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Festival de acervo, reconstrução de teias
Uma avaliação do 27º Janeiro de Grandes Espetáculos

Espetáculo Depois do fim do mundo, no Teatro de Santa Isabel. Foto: Arnaldo Sete

Teatro de Isabel tem capacidade para 570 lugares, mas só está recebendo até 140. Foto: Arnaldo Sete

Podia ser o carro do ovo anunciando promoção nas ruas do bairro. Não! Era Romildo Moreira divulgando a primeira edição do Janeiro de Grandes Espetáculos. Em 1995, apesar de já contar com propaganda na televisão, o projeto – que ainda não era chamado de festival – criado pela Prefeitura do Recife, tinha como um dos objetivos popularizar o teatro e a dança. “Não lembro exatamente quanto era o ingresso, mas era muito mais barato do que cinema. Saíamos no carro de som, dizendo ‘se você não conhece o Teatro de Santa Isabel, chegou a hora’. Íamos nos pontos de ônibus, no Centro, no Derby, na Encruzilhada, em Água Fria, em Afogados”, relembra Moreira, hoje diretor do Teatro de Santa Isabel.

Corta para 2021, 27ª edição do festival, que desde 1998 passou a ser realizado pela Apacepe (Associação de Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco) e se tornou uma das principais mostras do estado. Pandemia de coronavírus, teatros fechados ou vazios durante meses, grupos e artistas enfrentando crises em diversos âmbitos. Durante 22 dias, 48 espetáculos participaram da programação do JGE Conecta, sendo 35 deles on-line e o restante apresentados presencialmente, nos teatros do Recife.

Para um festival que sempre teve no público – e na bilheteria – um dos seus esteios, uma programação no meio de uma pandemia foi um desafio. No Teatro de Santa Isabel, por exemplo, a ocupação normal é de 570 lugares. Com as restrições, apenas 140 espectadores podem ser recebidos.

E, como estamos desde março de 2020 vivendo a realidade das restrições da pandemia, passada a euforia das primeiras experiências de teatro on-line e de quase um ano de sessões realizadas quase que exclusivamente pelas plataformas digitais, há uma sensação de cansaço das telas. Não que o formato esteja com os dias contados, que não seja teatro, que não tenha a mesma importância, que não tenha público. Nada disso! Mas a impressão, por exemplo, é de que os grupos têm muito mais dificuldade de “lotar” suas plateias virtuais do que há alguns meses, um movimento semelhante ao que aconteceu com as lives, retomadas agora no carnaval.

Ainda assim, para quem está resistindo, cumprindo as medidas de isolamento social, interagir numa comunidade, mesmo que virtualmente, faz muita diferença. Tanto é que continuamos acompanhando um movimento de conversas e debates pós-espetáculos bastante interessante. Temos visto um interesse genuíno dos espectadores de dialogar sobre o que viram, de partilhar a recepção. A experiência de estar junto a outras pessoas, no mesmo momento, assistindo ao espetáculo, é diferente de ver algo sozinho no YouTube.

Num dos frames de divulgação do festival, antes de cada espetáculo on-line, o público lia: “Esperamos que aprecie, esteja sozinho ou junto de quem você gosta”. Mas o festival perdeu a oportunidade de promover a construção dessa comunidade de maneira efetiva. Cada espectador estava por si, não houve interação, não sabíamos quantas pessoas estavam assistindo ao mesmo tempo e o espectador tinha, inclusive, a facilidade (entendemos que, nessas circunstâncias, era uma facilidade) de abrir o link no horário informado, mas de assistir algumas horas depois, enquanto o vídeo não expirasse.

Houve uma série de conversas ao vivo, geralmente pela manhã, chamadas de Palavração. Foi um conteúdo importante, significativo, onde havia essa dimensão de comunidade. Mas essa programação não foi divulgada com a mesma antecedência dos espetáculos. A crítica – que, durante anos, foi parte muito importante do festival – também não teve espaço nos debates.

Mesmo com o Palavração, quando pensamos que um dos trunfos do Janeiro é justamente a capacidade de agregar as pessoas, que vão ao teatro para ver os espetáculos, mas também para se encontrar, para estarem juntas, parece haver um descompasso entre os princípios do digital e do presencial, para além da materialidade propriamente dita. Nem sempre vamos ao teatro durante o Janeiro de Grandes Espetáculos especificamente pela peça. O encontro faz parte desse contexto.

No mesmo sentido, a experiência da feitura ao vivo também é completamente diferente de ver um espetáculo pré-gravado. Acompanhar uma montagem sendo levantada em tempo real, ver que os atores assumiram os riscos, a experimentação da linguagem. Se “teatro é ao vivo”, como gosta de repetir Paulo de Castro, diretor geral do festival, não foi isso que aconteceu no digital. Essa foi a principal fragilidade do JGE Conecta. O festival optou por uma edição de arquivo – praticamente todos os grupos participaram da programação com gravações de espetáculos de seus acervos.

Não ignoramos que essa opção pode ter sido feita principalmente por questões técnicas, pelas ausências de garantia de conexão, de capacidade estrutural dos grupos de realizarem seus experimentos. As dificuldades são motivos justos.

Mas, como um dos resultados, tematicamente, foi um festival que, com algumas exceções, pouco discutiu nos seus espetáculos a realidade que estamos vivendo. Não foi isso que vimos refletido nas telas. Estávamos descolados temporalmente. Não quer dizer que os espetáculos não tenham sido relevantes, não tragam em si questões pertinentes e atemporais, mas não estavam necessariamente conectados com esse momento tão crítico.

De qualquer maneira, a atuação de José Manoel Sobrinho como gerente de programação foi um ganho indiscutível. Observando de fora, parece ter sido ele que deu unidade ao trabalho da comissão de seleção, formato que existe há muito tempo. Cada edição tem uma nova comissão. A deste ano foi composta por Gheuza Sena, Genivaldo Francisco, Djaelton Quirino e Clara Isis Gondim.

Os contornos da programação foram delimitados de uma maneira mais clara – espetáculos nacionais ligados a grupos de pesquisas ou pessoas vinculadas às universidades ou a instituições como o Sesc, espetáculos do interior do estado e espetáculos da recém-criada Mostra de Escolas Independentes de Teatro, Dança e Circo.

Nesse movimento, perdemos a chance – sem as barreiras do deslocamento, das passagens de avião caríssimas na alta temporada, das dificuldades de produção – de ver espetáculos de grupos mais consagrados na programação. Por outro lado, houve a oportunidade de enveredar por produções de grupos que estão fora dos eixos mais tradicionais, que têm uma dificuldade de circulação maior. São escolhas, caminhos que sempre têm seus ônus e bônus.

Pele negra, máscaras brancas. Foto: Adeloyá Magnoni

Pele negra, máscaras brancas. Foto: Adeloyá Magnoni

Processo Medusa. Foto: Tássio Tavares

Nesse cenário, fizemos a crítica de nove espetáculos da programação: um internacional (À um endroit du début/Senegal), dois nacionais (Caipora quer dormir/DF e Pele negra, máscaras brancas/BA), dois pernambucanos (Sentimentos Gis/Petrolina e Cachorros não sabem blefar/Caruaru) e quatro trabalhos ligados a escolas (Experimento Multimídia: Um jogo dialético/Sesc Santo Amaro, Processo Medusa/Núcleo Biruta de Teatro, Ubu, o Rei do Gago/Escola João Pernambuco e Contos em Dor Maior/Escola Fiandeiros de Teatro).

Nessa programação mais enxuta, o peso da Mostra de Escolas Independentes de Teatro e Dança foi bastante relevante. É uma mostra importante, que pode ter um espaço de destaque no festival. Mas numa edição presencial – ou mesmo numa futura edição híbrida – talvez isso tivesse que ser equilibrado de uma melhor maneira. O festival não é de escolas. Não é nem justo dar essa “responsabilidade” aos experimentos cênicos, que possuem caráter didático fundamental, não estão necessariamente focadas na encenação propriamente dita, nos resultados artísticos.

