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Economia do teatro no centro do debate
Livro de Michele Rolim no Feteag
Por Ivana Moura

Publicação mapeia como sete grupos de Porto Alegre se sustentaram por uma década e foi lançado em Caruaru dentro de uma rodada de negócios do FETEAG. Foto: Kari Carvalho / Divulgação

Michele Rolim autora do livro Mercado teatral e as fontes de receitas para a subsistência dos espetáculos de grupos teatrais – Porto Alegre (2010 a 2019) e a pesquisadora Heloísa Sousa. Foto: Kari Carvalho

O lançamento do livro Mercado teatral e as fontes de receitas para a subsistência dos espetáculos de grupos teatrais – Porto Alegre (2010 a 2019), de Michele Bicca Rolim, ocupou um lugar de destaque dentro do FETEAG 2026, na Rodada de Negócios Caruaru Conectada, no Porto Digital – Armazém da Criatividade, em 29 de outubro. 

“É muito interessante estar podendo lançar dentro de uma rodada de negócios, que é algo que até um tempo atrás não se falava – e muitos festivais ainda não falam. É super importante a gente tirar um pouco dessa áurea e se colocar como trabalhadores da cultura, que é o que nós somos”, ponderou a autora. Era, como ela mesma registrou ao final, a primeira vez que apresentava o livro nesse contexto. 

O livro nasceu da tese defendida em 2023 no PPGAC/UFRGS, sob orientação de Clóvis Dias Massa, contemplada com Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Tese 2024, na área de Artes. A publicação pela Editora Oikos tem 206 páginas, apoio da universidade e tiragem impressa de apenas 100 exemplares, distribuídos a pesquisadores e instituições. O PDF é gratuito, baixe aqui.

Michele analisa o espetáculo como produto e reconstrói sua trajetória completa – montagem, circulação, financiamento, receitas e custos. “Sempre há muitas pesquisas do ponto de vista estético, mas a gente sabe o quanto a produção e o financiamento acabam por intervir no ponto de vista estético.”

Essa percepção tem consequência visível na cena. “Às vezes a gente começa a ver muitas produções só de solos. Por quê? Porque é mais viável. A gente vê em determinadas cidades pouco cenário nas produções, porque se tiver muito cenário não vai conseguir se apresentar, não vai conseguir se deslocar, é muito mais caro.” A recorrência de solos e cenários mínimos, nesse enquadramento, não é escolha estética isolada – é o desenho do que é possível montar quando o custo de deslocamento define a dramaturgia. “A produção está implicada também como um ato criativo dentro de todo o processo.”

Rodada de Negócios Caruaru Conectada, no Porto Digital – Armazém da Criatividade. Foto: Kari Carvalho

O mapa que revela o ecossistema do teatro

O recorte reúne sete grupos de Porto Alegre com 20 anos ou mais de trajetória e atividade continuada, identificados com o campo do teatro de pesquisa, que a autora distingue do teatro industrial (comercial) e do comunitário, apoiando-se no conceito de Heloisa Marina. “Eu queria entender como funcionava esse ecossistema do teatro. Quais são os agentes que influenciam nisso?”

A resposta veio em quatro fontes: políticas públicas culturais (leis e editais), festivais, entidades paraestatais (SESC) e bilheteria. E o livro as torna visíveis por meio de um dispositivo de mapas com cores que indicam como cada espetáculo foi pago.

“Com bilheteria, a pessoa fica sempre no seu território.
Agora, com o edital público e com o SESC,
ela consegue ir ganhando outros territórios.”

A bilheteria desenha um ponto; o edital e o SESC desenham uma rede. É uma geografia da dependência – e o teatro que depende de plateia pagante pode ficar preso ao seu território. A consequência não é necessariamente de qualidade, é de repertório. Um espetáculo que só encontra o público da própria cidade é testado por um conjunto de expectativas. O que a pesquisa demonstra é que a impossibilidade de circular pode restringir o que se pode montar desde o início. Quando o custo de deslocamento entra na mesa de criação, ele já está definindo o tamanho do cenário e o número de atores em cena. Política pública, nesse enquadramento, é mais que subsídio e entra também na infraestrutura de circulação.

Uma contribuição interessante do estudo está na distinção entre aprovado, captado e quem capta. Na Lei de Incentivo à Cultura, no Rio Grande do Sul, todos os sete grupos aprovaram projetos. Apenas um captou: o Oi Nós Aqui Traveiz, com quase 47 anos de trajetória – e de forma pontual.

“Quando falo do bolo da Rouanet que vai para o teatro, a gente tem que olhar de fato para os dados. Grande parte é aprovado – mas o que realmente é captado? E depois disso, para quem consegue captar? Esses grupos que estão nesse escopo de teatro de pesquisa conseguem de fato captar? Não conseguem. Quem consegue são outros eventos.”

A lei de incentivo tende a concentrar recursos em eventos, atingindo os grupos de pesquisa de forma indireta. A conclusão implícita é que o mecanismo existe, mas não chega. E chega menos ainda a quem tem menos tempo de estrada, menos rede de captadores e menos capital simbólico acumulado. O capital simbólico, aqui, é pré-requisito para acessar o capital financeiro.

Sobre os festivais, Rolim diz que “são muito importantes para o pagamento dos espetáculos, mas são ações pontuais. Às vezes tu consegue naquele ano ir a dois, a três festivais, mas vai pagar aquele espetáculo, não vai garantir a tua sustentabilidade durante o ano.”

O SESC aparece como o agente mais efetivo. O Palco Giratório Nacional alcançou seis dos sete grupos em algum momento. “Isso sim é uma circulação que gera sustentabilidade, porque vai a muitos municípios.” E a bilheteria? Apenas o A Caixa do Elefante, com um espetáculo para bebês – nicho específico. Ainda assim, “a bilheteria não dá nem a metade do que ele ganhava numa apresentação feita no Palco Giratório no SESC. Conseguiu se pagar, mas não consegue gerar um caixa para o grupo.”

A memória que não existe
Um dos pontos mais delicados da pesquisa é a ausência de registros. “Não há o hábito do artista de ter uma memória referente à produção. São poucos artistas que têm os borderôs guardados. São poucos que sabem, naquele ano, todas as apresentações que fizeram, quanto receberam em cada uma, o custo daquele espetáculo e quanto de fato sobrou.”

Para Michele, esse é também um chamado: “É uma das motivações de tentar buscar isso, para que as pessoas comecem a pensar nessa memória da produção, essa memória financeira, que é muito importante.” Sem memória financeira não há diagnóstico; sem diagnóstico não há política cultural. A cadeia causal que a pesquisa propõe é verificável.

Fábio Pascoal, curador do festival. Foto: Kari Carvalho / Divulgação

O teatro como bem público
O encontro, mediado por Heloisa Sousa, docente da UFPE, também tocou na formação de plateia. Michele foi direta: 

“Se fecha um hospital, vai várias pessoas pra frente. Mas se fecha um teatro, vão os artistas e quase ninguém da sociedade. A gente precisa que o teatro seja um bem público da sociedade, até para que a gente consiga reivindicar mais o orçamento.”

Enquanto o teatro for defendido apenas por quem o faz, continuará sendo tratado como despesa. Daí a formulação que reorganiza o debate sobre subsídio: “O artista não é o beneficiário da política. Ele é o meio pelo qual a política pública acontece. Quem é o beneficiário de fato? A sociedade,” defende Rolim

Heloisa trouxe o dado que ancora outro ponto da discussão. Em uma turma de cerca de 40 estudantes de publicidade e propaganda da UFPE, em 2026, quase nenhum havia ido ao teatro no ano. As justificativas não foram preço nem desinteresse: “Não sei onde tem”, “não sei como acessar”, “parece algo muito distante” e, decisiva, “eu vou sozinho?”.

“Foi aí que a gente começou a conversar sobre o quanto a dimensão da coletividade, até para a formação de público, parecia ser algo muito basilar. Mais do que o acesso, mais do que o preço: é o não ir só,” expôs Sousa. Esse deslocamento é importante. O problema deixa de ser consumo e passa a ser mediação social. Ir ao teatro, para grande parte da população, exige uma companhia que ninguém oferece.

É por isso que a Escola de Espetadores de Porto Alegre, inspirada em Jorge Dubatti, funcionava. Criava um espaço de fala e escuta onde a experiência se tornava interpretável e, portanto, repetível. A pesquisadora Michele Rolim faz, porém, a crítica honesta ao projeto em POA. Quatro anos de atividade, impacto transformador limitado, e hoje funcionando de forma privada porque a prefeitura retirou o apoio. Mediação sem política estruturante pode virar episódio.

As saídas propostas

A mesa expôs três camadas. Na primeira, políticas estruturantes. O contraste entre a Lei de Fomento de São Paulo – que “mudou a cara do teatro feito em São Paulo” – e a de Porto Alegre, que beneficiava um ou dois grupos por ano com R$ 100 mil a R$ 150 mil e perdeu continuidade orçamentária. O programa Ações Continuadas da Funarte aparece como modelo: plurianual de dois anos, com linhas para grupos, espaços e eventos, exigência de três anos de trajetória e pisos de R$ 100 mil, R$ 300 mil e R$ 500 mil. 

Na segunda camada, o fundo para o teatro. A autora acredita que a criação é necessária, a manutenção é incógnita. Hipóteses levantadas apontam percentual sobre venda de ingressos em plataformas como o Sympla, contribuição sobre apresentações internacionais.

Uma provocação produtiva veio da plateia. Cléber Borges, programador do SESC Paraná, formulou a pergunta que ele mesmo pontuou como possível delírio: como pensar, para além dos editais – “que são bem trabalhosos” -, linhas de financiamento ou de crédito, algo como um BNDES da cultura? O raciocínio é simples e difícil de contestar. Se o governo organiza linhas de financiamento para o agronegócio, para a tecnologia e para a indústria, por que a cultura não teria uma agência de fomento equivalente – com cadastro de empresas e grupos, orientação técnica e linhas de crédito adequadas às características do setor? “Será que seria muito delírio?”, perguntou. E emendou uma segunda questão, ainda mais estrutural: não estaria na hora de reformar o próprio entendimento do que é financiar, diante do esgotamento de um setor que vive “na correria dos editais”?

