Arquivo da tag: Recife

Quem passa, dança
Circulação do espetáculo Passos
da Compassos Cia de Dança

Com 36 anos de estrada, a Compassos Cia de Dança leva o espetáculo Passo, criado em 2017, a quatro bairros entre Recife e Olinda. Foto: Morgana Narjara / Divulgação

As apresentações desse circuito são gratuitas e conta com oficina aberta e Libras em cena. Foto Divulgação

Na apresentação recente no Solo São Gens, no bairro do Recife. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

Uma praça num fim de tarde. Pessoas passam apressadas, distraídas, carregando sacolas e preocupações. De repente, seis corpos começam a se mover no meio do terreiro, sem palco, sem distância. Um convite silencioso. Quem quiser, entra. Quem quiser, dança. Quem quiser, apenas fica e sente o chão vibrar.

Essa é a ideia por trás de Passo, espetáculo da Compassos Cia de Dança que circula entre Recife e Olinda de 16 de outubro a 6 de novembro. A montagem acabou de passar pelo projeto Sextas da Gen(s)TE, no Solo Gens, e agora escolhe as periferias para continuar andando, com entrada gratuita.

Uma companhia que não para de andar

Raimundo Braanco, diretor da Compassos. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

A Compassos completa 36 anos em 2026 e está entre as companhias mais longevas em atividade no Brasil. Foi fundada em 1990 pelo bailarino e ator Raimundo Branco, formado no Balé Popular do Recife entre 1976 e 1984 e hoje uma das referências da dança pernambucana. Desde o primeiro trabalho, a companhia mistura dança popular e contemporânea com teatro, um caminho que rendeu prêmios ao longo da trajetória, como o de melhor espetáculo da Apacepe por Oratorium, em 2000, e cinco premiações com Em Anexo, em 2006.

Desde 2007, a companhia desenvolve a pesquisa Dança do cotidiano, que mistura movimento, memória e vocalidade e leva para a cena o corpo comum de quem trabalha, brinca e resiste. É dessa pesquisa que Passo se alimenta. Criado em 2017, o espetáculo estreou em circulação pelo interior de Pernambuco, com apoio do Funcultura, passando por 12 cidades e distritos, além de apresentações no Paço do Frevo e no Festival Internacional de Dança do Recife. Nove anos depois, continua em movimento.

Por que essa dança é para você

Seis artistas cruzam capoeira, cavalo-marinho, maracatu rural, teatro de bonecos e dança contemporânea,

A dança costuma parecer coisa distante. Coisa de quem estudou anos, de quem tem técnica, de quem vive no palco. Passo desmonta essa ideia. O espetáculo se assume como uma grande brincadeira de folgazões, aqueles que guardavam a semana inteira para cair na dança dos terreiros, entrando somente depois de pedir licença aos donos da casa.

Em cena, seis performers bailarinos e atores cruzam capoeira, cavalo-marinho, maracatu rural, teatro de bonecos e dança contemporânea, com saias penduradas em varas de bambu ocupando o espaço. O elenco reúne Ana Bione, Fernando Rybka, Patrícia Costa, Marcio Sá e Sandra Rino, artistas criadores de formações diversas. Eduardo Calixto completa o grupo como tradutor de Libras e performer, unindo a língua de sinais à dança.

Os artistas conversam, dançam, brincam e convidam quem cruza o caminho a experimentar o brinquedo. A fronteira entre palco e plateia desaparece. Quem assiste vira parte. Para Raimundo Branco, Passo é um rito de presença, de memória e de reinvenção, feito para circular e para ser visto de perto.

Um espetáculo que caminha

Sandra Rino, bailarina da Compassos. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

A inspiração vem de longe. O poema drmatático Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, atravessa a criação. Como a personagem Severino, que percorre estradas sem fim, Passo é um espetáculo migrante. Visita praças e terreiros, rios e córregos, no campo e no asfalto. Pede para estar em cada lugar e apresentar o seu brinquedo.

A caminhada começa no dia 16 de outubro no Ponto de Cultura Lua de São Jorge, na Cidade Tabajara, em Olinda. Segue pela Escola de Danças Populares Família Pernambuco, em Casa Amarela, pelo Centro de Artes e Comunicação da UFPE e termina no COMPAZ Atriz Leda Alves, no Pina. Em cada parada, oficina e apresentação, sempre com bate-papo depois. Parte dos locais escolhidos tem ligação direta com a história do diretor, centros de capoeira administrados por mestres que passaram pela sua formação nos anos 1980, um detalhe que mostra como a rota é afetiva.

Dança que acolhe todo mundo

Eduardo Calixto atua como tradutor de Libras e performer. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

A acessibilidade aqui não é detalhe. A Língua Brasileira de Sinais é performada pelos artistas e pelo tradutor-intérprete Eduardo Calixto, reconhecida como prática artística viva e contemporânea. Crianças, jovens, adultos, pessoas surdas, todos são bem-vindos. A programação é livre e gratuita.

Quem quiser ir além pode participar da oficina O Passo do Brincante, gratuita, para pessoas a partir de 12 anos. São três horas para experimentar os passos do frevo, do cavalo-marinho e da capoeira de Angola, além da movimentação dos caboclos do maracatu rural. Não é preciso saber dançar. É preciso ter vontade. Na turnê de 2017, a oficina foi além e convidou participantes locais para compor o elenco em cena, marca do espírito de troca do projeto.

Passo é um convite para redescobrir a dança como algo que pertence a todo mundo. Não como espetáculo distante, mas como brinquedo, encontro e memória viva das tradições populares. E a Compassos não pretende parar. Depois dessa temporada, Raimundo Branco segue em estudos para um projeto solo previsto para 2027, o próximo passo de uma caminhada que, aos 36 anos, ainda tem muita estrada pela frente.

Fernando Rybka, em primeiro plano. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

SERVIÇO

Temporada Passo, da Compassos Cia de Dança.
Entrada gratuita, classificação livre.

Ponto de Cultura Lua de São Jorge
(Av. Potiguar, 29, Tabajara, Olinda)
Dia 16/10, sexta-feira 16h, oficina O Passo do Brincante e bate-papo
19h, apresentação de Passo e bate-papo

Escola de Danças Populares Família Pernambuco
(Rua Visconde de Taunay, 207, Casa Amarela, Recife)
Dia 22/10, quinta-feira, 18h, oficina e bate-papo
Dia 24/10, sábado, 16h, apresentação de Passo e bate-papo

Centro de Artes e Comunicação da UFPE
(Campus Cidade Universitária, Recife)
Dia 28/10, quarta-feira, 19h, oficina e bate-papo
Dia 30/10, sexta-feira, 18h, apresentação de Passo e bate-papo (horário sujeito a alteração)

COMPAZ Atriz Leda Alves
(Rua José Rodrigues, 586, Pina, Recife)
Dia 04/11, quarta-feira, 19h, oficina e bate-papo
Dia 06/11, sexta-feira, 19h, apresentação de Passo e bate-papo

Mais informações no Instagram @compassosdanca

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

A Invenção do Nordeste em
temporada na Caixa Cultural Recife

Henrique Fontes interpreta um diretor que prepara um ator nordestino para fazer, com maestria, um personagem nordestino. É pura ironia. Foto: Carlos Gomes / Divulgação

Dois atores do Rio Grande do Norte passam sete semanas em preparação para parecer nordestinos o suficiente. A fábula é o ponto de partida de A Invenção do Nordeste, do Grupo Carmin, e de uma pergunta que incomoda o país inteiro. Quem inventou o Nordeste, e para quê? A montagem dirigida por Quitéria Kelly estreou em 2017, já percorreu 23 estados e várias cidades da Europa, e chega ao Recife na semana que antecede o segundo turno da eleição presidencial, com o estigma nordestino de volta ao centro do debate.

Em cena, uma grande produtora do Sudeste contrata um diretor para escolher e preparar um ator nordestino que interprete, com maestria, um personagem nordestino. Dois concorrentes chegam à final, um do litoral, outro do interior, e disputam o papel num workshop de sete semanas. Os atores entram em palco com os próprios nomes e profissões, e a fronteira entre realidade e ficção vai se dissolvendo. No palco estão Henrique Fontes, Rafa Guedes e José Neto Barbosa, com Ian Medeiros como coberta, o coringa do elenco, pronto para entrar em qualquer papel. A lição que o teste ensina é cruel. Não basta ser nordestino, é preciso parecer ser, corresponder à expectativa de quem contrata. No processo, cada um descobre que a própria ideia que fazia de si também era um estereótipo.

Projeções de vídeo, celular, tablet, maquetes e miniaturas convivem, no palco, com a reperformance de cenas de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e com registros que transitam da comédia ao teatro épico, da sátira à dança. Quitéria Kelly conduz esse hibridismo de linguagens que fez da montagem uma referência do teatro documentário brasileiro. O humor é a ferramenta de investigação. Cada quadro encena um lugar-comum, exagera, devolve a imagem ao público e pergunta de onde ela veio e a quem serve. A dramaturgia de Henrique Fontes e Pablo Capistrano se atualiza a cada temporada com o que o grupo registra nas viagens, e por isso a peça conversa com o presente. O trabalho rendeu o Prêmio Shell de melhor dramaturgia e o Cesgranrio de melhor espetáculo.

Espetáculo que estreou em 2017 utiliza projeções de vídeo, maquetes e miniaturas, performance de cenas de filme brasileiro e registros que vão da comédia ao teatro épico, da sátira à dança. Foto: Divulgação 

Natal, 2007. O Grupo Carmin estreava Pobres de Marré e firmava uma pesquisa sobre exclusão social urbana no Nordeste brasileiro. O coletivo foi fundado pelas atrizes Quitéria Kelly e Titina Medeiros, morta em janeiro deste ano. O nome do grupo vem do vermelho vivo e intenso do carmim. Henrique Fontes não assina a fundação, mas esteve lá desde a primeira obra. Ele escreveu e dirigiu Pobres de Marré e segue na formação atual como ator e dramaturgo. A trajetória soma O Auto do Menino Deus (2009), o experimento Olha a Água (2010), a partir de Brecht, a peça infantil Castelo de Lençóis (2011) e Por Que Paris? (2015), inspirada em Marguerite Duras. Com Jacy, montagem de 2012, o grupo iniciou a pesquisa de teatro documental que desembocaria nesta peça. Jacy entrou na lista dos dez melhores espetáculos do ano do jornal Estadão e circulou pelo país no Sesc Palco Giratório. O repertório do Carmin acumula mais de 500 apresentações para mais de 30 mil pessoas. Neste ano, o grupo estreou Gente de Classe, sátira sobre a classe média em colapso, também dirigida por Quitéria Kelly.

