos, de Vinicius Torres Machado, dirigido por Marina Tranjan, acompanha Filoctetes: herói, mas não o suficiente para suportar a dor de uma ferida que não cicatriza. A partir do mito grego, o artista apresenta a matéria do próprio corpo após a retirada de parte do seu nervo ciático e musculatura posterior, em decorrência do tratamento de um tumor, tratando da fragilidade corporal como experiência encarnada

A MITbr também apresenta aberturas de processo que revelam outra dimensão da criação teatral contemporânea. Wagner Antônio, com SSOL – Paisagem 03, expõe o laboratório de uma dramaturgia visual onde luz, som e vídeo atuam como linguagens ativas – uma investigação de dez anos sobre como integrar essas linguagens em espaços instalativos que borram as fronteiras entre passado, presente e futuro. Cris Meirelles e Jaya Batista, com Jukybox, compartilham uma criação em processo que emerge das festas populares e das vivências LGBTQIAPN+, onde a performance cênico-musical se constrói a partir de laboratórios como a Jukermesse e o Bailarico da Juky — experimentos que dialogam com manifestações populares como festividades e protestos. Essas aberturas de processo expõe as construções com suas fraturas, os riscos e as escolhas que constituem a criação. 

SSOL Paisagem 03, do Wagner Antônio. Foto: Micaela Wernicke

Cavucada – A Festa Não Será Amanhã. Foto: Patrícia Almeida

No projeto Conexões Centro-Oeste, com curadoria de Galiana Brasil e Carlos Gomes, do Itaú Cultural, Cavucada – A Festa Não Será Amanhã (MS), da Cia Dançurbana, dissolve o palco e transforma o teatro em pista de dança, um ato político em si. A Cia Dançurbana comemora mais de duas décadas de trajetória na pista de dança. Sem divisão entre palco e plateia, artistas e público rememoram juntos coreografias presentes no repertório da companhia, além de se movimentarem embalados por sonoridades festivas de diferentes estilos. O espetáculo-festa, cujo título faz referência a um passo de dança do brega funk, passeia por elementos presentes no hip-hop, no vogue, na dança contemporânea e em coreografias do TikTok. A obra privilegia o encontro, ressaltando seu potencial político e artístico, e valoriza a liberdade de cada intérprete.

A integração do Conexões Centro-Oeste à MITbr evidencia um movimento importante de “descentralização do olhar”, trazendo para São Paulo a produção de artistas de Brasília, Goiás e Mato Grosso. Trabalhos como Atrás das Paredes, focado na violência doméstica , galhada e Cabeça de Toco (refletindo sobre colapso ambiental), e Republikkk e Encruzilhada Não É Beco (processando a herança política de um Brasil polarizado) ampliam a geografia do festival enquanto questionam a própria centralidade de São Paulo como epicentro da produção teatral brasileira.

Ao longo da MITsp, três mostras acontecem na cidade de São Paulo, de forma paralela, com trabalhos e processos artísticos nacionais voltados ao público em geral e a programadores nacionais e internacionais: a Farofa do Processo, o Instituto Capobianco e o iBT – Instituto Brasileiro de Teatro. A programação de cada evento poderá ser consultada em suas respectivas redes sociais e sites, com dias e horários disponíveis e abertos ao público.

Prática da crítica

Um microcosmo da luta pela própria sobrevivência da crítica teatral se refletiu na negociação para o retorno da Prática da Crítica, eixo de reflexão que acompanha a mostra. Após a ausência do formato em 2025, uma carta aberta da AICT-Brasil (Associação Internacional de Críticos de Teatro) e uma pergunta de um integrante da associação durante a coletiva pressionaram a organização a fazer um esforço a mais como demonstração da importância deste espaço. O diretor Antonio Araújo confirmou a parceria, mas revelou suas limitações orçamentárias: “Neste momento a questão que a gente vai conversar é sobre o tamanho desta parceria”, disse ele em fevereiro.

Ações realizadas nos primórdios do festival, como a contratação de críticos residentes de outras regiões para uma cobertura remunerada e integral do festival, não se concretizaram diante da escassez de verbas. A existência da crítica, assim como a do próprio festival, está atrelada à disponibilidade de recursos. A crítica, como definiu um integrante da AICT, é “quase que a prima pobre da cena teatral”, lutando para caminhar junto.

A Prática da Crítica retorna em um novo modelo “piloto”, menor, com cobertura crítica em texto e vídeo realizada por quatro integrantes da AICT residentes em São Paulo: Daniel Guerra (coordenador), Artur Kon, Amilton de Azevedo e Malu Barsanelli. Essas críticas textuais serão disponibilizadas no site da MITsp, enquanto pílulas críticas em vídeo circularão no Instagram da MITsp e da AICT-Brasil. A curadoria geral da Prática da Crítica é coordenada por Daniel Guerra, Guilherme Diniz, Ferdinando Martins e Julia Guimarães, com colaboração de integrantes da AICT-Brasil.

A programação de duas mesas fazem parte da Prática da Crítica, oferecendo espaços de reflexão sobre a própria condição da crítica e sobre as obras apresentadas. A primeira mesa, Autonomia na Crítica Contemporânea: Paradoxos, Disputas e Dissensos, acontece em 9 de março, segunda-feira, das 14h às 15h30, no iBT – Instituto Brasileiro de Teatro (1º andar), com entrada gratuita e reserva de ingresso pela Sympla. Reúne Ivana Moura, Kil Abreu, Luciana Romagnoli, Marcos Alexandre, Wellington Junior e Valmir Santos para irradiar sobre os espaços de autonomia para a crítica teatral contemporânea, a precarização econômica do ofício, as relações entre autonomia e dissenso, e o lugar da crítica na esfera pública brasileira, etc.

A segunda mesa, Cenas Contemporâneas: Panoramas Críticos, ocorre em 15 de março, domingo, das 13h às 14h, no TUSP, também com entrada gratuita e reserva pela Sympla, propondo que integrantes da Prática da Crítica debatam aspectos dos espetáculos apresentados e, a partir deles, questões estético-políticas sobre a cena teatral contemporânea. Participam Amilton de Azevedo, Artur Kon, Daniel Guerra  e Malu Barsanelli 

Guilherme Marques e Antonio Araújo. Foto Silvia Machado / Divulgação

Apesar da potência curatorial e das novidades, um velho fantasma assombra os bastidores da MITsp: a precariedade financeira estrutural que define – e limita – cada decisão tomada. Guilherme Marques expõe a fratura entre o desejo e a realidade. Com um orçamento captado de R$ 3,7 milhões, o festival opera com menos de 30% do que seria necessário (R$ 13 milhões) para cumprir sua vocação original de apresentar 15 produções nacionais e 15 internacionais. Essa realidade impõe uma curadoria oculta, ditada não apenas pela relevância artística, mas pelo custo.

O que torna essa situação ainda mais reveladora é a estrutura de financiamento que a sustenta. Diferentemente de festivais europeus como Avignon – que operam com €17 milhões (cerca de R$ 105 milhões) em grande parte subsidiados pelo Estado – a MITsp depende fundamentalmente de captação privada. Essa diferença de escala vai além da questão orçamentária, ela define modelos distintos de autonomia curatorial, de capacidade de risco artístico e de possibilidade de experimentação. A MITsp persiste apesar de. Persiste apesar da escassez, apesar de um sistema que força seus curadores a negociar “o tamanho da parceria” com a crítica, com os artistas, com a própria possibilidade de existência.

 

Serviço
MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – 11ª Edição
06 a 15 de março de 2026
Programação completa no site www.mitsp.org

Identidade visual criada pelo designer pernambucano Hélter Pessôa

  • A cobertura da MITsp que será realizada pelo Satisfeita, Yolanda? só é possível graças a ação entre amigos que colaboraram com apoio afetivo, material e financeiro para o  deslocamento, estadia e outras despesas da crítica Ivana Moura do Recife para São Paulo.
    Agradecemos ao apoio e à parceria de Paula de Renor, Carla Estefan, Nilza Lisboa, Ricardo Florêncio, Ronaldo Correia de Brito, André Brasileiro, Tadeu Gondim, Lina Rosa Vieira, Pollyanna Diniz, Carla Valença, Marcelo Canuto, Arquimedes Amaro, Eneida Moura, Elisabete Moura, Eliane Moura, Everson Melquíades, Dione Barreto, Maria Paula Costa Rêgo, Cida Pedrosa, Silvia Sabadell, Ely Anna Oliveira, Ana Paula Andrade, Fátima Holanda, Júnior Sampaio, Celso Curi, Wesley Kawaai, Silvana Meireles, Inocência Galvão…

  • O Satisfeita, Yolanda? passa a aceitar apoios financeiros diretos para sua manutenção, já que não dispomos de editais ou outras verbas de suporte neste momento. Quem desejar colaborar com esta casa, que completa 15 anos existência neste ano de 2026, pode depositar qualquer valor na chave PIX (81) 99996-2372.
    Arigato!