Michele respondeu. “Já se discutiu a possibilidade de financiamento para que grupos pudessem comprar sedes.” Um grupo sem sede transforma recurso público em aluguel, despesa que não gera ativo. Um grupo com sede transforma o mesmo recurso em patrimônio. Aí pode estar a virada. 

Sobre escala, Rolim lembrou do mapeamento de grupos de teatro e ações continuadas na plataforma Rede das Artes, aberto até o fim de dezembro: “A gente não pode falar de um credenciamento se não sabe de quantos grupos estamos falando.”

O mapeamento citado por Michele é a primeira etapa do Mapa das Artes, programa da Funarte para produzir e organizar dados sobre o campo artístico brasileiro, lançado em 28 de fevereiro de 2026, em Manaus, durante o ato “Grupos, Memória e Acervos do Teatro Brasileiro”, nas celebrações dos 50 anos da fundação. O levantamento – Mapeamento Nacional de Grupos de Teatro de Ação Continuada – reúne informações sobre coletivos e organizações que atuam de forma permanente no teatro, com o objetivo de identificar formas de organização, trajetórias coletivas, redes de colaboração e dinâmicas territoriais. É operado pela Rede das Artes, plataforma digital pública e colaborativa criada pela Funarte em parceria com o Laboratório do Futuro, da Universidade Federal do Ceará, e instituída formalmente pela Portaria Funarte nº 775, de março de 2026. As inscrições seguem abertas até 31 de dezembro de 2026, e a participação é gratuita, mediante cadastro na plataforma. 

Michele Rolim. Foto: Kari Carvalho

O encontro escancarou realidades. Uma delas é a escala. Não se sabe quantos grupos de teatro de ação continuada existem no Brasil, e essa é a condição material de qualquer política séria. Enquanto o número não existir, todo credenciamento, todo fundo setorial e toda linha de crédito serão desenhados por estimativa. Foi por isso que Michele Rolim reforçou o mapeamento nacional aberto na Rede das Artes até 31 de dezembro; existe um gargalo que o setor precisa resolver antes de qualquer outro passo.

A segunda é a heterogeneidade territorial. Heloisa Sousa foi precisa ao desmontar a ideia de que Sul e Sudeste formam blocos homogêneos: “Não é porque acontece no Sudeste que acontece no Sul também.” E foi além, ao lembrar que o Centro-Oeste ocupa posição intermediária e que Norte e Nordeste, apesar de semelhanças, têm variações internas profundas. A pergunta que ela lançou – como o Nordeste lê suas próprias fontes de financiamento? –  é a constatação de que o Brasil não é um mercado teatral, são vários. A pesquisa de Michele tem um recorte geográfico declarado. O mapa precisa ser multiplicado por outros Brasis para contribuir com a política nacional.

A terceira é que, como salientou Michele, o teatro é artesanal, a obra não viaja sem o artista, e essa é uma condição real. Mas a pergunta sobre propaganda efetiva não se resolve com a constatação da assimetria produtiva. O que fica exposto é que comunicação eficiente vende o que já existe como desejo. No teatro, o desejo precisa ser construído, reconstruído, reconfigurado. Para que ir ao teatro seja prazeroso para grande parte da população.

 


Serviço
Livro: Mercado teatral e as fontes de receitas para a subsistência dos espetáculos de grupos teatrais – Porto Alegre (2010 a 2019)
Autora: Michele Bicca Rolim
Editora: Oikos
206 páginas
ISBN 978-65-5974-303-2
Acesso: PDF gratuito via QR Code e no site da Editora Oikos

Evento: Lançamento e mesa de conversa – FETEAG 2026, Rodada de Negócios Caruaru Conectada
Data: 29 de outubro de 2026, 17h
Local: Porto Digital – Armazém da Criatividade, Caruaru (PE)
Mediação: Heloisa Sousa (UFPE)
Apresentação: Fábio Pascoal
Entrada: gratuita


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O voo e o chão do FETEAG
Cobertura do Festival de Teatro do Agreste
Por Ivana Moura

Cabaré em Rede. Combina e Faz, da Selvática e aliados. Foto: Jorge Farias / Divulgação

O FETEAG chega aos 45 anos carregando a pergunta que o acompanha desde 1981. Como transformar vocação formativa em política permanente e circulação em muitas vias. Foto: Jorge Farias / Divulgação

From this comes (Disso vem). Foto: Jorge Farias / Divulgação

Nas últimas semanas, nossa energia esteve concentrada no exército de Lula para garantir a democracia. A vitória veio pelo campo da ética, e é desse lugar que este texto busca se desenvolver. Passada a batalha principal, voltamos a atenção para outras frentes de trabalho, outras ações. Uma delas está no Agreste pernambucano.

O Festival de Teatro do Agreste (FETEAG) está em andamento. Começou em 5 de outubro e segue até 31. Boa parte já aconteceu. Outra ainda vai acontecer. E é nesse meio de caminho que o festival se deixa ver, com o que já passou ainda ecoando no que virá.
Criado em 1981 pelo Teatro Experimental de Arte, o FETEAG chega aos 45 anos com programação comemorativa em Caruaru e no Recife. E sua vocação formativa, que está na origem, segue sendo o eixo estimado do festival.

Entre as apostas curatoriais deste ano situa-se o que Fábio Pascoal chama de “projetos transnacionais ou transestaduais”. Ele aponta como aqueles em que “os conceitos vêm de outros países ou estados e os espetáculos são executados por atores ou performers locais”. A expressão nomeia um arranjo repetido em outras edições do FETEAG. “Estamos fazendo esse movimento desde 2010, quando trouxemos Kelbilim, o cão da divindade, do Lume, e montamos um coro local para a peça”, afirma. O método voltou com Batucada, do Piauí, em 2018, e com Gala, de Jérôme, em 2021. Em 2026, o exercício se dá com Bananada Lacrimae, do coreógrafo Marcelo Evelin, com elenco local e um quarteto de cordas responsável pela sonoridade ao vivo.

A pergunta que se ergue, então, é o que esse modelo produz. Quem participa se sente parte do festival, é verdade. Uma cidade que quer ver a própria gente em cena numa programação de ambição internacional encontra ali uma resposta concreta. Mas o que exatamente se ganha quando o conceito chega formulado e o corpo local entra na etapa final da cadeia criativa?

O que está em jogo se organiza melhor em três perguntas operativas. Quem decide o quê, na mesa de criação. O que o artista local recebe e em que condições, porque o que se leva de um processo não cabe no que se recebe por ele. E o que permanece em Caruaru depois que a temporada acaba.

As três não se respondem no palco. Elas reaparecem em outro lugar da programação, onde o festival busca criar as condições para que o trabalho feito na região saia dela, com a formação que atravessa o mês inteiro e a primeira rodada de negócios do FETEAG.

Tudo o que você precisa é amor, de Felícia de Castro, apresentado na programação. Foto: Jorge Farias

O projeto Extensão Magiluth abriu a programação em 5 de outubro, com oficinas gratuitas de Interpretação, Dramaturgia, Direção e Produção para jovens de 15 a 29 anos, com ou sem experiência anterior. As aulas ocuparam o Teatro Lycio Neves até o dia 11, seguidas pela oficina Corpo Imagem, de fotografia e experimentação corporal, com Kari Carvalho, de13 a 17 de outubro. Em 18, a Cia. Rústica ofereceu a oficina Poéticas Festivas. No fim do mês, a Oficina Cine-Corpografia, com Gabi Holanda e Luiz Otávio Pereira, ocupa o Porto Digital Caruaru de 27 a 31, com exibição dos vídeos produzidos no encerramento. A Caruaru Conectada teve formação própria, online, em 7 e 8 de outubro, com Gyl Giffony na preparação de pitches e o Estúdio Giracoco, de Dani Melo e Bianca Carvalho, no trabalho de portfólio.

As ações de intercâmbio com o Coletivo Selvática, de Curitiba, aconteceram em outro lugar e em outro formato. Foram cinco dias, de 8 a 12 de outubro, na sede do Grupo Magiluth, no Recife, ao lado do Cabaré Boka da Luz. O encontro teve desdobramento em cena. Cabaré em Rede, Combina e Faz, ligado ao grupo, passou pelo Hermilo Borba Filho em 13 e 14 de outubro e pelo Lycio Neves em 16.

Caruaru Conectada, quando a cidade vira espaço de negócios. Foto: Divulgação

Desde 26 de outubro, o FETEAG recebe em Caruaru programadores, curadores e produtores de diferentes regiões do país. A rodada é gratuita e aberta ao público, inclusive a quem não participa das Rodas de Cenas e de Projetos. É a aposta desta edição.

Nesse dispositivo de encontros marcados, os artistas e grupos selecionados por chamada pública, aberta em setembro, apresentam seus trabalhos em reuniões curtas, ou showcases, que são trechos de espetáculo apresentados ao vivo. A programação profissional vai de 26 a 29, no Porto Digital, no Armazém da Criatividade, e no Teatro Lycio Neves. Em 28 e 29, as Rodas de Cenas ocupam as manhãs no Lycio Neves e as Rodas de Projetos ocupam as tardes no Porto Digital. 

Chegaram a Caruaru 17 profissionais. Da França, François Remandet, direção artística e desenvolvimento territorial do Festival Sens Interdits. Do Rio de Janeiro três nomes, dois deles pela Firjan, com Sabrine Muller na análise de Cultura e Alessandro Martins na coordenação cultural de operações, e o terceiro pela Secretaria Municipal de Cultura, onde Luiz Fernando Pinto responde pela gerência de Festivais. O Sesc comparece em duas unidades, com Cléber Borges na análise de Artes Cênicas do Paraná e Pedro Rodrigues na técnica de Artes Cênicas em Pernambuco.

O bloco dos festivais é o maior. Jacob Alves vem como curador do Junta Festival, parceiro do FETEAG. Wanderson Alex coordena o Festival Velha Joana. Giovana Soar integra a curadoria do Festival de Curitiba e a gerência de curadoria dos teatros da Aventura, em São Paulo. Tina Dias é curadora e coordenadora do ELA, Encontro Latinoamericano de Minas Gerais. Daniely Peinado preside a Federação de Teatro do Amazonas e dirige artisticamente o Festival de Teatro da Amazônia. Filipe Dama, secretário de Cultura de Peçanha (MG), é curador e diretor artístico do Encontro de Tradições.