A tese que sustenta a dramaturgia vem do historiador paraibano Durval Muniz de Albuquerque Jr., consultor da montagem e autor de A Invenção do Nordeste e outras artes. Para Durval, o Nordeste não existia como região antes do início do século 20, quando intelectuais, relatórios sobre a seca, romances regionalistas, cinema e cordel costuraram um retrato único para nove estados muito diferentes, de Gilberto Freyre a Ariano Suassuna. A diretora resume o problema. A música, a poesia, a literatura, a dança, tudo que é feito artisticamente no Nordeste parece obrigado a carregar a linguagem da seca, do chão rachado, das cores ocres. O objetivo, diz o historiador, não é buscar a verdadeira representação da região, mas entender como essa ficção funciona e a quem serve. O estereótipo não descreve o Nordeste. Ele o produz, e produz também o lugar de quem fala sobre ele. Não por acaso, a peça foi concebida como resposta aos ataques xenófobos que nordestinos sofreram nas redes sociais durante as eleições presidenciais de 2014.

O estigma voltou ao centro na eleição deste ano. O Nordeste reúne nove estados e dezenas de milhões de eleitores e, nas últimas duas décadas, decidiu corridas presidenciais no país. Em 2022, Lula levou dois terços dos votos válidos da região, e essa vantagem assegurou sua vitória nacional. No primeiro turno de 4 de outubro, ele repetiu a vitória nos nove estados, com 63,77% dos válidos e 21,49 milhões de votos, 11,1 milhões a mais que Flávio Bolsonaro, que venceu em 15 estados e leva a disputa ao segundo turno. A margem, porém, encolheu. O bolsonarismo saltou de 26,97% para 30,85% dos votos nordestinos, e Lula perdeu cerca de 258 mil votos na região em relação a 2022. O mapa que pinta o Nordeste de um lado e o Sul de outro voltou a circular, e com ele o discurso (equivocado) de que o nordestino vota errado.

A Invenção do Nordeste mostra como funciona a máquina que fabrica regiões e inimigos. Foto: Divulgação

Vivemos um momento de avanço do fascismo, no Brasil e no mundo. O mecanismo é conhecido. Escolhe-se um inimigo, transforma-se um povo em estigma, converte-se diferença em ameaça. O nordestino já foi tratado como o brasileiro que estraga o país, o migrante que invade a cidade grande, o eleitor que não entende o próprio interesse. A história ensina que o pleito popular pode ser a porta de entrada do totalitarismo. O partido nazista se tornou a maior força da política alemã nas urnas, Hitler foi empossado chanceler dentro da legalidade, em 1933, e meses depois usou um crime, um decreto e uma lei para fechar o parlamento, eliminar adversários e concentrar todo o poder. A democracia alemã não foi derrubada de fora. Foi esvaziada por dentro, com votação, aplauso e instituição.

Ver A Invenção do Nordeste nesta semana, no Recife, é ver funcionar a máquina que fabrica regiões e inimigos. A montagem devolve ao público a possibilidade de recusar o Nordeste que nos foi imposto como insulto e reivindicar o que a região é de verdade, diversa, criativa, plural, decisiva. A peça tem lado. É o lado de quem cansou de ser estereótipo. O nome do candidato o espetáculo pode até não dizer. Mas esse nome grita em toda a peça. O voto é secreto, sabemos, mas reconhecemos quando ele é carmim. A última sessão acontece em 24 de outubro, véspera do segundo turno. Quem inventou o Nordeste já respondeu para quê. O Nordeste inventado vai às urnas. O Nordeste real decide o país.

Serviço

🎭 A Invenção do Nordeste 🎪 Grupo Carmin (RN), direção de Quitéria Kelly
📍 Caixa Cultural Recife, Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife
🗓️ de 15 a 24 de outubro, quinta a sábado, às 19h30
🎟️ R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), dois ingressos por CPF
🎁 sessão de abertura gratuita para clientes Caixa, em 15 de outubro, com retirada prévia
🤟 intérprete de Libras e bate-papo com o público aos sábados
⏳ 60 minutos
⭐ 14 anos
📞 (81) 3425-1915 Instagram @caixaculturarecife
🏛️ patrocínio da Caixa Econômica Federal

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Tulio Carella por inteiro
em Orgia e compadrio

Biografia de Alvaro Machado resgata a memória do escritor e dramaturgo argentino que transformou o exílio no Recife em literatura transgressora. Na imagem, Carella em entrevista para a revista Qué, de Buenos Aires, 1956, no lançamento de seu livro Tango – mito y esencia. Foto: Autoria desconhecida. Acervo Mario Tesler

Capital pernambucana dos anos 1960: o Recife de Tulio Carella. Foto: Reprodução

Um das imagens do livro, com a legenda: Faixa com anúncio da peça Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, com o Teatro de Arena de São Paulo, montagem apresentada no Teatro de Santa Isabel, em 1960, com apoio da Prefeitura do Recife e do MCP

A publicação de Orgia e compadrio. Tulio Carella, drama e revolução na América Latina, obra do jornalista e doutor em artes cênicas Alvaro Machado, constitui um esforço essencial para iluminar a vida e o legado do escritor argentino Tulio Carella. Nascido em 1912, e desde cedo de notável talento poético, o filho de emigrantes calabreses pobres logrou construir uma carreira de sucesso nos principais palcos de Buenos Aires, recebendo prêmios e aclamação de público e crítica. De outro lado, a trajetória literária de Carella foi permeada por uma audácia intelectual e pessoal que, muitas vezes, cobrou um alto preço. Após receber orientações diretas de Federico García Lorca, quando contava apenas 21 anos, o portenho deu início a uma produção vasta e variada, que começou com farsas teatrais e, com o tempo, voltou-se para a representação de figuras marginalizadas da sociedade, explorando patrimônios da cultura popular, como o lunfardo, o tango e o gênero teatral chamado sainete criollo.

O destino de Carella tomou um rumo decisivo em 1960, quando aceitou o convite dos dramaturgos Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho para lecionar teatro na Universidade do Recife. Essa mudança para a capital pernambucana representou, além de um deslocamento geográfico, uma imersão profunda de Carella em um universo sensorial e cultural completamente novo, nas palavras de Alvaro Machado. Longe dos bairros mais abastados, Carella optou por fixar residência no Recife Antigo, a área portuária repleta de vida e diversidade, habitada por população predominantemente negra e mestiça. Ali, ele encontrou um ambiente de liberdade e efervescência cultural que o cativou.

Durante sua intensa permanência no Brasil, que se estendeu por cerca de um ano e meio, Carella manteve diários íntimos detalhados. Neles, registrou suas experiências sexuais homoeróticas e centenas de perspicazes observações sobre a sociedade recifense. Essas anotações seriam a base de seu livro mais controverso, Orgia, publicado no Brasil em 1968. A obra, que descreve sem constrangimento encontros amorosos e aborda a sexualidade livre em um Brasil ainda bastante conservador, revelou um Carella que não hesitava em desafiar barreiras e questionar as normas sociais de seu tempo.

A coragem de Orgia trouxe consigo sérias consequências. Em um cenário político de crescente tensão e forte sentimento anticomunista, Carella, um estrangeiro que interagia abertamente com as camadas populares, foi erroneamente identificado como “traficante de armas de Cuba”. Em 1961, foi sequestrado, detido e torturado por militares brasileiros na ilha de Fernando de Noronha. Sua libertação veio após a descoberta, por policiais, de seus diários numa gaveta de quitinete alugada, com páginas que esclareciam a natureza sexual de seus encontros, dissipando a ideia de um complô político. Contudo, foi imediatamente dispensado da universidade e forçado a deixar o país.

O impacto de Orgia se fez sentir muito além de sua expulsão do Brasil. A publicação do livro conduziu a um verdadeiro “cancelamento” de Carella em sua terra natal, a Argentina, resultando em ostracismo social e profissional. Após sua morte, em 1979, seus manuscritos originais foram destruídos por sua ex-esposa e por suas sobrinhas, sob a justificativa de que “encerravam coisas tremendas”. No entanto, o tempo, como observa Machado, validou a relevância da obra. O que inicialmente foi estigmatizado como pornográfico, gradualmente conquistou reconhecimento como um documento histórico e literário crucial sobre a homossexualidade no Brasil dos anos 1960. A obra de Carella passou a inspirar artistas e pesquisadores, tornando-se uma referência para criações como o filme Tatuagem (2013), do cineasta Hilton Lacerda e o álbum Orgia (2022) do cantor Johnny Hooker.

A biografia de Alvaro Machado, Orgia e compadrio, representa um esforço grandioso para corrigir esse silenciamento. Machado vê Carella como um “perfil humanista no sentido renascentista do termo”, alguém que, ao mergulhar no cotidiano do Recife, destoava muito em aparência da população local, o que, segundo o biógrafo, “o deixava tão excitado quanto os populares seus interlocutores”. Embora por vezes desconcertante, o olhar de Carella sobre os corpos negros era, na visão do biógrafo, permeado por um “lirismo” que transformou as descrições eróticas “nas páginas mais bonitas do livro”.

Conversamos com Alvaro Machado sobre essa jornada de resgate e a profunda conexão que ele estabeleceu com o autor argentino ao longo de quinze anos de pesquisas.

Entrevista: Alvaro Machado

Jornalista, pesquisador, doutor em Artes Cênicas Alvaro Machado. Foto: Juliana Kase / Divulgação

“Após tantos anos de pesquisa,
ouso dizer que Tulio Carella sou eu”

Alvaro Machado

Ao longo de sua extensa pesquisa sobre Tulio Carella, desde antes da edição de Orgia, os Diários do Recife (ed. Opera Prima) em 2011, até Orgia e compadrio, sua compreensão do personagem e da obra passou por uma notável transformação. Para além de um aprofundamento, essa biografia crítica representa uma revisão da sua interpretação inicial sobre o significado político e literário de Carella? E, ousaria perguntar, em que medida você se tornou, metodologicamente, um “Carella contemporâneo”, transgredindo fronteiras disciplinares da mesma forma que ele transgredia fronteiras sexuais e nacionais? 

Alvaro Machado – O aprofundamento é natural pela metodologia científica que a gente é obrigado a adotar nos cursos de pós-graduação, na defesa de tese. Então, a partir da minha experiência de leitura do Orgia, fui tocado pelo registro do cotidiano do Recife, dos muitos tipos, das relações afetivas e sexuais, todas muito bem descritas. Pela sinceridade inicial do escritor, eu fui ler toda a obra dele, que não é pequena, a obra publicada é razoável. E li todos os livros, a fim de fazer o que eu me propunha, que era sua biografia.