Sem dúvidas, um dos ganhos foi uma presença maior dos espetáculos do interior no festival, uma demanda antiga. Mas uma expectativa – que também não é recente – é de que o Janeiro pudesse contribuir de uma forma mais efetiva e perene para a cena pernambucana. O Janeiro poderia ser o espaço para a proposição de intercâmbios, de trabalhos em conjunto, de trocas que talvez pudessem abrir novos caminhos estéticos. Em alguns momentos isso aconteceu, mas não com a força e a constância que poderia. Seja entre grupos do interior e da capital, entre grupos ou artistas nacionais e grupos pernambucanos, entre grupos brasileiros e estrangeiros. Não numa perspectiva colonizadora, mas numa ideia de troca, de construção de laços e de possibilidades conjuntas.

Mesmo assim, neste ano tão difícil, a resistência de realizar o festival precisa ser comemorada. E, mais ainda, já que foi levado ao espectador com competência, da equipe técnica, da equipe curatorial, da equipe de produção. Todas essas áreas pareciam muito mais bem resolvidas entre si, como se o trabalho estivesse fluindo numa harmonia maior.

Outra impressão importante é a de que a classe, ou parte dela, voltou a se envolver de forma um pouco mais próxima. Por sua trajetória, o festival sempre teve muita importância para os artistas pernambucanos, mas a censura ao espetáculo O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu, em 2018, acarretou uma cisão. O festival, naquele momento, não mais representava a classe, que ajudou a construí-lo e mantê-lo. Essa relação parece estar sendo tecida novamente. Com cautela, com respeito e com afeto. Em prol da arte.

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Corpos trans afirmam que estão na luta pela vida
Crítica de O Evangelho Segundo Vera Cruz

 Elke Falconiere, Dante Olivier, Jailton Jr., (em pé) Rodrigo Cavalcanti e Joe Andrade. Elenco da peça O Evangelho Segundo Vera Cruz, do Teatro de Fronteira, de Pernambuco, dirigida por Rodrigo Dourado, que recria episódios da censura contra a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, ocorridos em Garanhuns (PE),  em 2018.

“Negra, pobre, periférica, travesti”. É assim que Erika Hilton, a primeira vereadora transexual de São Paulo – a mulher mais bem votada no Brasil – se apresenta. Como a maioria das mulheres trans, ela foi inviabilizada durante a maior parte dos seus 27 anos de vida. Sua vitória é individual e coletiva. É uma resposta ao avanço da extrema-direita. Muitas outras vêm sendo dadas. Contra o fascismo e o conservadorismo. Na política, na arte, na arte que é política. 

É um marco. Mas nada é tão simples nesses tempos. Os paradoxos gritam. Mulheres eleitas vereadoras e prefeitas, negras, foram ameaçadas de morte. Eles continuam tentando intimidar, limar as afirmações, confiscar os lugares. 

É sobre intimidação, repressão, agressão, intolerância que trata o espetáculo pernambucano O Evangelho Segundo Vera Cruz, do Teatro de Fronteira, dirigido por Rodrigo Dourado. O trabalho tensiona documento e ficção e convoca os episódios condenáveis de censura contra a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, ocorridos em Garanhuns, Pernambuco, em 2018. A montagem foi proibida de se apresentar no Festival de Inverno de Garanhuns, depois de ter sido selecionada pela curadoria do evento.

De maneira criativa e contunde, Vera Cruz recria o périplo da Rainha do Céu, que envolve política, justiça, católicos e neopentecostais, seguidores versus arte e liberdade artística, desobediência civil e re(existência).

De forma breve, a atriz trans Renata Carvalho em corporeidade não-normativa interpreta Cristo, em O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. As reflexões da peça são as pregadas pelo Cristianismo, como o perdão, compaixão, combate à intolerância preconceito, e toda forma de opressão. Não é isso que ensinam as religiões? Não é tão simples. Renata que o diga. Sua montagem sofreu muitas proibições e retaliações em vários lugares.

Em Garanhuns, a peça foi convidada, excluída da programação, reinserida pela justiça, articulada para fazer sessões paralelas, perseguida. Qual o poder dessa peça que desperta tantas reações?

O Evangelho Segundo Vera Cruz traça dobraduras para salientar que vivemos num pais racista, machista, misógino, transfóbico, LGBTfóbico e que tem horror a pobre.  Vera Cruz é o nome desse lugar fictício, que pode ser o agreste pernambucano onde se passaram os fatos, que remete ao passado colonial brasileiro; ou outro Brasil afora. Colonial, colonialismo, cristianismo, público sendo usado como privado são questões que atravessam a montagem.

Duas atrizes trans (Joe Andrade e Elke Falconiere), um ator trans (Dante Olivier) e mais dois atores cis (Jailton Júnior e Rodrigo Cavalcanti) estão no elenco. Das janelas do Zoom, elxs equalizam sentimento de indignação, revolta, insubordinação. Inflamam de verdades quem sofre na pele as perseguições e a falta de oportunidades. Articulam o clima de instabilidade e praticamente desenham para quem não quer ler o que é ser uma pessoa trans num país como o nosso.

Além das situações que a atriz Renata Carvalho viveu recriadas para a cena online, o dramaturgo e diretor Rodrigo Dourado criou um conflito paralelo à contenda pública, a trama de um casal LGBT formado por um homem cis e um homem trans, que lideram o  movimento para levar a peça à cidade. Os quadrados do Zoom funcionam bem para impor a dinâmica da reinserção e retirada consecutiva da encenação, espelhando o que ocorreu com Renata Carvalho em 2018.

Além do bom desempenho técnico com a plataforma, O Evangelho Segundo Vera Cruz garante o humor ácido e a alternância entre crítica social, posicionamento político e dose de revolta represada por séculos de opressão. O resultado é instigante.  

Em dado momento, a atriz Joe Andrade interage com a plateia, do chat da Plataforma Zoom, ao perguntar se pessoas trans subtraem as oportunidades de trabalho das pessoas cis gêneros. Isso ocorre após uma acalorada renovação da fala da atriz Renata Carvalho sobre o tema do transfake no teatro. É chamada de transfake a prática de atores cis assumirem personagens trans e travestis, Por isso, em abril de 2017 o Coletivo T criou o manifesto ‘Representatividade trans já. Diga não ao Trans Fake’ 

São muitas nuances, provocações de O Evangelho Segundo Vera Cruz, para marcar um posicionamento firme diante do cenário turbulento que inspirou a peça e da complexa realidade em que vivemos.

O mundo tão distópico quanto na ficção ganha relevo no vídeo, que conta com a participação da atriz Renata Carvalho, e é bem desconcertante. Utilizando imagens de arquivos da história do mundo, antigas e recentes, a narrativa se impõe como uma verdadeira guerra em que as vidas transgêneras se defendem para preservar a própria existência. Eu só pouparia a estátua de Ariano Suassuna. 

A esperança de futuro e a reação violenta também vão depender dos ataques. Os corpos dissidentes estão se articulando em força e inteligências para não serem mortos.  Não dá mais para recuar na busca por liberdade, com dissidência e desobediências para o pleno exercício das subjetividades.

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Episódio de censura com atriz trans Renata Carvalho inspira Evangelho Segundo Vera Cruz

Fotomontagem com Elke Falconiere em O Evangelho segundo Vera Cruz, peça pernambucana inspirada em  O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, com Renata Carvalho

Elke Falconiere e Joe Andrade, artistas trans na peça O Evangelho Segundo Vera Cruz. Foto: Ricardo Maciel

Elke Falconiere, Jailton Jr., Dante Olivier, Rodrigo Cavalcanti (abaixado), Joe Andrade. Foto: Ricardo Maciel

Como Jesus Cristo seria recebido neste século 21, se retornasse no corpo de uma travesti? Esse é um dos questionamentos do espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, escrito pela britânica Jo Clifford, e que ganhou uma adaptação no Brasil, traduzida e dirigida por Natalia Malo, com atuação de Renata Carvalho. Desde sua estreia, a peça sofreu uma série de retaliações, incompreensões (principalmente por quem nem assistiu à montagem), boicotes, censuras. Segundo a própria atriz, o episódio mais marcante em sentido negativo ocorreu em 2018, durante a 28ª edição do Festival de Inverno de Garanhuns, no Agreste pernambucano, que, ironicamente, tinha adotado para aquele ano o tema da liberdade.

