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Pernambuco no Porto Alegre em Cena

 

Mudando de pele. com Taís Araújo. Foto Nana Moraes

Lia Lia, com Bete Coelho e Camila Pitanga. Foto: Divulgação

Bando do Nada com o espetáculo Imorais. Foto Divulgação

Pela Noite, produção do Recife inspirada em Caio Fernando Abreu. Foto: Divulgação

Porto Alegre tem um festival que, há 33 edições, transforma a cidade em um acontecimento teatral. A cena se expande para além das casas de espetáculos e ocupa ruas, praças e espaços alternativos. São 13 espaços, dos tradicionais às salas independentes, que viram endereços do Porto Alegre em Cena, um dos maiores festivais de artes cênicas da América Latina, que desde 1994 arrasta em média 100 mil espectadores por ano, e que neste ano, entre 10 e 20 de setembro, ocupa a capital gaúcha. Esse é o tamanho de uma prática que virou tradição. Em 2026, esse encontro se confirmou rápido. Metade dos ingressos esgotou em menos de 24 horas após a abertura das bilheterias virtuais, e a maioria dos espetáculos já não tem mais lugares disponíveis para venda. Por trás dessa operação está o coordenador-geral Luciano Alabarse, com a direção geral de Letícia Vieira, a coordenação geral de produção de Claudia D’Mutti e a curadoria da programação local assinada por Adriana Jorgge, Gabriela Munhoz, Luísa Dias Rosa e Rodrigo Marquez.

Os ingressos desta edição abriram na quarta-feira (12), às 17h, no site oficial. uma semana depois, estão praticamente todos esgotados. As quatro montagens pernambucanas no festival lotaram; duas delas, Imorais e Pela Noite, voaram em poucas horas e estiveram entre as primeiras sessões esgotadas da edição, na companhia das produções estreladas de artistas que o grande público conhece da televisão e do cinema, como Taís Araújo (Mudando de Pele), Bete Coelho e Camila Pitanga (Lia Lia), Danielle Winits (Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente) e Grace Gianoukas (Dora).

Um festival que já foi trincheira do teatro mundial

Falar de Porto Alegre em Cena é falar do festival de artes cênicas mais longevo da capital gaúcha; e um dos mais respeitados do país. Desde 1994, o evento pavimentou uma relação incomum entre uma capital do Sul e o que há de mais radical na cena internacional. A lista de quem passou por seus palcos é impressionante. Peter Brook, o encenador inglês que redefiniu o que se entende por clássico; Pina Bausch, a coreógrafa alemã que reinventou a dança-teatro; Bob Wilson e Patrice Chéreau, dois gigantes da direção contemporânea; Philip Glass, o compositor minimalista; a companhia japonesa Sankai Juku, com seu butô hipnótico; o músico bósnio Goran Bregovic; e Marianne Faithfull, cantora e atriz britânica, para além do teatro.

O festival também foi porta de entrada do Brasil para companhias que dificilmente desembarcariam em território nacional por outros caminhos. O caso mais célebre é o do Théâtre du Soleil, de Ariane Mnouchkine. Na 14ª edição, em 2007, o grupo francês apresentou Les Éphémères  em Porto Alegre; e, para recebê-lo, a produção do festival construiu uma réplica da Cartoucherie, o lendário teatro em que a companhia atua no bosque de Vincennes, em Paris. A experiência rendeu um retorno. Anos depois, o festival foi co-realizador da vinda de Os Náufragos da Louca Esperança ao Rio Grande do Sul. Coisas que só um festival com essa musculatura consegue fazer.

EDDY – violência & metamorfose. Foto: Divulgação

O tamanho desta edição

São 46 espetáculos de teatro, dança, circo e música vindos de dez estados – São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Goiás, Minas Gerais e Rio Grande do Sul – e mais produções da Argentina e do Canadá. Além dos nomes já citados, o festival reúne ainda Sandra Pêra em Eu Apenas Queria que Você Soubesse – A Música de Gonzaguinha; Juliana Linhares e Laila Garin em As Centenárias, versão musical da obra de Newton Moreno, com 16 canções originais de Chico César sob direção de Luís Carlos Vasconcelos. Também na programação Mãos Trêmulas, texto premiado de Victor Nóvoa sobre amor na terceira idade, etarismo e o apagamento dos idosos, com Cleide Queiroz e Plínio Soares sob direção de Yara de Novaes; EDDY – violência & metamorfose, inspirado na obra do escritor francês Édouard Louis; Corpomundo, mais recente espetáculo da Cia. de Teatro e Dança Fábrica de Sonhos, que une arte, inclusão, diversidade e pertencimento; Medeia, espetáculo solo de Tânia Farias, do Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre.

A curadoria atravessa temas como  corpo, racismo, maternidade, envelhecimento, memória, desejo, solidão e pertencimento e faz reverências a Caio Fernando Abreu (30 anos de morte) e Guimarães Rosa (70 anos de Grande Sertão: Veredas). A abertura, no dia 10, é com La Pampa Grande, encontro musical entre artistas gaúchos e argentinos que reúne nomes como Dolores Solá, Liliana Herrero, Hique Gomez, Arthur de Faria, Vitor Ramil e Nina Nicolaiewsky.

Nem sempre foi fácil. Entre crises de financiamento, a pandemia que fechou teatros por quase dois anos e a disputa por atenção num cenário cultural cada vez mais fragmentado, o festival conheceu edições enxutas, de orçamento apertado e público hesitante. A edição passada, por exemplo, levou 31 espetáculos. A atual traz 46; um salto de 15 montagens, com três internacionais, 28 nacionais e 15 locais.

Que Muito Amou, da Cênicas Cia. de Repertório, com direção de Antônio Rodrigues, que também atua

HBLYNDA EM TRANSito, da artista HBlynda Morais. Foto: Divulgação

Pernambuco em quatro atos

A participação pernambucana no festival é um microcosmo da cena recifense: dramaturgia autoral, adaptações literárias e um solo de afirmação de existência. As quatro montagens estão com lotação máxima.

Imorais, o espetáculo de estreia do Bando de Nada Coletivo de Teatro, com texto de Cristiano Primo, mergulha numa família atravessada por comportamentos fora da norma como abuso, traição, incesto, para discutir a hipocrisia das convenções morais.

Outra adaptação abre caminho por um território afetivo: Pela Noite, da NOZ Produz, parte do conto homônimo de Caio Fernando Abreu para reconstruir o reencontro de dois homens separados há quase vinte anos. Um coro de duas vozes conduz a narrativa, feita de solidão, memória, desejo e erotismo, enquanto Pérsio e Santiago decidem, juntos, sair pela noite. A direção é de Edjalma Freitas, com Amanda Clélia, Wydi Silva, Paulo César Freire e Rogério Wanderley em cena. 

Que Muito Amou, da Cênicas Cia. de Repertório, com direção de Antônio Rodrigues, reúne três contos de Os Dragões Não Conhecem o ParaísoSapatinhos Vermelhos, Praiazinha e “Dama da Noite– para investigar as múltiplas faces do amor, do desejo, da perda e da solidão. Personagens “fora da roda”, à margem, expõem afetos levados ao limite, com Barbara Brendel, Antônio Rodrigues e Guga Patriota.

Há ainda um solo que amplia o leque temático. HBLYNDA EM TRANSito, da artista HBlynda Morais, que transforma a própria trajetória de mulher gorda, preta, candomblecista e não binária em performance, teatro, dança e música, com direção musical de Monique Sampaio.

Por trás do contingente pernambucano há uma ponte que vem de longe. A relação entre a produção teatral do Recife e o Porto Alegre em Cena tem na APACEPE – Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco – uma de suas articuladoras centrais. Presidida por Paulo de Castro, ator, diretor e produtor que há 27 anos realiza o Janeiro de Grandes Espetáculos, festival internacional do Recife, que também tem recebido produções gaúchas ao longo dos anos. 