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MITsp 2025: Dez edições de resistência e desafios

Antonio Nóbrega, homenageado nesta edição da MITsp, apresenta junto com sua companheira Rosane de Almeida, o espetáculo Mestiço Florilégio. Foto: Fabio Alcover / Divulgação

VAGABUNDUS abre programação da Mostra. Foto: Mariano Silva / Divulgação

Desde 2014, a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) oxigena a ideia de teatro contemporâneo a partir de um tripé: espetáculos de excelência de vários países – e, a partir de 2019, uma mostra de espetáculos nacionais -, reflexão crítica e ações pedagógicas. No agora longínquo 2014, a mostra foi considerada uma renovação no modo de pensar e executar um festival no Brasil. Nós, do Satisfeita, Yolanda?, que tivemos a sorte de acompanhar aquela edição disruptiva – e todas as outras desde então – costumamos brincar ao dizer que houve, ali, uma pós-graduação nas artes da cena em duas semanas.

Neste 2025, a MITsp celebra sua 10ª edição, consolidando-se como um dos eventos mais significativos das artes cênicas no Brasil e na América Latina. De 13 a 23 de março, em diversos espaços e teatros da metrópole paulistana, a programação inclui uma abertura de processo, quatro espetáculos internacionais, uma estreia nacional, nove obras na MITbr – Plataforma Brasil, dois grupos convidados e um leque de oficinas, debates e conversas ao longo desses onze dias.

Talvez pela primeira vez em dez anos, o evento se aproxime de modo mais efetivo da arte popular, propondo conexões com a arte contemporânea, homenageando o multiartista brasileiro Antonio Nóbrega, pernambucano que exibe na mostra o espetáculo Mestiço Florilégio, junto com sua companheira de arte e vida, a atriz e bailarina Rosane Almeida, e Brincando com Nóbrega – A cultura popular e a educação, que integra a programação de Ações Pedagógicas e traz várias outras ações relacionadas à cultura popular.

A curadoria dos espetáculos internacionais é de Antonio Araújo, que assina a direção e idealização artística do festival. Este ano, a curadoria da MITbr – Plataforma Brasil, que reúne os  espetáculos nacionais, é de Ave Terrena, Kenia Dias e Jay Pather. A curadoria de Olhares Críticos, que congrega ações de pensamento crítico a partir da programação da Mostra, é assinada por Helena Viera, e a de Ações Pedagógicas por Alexandra G. Dumas. A direção institucional é assinada pelo gestor cultural Rafael Steinhauser. A idealização geral e de produção fica por conta de Guilherme Marques.

Apesar de robusta quando observamos o conjunto das obras e discussões programadas, esta edição comemorativa da MITsp enfrenta desafios significativos, com uma redução de aproximadamente 60% na programação internacional e 50% na nacional. Na edição 2024, na Mostra de Espetáculos, que reúne os trabalhos internacionais e, eventualmente, nacionais, havia nove espetáculos estrangeiros. Este ano, são quatro.

Essa contração reflete diretamente o desmonte cultural do governo anterior bolsonarista, cujo reflexo ainda é sentido, mas revela ainda a fragilidade das políticas culturais e a instabilidade econômica que afeta o setor cultural brasileiro, em governos de direta, mas também nos de esquerda. 

“Na programação internacional, 60% do projeto original caiu, mas alguns elementos continuam a orientar a Mostra, desde a edição passada, como privilegiar o diálogo com o Sul Global. Temos dois espetáculos africanos, um argentino, e um espetáculo europeu, francês. E tem uma coisa que acho importante: desses quatro internacionais, nenhum é monólogo. Acho que é importante a gente ter teatro com muita gente e poder valorizar isso. São quatro trabalhos, mas são quatro trabalhos onde há um coletivo de artistas presente em cena. É conseguir furar a lógica do monólogo, do mais barato, do mais viável, e poder também apresentar outras possibilidades cênicas”, diz Antonio Araújo, diretor artístico da MITsp.

Para Guilherme Marques, diretor geral de produção, “além de recuos de patrocínios e do fato da MITsp não ter sido aprovada em nenhum dos editais públicos, temos ainda a fragilidade de nossa moeda com a variação do câmbio”, afirmou. “Além disso, a carga tributária que se paga em espetáculos internacionais hoje incide em 37,13%”, complementa.

Marques citou como exemplo bem-sucedido de festival internacional o festival Santiago a Mil, em Santiago, no Chile, que possui apoio público e privado com contratos de médio prazo, permitindo que o festival tenha segurança financeira para programar suas ações e, portanto, continuidade. “Acreditamos que, idealmente, as instituições das esferas públicas e privadas pudessem ao término de cada edição contar com o valor de referência para o ano seguinte, já que a MITsp é anual. É justamente porque entendemos que uma mostra internacional de teatro não é apenas entretenimento, mas também reflexão, crítica, educação, sensibilização, transformação, que tememos pela continuidade do projeto”, afirmou.

Este ano, uma das ações mais significativas da MITsp, a Prática da Crítica, que trazia críticos de vários lugares do país para acompanhar e escrever a partir dos espetáculos da programação, não vai acontecer. Na coletiva de imprensa da Mostra, realizada no Itaú Cultural, no dia 12 de fevereiro, Antonio Araújo disse que gostaria de salvar a ação. “A Prática da Crítica é uma das coisas que a gente está querendo salvar. A gente falou só dos espetáculos, mas acho que tanto nas Ações Pedagógicas quanto nos Olhares Críticos, houve uma redução enorme. O projeto original da Helena (Helena Viera, curadora de Olhares Críticos) e da Alexandra (Alexandra G. Dumas, curadora de Ações Pedagógicas) é emocionante e foi cortado. A Prática da Crítica é uma atividade cara, infelizmente tivemos que suspender”, diz Araújo.

A MITsp captou R$ 3,1 milhões, mas precisaria de mais R$ 2,5 milhões para realizar toda a programação planejada originalmente.

Para Araújo e Marques, a viabilidade desta edição só foi possível pela permanência de parceiros e apoiadores contínuos desde a primeira edição, como o Itaú Cultural, Sesc SP, Sesi e Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Em nove edições, a MITsp apresentou 179 espetáculos de 46 países, totalizando 449 sessões que alcançaram um público estimado em mais de 200 mil pessoas.

Em 2025, a MITsp tem apresentação do Ministério da Cultura e Redecard, copatrocínio do IBT – Instituto Brasileiro de Teatro e apoio cultural de La Serenissima e FUNARTE. A mostra tem correalização do Consulado Geral da França em São Paulo, Instituto Francês e Instituto Goethe. A realização do evento é da Olhares Instituto Cultural, ECUM Central de Produção, Itaú Cultural, Sesc SP, Sesi SP, Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e Ministério da Cultura – Governo Federal. O projeto é incentivado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet.

OS ESPETÁCULOS INTERNACIONAIS

Assuntos urgentes e complexos da contemporaneidade, como envelhecimento, migrações forçadas, violência sistêmica e formas de resistência, são problematizados nas obras internacionais programadas para a Mostra, promovendo um diálogo interessante entre arte e sociedade.

O espetáculo Vagabundus, do moçambicano Idio Chichava – inspirado no ritual de dança do povo Makonde, que habita Moçambique e países vizinhos – faz a abertura da MITsp neste 13 de março, no Teatro do Sesi – SP, local que ainda não havia abrigado uma abertura do festival e tem uma capacidade reduzida de público, se compararmos com o Auditório Ibirapuera ou o Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, espaços que normalmente recebiam aberturas da Mostra.

Vagabundus promete uma experiência imersiva, onde treze performers dançam e cantam, mesclando tradição e contemporaneidade, explorando temas como identidade cultural e processos migratórios.