Esses acontecimentos de censura ao espetáculo da atriz Renata Carvalho são retrabalhados em O Evangelho segundo Vera Cruz, do Teatro de Fronteira, grupo pernambucano que está completando 10 anos. De acordo com Rodrigo Dourado, dramaturgo e diretor do trabalho, a peça é um retrato desse momento político único e uma homenagem. “Como gesto artístico, é também uma ação para reverter essa condição de vulnerabilidade em que são lançadas as vidas LGBTs, mas também de negros, mulheres, e todos os que são alijados de seus direitos básicos”.

A peça é, especialmente, um manifesto pela representatividade, contando com forte presença da comunidade transgênera em seu elenco, com a estreia das atrizes Elke Falconiere, Joe Andrade e do ator Dante Olivier, acompanhados dos atores Rodrigo Cavalcanti e Jailton Jr.

A montagem O Evangelho segundo Vera Cruz está em temporada online por meio da plataforma Zoom, às quintas-feiras, 26/11, 03/12 e 10/12, às 20h. Ao final de cada apresentação, o grupo passa um chapéu virtual, no esquema Pague Quanto Puder, de contribuição livre, por meio de depósito bancário.

Rainha do Céu

Ao contrário de seus detratores, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu imprime um discurso de tolerância, exaltando a centelha divina de TODO ser humano. Defende que amar é uma ação revolucionária e que o perdão é basilar para uma convivência pacífica. Entre distribuição de pão e vinho, a protagonista faz uma reencenação, digamos, “pop” da Última Ceia. Predomina a serenidade no tom, com um linguajar jovial para levar à cena a proposição de que se Jesus regressasse como uma travesti seria novamente crucificado aos 33 anos. Ou menos.

A média de vida de uma pessoa trans é de 35 anos, quando a média do brasileiro chega a 75. De acordo com o Boletim nº 4 de Assassinatos contra travestis e transexuais da Associação Nacional de Transexuais e Travestis (Antra), em 2020, 129 pessoas trans foram assassinadas de janeiro a 31 de agosto no Brasil, o que registra um aumento de 70% em relação a 2019. Entre 2017 e 2020, 436 pessoas trans foram mortas. Em 2019 foram registrados no Brasil 124 assassinatos de pessoas transsexuais, o que dá uma média de um homicídio a cada três dias, segundo o levantamento. É um genocídio, com a mão ou conivência do Estado.

A peça já havia sido censurada em Jundiaí, no interior paulista, no Rio de Janeiro e em Salvador. E foi boicotada em muitos outros lugares. No interior de Pernambuco, o golpe foi duro. O espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu foi convidado pela curadoria do Festival de Inverno de Garanhuns, retirado do festival, reinserido, apresentado na garra e apartado da programação. Cenário de intransigência cultural, “trapalhadas” políticas, e demonstrações de reacionarismo.

A atriz Renata Carvalho enfrentou um calvário de intolerância, cujo ápice ocorreu em 27 de julho de 2018, o que ela considera o “episódio de censura mais violento” que já viveu, com ação de boicote do festival, oficiais de justiça e até a explosão de uma bomba caseira no local da apresentação, numa noite tensa e chuvosa.

Repúdio de líderes religiosos. Mandado de segurança. Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns e Região. Tribunal de Justiça de Pernambuco cede à pressão da igreja. Liminar proíbe apresentação da peça. Desembargadores dão decisão favorável à (re)inclusão do espetáculo no FIG. Secretaria de Cultura e Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco sustentam exclusão.

Esse episódio todo foi de um desrespeito muito grande. Foi a transfobia institucionalizada. Claro, toda censura agride, como aconteceu em Salvador, em Jundiaí e até no Rio de Janeiro. Mas essa de Garanhuns foi sem dúvidas a mais violenta que nós já sofremos com a peça.
Renata Carvalho, ao The Intercept_Brasil

O dramaturgo e diretor Rodrigo Dourado acompanhou de perto toda essa movimentação. “A questão se converteu num problema político eleitoral, pois prefeito (Izaías Regis) e governador (Paulo Câmara) pertencem a polos opostos do espectro político”, pontua. Dourado integrou o grupo de agentes culturais que fez uma mobilização para que Rainha do Céu fosse apresentada, de forma independente da programação do FiG. “Após inúmeras ameaças e conflitos, Renata Carvalho decidiu realizar a performance mesmo desprovida de todos os aparatos técnicos, contando para isso com o apoio da plateia que desejava vê-la em cena”.

Rodrigo avalia que aquele episódio emoldurou duas energias morais e políticas muito fortes que têm se antagonizado no Brasil. “De um lado, um conservadorismo neofascista e censório, que deseja apagar formas de vida e de expressão não normativas. De outro, movimentos civis que resistem à onda reacionária e exigem seu direito à existência e à cidadania”.

A própria Renata Carvalho alertou à época que aquele não era um caso isolado direcionado contra uma artista trans, mas a demonstração de que a censura estava colocando suas garras para fora.

Dito e feito. Os discursos de ódio e intolerância foram contemplados nas urnas de 2018 e posições conservadoras, reacionárias mostram um orgulho de discriminar o outro – seu dessemelhante.

Entrevista // Rodrigo Dourado, dramaturgo e encenador

Rodrigo Dourado. Foto: Ricardo Maciel / Divulgação

Quais as motivações para erguer O Evangelho segundo Vera Cruz? E durante a pandemia não ficou mais difícil?
Nesse período de 2020, a gente tinha programada uma série de ações para comemorar os 10 anos do Teatro de Fronteira. Precisamos rever tudo. A partir de março, fizemos a primeira temporada de Luzir é Negro!, que era a primeira ação e a temporada já foi bastante prejudicada pela quarentena. O público já foi bem baixo. Então, a gente aprovou várias ações em editais emergenciais como o Arte como Respiro, do Itaú Cultural, Cultura em Rede, do SESC Pernambuco, e o ConVida, do SESC Nacional. O Evangelho Segundo Vera Cruz foi a ação apoiada pelo Cultura em Rede, do SESC de Pernambuco. Esse texto, que tinha sido escrito por mim em 2019, estava engavetado, não tinha sido montado nem publicado e decidimos submeter ao edital.  Quando foi aprovado, começamos o trabalho de montagem no formato online. No início, sim, foi muito difícil a adaptação às plataformas online. A gente não sabia muito bem lidar com tudo aquilo. Foi um aprendizado enorme, porque além da tecnologia em si, quer dizer, os recursos que a plataforma tem, a gente tinha situações de acesso à internet muito diversas, realidades sociais muito diversas dentro do elenco. Precisamos criar uma harmonia, uma unidade entre essas situações, para chegar a um ponto mínimo, ter um denominador comum que nos permitisse uma qualidade mínima de transmissão e a utilização dos recursos da plataforma.
Mas, eu não posso dizer que foi mais difícil do que montar um espetáculo presencialmente. Teve as suas especificidades, mas o processo em si, o tempo, a quantidade de ensaios, a pesquisa, o trabalho de ator, as descobertas da encenação, tudo isso é muito parecido com formato presencial. O que muda somente é o meio.

A peça recria os episódios de censura sofridos pela atriz Renata Carvalho com seu espetáculo, no ano de 2018, na cidade de Garanhuns/PE. Como é feita essa recriação? Quais aspectos são destacados na peça?
Eu participei daquele movimento que levou a peça a Garanhuns, junto com várias outras pessoas. Eu fui observador e, desde aquele momento, quando estávamos ainda inseridos nele, vivendo, eu já sentia essa teatralidade pulsante de tudo que estava acontecendo. O debate público que o teatro estava gerando, os conflitos sociais, no sentido dos estudos da performance um certo ‘Drama Social’ que o espetáculo estava ocasionando. Então, já me parecia tudo muito teatral: a sociedade garanhuense, pernambucana, discutindo nas ruas esse tema; o coro público, a voz das ruas, o teatro midiático que foi feito em cima disso nas redes sociais, na imprensa; os shows na Praça Guadalajara e as provocações nos shows; todos esses elementos foram trazidos de alguma forma para dentro da dramaturgia. É uma dramaturgia que transita bastante entre o épico, o narrativo, as formas mais populares de narrar, personagens-tipo, a gente tem também uma citação ao mamulengo numa determinada cena. E tem seus traços dramáticos, porque na peça existe um conflito paralelo ao conflito público que estava acontecendo, que é a história de um casal LGBT formado por um homem cis e um homem trans, da cidade de Garanhuns, e que estão na linha de frente do movimento que levou a peça à cidade. E também tentamos, de alguma forma, nos aproximar da história de vida da Renata, das questões da atriz. Então, tem uma questão da intimidade da Renata que é recriada. Agora tudo isso com alguma liberdade artística. Não temos um compromisso factual 100%. A gente recria algumas coisas, poetiza algumas coisas; dramaturgicamente eu posso dizer que o arranjo é esse.