Caio Fernando Abreu com sotaque pernambucano

Uma coincidência bonita da edição é  que dos três trabalhos que celebram os 30 anos da morte de Caio Fernando Abreu, dois vêm do Recife. O escritor nascido em Santiago, na Região Central do Rio Grande do Sul (autor de Morangos Mofados e Os Dragões Não Conhecem o Paraíso) , é homenageado por Pela Noite e Que Muito Amou, ambas pernambucanas, além de uma edição especial do Sarau Voador, com Deborah Finocchiaro e Roger Lerina. O gaúcho mais universal da literatura brasileira encontrou no Nordeste leitores que o devolvem, em cena, à sua terra.

Reside Amaro: a semente que brotou no Recife

Antes de Porto Alegre, a ideia nasceu no Recife. O Reside Alegre, que aquece o festival gaúcho desde 2025, é um desdobramento do Reside Amaro, festival realizado em fevereiro de 2025 no bairro de Santo Amaro, na região central da capital pernambucana. A proposta era a mesma que depois atravessaria o país: transformar as histórias de moradores em dramaturgia, apresentada dentro das próprias casas, bares e ruas do bairro.

O projeto foi gestado pela a produtora Paula de Renor, diretora do Reside Festival, que se inspirou no “teatro vecinal” (teatro de vizinhança) da argentina Monina Bonelli, do coletivo Teatro Bombón, de Buenos Aires. Juntas, com o curador Celso Curi (SP), idealizaram uma ação inédita no Brasil: por três dias, o quarteirão entre as ruas Capitão Lima e Rocha Pita, em Santo Amaro, no Recife,  virou palco de mais de 70 apresentações gratuitas, com vizinhos como artistas e intérpretes das próprias histórias. O produtor e agitador cultural Roger de Renor, morador do local, abriu as portas de casa e se tornou o anfitrião do encontro entre artistas e moradores.

A experiência, que contou com alunos do Curso de Interpretação para Teatro (CIT) do Sesc Santo Amaro em todas as etapas, foi a quinta edição do Reside.FIT/PE Festival Internacional de Teatro de Pernambuco, realizado pela Remo Produções Artísticas, com patrocínio do Banco do Nordeste via Lei Rouanet, apoio do Ministério da Cultura e incentivo do Funcultura e do SIC Recife.

A segunda edição no Recife, porém, ainda não saiu do papel. O Reside Amaro ainda não conquistou um edital que viabilize sua realização novamente. A proposta, porém, não se perdeu. Foi justamente essa ideia – a de um festival que mora dentro do bairro e nasce das histórias de quem vive ali –  que o Porto Alegre em Cena enxergou como algo inédito.

Reside Alegre: a cidade como matéria de dramaturgia

Ao ver na proposta do Reside Amaro um formato inédito de festival, o Porto Alegre em Cena propôs aos envolvidos (a mesma equipe que gestou o projeto no Recife) a realização do Reside em Porto Alegre. Nasceu assim o Reside Alegre, que estreou em 2025 integrando as ações formativas do festival gaúcho e agora realiza sua segunda edição.

O projeto escuta histórias de moradores e as transforma em dramaturgia, apresentada depois nas ruas e em espaços fora dos teatros convencionais, como casas, lojas, esquinas. Depois de estrear no Centro Histórico, a iniciativa ocupa agora a rua Alberto Torres, na Cidade Baixa, onde funciona a sede do festival, com a diretora e iluminadora Nara Maia como “vizinha embaixadora”, ao lado da atriz, diretora e produtora Sandra Possani.

A coordenação reúne a argentina Monina Bonelli (direção), a pernambucana Paula de Renor (curadoria), e os paulistas Celso Curi (curadoria e direção) e Wesley Kawaai (coordenação). A mostra resultante das vivências com os moradores da Cidade Baixa acontece nos dias 5 e 6 de setembro, às vésperas da abertura do festival.

 

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Teatro é ao Vivo. Vá Ver!
Apacepe resgata campanha de divulgação

Cúmplices, com Fabiana Pirro e Júnior Sampaio participa da campanha Teatro é ao Vivo. Vá Ver!

Produtor Paulo de Castro na reunião da retomada na Câmara dos Vereadores

Encontro na Câmara, que definiu os rumos da retomada, com articulação da vereadora Cida Pedrosa (ao centro)

A retomada da campanha Teatro é ao Vivo. Vá Ver! pela Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (APACEPE) chega como uma promessa de aproximação do potencial público pagante com a produção teatral do estado. Após um hiato que coincidiu com transformações profundas no consumo cultural brasileiro, intensificadas durante a pandemia, esta iniciativa reafirma a arte presencial como experiência insubstituível frente virtualização crescente.

Entre 2004 e 2014, o modelo original estabeleceu uma referência nacional de divulgação teatral. Durante uma década, o projeto garantiu visibilidade para aproximadamente 2.600 espetáculos através de mais de 8.300 inserções televisivas na Rede Globo Nordeste. Baseando-se em contribuições de R$ 150 por semana de cada produção, enquanto a emissora cedia gratuitamente o espaço publicitário, gerou-se um valor estimado de divulgação superior a 49 milhões de reais em valores atuais.

Através desta estrutura, criou-se um sistema democrático de divulgação que beneficiou diretamente o ecossistema teatral pernambucano. Com 16 inserções semanais de um minuto cada, garantia-se exposição regular para produções que, de outra forma, dependiam exclusivamente de divulgação boca a boca ou materiais impressos com alcance limitado. Consequentemente, grupos menores, sem orçamento publicitário significativo, passaram a competir em visibilidade com grandes produções.

Além da divulgação, o projeto padronizou a comunicação teatral em Pernambuco, criando uma linguagem visual reconhecível que educou o público sobre a programação cultural disponível. Esse processo resultou em aumento documentado na frequência aos teatros e na formação de novos hábitos de consumo cultural, especialmente entre segmentos populacionais que tradicionalmente não frequentavam espaços culturais.

Programação de Retorno

Cantiga à Pedra do Reino, de Lucinha Guerra, abriu a projeto nos dias 17 e 18 de outubro. Foto: Reprodução

Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III, com Fabiana Pirro e Junior Sampaio. Foto: Michéli de Quadros

Esquecidos por Deus, monólogo com Murilo Freire. Foto: Tayná Nunes e Sérgio Ricardo / Divulgação

Gracinha do Samba apresenta A Raiz do Samba com entrada gratuita. Foto: Reprodução

Geraldo Maia apresenta Minha História Sou Eu, celebrando 45 anos de carreira. Foto: Reprodução 

Iniciada em 17 de outubro, a programação de relançamento demonstra a amplitude conceitual que a campanha pretende manter. Inaugurando oficialmente o retorno, o espetáculo Cantiga à Pedra do Reino, de Lucinha Guerra, ocupou nos dias 17 e 18 o Teatro Arraial Ariano Suassuna, estabelecendo conexões com o legado de Ariano Suassuna através do Movimento Armorial.

Dando continuidade ao cronograma, quatro espetáculos representam diferentes linguagens das artes cênicas. Nos dias 22 e 23 de outubro, Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III, com concepção de Moncho Rodriguez e direção de João Guisande e Moncho Rodriguez, ocupa o Teatro Marco Camarotti. Interpretado por Fabiana Pirro e Junior Sampaio, o espetáculo oferece uma leitura politicamente densa da obra shakespeariana, questionando estruturas de poder e mecanismos de cumplicidade social diante de regimes autoritários. Explorando a sedução do poder absoluto e a corrosão moral que acompanha sua busca, a produção dialoga diretamente com questões contemporâneas urgentes.