Uma biografia mais ou menos completa, apesar da grande ausência de fontes com as quais eu me deparei inicialmente. Mas, enfim, com os depoimentos de Buenos Aires, do Recife, de Leda Alves, de Antonio Cadengue, de Luís Reis, do Anco Márcio, e de todo esse pessoal que estuda teatro, e principalmente de um amigo dele remanescente em Buenos Aires, Mário Tesler, bibliófilo, bem como do filho de um colaborador dele, Ral Veroni, filho do gravador Raul Veroni. Então passei a coletar documentos e me aprofundei no conhecimento do personagem. Mas, principalmente pelas obras que li – tem também obras autobiográficas que eu abordo no livro, como As portas da vida –, e pelas cartas que a senhora Leda Alves me forneceu acesso, que são cerca de 300 cartas enviadas. E aí eu entendi que ele era realmente um grande escritor, obliterado pelo escândalo causado pelo livro Orgia, tanto no Brasil como na Argentina. E isso embora ele tenha pertencido a muitos círculos literários e teatrais argentinos importantes. Comecei a entender a posição dele nesse cenário e achar cada vez mais injusta a falta de pesquisa no próprio país dele, que até hoje se observa. O Orgia só foi publicado neste ano lá, agora há um mês, em espanhol, a partir da tradução do Hermilo Borba Filho, com revisão crítica da tradução, introdução e minhas notas.

Seu trabalho transborda uma evidente paixão intelectual por Carella, um sentimento que, como você já expressou, foi crucial para se debruçar sobre a figura dele. Como você equilibra o rigor acadêmico com esse envolvimento afetivo tão particular? E, provocativamente, será que a crítica literária não deveria ser, em sua essência, também um ato de amor?

Alvaro – Eu não teria me debruçado sobre a vida do Tulio Carella se eu não tivesse um mínimo de identificação com esse personagem, desde o início. E, após tantos anos de pesquisas e reflexões, posso dizer que “Tulio Carella sou eu”. Eu endosso praticamente todas as posições dele; são raras as posições que eu não endossaria, que eu não tento compreender, ou que não compreendo, quando muita gente deixou de compreender, então tenho uma tolerância grande em relação às atitudes dele por me identificar desde o começo, desde o princípio. E… se eu vou ser marginalizado não sei, mas mesmo na universidade, a partir do objeto de estudo não foi muito fácil conseguir interlocução.

Eu tive de explicar bastante a posição dele para os orientadores, porque partia de um escândalo sexual, mas as pessoas começaram a entender a trajetória, e a compreender que ele tem um aspecto político muito importante, por isso fui fazer o doutorado com o professor, Sérgio de Carvalho, que é especializado, digamos, em orientar teses históricas. E deu muito certo, mas confesso a você que cheguei a ser visto assim como um pássaro fora do ninho.

Mas continuamos, e eu acho que deu certo de fato agora, com a publicação, com muitas fotos históricas e desenhos artísticos, com Carella contextualizado completamente na história do Recife e de Buenos Aires. Então agora não tem mais por que existir essa prevenção.

A formação cultural argentina de Carella, marcada pelo criollismo, pela imigração europeia e pelo tango, indubitavelmente moldou sua sensibilidade para as margens sociais. Em que medida o Brasil, especificamente o Recife, funcionou como um “laboratório” que validou ou expandiu as teorias que ele já vinha desenvolvendo sobre as dinâmicas sociais de Buenos Aires?

Alvaro – Ele conheceu uma evolução de pensamento muito grande desde os anos 1940, onde ele estava no criollismo e na herança da cultura barroca espanhola, inserido na elite de Buenos Aires, dos governantes de origem hispânica, ou pelo menos na cultura criolla. Porque em 1940, Buenos Aires já era uma metrópole bastante heterogênea. A população de imigrantes compunha um panorama bem diferente daquele do século XIX. Mas ele cultivou essa tradição antiga. De início, com as farsas dele levadas no Teatro Nacional Cervantes, que foram seus maiores sucessos. Criollismo que provinha, de certa forma, culturalmente, do chamado Século de Ouro espanhol, dos grandes dramaturgos de então, mas logo ele começou a perceber outras perspectivas na cena teatral de Buenos Aires, até mesmo as do teatro de revista, do teatro político e do cabaré teatral, e aos poucos enveredou por uma linha política mais amplamente nacional. Nacional e ao mesmo tempo crítica do nacionalismo, sabe?, porque contemplou as margens, as franjas sociais ostensivamente ignoradas no panorama nacional “oficial”. Depois de viajar para a Europa em 1956, a fim de conhecer alguns países e as suas origens itálicas, ele assumiu a mudança radical de adotar uma perspectiva latino-americana, com raízes culturais indígenas. E quando Carella veio para o Brasil, ele ampliou esse olhar com a cultura negra. Realmente, o Brasil significou uma ampliação dessa perspectiva latino-americanista ou pan-americanista, mas não no sentido bolivariano, que é beligerante, mas no sentido humano e cultural. O Bolívar é derivado das lutas armadas na América e ele não tinha essa propensão. Ele era um pacifista.

Foto de Tulio Carella de junho de 1956. Autoria desconhecida

Uma das dimensões mais fascinantes de Carella é o caráter performático de suas ações. Observando sua trajetória, há a impressão de que a performance se dava não apenas nos palcos, mas em sua própria vida cotidiana – desde a escolha de morar no Recife Antigo até a forma como registrava suas experiências íntimas. O que suas investigações revelaram sobre essa teatralidade existencial de Carella? Ele era, de certa forma, o personagem mais original que criou?

Alvaro – Acredito que essa sua afirmação sobre ele ter criado no Recife um personagem original a partir de si mesmo corresponda à verdade. Sim, a partir da escolha de morar em quitinete na avenida Sete de Setembro e dos passeios e derivas diárias pela porção histórica da cidade, ele passou a estabelecer com muito gosto uma espécie de diálogo cênico – composto tanto de olhares e gestos como de palavras – com os tipos populares que manifestavam curiosidade por sua figura corpulenta de dois metros de altura, sua pele alva e suas roupas de tecidos e cortes diferentes. Não se negava a qualquer diálogo, com quem quer que o abordasse. Praticou esse intercâmbio com tanta intensidade e com tamanha ausência de censuras que isso se tornou, de fato, como uma  performance teatral pública, como observou, por exemplo, o pesquisador alagoano Severino J. Albuquerque, professor emérito da Universidade de Wisconsin (Madison), em ensaios que publicou sobre o portenho. Antes de dedicar-se ao ensino da Literatura, Severino formou-se em Medicina no Recife, portanto conhece muito bem a cidade.   

Em sua biografia, você escreve que Carella “confrontou-se com um meio intelectual de difícil penetração, fomentador de intrigas e vassalagens” tanto no Recife quanto em Buenos Aires. Essas “cortes culturais” parecem ter sido um obstáculo constante na trajetória do escritor argentino. A partir de seus levantamentos, como essas disputas de poder intelectual se manifestavam concretamente no Recife? E como você compreende essas dinâmicas de poder?

Alvaro – Em 1960-61, quando Carella esteve entre nós, existia no Recife uma aguda polarização política, e o estado de Pernambuco era como uma ponta de lança dos debates e lutas sociais travadas nos anos seguintes no Brasil e que desembocaram na tragédia do golpe civil-militar de 1964 e do progressivo solapamento da democracia a partir de então, por longos 25 anos. Os militares e os policiais da região jamais aceitaram os governos do socialista declarado Miguel Arraes na prefeitura da capital e no governo do estado. Assim, todo o setor militar e policial, a maior parte do Judiciário a cabresto de latifundiários e senhores de engenho, parte da imprensa e mesmo instituições criadas especialmente para minar a organização de movimentos pela Reforma Agrária, alfabetização, voto popular etc. conduziram à prisão e à tortura do dramaturgo argentino – contratado por parceiros de Arraes –, após um diálogo vigiado que ele manteve com o artista e líder comunista Abelardo da Hora numa cantina de repartição pública. Em outro polo de intrigas, mais tarde, já no final dos anos 1960, a primeira esposa de Hermilo Borba Filho, Débora Freire, espalhou amplamente, no Recife, boatos de que o argentino teria sido amante de seu ex-marido.

Em seu trabalho, você notou uma transformação na perspectiva sobre Carella, inclusive por parte de Leda Alves, uma fonte importante, no Recife, para seus estudos. Poderia nos detalhar essa mudança na forma como Carella é percebido? E, na sua opinião, o que motivou essa alteração de atitude ou de visão sobre ele?

Alvaro – Desde antes de 2011, quando eu comecei a conversar com Leda Alves, que foi, por tanto tempo, secretária da cultura do Recife etc., foi uma odisseia esse contato, porque ela era refratária a tratar do assunto, não tinha interesse, sabe? Havia um claro tabu. Mas, devido à minha insistência, e ao pagamento de um valor razoável para o contrato de republicação do Orgia na tradução do Hermilo Borba Filho (revisada), principalmente porque ela andava precisando de dinheiro, estava operando a vista, ela concordou. Desde então passei a conversar com ela. Era obrigatório. Ela conheceu bastante meu personagem. E, com o tempo, Leda  mudou a postura dela, até um ponto que eu diria radicalmente, em seus três últimos anos de vida. Inclusive assinou contrato para a realização de um filme a partir de Orgia, que seria feito pelo Karim Aïnouz e pelo Marcelo Gomes. Durou sete anos esse contrato, mas a produtora do João Júnior Vieira, do Recife, não conseguiu levantar o dinheiro para um filme de época. Esse filme ainda pode ser feito, já que Karim está lendo a biografia que publiquei agora.

Então, a Leda foi mudando nas conversas telefônicas, ela assinou o contrato não só para o livro, mas para o filme, sabe? E conversando comigo no telefone, ela foi mudando a postura, foi valorizando o Carella, o contato pessoal que ela teve com ele e as coisas boas da relação. Por quê? Porque ela tinha um trauma que está contado no livro, que era o da fofoca detonada no Recife inteiro após o desquite, ou o divórcio, não sei, na época acho que era desquite, do Hermilo da primeira mulher dele, a Débora Freire, que ficou maluca de Hermilo assumir a Leda Alves, a atriz, ex-atriz do grupo… ex-secretária dele… ficou maluca e começou a dizer no Recife que o ex-marido e Carella tinham sido amantes… E isso apavorou Leda… Ela não queria tratar desse trauma… e Débora chegou a escrever cartas com ofensas para Carella… como também está registrado em meu livro. Então, com os anos Leda ela foi mudando. E me afirmava que ele tinha sido um sujeito muito legal… que tinha as suas idiossincrasias… os seus gostos… e “fazia escondido”… como ela dizia… entre aspas… sem incomodar ninguém… e que era muito discreto na sua vida pessoal… e que principalmente ele influenciou a conversão de Hermilo ao catolicismo, à Igreja Católica. Inclusive com o casamento dela celebrado por Dom Helder Camara, extraoficialmente, porque não podia, o Hermilo já era casado, já tinha sido casado. E até o final, um ano antes da morte dela, mais ou menos, ela falava coisas muito legais do Carella, mudou totalmente a cabeça.