A Vida Secreta dos Velhos. Foto: Yohanne Lamoulère-Tendance Floue / Divulgação

Gaivota, do diretor argentino Guillermo Cacace. Foto: Francisco Castro Pizzo / Divulgação

A Vida Secreta dos Velhos, do diretor francês Mohamed El Khatib, e Gaivota, do argentino Guilhermo Cacace, exploram respectivamente o desejo na velhice e as nuances dos amores não correspondidos.

Mohamed El Khatib retorna à MITsp pela 3ª vez com uma obra que leva à cena oito idosos, não-atores, a maioria octogenários e nonagenários, residentes em casas de repouso. Fruto de uma extensa pesquisa realizada pelo diretor nesses espaços, a peça desafia corajosamente os estereótipos e tabus associados à terceira idade. A Vida Secreta dos Velhos convida o público a repensar suas percepções sobre a longevidade, a intimidade e os prazeres da vida em idade avançada. 

Gaivota, do diretor argentino Guillermo Cacace, é uma releitura da obra-prima de Anton Tchekhov, adaptada pelo dramaturgo Juan Ignacio Fernández. Cacace reinventa o clássico russo com uma abordagem minimalista. Cinco atrizes ocupam o palco, dispostas ao redor de uma mesa, criando uma atmosfera de intimidade. Neste cenário despojado, elas exploram o amor não correspondido, a frustração de sonhos realizados e o acúmulo de dores existenciais.

MITbr – Plataforma Brasil e outros eixos

Língua, uma das atrações da MITbr. Foto: Renato Mangolin

A MITbr – Plataforma Brasil inclui nove trabalhos selecionados: Repertório nº 3 de Davi Pontes e Wallace Ferreira (RJ), Baculejo do Coletivo Riddims (CE), Quadra 16 de Cris Moreira (MG), Parto Pavilhão de Aysha Nascimento, Jhonny Salaberg e Naruna Costa, Graça do grupo Girandança (RN), Desmonte do Grupo Girino (MG), Língua de Vinicius Arneiro (RJ), A Última Ceia do Grupo Mexa, e Eu tenho uma história que se parece com a minha de Tetembua Dandara. O homenageado Antonio Nóbrega exibe Mestiço Florilégio, criado em parceria com Rosane de Almeida.

A programação se expande com a Mostra Periférica, com tReta, uma invasão performática do Original Bomber Crew (PI) e Reset Brasil do Estopô Balaio (SP), além da performance convidada Cosmopercepções da Floresta, um encontro intercultural de povos indígenas.

Outro destaque da edição é a estreia de Réquiem SP, uma colaboração inédita do coreógrafo Alejandro Ahmed com o Balé da Cidade de São Paulo e outros corpos estáveis do Theatro Municipal. 

O eixo Ações Pedagógicas, sob a curadoria de Alexandra G. Dumas, professora e pesquisadora em Teatro, oferece um programa de atividades gratuitas, que incluem oficinas práticas, rodas de conversa e sessões de troca de experiências. Este segmento visa fomentar um diálogo entre artistas e espectadores.

O eixo Olhares Críticos, curado pela pesquisadora, transfeminista e escritora Helena Vieira, propõe uma programação que explora as possibilidades e desafios do teatro contemporâneo e sua relação com as questões prementes de nossa época e sobre o papel do teatro na sociedade atual e suas direções futuras.

Por fim, o projeto Cartografias, editado pelo professor e pesquisador da ECA-USP Ferdinando Martins, apresenta sua nova edição, consolidando-se como uma referência para a documentação e análise da cena teatral contemporânea. O catálogo, com aproximadamente 300 páginas, reúne ensaios, entrevistas e artigos de pensadores, artistas e acadêmicos.

Mostra de Espetáculos – Internacionais

Dambudzo. Foto: Nurith-Wagner Strauss / Divulgação

Dambudzo

Nora Chipaumire
105min
12 anos
Sesc Pompeia (Galpão)
14 e 15/3 sexta e sábado 19h
16/3 domingo 18h
18 e 19/3 terça e quarta 19h

Nesta instalação performática, a artista do Zimbábue Nora Chipaumire explora o potencial revolucionário da arte, confrontando legados coloniais. Inspirada na palavra “dambudzo” (problema em xona, uma língua bantu), a obra recria a atmosfera dos shebeens, bares clandestinos de Zimbábue, convidando o público a refletir sobre resistência e insurreição através de uma experiência multissensorial.

Gaivota

Guillermo Cacace
90 min
16 anos
Cúpula do Theatro Municipal
15 e 16/3 sábado e domingo 17h
17 e 18/3 segunda e terça 19h

Nesta reinterpretação intimista de A Gaivota do dramaturgo russo Anton Tchekhov (1860-1904), cinco atrizes, sentadas ao redor de uma mesa, dão vida aos personagens principais: Arkadina, Kostia, Nina, Trigorin e Masha. O diretor argentino Guillermo Cacace destila a essência trágica da obra, explorando amores não correspondidos e sonhos frustrados, através do olhar perspicaz da figura de Masha.

A Vida Secreta dos Velhos

Mohamed El Khatib
70 min
16 anos
Sesc Vila Mariana
21 e 22/3 sexta e sábado 20h
23/3 domingo 18h

O encenador Mohamed El Khatib busca desafiar estereótipos sobre a sexualidade na terceira idade neste espetáculo documental. Oito idosos compartilham intimidades e reflexões sobre amor e desejo, revelando uma perspectiva lúcida e plural sobre a reinvenção da sexualidade na velhice.

Vagabundus

Idio Chichava
70 min
10 anos
Teatro do SESI-SP
13/3 quinta [abertura para convidados], 19h30
14 e 15/3 sexta e sábado 20h

O coreógrafo moçambicano Idio Chichava explora os processos migratórios através do corpo e do movimento. Inspirado pelo ritual de dança Makonde, treze performers dançam e cantam músicas tradicionais e contemporâneas de seu país, além de canções gospel e motivos barrocos, criando uma expressão da jornada migratória como experiência emocional, espiritual e coletiva.

Abertura de processo internacional

acontinua – um obituário, um manual para uma vida vivida perseguindo a VIDA

Nora Chipaumire
60 min
Livre
Sesc Pompeia (Galpão)
21 e 22/3 sexta e sábado 19h
23/3 domingo 17h

Neste work in progress, Nora Chipaumire apresenta uma criação inédita que celebra o “agora” e o “vivo”. Recusando retrospectivas, a artista zimbabuana explora como experiências se transformam em movimento corporal e conhecimento compartilhado. “acontinua” homenageia figuras inspiradoras como ensaísta e curador André Lepecki,o líder revolucionário moçambicano Eduardo Mondlane (1920-1969), além de movimentos revolucionários e mulheres anônimas, tecendo uma reflexão poética sobre a persistência da vida e da arte.

Eixo MITbr – Plataforma Brasil

Baculejo. Foto: Nicolás Leiva / Divulgação

Baculejo

Coletivo Riddims
Encante Território Criativo
Fortaleza (CE)
60 min
14 anos
Mezanino do SESI-SP
22 e 23/3 sábado e domingo 15h e 19h

O Coletivo Riddims funde festa e poética periférica, explorando ancestralidade e resistência. Através de dança e cânticos, a obra conecta práticas afro-indígenas com movimentos urbanos, subvertendo a lógica colonial para manter vivo o ato de sonhar.

Desmonte

Grupo Girino
Belo Horizonte (MG)
50 min
16 anos
Teatro Cacilda Becker,
18 e 19/3, terça e quarta, às 18h

Inspirado nos desastres de Brumadinho e Mariana, o Grupo Girino expõe narrativas das vítimas silenciadas da mineração. A montagem multidisciplinar mescla teatro visual, miniaturas e live cinema para retratar o maior crime ambiental do Brasil.

Eu tenho uma história que se parece com a minha

Tetembua Dandara
São Paulo (SP)
120 min
Livre (crianças são bem-vindas ou de 0 a 96 anos)
Centro Cultural São Paulo,
21 e 22/3, sexta e sábado, 19h

Tetembua Dandara cria uma instalação imersiva que atravessa gerações familiares. O público é convidado a explorar um espaço reminiscente de uma sala de avó, onde narrativas são tecidas através de vozes, sabores e olhares, inspiradas no livro fotográfico homônimo da artista.

Trabalho do grupo Giradança, de Natal (RN), Foto de Brunno Martins / Divulgação

Graça

Giradança
Natal (RN)
50 min
18 anos
Centro Cultural São Paulo – CCSP
19 e 20/3 quarta e quinta 19h

Nesta colaboração entre a companhia Giradança e a coreógrafa Elisabete Finger, três performers exploram arquétipos de beleza, fertilidade e êxtase. A peça circular escava camadas de erotismo, operando entre continuidade e dissolução de padrões corporais.