Para o dia 29 de outubro, Esquecidos por Deus, monólogo com Murilo Freire, baseia-se na obra O Livro das Personagens Esquecidas de Cícero Belmar, com direção e dramaturgia de José Manoel Sobrinho. Navegando pelos territórios da memória, da fé e da identidade, características centrais na dramaturgia nordestina, o espetáculo evidencia a confiança na potência narrativa individual que marca o teatro pernambucano, sendo uma realização do LAPA – Laboratório Pernambucano do Atuante.

A programação musical encerra a semana de lançamento com dois espetáculos no Teatro Capiba. Gracinha do Samba apresenta A Raiz do Samba com entrada gratuita, acompanhada por uma banda formada por Ralph (violão, coral e voz guia), Rinaldo (cavaco), Miguel (coral, pandeiro e malacacheta), Rafael Galdino (surdo), Nyll (tantanzinho, efeitos e coral), Nego Thon (repique, conga e efeitos) e Augusto (tamborim). Com produção geral de Pedro Castro, o espetáculo valoriza as tradições populares e democratiza o acesso cultural.

Fechando a programação no dia 31 de outubro, Geraldo Maia apresenta Minha História Sou Eu, celebrando 45 anos de carreira. Com direção musical de Renato Bandeira e acompanhamento de Gilberto Bala (percussão), Lieve Ferreira (viola) e Renato Bandeira (violão, viola e guitarra semi-acústica), o show funciona como ponte entre gerações, oferecendo aos espectadores mais jovens a oportunidade de conhecer referências fundamentais da música pernambucana. Sob produção geral de Pedro Castro e assistência de produção de Sayonara Silva, o espetáculo marca uma celebração de trajetórias artísticas consolidadas.

Desafios do Retorno

Desde 2014, o cenário midiático transformou-se radicalmente. Com audiências pulverizadas entre plataformas de streaming, redes sociais e conteúdos sob demanda, tornou-se exponencialmente mais difícil alcançar grandes audiências através de um único veículo. Diferentemente do modelo televisivo original, onde a Globo Nordeste assumia os custos de veiculação, as mídias digitais exigem investimentos contínuos em impulsionamento e produção de conteúdo.

Paralelamente às mudanças tecnológicas, a pandemia alterou permanentemente os hábitos de consumo cultural. Desenvolvendo resistência a aglomerações e preferência por experiências controladas em casa, o público também reduziu o orçamento destinado a atividades culturais presenciais. Consequentemente, a campanha precisa reconquistar a confiança na experiência teatral como atividade necessária, exigindo estratégias de comunicação mais sofisticadas que as chamadas de um minuto da versão original.

No aspecto econômico, o modelo financeiro original tornou-se insustentável. Enquanto os custos de produção teatral aumentaram exponencialmente, as receitas diminuíram, tornando qualquer custo adicional um obstáculo significativo para muitas companhias. Simultaneamente, os custos de produção audiovisual profissional cresceram, especialmente para conteúdos que competem por atenção nas mídias digitais.

Estratégias de Adaptação

Estrategicamente, a descentralização por diferentes espaços teatrais – Teatro Arraial Ariano Suassuna, Teatro Marco Camarotti e Teatro Capiba – amplia o alcance do projeto, criando novos hábitos de consumo cultural e fortalecendo o circuito teatral da região metropolitana do Recife. Considerando que cada teatro possui identidade arquitetônica e frequentadores específicos, a campanha consegue atingir segmentos diversificados de público.

No campo digital, a ampliação da presença mencionada no material de divulgação reflete a compreensão de que o mercado cultural contemporâneo exige estratégias híbridas de comunicação. Entretanto, o slogan “Teatro é ao Vivo. Vá Ver!” mantém sua força provocativa, funcionando como manifesto contra a virtualização excessiva das experiências culturais.

Contextualmente, o retorno da campanha em 2025 ocorre durante a recuperação gradual do setor cultural pós-pandemia, quando muitos artistas ainda enfrentam dificuldades financeiras e de público. Portanto, iniciativas como esta representam gestos de afirmação da importância social das artes cênicas, testando a disposição da sociedade pernambucana para revalorizar as experiências culturais presenciais e coletivas.

SERVIÇO

Teatro é ao Vivo. Vá Ver! – Programação

22 e 23 de outubro – 19h30
📍 Teatro Marco Camarotti – Sesc Santo Amaro
🎭 Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III
Reflexão sobre poder, ética e cumplicidade diante de regimes autoritários
🎟️ R$ 60,00 (inteira) / R$ 30,00 (meia ou ingresso social + 1kg de alimento)

29 de outubro – 19h30
📍 Teatro Marco Camarotti – Sesc Santo Amaro
🎭 Esquecidos por Deus
Monólogo com Murilo Freire, baseado na obra de Cícero Belmar
🎟️ R$ 60,00 (inteira) / R$ 30,00 (meia)

30 de outubro – 19h30
📍 Teatro Capiba – Sesc Casa Amarela
🎶 Gracinha do Samba – A Raiz do Samba
Celebração do samba de raiz e suas tradições
🎟️ Entrada gratuita

31 de outubro – 19h30
📍 Teatro Capiba – Sesc Casa Amarela
🎤 Geraldo Maia – Minha História Sou Eu
Show comemorativo dos 45 anos de carreira
🎟️ R$ 30,00 (inteira) / R$ 15,00 (meia)

Ficha Técnica:
🎭 Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III
Concepção: Moncho Rodriguez
Direção: João Guisande e Moncho Rodriguez
Intérpretes: Fabiana Pirro e Junior Sampaio
Dramaturgia: Moncho Rodriguez
Música: Narciso Fernandes
Figurinos: Marília Castro e Moncho Rodriguez
Cenário: Moncho Rodriguez
Produção: Paulo de Castro Produções e PIANE

Ficha Técnica:
🎭 Esquecidos por Deus
Texto: Cícero Belmar
Direção e Dramaturgia: José Manoel Sobrinho
Atuação: Murilo Freire
Realização: LAPA – Laboratório Pernambucano do Atuante

Ficha Técnica:
🎶 Gracinha do Samba – A Raiz do Samba
Voz: Gracinha do Samba
Músicos: Ralph (violão, coral e voz guia), Rinaldo (cavaco), Miguel (coral, pandeiro e malacacheta), Rafael Galdino (surdo), Nyll (tantanzinho, efeitos e coral), Nego Thon (repique, conga e efeitos), Augusto (tamborim)
Produção geral: Pedro Castro

Ficha Técnica:
🎤 Geraldo Maia – Minha História Sou Eu
Cantor: Geraldo Maia
Direção musical: Renato Bandeira
Músicos: Gilberto Bala (percussão), Lieve Ferreira (viola) e Renato Bandeira (violão, viola e guitarra semi-acústica)
Produção geral: Pedro Castro
Assistente de produção: Sayonara Silva
Realização: APACEPE – Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco

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Crônica da demora:
Artistas questionam pagamentos de cachês
e a política cultural no Recife

 Comunidade teatral do Recife aponta atrasos sistemáticos no pagamento de cachês. Imagem do espetáculo  Ọnà Dúdú — Caminhos Negros do Bairro do Recife. Foto: Ivana Moura

Cena de Ọnà Dúdú — Caminhos Negros do Bairro do Recifena comunidade do Pilar. Foto: Ivana Moura

Em novembro de 2024, o espetáculo Ọnà Dúdú — Caminhos Negros do Bairro do Recife se destacou na programação da Mostra OFF-REC, parte do 23º Festival Recife do Teatro Nacional, como uma das propostas artísticas de maior impacto e relevância. A obra, que mergulha nas narrativas, trajetórias e vivências negras que moldaram e continuam a pulsar no histórico bairro da capital pernambucana, foi amplamente reconhecida por sua qualidade artística e seu inegável valor cultural e social. Contudo, passados seis meses desde sua apresentação, o diretor e produtor Marconi Bispo viu-se na difícil posição de ter que recorrer às redes sociais para realizar uma cobrança pública do cachê acordado com seu grupo, um pagamento que, até então, não havia sido efetuado pela Prefeitura do Recife.