A lista se completa com quem atua em produção, difusão e articulação de rede. Duna Dias trabalha na curadoria do Move Concreto! e na Mostra de Dança do Fim do Mundo. Pedro de Freitas dirige a Periplo, de produção, agenciamento e difusão artística. Oliver Tibeau é diretor cultural e cofundador do Instituto Brasileiro de Teatro. Levy Mota coordena o Laboratório de Teatro da Escola Porto Iracema das Artes, que também é parceira do festival e formou parte dos grupos que estarão na sala.

O conjunto desenha um mapa específico do que significa comprar teatro no Brasil. Um festival europeu, duas unidades do Sesc, duas frentes da Firjan, uma secretaria municipal de Cultura, seis festivais de porte nacional e quatro estruturas de produção, difusão e rede. É esse perfil que define o que será negociado em Caruaru.

Para a Roda de Cenas, que reúne os showcases, foram selecionados seis trabalhos, três em cada dia. Em 28, Quando o Chão Vira Céu, de Gabi Holanda, de Olinda, Histórias Bordadas em Mim, de Agrinez Melo, do DoceAgri, do Recife, e 24, de Reginaldo Oliveira, de Maceió. Em 29, Ybirá e as Sementes de Algaroba, do Coletivo Madalenas Interioranas, de Caruaru, RISCADO, de Daniel Torres, de Natal, e Isso Não É Um Número de Circo, da Cia Devir, do Recife.

Para a Roda de Projetos, que reúne os pitches, foram habilitadas 40 propostas, entre elas AnTígona, a Retomada, Medeia, da Lama ao Caos, Notícias do Dilúvio, um canto a Canudos, Os Mistérios Dolosos de Uma Travesti, Pequeno Manual de Sobrevivência para Mães Artistas, Se Acaso Você Chegasse, musical em homenagem a Elza Soares, e Tv Fracasso. A lista completa está no site do festival.

Em 29 de outubro, no Porto Digital, a rodada recebe lançamento de Mercado Teatral e as Fontes de Receitas, de Michele Rolin, seguido de mesa de conversa aberta ao público. O livro investiga as fontes de receita que sustentaram espetáculos de sete grupos de Porto Alegre entre 2010 e 2019, analisando políticas públicas, festivais, Sesc e bilheteria. É resultado de uma tese que recebeu Menção Honrosa no Prêmio Capes de 2024, e terá acesso digital gratuito por QR code.

Josefina, uma peça-rato, do Cangaias, Foto: Jorge Farias / Divulgação

A programação de espetáculos se distribui em três mostras. A Mostra Argemiro Pascoal traz a produção nacional e internacional contemporânea. A Mostra PE reúne trabalhos pernambucanos de diferentes territórios e linguagens. A Mostra Erenice Lisboa, antes chamada Mostra Infantil, homenageia a dramaturga caruaruense e mantém a aproximação de crianças e jovens com o espetáculo.

Entre o que já passou, alguns dados ajudam a dimensionar a edição. Josefina, uma peça-rato, do Cangaias, passou pelo Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife, em 15 de outubro, e pelo Lycio Neves em 17. A montagem fecha uma trilogia inspirada em Kafka e teve pesquisa desenvolvida no 13º Laboratório de Criação Teatral da Porto Iracema das Artes, com o cotidiano de Maracanaú como matéria-prima.

Mimosa, performance de Flávia Pinheiro, ocupou o Teatro Rui Limeira Rosal em 16 de outubro,  partindo da Mimosa pudica, a planta que fecha as folhas ao toque, para investigar os processos de nomeação e classificação que fundaram a botânica colonial. Obaque, da cia. Loly pop Urban art, de Fortaleza esteve no mesmo teatro em 18 de outubro, extraindo da House Dance e das danças urbanas uma dramaturgia em que o corpo periférico pensa a queda e o chão. From This Comes, de Valentina Parravicini, foi ao Lycio Neves em 24 de outubro, com vinte cadeiras, histórias e lugares numa paisagem instável.

Samba que Soma, do Quilombo Urbano de Itacaré, na Bahia, apresentou em 17 e 18 de outubro, uma investigação sobre as memórias que organizam coletivamente o Samba Duro do bairro Porto de Trás, em narrativas dançantes formadas no encontro entre gerações. O Corpo, o Peso, o Descanso, de Céu Vasconcelos, ocupou a Estação Ferroviária e o Marco Zero em 16 de outubro.

Vingança é um jardim selvagem, da Cia. Rústica de Porto Alegre Foto: Jorge Farias / Divulgação

A temporada da Cia. Rústica foi a maior presença de um grupo no festival. A companhia de Patrícia Fagundes ocupou o Lycio Neves de 17 a 22 de outubro, com O Fantástico Circo Teatro de um Homem Só, Vingança é um Jardim Selvagem, Cabaré da Vida Pequena e Cabaré do Amor Rasgado, além da oficina Poéticas Festivas. Cabaré da Vida Pequena teve três sessões, e é definido pela própria companhia como um pequeno cabaré do sul do mundo, longe de circuitos de fama, reúne cinco artistas entre afetos, quedas, desejos, canções e risadas. A companhia já seguiu viagem.

Bananada Lacrimae, de Marcelo Evelin, é a montagem que fecha o ciclo transestadual da edição, com elenco local e quarteto de cordas ao vivo, em 31 de outubro, às 21h, no Lycio Neves. A Mostra Respira de Música Autoral, do Coletivo Cultural Respira, ocupa o Centro Cultural Respira em todas as noites de 26 a 30, às 22h.

Um dado de acessibilidade atravessa a programação inteira. Boa parte das sessões tem tradução em Libras, e os dois cabarés da Cia. Rústica tiveram Libras e audiodescrição. Numa edição com 35 apresentações em duas cidades, isso se apresenta como política.

Os lançamentos de livro

Dois lançamentos durante o festival lidam com memória e com o ofício de fazer arte no Brasil. Lantejoulas no Mangue, de Márcio Bastos, reconstrói a trajetória do grupo de teatro Vivencial. Copi, a desmesura de uma vida meteórica, de Renata Pimentel, percorre a vida do escritor, dramaturgo e quadrinista argentino. As obras integram as coleções Nossas Histórias, da Autêntica, e Vidas Sequestradas, do O Sexo da Palavra, e seguem à venda durante o festival.
Os eventos de lançamento foram em 13 de outubro, no Hermilo Borba Filho, no Recife, e em 16 de outubro, no Lycio Neves, em Caruaru.

A estrutura que sustenta o voo

O FETEAG 2026 é apresentado pelo Ministério da Cultura, pelo Itaú e pelo Banco do Nordeste, com realização do Teatro Experimental de Arte. Tem incentivo do Funcultura, da Fundarpe e da Secretaria de Cultura de Pernambuco, e apoio da Lei Aldir Blanc e da Fundação de Cultura de Caruaru. Conta com a parceria do Porto Digital, do Hub Porto Dragão do Mar e Porto Iracema das Artes, da Embaixada da França no Brasil e do Junta Festival, e com apoio institucional do Sesc e da Prefeitura do Recife, por meio do Centro Cultural Apolo-Hermilo.

O conjunto é robusto na aparência e delicado na prática. A longevidade do FETEAG não se apoia em receita própria nem em mercado consolidado. Apoia-se numa malha de editais, emendas e parcerias institucionais que precisa ser reconstruída a cada edição. A vitória ética que comemoramos no campo nacional tem desdobramento direto em ações e festivais como o FETEAG, e a cultura deve cobrar esse desdobramento.

 

Serviço

FETEAG 2026, Festival de Teatro do Agreste. De 5 a 31 de outubro, em Caruaru e no Recife. Mostras de espetáculos, formação, Caruaru Conectada e lançamentos de livro. Programação completa em feteag.com.br e no perfil @feteag.


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A força política e estética do Feteag 2025

A mon seul désir, de Gaëlle Bourges (França), abre programação. Foto: Danielle Voirin / Divulgação

Cocina Publica, do Teatro Container (Chile). Foto: Adelano

Germaine Acogny, que encerra o festival, é uma das grandes referências mundiais da dança contemporânea. Foto: Thomas Dorn

Abrir um festival com uma peça francesa que reflete sobre representações femininas medievais expressa um posicionamento curatorial questionador das desigualdades. Levar teatro contemporâneo que discute a alimentação no mundo para um assentamento de luta pela terra tem também algo de subversivo. Encerrar a programação com uma bailarina senegalesa de 81 anos que revolucionou a dança em seu país afirma uma visão de mundo que aposta na circulação de saberes. O Festival de Teatro do Agreste, em sua 34ª edição, estabelece diálogos diretos entre criação artística contemporânea e as urgências sociais do nosso tempo.

Dirigido por Fabio Pascoal, o Feteag 2025 reúne 21 espetáculos de 9 e 26 de outubro, entre nacionais e internacionais, todos com entrada gratuita. A seleção das peças aponta para inquietações contemporâneas sobre exclusão, resistência e identidade que perpassam as criações escolhidas.

A seleção desta edição opera segundo uma lógica que articula diversidade geográfica com urgências temáticas. A curadoria geral, conduzida por Fabio Pascoal, aproveitou estrategicamente a Temporada França-Brasil 2025 para trazer criações de Burkina Faso (África Ocidental), Camarões (África Central) e Guadalupe (Caribe francês), além da própria França.

Esta escolha curatorial carrega uma compreensão particular sobre como usar as relações bilaterais para amplificar vozes frequentemente marginalizadas nos circuitos internacionais.

A mostra principal leva o nome de Argemiro Pascoal, um dos fundadores do Teatro Experimental de Arte – TEA, realizador do Feteag. 

Les Sans adapta o pensamento de Frantz Fanon para o teatro. Foto: Julie Cherki / Divulgação

Les Sans (Os Sem), do coletivo Les Récréâtrales-ELAN, de Burkina Faso, investiga diretamente a questão dos sem-teto e excluídos sociais através de linguagem cênica que combina tradições orais africanas com teatro político contemporâneo. A peça adapta o pensamento de Frantz Fanon para o teatro através do reencontro de dois ex-companheiros de luta. Ali Kiswinsida Ouédraogo explora o conflito entre Franck e Tiibo, interpretados por Ali K. Ouédraogo e Noël Minougou, onde um mantém ideais revolucionários enquanto o outro foi cooptado pelo sistema que combatiam. Sob direção de Freddy Sabimbona, a obra interroga as limitações da independência burkinabê, investigando se a libertação formal constitui verdadeira descolonização ou apenas mudança de máscaras do poder colonial.