Língua

Vinicius Arneiro
Rio de Janeiro (RJ)
75 min
14 anos
Itaú Cultural,
22/3, sábado, 21H, 23/3, domingo, 19H

Criada em português e Libras, a peça retrata uma festa surpresa para um taxista surdo. Vinicius Arneiro investiga os paradoxos entre cultura surda e sociedade ouvinte, refletindo sobre acessibilidade e os desafios da comunicação.

Parto Pavilhão

Aysha Nascimento, Jhonny Salaberg e Naruna Costa
São Paulo (SP)
60 min
14 anos
Itaú Cultural
19 e 20/3 quarta e quinta 21h

O monólogo foca no encarceramento de mulheres negras e mães no Brasil. Com elementos de realismo fantástico, o trabalho, com atuação de Aysha Nascimento, direção de Naruna Costa e dramaturgia de Jhonny Salaberg, é livremente inspirado na fuga de um grupo de presas, com seus bebês no colo, do Centro de Progressão Penitenciária do Butantã, em 2009.

Quadra 16

Cris Moreira
Belo Horizonte (MG)
70 min
14 anos
Biblioteca Mário de Andrade
20 e 21/3 quinta e sexta 17h
22/3 sábado 16h

Nesta palestra-performance, Cris Moreira revisita seu luto pessoal para discutir a invisibilização da perda materna. Utilizando elementos documentais e audiovisuais, a obra amplia o debate sobre maternidade e luto parental.

Repertório N. 3

Davi Pontes e Wallace Ferreira
Rio de Janeiro (RJ)
45 min
18 anos
Centro Cultural São Paulo – CCSP
19 e 20 quarta e quinta 20h

Concluindo uma trilogia coreográfica, Davi Pontes e Wallace Ferreira exploram a dança como autodefesa. Através de mimese e pose, a obra cria resistências singulares para corpos dissidentes, partir de estudos pós-coloniais de gênero e raça.

A Última Ceia

Grupo MEXA
São Paulo (SP)
90 min
Livre
Centro Cultural São Paulo,
dia 22/3, Sábado, 20h;
23/3, domingo, 19h

Inspirada na obra de Da Vinci, esta peça-jantar do Grupo MEXA reinterpreta conceitos de morte e ressurreição. Performers compartilham uma última refeição, explorando a persistência da imagem e memória além da existência do grupo.

Mestiço Florilégio (Artista homenageado)

Antonio Nóbrega e Rosane Almeida
70 min
Livre
Teatro B32
17 e 18/3 segunda e terça 21h – A sessão do dia 17/3 conta com Libras e audiodescrição.

Uma celebração multidisciplinar de 40 anos de arte popular brasileira. Nóbrega e Almeida juntam música, teatro e dança, propondo um diálogo entre cultura popular e contemporânea.

Réquiem SP (estreia)

Alejandro Ahmed
60 min
18 anos Theatro Municipal de São Paulo
20/3 terça 20h
23/3 domingo 17h

Ahmed orquestra um diálogo provocativo entre balé, jumpstyle e danças urbanas, explorando a singular dinâmica de São Paulo. Com participação da Orquestra Sinfônica Municipal e Coral Paulistano, a obra junta composições de Ligeti e Venetian Snares.

Reset Brasil, peça do Coletivo Estopô Balaio. Foto: Cassandra Mello

Reset Brasil (Mostra Periférica)

Coletivo Estopô Balaio
São Paulo (SP)
240 min
10 anos
Estação Brás do Metrô
22 e 23/3 sábado e domingo 15h

Uma jornada imersiva pela história e resistência de São Miguel Paulista. O público embarca em um trem rumo a um Brasil reimaginado, onde ancestralidades indígenas e africanas convergem para sonhar um novo mundo.

tReta, uma invasão performática (Mostra Periférica)

Original Bomber Crew
Teresina (PI)
60 min
16 anos
Centro Cultural São Paulo – CCSP
19 e 20/3 quarta e quinta 19h

Uma explosão urbana de hip hop e arte contemporânea. O Original Bomber Crew transforma conflitos cotidianos em “dança-quebrada”, criando uma performance imersiva que desafia percepções sobre juventude periférica.

Cosmopercepções da Floresta (performance convidada)

João Paulo Lima Barreto, Sandra Nanayna, Larissa Ye’padiho Mota Duarte (Tukano), Anita Ekman e Renata Tupinambá em colaboração com Sunna Nousuniemi
50 min
Livre Centro Cultural São Paulo – CCSP
21/3 sexta 20h

Uma imersão sonora e performática que entrelaça cosmologias indígenas da Amazônia, Mata Atlântica e Finlândia. Através de música e palavra, as artistas criam uma ponte entre florestas distantes, convidando à reflexão sobre mundos matriarcais e cuidado mútuo.

AÇÕES PEDAGÓGICAS
Curadoria: Alexandra G. Dumas

OFICINA

Ensaios de Confrontos

Com Wallace Ferreira/Patfudyda
16 de março, domingo, 15h-18h
Mezanino do SESI-SP
Gratuito, com inscrição prévia

Explora a cultura ballroom e corpos dissidentes, elaborando resistências e táticas de ocupação espacial através de gestos e poses.

RODAS DE CONVERSA

Percursos cênicos de poéticas negras

Com Jéssica Nascimento Olaegbé, Lucelia Sergio.
Mediação: Mônica Santana
21 de março, sexta, 18h-19h30
Itaú Cultural
Gratuito

Debate sobre a força das poéticas negras no teatro brasileiro, explorando percepções, tensões e criações.

Interseções Cênicas

Com Cris Moreira e Mônica Santana.
Mediação: Jhonny Salaberg
22 de março, sábado, 10h-12h
Biblioteca Mário de Andrade
Gratuito

Diálogo entre artistas sobre obras que abordam o luto parental, explorando aproximações e distanciamentos criativos.

Culturas cênicas e culturas (ditas) populares

Com Alexandra G. Dumas e Mestre Aguinaldo Silva.
Mediação: Rafael Galante
20 de março, quinta, 14h-15h30
Centro de Referência da Dança
Gratuito

Reflexão sobre as interações entre artes cênicas e culturas populares, abordando resistência, invisibilização e apropriações.

OFICINAS

Oficina de Cavalo Marinho

Com Mestre Aguinaldo Silva
20 de março, quinta, 16h-19h
Centro de Referência da Dança
Gratuito

Introdução ao Cavalo Marinho, explorando figuras, figurinos, musicalidade e movimentações desta manifestação afro-brasileira.

Brincando com Nóbrega – A cultura popular e a educação

Com Antonio Nóbrega
19 de março, quarta, 15h-16h30
Centro Cultural São Paulo – CCSP
Gratuito

O multiartista demonstra como as representações simbólicas populares brasileiras podem desenvolver habilidades cognitivas através do lúdico.

OLHARES CRÍTICOS
Curadoria: Helena Vieira

REFLEXÕES ESTÉTICO-POLÍTICAS

A Arte Como Lugar de Encontro

Com Amara Moira, Edgar Kanaykõ Xakriabá e Erica Malunguinho
14 de março, sexta, 18h-19h30
Itaú Cultural
Gratuito

Debate sobre práticas artísticas que criam espaços de encontro entre diferentes corpos, territórios e estéticas.

Poéticas da Ruptura na Cena Contemporânea

Com Ave Terrena, Grace Passô, Maria Carolina Casati e Verónica Valenttino
17 de março, segunda, 15h-16h30
Goethe-Institut
Gratuito
Diálogo sobre práticas cênicas que desafiam paradigmas estéticos e políticos.

PENSAMENTO-EM-PROCESSO

Corpo e Movimento: Expressões de Identidade e Resistência

Com Noá Bonoba, Idio Chichava e Jéssica Teixeira
14 de março, sexta, pós-apresentação de Vagabundus
Teatro do SESI-SP

Envelhecimento, Desejo e Arte

Com João Silvério Trevisan e Mohamed El Khatib
22 de março, sábado, pós-apresentação de A Vida Secreta dos Velhos
Sesc Vila Mariana

ESPECIAL

MITsp – História e Perspectivas

Com Antonio Araujo, Guilherme Marques e Maria Fernanda Vomero
18 de março, terça, 15h-16h30
Itaú Cultural
Gratuito

Reflexão sobre os 10 anos da MITsp, suas conquistas e desafios futuros.