Renata Carvalho participou de alguma das apresentações? Como ela recebeu a iniciativa da peça?
Nesta versão da peça, atual, que é a terceira, Renata participa fazendo uma voz em off, uma locução de um trecho da peça. Mas também há vários depoimentos dela que foram resgatados da Imprensa e utilizados na peça. Ela não assistiu à peça ainda, mas tem acompanhado o processo. Leu o texto, fez sugestões, críticas e junto com o elenco trans a gente foi debatendo, discutindo, confrontando aspectos da dramaturgia para que, de alguma forma, ficasse mais justa e mais fidedigna à experiência de vida trans, já que eu sou um homem cis escrevendo sobre essas experiências. Então Renata esteve sempre no suporte, no apoio a todo esse processo, mas ela não assistiu à peça ainda.

Para quem não acompanhou esse episódio, você poderia falar sucintamente do caso de censura à peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, com Renata Carvalho, em Garanhuns, em 2018?
A peça foi escalada para a programação do Festival de Inverno de Garanhuns, em 2018, pela curadoria da Fundarpe/Secult/PE. Assim que a programação foi anunciada pela imprensa, o prefeito da cidade, Izaías Regis, foi aos meios de comunicação anunciar que não aceitaria receber a montagem, alegando que a cidade era cristã e que, supostamente, o trabalho feriria a comunidade local por trazer uma travesti na personagem de Jesus Cristo. Vários veículos de imprensa da cidade apoiaram o prefeito, que, na sequência, recebeu ainda apoio do bispo local e de representantes da comunidade evangélica. O Governador Paulo Câmara e a Fundarpe, a princípio, sustentaram que a peça se manteria na programação e que, uma vez proibido pelo prefeito o uso do teatro municipal (Luiz Souto Dourado), buscariam apoio de outras entidades para acolher a encenação. A questão se converteu num problema político eleitoral, pois prefeito e governador pertencem a polos opostos do espectro político e o governador buscava a reeleição. Logo, o prefeito passou a fazer uso eleitoral do episódio a fim de desgastar a imagem do governador. Com o apoio da bancada evangélica no Assembleia Legislativa, ameaçando mobilizar seu rebanho contra o governador, não demorou muito para que Paulo Câmara recuasse de sua decisão, anunciando que a peça tinha sido excluída da programação. Rapidamente, um grupo de agentes da sociedade civil mobilizou-se e empreendeu um movimento para arrecadar fundos e levar a peça à cidade de maneira independente. Houve inúmeras ameaças a esse movimento e à própria vida da atriz e a apresentação aconteceu sob forte sigilo. A justiça também foi invocada para impedir a realização da apresentação. Num último instante, a Fundarpe decidiu apoiar o espetáculo, oferecendo infraestrutura técnica de som, luz, etc. Mas uma decisão judicial de última hora foi emitida, após o transcorrer da primeira apresentação, proibindo que a peça se realizasse. Ao receber a notificação, a Fundarpe começou a desmontar toda a infraestrutura que havia disponibilizado, atrapalhando a realização da segunda récita. Após inúmeras ameaças e conflitos, Renata Carvalho decidiu realizar a performance mesmo desprovida de todos os aparatos técnicos, contando para isso com o apoio da plateia que desejava vê-la em cena.

Como observador privilegiado e um dos articuladores da desobediência à ordem esdrúxula dos governantes, quais os sentidos que foram despertados em você naquele momento, e quais sentimentos guarda até hoje?
Para mim, aquele episódio emoldurou duas energias morais e políticas muito fortes que têm se antagonizado no Brasil. De um lado, um conservadorismo neofascista e censório, que deseja apagar formas de vida e de expressão não normativas. De outro, movimentos civis que resistem à onda reacionária e exigem seu direito à existência e à cidadania. Trata-se de um momento histórico do teatro brasileiro do século XXI, porque a peça já havia sido censurada em diversas cidades, mas em nenhum lugar, como em Pernambuco, houve um movimento tão potente de resistência e desobediência ao poder institucionalizado. Em O Evangelho segundo Vera Cruz, eu tomo claramente lado, o lado desses sujeites que escapam aos padrões, dessas vidas dissidentes, já que sou um homem gay que sofreu e sofre na pele os horrores do preconceito e da perseguição aos desviantes. A peça é, portanto, um retrato desse momento político único e uma homenagem a essas vidas precárias. Como gesto artístico, é também uma ação para reverter essa condição de vulnerabilidade em que são lançadas as vidas LGBTs, mas também de negros, mulheres, e todos os que são alijados de seus direitos básicos.

O teatro que é transmitido pelas redes realmente derrubou barreiras geográficas, pois numa mesma apresentação podemos ver gente de várias partes do Brasil e do mundo. Como você (s) percebe (m) a recepção da peça? Dá para fazer um pequeno percurso desde a estreia?
Sobre a recepção à peça: a gente teve duas situações muito diferentes até agora. A gente fez um processo aberto pelo Sesc. Primeiro, realizamos um debate sobre a peça, depois fizemos um ensaio aberto com a exibição de pequenas cenas. Esses dois tiveram uma presença muito boa de público interessado em conhecer um processo teatral, de saber como se desenvolve um processo teatral. Esse aspecto de uma pedagogia mesmo do espectador. E no terceiro momento, no Sesc, a gente teve a apresentação em si da leitura, havia 150 pessoas na sala do Zoom nos assistindo, uma plateia gigante, muito participativa. Ao final, fizemos mais uma linda conversa. Foi muito bonito ver as contribuições, as colaborações, as intervenções, as indagações trazidas por esse público ao longo desse processo todo que a gente viveu no Sesc.
Num segundo momento, a gente apresentou a peça em Guaramiranga, no Festival Nordestino de Teatro. E aí sim, a gente não fez a peça para a plateia no Zoom, retransmitimos o que estávamos fazendo no Zoom pelo YouTube. Então a plateia pôde assistir à peça pelo YouTube e interagiu bastante com a peça via YouTube. Já era uma segunda versão com substituição de atores, com mudança na dramaturgia, com a chegada da Elke Falconieri, a saída de Marconi Bispo. Então, a gente tinha ampliado a representatividade trans do elenco. Foi muito bom fazer essa versão em Guaramiranga, porque no dia seguinte tivemos um debate em que pudemos ouvir os curadores e conhecer as impressões, os apontamentos deles, que também ajudaram a peça a chegar até essa terceira versão, que nós estamos apresentando agora. Agora, a gente tá enfrentando uma dificuldade maior de público, porque estamos fazendo uma temporada com ingressos pagos, com bilheteria. As outras ocasiões foram todas gratuitas, porque a peça já estava comprada, subsidiada – digamos assim – pelas instituições que nos convidaram. Agora é um momento nosso, de uma temporada independente. E aí sim, está sendo mais difícil a chegada desse público. Talvez por conta das dificuldades financeiras, pelo cansaço do formato online, já que a gente está se aproximando do final do ano, várias questões que a gente tem levantado para entender, para compreender essa dificuldade com o público. Mas é quase como se a gente estivesse na forma presencial, enfrentando aquela dificuldade de fazer teatro presencial na base da bilheteria, caçando público, fazendo um esforço gigante para chegar ao público. E só para fazer um complemento, nessas ocasiões todas a gente teve público do Brasil inteiro, Minas, Pará, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, outros estados do Nordeste, Centro-Oeste. É muito bonito ver o movimento do Brasil podendo conferir essas obras nesse formato online.