Quando esta criação dialoga com La Cocina Pública, do grupo chileno Teatro Container, estabelece-se uma reflexão transnacional sobre precariedade e solidariedade. A obra chilena propõe a preparação coletiva de uma refeição como ato político e comunitário, questionando quem tem direito à alimentação e ao espaço público através de performance participativa que dissolve fronteiras entre arte e vida cotidiana.

Gaëlle Bourges propõe a desconstrução de Imaginários conservadores sobre o Feminino. Foto: Thomas Greil  

À mon seul désir, de Gaëlle Bourges, que abre o festival, parte da tapeçaria medieval A Dama e o Unicórnio para reavaliar construções históricas sobre feminilidade. A coreógrafa francesa examina como a cultura europeia associou mulheres ao mundo vegetal e animal, perpetuando ideais de virgindade e pureza através de imagens aparentemente poéticas.

Bourges desenvolve uma investigação coreográfica que expõe as violências simbólicas embutidas nessas representações românticas, utilizando movimento e voz para evidenciar como tapeçarias medievais funcionavam como dispositivos de controle sobre corpos femininos. Sua pesquisa conecta-se com debates contemporâneos sobre representação e autonomia feminina, oferecendo ao público brasileiro uma análise sobre como imaginários europeus ainda influenciam percepções sobre feminilidade.

Un endroit du début com Germaine Acogny. Foto: Thomas Dorn

Por sua vez, Germaine Acogny, que encerra o festival no Teatro Santa Isabel, é uma das grandes referências mundiais da dança contemporânea. Nascida no Senegal em 1944, ela fundou a primeira escola de dança contemporânea da África Ocidental em 1977 e desenvolveu uma técnica própria que combina danças tradicionais africanas com metodologias contemporâneas ocidentais.

Em Un endroit du début, criado com Mikaël Serre, ela explora memórias corporais e ancestralidade através de movimentação que articula gestualidade ritual com linguagem cênica contemporânea. Aos 81 anos, permanece ativa como pesquisadora corporal e formadora, tendo influenciado gerações de bailarinos e coreógrafos em todo o mundo através de sua escola, onde formou centenas de artistas. Escrevi uma crítica a partir do trabalho gravado da artista em vídeo e que integrou a edição de 2021 do festival Janeiro de Grandes Espetáculos. Leia texto AQUI.

Assentamento Normandia: Arte em Território de Resistência

Espetáculo trabalha a ideia de patrimônio alimentar compartilhado

A apresentação de La Cocina Pública no Assentamento Normandia, em Caruaru, estabelece uma das escolhas mais incisivas desta edição. O Assentamento Normandia constitui um território conquistado através da luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), expressando décadas de organização popular pela reforma agrária na região.

Programar uma obra sobre alimentação e participação comunitária para este espaço cria camadas de significado que expandem o artístico e o político. O Teatro Container, grupo chileno responsável pela criação, desenvolve há anos pesquisas sobre arte e alimentação como atos políticos, investigando como o preparo e partilha de comida funcionam como tecnologias de organização social.

La Cocina Pública transforma o preparo coletivo de uma refeição em ritual de partilha e reflexão sobre direitos básicos, utilizando metodologia participativa que convoca o público para ações concretas. No contexto do assentamento, onde a conquista da terra relaciona-se diretamente com o direito à alimentação, a criação ganha ressonâncias particulares sobre soberania alimentar e autonomia popular.

Mostra PE: Diversidade da Cena Local

A Mostra PE, com curadoria de Vika Schabbach e Igor Lopes, selecionou cinco trabalhos entre 57 inscrições através de chamada pública. Schabbach, crítica e pesquisadora teatral, e Igor Lopes, diretor e dramaturgo, construíram uma seleção que busca evidenciar a potência criativa da produção pernambucana contemporânea.

Itaêotá, do Grupo Totem

Bolor. Foto: Morgana Narjara

Itaêotá, do Grupo Totem, apresenta o resultado de seis anos de investigação artística que conecta ancestralidade indígena e africana com urgências contemporâneas. Este espetáculo de teatro-dança utiliza rituais coletivos e elementos como urucum para propor caminhos de regeneração social diante do colapso civilizatório, materializando a pesquisa Metamorfismo de (R)existência através de performance que dissolve fronteiras entre linguagens artísticas.

Bolor (Gabi Holanda, Guilherme Allain e Isabela Severi) confronta diretamente a mitologia freyreana do açúcar, empregando fungos como protagonistas metafóricos de processos de decomposição e renascimento. A criação aponta a violência estrutural da plantation açucareira através de estética da decomposição que valoriza redes subterrâneas de resistência, dialogando criticamente com pensadores como Malcom Ferdinand e Anna Tsing para imaginar futuros decoloniais.

 Joesile Cordeiro navega pela memória afetiva de ser um jovem gay em busca de reconexão com sua infância perdida na encenação Tempo de vagalume. Esta performance autobiográfica criada em Garanhuns constrói pontes poéticas entre passado e presente através de teatro intimista que busca transformar experiência pessoal em pensamento coletiva sobre identidade e pertencimento LGBTQIA+.

Eron Villar e DJ Vibra protagonizam o encontro entre música contemporânea e teatro épico que ressignifica o legado político de Malcolm X para o contexto brasileiro em Se eu fosse Malcolm?  A performance articula crítica decolonial e questões de raça e gênero através de linguagem cênico-musical que dissolve fronteiras entre som e cena, construindo um perspectiva antirracista contemporânea.

Circo Godot (Cia. Circo Godot de Teatro) acompanha dois artistas de rua em suas peripécias cotidianas, explorando relações de poder e subsistência através de humor que transita entre o universal e o particular. A comédia convoca o espírito itinerante do teatro dos espaços não convencionais para questionar hierarquias sociais através da jornada de Gatropo e Tropino.

Corpo, Memória e Resistência

Aquelas – uma dieta para caber no mundo convida para um jantar para falar de uma santa popular assassinada. Foto Raissa Dourado

Monique Cardoso investiga invisibilização da beata Maria de Araújo, protagonista do Milagre da Hóstia em 1889, no espetáculo Cavucar. Foto: Henrique Cardozo / Divulgação

As criações nacionais e internacionais estabelecem diálogos temáticos que ultrapassam fronteiras geográficas, trazendo inquietações compartilhadas sobre corpo, memória e resistência. 

O Manada Teatro, do Ceará, desenvolve Cavucar, do projeto Pote e Navalha, através da performance solo de Monique Cardoso, que também assina direção em parceria com Murillo Ramos, sobre dramaturgia de Tércia Montenegro. A obra ficcionaliza possível descoberta dos restos mortais da beata Maria de Araújo, protagonista do Milagre da Hóstia em 1889, provocando e tensionando as violações eclesiásticas que resultaram no desaparecimento de seus vestígios e invisibilidade na história de Juazeiro do Norte. A encenação utiliza elemento fantástico para convocar o público a fabular os fatos e reconstruir a história através de suposições que questionam a construção de um dos maiores centros de fé católica do mundo.

Aquelas – uma dieta para caber no mundo reconstrói a trajetória de Maria de Bil, santa popular de Várzea Alegre assassinada em 1926 pelo companheiro, através de performance participativa dirigida por Murillo Ramos e interpretada por Juliana Veras e Monique Cardoso. O espetáculo convida o público a participar do preparo de jantar envolvendo facas, carne, sangue oferecidos à mesa com os corpos das próprias atrizes, construindo encenação delicada e cruel que apresenta caleidoscópio das violências machistas através de quadros performativos que misturam história da santa com pessoalidades das intérpretes.

Sonho de uma noite de verão, montagem da Trupe Ave Lola, no Paraná. Foto: Caique Cunha / Divulgação

A Trupe Ave Lola (PR) desenvolve duas experiências distintas da dramaturgia clássica e contemporânea sob direção de Ana Rosa Genari Tezza. Sonho de uma noite de verão revisita Shakespeare através de encenação popular com tradução de Bárbara Heliodora, reunindo nove artistas em cena – Cesar Matheus, Helena de Jorge Portela, Helena Tezza, Kauê Persona, Larissa de Lima, Marcelo Rodrigues, Pedro Ramires, Wenry Bueno e Willa Thomas – e música original composta por Arthur Jaime, Breno Monte Serrat e Julia Klüber, executada ao vivo pelos músicos Arthur Jaime e Breno Monte Serrat, criando atmosfera festiva que convida o público a testemunhar momentos de paixão, magia e loucura através de linguagem teatral popular.

Já com O Vira-lata, a Trupe Ave Lola explora amizade improvável entre uma jovem romântica que sonha com grande amor e um homem-cachorro maltratado pela fome e desamparo, questionando convenções sociais quando surge um pretendente desconhecido que desperta ciúmes do fiel amigo, construindo fábula contemporânea sobre solidariedade, abandono e os conflitos entre sonhos românticos e lealdade verdadeira.

 Lucas Torres e Bruno Parmera em Édipo REC. Foto: Estúdio Orra: Zé Rebelatto e Grabriela Passos 

O Grupo Magiluth, de Pernambuco, em seu 16º trabalho que celebra duas décadas de pesquisa continuada, comparece ao Feteag com  Édipo REC, um trabalho com direção de Luiz Fernando Marques e dramaturgia de Giordano Castro. O elenco composto por Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral, Nash Laila e Pedro Wagner constrói releitura não-linear da tragédia sofocliana que joga com a cronologia para questionar a noção de tempo no teatro.

Tebas transforma-se no Recife fantasmagórico onde o Corifeu é representado pela câmera, espelhando a produção excessiva de imagens contemporâneas das redes sociais e câmeras de segurança. A linguagem audiovisual busca inspiração no cinema experimental, desde Édipo Rex (1967) de Pasolini até Funeral das Rosas (969) de Matsumoto, questionando se teatro e cinema conseguem dar conta das múltiplas tragédias contemporâneas e por que o público sairia de casa para assistir história tão antiga.

Mas mesmo a vida sendo decepcionante, como proclama o personagem de Erivaldo Oliveira, tem festa nesta Tebas-Recife-Caruaru no primeiro ato desta peça-peste, que convoca seu povo a dançar até o pé inchar.