PRÁTICA DA CRÍTICA

A Crítica em Tensão – Desafios no Contemporâneo

Com Silvana Garcia, Dione Carlos e Daniele Avila Small
19 de março, quarta, 18h-19h30
Centro Cultural São Paulo
Gratuito

Debate sobre os desafios da crítica teatral em tempos de polarização e transformações sociais.

Aula-magMa com Denise Ferreira da Silva

15 de março, sábado, 15h-17h
Teatro do Sesi
Gratuito

A filósofa e artista apresenta uma aula sobre as interseções entre raça, poder e ética.

ENCONTROS ARTISTA EM FOCO

A luta continua na contínua luta

Com André Lepecki
17 de março, segunda, 18h-20h
Goethe-Institut
Gratuito

Reflexão sobre o “não-tempo da luta” na dança e arte de Nora Chipaumire.

Diálogos Indisciplinares

Com Nora Chipaumire, Denise Ferreira da Silva e André Lepecki
16 de março, domingo, pós-apresentação de Dambudzo
Sesc Pompeia

Interlocuções sobre o trabalho de Nora Chipaumire, artista em foco da 10ª MITsp.

Processo em Movimento

Com Nora Chipaumire e Jay Pather
23 de março, domingo, pós-apresentação de acontinua
Sesc Pompeia

Bate-papo sobre o novo trabalho e processo criativo de Nora Chipaumire.

Serviço:

MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – 10ª Edição
13 a 23 de março de 2025
Ingressos: https://mitsp.org/2025/ingressos-2025/
Outras informações: MITsp 2025

 

 

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O palco do mundo para além do eurocentrismo 9ª edição da MITsp investe no decolonial

Broken Chord [Acorde Rompido] faz a abertura da MITsp. Foto: Thomas Müller / Divulgação

Na sua nona edição, a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo aprofunda sua essência experimental e crítica, apostando numa perspectiva curatorial que destaca espetáculos oriundos das margens das hegemonias geográficas. Encontramos aqui obras e artistas cujas raízes territoriais, étnicas e culturais manifestam diversificadas teatralidades e investigações. A presença de criadores, grupos e pesquisadores/as da África, Ásia, Oriente Médio e América Latina reflete um esforço da MITsp de descentralizar do cânone  das narrativas eurocêntricas do teatro e ampliar o palco para outras vozes. “Neste sentido, a curadoria intensificou a perspectiva decolonial”, afirma Antonio Araujo, no material de divulgação. 

Araujo, diretor artístico, e Guilherme Marques, diretor geral, idealizadores da Mostra, aquecem as provocações sobre nosso tempo com as discussões que atravessam os trabalhos, carregadas de novos olhares para questões como memória, racismo, transfobia, identidade, conhecimento, colonialismo, entre outros.

A MITsp é um dos principais eventos de artes cênicas do país e funciona em quatro eixos principais: Mostra de Espetáculos, Ações Pedagógicas, Olhares Críticos e MITbr – Plataforma Brasil.  A programação ocorre entre entre os dias 1º e 10 de março de 2024 e conta com nove montagens internacionais, uma estreia nacional, dez espetáculos na MITbr série de oficinas, debates e conversas ao longo dos dez dias de evento.

O espetáculo Broken Chord [Acorde Rompido], uma colaboração entre Gregory Maqoma e Thuthuka Sibisi, faz a abertura dessa intensa maratona cênica no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros. A obra mergulha  A peça mescla dança e música tradicionais africanas com elementos da dança contemporânea e música clássica europeia, e mergulha nos efeitos duradouros do apartheid, para investigar as feridas históricas.

Também da África do Sul, O Circo Preto da República Bantu, solo de Albert Ibokwe Khoza, discute racismo e violência contra corpos negros através da história dos zoológicos humanos na Europa.

Lolling and Rolling, do sul-coreano Jaha Koo. Foto de Marie Clauzade

Nesta edição da MITsp o foco se volta para a obra do diretor e compositor sul-coreano Jaha Koo, que traz ao evento sua Trilogia Hamartia, composta por Lolling and Rolling, Cuckoo e A História do Teatro Ocidental Coreano. Essa série explora a intersecção e o impacto do encontro entre culturas orientais e ocidentais na vida individual, ancorada no conceito grego de “hamartia”, que se refere a um defeito ou falha trágica.

Contado pela Minha Mãe, do libanês Ali Chahrour, outra obra da mostra, utiliza uma combinação de dança, teatro e música para narrar a história de uma mãe que se recusa a aceitar a morte de seu filho, criando poemas e canções na esperança de seu retorno.

Profético (nós já nascemos), da costa-marfinense Nadia Beugré, aborda questões de racialidade, transsexualidade e preconceito com um enfoque crítico e engajado.

A Argentina contribui com duas estreias: PERROS – Diálogos Caninos, uma colaboração entre Monina Monelli, Celso Curi e Renata Melo, explora a complexidade das relações entre humanos e cachorros; enquanto Wayqeycuna [Meus Irmãos], de Tiziano Cruz, investiga a memória e a identidade cultural através dos quipus, um artefato andino tradicional.

A MITsp investiu como produção nacional na estreia de Agora tudo era tão velho – FANTASMAGORIA IV, sob a direção de Felipe Hirsch, marcando a continuidade do festival em ser uma plataforma de lançamento para obras de artistas brasileiros renomados e emergentes.

A MITsp de 2024 reforça que é um evento chave no calendário cultural da cidade de São Paulo, e do Brasil, e reflete o compromisso do festival em oferecer um espaço para diálogos transculturais e a exploração de temas contemporâneos através do teatro, dança e performance.

Em 2024, a MITsp tem patrocínio  da Redecard, Sabesp e Prefeitura Municipal de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Cultura. A mostra tem correalização do Sesi, Consulado Francês, Instituto Francês, Centro Cultural Coreano no Brasil e Goethe Institut; e copatrocínio do IBT – Instituto Brasileiro de Teatro. A realização do evento é da Olhares Cultural, ECUM Central de Produção, Itaú Cultural, Sesc SP e Ministério da Cultura – Governo Federal.

MITbr Plataforma Brasil

Lançada em 2018, a MITbr – Plataforma Brasil emerge como um componente vital da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), dedicada à promoção e internacionalização das artes cênicas brasileiras. A cada ano, a plataforma se propõe a apresentar uma seleção de obras nas áreas de teatro, dança e performance, enfatizando a diversidade regional do Brasil e abordando temas contemporâneos e urgentes.

Para a seleção dos projetos, a MITbr conta anualmente com a expertise de curadores convidados, que são encarregados de escolher entre 10 e 12 trabalhos de um conjunto de inscrições que, desde sua primeira edição, supera a marca de 400 candidaturas. O objetivo é destacar a riqueza e a qualidade da cena artística brasileira em um contexto global.

Neste ano, os curadores Marise Maués, Cecilia Kuska e Marcelo Evelin analisaram 446 inscrições provenientes de 19 estados do Brasil, do Distrito Federal e de países da América Latina. A seleção resultou em dez obras que serão vistas entre o público geral por um grupo composto por cerca de 100 programadores nacionais e internacionais, uma investida para  ampliar o reconhecimento e a circulação das artes cênicas brasileiras no cenário mundial.

As obras escolhidas para a nona edição da MITsp são representativas da riqueza artística brasileira, cada uma originária de diferentes cidades do país, demonstrando a vasta gama de estilos e temáticas abordadas pelos artistas nacionais:

Ané das Pedras da Coletiva Flecha Lançada Arte, é uma obra que vem do Crato (CE) e da aldeia Kariri-Xocó (AL). O espetáculo explora a relação indígena com a terra e a natureza através de um ritual de plantação de pedra, destacando a visão indígena sobre a existência e a comunicação com o meio ambiente. Por sua vez, Dança Monstro”, da Cia. dos Pés, vem de Maceió (AL) e investiga a interação entre o corpo humano e a natureza, utilizando a dança como meio de conexão com o essencial.

EU NÃO SOU SÓ EU EM MIM – Estado de Natureza – Procedimento 01, do Grupo Cena 11, originário de Florianópolis (SC), propõe uma reflexão sobre a identidade brasileira, misturando dança e teoria para questionar o conceito de “povo brasileiro”. 