Gostaria que você falasse do elenco. Houve alterações, ampliação participativa de artistas trans, como se deu isso? E mesmo que pareça óbvio tem coisas que precisam ser reditas, qual a razão das escolhas?
Desde o início, eu como homem cis escrevendo essa peça, tinha convicção de que, primeiro, o texto precisava ser submetido a uma crítica sistemática da comunidade trans. E que a gente precisava ter representatividade no elenco, porque toda a questão que atravessa o debate levantado por Renata diz respeito à representatividade, à presença de corpos e cidadãos/sujeites trans nas peças que trazem narrativas de vida trans. Essa era uma questão central para mim desde o início. A princípio foram convidados Joe Andrade e Dante Olivier, que foram alunos meus na UFPE; a Joe do curso de teatro e o Dante do curso de artes visuais, mas fez comigo uma disciplina que ofereço de “Teatro, Gênero e Sexualidades Dissidentes”. E a gente tinha o elenco do Fronteira, Marconi (Bispo), Rodrigo Cavalcanti e o Jailton Júnior, que também foi meu aluno da Federal e agora integra o Fronteira. Marconi precisou se afastar do grupo e eu imediatamente pensei em convidar a Elke Falconiere, que também foi minha aluna na UFPE, que é uma mulher trans, foi minha orientanda de TCC. E, para ampliar essa representatividade, inclusive, trazendo a Elke para interpretar personagens cis, não só personagens trans. O caminho foi por aí. Para a gente, é fundamental; não faz sentido essa peça existir sem essa presença. Hoje a gente tem maioria trans no elenco, temos três pessoas trans e duas  cis. A presença delas é fundamental. Não só do ponto de vista dessa crítica que elas podem fazer aos conteúdos e às formas da peça, mas sobretudo como uma forma de inserção no mercado artístico, de visibilização do trabalho delas. Está sendo muito importante para nós.

“A montagem é também um gesto criativo diante das dificuldades pandêmicas, uma forma de manter a chama do teatro acesa, explorando para isso os meios virtuais”. Já que o assunto é tocado… quando a pandemia se instalou houve uma discussão sobre se o que é apresentado via internet é teatro ou não. Sem julgamentos de posições, já que estamos num processo de desbravar territórios e rever paradigmas, qual sua avaliação desse momento teatral?
Sobre a questão do teatro online: lá atrás, quando começou a pandemia, mais ou menos em abril, eu escrevi um artigo chamado “Teatros da pandemia: o giro viral”, em que faço uma provocação e um prognóstico de que esse momento iria gerar uma virada de chave no teatro, no sentido de, ao invés do teatro parar e se deparar com uma encruzilhada sem solução – já que não há presença, não há teatro – que caminhos o teatro iria tomar. E de lá para cá, a gente viu que o formato online foi bastante ocupado, foi bastante explorado, está sendo explorado, dilatado. Para mim, já nem é mais uma discussão essa de se o teatro online é teatro ou não. É teatro online. É uma forma que fricciona as formas digitais, as formas audiovisuais, as formas teatrais, mas que claramente se distingue de outras formas audiovisuais e online; se distingue da novela, se distingue do cinema, se distingue da videoarte, se distingue dos canais do YouTube, se distingue das formas digitais como o videogame ou outras mídias digitais, do streaming. Então, acho que tem uma especificidade aí do teatro ocupando esse espaço, que para mim já está muito clara. Além disso, tem uma lida também com os arquivos de teatro. A gente tem muito arquivo de espetáculos gravados, filmados, sendo revisitados e pesquisados e vistos, servindo como material didático, também ocupando um certo espaço dessa experiência presencial do teatro. E um retorno que o público tem nos dado, frequentemente, é que estar no teatro online é como estar no teatro. As pessoas se encontram na plateia, na antessala, no hall. Saber que as pessoas estão ali cria uma noção de convívio, de convivialidade, aquilo que Jorge Dubatti tem chamado de tecnovívio. A gente saiu de um convívio para um tecnovívio. Tem essa precariedade também, do artesanato teatral feito online, então tem improviso, tem jogo, tem as possibilidades infinitas que a internet oferece, que estão sendo explorados, mas também tem a instabilidade da internet que nos obriga a jogar, a improvisar como no teatro.
Tem a sensação do ao vivo, tem o bastidor, que é a casa dos atores. É quase como se as formas tradicionais do teatro, elas tivessem encontrado outras maneiras de ser. Tá tudo lá. A sensação que eu tenho é que está tudo lá. Para mim é um ganho, uma dilatação, é uma expansão das possibilidades do teatro, que não apaga nem dissolve ou desfaz o teatro presencial – que já está retornando em alguns lugares e vai retornar – mas que cria outras outras veredas.

Bem, como anda o teatro pernambucano?
Eta nós! Acho que o teatro pernambucano está vivíssimo como sempre esteve. Acho que a gente tem um movimento na cidade, de teatro grupo, de grupos de jovens. Grupo Bote de Teatro, Grupo Resta 1, Grupo AmarÉ, o Teatro Bordô, Coletivo Despudorado, Grupo Afrocentradas. Acho que o teatro local irremediavelmente está dialogando com as questões raciais, étnicas, com as questões da mulher, com as questões LGBTs, com as questões trans, com as questões periféricas. Nosso teatro está nesse movimento. Acho que a gente tem aí grupos que já tão na maturidade, como Totem, Fiandeiros, Cênicas; o Teatro de Fronteira está chegando aos 10 anos, eu diria que é um adolescente ainda, mas que já tem uma estrada. Então é um teatro que sim, tá vivo, é um teatro que de alguma forma encontrou seus caminhos também pela internet. A gente tem visto experimentos, sejam da Casa Maravilhas, com as suas lives; seja o Grupo O Poste fazendo suas lives e seus experimentos também; a Criative-se Cultural realizou um pioneiro trabalho online por aqui; temos os grupos de teatro como a Fiandeiros e a Cênicas de Repertório mantendo as atividades de ensino. A gente tem o Fronteira aí também experimentando o formato online, não somente como o Evangelho, mas também com o Puro Teatro (Arte Como Respiro), disponibilizando ainda arquivos de suas peças. Hermínia Mendes performando para o Arte como o Respiro; o Coletivo Angu lançando um texto inédito de Marcelino Freire também no Arte como Respiro; a gente teve vários experimentos que foram feitos para o Sesc-PE, como os experimentos de Paulo de Pontes (dirigido por Quiercles Santana), o de Clara Camarotti; a força sertaneja de Odília Nunes vertendo para o online; as Violetas da Aurora clownando para as redes; outras produções de conteúdo pelo Coletivo Grão Comum, Grupo Cênico Calabouço, por meio de diálogos online; um coletivo de artistas pernambucanos, radicados no RJ, encenando Muribeca, de Marcelino Freire (criação de Wellington Jr. Breno Fittipaldi, Reinaldo Patrício); o Magiluth reproduzindo as experiências pioneiras de teatro não-presencial um-a-um que iniciaram sendo feitas na Europa, nos EUA. Cito uma delas em meu artigo, da Cia. La Colline, de Paris. Pode ter inspirado o grupo. Enfim…
Então acho que é um teatro que encontrou seus caminhos também nesse formato online. Eu penso que o nosso teatro é muito contemporâneo, ele está em diálogo com tudo que está acontecendo aí pelo mundo, apesar das dificuldades financeiras e econômicas, que são na verdade uma realidade do Brasil inteiro. Eu acho que a gente continua resistindo e persistindo em fazer teatro.