Meu livro é pelo menos vinte por cento sobre o Hermilo. Porque  eles influenciaram muito um ao outro, sabe? Isso é muito importante. 

Chegada ao Recife em 1961. Foto na coluna Diário Artístico, de Joel Pontes, do Diario de Pernambuco 

Seu livro surge em um período de recrudescimento conservador na América Latina. Diante disso, que conexões você estabelece entre este cenário e a trajetória de Carella?? 

Pois é, sobre essa questão de ideologia de gênero, do momento político atual:  realmente assume agora uma grande importância a posição pan-americanista dele e do Hermilo, que era uma ideologia almejada pelos dois,  em especial neste momento de retrocesso de posições, de enfraquecimento da esquerda política em toda a América Latina. Também por isso ele foi para o Recife, por isso se estabeleceu na cidade e pretendia permanecer nela até morrer, se não tivesse sido expulso. Porque ele dividia essa ideologia, esse ideal mais que ideologia, porque partilhava esse ideal com o Hermilo e com outros brasileiros. Assim, o Orgia se tornou o mais importante de todos os livros do Carella, e o mais estudado.

E então se tornam agora ainda mais importantes os livros dele, como o também autobiográfico Las puertas de la vida [As portas da vida], muito citado em minha biografia por essa posição de abertura e valorização das culturas autóctones da América, dos indígenas dos dois países e dos escravizados que começaram a ser trazidos no século XVI e se estabeleceram aqui para tomar parte da brasilidade. Mas Carella também possuía a sua herança cultural específica. Então a valorização desses elementos é uma coisa na qual ele foi pioneiro. E também o seu repúdio à cultura europeia. E se ele não discutia propriamente ideologias de gênero,  assumiu a bissexualidade ao publicar Orgia em 1968 a pedido do Hermilo. E mais ainda no começo de 1969, ao distribuir mais de trinta cópias desse livro em Buenos Aires, orgulhosamente, sem medo. Isso acarretou a separação de sua mulher, que não aguentou essa revelação da bissexualidade, e ele passou a viver sozinho, ficou muito na dele, muito tranquilo, muito no pensamento estoico e cínico que perseguia, com uma certa pobreza de meios, num bairro pobre de Buenos Aires, que é o Congreso, ainda hoje é pobre, não é um bairro abastado, mas feliz, tranquilo, em paz, de bem com a vida, sem ressentimentos de ninguém, só o forte desejo de voltar para o Recife, que não realizou, infelizmente. Mesmo no final da vida ele teria voltado.

A decadência física dele foi um tanto rápida, em um ano ele estragou a saúde… fumava muito… e tinha outros problemas também, de próstata etc.. 

Como você imagina que Carella reagiria aos debates contemporâneos sobre identidade de gênero e diversidade sexual na América Latina?

Alvaro – Acho que se ele estivesse vivo hoje, ele não participaria desse debate todo que a gente vive, racial e de gênero. Eu acho que ele ia preferir realmente atuar literariamente. Ele nunca deu esse tipo de palestra durante a vida dele e eu acho que ele se isentaria, se ausentaria mesmo. E preferiria uma luta, uma trincheira, de fato, literária, ou na crítica. Penso que nem seria explícita, porque, apesar de ter escrito Picaresca porteña, esse livro é composto de ensaios sobre características históricas da cultura argentina, e não atualidades, não debate político atual. 

Após uma imersão tão profunda, o que, porventura, ficou por ser dito sobre Carella neste livro? Você sente que esgotou as possibilidades interpretativas dessa figura tão complexa, ou ainda há territórios a explorar?

Alvaro – Eu não considero que esgotei o Carella, não, de forma nenhuma. É um personagem rico demais e merece ainda muitas pesquisas. Mandei essa biografia há um mês para a Biblioteca do Congresso Nacional, em Buenos Aires, e ela foi aceita no acervo, para que outras pessoas possam pesquisar a obra dele, porque apesar de o livro ser extenso, com 360 páginas, existem muitas facetas e textos dele muito bons, desconhecidos, porque tudo que ele  fazia era com alto nível de excelência na escrita. Então acredito que foi uma pesquisa até inaugural.

 

 

 

Orgia e compadrio :
Tulio Carella, drama e revolução na América Latina
Autor: Alvaro Machado
Editora: Cosac
R$ 132,00

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Teatro de Santa Isabel:
175 Anos de Palco,
Resistência e Memória

Tombado pelo IPHAN em 1949, o TSI é um 14 teatros-monumentos do país. Foto: Andréa Rêgo Barros / PCR

É impactante sua arquitetura neoclássica. Foto: Andréa Rêgo Barros / PCR

Lançamento de livro e apresentação do Grupo Magiluth na celebração de aniversário. Foto: Andréa Rêgo Barros

Em 2025, o Teatro de Santa Isabel completa 175 giros em sua espiral temporal, entrelaçando passado e presente no coração do Recife. Esse corpo arquitetônico respira memórias e performa histórias que se acumulam em camadas, como uma máquina do tempo em movimento, onde cada apresentação deixa seus rastros invisíveis. Inaugurado em 18 de maio de 1850, o edifício neoclássico é um organismo cultural que pulsa, absorve e reflete as vibrações sociais de quase dois séculos.

Concebido pelo Barão da Boa Vista e materializado pelo engenheiro francês Louis Léger Vauthier, suas paredes testemunharam momentos da história, desde os debates da Revolução Praieira até os discursos que culminaram na declaração de Joaquim Nabuco: “Aqui vencemos a causa da abolição”. O incêndio de 19 de setembro de 1869, que destruiu quase toda a estrutura do teatro, deixando apenas paredes laterais, alpendre e pórtico, não silenciou sua importância. Em 16 de dezembro de 1876, o teatro ressurgiu para continuar sua missão como palco da efervescência cultural pernambucana.

Desse palco, revoluções saltaram para as ruas. Suas colunas sustentam ideais de liberdade que permeiam gerações. Ao visitá-lo hoje, conectamo-nos diretamente com um capítulo fundamental da história cultural do Brasil, apreciando tanto sua relevância arquitetônica quanto sua contribuição para a formação da identidade pernambucana. Em um país que luta para não esquecer sua memória, esperamos que o Santa Isabel permaneça – resistente, vivo e necessário – como artéria pulsante da cultura que segue reinventando o futuro a partir das lições do passado.

Para a celebração de aniversário, o Santa Isabel recebe no domingo, dia 18 de maio, às 19h, o Grupo Magiluth com o espetáculo Estudo Nº 1: Morte e Vida, uma releitura do poema de João Cabral de Melo Neto. E nesta sexta-feira (16 de maio), às 19h, ocorre o lançamento do livro digital Ponto de Vista: crítica e cena pernambucana, pesquisa minuciosa do jornalista e historiador Leidson Ferraz, que faz uma palestra sobre os primórdios da crítica no Recife.

 

Estudo Nº 1: Morte e Vida

Uma reconfiguração contemporânea do clássico severino

Cena faz alusão à precarização do trabalho, e a Thiago Dias, trabalhador de aplicativo que morreu de exaustão Foto_Vitor Pessoa/ Divulgação

Essa cena do canavial, cruza Michael Jacson com maracatu rural, com Bruno Parmera. Foto_Vitor Pessoa

 

Crises climáticas e migrações são discutidas no espetáculo. Foto_Vitor Pessoa/ Divulgação

Como parte das celebrações de 175 anos, o Teatro de Santa Isabel recebe no domingo, 18 de maio, uma das mais instigantes produções do teatro pernambucano contemporâneo. Estudo Nº 1: Morte e Vida, do Magiluth, sob direção de Luiz Fernando Marques (Lubi) e assistência de Rodrigo Mercadante, propõe uma releitura radical do clássico Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Os ingressos  para o espetáculo são distribuídos na bilheteria do teatro, a partir das 18h.

A dramaturgia expandida torna-se um “manifesto-palestra” que entretece o texto original com narrativas urgentes do presente, preservando a força poética cabralina, amplificando-a nas discussões atuais, evidenciando como as questões de migração, precarização do trabalho e crise climática permanecem dolorosamente atuais.

Podemos pensar sobre episódios trágicos do mundo real, que, embora não estejam diretamente em cena, chegam por associação, como a brutalidade sofrida por Moïse Mugenyi Kabagambe – refugiado congolês no Brasil, assassinado em 2022 no Rio de Janeiro após cobrar salários atrasados. Ou em um dos  episódios centrais da encenação, que reflete a precarização do trabalho e o desprezo pela vida, a história de Thiago Dias – trabalhador nordestino que sucumbiu em 2020 por exaustão após jornadas extenuantes como entregador de aplicativo em São Paulo.

Essas tragédias estabelecem pontes temporais que apontam a persistência das desigualdades sociais, que vem muito antes da publicação de Morte e Vida Severina (1955).

A força do texto cabralino não fica aprisionada em uma redoma de contemplação, mas, ao contrário, é potencializada ao ecoar em narrativas urgentes do presente. Quando os atores alternam entre os versos e intervenções performativas que incorporam narrativas atuais, criam um campo dialógico onde passado e presente se interpenetram, expondo as estruturas de poder e as continuidades históricas da exploração no contexto das novas configurações das ordens mundiais.

A encenação rompe radicalmente com a ilusão teatral ao expor deliberadamente seus mecanismos de produção. Microfones, mesas técnicas à vista, projeções em painéis desnudos – todos estes elementos compõem um dispositivo metateatral que transforma o espetáculo em uma “oficina” visível de criação.

A estrutura espiral da montagem sobrepõe camadas temporais através de projeções que justapõem imagens de arquivo, recortes digitais e colagens visuais. Esta fragmentação sensorial reflete a própria natureza caótica da experiência contemporânea, criando uma malha de significados que desafia interpretações lineares. O título “Estudo” não é casual: carrega a natureza investigativa de um teatro que se propõe como pesquisa contínua e menos como produto acabado.

Um dos aspectos mais provocativos da montagem é seu questionamento da própria figura do “Severino”. Ao utilizar ferramentas de busca digital para expor representações estereotipadas do nordestino, o espetáculo desnaturaliza imagens cristalizadas no imaginário nacional. O personagem insiste em dizer que não é uma entidade fixa para mostrar-se como um conceito em constante movimento, atravessado por muitas vozes e experiências.

 

Primórdios da crítica teatral no Recife

Leidson Ferraz lança livro digital e faz palestra. Foto: Léo Mota. Capas do livro. Design: Claudio Lira.

Uma investigação sem precedentes sobre os primórdios da crítica teatral pernambucana será apresentada ao público nesta sexta-feira (16 de maio), às 19h, no Teatro de Santa Isabel. Fruto de meticuloso trabalho em vários periódicos dos séculos 19 e 20, o livro Ponto de Vista: crítica e cena pernambucana, de Leidson Ferraz, doutor em Artes Cênicas pela UNIRIO, inaugura as celebrações pelos 175 anos da casa de espetáculos. A obra desvenda o universo das primeiras publicações críticas sobre teatro na imprensa recifense, reconstruindo o panorama cultural da época através de documentos raros e análises. O acesso ao evento é gratuito.