Marconi Bispo não escondeu sua frustração e o receio que acompanha a atitude de expor publicamente tal situação. Como artista e produtor negro, ele ponderou intensamente sobre as possíveis consequências e retaliações que poderiam advir dessa manifestação. Essa hesitação inicial sublinha a vulnerabilidade de artistas que dependem do poder público e temem ser preteridos em futuras seleções ou editais.

A escolha estratégica de utilizar as redes sociais como palco para o protesto carrega uma ironia particular, considerando que o prefeito João Campos é notadamente conhecido pelo uso intensivo e hábil dessas mesmas plataformas. Campos construiu grande parte de sua imagem pública e promove ativamente sua gestão através de vídeos curtos, informais e uma comunicação direta com seus mais de 2,9 milhões de seguidores. No entanto, as mesmas ferramentas digitais que servem para celebrar conquistas institucionais tornam-se, neste caso, instrumentos de protesto para artistas locais que dizem enfrentar o silêncio institucional.

Ao expor a situação do seu grupo nas redes sociais, Marconi Bispo rapidamente percebeu que os atrasos nos pagamentos não era um caso isolado, afetando uma gama diversificada de outros profissionais da cultura. Relatos semelhantes surgiram de pareceristas da prefeitura, essenciais na avaliação técnica e artística de projetos culturais submetidos a editais públicos, que também enfrentavam longos e imprevisíveis períodos sem remuneração pelos serviços prestados. Bispo destacou que essa realidade dolorosa é parte de um cenário recorrente no setor cultural, onde o silêncio muitas vezes predomina, impulsionado pelo medo de represálias que poderiam comprometer futuras oportunidades de trabalho e pela intrínseca dependência dos recursos públicos para a viabilização de projetos e a própria subsistência. A falta de pontualidade nos pagamentos não apenas causa dificuldades financeiras imediatas, mas também desestrutura o planejamento de artistas e produtores, impactando a continuidade de suas atividades e a saúde do ecossistema cultural como um todo.

Essa situação de inadimplência por parte do poder público é corroborada por outros artistas com vasta experiência, como Paulo de Pontes, veterano com mais de 40 anos de carreira no teatro e no cinema, que já havia utilizado suas plataformas digitais para chamar atenção para os pagamentos devidos tanto pela Prefeitura quanto pelo Governo do Estado. Pontes ressalta a frustração e a insegurança geradas pela falta de clareza nas respostas obtidas junto às secretarias responsáveis e a recorrente transferência de responsabilidade entre diferentes setores ou níveis de governo. Essa burocracia deixa os artistas sem saber quando receberão pelos serviços já executados, reforçando um problema sistêmico na gestão dos recursos destinados à cultura e minando a confiança dos profissionais no poder público como parceiro e fomentador.

Paula de Renor, produtora e atriz também com mais de 40 anos de experiência nos palcos e na luta por políticas culturais, aprofunda a análise sobre o significado desses atrasos. Para ela, se trata de um modus operandi enraizado e petrificado dentro de uma cultura política. “Estamos sempre esperando a liberação da Secretaria da Fazenda e esta Secretaria passa a ser para nós , um grande limbo, onde devemos nos conformar e esperar o dia em que chegaremos ao paraíso, dia do depósito do cachê!”. Segundo ela, “No capitalismo é possível aniquilar vidas e carreiras a partir de escolhas econômicas, e isso precisa acabar”, afirma categoricamente. Sua crítica vai além da denúncia pontual, apontando para um problema estrutural: “Não é possível que no século 21 ainda existam práticas que não priorizem os artistas, já que a imagem da cidade do Recife e do estado de Pernambuco é construída em cima da arte feita por esses profissionais.”

Humor na cobrança

Durante a espera de quase cinco meses pelo pagamento de sua participação no evento “Dia do Palhaço, da Palhaça, do Palhace”, realizado em dezembro de 2024 e promovido pela Secretaria de Cultura do Recife, a atriz e palhaça Ana Nogueira encontrou na arte do cordel uma forma potente de expressar sua indignação e frustração com a morosidade burocrática. Para muitos artistas, especialmente aqueles que atuam de forma independente, o cachê de eventos culturais é fundamental para sua subsistência, tornando a demora no pagamento não apenas um inconveniente, mas um sério problema financeiro.

Diante da ausência do cachê e após inúmeras tentativas infrutíferas de esclarecimento sobre o status do pagamento junto aos setores responsáveis da Secretaria, Ana transformou sua experiência de incerteza em poesia popular. Ela compôs dois cordéis que narram o drama da longa espera, a peregrinação em busca de informações e a falta de respostas claras por parte da gestão pública. O cordel, com sua estrutura narrativa e linguagem acessível, provou ser um veículo eficaz para dar voz à sua angústia e criticar a morosidade administrativa. Um dos trechos que melhor encapsula o sentimento de espera, a busca por informações e a perplexidade diante da falta de solução é:

A pergunta que não cala
Onde está o meu dinheiro
Já liguei pra todo mundo
Até para o financeiro
Ninguém sabe me dizer
Qual é o seu paradeiro.

A artista recebeu seu cachê no final de abril de 2025, quase cinco meses após a realização do evento em que se apresentou.

A burocracia como obstáculo

Paralelamente, o ator e diretor Marcondes Lima criticou atrasos em dois cachês distintos: um referente a uma apresentação do espetáculo-palestra Babau, Pancadaria e Morte realizada em julho de 2024, durante a Semana Hermilo, e outro pelo mesmo trabalho apresentado no OFF-REC em novembro do mesmo ano. “Se passaram 10 e 6 meses, respectivamente, e nada do pagamento”, afirma. Marcondes contesta a justificativa oficial que costuma responsabilizar os próprios artistas pela demora: “As justificativas responsabilizam sempre a nós artistas: os atrasos ocorrem porque não apresentamos documentações devidas, porque não agilizamos isso no prazo estipulado, etc. Mas isso não é verdade.”

A negativa de Marcondes se baseia na sua própria experiência, afirmando que, no caso do grupo Mão Molenga, toda a documentação foi providenciada e os empenhos estavam “supostamente” garantidos. Ele atribui a demora à transferência de contas de um ano administrativo para outro, um processo interno da Prefeitura que não deveria afetar os artistas. Além disso, ele aponta para uma diferença crucial entre os contratos de artistas locais e os de artistas de renome: enquanto os primeiros carecem de clareza quanto a prazos e condições de pagamento, os segundos costumam ter esses pontos especificados, garantindo maior segurança financeira. Essa discrepância, segundo ele, demonstra que a burocracia e a morosidade afetam, desproporcionalmente, os artistas da cidade.

Um aspecto especialmente perverso desse sistema foi destacado por Marcondes Lima: “Demorou tanto tempo para recebermos (na verdade ainda não recebemos) que para poder garantir o recebimento de um dos cachês precisávamos apresentar uma nova certidão negativa de taxa municipal porque a anterior expirou. Sem capital de giro para pagar para receber e dependendo do recebimento para pagar, pedimos emprestado e ainda estamos devendo.” Esta situação ilustra como o ciclo burocrático se retroalimenta, criando novas dificuldades para os artistas.

Espetáculo Babau e Dúdú e artistas Quiercles Santana, Brunna Martins, Paula de Renor, Marcondes Lima, Marconi Bipo e Fábio Caio. Reprodução da Internet

No caso do espetáculo Ọnà Dúdú, Marconi Bispo revela uma dimensão ainda mais preocupante do problema: “São 20 pessoas, em sua grande maioria negras e periféricas, que confiam a mim o seu trabalho e a regência de uma performance complexa que, mais uma vez, é solapada e destratada por uma secretaria de Cultura.” A última informação recebida pelos artistas foi: “O pagamento está em vias de acontecer, mas não conseguimos precisar a data”.