Gente de Lá, de Wellington Gadelha, traz uma perspectiva de Fortaleza (CE), apresentando um olhar crítico sobre a violência estrutural dirigida à população negra no Brasil, através de uma performance que mescla artes visuais e movimento.

Já O que mancha, de Beatriz Sano e Eduardo Fukushima, é um projeto de São Paulo (SP), que desafia as fronteiras entre o movimento e o som, questionando dualidades como humano/animal e masculino/feminino. 

Meu Corpo Está Aqui”, produzido pela Fábrica de Eventos do Rio de Janeiro (RJ), aborda as experiências de pessoas com deficiência, explorando questões de relacionamento, corpo e desejo.

Lança Cabocla, da Plataforma Lança Cabocla, é um espetáculo multimídia que une São Luís (MA), Fortaleza (CE), Salvador (BA) e São Paulo (SP), explorando danças populares e afrodiaspóricas em um contexto contemporâneo.

7 Samurais, de Laura Samy do Rio de Janeiro (RJ), inspira-se no clássico filme Os Sete Samurais para criar uma ponte entre os guerreiros japoneses e os artistas de hoje, investigando suas lutas e existências.

Eunucos, das Irmãs Brasil, com origens em São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ), reflete sobre a castração, a transição de gênero e as performances de gênero em uma abordagem crua e simbólica.

Wilemara Barros é a artista em Foco da MITbr e apresenta o espetáculo Preta Rainha. Foto: Luciano Gomes

E por fim, a peça da “Artista em Foco” deste ano. Preta Rainha é um solo autobiográfico que percorre a vida de Wilemara Barros, bailarina e educadora vinculada à Cia. Dita, sediada em Fortaleza. Aos 60 anos, Barros apresenta uma obra que funciona tanto como uma introspecção pessoal quanto uma exposição pública de sua rica jornada artística. 

Preta Rainha é mais do que uma performance; é um mergulho profundo nas memórias pessoais e afetivas de Barros, traçando sua evolução desde os primeiros passos no balé clássico até a consagração como artista contemporânea. Este solo narra a história de sua vida e reflete sobre a herança cultural e ancestral que lhe foi transmitida por sua família. A peça se destaca por seu caráter introspectivo e pela maneira como Barros se apropria de seu legado, reafirmando sua identidade e contribuição para a dança brasileira.

Além de criar uma vitrine para os talentos brasileiros no cenário global, a MITbr – Plataforma Brasil, incorporou uma série de programas educacionais e de reflexão, como o Seminário de Internacionalização das Artes Cênicas Brasileiras e workshops destinados a capacitar artistas e produtores locais. Guilherme Marques destaca a importância da preparação além da produção artística. Ele ressalta que o mercado internacional, com sua estrutura altamente organizada, exige dos profissionais não apenas excelência artística, mas também um profundo entendimento das dinâmicas de negociação e comunicação. Isso é fundamental para que as obras alcancem os programadores e plataformas ideais. Marques aponta para a lacuna existente no Brasil em relação ao papel do agente-difusor, uma figura chave no mercado internacional de artes, mas ainda pouco presente no contexto nacional.

Ações críticas e pedagógicas

O segmento Olhares Críticos destaca a participação de Achille Mbembe, renomado filósofo, historiador e acadêmico camaronês. Mbembe, uma figura proeminente nos estudos pós-coloniais, é conhecido por suas análises afrocêntricas dos impactos do colonialismo tanto na África quanto globalmente, além de ter introduzido o conceito de necropolítica. Sua participação na MITsp inclui uma aula magna programada para ocorrer na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) no dia 4 de março, marcando um dos pontos altos do evento.

Para o ano de 2024, a curadoria do Olhares Críticos está sob a responsabilidade de Leda Maria Martins, ensaísta, dramaturga e professora, que visa fomentar o debate sobre as intersecções entre as artes cênicas e questões contemporâneas. Este eixo do evento será enriquecido por uma série de atividades que incluem conversas com pensadores e pesquisadores de diversas disciplinas, além da publicação de uma variedade de materiais críticos, como críticas, artigos e entrevistas. Entre os destaques da programação estão as sessões de Reflexões Estético-Políticas, Pensamento-em-Processo, Diálogos Transversais e Prática da Crítica, prometendo um ambiente rico em diálogo e reflexão crítica sobre o papel e a influência das artes cênicas na sociedade contemporânea.

No segmento de Ações Pedagógicas da MITsp, sob a curadoria de Dodi Leal, que é performer, docente e investigadora, o público é convidado a mergulhar no universo criativo dos artistas participantes por meio de uma programação diversificada que inclui diálogos, oficinas, apresentações musicais e atuações. Um dos pontos centrais é o Encontro de Pedagogias Teatrais, que visa a renovação das técnicas de criação no teatro através da exploração de metodologias educacionais influenciadas pelos conhecimentos transgêneros. Outra iniciativa significativa é o Laboratório de Pedagogias da Performance, que promove o encontro de artistas e acadêmicos, tanto nacionais quanto internacionais, para discutir e praticar a arte performática, destacando-se a participação da artista argentina Susy Shock.

Além desses eixos, a MITsp oferece a edição de Cartografias, um catálogo que funciona como um compêndio de ensaios, entrevistas e artigos elaborados por pesquisadores e artistas do Brasil. Esta publicação resulta de uma colaboração com o Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), sendo editada pelo professor e pesquisador de artes cênicas, Ferdinando Martins. Cartografias busca não apenas documentar as diversas vozes e perspectivas presentes na MITsp, mas também contribuir para o debate acadêmico e prático dentro das artes cênicas contemporâneas.

9ª MOSTRA INTERNACIONAL DE TEATRO DE SÃO PAULO

Quando De 1º a 10 de março 

Onde: São Paulo: Biblioteca Mário de Andrade, Centro Cultural Olido, CCSP – Centro Cultural São Paulo, Cúpula do Theatro Municipal de São Paulo, Itaú Cultural, Teatro Cacilda Becker, Teatro Paulo Autran – Sesc Pinheiros, Teatro Antunes Filho – Sesc Vila Mariana, Teatro Anchieta – Sesc Consolação, Teatro do Sesi-SP e Tendal da Lapa.

A programação completa está disponível no site www.mitsp.org.

 

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Uma razão de viver
Crítica do espetáculo Estádio
+ abertura da MITsp

Torcida do Lens Racing Club, conhecida como a mais fanática entre os franceses. 

Provocação do público do futebol ao teatro e seus artistas

Mascote e torcida

Sempre me perguntei por que não, ou porque não mais, o teatro não mobiliza multidões, as paixões idólatras. As possibilidades de respostas são milhares e inconclusivas e não vou mergulhar em nenhuma delas. Cito apenas a frase do filósofo Gilles Deleuze, já convocada pelo dramaturgo, encenador, ator e escritor franco-marroquino Mohamed El Khatib, para pensar sobre o espetáculo Estádio (Stadium). “Basicamente, o que diferencia um público de teatro de um público de futebol?”, pergunta Deleuze para emendar jocoso, “Quero dizer, além de roupas?”

Mohamed El Khatib é amante do futebol e jogou como meio-campista por alguns anos. A opinião do pai, também grande fã das partidas futebolísticas, inspirou o filho a construir essa pesquisa. A torcida do Lens Racing Club é conhecida como a mais fanática claque francesa, apesar de o time só ter conseguido a façanha de conquistar um único título na história, em 1997/8. O dramaturgo passou mais de um ano em Lens, situada na região norte da França, entrevistando moradores da pacata cidade de 35 mil habitantes.

Khatib ousa entrar em territórios difíceis, como ocorreu com Finir en beauté, que esteve na MITsp de 2019. Uma narrativa íntima pautada pela tristeza da ausência com a morte e o luto de sua mãe. Ou C’est la vie (2017) que parte dos depoimentos de dois atores sobre a experiência dolorosa da perda dos filhos, em circunstâncias diversas.

Estádio (Stadium), que abriu a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo de 2022, leva a assinatura dos diretores Khatib e Fred Hocké. Eles colocam em cena torcedores do clube para friccionar os campos do futebol e do teatro e pôr na roda aquela pergunta do Deleuze, o que diferencia essas audiências para além dos códigos de vestimenta.