Cartografias Francófonas: Trabalho, Identidade e Memória Colonial

Le Quai de Ouistreham fala da situação de mulheres que trabalham em empregos precários e invisíveis

Zora Snake em L’Opéra du villageois. Foto: Agir pour le Vivant

Corpos, da Cie Mangrove, (Guadalupe/Brasil). Foto: Divulgação

As criações francófonas constroem considerações convergentes sobre precariedade, identidade e legados coloniais através de perspectivas estéticas diversificadas.

Le Quai de Ouistreham, da Compagnie la Résolue, da França, adapta investigação jornalística de Florence Aubenas sobre mulheres que trabalham em empregos precários e invisíveis, especialmente na limpeza e na manutenção, e que vivem à sombra da crise econômica. Dirigido por Louise Vignaud, com atuação de Magali Bonat.

L’Opéra du villageois, da Compagnie Zora Snake, de Camarões, manifesta resistência através de performance-ritual que ressuscita potência das máscaras africanas roubadas pelos museus europeus. Zora Snake atravessa dimensão sagrada para questionar pilhagem cultural colonial, utilizando bandeira da União Europeia, rituais com ouro e sal para despertar força ancestral das comunidades aldeãs consideradas “incivilizadas”.

Corpos (Cie Mangrove, Guadalupe/Brasil) explora estigmatização do corpo negro através de laboratório coreográfico desenvolvido por Hubert Petit-Phar e Augusto Soledade, questionando representações corporais e sexuais no cruzamento entre culturas caribenhas e brasileiras, investigando singularidades corporais diante de fronteiras estéticas e políticas contemporâneas.

palestra-performance La Vérité vaincra / A Verdade Vencerá recria entrevista de Lula a Ivana Jinkings 

La Vérité vaincra / A Verdade Vencerá, da Cie KastôrAgile, (França) desenvolve palestra-performance que adapta o livro homônimo de Luiz Inácio Lula da Silva, baseando-se nas entrevistas concedidas à editora Ivana Jinkings em janeiro de 2018, momento crucial anterior à prisão do ex-presidente. Gilles Pastor transforma documento político em teatro de resistência através das interpretações de Alizée Bingöllü e Jean-Philippe Salério, que recriam cenicamente os diálogos sobre julgamento, vida pessoal e trajetória política de Lula.

A obra materializa voz de resistência do homem afastado injustamente da arena política, expondo raiva sagrada contra injustiças através de linguagem cênica que articula testemunho pessoal com denúncia estrutural. No contexto do Feteag, esta criação francófona estabelece pontes diretas entre público brasileiro e reflexão internacional sobre democracia e autoritarismo, questionando como arte pode amplificar vozes silenciadas pelo poder judiciário e construir solidariedade transnacional diante de perseguições políticas contemporâneas.

Experiências Imersivas e Linguagens Expandidas

Dancemos… que o mundo se acaba!, da BiNeural-MonoKultur, da Argentina. Foto: Reprodução

Fábulas de nossas fúrias explora o universo gay. Foto: Rogério Alves / Divulgação

peça Neva, de Guillermo Calderón, em montagem de Marianne Consentino (PE)

Três criações exploram possibilidades de imersão e participação através de dispositivos que expandem linguagens teatrais tradicionais. Dancemos… que o mundo se acaba!, da BiNeural-MonoKultur, da Argentina, propõe áudio-obra interativa que transforma público em dançarinos, questionando coreomanias, epidemias de dança e comportamentos coletivos através de jogo que reflete sobre sedução, pandemia e medo de dançar sozinho.

Fábulas de nossas fúrias (Coletivo Atores à Deriva, RN) articula contação de histórias com afirmação política da raiva como elemento transformador, inspirando-se em Paulo Freire para questionar hierarquias conservadoras através de viados que justificam suas fúrias expondo modos de amar, invertendo lógicas que classificam “bichos” em estruturas de poder.

Neva, montagem de Marianne Consentino (PE), ambienta-se no Domingo Sangrento de 1905 em São Petersburgo, friccionando arte e política através de três atores refugiados em teatro durante massacre nas ruas. A peça de Guillermo Calderón questiona a serventia do teatro através de Olga Knipper, viúva de Tchekhov, que encena repetidamente a morte do marido enquanto cidade desaba, oscilando entre necessidade absoluta e total irrelevância da arte.

Formação de público como letramento cênico

No que se refere à formação de público, a Mostra Erenice Lisboa, voltada para estudantes da rede pública, desenvolve uma compreensão específica sobre letramento teatral. Através das apresentações de O Vira-lata, da Trupe Ave Lola, seguidas de conversas entre artistas e estudantes, o festival promove o desenvolvimento de repertórios simbólicos e críticos.

Este letramento teatral envolve a construção de ferramentas interpretativas que permitam aos jovens ter apreciar as criações teatrais em suas potencialidades expressivas. As conversas pós-apresentação funcionam como espaços de processamento coletivo da experiência estética, fundamentais para a formação de público crítico e engajado com as artes cênicas.

Atividades Formativas: Aprendizado e Troca de Saberes

Paralelamente, as oficinas propostas pelo festival desenvolvem lógicas distintas mas complementares de formação artística. A oficina com Gaëlle Bourges permite aprofundamento na pesquisa específica da artista francesa sobre feminilidade e construção de imagens corporais. Já a oficina do Teatro Container integra os participantes no processo de montagem de La Cocina Pública, criando vínculos entre formação teórica e prática artística concreta.

Vendas e Mordaças, oficina exclusiva para mulheres conduzida por Faeina Jorge, Juliana Veras e Monique Cardoso, propõe vivência sensorial e afetiva em torno de identidades femininas através de exercícios que articulam corpo, voz e memória pessoal. Por outro lado, o workshop Corpos e Territórios, ministrado por Hubert Peti-Phar, articula fundamentos culturais brasileiros e guadalupenses através de práticas corporais que dialogam com tradições ancestrais e princípios contemporâneos da dança.

Larissa Lisboa apreenta espetácuo Inquieta, com participação de Gabi da Pele Preta

A programação musical está garantida com o espetáculo Inquieta, performance de Larissa Lisboa com participação de Gabi da Pele Preta, evidenciando nova cena musical pernambucana focada em compositoras negras e LGBTQIA+. Larissa Lisboa, cantora e multi-instrumentista recifense, constrói repertório que mistura criações autorais com obras de compositoras contemporâneas locais, enquanto Gabi da Pele Preta, de Caruaru, desenvolve sonoridade inovadora que mescla maracatu, coco, afoxé com jazz, soul e reggae, celebrando identidade negra através de conscientização social musicada.

Sustentabilidade e Articulação Institucional

Quanto à sustentabilidade, a rede de apoios do FETEAG 2025 demonstra capacidade articulatória entre diferentes esferas: federal (Ministério da Cultura), estadual (Funcultura, Fundarpe), municipal (Fundação de Cultura de Caruaru) e privada (Banco do Nordeste, Rede Itaú, Vale). A parceria com o Consulado Geral da França viabiliza a programação francófona dentro da Temporada França-Brasil 2025, demonstrando como acordos bilaterais podem amplificar recursos para programação cultural.

Com 34 edições no currículo, o Feteag confirma a qualidade artística com relevância social, diversidade internacional com fortalecimento da produção local, formação de público com experimentação estética. Esta programação evidencia como festivais podem funcionar como plataformas de articulação entre diferentes mundos – artísticos, sociais, educacionais, políticos. Neste contexto, o festival afirma o teatro como necessidade social e política em tempos de urgência democrática, construindo experiências coletivas de pensamento e sensibilidade.

Programação Completa do FETEAG 2025

RECIFE
09 e 10/10

À mon seul désir (Ao meu único desejo),
de Gaëlle Bourges (França)
Local: Teatro Luiz Mendonça | Horário: 20h | Classificação: 18 anos

CARUARU
15/10

Dancemos… que o mundo se acaba!,
de BiNeural-MonoKultur (Argentina)
Local: Estação Ferroviária | Horário: 19h | Classificação: Livre

Édipo REC, do Grupo Magiluth (PE)
Local: Teatro Lycio Neves | Horário: 20h | Classificação: 18 anos

16/10

Fábulas de nossas fúrias, de Cia de Atores à Deriva (RN)
Local: Teatro Lycio Neves | Horário: 20h | Classificação: 16 anos

17/10

NEVA,
de Marianne Consentino (PE)
Local: Teatro Lycio Neves | Horário: 20h | Classificação: 16 anos

18 e 19/10

Sonho de uma noite de verão,
da Trupe Ave Lola (PR)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal | Horário: 17h | Classificação: 12 anos

A Cozinha Pública (La Cocina Pública),
Teatro Container (Chile)
Local: Centro de Formação Paulo Freire (Assentamento Normandia) | Horário: 17h | Classificação: Livre

20 a 24/10

O Vira-lata,
da Trupe Ave Lola (PR) – 
Local: Teatro Lycio Neves | Horário: 9h | Classificação: Livre

20/10

Itaêotá,
do Grupo Totem (PE)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal | Horário: 19h | Classificação: 12 anos

Cavucar,
da MANADA Teatro (CE)
Local: Teatro Lycio Neves | Horário: 21h | Classificação: 14 anos

21/10

Circo Godot,
da Cia. Circo Godot de Teatro (PE)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal | Horário: 19h | Classificação: Livre

Aquelas – uma dieta para caber no mundo,
do MANADA Teatro (CE)
Local: Teatro Lycio Neves | Horário: 21h | Classificação: 14 anos

22/10

Se eu fosse Malcolm?,
de Eron Villar & DJ Vibra (PE)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal | Horário: 19h | Classificação: 14 anos

Le Quai de Ouistreham (O cais de Ouistreham),
da Compagnie la Résolue (França)
Local: Teatro Lycio Neves | Horário: 21h | Classificação: 14 anos

23/10

Tempo de vagalume,
de Joesile Cordeiro (PE)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal | Horário: 19h | Classificação: 14 anos

A Verdade Vencerá/LULA (La Vérité vaincra/LULA),
de Gilles Pastor – KastôrAgile (França)
Local: Teatro Lycio Neves | Horário: 21h | Classificação: 14 anos

24/10

Bolor,
de Gabi Holanda, Guilherme Allain e Isabela Severi (PE)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal | Horário: 19h | Classificação: 12 anos