A artista Brunna Martins confessa profunda frustração ao falar dos persistentes e significativos atrasos nos repasses financeiros referentes a cachês e recursos provenientes do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC). A crítica central de Brunna reside no que ela aponta como contraste entre a inflexibilidade e o rigor com que a administração municipal exige o cumprimento de prazos e requisitos por parte dos proponentes culturais e a notória morosidade da própria gestão pública no processamento e efetivação dos pagamentos devidos. Esse descompasso operacional, como questão burocrática, compromete de forma drástica a sustentabilidade e a viabilidade financeira dos projetos culturais da cidade.

A situação expõe fragilidades na gestão dos mecanismos de fomento à cultura, como o SIC, que, apesar de sua importância para a dinamização do setor, tem sua eficácia minada pela imprevisibilidade e pela falta de pontualidade nos pagamentos. Brunna Martins reitera o apelo para que os gestores municipais percebam o impacto desses processos no planejamento futuro e na continuidade das atividades artísticas e culturais na capital pernambucana.

A disparidade no tratamento entre profissionais locais e externos é reforçada por Marcondes Lima, que questiona: “Não parece vergonhoso pagar 400 mil reais talvez um dia depois, na semana ou no mês seguinte a uma apresentação e demorar dez meses para pagar a outra cujo valor é 4 mil reais?” Marconi Bispo faz o mesmo questionamento: “Marco Nanini está passando por isso? Othon Bastos? A Armazém Cia de Teatro? Acho que não. Para esses, a gestão tem sempre bom coração.” Segundo os artistas, essa disparidade evidencia o que Paula de Renor chama de “escolhas econômicas” que podem aniquilar carreiras – uma política que prioriza o espetáculo midiático em detrimento da sustentabilidade do ecossistema cultural local.

Necessidade de discutir a política cultural

O encenador Quiercles conta pro Yolanda: “O Festival Recife do Teatro Nacional já me pagou. Mas isso foi semana passada. Foram quase seis meses esperando um dinheiro pouco e sem graça. É de uma falta de respeito ímpar”. Mesmo tendo recebido, ele evidencia o desgaste causado pela espera prolongada e o valor insuficiente. “Toda vez que tenho de trabalhar para a prefeitura, sinto que é um dinheiro que não vou ter tão cedo”, acrescenta, demonstrando como essa prática afeta a confiança dos artistas nas instituições públicas.

Quiercles também menciona outros projetos que aguardam recursos: “Kalash (peça teatral) está aguardando o SIC Recife para poder executar o projeto nas periferias da cidade. Ninguém sabe quando será pago”. Sua reflexão sobre a viabilidade da profissão é contundente: “Viver de teatro aqui não é fácil. Sem patrocínio ou com apoios dessa natureza, estamos fadados ao abismo. Manter hoje no Recife um grupo de teatro é uma aposta arriscada na corrente contrária de qualquer ordem capitalista. Insano mesmo”. O encenador ainda amplia a crítica para além dos atrasos nos pagamentos: “Tem muita bronca envolvida, inclusive a forma como são selecionados projetos nos editais”, concluindo com um desabafo que reflete o esgotamento: “Ando com uma vontade enorme de sumir da cena”.

Fábio Caio, do grupo Mão Molenga Teatro de Bonecos, nos falou do desconforto com o atraso dos cachês. “Em breve faremos aniversário do não pagamento”, pontuou o artista, referindo-se à apresentação na Semana Hermilo de julho de 2024. “Nos exigem uma infinidade de documentos e cumprimos rigorosamente com nossas obrigações, mas infelizmente essa reciprocidade não é prática da prefeitura,” desabafou.

Caio também mencionou o trabalho feito para o Festival Recife do Teatro Nacional, realizado em novembro, que, sem previsão de pagamento que o grupo tenha conhecimento, encontra-se na mesma situação. “É tanto desrespeito que decidi não mais trabalhar para a prefeitura”, afirmou com firmeza. Ele ainda lembrou que passou por situação semelhante com o espetáculo Hélio,  o Balão que Não Consegue Voar, mas que, neste caso, o pagamento já foi efetivado.

Ouvimos o conselheiro Oséas Borba Neto, que defende sua atuação ativa no âmbito do Conselho Municipal de Cultura, focando em questões cruciais como os recorrentes atrasos nos pagamentos devidos a artistas e produtores culturais, bem como as condições muitas vezes precárias dos equipamentos culturais sob gestão municipal.

Para ilustrar a urgência, o conselheiro disse que solicitou formalmente que o conselho dedique tempo para debater e propor melhorias substanciais tanto nas estruturas físicas quanto na gestão operacional de espaços vitais para a cultura da cidade, como teatros, galerias de arte e centros culturais. A Secretaria Municipal de Cultura, em resposta a essas demandas e à necessidade de um tratamento aprofundado dos temas, sugeriu a criação de uma comissão específica dentro do conselho para se debruçar sobre os problemas de pagamentos e infraestrutura. No entanto, até o momento, essa comissão não foi efetivamente constituída.

Embora não haja uma lei específica que proíba expressamente a realização de eventos sem empenho prévio, a Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar nº 101/2000) estabelece normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal. Isso inclui a execução orçamentária, que deve ser alicerçada na existência de disponibilidade orçamentária e financeira, garantindo que recursos estejam previstos no orçamento e disponíveis no fluxo de caixa. Como já foi dito, na gestão cultural do Recife, entretanto, foi constatado que artistas e técnicos têm recebido seus cachês com atrasos significativos.

A centralidade da arte na construção da imagem do Recife e de Pernambuco, como destacado por Paula de Renor, contrasta com a precariedade enfrentada pelos artistas.

 As políticas públicas culturais, fundamentais para o fomento e a difusão da produção artística, frequentemente encontram barreiras significativas em sua execução, impactando diretamente a atuação dos profissionais do setor. Essas dificuldades administrativas, que se manifestam em processos burocráticos excessivamente complexos, morosos e, por vezes, pouco transparentes, criam um cenário de insegurança e imprevisibilidade para os artistas. Como resultado dessa ineficiência dos canais formais, a reivindicação de direitos básicos, como o pagamento de cachês por trabalhos já realizados, é frequentemente deslocada para plataformas informais, como as redes sociais, onde a pressão pública ou a busca por informações descentralizadas se tornam as vias principais.

Essa dependência de mecanismos informais, que expõe os artistas a situações de vulnerabilidade e desgasta a relação com as instituições, evidencia a necessidade urgente e imperativa de aperfeiçoar e modernizar os mecanismos institucionais de diálogo, gestão e pagamento na esfera cultural. Isso poderá criar processos que sejam funcionais e acessíveis, mas também transparentes, ágeis e baseados em fluxos claros e previsíveis, garantindo a segurança jurídica e financeira dos profissionais e permitindo que eles se concentrem em sua produção artística, em vez de lutar por seus direitos básicos.

Resposta da Prefeitura 

Enviamos uma solicitação formal à Prefeitura do Recife, buscando esclarecimentos sobre os motivos dos atrasos nos pagamentos dos cachês dos artistas. A Prefeitura enviou a seguinte nota:

“A Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura Cidade do Recife, informa que estão sendo tramitados e realizados todos os processos e pagamentos referentes aos festivais e ciclos culturais realizados a partir do segundo semestre de 2024. Somadas as quase 300 contratações realizadas para compor a programação dos festivais de Literatura, Dança, Teatro e da Mostra de Circo, somente 11 processos seguem pendentes, em função de questões documentais. O poder público municipal reafirma o compromisso e o esforço permanentes para garantir pagamentos cada vez mais céleres aos fazedores de cultura da cidade, de todas as linguagens e cadeias produtivas”.