São muito interessantes as dobras dessa peça de teatro documental. O caráter intimista dos depoimentos dos apoiadores do LRC, levados à cena em vídeos ou testemunhos ao vivo com a projeção coletiva.  A dedicação ao time faz as conexões pessoais com o senso de comunidade da classe trabalhadora. As camadas mais políticas são puxadas com as declarações sobre rivalidades, desemprego, pertencimento, solidariedade, espírito de equipe e amor incondicional ao clube.

O autor e diretor, de costas, e o turma do Corinthians . Foto Silvia Machado

Em Estádio, Mohamed está no palco para apresentar seus convidados, as garotas pompom, os mascotes e a banda marcial. O autor-realizador faz muitas perguntas aos torcedores.  Mas, em algum momento, o líder da galera pergunta a Mohamed – e ao teatro, e aos artistas – se existe mais liberdade de expressão no teatro do que no futebol. Fica a pergunta.

Da perspectiva dos apoiadores do LRC – trabalhadores das minas e operários, alguns empregados na limpeza e na segurança no Louvre – há um viés de violência de classe no acossamento da polícia. Avisam numa das faixas: “Somos violentos, nem mais e nem menos que a polícia”.  

Os torcedores devotos de um clube de futebol de segunda divisão estão no palco.  O match com a plateia do teatro parece que chega parcial para Estádio na temporada paulistana. Li que na França, o projeto de El Khatib foi um sucesso. 

As apresentações no Brasil contaram com adeptos do Corinthians, um time grande (mas acho que não tinha muito corinthiano na plateia). A zombaria irônica da peça proposta em perguntas por El Khatib ficou dispersa entre os torcedores do Corinthians.

Parece-me que o país do futebol gosta de falar do seu futebol. As conexões testadas pela encenação não visualizaram gerar grande empolgação por aqui. Pelo menos foram as falas que mais escutei depois da apresentação. As provocações da torcedora lembrando da derrota do Brasil por 7 x 1 para a Alemanha ou a Copa do Mundo 2018 para os Les Bleus (Os Azuis) não foram encaradas como uma piada agradável.

Garotas do pompom. Foto Silvia Machado

Bandeira foi confeccionada pela avó do torcedor

As garotas de pompom reforçaram a distância de realidades. A fala supostamente feminista da jovem que se diz acima de peso, mas que conseguiu se firmar na torcida e encontrar uma libertação soou um pouco estranha na argumentação. As entrevistas em vídeo, sem filtros nem grandes intervenções de edição, com o tempo estendido para falar do cotidiano, chegavam como um “tudo isso poderia ser resumido”.

Um dos momentos mais impactantes, e belos, é quando um torcedor agita a grande bandeira do clube, que foi confeccionada por sua avó. O coração da torcida cola naquele gesto, enquanto o estandarte traça desenhos no ar.

Público vai ao palco para pegar cerveja, água e batata frita no intervalo

Como se fosse um jogo de futebol, depois dos 45 minutos do primeiro tempo há um intervalo de 25 minutos. Parece que espetáculo parou, mas podemos dizer que continua com a distribuição de copos de cerveja, batatas fritas e água no food-truck instalado no palco. Em alguns lugares, os produtos eram vendidos; na temporada brasileira, foram distribuídos gratuitamente. Muitos seguiram o chamado, mas não podemos comparar a animação com a dos torcedores em um estádio de futebol.

É uma outra experiência, subir ao tablado reservado para o elenco e atentar para o teatro em outra perspectiva. E observar da plateia os espectadores criarem coreografias corais não programadas.  

A performance documental vem carregada das pulsões dessas pessoas, que dedicam parte da vida à torcida. Há algo de tocante e cáustico nas escolhas, (na falta de) horizontes do capitalismo, desenvolvido nessa partitura coral repleta das energias do coletivo.

Não aparece o esporte espetacular, que o brasileiro tanto gosta. Mas o projeto utópico dos franceses, de gerar transformações segue o efeito de produzir pensamento. Afastar noções óbvias. Mohamed El Khatib atua no limite no teatro. Seu trabalho é desestabilizador.

 

Abertura da MITsp

Zahy Guajajara e Dodi Leal, mestras de cerimônia da abertura da MITsp. Foto Silvia Machado

Guilherme Marques,  Rafael Steinhauser e Antonio Araujo, diretores geral, institucional e artístico

Público no Teatro Paulo Autran, do Sesc Pinheiros

As corpas falam muito de si e do mundo. Algumas mais. Gritam coisas que não podem mais ser caladas. Na abertura da 8ª edição da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo no Teatro Paulo Autran, do Sesc Pinheiros, na noite de quinta-feira (2/6), as mestras de Cerimônia Dodi Leal e Zahy Guajajara deram um recado que muitos de nós queremos dar.  “As placas tectônicas não param de se mexer… Nunca urgimos tanto pela vida pública como agora…”, pontuaram.

Dodi, curadora do Eixo Ações pedagógica da MITsp deste ano, professora e performer trans; e Zahy, atriz e ativista indígena, prosseguiram provocando, acedendo as moléculas e talvez revelando o estado de espírito de quem trabalha com cultura, depois de tanta redução de direitos. “Quais as vidas que importam para o Estado Brasileiro?”, perguntam para afirmarem em seguida: “Não há democracia étnico-racial no Brasil atual. Não há diversidade no Brasil atual. Não há igualdade de gênero no Brasil atual. Não há inclusão no Brasil atual”.

Para traduzir os impactos que esses tempos árduos trouxeram, ela soltaram que essa é uma mostra de teatro pó-colonial, “pois é a partir do pó da colonização, no resto da modernidade, que elaboramos a nossa cena”.

Foram chamados ao palco o Diretor Regional do Sesc SP, Danilo Santos de Miranda, que reforçou a importância da cultura em nosso país e saudou a volta presencial da MITsp. Depois Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural também salientou a relevância da mostra.

O secretário de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, Sérgio Sá Leitão, aproveitou para falar que entre os editais da sua pasta foi lançado um de apoio para intercâmbio de grupos teatrais paulistas ao festival de Edimburgo.

Secretária municipal de cultura da cidade de São Paulo, Aline Torres

Durante o discurso da secretária municipal de Cultura da cidade de São Paulo, Aline Torres, alguém da plateia gritou “Fora, Bolsonaro”. Ela não perdeu a deixa e comentou “É isso que a gente quer gritar para o mundo”. E emendou que tem pouco tempo para isso acontecer.

O diretor geral de produção Guilherme Marques, da MITsp, falou em seu nome e do parceiro Antonio Araujo, diretor artístico, ambos idealizadores da Mostra. Com uma edição mais concisa, feita nas condições do possível, ele se declarou agradecido em retornar aos palcos presenciais, após uma edição totalmente on-line devido à pandemia. Passou um vídeo em que homenageia a equipe que trabalha na MITsp e que realizou tarefas hercúleas para levantar essa edição. Lembrou dos esforços da mostra na internacionalização das artes cênicas. Emocionado, citou o verso da canção do Belchior, que diz “ano passado eu morri, mas este ano eu não morro!”.

Nessa abertura havia um desassossego no ar. Um contentamento descontente. Seguimos pulsando e atuantes, mas não podemos esquecer dos nossos mortos. São mais de 600 mil brasileiros mortos pela pandemia. Um quadro econômico absolutamente inaceitável e um cenário social difícil para dizer o mínimo. Todos nós sabemos. Mas são a arte e cultura nossos instrumentos de luta e de mudança.

 

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Ganhar o mundo é uma proposta da Plataforma Brasil, da MITsp

Alessandra Negrini em A Árvore.  Foto: Divulgação

in.verter. Foto: Cacá Bernardes / Divulgaçao

Glitch com Flavia Pinheiro. Foto: Divulgação

Marta Soares em Vestigios. Foto João Caldas / Divulgação

Alargar horizontes e encontrar novos portos de chegada são desejos da maioria dos artistas e grupos brasileiros das artes cênicas. A Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp vem apostando no fomento e promoção de grupos e artistas nacionais rumo à internacionalização há alguns anos. Mais uma ação nesse sentido é a programação especial de espetáculos e performances nacionais, a Plataforma Brasil – Mostra Digital de Artes Cênicas, que a MITsp apresenta entre 1° e 5 de dezembro, pelo site MIT+ (mitmais.org), braço digital da Mostra.

O evento, destinado a programadores nacionais e internacionais, mas estendido ao público gratuitamente, inclui 18 montagens de 14 artistas e grupos de vários estados brasileiros. A MITsp também anuncia a 8ª edição da MITsp, programada para a primeira quinzena de junho de 2022.