Durante a palestra, o pesquisador compartilha curiosidades sobre os embates e polêmicas que marcaram a cena teatral pernambucana, desde os críticos anônimos que usavam pseudônimos como “O Kapla” e “O Sentinela” até a profissionalização da crítica no início do século 20. Entre os destaques da pesquisa está o momento de transição dos gêneros teatrais, quando as operetas e o teatro de revista substituíram o teatro romântico e realista, causando reações intensas como a ocorrida em 1869, quando apresentações de óperas-buffa provocaram tumultos no mesmo ano em que o teatro sofreria um devastador incêndio. A publicação, que contou com incentivo da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB/PE), já está disponível gratuitamente em formato digital no link Livro

 

Entrevista – Romildo Moreira – diretor do Teatro de Santa Isabel

Romildo Moreira. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

Aproveitando o momento significativo das comemorações dos 175 anos do Teatro de Santa Isabel, realizamos uma entrevista com Romildo Moreira, atual diretor dessa casa histórica das artes pernambucanas. Com experiência na gestão cultural e conhecimento sobre o legado deste patrimônio, Moreira compartilha reflexões sobre os desafios de preservar e administrar um espaço que testemunhou importantes capítulos da história brasileira desde 1850.

– O Teatro de Santa Isabel é um verdadeiro patrimônio cultural e arquitetônico. Quais aspectos da história e da vocação do teatro o senhor destacaria como fundamentais para sua identidade?

Romildo Moreira – O Teatro Santa Isabel é um patrimônio cultural e arquitetônico, sim. Foi tombado pelo IPHAN em 1949, já ressaltando exatamente esse patrimônio com uma ênfase da cultura local, na cidade do Recife, e patrimônio nacional da arte e da cultura, como depois ele foi eleito a esta condição.

Ele participa dos 14 teatros-monumentos do país e hoje ele é considerado pelo próprio IPHAN como um dos teatros antigos do Brasil, um dos mais bem equipados e com programação permanente.

O tanto que a gente aqui fica recebendo solicitações de pauta o tempo inteiro e já está com a pauta para 2025, por exemplo, lotada até o dia 21 de dezembro. Ou seja, tanto a produção local quanto a produção nacional e até produções internacionais, quando vem para o Nordeste, pensa no Recife e no Teatro de Santa Isabel.

De fato, ele é almejado não só pela produção local, mas, como falei, nacional e internacional.

 – Considerando a importância histórica e a relevância na cena cultural do Recife, como o teatro se posiciona para cumprir seu papel frente aos desafios contemporâneos?

Romildo Moreira – Com relação aos desafios contemporâneos, mesmo o teatro sendo muito antigo, com 175 anos de existência, a gente não faz discriminação de espetáculos contemporâneos, de teatro, dança, circo, ópera etc., desde que não haja nenhum prejuízo físico ou moral para casa, a gente tem todo o prazer em receber essas produções aqui no palco do Teatro Santo Isabel. Isso tem ocorrido frequentemente. Inclusive, a nossa comemoração dos 175 anos do Teatro Santo Isabel é com o Grupo Magiluth, que tem um espetáculo muito contemporâneo, um espetáculo que não tem uma pegada cênica de antigamente, muito pelo contrário, é um espetáculo jovem, atemporal, contemporâneo etc.

Gostaria de entender melhor o que significa “prejuízo físico ou moral para casa”.

Romildo Moreira – Prejuízo físico é que danifique alguma coisa de palco, da plateia, das cadeiras, do gradil que é tombado etc. Então, prejuízo físico seria exatamente danificar algo que caracteriza o patrimônio. E prejuízo moral seria espetáculos de cenas explícitas, de pornografias, de sexo etc.

Só lembrando também que prejuízo moral também seria espetáculos pornográficos. A gente não teria esta condição de recebê-lo pela própria história e relevância do Teatro Santo Isabel.

 O mês de maio reserva uma programação especial para o aniversário do teatro.

Romildo Moreira – Para a celebração dos 175 anos, na programação oficial nossa aqui do Teatro de Santa Isabel, temos o lançamento do livro Ponto de Vista: Crítica e Cena Pernambucana, de Leidson Ferraz,  na sexta-feira, 16/05, (às 19h) e no domingo, 18/05, a apresentação gratuita de Estudo nº1: Morte e Vida, do grupo Magiluth, em comemoração ao aniversário

Quanto à Orquestra Sinfônica do Recife, os concertos (27/05 e 28/05, às 20h) fazem parte da programação mensal. Não está diretamente vinculado ao aniversário do teatro, mas também não deixa de ser uma oportunidade das pessoas estarem aqui nesta semana de comemoração desta data tão importante para um teatro que está permanentemente ativo. Não é verdade?

– O que motivou a escolha dessa programação especial?”

Romildo Moreira – Com relação ao que motivou essa programação que você chama de especial para o aniversário do teatro, é uma coisa muito simples. Primeiro, o lançamento do livro de Leidson Ferraz trata-se de teatro, e nada melhor do que lançar num teatro, como o Teatro de Santa Isabel, porque muita pesquisa ele fez aqui também, no nosso material. E na própria descrição do livro se fala muito no Teatro de Santa Isabel. E quanto ao Grupo Magiluth, a escolha do Grupo Magiluth é porque é um grupo local importantíssimo que faz apresentações aqui esporadicamente por outras questões, por falta de pauta etc., e pela qualidade do grupo, a qualidade dos espetáculos do grupo, inclusive trazendo uma peça baseada em João Cabral, do Melo Neto. Então a pernambucanidade do espetáculo tem tudo a ver também com a pernambucanidade do Teatro de Santa Isabel. Enfim, mas independente dessa coisa bairrista mesmo, é a qualidade artística que o grupo Magiluth tem nos seus espetáculos.

E esta é a razão mais forte que a gente encontra para dizer que este grupo vai entrar nesse aniversário do teatro tranquilamente.

– O teatro possui algum projeto de curadoria específico para contornar questões contemporâneas e potencializar o uso do espaço cultural? Como esse projeto tem influenciado a escolha e a execução dos eventos?”

Romildo Moreira – Bem, não existe uma curadoria para escolhas dos espetáculos a acontecer no Teatro de Santa Isabel. Existe um decreto de número 21-924, de 10 de maio de 2006, que normaliza as pautas que a gente pode oferecer, pode receber aqui. Então, não pode ter excesso de som, som até 95 decibéis, não pode ter abundância de água em cena, não pode ter fogo, não pode ter drone etc., coisas que possam pôr em risco o patrimônio cultural do Teatro de Santa Isabel. Então isso a gente leva em conta quando recebe as propostas de pauta se esse espetáculo pode ser apresentado aqui ou não. Quando não pode ser apresentado aqui, a gente explica o motivo e sugere uma outra casa de espetáculos. Normalmente, a produção local já sabe disso e não traz esse problema para a gente resolver, mas as produções de fora, quando ocorre, a gente explica e eles entendem completamente bem.

Quais são os critérios adotados para escolher as pautas e os eventos executados no teatro ao longo do ano? Há uma linha diretriz definida para a programação?

Gostaria de compreender com mais profundidade como funciona o processo de distribuição de pautas ao longo do ano no Teatro. Poderia descrever, de forma detalhada, o passo a passo desse procedimento? Por exemplo, se uma produtora local tem interesse em reservar uma pauta para maio de 2026, qual seria o período ideal para entrar em contato, e quais os documentos e informações necessários para formalizar a solicitação?

Romildo Moreira – Não há linha definida para a ocupação da pauta, o que há é a não aceitação de eventos artísticos e culturais que não tem perfil para o Teatro de Santa Isabel. Por exemplo: concurso de miss, eventos evangélicos, espetáculo pornográficos…

Se eu, como produtora cultural, precisar de uma pauta, como consigo? Quais os critérios? Não tem critérios?

Romildo Moreira – Se você precisar de uma pauta, é só encaminhar para o nosso e-mail a solicitação de pauta dizendo o que vai ser utilizado nessa pauta, qual é o espetáculo, se é teatro, dança, circo, ópera, como é que ele se porta, mandar fotos, mandar material em geral sobre a peça, para a gente saber o que é etc.

É isso. Se houver alguma impossibilidade de recebê-lo pela data, já é uma coisa óbvia, porque já está ocupado. Ou então porque o espetáculo não se porta dentro do que a gente já falou antes, se é pornográfico, se tem danos físicos ou morais para o teatro.

É isso, não tem outro critério, que a gente não vai fazer censura estética, entendeu?

Há variação também nos valores dos aluguéis e nas condições de contratação nesses casos, ou são uniformes para todos?

Romildo Moreira – O pagamento da pauta do Teatro de Santa Isabel tem uma diferença da produção local para a produção visitante. A produção local paga 10% da bilheteria bruta com o valor mínimo de R$ 2 mil por apresentação. A produção visitante paga 10% da bilheteria bruta com valor mínimo de R$4.000 por cada apresentação. Só isso que difere, é só o valor mesmo, porque a produção local tem esse abatimento de 50% do valor da pauta.

Por fim na questão das pautas, gostaria de saber se existem restrições específicas para espetáculos destinados ao público infantil ou juvenil e como essas particularidades influenciam a distribuição de pautas.

Romildo Moreira – Inclusive, no mês de julho, existe o Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco, da Metro Produções, e o Teatro de Santa Isabel também recebe esse festival. Então, nós temos o maior prazer também de apresentar espetáculo para criança, que é o público do futuro.

– O Teatro de Santa Isabel, com sua longa trajetória, sempre enfrentou desafios de manutenção e sustentabilidade. Quais estratégias e parcerias têm sido implementadas para garantir sua sobrevivência e modernização sem perder sua essência histórica?

Romildo Moreira – Quanto à manutenção e sustentabilidade, existe uma questão bem presente, como o teatro é da Prefeitura do Recife, a Prefeitura, através da Fundação de Cultura e da Secretaria de Cultura, faz a manutenção permanente através de empresas que são licitadas para tal. Então, a gente tem uma empresa que cuida da manutenção do ar-condicionado, outra que cuida da manutenção estrutural, enfim, e por aí vai. São empresas que permanentemente, como por exemplo os elevadores, têm um problema no elevador, então tem a empresa de manutenção do elevador  que vem e conserta na hora e por aí vai. Isso facilita, porque é um órgão público. Se fosse pela bilheteria do teatro, jamais isso ocorreria, porque a gente não teria disponibilidade financeira para tal. Mas, ao contrário, a gente mantém sempre essas questões em dia por conta dessas parcerias que são com a Fundação de Cultura e Secretaria de Cultura para a manutenção de empresas com esta obrigatoriedade.