 

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Festival Reside Amaro
Uma experiência artística inovadora no Recife

Vizinhos no bairro de Santo Amaro participam de ações artísticas. Foto: Rogério Alves

O Festival Reside Amaro, que ocorre nestes dias 7, 8 e 9 de fevereiro de 2025, é mais que um evento no calendário cultural do Recife; é um manifesto vivo, uma declaração ousada sobre o potencial transformador da arte quando esta pulsa organicamente com o tecido social de uma comunidade.

Paula de Renor, uma produtora cultural com uma visão ousada, sempre sonhou em realizar um festival teatral inovador, diferente dos modelos tradicionais. A inspiração que faltava surgiu quando ela conheceu o trabalho do Teatro Bombón e o conceito de “teatro vecinal” (teatro de vizinhança) da artista argentina Monina Bonelli. Com essa nova perspectiva, Paula uniu forças com Bonelli e o curador Celso Curi para dar vida ao Reside Amaro, um projeto que leva o teatro para o coração do bairro de Santo Amaro, no Recife. Essa proposta única transforma a comunidade no centro pulsante da experiência teatral, promovendo uma colaboração íntima entre artistas e moradores locais para criar performances autênticas e envolventes.

A escolha de Santo Amaro como palco para esta experiência não foi aleatória. O bairro, com sua rica vivência histórica e cultural, serve como um microcosmo perfeito do Recife e, por extensão, do Brasil urbano contemporâneo.

“Santo Amaro é um paradoxo vivo,” aponta Roger de Renor, produtor e ativista cultural e vizinho inspirador. Neste território, casarões coloniais expõem a luta pelo espaço urbano com prédios altíssimos. Comunidades de pescadores, cujas tradições remontam a séculos, convivem lado a lado com startups de tecnologia de ponta.

Esta complexidade sociocultural de Santo Amaro serve como um terreno fértil para o tipo de narrativas plurais que o Reside Amaro busca explorar.

Monina Bonelli_Paula de Renor_Celso Curi._Foto Rogério Alves

O Reside Amaro destaca-se por sua natureza site-specific, onde cada apresentação é cuidadosamente elaborada para se integrar e dialogar com o ambiente específico em que ocorre. Esta técnica transforma espaços cotidianos – desde casas particulares até bares locais – em cenários teatrais singulares, criando uma experiência imersiva tanto para os artistas quanto para o público.

O aspecto comunitário do festival é igualmente central. Ao envolver ativamente os moradores de Santo Amaro no processo criativo, o Reside Amaro opera essa via de mão dupla: traz o teatro para a comunidade, mas também traz a comunidade para o teatro. Esta abordagem resulta em performances que são autênticas reflexões das histórias, culturas e experiências locais.

A maioria das performances é criação original, desenvolvida especificamente para o festival. Outra característica marcante do Reside Amaro é seu caráter processual. Muitas das ações e performances começaram a ser desenvolvidas apenas nas últimas semanas antes do festival. Este curto período de gestação confere às apresentações um frescor e uma espontaneidade raramente vistos em produções teatrais tradicionais. 

“É fascinante ver como as técnicas de teatro comunitário desenvolvidas em Buenos Aires se adaptam e ganham novos significados no contexto de Recife”, observa Monina Bonelli. “Há um diálogo intercultural acontecendo aqui que é verdadeiramente enriquecedor”.

Espetáculos internacionais Rainha, com Maiamar Abrodos e Da Melhor Maneira com Federico Liss e David Rubinstein. Foto: Divulgação

O festival apresenta duas peças argentinas em espanhol com legendas em português. Rainha (Reina en el Gondo), dirigida e escrita por Natalia Villamil e estrelada por Maiamar Abrodos, retrata a vida de uma mulher transgênero idosa no Gondolín, um hotel-refúgio em Buenos Aires, explorando suas memórias e reflexões sobre identidade. Já Da Melhor Maneira (De la mejor manera) é uma obra de Jorge Eiro, Federico Liss e David Rubinstein, dirigida por Eiro e atuada por Liss e Rubinstein. Esta peça acompanha dois irmãos que retornam ao bar da família durante o velório do pai, enfrentando o vazio deixado por sua perda e o desafio de seguir em frente diante de um “abismo silencioso”.

Além das performances, o Reside Amaro tem um forte componente educacional. Alunos do Curso de Interpretação para Teatro do Sesc Santo Amaro estão ativamente envolvidos em todas as etapas do festival, desde a concepção até a execução. Esta iniciativa aprimora o aprendizado dos estudantes, contribuindo para a formação de uma nova geração de artistas.

Com mais de 70 apresentações distribuídas ao longo de três dias, o festival oferece uma programação diversificada e acessível. Todas as apresentações são gratuitas, com ingressos distribuídos uma hora antes de cada sessão. O evento também prioriza a acessibilidade, oferecendo tradução em Libras para várias performances e garantindo que os espaços sejam acessíveis para pessoas com deficiência.

PROGRAMAÇÃO

CASA 1 (Rua Capitão Lima) CENTRAL DE INFORMAÇÕES

Casa 2 Rua (Rua Capitão Lima) LENE CONVIDA
Performance participativa onde Lene estreia um programa de entrevistas intimista. Recebe personalidades para conversas sinceras e inspiradoras sobre Pernambuco.
Dramaturgia/Direção: Giordano Castro, Mateus Condé.
Atuação: Lene Maria.
07/02: 19h30-22h, 08-09/02: 18h30-21h30. Fluxo contínuo.

Casa 3 (Rua Capitão Lima) COMUNHÃO MUSICAL
Espetáculo musical que une diferentes gerações e histórias de vida. Performances de um padre, uma cozinheira e um cantor profissional.
Direção musical: Douglas Duan.
Vozes: Padre Caetano, Alê Maria, Carlinhos Monteverde.
07/02: 19h, 08-09/02: 18h.

Casa 4 (Rua da Piedade) ÁLBUM DOS VIZINHOS
Projeção de retratos que capturam a essência dos moradores da vila. Transformação de memórias em arte, reforçando laços comunitários.
Fotos: Rogério Alves. Coordenação: Ingredy Barbosa.
07/02: 19h30-22h, 08-09/02: 18h30-21h. Fluxo contínuo.

Casa 5 (Rua Capitão Lima) SOM NA RURAL
Festa itinerante que transforma as ruas em palco de celebração. Picadeiro sonoro que constrói novas histórias e memórias.
comunicação: Roger de Renor. DJ: Dj Vibra.
07/02: 22h-23h.

Casa 6 (Travessa do Ferreira) HEY, HEY, HEY! ROBERTO É O NOSSO REI!
Karaokê em homenagem a Roberto Carlos, realizando o sonho de João Paulo. Inclui mural no Beco do Roberto, multiplicando a presença do Rei.
Artista vizinho: João Paulo Silva. Artista ativador: Douglas Duan.
07/02: 20h-22h, 08-09/02: 19h-21h30. Fluxo contínuo.

Casa 7 (Rua da Piedade) ALTA VIGILÂNCIA
Instalação dramatúrgica que explora a cultura da fofoca em Pernambuco. Narradoras compartilham histórias bisbilhotadas na rua Piedade.
Dramaturgia: Newton Moreno. Narradoras: Amanda Menelau, Márcia Luz.
07/02: 20h-22h, 08-09/02: 19h-21h30.

Casa 8 (Rua da Piedade) CASINHA DE ROGÊ
Instalação/performance que convida à intimidade da casa de Roger de Renor. Reflexões sobre cidades horizontais, utopias e memória. Performance: Roger de Renor.
Duração: 30min.
Capacidade: 20 pessoas/sessão.
07/02: 20h e 21h, 08-09/02: 19h e 20h.

Casa 9 (Rua da Piedade) INDO PARA LÁ
Performance documental sobre uma travessia imaginária de barco. Explora conversas, histórias e imagens que permanecem na memória. Direção: Quiercles Santana. Atuação: Clau Barros, Dorgival Fraga. Duração: 30min. Capacidade: 20 pessoas/sessão. 07/02: 20h e 21h, 08-09/02: 19h e 20h.