Les Sans (Os sem),
de Les Récréâtrales-ELAN (Burkina Faso)
Local: Teatro Lycio Neves | Horário: 21h | Classificação: 14 anos

25/10

L’Opéra du villageois (A ópera do camponês),
da Compagnie Zora Snake (Camarões)
Local: Estação Ferroviária | Horário: 17h | Classificação: Livre

Corpos,
da Cie Mangrove (Guadalupe/Brasil)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal | Horário: 19h | Classificação: 12 anos

Inquieta (Música),
de Larissa Lisboa com Gabi da Pele Preta (PE)
Local: Teatro Lycio Neves | Horário: 21h | Classificação: 16 anos

RECIFE
26/10

À un endroit du début (Em algum lugar no início),
de Germaine Acogny e Mikaël Serre (Senegal/França)
Local: Teatro de Santa Isabel | Horário: 19h | Classificação: 14 anos

Oficinas e Atividades Formativas

Workshop Corpos e Territórios – Hubert Peti-Phar
Oficina de Criação – Teatro Container
Pesquisa Corporal – Gaëlle Bourges
Vendas e Mordaças – Faeina Jorge, Juliana Veras e Monique Cardoso (exclusiva para mulheres)

Serviço

📍 Período: 09 a 26 de outubro de 2025
🎭 Entrada: Gratuita mediante retirada de ingressos no Sympla
🏛️ Locais: Teatro Santa Isabel (Recife), Teatro Luiz Mendonça (Recife), Teatro Lycio Neves (Caruaru), Teatro Rui Limeira Rosal (Caruaru), Estação Ferroviária (Caruaru), Centro de Formação Paulo Freire – Assentamento Normandia (Caruaru)
🎯 Direção Geral: Fabio Pascoal
👥 Curadoria Mostra PE: Vika Schabbach e Igor Lopes
💰 Apoio: Ministério da Cultura, Funcultura, Fundarpe, Fundação de Cultura de Caruaru, Banco do Nordeste, Rede Itaú, Vale, Consulado Geral da França
ℹ️ Mais informações: @feteag


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CENA EXPANDIDA em Pernambuco
Iluminando os festivais de artes cênicas

Dançando Villa, da Curitiba Cia de Dança participou do Cena Cumplicidades. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

Stabat Mater, um dos destaques da programação do FETEAG. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

Leitura dramatizada do texto Planeta Tudo, (planeet Alles), no RESIDE FIT-PE. Em cena Iara Campos, Romualdo Freitas, Edjalma Freitas e Naruna Freitas e o viodeomaker Gabriel de Godoy, Foto: Pedro Portugal / Divulgação

Cordel Estradeiro, Uma Viagem Impressionante ao Sertão, da Escola Municipal Maria De Lourdes Dubeux Dourado do Recife, em apresentação no FETED. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

ITAÊOTÁ, do Grupo Totem na programação do Transborda. Foto: Divulgação

Cinco festivais de artes cênicas de Pernambuco participaram de uma experiência inédita e promissora no estado chamada CENA EXPANDIDA. O Cena Cumplicidades – Festival Internacional de Artes da Cena, de Arnaldo Siqueira; o FETEAG – Festival de Teatro do Agreste, de Fábio Pascoal; o FETED  – Festival Estudantil de Teatro e Dança, de Pedro Portugal; o Transborda – As Linguagens da Cena, com curadoria de Ariele Mendes e equipe do Sesc-PE, e o RESIDE FIT-PE – Festival Internacional de Teatro de Pernambuco, de Paula de Renor, se juntaram numa ação conjunta no mês de setembro no intuito de produzir um bom impacto cultural nas cidades envolvidas (Recife e Caruaru)  e seus entornos, testar a força da união de seus realizadores e articular novas possibilidades de futuros a partir das atividades formativas e espetaculares propostas.  

A atriz, curadora e produtora Paula de Renor salienta que a CENA EXPANDIDA deste ano foi uma experiência, um teste, uma espécie de projeto-piloto, já provado em pequenas doses em 2018 e 2019. “Em 2022 fomos bem além! Unimos cinco festivais, ordenamos as programações, distribuindo-as nos teatros (o que acho foi o mais complicado, pelos poucos teatros que dispomos) e tentamos que programações dirigidas a um mesmo público não se chocassem em seus horários”. 

A CENA EXPANDIDA viabilizou uma aproximação e um diálogo mais ampliado entre os produtores dos festivais envolvidos, ressalta Ariele Mendes, do Transborda. O produtor, curador e professor Arnaldo Siqueira considera que foi um passo bem importante, “oxalá tenha continuidade e ampliação do apoio dos poderes públicos”. Fábio Pascoal, produtor e curador do FETEAG,  lembra que projetos como esse são importantes para o fortalecimento da rede produtiva e para ampliar público e o acesso.

“Essa prática tem sido uma constante com o FETEAG”, situa Pascoal, pois assegura que seu festival busca a cada edição construir novas parcerias e fortalecer as existentes. “Em 2013 fizemos uma edição partilhada com o TREMA!, em 2014 com a Mostra Capiba/SESC Casa Amarela e em 2017 com o TEMPO Festival/RJ, FIAC/BA e com a Bienal de Dança do Ceará. Acreditamos em parcerias”.

Ariele reforça o papel desse entrecruzamento. “Nesta rede que se estabeleceu, conseguimos vivenciar uma integração de maneira muito mais efetiva, o que possibilitou, por exemplo, a busca por soluções para imprevistos (eles sempre acontecem) que, normalmente, acarretariam um desgaste muito grande para a equipe de cada festival específico, mas que neste movimento, foi possível compartilhar e buscar apoio junto às lideranças de cada projeto, facilitando os processos”.

Já o Arnaldo Siqueira entende que a relação profissional e solidária dos/entre produtores foi incrível na CENA EXPANDIDA. “Apenas a título de exemplo, o próprio Cena Cumplicidades abriu mão de pautas/dias e horários para oportunizar que colegas de outros festivais pudessem pautar certos trabalhos”. Mas salienta que “de outra parte, o Cena Cumplicidades foi beneficiado com a força comunitária da articulação junto aos teatros e à FCCR (Fundação de Cultura Cidade do Recife).

Outro exemplo de cooperação citado por Siqueira foi a disponibilidade de Pedro Portugal, produtor do FETED e fotógrafo, que substituiu de pronto uma fotógrafa do Cumplicidades, que adoeceu de repente. “Tal comportamento demonstra o nível de entrosamento e colaboração, algo que põe por terra o mito do caranguejo na lata que puxa para baixo o que está subindo”, situa Arnaldo.

Pedro Portugal, mencionado por Siqueira, considera que a CENA EXPANDIDA trouxe benefício para o seu festival estudantil. “Por ser um festival mais ligado às escolas, uma coisa amadora, não é menor (*faz questão de frisar!), mas posso até dizer mais caseira, possibilitou mais visibilidade. Então nós ganhamos uma dimensão maior. Quanto mais estivermos juntos melhor”.

Paula de Renor. Foto Pedro Portugal

Paula de Renor, do RESIDE FIT-PE – Festival Internacional de Teatro de Pernambuco. Foto Pedro Portugal

Arnaldo Siqueira. Foto: Christina Rufatto

Arnaldo Siqueira, do Cena Cumplicidades – Festival Internacional de Artes da Cena Foto: Christina Rufatto

Fábio Pascoal, do FETEAG – Festival de Teatro do Agreste. Foto: Reprodução do Facebook

Pedro Portugal, do FETED  – Festival Estudantil de Teatro e Dança. Foto: Divulgação

Breno Fittipaldi, curador e produtor do Transborda Casa Amarela; Luiza Cordeiro, diretora-presidente do Centro Social Dom João Costa e Ariele Mendes, curadora e analista de artes cênicas do Sesc Pernambuco. Foto: Divulgação

Essa edição da CENA EXPANDIDA é só uma parte do que foi idealizado, conta Paula de Renor. “Essa ação de colaboração é mais ampliada, com a participação de mais festivais e uma divulgação potente e eficaz, com grupos de mediação em comunidades, nos teatros, mapeando públicos diversos e oferecendo um cardápio grande de atrações durante um mês em teatros e na rua”, arquiteta.

Mas como todos nós sabemos, as verbas são fundamentais para o bom andamento dos projetos. “Infelizmente sem dinheiro é muito difícil fazer qualquer festival, por menor que seja”, frisa Pedro Portugal. “Também tivemos muito pouco tempo para fazer uma coisa maior, uma cena expandida maior, com mais abrangência e divulgação”, diz ele. 

Paula de Renor fornece outros dados: “Trabalhamos dividindo recursos para pagamento de despesas de divulgação e algumas vezes potencializando ações com o compartilhamento de atrações, sem tirar a autonomia de cada festival”.

Ao ser perguntado o que pode ser melhorado na CENA EXPANDIDA, Arnaldo Siqueira foi bem suscinto: “Proatividade na relação com os entes públicos. E seletividade”. Paula de Renor reconhece que precisava de mais divulgação. A falta de patrocínio dificultou o que foi idealizado. “Conseguimos apoio da Prefeitura do Recife via Secult e FCCR, o que foi decisivo para darmos o ponta pé inicial e apresentar ao público nosso intensão, mas não chega perto dos valores de patrocínio que precisamos para que tenhamos investimento em uma coordenação de produção geral do projeto e divulgação em mídias espontâneas e pagas”, posiciona.

Fábio Pascoal diz que é necessário fazer uma “avaliação precisa do papel de cada festival dentro da rede, respeitando suas individualidades e programações”. Outro ponto que ele visualiza para as próximas edições é o compromisso das instituições parceiras, “que acreditam no potencial da iniciativa e possam apoiar financeiramente a proposta, tendo em vista que é uma iniciativa de produtores independentes, que deve ser reconhecida como tal”. Paula de Renor acrescenta: “Não buscamos captar verbas para cada festival que participe da CENA, esse não é nosso objetivo. Para isso cada festival luta individualmente na procura de recursos para sua realização. E justamente pela falta de verbas de patrocínio vários festivais deixaram de acontecer este ano”.