– Quantos funcionários compõem a equipe que trabalha no teatro e quais têm sido os principais desafios enfrentados na gestão do espaço atualmente?

Romildo Moreira – 49 funcionários

– Qual tem sido o papel do investimento público no fortalecimento e na manutenção do teatro? De que forma esses recursos têm contribuído para a preservação e renovação do espaço?

Romildo Moreira – Reforçando. Acho importante também falar sobre a manutenção do teatro. Todo mês de fevereiro, anualmente, a gente não abre pautas, não abre para atividades artísticas, a gente faz uma manutenção de equipamento, de som, de luz, de toda parte estrutural do teatro, fazendo também alguns reparos de pintura, etc., para manter o teatro sempre bem quisto e bem visto pela sociedade.

– Como o cidadão, de todas as classes sociais, pode ter acesso ao teatro? Existem projetos ou estratégias que promovem a participação popular e a democratização do espaço?

Romildo Moreira – Quando se trata de sociedade, o teatro tem esse cuidado de não ser uma casa distante da população. Por isso que temos muitos espetáculos gratuitos.

A Orquestra Sinfônica do Recife faz quatro concertos aqui no teatro mensalmente, com sessões gratuitas. Além disso, o teatro tem um projeto chamado Santa Isabel em Cena, que tem duas vertentes. A primeira vertente é que, às terças-feiras, a gente recebe uma média de 300 jovens, entre alunos de escolas públicas, escolas privadas e de ONGs que trabalham com essa faixa etária. Essas pessoas vêm aqui para conhecer o teatro e assistem um espetáculo gratuitamente, um espetáculo local.

E a segunda versão desse Santa Isabel em Cena é que acontece aos domingos, uma vez por mês, um espetáculo direcionado mais à terceira idade, que é uma forma também de a gente trazer e manter este público. Na primeira versão é para os novos frequentadores do teatro, com essa juventude, e nessa segunda versão é para a manutenção desse povo que já acostumou vir ao teatro e assistir a um espetáculo, principalmente de música camerística. Enfim, de forma que a gente tem essa preocupação de um público sempre ampliado e renovado nas apresentações do Teatro de Santa Isabel.

Também temos tido o cuidado de negociar com as produções que vêm para cá, para o Teatro de Santa Isabel, de não fazerem preços muito altos, até mesmo porque o pagamento da pauta é muito pequeno, é 10% da bilheteria bruta, de forma que os ingressos aqui não são de preço tão volumosos exatamente para facilitar uma camada mais ampla de pessoas poderem assistir, já que os ingressos não são tão caros.

– Considerando a situação do entorno do teatro, com calçadas em péssimo estado, a presença de moradores de rua e mendicância, há alguma estratégia integrada ou parceria com órgãos públicos para revitalizar a área?

Romildo Moreira – Com relação a essa questão de moradores de rua, quando o teatro fecha, fica invadido, pessoas dormindo aí, a gente não tem como resolver isso aqui. A prefeitura passa toda quarta-feira aqui, oferece abrigo para essas pessoas, umas já foram, outras já tiveram a família inteira abrigada, mas tem gente que não quer. Então, rua é rua, a gente não tem como fazer. Isso não seria com a Secretaria de Cultura nem com a Fundação de Cultura, muito menos com o teatro. Mas a prefeitura, de um modo geral, tem tido uma ação permanente de fazer com que essas pessoas não agridam o espaço etc. Mas é bem complexo em função disso. Tem gente que não quer sair da rua, enfim. Quando chove, principalmente, eles vão para os lugares onde tem abrigo, como tem aqui no Teatro de Santa Isabel, nessa Dantas Barreto, na Guararapes, é o que mais se vê, como se vê também em outras capitais, Rio de Janeiro, São Paulo etc.

– Que mensagem o senhor deixaria para o público e a comunidade?

Romildo Moreira – A mensagem que deixo para o público e o mundo geral é que não temos aqui a preocupação de fazer censura estética com a utilização do teatro de Santa Isabel. Tanto espetáculo, teatro, dança, circo, ópera, música, enfim, temos só a preocupação prevista no decreto, como já falei anteriormente, porque é para a pluralidade de público mesmo.

Enquanto a gente recebe um espetáculo que requer mais um público jovem, o público jovem vem. Quando requer mais um público mais maduro, terceira idade, etc., esse público vem. E é importante saber que, quando eles vêm, eles veem um bom espetáculo aqui quer mais um público mais maduro, terceira idade etc., esse público vem.

E é importante saber que, quando eles vêm, eles veem um bom espetáculo aqui e ficam sempre aguardando novas oportunidades para retornar, porque o Teatro Santa Isabel é a casa do povo do Recife, e o povo do Recife é plural. E essa pluralidade também a gente mantém na programação exatamente para atender todos os desejos e necessidades de uma sociedade tão ampla como é a nossa.

 

 

 

 

 

 

 

Postado com as tags: , , , , , , , ,

Para pensar a política cultural do Recife

É necessário muito trabalho nos bastidores para que a cultura  do Recife volte a respirar. Na imagem de Andrea Rego Barros, o urdimento do Teatro do Parque.

Teatro do Parque com vista a partir dos camarotes. Foto: Andrea Rego Barros / Divulgação

* Atualizada em 29/01/2021 às 11h51

A política cultural é feita de escolhas. De prioridades e investimentos. Como na regra máxima da economia: recursos escassos para atender a desejos infinitos. Nessa difícil equação, os gestores decidem o que fazer com o orçamento. Alguns apostam na oitiva da população, especialmente daquela porção diretamente envolvida, para tomar decisões. Uns acreditam no seu poder clarividente de entender o que o setor cultural e os cidadãos querem sem escutá-los.

Mas nenhuma escolha é ingênua. Ou aleatória. Ela está atrelada às ideologias. Verbas materializam aspirações, sonhos, projetos. Do que se pensa que é melhor para o universo individual ou coletivo. E quem detém nas mãos a construção desse mundo; ou seja, quem está no poder, tem a chance de escolher onde e como e porque aplicar os investimentos; fornecer as condições básicas, médias e suficientes para que os habitantes sobrevivam, vivam, existam. Então, alguns atores sociais podem ser inviabilizados, não priorizados por investimentos públicos, lançados tão ao fim da fila que nunca chegam sua vez.

David Harvey chama de mercadificação a transformação em mercadoria de formas culturais, históricas e da criatividade intelectual.

A política cultural neoliberal do governo de Pernambuco e do Recife equaliza a dimensão de entrega das decisões para o mercado. Isso ficou notabilizado nos últimos oito anos de gestão do PSB na Prefeitura do Recife e no estado mais do que isso. Foi uma trilha de perdas das conquistas da classe artística, que precisou se juntar em movimentos vários para frear estragos ou garantir pontos fundamentais.

O Teatro do Parque, equipamento administrado pela prefeitura, fechado durante 10 anos e reaberto no fim do ano passado, é um exemplo – que nem sempre aparece nas notas oficiais – da articulação de muitos artistas. Foram diversas Viradas Culturais, protestos, mobilizações, comissões para o teatro ser devolvido lindinho à população.

Com João Campos, do PSB, ocupando a cadeira de prefeito depois de oito anos de Geraldo Júlio (PSB), entraram em cena no início do mês o professor, escritor, documentarista e produtor cultural Ricardo Mello, no cargo de secretário de cultura da cidade do Recife, e o diretor de teatro, professor, José Manoel Sobrinho, como presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife. Ambos foram recebidos de braços abertos pela maior parte da classe teatral. José Manoel, de forma efusiva.

Ricardo Mello, secretário de Cultura do Recife na gestão do prefeito João Campos. Foto: Reprodução do Facebook

José Manoel Sobrinho, presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, na gestão de João Campos. Foto: Thiago Faria / Divulgação

Registramos aqui as inquietações a partir das perguntas que fizemos a algumas pessoas das artes cênicas sobre os gestores atuais. Foram dois questionamentos: 1) a opinião sobre a escolha dos nomes 2) as prioridades para a gestão. As respostas foram dadas entre 5 e 15 de janeiro. 

Basicamente são três marcos de recepção. Os que acreditam plenamente em mudanças com a participação desses gestores; os que sabem do valor dos nomes, mas desconfiam do método PSB de administrar; e os que, apesar de torcer para que a cultura recifense dê certo, não confiam na política desse partido, tendo por base os danos ocorridos nos últimos oito anos. 

Mônica Lira, coreógrafa e bailarina do Grupo Experimental pensa que foi imprescindível chamar pessoas realmente da área de cultura. “Tivemos durante essas duas gestões de Geraldo Júlio, infelizmente, pessoas técnicas, homens machistas, principalmente o ex-presidente da FCCR. Eu tive a experiência, inclusive, lá dentro, interna, que foi muito ruim. Então, acredito que vai ser muito importante se eles (Ricardo Mello e José Manoel) tiverem realmente recursos e abertura para construir uma política que já deixou de existir há muitos e muitos anos”.

Diálogo, esse ato básico de comunicação, é um dos quesitos mais reclamados pelos artistas durante as duas últimas gestões do PSB. “É uma expectativa de que seja um novo momento, um fio de esperança, uma luz no fim do túnel. Porque não está fácil ser artista, permanecer artista morando num país como o Brasil e com esse desgoverno. E principalmente numa cidade em que a cultura não tinha nenhuma prioridade. A cultura nunca foi prioridade para essa gestão de Geraldo Júlio, em nenhum momento”, reforça Mônica Lira.

Atriz, produtora e curadora Paula de Renor assume a administração do Parque Dona Lindu / Teatro Luiz Mendonça. Foto: Reprodução do Facebook

Paula de Renor, atriz, produtora e conselheira do Conselho Estadual de Cultura foi convidada e aceitou a administração do Parque Dona Lindu / Teatro Luiz Mendonça, os dois equipamentos juntos. Essa informação foi divulgada neste 25 de janeiro. Além de produtora, com longa temporada no festival Janeiro de Grandes Espetáculos, do qual se desvinculou há cerca de três anos, ela administrou um dos espaços mais queridos do Recife das últimas décadas: o Teatro Armazém. Atualmente ela produz o Reside – Festival Internacional de Teatro FIT-PE.

“Eu aceitei porque eu quero apoiar Zé Manoel e Ricardo, pois eu acredito neles, nos dois. Eu acho que que a gente tem que ocupar os espaços – a gente quer dizer a classe artística – tem que ocupar os espaços que pertencem à classe. Os teatros pertencem à cidade, à classe e eu acho que ninguém melhor do que os artistas, e artistas que são gestores também e produtores, para cuidarem desses espaços. Os artistas, como ninguém, sabem cuidar, porque eles precisam e vivem desses espaços. Então foi por isso que eu aceitei esse desafio”, contou ao blog Satisfeita, Yolanda? 