Casa 10 (Rua da Piedade) PRONTA PRA GUERRA; PULANDO FOGUEIRAS E DECORANDO O TEXTO COM FUXICOS
Performance inspirada na vida de Joana d’Arc e Ivete Alves de Mesquita. Explora a luta pela existência através de costura, fuxicos e memórias.
Dramaturgia/Encenação: Anderson Leite.
Atuação: Augusta Ferraz.
Duração: 30min.
Capacidade: 20 pessoas/sessão. 07/02: 20h30 e 21h30, 08-09/02: 19h30 e 20h30.

Casa 11 (Rua da Piedade) NO FRIGIR DOS OVOS TUDO TEM SOM
Performance documental que explora os sons e aromas da cozinha. Inspirada na vida de Geraldo Maximiano de Lima, o Rei do Omelete.
Direção: Quiercles Santana. Atuação: Djalma Albuquerque, Anne Andrade, Lua Alves.
Duração: 30min.
Capacidade: 20 pessoas/sessão.
07/02: 20h30 e 21h30, 08-09/02: 19h30 e 20h30.

Casa 12 (Rua Capitão Lima) SABOR DO DESTINO
Audioguia e experiência sensorial baseada na vida de Detinha. Percurso sonoro guiado pelos sabores, com participantes de olhos vendados.
Dramaturgia/Direção: Júnior Sampaio.
Narração: Fabiana Pirro.
Duração: 30min.
Capacidade: 20 pessoas/sessão.
07/02: 20h e 21h, 08-09/02: 19h e 20h.

Casa 13 ((Rua Capitão Lima) RITO DE PASSAGEM
Performance em movimento conduzida por HBlynda até a casa de Reina. Compartilha desafios enfrentados na jornada de reafirmação de identidade.
Criação/Performance: HBlynda Morais.
Duração: 30min.
Capacidade: 30 pessoas/sessão.
08-09/02: 19h.

Casa 14 (Rua Capitão Lima) AMARO
Exibição do curta-metragem desenvolvido durante a residência do festival. Retrata um dia na vida de Amaro, homem emocionalmente contido.
Roteiro/Direção: Diogo Cabral.
09/02: 19h-21h. Fluxo contínuo.

Casa 15 (Rua Capitão Lima) RECEITA PARA CONTAR HISTÓRIAS
Performance documental sobre histórias familiares e receitas. Mistura memórias do Maranhão a Pernambuco através do doce de banana.
Dramaturgia/Direção: João Pedro Pinheiro, Larissa Pinheiro. Com: Lannje Falcão, Aurian Falcão.
Duração: 30min.
Capacidade: 20 pessoas/sessão.
07/02: 20h30 e 21h30, 08-09/02: 19h30 e 20h30.

Casa 16 (Rua Capitão Lima, 410) UMA DOR MENOR
Teatro documental sobre impasses de um enterro familiar. Explora o conflito entre luto pessoal e cerimônia pública de um político.
Dramaturgia/Atuação: Ivana Moura.
Direção: Luiz Felipe Botelho.
Duração: 30min.
Capacidade: 20 pessoas/sessão.
07/02: 20h30 e 21h30, 08-09/02: 19h e 20h30.

Casa 17 (Rua Capitão Lima, 408) RAINHA
Peça argentina sobre a vida de uma mulher transgênero idosa. Explora memórias e reflexões sobre identidade no hotel Gondolín.
Dramaturgia/Direção: Natalia Villamil. Atuação: Maiamar Abrodos.
Duração: 60min.
Capacidade: 30 pessoas/sessão.
08-09/02: 19h30.

Casa 18 (Rua Capitão Lima – auditório da TV Jornal) NOS BASTIDORES DOS PROGRAMAS DE AUDITÓRIO: CONHEÇA A HISTÓRIA DA TV JORNAL
Vídeo que relembra 65 anos da TV Jornal pernambucana. Destaca programas de auditório e participações importantes.
Criação/Produção: TV Jornal.
Duração: 5min. Capacidade: 20 pessoas/sessão.
07/02: 19h, 19h15, 19h30 e 19h45.

Casa 19 (Rua Capitão Lima) CASAR, PARA QUE?
Quadrilha que desafia superstições sobre casamento. Celebra o casamento de dona Neta e Luiz com pompa e circunstância.
Direção/Coreografia: Mônica Lira. Casal: Erivonete Barbosa, Luiz Elias.
08/02: 21h30-23h.

Casa 20 (Rua Capitão Lima – na rua) BOI MARINHO
Cortejo que mistura tradições populares, com destaque para o Cavalo Marinho. Ativação com alunos da Escola Sylvio Rabello e vizinhos.
Mestre/Direção: Helder Vasconcelos. Contra mestra: Laura Tamiana.
09/02: 18h-18h40.

Casa 21 (Rua Capitão Lima – Restaurante Casa Capitão) DA MELHOR MANEIRA
Peça argentina sobre dois irmãos lidando com a perda do pai. Explora o luto e o desafio de seguir em frente após uma perda.
Dramaturgia: Jorge Eiro, Federico Liss, David Rubinstein. Direção: Jorge Eiro.
Duração: 60min.
Capacidade: 30 pessoas/sessão.
08-09/02: 20h.

FICHA TÉCNICA

Idealização
Monina Bonelli

Criação
Monina Bonelli e Celso Curi

Artista criador convidado
Quiercles Santana

Curadores
Paula de Renor e Celso Curi

Vizinho inspirador
Roger de Renor

Vizinha embaixadora
Ingredy Barbosa

Assistente de criação
Márcio Allan

Artistas convidados
Álefe Passarin, Amanda Menelau, Anderson Leite, Augusta Ferraz, Bailarinos da Quadrilha Evolução (Damas – Giovanna Seabra Paiva Carneiro, ⁠Hellen Cavalcante, Perollah Hair, Rayssa Gomes de Vasconcelos, Thadgya Dos Santos Silva e Thais Maely Sidronio. Cavalheiros – Adones Vasconcelos, Aleson Willam Souza, Anthony Matheus de Aquino, Lourival Rodrigues, Rodrigo de Oliveira e ⁠Wladiel Queiroz), Boris Trindade Júnior (palhaço Tapioca), Carlinhos Lua, Carlinhos Monteverde, Carlos Santos, Clau Barros, David Rubinstein, Dj Vibra, Douglas Duan, Fabiana Pirro, Federico Liss, Giordano Castro, HBlynda Morais, Helder Vasconcelos e o Boi Marinho, Ivana Moura, Jeison Wallace, Jerlane Silva (palhaça Bilack), João Pedro Pinheiro, Jorge Eiro, Júlio Brito, Júnior Sampaio, Jurema Fox, Kleber Santana, Larissa Pinheiro, Luiz Felipe Botelho, Maiamar Abrodos, Mônica Lira, Natalia Villamil, Newton Moreno, Pinho Fidelis, Rafael Chamié e Roger de Renor.

Vizinhos artistas
Alê Maria, Alice Barbosa, Aurian Falcão, Dorgival Fraga (Paizinho), Erivonete Barbosa (dona Neta), Everton de Holanda Júnior, Geraldo Maximiano de Lima (Rei do Omelete), Ivete Alves de Mesquita, Joana d’Arc Dantas Mesquita, João Paulo Silva, Lannje Falcão, Lene Maria, Ligia Vieira, Luiz Elias, Maria José (dona Detinha), Maria Laura (Laurinha), Padre Caetano e Thiago Santos.

Artistas Residentes
Alunos do CIT / Sesc Santo Amaro – Anne Andrade, Bibi Santos, Caví Baso, Diogo Cabral, Djalma Albuquerque, Fanny França, Lua Alves, Márcio Allan e Mateus Condé.