Qual o seu posicionamento sobres políticas públicas culturais, tanto do Governo do Estado de Pernambuco, quanto da prefeitura do Recife?
Acredito que as políticas públicas para a cultura em Pernambuco e no Recife são já precárias e vêm se precarizando cada vez mais. Ao longo dos oito anos da gestão do prefeito Geraldo Júlio (PSB), houve um desmonte absurdo de diversas políticas culturais, de equipes. Equipamentos culturais foram sucateados, como o Teatro Apolo-Hermilo. Não existe uma política de programação, de fomento à pesquisa de grupos, de formação de plateia. O Parque está sendo entregue agora, às vésperas da eleição. O importantíssimo Festival Recife do Teatro Nacional foi esvaziado. Não houve canal de diálogo com a classe teatral. O SIC foi retomado num formato estranho, priorizando eventos que contam com a participação de membros da prefeitura em suas equipes de criação. Por sua vez, a Fundarpe tem se mostrado incompetente na gestão do Funcultura, com atrasos sistemáticos de prazos, além dos atrasos nos pagamentos de cachês de artistas e a criação de instrumentos sem a escuta da sociedade civil, como no caso do Prêmio Pernalonga. É preciso que haja mais recursos, mais escuta, mais celeridade e que se desenhe, de fato, um Programa Cultural a ser cumprido durante as gestões e não apenas como promessas de campanha. Mais importante: é preciso separar o doméstico do público, entendendo o espectro cultural em sua amplitude, em sua diversidade, e não apenas atendendo às crenças e valores privados dos gestores.

FICHA TÉCNICA || O Evangelho Segundo Vera Cruz
Atuação: Dante Olivier, Elke Falconiere, Jailton Júnior, Joe Andrade y Rodrigo Cavalcanti
Direção e dramaturgia: Rodrigo Dourado
Produção: Rodrigo Cavalcanti
Designer de luz: Natalie Revorêdo (Farol Ateliê da Luz)
Efeitos sonoros: Jailton Júnior
Teasers: Dante Olivier
Registro Fotográfico e Identidade Visual: Ricardo Maciel
Realização: Teatro de Fronteira

Serviço:
O Evangelho Segundo Vera Cruz, do Teatro de Fronteira 
Exibição: Plataforma do Zoom
Quando: Quintas-feiras, às 20h, até 10 de dezembro
Classificação Indicativa: 16 anos
Duração: 70 minutos
Informações: teatrodefronteirape@gmail.com | @teatrodefronteira

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Prêmio Ariano Suassuna é prorrogado

O escritor, roteirista, redator e ator Cleyton Cabral e o escritor, professor e ator Raphael Gustavo conquistaram três prêmios cada um nas edições anteriores do concurso Ariano Suassuna de Dramaturgia

O 5º Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia está com inscrições abertas até 8 de maio. Seria até 28 de abril, mas foi prorrogado. Portanto, mais um prazo para autores pernambucanos ou residentes no estado, limite geográfico do concurso.  

O prêmio é um dos poucos concursos de dramaturgia no Brasil. Nesta edição, serão distribuídos até 10 prêmios de R$ 5.100, nas categorias Teatro Adulto e Teatro para Infância.

Neste ano, excepcionalmente, serão reservados quatro prêmios para a Categoria Teatro Adulto e três para a Categoria Teatro para Infância. Serão destinados dois prêmios para dramaturgias escritas por mulheres cis ou trans, independente. Será destinado um prêmio para o gênero teatro de animação, independente da classe de cadastro, que pode ser feita no site www.mapacultural.pe.gov.br/oportunidade/242/

Ano passado e nos anos anteriores, o valor do prêmio individualmente chegou a R$ 10 mil, para o primeiro colocado e R$ 7 mil, para o segundo. A mudança, segundo o assessor de Teatro e Ópera da Secretaria de Cultura de Pernambuco, José Neto Barbosa, é resultado do plano de contingenciamento, que é uma resolução do governo que corta gastos ou amplia ações que não sejam exatamente da saúde. “A ideia de democratizar o acesso aos recursos surgiu na Comissão Setorial de Teatro de Pernambuco, que é uma instância de diálogo entre governo e sociedade civil”.

Segundo Neto, a alteração é pontual e foi motivada para democratizar os recursos num momento tão delicado. A Comissão Setorial, que foi eleita na conferência de Cultura e é presidida por Paula de Renor – “acredita que não é o momento para reforçar qualquer teor meritocrático. O melhor é redistribuir os recursos alcançando mais artistas”

Dois dramaturgos têm se destacado nas quatro edições do Prêmio Ariano Suassuna de Dramaturgia, criado em 2015 pelo Governo do Pernambuco. O escritor, roteirista, redator e ator Cleyton Cabral e o escritor, professor e ator Raphael Gustavo.

Foto: Alex Ribeiro/ divulgação

ENTREVISTA // CLEYTON CABRAL

Cabral conquistou o primeiro lugar na categoria teatro adulto, com Talvez sim, talvez não (2016); segundo lugar também em teatro adulto, com Desculpe o atraso, eu não queria vir (2018) e primeiro lugar, em texto de teatro de animação, com Hélio, o balão que não consegue voar (2019). Ele é autor do livro de contos Planta baixa, lançado ano passado pela Editora Patuá, de São Paulo.

Alguns escritos de Cleyton já foram para a cena. Em 2010, os contos do seu blog inspiraram o espetáculo Para caber no teu sorriso, com direção de Rodrigo Cunha. Escritos do blog também renderam outros experimentos, como a leitura dramatizada Hoje quero falar de amor, sob direção de Rafael Almeida e cenas de um espetáculo do Coletivo Angu de Teatro (Projeto Abuso – Rumos Itaú Cultural).

O menino da gaiola foi encenado no Recife, sob direção de Samuel Santos em 2013. Em 2017,  o ator estreou seu primeiro monólogo, Solo de Guerra. E, no ano passado, a Cia. Paradóxos (SP) montou Desculpe o atraso, eu não queria vir, sob direção de Mário Goes e Fábio Mráz. Hélio, o balão que não consegue voar tem projeto de montagem por um grupo carioca.

Como você situa sua dramaturgia?
No teatro para a infância e juventude venho pesquisando temas tabus. No teatro adulto, temas como identidade, gênero, sexualidade e o próprio teatro atravessados de afeto têm me movido.

Existe algum segredo para conquistar tantos prêmios?
Acredito que seja pela temática, pela originalidade, não sei. Nunca peço os pareceres da comissão que avalia os textos.

Quem são seus mestres e / ou quais são suas referências na escrita dramatúrgica?
Luiz Felipe Botelho, Cícero Belmar, André Filho, Newton Moreno, Rafael Martins, Henrique Fontes, Grace Passô, Jô Bilac, Leonardo Moreira, Tiago Rodrigues.

O prêmio Ariano Suassuna cumpre seu papel? Qual é?
Olha, se a gente puder contar com o Prêmio Ariano Suassuna, já será um avanço. É o único prêmio voltado para dramaturgos no estado. É um incentivo para continuar escrevendo e ser reconhecido pelo trabalho.

Existe incentivo para a dramaturgia no Brasil?
Desconheço. Criar políticas culturais com um olhar para quem escreve para teatro seria um caminho interessante.

Tenho visto uma discussão nas redes sociais sobre a natureza do teatro. Se lives transmitidas pela internet são teatro ou não. O que você pensa sobre isso? O que é teatro?
Vou fazer a Glória Pires, prefiro não opinar. rs. Vamos lá: em meio à pandemia, nós artistas, nos vimos num beco sem saída. Não podemos lançar livros, encenar peças, abrir exposições etc. Inclusive, muitos de nós estamos disponibilizando nossos trabalhos para apreciação do público em casa. O isolamento é um momento de repensarmos nossas relações e, o fazer teatral, não fica de fora. A gente sabe que o teatro se dá pelo encontro do ator com o público dividindo o mesmo espaço, mas independente da área, vamos ter que encontrar novas soluções, modos de fazer, estratégias de sobrevivência.

Fala como você está enfrentando a quarentena? Está trabalhando em casa? Ou só nas suas criações?
Não tem sido fácil para uma pessoa superativa e inquieta como eu. Gosto de estar em movimento, transitando, flanando por aí. Imagine o tédio e a impaciência convivendo em 70m2? Ok, tenho um namorado parceiro, duas gatas lindas e “tempo de sobra”. Tempo para fazer o quê? O isolamento afetou diretamente meu único ganha-pão no momento, as oficinas que ministro de Escrita Criativa. Tinha uma turma fechada para o final de março e teve de ser cancelada. Sim. Tenho aproveitado esse “tempo de sobra” para ler e escrever. Nesse intervalo organizei dois livros inéditos (um de contos e um de poesia) e estou criando uma nova dramaturgia. Em paralelo, sigo na pós em Escrita Criativa da PUCRS/UNICAP, como aluno, em aulas por videoconferência.