A experiência suscita diversas reflexões e inquietações que miram o futuro, na opinião de Ariele Mendes. “Entendo a CENA EXPANDIDA como um movimento, e desta forma, não a vejo iniciando ou se encerrando no mês de setembro. Ela precisa permanecer por todo ano, de maneira contínua e articulada, em diálogo com a classe, com as instituições, coletivizando junto a outros produtores, se colocando em atuação nas diversas esferas… A realização dos festivais é o momento de festa, da celebração… Mas para que eles possam acontecer, é necessário uma série de processos e conquistas, que só é possível quando se ocupa certos espaços nos debates contínuos da cultura, construindo pontes estruturadas, no dia a dia…” Ariele entende que “todos os produtores envolvidos já são muito atuantes nestes diálogos. Juntos, conseguiremos ainda mais força”.

“O que propomos”, evidencia Paula de Renor, “é que a CENA EXPANDIDA seja entendida como uma ação que, potencializada, pode entrar no calendário da cidade, movimentando o turismo cultural, atraindo público das cidades vizinhas”. Ela cita como exemplo a cidade de Edimburgo na Escócia. “Durante um mês, Edimburgo envolve uma quantidade enorme de festivais que acontecem simultaneamente e sua população de 500 mil habitantes chega a 1 milhão nesse período. A cidade vive deste turismo cultural. Essa é uma construção de muitos anos, mas se a gente não acreditar e não começar agora, nunca saberemos se em Recife poderá dar certo.
Estamos provocando e motivando Prefeitura e Governo do Estado para que percebam o que estamos oferecendo à cidade!”, alerta.

Se liga Recife!!!  Parodiando Carlos Pena Filho, é do sonho de mulheres como Paula de Renor que uma cidade se inventa.

Poeta Preto, da Trupe Veja Bem Meu Bem no FETEAG. Foto: Pedro Portugal Divulgação

Um Mero Deleite, da Nalini Cia de Dança (Go) , integrou a programação do Cumplicidades. Foto: Ivana Moura

Arnaldo Siqueira – Entrevista

Arnaldo Siqueira. Reprodução de tela do Youtube

Encaminhei perguntas para os representes dos cinco festivais no início da programação. Ariele Mendes respondeu pelo Transborda; Fábio Pascoal pelo seu FETEAG, Pedro Portugal pelo seu FETED, Paula de Renor deu um truque e Arnaldo Siqueira respondeu, agora já como balanço. 

Os números do Cena Cumplicidades chegaram a 23 trabalhos artísticos, em 40 apresentações de 3 Países (Portugal/Moçambique/Brasil), 6 estados da federação (PE/ RN /PB/ GO/ PR/ RJ), sendo de Pernambuco obras de Recife e Jaboatão dos Guararapes. Além disso o Cumplicidades teve como atividades complementares 5 workshops, uma residência artística de videodança (on line e presencial) e uma mostra de videodança. “Certamente não teria sido assim sem a articulação da CENA EXPANDIDA”, destaca.

Arnaldo, o Cumplicidades já levou espetáculos incríveis para os palcos de Pernambuco,
montagens internacionais ousadas, que contribuíram para a ampliação do olhar sobre a cena contemporânea. Pergunta: o que te motiva, o que te move a tocar o Cumplicidades? O que você busca com isso?
O que me motiva é fomentar as artes da cena, sobretudo a dança que, sendo uma arte da juventude, como tal, necessita de doses regulares de informações artísticas. Num mundo de acessos fáceis e reprodutibilidade, onde a cópia deu lugar à reprodução do original, sendo ela
mesma um (outro) original. Acredito que as artes do corpo, e a dança em especial, é a joia rara que só se capta na presencialidade (por isso joia, e também rara). Não há meio termo possível (a tela não dá conta disso), é preciso que súbito se tenha a impressão de ver e sentir algo que só naquele momento de presencialidade foi possível. E que um rosto adquira de vez em quando uma expressão só encontrável no orgasmo. É preciso que tudo isso que está na cena seja sem ser, mas que desabroche no olhar do espectador. E se plasme no encontro com o inesperado.

Qual a posição do seu festival no mapa da cidade (e do país) no que se refere à formação de público, a balançar as estruturas, a honrar a tradição nas artes cênicas ou traçar pontes com o contemporâneo?
O festival enfoca as artes da cena com atenção à singularidade da dança, do corpo e da performance. Desde 2008 o festival cultiva a experimentação de linguagem, a formação de plateias no Recife (que já foi um dos centros das artes cênicas), mas também se dedica ao
fomento de novos talentos na cidade, e à cooperação dos artistas locais e regionais com estrangeiros, dando ênfase ao intercâmbio com a produção ibero-americana. Enfim, busca a atualização estética tanto do público quanto dos artistas de cena, principalmente os da dança.

Como você interpreta as políticas públicas para as artes da cena do Recife e de Pernambuco? O que é prioritário e urgente?
Indiferente e sem compreensão NENHUMA do papel dos festivais.

Fale brevemente do cardápio dessa edição, os trabalhos. E como foi viabilizada a produção?
A edição de 2022 enfocou à produção artística considerada de superação e enfrentamento tanto dos impactos da pandemia do Covid 19, como das agruras do atual cenário de descaso e precariedade do país no âmbito da cultura. O Festival deu visibilidade a uma produção local que investiu em criação artística presencial, oportunizou a contratação de coreógrafos, técnicos e bailarinos locais, e, assim, contribuiu com a cadeia produtiva da dança do Recife. No âmbito internacional (e seguindo o mesmo raciocínio de consideração de investimento na produção local) o Festival programou os trabalhos desenvolvidos na Região NE (PB e PE) por artistas estrangeiros com artistas brasileiros (Oráculo do Corpo e Orivayá – o vento pediu para a folha dançar), ou trabalhos desenvolvidos fora do país por artistas nordestinos (Pin Dor Ama primeira lição e Santa Barba, ambos de Portugal, são alguns exemplos).
A formação da equipe atendeu aos mesmos requisitos de quem, a despeito das necessidades, manteve-se na produção cultural, resistindo. Diferentemente de anos melhores, nas últimas edições venho, eu mesmo, fazendo a produção executiva. “Bato o escanteio e corro para
cabecear para o gol”.

A praxe dos festivais em Pernambuco é tocar essas iniciativas “na raça”. Isso é motivo de orgulho ou preocupação? E como você vem realizando nos últimos anos?
É motivo de preocupação sobretudo para os festivais consolidados como o Cena
Cumplicidades. Nos últimos anos estamos realizando “na raça” como vc disse.

Neste ano, com previsão para os seguintes, o seu festival integra o CENA EXPANDIDA com mais quatro festivais. O que as artes da cena (e seu público) da cidade do Recife e de Pernambuco ganham com essa ação?
Uma pluralidade incrível de opções e a oportunidade de perceber a força das artes da cena da cidade.

Qual a pergunta que não quer calar?
Quando o poder público vai atentar para o valor de festivais consagrados? Tem resposta? Está no tempo…

 

Deslenhar, do Teatro Miçanga, se apresentou no Transborda

José Neto Barbosa, na leitura Os Titãs, de Paola Trazuk, com direção de Monina Bonelli, na programação do RESIDE FIT-PE. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

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A resistência dos vaga-lumes
Feteag chega à 31ª edição
*Ação Cena Expandida*

Trans(passar), peça com Sophia William. Foto Divulgação 

Stabat Mater, com Janaina Leite e Amália Fontes. Foto: André Cherri / Divulgação

A Trupe Veja Bem Meu Bem (Caruaru) faz seu protesto com Poeta Preto. Foto: Divulgação

Luiz Lua Gonzaga, com o Grupo Magiluth. Foto: Divulgação

Apesar de todas as tentativas de paralisar o pensamento, o abraço, a emoção; a pulsação humana ainda é possível. O filosofo Didi-Huberman defende a plena experiência no livro Sobrevivência dos vaga-lumes. Os vaga-lumes do título espelham as múltiplas formas de resistência da cultura, do corpo, da ideia e diante dos fulgores ofuscantes do poder da política, da mídia e do capitalismo. O Feteag – Festival de Teatro do Agreste escolheu o livro de Didi-Huberman como farol para seguir a caminhada na edição deste ano.

A partir da articulação do mapa programático de espetáculos e ações formativas, o Feteag se propõe a refletir sobre a resiliência de grupos e ideias que acendem novas trilhas e formas de existência. A curadoria, então, aposta em proposições que investigam artisticamente as questões sociais, identitárias, políticas e afetivas. O caráter humana é friccionado, tensionado em peças de teatro, a dança, performance, circo e outras linguagens.

Criado há 41 anos, o Feteag chega à 31ª (pois não foi realizado em alguns anos) e enaltece a resistência dos artistas e fazedores de cultura; o papel transformador dessas atuações. O programa ocorre de 16 e 30 de setembro, no Recife e em Caruaru, com espetáculos pernambucanos, de outros estados do Brasil e internacionais, além de atividades formativas.

Na programação estão Pela Nossa Pele, de Yael Karavan (Israel) e Rita Vilhena (Portugal). O espetáculo  aponta para o lugar onde vivemos e adverte que somos natureza. E que ações humanas estão provocando as catástrofes no planeta Terra, como enchentes, crises de refugiados, incêndios florestais e pandemias.

O inquieto Grupo Magiluth, do Recife, apresenta dois trabalhos Luiz Lua Gonzaga e Estudo Nº1: Morte e Vida. Já o Grupo São Gens que vem furando a bolha e se apresentando em vários festivais com Narrativas Encontradas Numa Garrafa PET na Beira da Maré, tem uma cena que destaca o espaço urbano do Recife e sua relação com as margens, do ponto de vista da favela e seus fluxos.

A atriz Janaína Leite (São Paulo), articula de forma radical temas historicamente inconciliáveis como maternidade e sexualidade. Apresenta Stabat Mater, peça que a participação de sua mãe Amália Fontes e um ator pornô.  

A Trupe Veja Bem Meu Bem (Caruaru) faz seu protesto com Poeta Preto, um grito, um desabafo com o ator Rosberg Adonay, que revisita os medos, angústias de homem negro, e apresenta-se como porta voz de todos aqueles que foram e são silenciados todos os dias.

O Teatro Agridoce (Recife) participa do Feteag com Trans(passar), peça com Sophia William e Aurora Jamelo, que expõe a vivência da mulheridade trans, evidenciando as dificuldades sociais sofridas por essa população no Brasil.