Ator, diretor e dramaturgo Giordano Castro. Foto: Reprodução do Instagram

Mesmo reconhecendo a importância dos dois gestores, o ator, diretor e dramaturgo, integrante do Grupo de Teatro Magiluth, Giordano Castro, confessa que “não acredito muito em grandes mudanças”, lembrando que é mais uma gestão do PSB no Recife. E que, em linhas gerais, levando em conta o histórico dos últimos oito anos de administração desse partido na capital pernambucana, o resultado foi o desmantelamento de algumas conquistas.

Entre elas,  o enfraquecimento de festivais importantes como o de teatro, o de dança e o de literatura. “São festivais muito fortes na cidade que, de alguma forma faziam com que a vida cultural da cidade do Recife acontecesse de forma fervorosa. E esses festivais, eles acabaram”. E, por isso mesmo, Giordano ressalta a importante da alternância de poder. “Mas sendo João (Campos) o novo prefeito, nós vamos democraticamente viver com ele nesses quatro anos e torcer para que eu esteja de alguma forma errado em relação a isso”.

Artistas e produtores Mísia Coutinho, Paulo de Pontes e Gheuza Sena. Fotos: Reprodução do Facebook

A torcida pelos novos gestores é grande. Muitos atores, diretores, produtores, botam muita fé, principalmente no nome de José Manoel Sobrinho. “Conheço de perto a dedicação dele, o empenho e a competência”, frisa a produtora e atriz Mísia Coutinho. O ator e produtor Paulo de Pontes corrobora que as escolhas não poderiam ser melhores. “Já nos dá certa esperança”. A atriz Gheuza Sena também aposta suas fichas em José Manoel “que é uma pessoa que eu conheço a fundo, acompanho bastante o trabalho dele, já muitos anos foi meu professor na Fundaj”.

“Para mim, Recife nunca esteve tão bem representado na parte da cultura”, aposta a atriz, modelo e palhaça Fabiana Pirro. “Ricardo Mello é super engajado em várias áreas da cultura, e não é só um administrativo. Ele é uma pessoa realmente das artes, sensível, muito acessível. Acho que ele vai fazer um grande trabalho à frente dessa pasta”. “E Zé Manoel, minha Nossa Senhora, já participamos de vários projetos, foi ele foi quem fez a gente circular o Brasil todo no Palco Giratório com Caetana e Divinas; sempre nos defendeu. Colocou o Sesc Pernambuco no patamar que você sabe bem. Viva as deusas das artes porque a gente precisava de uma pessoa como o Zé, muito trabalhador, muito disposto a realmente mudar o panorama para os artistas e valorizar os artistas”, diz.

Mais do que apoio da classe, eles vão precisar de recursos e de apoio político. “Para que possam atuar concretamente, se fará necessário recursos que possam apoiar e fomentar as ações culturais necessárias para um efetivo fortalecimento das cadeias produtivas dos segmentos culturais, bem como instrumentalizar todos os equipamentos culturais do município, no que tange à manutenção e programação num formato democrático e valorizando as produções locais sem esquecer as produções visitantes” aponta o jornalista, ator e diretor Manuel Constantino.

Ator, diretor e gestor Quiercles Santana. Foto Reprodução do Facebook

O diretor teatral, produtor e gestor Quiercles Santana lembra que José Manoel assumiu, anos atrás, um cargo similar na cidade de Camaragibe e as coisas mudaram muito de feição por lá durante a sua gestão. “Mudaram para melhor, quero dizer. Incrível o que ele sabe do ofício e como a cabeça dele funciona a mil por hora”. Quiercles comemorou a entrada dos dois no que ele chama de campo de batalha. “Porque se trata de fato de um campo de batalha. E é provável que mesmo sendo almirantes de brigada, muito bem habilitados, nem sempre consigam escolher os soldados certos para lutar ao lado deles nas trincheiras. Espero estar errado, do fundo do coração. Mas é que a prefeitura (e não somente ela) está cheia de mortos-vivos, defuntos que esqueceram de deitar faz tempo, mas que continuam ocupando cargos lá, esses fósseis, empurrando com a barriga, cristalizados em formas de gerir e pensar a cultura datadas de meados do século XIX. E nós precisamos de mais Ricardos e José Manoéis que tragam escutas, sensibilidade e traquejo nas realizações que precisam ser concretizadas na área”.

A capacidade de José Manoel de enxergar a periferia é lembrada pelo diretor e professor Rodrigo Dourado. “Eu acho que é uma marca, quer dizer, ele é um homem que olha para as regiões periféricas. Que esse movimento de interiorização que ele realizou no Sesc possa ocorrer nas periferias culturais do Recife. Que saia um pouquinho desse modelo neoliberal dos centros e dos centros culturais regidos por instituições financeiras”.

Diretor do Grupo João Teimoso e da Guerrilha Cultural, Oséas Borba espera que a prefeitura deixe de lado a política de eventos, priorize cada segmento, dê uma atenção especial aos equipamentos culturais e aos editais. “Então quem sabe a gente não volta ao Conselho Municipal de Política Cultural funcionando como ocorreu no início?”.

Os integrantes d’O Poste – Agrinez Melo, Naná Sodré e Samuel Santos – assinalam que durante toda gestão passada, as artes cênicas tiveram perdas que dificultaram a fruição, a criação e a produção em geral. “Perdemos o departamento de artes cênicas, o prêmio de fomento ao teatro , o SIC ( depois de 06/ 07 anos voltou ). Então José Manoel como presidente da Fundação e que tem uma ligação íntima, direta com a classe artística, é ciente dessas perdas e ele tem um histórico de luta cultural e social junto à Feteape (Federação de Teatro de Pernambuco), ao Sesc e outros e que vai pensar e agir para que retornemos a fruir, produzir o teatro e a dança como expressões de respeito e respeitadas no Recife”.

Diretor do Trema! Festival, o ator Pedro Vilela engrossa o coro dos que vibraram com os nomes dos escolhidos, mas levanta outras questões sobre a conjuntura e se realmente a nova gestão está interessada na constituição de uma nova política cultural para a cidade. “Anteriormente assistimos a tática de utilizar nomes referendados pelos próprios artistas para servirem de escudos a uma gestão que pouco procurou investir no setor”. Então, no seu entender, é necessário, para além de nomes, um terreno favorável para que as mudanças sejam postas em prática. 

Ator e produtor Diógenes D Lima

Há também desconfianças e constatações de que a Prefeitura  do Recife é um sistema e que o PSB está ocupando o cargo há oito anos – e que gerou a situação atual. 

“Primeiramente, não acredito nesse grupo que está na gestão. Eles já mostraram em outros mandatos que não estão interessados em fortalecer a cultura e os artistas da cidade. Equipamentos, incentivos… Tudo abandonado, sucateado… Enfim. Não dá para acreditar que ‘esse rapazinho’ tem autonomia de mudar a prática desgraçada de anos do partido que ele faz parte”, comenta o ator e produtor Diógenes D LIma.

Diógenes pensa que, diante disso, os nomes escolhidos pouco ou nada farão, embora sejam pessoas capacitadas. “Noutros mandatos desse mesmo grupo político, já vimos essa jogada: botam gente nossa na gestão e logo depois substituem por pessoas estranhas que nunca foram e nada sabem de gestão em cultura. Mesmo assim desejo toda sorte do mundo aos colegas. Conto com o caráter e a honestidade deles”.

A conjuntura sociopolítica econômica da cidade do Recife forçou a jornalista, poeta e atriz Daniela Câmara a encontrar uma fonte alternativa para garantir a sobrevivência. Desde que começou a pandemia ela produz e vende bolos. Essa mudança provisória de função trouxe ainda mais autonomia para criticar o que ela acha errado. “Sem querer desqualificar os gestores e secretários, mas a decepção é muito grande. Sabe, eu acho que quem levanta certas bandeiras de esquerda não deveria estar levantando as bandeiras do PSB. É minha linha de pensamento”.

 

Mônica Lira, coreógrafa e bailarina

As políticas públicas culturais atingem diretamente a vida dos artistas.  E tanto podem alavancar carreiras, grupos, projetar talentos, como atravancar, atrasar, prejudicar em muitas camadas.

O desabafo de Mônica Lira é emblemático. Ela que sempre expressou o Recife nas suas obras sentiu o sentimento de orfandade bater forte. “Me senti abandonada pela minha cidade, porque eu sempre quis permanecer no Recife, amo esse lugar, mas parece que ele não ama a gente. Mas isso é consequência da política”, relata a coreógrafa e bailarina do Grupo Experimental de Dança. “Tenho total consciência de que a cidade foi completamente abandonada em todos os aspectos ligados a nossa área. E vai ser difícil essa reconstrução porque a gente vive um momento de várias crises. Essa crise que a gente está exposta por conta do Coronavírus ela desencadeia outras crises anteriores.  A gente passa por momentos com muita dificuldade financeira há muitos anos. Então agora só ampliou, né? Aumentaram as dificuldades e o desespero é ver artistas passando fome e ver gente morrendo dessa doença horrível”. 

Há três anos a gente perdeu o Espaço (Experimental, na Rua Tomazina, 199, Recife Antigo ) por conta que a Igreja pediu para fazer uma reforma e até hoje não devolveu. A gente está sem teto. A gente está sem trabalho. A gente tá assim sem nada. Então eu penso que os artistas daqui são quase indigentes. Se os artistas do Recife não tiverem suas famílias, não tiverem os seus apoios eles realmente vão para a rua, ficam à míngua. É como todas as pessoas de bem dessa cidade que vivem hoje num estado de calamidade, de muita vulnerabilidade, nas ruas, sem teto, sem comida, sem nada.

Num festival de dança que assisti online, Ailton Krenak (líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta e escritor brasileiro) falou “como é que a gente vai continuar dançando com fome?”. E é bem isso! Acha que é uma extrema responsabilidade assumir, nesse momento que o país atravessa, uma cidade como o Recife para administrar a sua cultura e para tentar fazê-la de novo viver. Porque a gente está atolado nesse mangue, nessa lama, que parece agora pesar de fato uma tonelada em cima de nós.

 

 

Atriz, bailarina e professora trans Sophia William / Foto: Reprodução do Facebook

“Falta representatividade na Secretaria de Cultura do Recife”, entende a atriz e dançarina e professora trans Sophia William . “Mais uma vez se vê um homem branco hetero cis normativo, sendo escolhido para ocupar tal cargo. Não representando piamente a diversidade cultural em que vivemos, não acolhendo essa representatividade em sua figura. O que não me surpreende, enquanto artista negra e trans da cidade do Recife, perceber que essa escolha vem de um prefeito que também detêm tais privilégios”.