Quais as estratégias de sobrevivência?
Como meus livros não estão em livrarias e ainda tenho umas dezenas deles em casa, estou divulgando nas minhas redes (@cleytoncabral) para entregas em todo o Brasil, via Correios. Também tenho pensado em fazer um projeto literário com financiamento coletivo, além de oferecer meus serviços de redator publicitário.

O que está fazendo para não endoidecer?
Regando as plantas, conversando com os bichos, cozinhando, tomando um vinhozinho, falando com os amigos.

Você tem medo da Covid-19? Numa escala de 1 a 10, quanto?
Quem não tem? Hahaha de 1 a 10? 11. E se eu já peguei esse vírus e não sei? Minha preocupação maior é minha mãe, que está com 74 anos.

Raphael Gustavo em sua casa em Vitória de Santo Antão. Foto: Ângelo Azuos

ENTREVISTA // RAPHAEL GUSTAVO

Raphael Gustavo brilhou em três edições do Ariano Suassuna. Em 2016, com Um Caso de Marias Ou de Maria Flor; O Gaioleiro, em 2017 e Conto de Passarinha, em 2019. Além dos Ariano Suassuna ganhou o Prêmio Mostev de dramaturgia adulta com Andarilhos da Poesia Pernambucana; Marcus Accioly de Poesia, com Encruzilhada e Manuel Bandeira de Poesia, com Havia um Pássaro.

Raphael Gustavo atesta a “extrema importância” das premiações como incentivo aos artistas que precisam de reconhecimento para produzir. “Muitos ainda estão invisíveis por falta de oportunidades”, pensa.

O núcleo pernambucano está montando o último vencedor do Ariano, Conto de Passarinha. O Gaioleiro é o projeto atual de seu grupo, A Cia Experimental de Teatro, e a Cia. Fiandeiros montou Um Caso de Marias Ou de Maria Flor.

Como você situa sua dramaturgia?
É bem difícil entender como eu faço isso. Cada texto vem por inspiração num tipo diferente de provocação. Uns surgem de minhas experiências familiares, outros da educacional com meus alunos, outros por ideias a partir do que leio e assisto. Mas, o mais forte é a defesa sobre temas ainda mal refletidos socialmente: A valorização da cultura popular, saúde mental, pedofilia, racismo, adoção, filosofias sobre o que é relacionamento…  E assim segue.

Quem são seus mestres e / ou quais são suas referências na escrita dramatúrgica?
Leio muitas coisas. Gosto das dramaturgias do César Leão, do Cleyton Cabral, do Samuel Santos. Fernanda Torres é uma inspiração de boa escrita também. De mestres, apenas os bons professores que me estimularam muito e me nortearam como eu poderia desenvolver uma boa escrita a partir do olhar da sensibilidade.O

O prêmio Ariano Suassuna cumpre seu papel?
O Prêmio Ariano Suassuna cumpre o seu papel muito bem, pois abre o edital contemplando todas as regiões e todos os artistas e escritores que queiram colocar suas obras na competição. A análise é por pseudônimos. Então a surpresa do mérito é legal.

Existe incentivo para a dramaturgia no Brasil?
Existe sim. Mas é pouco. Muito pouco. Sempre em editais competitivos. Isso é bom, mas limita muitas obras de obterem reconhecimento e recompensa pra custear esses autores. Precisamos de editais para literatura, fora de competições.

Existe uma discussão nas redes sociais sobre a natureza do teatro. Se lives transmitidas pela internet são teatro ou não. O que você pensa disso? O que é teatro?
Live de espetáculo não é Teatro! Ator odeia vídeo de espetáculo. Simples e pontual. Liberar gravações de peças no YouTube é desmerecedor. Chamem de recreação, contação de história, do que for. Mas a mídia do Teatro só existe para produção de material que faz sua divulgação. Teatro é ritual da presença. Do cheiro, do calor, da luz presencial, da energia. Se não podemos ir aos teatros nesses tempos, acho importante e válido que os atores demonstrem coisas para essas mídias. Mas não chamem de peça ou espetáculo. Muito menos, Teatro.

Fala como você está enfrentando a quarentena? Está trabalhando em casa? Ou só nas suas criações?
Estou enfrentando bem a quarentena. Moro só com meus gatos e faço meus próprios rituais de limpeza, comidas e cuidados. É mais saudável que dividir espaço. Em casa tenho trabalhado na produção de textos para minha página no Instagram @raphaelgustavo.writer e afinando dramaturgias, dando curso online, fazendo lives sobre arte e cuidados com a saúde mental e passando atividades para os meus alunos de Português e Teatro.

Quais as estratégias de sobrevivência?
Ficar em casa, higiene total e aumentar a imunidade com boa alimentação e exercícios físicos para liberar toxinas.

O que está fazendo para não endoidecer?
Interagindo com meus alunos e cuidando de minha casa. Isso tem sido essencial para eu me manter bem.

Você tem medo da Covid-19? Numa escala de 1 a 10, quanto?
Tenho medo sim. Escala 8.

O que é importante dizer agora, nestes tempos de isolamento social?
É importante dizer que o amor pelo próximo é a chave para S-o-b-r-e-v-i-v-e-r. É a partir disso que queremos nos cuidar e cuidar do outro. Desenvolver cura, alimentar os que precisam e escrever obras que os faça entender o quanto esse amor ainda precisa ser refletido e exercitado.

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Valdi Coutinho vai atuar em outros palcos

Valdi Coutinho, animador cultural no Recife, incentivador principalmente do teatro, morreu nesta terça-feira

Durante as filmagens do documentário Múltiplo Valdi, de Rafael Coelho

De espírito inquieto, Valdi Coutinho se pluralizou. Jornalista esportivo, crítico de teatro, dramaturgo, ator, escritor, professor, pintor, carnavalesco e religioso. No início deste ano foi lançado seu biodocumentário Múltiplo Valdir, dirigido, roteirizado e montado por Rafael Coelho, com produção de Cláudia Moraes, e de Amaro Filho, da Página 21, projeto aprovado pelo Funcultura.

Aos 77 anos, Valdi Coutinho morreu no começo da tarde desta terça-feira (14), no seu apartamento, no bairro de Santo Amaro, no Recife.

Vítima de três AVCs, Valdi se locomovia nos últimos tempos com dificuldade, mas mantinha sua conexão com o mundo através da redes sociais, onde deixava sua posição política mais conservadora ou treinava sua verve cômica.

Em 2015 foi o homenageado do 17º Festival Recife do Teatro Nacional e não perdeu a ironia para atestar que quase não acreditou, pois “as pessoas sempre lembram de quem está no poder (da mídia, do sucesso, da gestão pública, das finanças, etc) e eu estou tão apagadinho, há sete anos, depois que fiquei semiparaplégico em função das sequelas de dois AVCs que tive em 2009”, comentou na ocasião.

Valdi manteve uma coluna diária sobre artes cênicas no Diario de Pernambuco, Cena Aberta,  um espaço de prestígio que muito contribuiu para a difusão e o fortalecimento do teatro em Pernambuco. Sempre que falava dos 30 anos de labuta no Diario não deixava de agradecer às pessoas que lhe deram apoio: “quero dividir este mérito e reconhecimento com a jornalista Lêda Rivas, minha editora do Caderno Viver por duas décadas, os jornalistas Antônio Camelo, Adonias de Moura e José Maria, este último quem me entregou a missão de fazer a coluna de artes cênicas (substituindo Adeth Leite, quando ele faleceu), todos os três de saudosa memória”.

Por pouco, ele não foi padre. Duas tias investiram para que seguisse a carreira eclesiástica, mas faltou talento para o destino clerical, o que sobrava para as atividades artísticas e de comunicação. Começou a fazer teatro aos 10 anos no Seminário de Nazaré da Mata, depois, no Seminário de São Pedro, em Natal, e vários musicais na cidade de Gurupi, Goiás.