Sopro dÁgua. Foto: Thais Lima / Divulgação

Odília Nunes em Decripolou Totepou. Foto: Silvia Montico /Divulgação

Lavagem, com a Cia REC  do Rio de Janeiro. Foto: Christopher Mavric

Narrativas Encontradas Numa Garrafa PET na Beira da Maré. Foto Gabriel Melo / Divulgação

Gabriela Holanda (Olinda), em Sopro D’Água aposta na dimensão aquática, na materialidade ancestral-geológica a partir da compreensão de que somos água. Enquanto a e Cia REC (Rio de Janeiro), usa baldes, água, sabão e espuma para realizar a ação de limpar como gesto performativo e político em Lavagem.

O Coletivo FusCirco (Fortaleza)  expõe sua comicidade com A Risita. Odília Nunes (Afogados da Ingazeira), mostra seu encanto de palhaça e bonequeira com Decripolou Totepou. O músico Rubi (Brasília), encerra a programação com o show Nem Toda Pausa É Espera. 

Além dos espetáculos, o Feteag 2022 oferece duas atividades formativas. No dia 22, a diretora, atriz e dramaturga Janaína Leite participa da conversa Conexões entre teatro e pesquisa, com mediação dos professores Luís Reis e Virginia Maria Schabbach. O encontro acontece das 14h às 15h, no Teatro Milton Baccarelli (Centro de Artes e Comunicação da UFPE), com acesso livre.

Em Caruaru, Odília Nunes ministra a oficina Corpos brincantes – pensando a comicidade, de 26 a 30 de setembro, no Teatro João Lyra Filho. A oficina foca na prática e criação de cenas, a partir da experimentação de repertórios vivenciados pela orientadora. As inscrições podem ser feitas através deste link: https://forms.gle/nNwWSMzL8XDLcLPC6. 

O FETEAG 2022 é uma realização do Teatro Experimental de Arte (TEA) e conta com incentivo do Funcultura e apoio da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, Fundação de Cultura de Caruaru e SESC PE.

O FETEAG 2022 é uma realização do Teatro Experimental de Arte (TEA) e conta com incentivo do Funcultura e apoio da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, Fundação de Cultura de Caruaru e SESC PE.

Este programa cênico integra a Cena Expandida, articulação que reúne o Cena Cumplicidades – Festival Internacional de Artes da Cena @ccumplicidades e cenacumplicidades.com.br (10 a 30 de setembro), o FETEAG – Festival de Teatro do Agreste – @feteag e feteag.com.br (20 a 30 de setembro); o FETED – Festival Estudantil de Teatro e Dança – @feted.pe (8 a 18 de setembro), o Reside – Festival Internacional de Teatro de PE – @residefestivalbr e residefestival.com.br (22 a 28 de setembro), e o Transborda – as linguagens da cena – @sescpe (1º a 17 de setembro), do SESC PE.

PROGRAMAÇÃO

16/09

Luiz Lua Gonzaga
Grupo Magiluth  (Recife/PE)
Local: Largo da Imperial Matriz da Várzea (Paróquia Nossa Srª do Rosário – Recife)
Horário: 17h

17/09

Poeta Preto
Trupe Veja Bem Meu Bem (Caruaru/PE)
Local: Teatro João Lyra Filho (R. Visc. de Inhaúma, 999 – Maurício de Nassau, Caruaru)
Horário: 20h

20/09

Pela Nossa Pele
Yael Karavan e Rita Vilhena (Portugal)
Local: Teatro Apolo-Hermilo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife – Recife)
Horário: 20h

21/09

Stabat Mater
Janaína Leite (São Paulo/SP)
Local: Teatro Hermilo Borba Filho (Av. Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife – Recife)
Horário: 20h

22/09

Stabat Mater
Janaína Leite (São Paulo/SP)
Local: Teatro Hermilo Borba Filho (Av. Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife – Recife)
Horário: 20h

23/09

Poeta Preto
Trupe Veja Bem Meu Bem (Caruaru/PE)
Local: Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro (Rua Mariz e Barros, 328, Bairro do Recife – Recife)
Horário: 20h

24/09

A Risita
Coletivo FusCirco (Fortaleza/CE)
Local: Academia das Cidades (R. Maria Antonieta, 578, Salgado – Caruaru)
Horário: 17h

Lavagem
Cia REC (Rio de Janeiro/RJ)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal (Rua Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru)
Horário: 20h

25/09

A Risita
Coletivo FusCirco (Fortaleza/CE)
Local: Estação Ferroviária (Rua Silva Filho, s/n, Maurício de Nassau – Caruaru)
Horário: 17h

Lavagem
Cia REC (Rio de Janeiro/RJ)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal (Rua Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru)
Horário: 20h

26/09

Decripolou Totepou
Odília Nunes (Afogados da Ingazeira/PE)
Local: Escola Municipal Professora Cesarina Moura Vieira Costa (Rua Profª. Mirian Vieira Costa Vila do Rafael 2° Distrito – Vila Do Rafael, Caruaru)
Horário: 8h

Trans(passar)
Teatro Agridoce (Recife/PE)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal (Rua Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru)
Horário: 20h

27/08

Decripolou Totepou
Odília Nunes (Afogados da Ingazeira/PE)
Local: Escola Municipal Professor José Florêncio Neto Machadinho (R. Olegário Bezerra, s/n, São Francisco – Caruaru)
Horário: 8h

Narrativas Encontradas Numa Garrafa PET na Beira da Maré
Grupo São Gens de Teatro (Recife/PE)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal (Rua Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru)
Horário: 20h

28/09

Decripolou Totepou
Odília Nunes (Afogados da Ingazeira/PE)
Local: Escola Municipal Presidente Kennedy (R. Antonio Teles, Agamenon Magalhães – Caruaru)
Horário: 10h

Sopro D’Água
Gabriela Holanda (Olinda/PE)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal (Rua Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru)
Horário: 20h

29/09

Decripolou Totepou
Odília Nunes (Afogados da Ingazeira/PE)
Local: Escola Municipal Professora Teresa Neuma Pereira Pedrosa (Rua Maria Júlia da Conceição, s/n, Cedro – Caruaru)
Horário: 9h

Estudo Nº1: Morte e Vida
Grupo Magiluth (Recife/PE)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal (Rua Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru)
Horário: 20h

30/09

Decripolou Totepou
Odília Nunes (Afogados da Ingazeira/PE)
Local: Escola Municipal Professor Leudo Valença (Rua Odilon Ramos da Silva, Rendeiras – Caruaru)
Horário: 8h

Show – Nem toda pausa é espera
Rubi (Brasília/DF)
Local: Teatro Rui Limeira Rosal (Rua Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru)
Horário: 20h

 

Entrevista: Fábio Pascoal – diretor do Feteag

Fábio Pascoal, idealizador e diretor do Festival do Teatro do Agreste – Feteag. Foto: Divulgação

– Fábio, o Feteag tem mais de 50 anos e nesse tempo festival mudou de perfil? Quais as marcas dessas mudanças, antes e de agora?

O Feteag foi criado em 1981 com o objetivo de expandir as ações de formação praticadas pelo TEA – Teatro Experimental de Arte, ou seja ele tem 41 anos, e sua atualização faz parte do próprio percurso do teatro, com foco principal na profissionalização, porém sem perder o seu grande norte que é a formação de público, desenvolvido através de um trabalho contínuo junto a classe estudantil, principalmente do ensino fundamental da rede pública de ensino.

– O que te motiva, o te move a tocar o Feteag? O que você busca com isso?

Nascido e criado nas coxias do teatro, seria impossível não desenvolver o gosto por ele, conforme Bourdieu, e realizá-lo é sempre me colocar em novos desafios, pois isso é o que move a vida.

– Qual a posição do seu festival no mapa da cidade (e do país) no que se refere à formação de público, a balançar as estruturas, a honrar a tradição nas artes cênicas ou traçar pontes com o contemporâneo?

Primeiro gostaria de lembrar que o FETEAG é uma ação conjunta de produtores, curadores e artistas, que juntamente com o público compõem o grupo de “fazedores de festivais”, como nos lembra Felipe de Assis do FIAC-BA,  e o que procuramos é sempre nos colocar em risco, para que a cada edição possamos proporcionar uma nova experiência ao espectador, com uma curadoria que busca aprofundar o diálogo com a cena contemporânea nacional e internacional.

– Como você interpreta as políticas públicas para as artes da cena do Recife e de Pernambuco? O que é prioritário e urgente?

O Recife, Caruaru, Pernambuco e o Brasil andam a passos curtíssimos quando pensamos em políticas de incentivos culturais. Em Pernambuco temos um edital de fomento que se encontra estagnado, em termos de valores de aportes, há anos, e com uma lei de fomento via mecenato que não sai do papel e que poderia ser a salvação para as produções já consolidadas no calendário cultural, como os festivais, que a cada ano tem que concorrer com os iniciantes e que, sinceramente, acho isso muito desleal.

– Fale brevemente do “cardápio” dessa edição, os trabalhos. E como foi viabilizada a edição?

 Para elaborarmos o “cardápio” de cada edição começamos a sonhar pelo menos 2 anos antes para assim podermos estabelecer parcerias importantes, como com os institutos internacionais. Esta edição foi pensada em 2020, quando já estávamos sondando possíveis atrações e está sendo viabilizada pelo edital Funcultura PE, nosso incentivador, e os apoios fundamentais da Prefeitura de Caruaru/Fundação de Cultura, SESC e Prefeitura do Recife/Secult que nos apoio via ação Cena Expandida.

– A praxe dos festivais em Pernambuco é tocar essas iniciativas na raça. Isso é motivo de orgulho ou preocupação?

É um motivo de MUITA preocupação, pois realizar um festival deve ser encarado como um trabalho e não um sacrifício, pois não temos a obrigação de fazê-lo, fazemos pois acreditamos na sua importância para nossa evolução enquanto profissional e humano.

– Neste ano, com previsão para os seguintes, o seu festival integra a Cena Expandida com mais quatro festivais. O que as artes da cena (e seu público) da cidade do Recife da cidade do Recife e de Pernambuco ganham com essa ação?

Esta é uma ação gestada desde 2018 e que finalmente colocamos para rodar e que busca, neste momento específico, mobilizar o público e trazê-lo de volta ao teatro, depois de um período muito difícil para as artes presenciais que foi a pandemia.

– Qual a pergunta que não quer calar? Tem resposta?

Melhor será o amanhã.


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