Os espetáculos que estão na mira da MITsp são aqueles que priorizam a pesquisa experimental e investigação da linguagem cênica, definem os idealizadores da MITsp, Antonio Araújo (Teatro da Vertigem) e Guilherme Marques (Ecum – Encontro Mundial das Artes Cênicas), diretor artístico e diretor geral de produção, respectivamente. Além da programação de espetáculos nacionais, a MITsp tem investido nas atividades pedagógicas voltadas para a capacitação de gestores e produtores culturais.

A Plataforma Brasil – Mostra Digital de Artes Cênicas em 2021 tem curadoria de Kil Abreu e Sônia Sobral e foi pautada pela escolha de produções de todo Brasil em diálogo com questões urgentes no mundo.

A seleção em teatro, dança e performance oferece espetáculos inéditos na plataforma e outros do acervo da MITbr, que já se apresentaram presencialmente em edições anteriores da Mostra. O conteúdo ficará disponível na MIT+ durante o período da Mostra com opção de legendas em inglês, Libras e audiodescrição.

Programação

Loess uma das quatro performances que Marise Maués apresenta. Foto: Divulgação

Serenatas Dançadas, de Soraya Portela, do Piauí. Foto: Divulgação

Desfazenda Me enterrem fora desse lugar, do Coletivo O Bonde Foto: Jose de Holanda / Divulgação

Loess é um conceito da geologia que aponta um tipo de solo arenoso, inconsistente, sedimentado. Loess é uma das quatro performances que Marise Maués apresenta como reflexão sobre a fragmentação do humano contemporâneo, com múltiplas identidades e em contínuo processo de mudança. As outras três são Nóstos, Kali, Paisagem Derruída, exibidas pela primeira vez na Mostra e que investigam questões do território paraense.

Serenatas Dançadas, de Soraya Portela, do Piauí, articula o encontro de quatro mulheres do Nordeste brasileiro com suas memórias, suas paisagens íntimas e seus desejos. O cotidiano fabulado e bem-humorado de Lara Luz, Vera Lu, Tetê Souza e Raimunda Flor do Campo é dançado celebrando o amanhã.

“Vapor” é uma gíria que significa sumir, nos becos das periferias de Teresina (PI) ou outras urbanidades. O morador da quebrada que morre, evapora. O cara que vende a ilícita aos consumidores. Pode dar conta do olheiro que vigia as entradas da favela e avisa à rede. Ou os mais vulneráveis, vítimas da ação policial, executados na juventude. A Original Bomber Crew apresenta Vapor, a partir da pesquisa e cultura do hip hop.

Glitch, palavra que quer dizer “deslizar”, “escorregar”, entrou na linguagem da informática para indicar um mau funcionamento. No uso corrente vale para qualquer tipo de pequeno problema inesperado que atrapalha o bom funcionamento de qualquer coisa. Flavia Pinheiro adota o nome Glitch no trabalho que investiga como corpos queer, desobedientes, podem hackear e desestabilizar sistemas hegemônicos de poder. Em cena, performers expõem suas individualidades, mas essa coletividade sofre colapso no palco.

Na coreografia Delirar o Racial, os artistas cariocas Wallace Ferreira e Davi Pontes conectam dança e filosofia para desafiar a lógica da violência moderna. É uma dança de autodefesa, repleta de movimentos acrescidos de artes marciais e da capoeira, para que o corpo negro exista sem a repetir a violência colonial sem se autodestruir , com os dois corpos em cena em constante diálogo e negociação.

Na peça-filme Desfazenda – Me enterrem fora desse lugar, do Coletivo o Bonde, de São Paulo, quatro pessoas pretas vivem na fazenda de um Padre Branco. Quando crianças, 12, 13, 23 e 40 foram salvas da guerra pelo homem. A guerra nunca atingiu a fazenda. O Padre nunca sai da capela. E em qualquer questionamento, um sino soa.

Eduardo Fukushima, de São Paulo, experimenta o desconfortável em si, com o solo Homem Torto, uma dança não simétrica que sugere um corpo frágil, mas com o vigor dos fortes. É uma dança que investe nos opostos como a dureza e a leveza, a fragilidade e a força, o equilíbrio e o desequilíbrio, movimentos fluidos e cortados, o dentro e o fora do corpo.

In-verter à Deriva, da paulista Les Commediens Tropicales, mistura ficção e documentário, em um experimento cênico audiovisual, que traz imagens do grupo em suas intervenções urbanas com dança, performance e teatro.

Em A Árvore, Alessandra Negrini interpreta A, escritora solitária que se metamorfoseia em uma árvore. É um relato poético que peregrina pelo isolamento, pela esperança, pelo íntimo contato com o estranho e pelo desconhecido de um novo ser em um novo mundo. A peça híbrida entre teatro e cinema, da dramaturga mineira Silvia Gomez, se inspira no fantástico e no absurdo para falar da relação de amor e ruína com o meio ambiente em que vivemos.

Boca de Ferro. Foto: Gelson Catatau

Dinamarca. Foto: Bruna Valença / Divulgação

Renata Carvalho. Foto: Nereu Jr / Divulgação

Algumas peças que foram apresentadas nas edições anteriores da MITbr estão na programação. Boca de Ferro, das cariocas Marcela Levi e Lucía Russo, traz a sonoridade de Belém em uma dança irreverente, provocadora. Dinamarca, do Grupo Magiluth, de Pernambuco, foi inspirado em Hamlet e propõe uma reflexão sobre o fenômeno das bolhas sociais.

Com Manifesto Transpofágico, a autora e atriz paulista Renata Carvalho questiona a construção de corpos, identidades e preconceitos contra travestis.

O Grupo Cena 11, de Santa Catarina, resgata, em Protocolo Elefante, o exílio da morte dos elefantes para falar de pertencimento e deslocamentos. Vestígios, da Marta Soares, é resultado de uma imersão em cemitérios indígenas pré-históricos na região de Laguna, em Santa Catarina, e mistura performance, videoinstalação e dança.

Ver(ter) à Deriva, espetáculo da paulista Les Commediens Tropicale, é formado por um conjunto de intervenções cênicas propostas para espaços externos e públicos, que dialogam com o silêncio das imagens de uma metrópole.

A Plataforma Brasil – Mostra Digital de Artes Cênicas tem apresentação da Prefeitura Municipal de São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Apoio institucional do Goethe Institute, Sesc SP, Festival Panorama, Faroffa. Apoio Cultural do Núcleo dos Festivais, KVS – Proximamente, Art Republic. A realização é da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo e do Olhares Instituto Cultural.

Parcerias com festivais: resultados práticos

A MITsp, por meio da MITbr – Plataforma Brasil já fechou acordos com eventos de artes cênicas. São parceiros os festivais de Edimburgo; o Proximamente da KVS, em Bruxelas, o Lift, em Londres e o Festival de Santarcangelo, na cidade italiana de mesmo nome.

Alguns resultados das ações. Altamira 2042, de Gabriela Carneiro da Cunha, está em turnê por festivais de países como França, Portugal, Suíça e Uruguai até o início de 2022. Lobo, de Carolina Bianchi, foi convidado a se apresentar no Skirball, em Nova York, em 2020. A atriz e diretora Janaína Leite, que se apresentou na edição de 2020, dará um workshop no Festival Proximamente, na Bélgica. O Grupo Mexa levou Cancioneiro Terminal para o Festival Traansform, em Leeds, na Inglaterra.

Outros espetáculos como violento., solo encenado por Preto Amparo, com concepção de Preto Amparo, Alexandre de Sena, Grazi Medrado e Pablo Bernardo; Caranguejo Overdrive, da Aquela Cia de Teatro; Isto é um Negro?, do grupo E Quem É Gosta?; Vaga Carne, de Grace Passô; De Carne e Concreto, da Anti Status Quo Companhia de Dança estiveram em festivais como o Festival Mladi Levi, na Eslovênia, o Proximamente e o FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, no Porto, Portugal.

Serviço

Plataforma Brasil – Mostra digital de artes cênicas
On Demand – De 1º, às 11 horas, ininterruptamente, até 23 horas do dia 5 de dezembro de 2021
Conteúdo legendado em inglês e acessível com audiodescrição e Libras.
MIt+:
Informações e acesso gratuito em www.mitmais.org
Para ter acesso ao conteúdo, basta fazer o cadastro, gratuitamente, no site da plataforma e acessar a página de programação para escolher o espetáculo.

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