No Recife, estreou com o elenco dos aspirantes ao TAP, na peça A Falecida, de Nelson Rodrigues, com direção de Valter de Oliveira. Depois vieram Hoje É Dia de Rock, direção de Marcus Siqueira; Os Mistérios do Sexo, de Coelho Neto, com direções de Alex Gomes e Carlos Bartolomeu; Natal na Praça, direção de Clênio Wanderley; Jogos na Hora da Sesta, direção de Geninha Rosa Borges; As Tias, direção de Guilherme Coelho; O Beijo da Mulher Aranha, direção de José Francisco Filho; A Louca do Jardim, direção de Romildo Moreira; Cabaré Brazil¸ direção de Carlos Bartolomeu; O Buraco É Mais Embaixo, direção de Fábio Costa e Américo Barreto, entre outros.

Dirigiu dezenas de montagens entre elas, Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado, com George Meireles, Feliciano Felix; Os Mistérios do Sexo, de Coelho Neto, com Sharlene Esser. Também escreveu textos dramáticos tais como Os Coronéis Morrem Tarde; Paulete, Danação e Anjo Azul (inspirado num conto de Cícero Belmar)

Protagonizou dois curtas, um de Fernando Spencer, O Último Bolero no Recife, e outro de Ricardo Spencer, Força Brasil.

Como carnavalesco, assumiu o Baile dos Artistas depois de dois anos de assessoria de imprensa. No jornalismo esportivo, Valdi registra a façanha de cobrir quatro Copas do Mundo e uma Olimpíada. 

A jornalista Lêda Rivas, escreveu nas redes sociais: “Nosso companheiro estava, há muito tempo, afastado do dia a dia da redação. Acometido de problemas de saúde (sofreu três AVCs e tinha dificuldades de mobilidade) não foi esquecido pelos companheiros, os quais, eventualmente o cercavam de atenções e tentavam minimizar a crise financeira que enfrentava. Faz poucos anos, contei com a participação dele na confraternização em prol do Natal da APAE, que promovo junto com os coleguinhas. Ocasião em que partilhamos gratas e divertidas memórias e em que, ele, emocionado, agradeceu-nos o carinho demonstrado nas horas difíceis. Chorou: ‘Obrigado por se importarem.’ Não sei as circunstâncias da sua morte. E, nestes tempos cruéis de pandemia, lastimo que não possamos lhe prestar as últimas homenagens e dizer-lhe o quanto o seu espírito inquieto e os seus arrebatamentos nos ensinaram. Vai na paz de Deus, amigo. Qualquer dia, a gente vai se encontrar”.

Em novembro de 2015, postamos aqui no Satisfeita, Yolanda? essa entrevista com Valdi Coutinho, que reproduzimos aqui. 

ENTREVISTA // VALDI COUTINHO

Valdi, você trabalhou muito anos no Diario de Pernambuco. Você fez parte da editoria de Esportes também? Como eram divididas suas tarefas?
Passei quase 30 anos no DP e durante algum tempo me dividi entre Esportes, com o editor Adonias de Moura, e Viver – artes cênicas – com a editora Leda Rivas, o que não criava problema nenhum, pois os dois editores compreendiam minha simbiose entre o futebol e o teatro. Quando viajava, – e viajei muito, conheci toda a América do Sul, Estados Unidos, e fiz quatro Copas do Mundo (Argentina, Espanha, México e Itália), passando dois meses em cada um desses países,- era substituído na coluna diária de artes cênicas por jornalistas-colegas maravilhosos, tais como Sanelvo Cabral, Inês Cunha, Marilourdes Ferraz, entre outros, e nunca houve problemas. Grato, então a Leda Rivas e ao saudoso Adonias de Moura. José Maria, esse último foi quem me entregou  a missão de fazer a coluna de artes cênicas (substituindo Adeth Leite, quando ele faleceu), todos os dois de saudosa memória.

No período em que você atuou, o teatro pernambucano era mais vibrante? Tinha mais projeção?
Não, quando eu comecei a escrever sobre artes cênicas só havia o TAP, chamado de Jardim dos Oliveiras, o Tucap, Leandro Filho e seu teatro infantil. Aí eu fui incentivando, abrindo espaço, dando notícias sobre outras produções e começou o rebuliço, e passamos a ter um movimento teatral, chegando o Recife a ser o 3º polo de produção teatral. Enfim, sem falsa modéstia, o Recife começou a ter projeção nacional.

Como foi o seu encontro com o teatro? Como ator, diretor, crítico?
Naquela época não existia Internet nem redes sociais. O jornalista tinha que estar por dentro de tudo, bem informado sobre o que ia escrever, e eu estava até demais, só assim tinha informações, críticas e resenhas para escrever sobre teatro, diariamente. Aos 10 anos já fazia teatro interpretando Tarcísio, o mártir da Eucaristia, no Seminário de Nazaré da Mata, sob a direção do professor Higino. Depois, no Seminário de São Pedro, em Natal, comandava o show Xô Arara, Arara Show, aos domingos, para fugirmos da sala de estudos, à noite. Aos 16 anos, na cidade de Gurupi, Goiás, dirigi vários espetáculos musicais apresentados no Cine Boa Sorte, de sr. Moisés, com coreografias, esquetes dramáticos e cômicos, etc, que lotavam a casa. Quando jornalista, no Recife, fiz estreia na peça A Falecida, de Nelson Rodrigues, pelo elenco dos aspirantes ao TAP, direção de Valter de Oliveira. Depois fui presidente do Teatro Ambiente, do MAC, substituindo Petrúcio Nazareno, fundei o Teatro Experimental de Olinda, TEO, onde despontaram inúmeros talentos, como o hoje famoso José Manoel.E não parei mais, fazendo e escrevendo sobre teatro.

Uma crítica de teatro ainda tem alguma serventia?
Uma crítica de teatro ainda tem incomensurável valor não só para o público mas especialmente para os que fazem teatro.

Você ainda escreve críticas? O que você acha importante analisar?
Não escrevo mais críticas. Mas, acho tudo muito importante na crítica, desde a análise do texto até da contrarregragem.

Como se forma um bom crítico de teatro?
Um bom crítico, ao meu ver tem que compreender tudo, desde os bastidores até o produto final de uma encenação.

Uma das grandes polêmicas da produção pernambucana foi a estreia, e a curta temporada, da montagem Um Bonde chamado desejo, da qual você era assessor de imprensa. A crítica, num caso raríssimo, foi publicada duas vezes em página inteira no JC, porque trocaram a assinatura do autor da matéria. E não era uma crítica favorável ao espetáculo. O que diria sobre isso?
Naquela época existia uma guerra demolidora, amarga, azeda, de bastidores. Conheço produtores que ligavam para os teatros a fim de saber quantas pessoas tinham ido ver o outro espetáculo em cartaz para compará-lo com o seu. Um Bonde Chamado Desejo foi vítima dessa discórdia, sobrou até pra mim, foram pedir minha cabeça no jornal porque eu fiz assessoria de imprensa do espetáculo. Sofri muito na época. Foi uma baixaria. Saímos incólumes dessa violência, o espetáculo fez sucesso e eu permaneci escrevendo sobre artes cênicas. Não mexe comigo, eu não ando só…

O que acha da cena teatral brasileira contemporânea? Estamos mais ricos ou mais pobres artisticamente
Acho que estamos mais pobres. O valor comercial do espetáculo prevalece, o público adora ver pintas no palco. Mas isso está passando graças a uma nova geração que está chegando com excelentes espetáculos

Na sua carreira de crítico tem algum texto que você se arrependeu de ter escrito. Por quê? Ou alguma crítica que você lamentou não ter escrito. Por quê?
Não, não. Quando eu achava que o espetáculo era pobre demais eu simplesmente não fazia crítica para não prejudicá-lo.

Quais as melhores peças que você já conferiu?
As melhores que conferi são muitas, mas eu destacaria as dirigidas por Antonio Cadengue, Carlos Bartolomeu, José Pimentel, Guilherme Coelho, José Francisco Filho, Geninha Rosa Borges, entre outros, os citados são os melhores encenadores para mim.

Você tem alguma mágoa do teatro ou do jornalismo pernambucanos?
Não tenho. Mágoas e ressentimentos provocam câncer, infarto, depressão, já não sei o que são esses sentimentos. Se houve, passaram, hoje eu vivo o presente e cada dia como se fosse o último.

O que você faz do seu tempo?
Amo. A Deus, à vida, ao mundo, antenado e animado pelas redes socais, pela Internet.

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