Sophia reconhece que o secretário está apto a ocupar tal cargo por ser formado em publicidade, por ter ocupado já algumas gestões culturais, mesmo assim fica temerosa diante das questões sócio-políticas e artísticas da cidade. Ela lembra que os grupos carnavalescos têm visibilidade apenas no carnaval, assim como as quadrilhas têm  apoio apenas durante os festejos juninos. “Parece que há uma compreensão de que os artistas, eles não ocupam outros espaços e não vivenciam outras épocas do ano. Nós estamos fazendo arte o tempo todo porque nós vivemos dessa arte”, reforça.

“O que seria a sanidade de muitas pessoas durante essa pandemia se não fossem os artistas?”, pergunta Sophia William. “Porque, sem nós, os artistas, eu acredito que muita gente não conseguiria estar passando por essa pandemia. Porque nós artistas por muitas vezes seguramos a sanidade de muitas pessoas, com os nossos trabalhos artísticos na internet, travando diálogo, tentando com nossa arte … então, que a partir de agora a arte seja vista por outra perspectiva, entendendo que, sim, nós precisamos de arte entendendo que sim, nós precisamos da cultura”.

PRIORIDADES

Uma questão fundamental, do pagamento dos artistas, que muitas vezes esperam seis meses para receber o cachê, também é lembrado por Sophia Williams como um problema a ser resolvido. Rodrigo Dourado reforça que é preciso ter muito cuidado com essa questão financeira. “A gente sabe que tem muito descaso em relação à gestão dos pagamentos dos artistas”. Eles lembram que quem vive de arte é profissional da arte e necessita receber o recurso com brevidade após a realização do serviço. É urgente acabar com essa lógica perversa, que virou uma marca da máquina pública.

Atriz, modelo e palhaça Fabiana Pirro. Foto: Reprodução do Instagram

A atriz, produtora e palhaça Fabiana Pirro chama a atenção para os trabalhadores, os artistas carnavalescos, que precisam de um cuidado especial do setor público, mais ainda, nestes meses. “Eu acho que essa pandemia nos mostrou bem isso: a gente tem que viver realmente um dia de cada vez, colocando a saúde em primeiro lugar. E eu acho que os gestores têm que realmente organizar o Carnaval para aquelas pessoas todas que vivem do Carnaval não só como uma data específica e sim a vida delas. Há oito anos participo do palco do Marco Zero, por exemplo, mas eu graças a Deus, hoje tenho os meus outros projetos”.

Com a suspensão do carnaval,  milhares de artistas populares que garantem o sustento na festa enfrentam uma situação delicada. Para ajudar alguns desses artistas, e principalmente chamar atenção do poder público de que os mestres e artistas estão passando necessidade, a vereadora Liana Cirne (PT) fez a doação da verba do Auxílio-Paletó para quatro grupos de cultura popular do Recife. Foram compradas 200 cestas básicas e distribuídas entre as agremiações Cruzeiro do Forte, do Cordeiro; Caboclinho Sete Flechas, de Água Fria; Daruê Malungo, da Campina do Barreto, e Maracatu Nação Estrela Brilhante do Recife, do Alto José do Pinho.

O que o poder público vai fazer para garantir recursos aos grupos, artistas, mestres, mestras e profissionais da cultura envolvidos com Carnaval, isso também faz parte da política cultural.

Ator, diretor e jornalista Manoel Constantino. Foto: Reprodução do Facebook

“Diante de um quadro degenerativo e de desmonte que à cultura vem sofrendo no Recife é de extrema importância a escuta, saber, de fato, as nossas demandas, desencadeando um processo de abertura vital, no que tange a ocupação do centro e da periferia, com a produção cultural realizada por seus agentes”, aponta o jornalista, poeta e ator Manoel Constantino.

Diógenes D Lima insiste no assunto. “Dialogar é o início da solução do problema, mas dialogar não é uma prática dos políticos. Sabemos muito bem disso. Eles pensam que Recife e Pernambuco dormem o ano inteiro, só acordando no Carnaval, São João e Natal e isso é uma tremenda ignorância”, critica. E aponta a responsabilidade: “Penso que a prioridade atual é assistir a todos os fazedores de cultura da região (falo região e não apenas o município, porque a cultura do Recife é feita por gente de outras cidades também e essas pessoas viviam no Recife e do Recife antes da pandemia) bem como os que mantém espaços culturais.. A prefeitura tem que viabilizar meios de manter a cultura viva, mesmo com tudo fechado para eventos”.

A atriz Gheuza Sena enxerga como preocupante a manutenção da cultura, dos equipamentos de cultura durante todo o ano. “É preciso criar realmente um movimento que ajude os artistas ao longo do ano. Independente de ciclos já estabelecidos, focar nessa questão de como desenvolver atividades que ao longo do ano fomentem essa vivência dessas pessoas”.

“Tem tanta coisa para Ricardo Mello e José Manoel tentarem consertar que chega ser difícil apontar por onde começar!”, comentou Paula de Renor, no início do mês. “Sabe casa totalmente desorganizada? Bem, acho que não existe gestor bom sem dinheiro, e essa gestão tem que conseguir aumentar o orçamento municipal anual para a cultura, que é vergonhoso. A luta de todos deve ser esta! Além disso, é preciso reestruturar o Conselho Municipal de Cultura, O Sistema de Incentivo a Cultura, o Plano Municipal de Cultura. Fazer uma ponte entre a cultura e o turismo, buscar soluções para a manutenção dos equipamentos culturais do município. E, o mais importante, promover uma gestão compartilhada entre a Secretaria e a Fundação de Cultura, na elaboração e execução de uma política cultural com ações permanentes e continuadas, democráticas, transparentes e acessíveis”. 

Além do diálogo com a classe artística para ouvir as demandas e necessidades reprimidas, o coreógrafo e bailarino Raimundo Branco aponta que é preciso repensar o edital do SIC. “A forma como ele está não atende às artes cênicas. Ele precisa ser revisto para atender a produção como um todo: pesquisa, montagem, formação, fruição, documentação, manutenção”, acredita Branco. O coreógrafo também cobra um posicionamento sobre o papel da representação de dança dentro da FCCR e da Secretaria de Cultura, a valorização do artista e da cultura pernambucana nos grandes eventos e o fim da política de balcão.

Agrinez Melo, Naná Sodré e Samuel Santos, integrantes d’O Poste.

O Grupo O Poste também reivindica a mudança do edital do SIC, “pois ele é excludente e direcionado. E precisa incentivar a linha de fruição, montagem, pesquisa, circulação, formação para os artistas pretos e pretas e artistas em geral. O atual edital é falho”, pensam os integrantes de O Poste.

Agrinez Melo, Samuel Santos e Naná Sodré, do grupo O Poste clamam por ações de visibilidade para negritude. “Faz 16 anos que o grupo existe e tudo que conseguimos foi mérito nosso, com muito sacrifício. Desde o Espaço O Poste ao Festival Luz Negra. Nunca fomos aprovados em editais da prefeitura”. Entre seus pleitos estão “representantes da negritude dentro do quadro de profissionais culturais da prefeitura; incentivo a espetáculos, formação, festivais negros; atividades formativas e de pesquisa na poética negra em todas as esferas artísticas e fomento aos nossos espaços culturais, nossos quilombos artísticos que servem não só de local para apresentar os nossos trabalhos, mas também de acolhimento e escuta para tantos artistas”.

O jornalista Manoel Constantino argumenta que que “se faz urgente que esta nova gestão entenda que a nossa produção cultural possui uma cadeia extremamente competente, geradora de emprego, renda e de entretenimento, tão fundamental quanto os ciclos tradicionais. A gestão deve priorizar o fomento do dia a dia da cultura. E não apenas sazonalmente”. 

E dá como exemplo os imóveis da PCR no Centro e na periferia, que poderiam ser ativados como centros culturais de vivências. “O Pátio de São Pedro, está lá, com casas pertencentes à PCR que poderiam ser espaços vivos da cultura”. Constantino também sugere a reativação do concurso literário do Recife, que é Lei e a reabertura da Livraria da FCCR, voltada para as obras de autores de Pernambuco. “Há tantas possibilidades. E aí depende da vontade política. Vontade política que entenda que a produção cultural é também mola propulsora do PIB”.

Já Quiercles Santana sugere que documentos sejam revisitados, como a última Conferência Municipal de Cultura, para examinar esses arquivos com urgência, porque quase nada foi implementado. O diretor considera que o campo teatral passa por “uma enorme a indigência”. “Os edifícios teatrais estão ferrados, caindo aos pedaços, pedindo socorro. É problema com falta de equipamentos de som e luz (ou com instrumentos obsoletos), com central de refrigeração deficiente, com equipes técnicas e administrativas defasadas. Os diversos festivais que a cidade abriga devem ser ressignificados”. 

Inspirado, Quiercles Santana aponta muitas propostas, entre elas a retomada de projetos como o PAC (Programa de Animação Cultural) e o FALE (Fórum de Acesso Livre ao Estudante), que tinham Fátima Pontes e o padre Reginaldo Veloso à frente, alguns anos atrás. “Na época, escolas recebiam nos finais de semana pessoas ligadas ao teatro, à dança, ao circo, à grafitagem, ao canto-coral, à capoeira, à percussão, às artes visuais, à música e faziam produções muito potentes. Discutia-se sobre sexo, família, futuro, trabalho, drogas, tudo. Era emocionante ver o espírito crítico florescendo nas comunidades de base. Super importante para sairmos da Idade Média em que estamos metidos. Foi deixando as comunidades ao deus dará, que os filhos de Deus estão fazendo o papel que é do poder público. E a arte e a cultura podem ser armas potentes de educação estética e política. Temos artistas importantes que podem circular com oficinas e cursos mais duradouros”.

Oséas Borba toca em outro ponto que é a burocracia de licença de solo para quem trabalha com eventos de rua, como ele, que coordena o Sarau das Artes. “É muito desgastante para qualquer produtor ter que ir em vários lugares, vários órgãos diferentes, para conseguir uma licença para fazer um evento na rua. Então é preciso democratizar isso para os artistas que trabalham com eventos na rua. Além de dar uma atenção especial ao Recife Antigo, ao bairro Boa Vista, a todos esses casarões. Tem muito casarão abandonado que pode virar, como tem pé direito os altos, podem virar excelentes espaços culturais”, sinaliza.

Essas apostas ou mesmo declarações de desconfianças dos artistas da cena traduzem a vontade de que o cenário artístico-cultural do Recife volte a ser vigoroso e vibrante. Nós torcemos para que a capital pernambucana reverta essa condição de apatia e exerça um papel preponderante na cultura do país, que seus artistas tenham toda as condições necessárias para alçar altos voos, realizar seus projetos e exercer o talento. Com reconhecimento, respeito e incentivo do estado. Vamos desejar, que o desejo movimenta o mundo. 

 

Postado com as tags: , , , , , ,