Beco do Roberto
Produção: Arte da Imagem Produções
Apoio: Gabinete de Inovação Urbana

Fotos álbum dos vizinhos
Rogério Alves

Fotos registro
Gianny Melo

Fotos e vídeos making of
Ivo Barreto e Wesley Kawaai

Comunicação comunitária
Djalma Albuquerque

Designer
Clara Negreiros

Assessoria de imprensa
Márcio Bastos

Gestão de redes sociais
Cognos Comunicação – Luiza Maia e Tiago Barbosa

WebDesigner / Front-End
Sandro Araújo (SandroWeb)

Acessibilidade comunicacional
CENTRAE

Coordenador de produção
Ivo Barreto

Produção
Remo Produções Artísticas
Paula de Renor e Wesley Kawaai

Assistente de produção
Elias Vilar

Coordenador técnico
Eron Villar

Assistente técnico
Caví Baso

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Os artistas precisam de dignidade
clama a produtora e atriz Paula de Renor,
homenageada do Janeiro de Grandes Espetáculos

A atriz Paula de Renor emocionada, ao lado do produtor do JGE Paulo de Castro, também segurando as lágrimas. Foto: TMF / Divulgação

Paulo de Castro ao centro e Paulo de Pontes. Foto: TMF / Divulgação

Com o quadro pintado pelo artista Cleusson Vieira. Foto: TMF / Divulgação

As aberturas de festivais têm aquela parte cerimonial incontornável, com discursos de colaboradores e patrocinadores, que são essenciais para a sobrevivência do evento, mas um pouco maçante para a plateia. É da natureza dessas cerimônias. Contudo, para ser justa, a abertura desta 31ª edição do Janeiro de Grandes Espetáculos, ocorrida na noite de ontem (09/01), no Teatro de Santa Isabel, está inserida numa informalidade quase doméstica. O ator Paulo de Pontes, mestre de cerimônias do JGE, imprimiu esse tom descontraído e bem-humorado, quase jocoso. Pontes mencionou que tem 56 anos, 20 dos quais dedicado ao festival, que ele destaca como parte essencial da vida cultural pernambucana. Segundo Paulo, “querendo ou não, esse é um dos maiores festivais de artes cênicas e música do Brasil”.

O produtor geral do festival, Paulo de Castro, ressaltou que não é possível realizar um evento dessa envergadura sem patrocínio e apoio. Ele expressou gratidão à vice-governadora Priscila Krause, mesmo ausente, por seu suporte nos últimos anos, assim como ao apoio da prefeitura e do governo do estado. Entretanto, Paulo destacou a necessidade de um maior envolvimento do governo federal, cuja proximidade e contribuição são essenciais para garantir a continuidade e o fortalecimento das atividades culturais.

Durante quase 20 anos, Paula de Renor dividiu a tarefa de tocar o Janeiro, junto com Paulo de Castro e Carla Valença. Foto: TMF / Divulgação

A verdade, que sabemos, é que os recursos são escassos e o evento acontece graças principalmente à colaboração dos artistas, que recebem um cachê irrisório e, de fato, dão sustentação ao festival. Melhorar essas condições para os trabalhadores da cultura é imprescindível.

E esse foi o tom do discurso de uma das homenageadas do festival, a atriz e produtora Paula de Renor, em um dos momentos mais marcantes da noite. Emocionada, Paula compartilhou sua alegria com a homengem, mas também expressou a falta que sentiu de Carla Valença, sua amiga e colega de palco, que estava na plateia e não foi homenageada este ano.

Durante seu breve discurso, Paula refletiu sobre as realidades enfrentadas pelos artistas. Ela destacou a necessidade urgente de mais apoio financeiro, dignidade e pagamentos justos para os profissionais das artes cênicas. Enfatizou que, apesar das melhorias da cadeia produtiva ao longo dos anos, ainda há muito a ser conquistado. Paula mencionou que a luta por políticas culturais contínuas é incessante e lembrou a todos que, apesar de ser um dia de festa, os desafios persistem como uma espada sobre as cabeças daqueles que fazem arte.

Paula de Renor, em sua fala, lembrou que os avanços alcançados por produtores e artistas de Pernambuco não vieram facilmente e o JGE sempre foi um espaço de resistência e reivindicação.

Poeta, ativista e vereadora Cida Pedrosa, uma das homenageadas do festival. Foto: TMF / Divulgação

O JGE também prestou homenagens a outras figuras que têm feito contribuições significativas para a cultura pernambucana. Entre os homenageados estavam Márcia Souto, pela condução da política cultural; Bernardo Peixoto, representante do Sistema Fecomércio Sesc/Senac Pernambuco, que não compareceu mas enviou uma representante; a vereadora, poeta e militante cultural Cida Pedrosa; e Queiroz Filho, parceiro de longa data da Apacepe. As demais pessoas homenageadas receberão seus troféus no dia da premiação.

A proposta conceitual desta edição do Janeiro é a liberdade de expressão na cena pernambucana, valorizando a diversidade cultural e a arte como ferramenta revolucionária e transgressora. O festival é dedicado ao grupo Vivencial, fundado na década de 1970 em Olinda e que celebra os 50 anos de sua fundação. Guilherme Coelho, ator e diretor, mentor intelectual e diretor do Vivencial, é um dos homenageados dessa edição.

Lia de Itamaracá ladeada por Elízio de Búzios e Áurea Martins. Foto: TMF / Divulgação 

Ela diz “Eu sou Lia” e o público se derrete. Puro magnetismo. Foto: TMF / Divulgação 

Áurea Martins. Foto: TMF / Divulgação

Orquestra Lunar. Foto: TMF / Divulgação

Elízio de Búzios. Foto: TMF / Divulgação

ABERTURA MUSICAL

O Janeiro de Grandes Espetáculos inaugurou sua programação com o show intitulado Orquestra Lunar e a Música Negra de Áurea Martins e Elízio de Búzios, proporcionando uma deliciosa experiência musical. A aclamada orquestra feminina do Rio de Janeiro, inspirada nas tradições das gafieiras cariocas, impressionou a plateia com uma ótima execução que combinava uma “cozinha” instrumental potente com um naipe de sopros envolvente. A versatilidade do grupo foi evidente na sua capacidade de navegar por diversas sonoridades, como Corta-jaca de Chiquinha Gonzaga e Te queria, de Elízio de Búzios, que ficou conhecida na voz de seu Jorge.

Entre os protagonistas desta noite mágica, os irmãos Áurea Martins, de 84 anos e Elízio de Búzios, de 82 trouxeram ao palco suas incomparáveis trajetórias artísticas. Áurea, com sua voz potente e interpretação forte, honrou o legado da música negra brasileira com e paixão. Junto a ela, Elízio de Búzios infundiu suas composições com um suingue único e contagiante, mostrando criatividade e emoção.

Apesar dos desafios técnicos enfrentados durante o espetáculo, como microfones baixos e problemas no sistema de som, a performance dos músicos manteve o espírito da noite elevado.

Lia de Itamaracá, em sua participação especial, chegou como  a grande estrela da noite. A cirandeira pernambucana, conhecida por seu intenso carisma e presença impressionante em cena, encantou o público. Com dificuldade de locomoção, cantou sentada em uma cadeira, mas exibindo sua magnificência de rainha musical. A dupla de irmãos e as instrumentistas da orquestra acolheram Lia com palavras carinhosas, criando uma aura de reverência e admiração. Mesmo nos momentos de suave descompasso entre a orquestra e a interpretação de Lia, um toque de magia permeava a apresentação, e suas canções clássicas, familiares de muitos anos, reavivaram a paixão da plateia.

No foyer do teatro, antes da apresentação, houve uma sessão de autógrafos do livro Pernalonga: uma Sinfonia Inacabada, onde o jornalista e escritor Márcio Bastos contou a história de um dos integrantes do grupo teatral Vivencial.

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