Arquivo da tag: Foto: Jorge Farias / Divulgação

O voo e o chão do FETEAG
Cobertura do Festival de Teatro do Agreste
Por Ivana Moura

Cabaré em Rede. Combina e Faz, da Selvática e aliados. Foto: Jorge Farias / Divulgação

O FETEAG chega aos 45 anos carregando a pergunta que o acompanha desde 1981. Como transformar vocação formativa em política permanente e circulação em muitas vias. Foto: Jorge Farias / Divulgação

From this comes (Disso vem). Foto: Jorge Farias / Divulgação

Nas últimas semanas, nossa energia esteve concentrada no exército de Lula para garantir a democracia. A vitória veio pelo campo da ética, e é desse lugar que este texto busca se desenvolver. Passada a batalha principal, voltamos a atenção para outras frentes de trabalho, outras ações. Uma delas está no Agreste pernambucano.

O Festival de Teatro do Agreste (FETEAG) está em andamento. Começou em 5 de outubro e segue até 31. Boa parte já aconteceu. Outra ainda vai acontecer. E é nesse meio de caminho que o festival se deixa ver, com o que já passou ainda ecoando no que virá.
Criado em 1981 pelo Teatro Experimental de Arte, o FETEAG chega aos 45 anos com programação comemorativa em Caruaru e no Recife. E sua vocação formativa, que está na origem, segue sendo o eixo estimado do festival.

Entre as apostas curatoriais deste ano situa-se o que Fábio Pascoal chama de “projetos transnacionais ou transestaduais”. Ele aponta como aqueles em que “os conceitos vêm de outros países ou estados e os espetáculos são executados por atores ou performers locais”. A expressão nomeia um arranjo repetido em outras edições do FETEAG. “Estamos fazendo esse movimento desde 2010, quando trouxemos Kelbilim, o cão da divindade, do Lume, e montamos um coro local para a peça”, afirma. O método voltou com Batucada, do Piauí, em 2018, e com Gala, de Jérôme, em 2021. Em 2026, o exercício se dá com Bananada Lacrimae, do coreógrafo Marcelo Evelin, com elenco local e um quarteto de cordas responsável pela sonoridade ao vivo.

A pergunta que se ergue, então, é o que esse modelo produz. Quem participa se sente parte do festival, é verdade. Uma cidade que quer ver a própria gente em cena numa programação de ambição internacional encontra ali uma resposta concreta. Mas o que exatamente se ganha quando o conceito chega formulado e o corpo local entra na etapa final da cadeia criativa?

O que está em jogo se organiza melhor em três perguntas operativas. Quem decide o quê, na mesa de criação. O que o artista local recebe e em que condições, porque o que se leva de um processo não cabe no que se recebe por ele. E o que permanece em Caruaru depois que a temporada acaba.

As três não se respondem no palco. Elas reaparecem em outro lugar da programação, onde o festival busca criar as condições para que o trabalho feito na região saia dela, com a formação que atravessa o mês inteiro e a primeira rodada de negócios do FETEAG.

Tudo o que você precisa é amor, de Felícia de Castro, apresentado na programação. Foto: Jorge Farias

O projeto Extensão Magiluth abriu a programação em 5 de outubro, com oficinas gratuitas de Interpretação, Dramaturgia, Direção e Produção para jovens de 15 a 29 anos, com ou sem experiência anterior. As aulas ocuparam o Teatro Lycio Neves até o dia 11, seguidas pela oficina Corpo Imagem, de fotografia e experimentação corporal, com Kari Carvalho, de13 a 17 de outubro. Em 18, a Cia. Rústica ofereceu a oficina Poéticas Festivas. No fim do mês, a Oficina Cine-Corpografia, com Gabi Holanda e Luiz Otávio Pereira, ocupa o Porto Digital Caruaru de 27 a 31, com exibição dos vídeos produzidos no encerramento. A Caruaru Conectada teve formação própria, online, em 7 e 8 de outubro, com Gyl Giffony na preparação de pitches e o Estúdio Giracoco, de Dani Melo e Bianca Carvalho, no trabalho de portfólio.

As ações de intercâmbio com o Coletivo Selvática, de Curitiba, aconteceram em outro lugar e em outro formato. Foram cinco dias, de 8 a 12 de outubro, na sede do Grupo Magiluth, no Recife, ao lado do Cabaré Boka da Luz. O encontro teve desdobramento em cena. Cabaré em Rede, Combina e Faz, ligado ao grupo, passou pelo Hermilo Borba Filho em 13 e 14 de outubro e pelo Lycio Neves em 16.

Caruaru Conectada, quando a cidade vira espaço de negócios. Foto: Divulgação

Desde 26 de outubro, o FETEAG recebe em Caruaru programadores, curadores e produtores de diferentes regiões do país. A rodada é gratuita e aberta ao público, inclusive a quem não participa das Rodas de Cenas e de Projetos. É a aposta desta edição.

Nesse dispositivo de encontros marcados, os artistas e grupos selecionados por chamada pública, aberta em setembro, apresentam seus trabalhos em reuniões curtas, ou showcases, que são trechos de espetáculo apresentados ao vivo. A programação profissional vai de 26 a 29, no Porto Digital, no Armazém da Criatividade, e no Teatro Lycio Neves. Em 28 e 29, as Rodas de Cenas ocupam as manhãs no Lycio Neves e as Rodas de Projetos ocupam as tardes no Porto Digital. 

Chegaram a Caruaru 17 profissionais. Da França, François Remandet, direção artística e desenvolvimento territorial do Festival Sens Interdits. Do Rio de Janeiro três nomes, dois deles pela Firjan, com Sabrine Muller na análise de Cultura e Alessandro Martins na coordenação cultural de operações, e o terceiro pela Secretaria Municipal de Cultura, onde Luiz Fernando Pinto responde pela gerência de Festivais. O Sesc comparece em duas unidades, com Cléber Borges na análise de Artes Cênicas do Paraná e Pedro Rodrigues na técnica de Artes Cênicas em Pernambuco.

O bloco dos festivais é o maior. Jacob Alves vem como curador do Junta Festival, parceiro do FETEAG. Wanderson Alex coordena o Festival Velha Joana. Giovana Soar integra a curadoria do Festival de Curitiba e a gerência de curadoria dos teatros da Aventura, em São Paulo. Tina Dias é curadora e coordenadora do ELA, Encontro Latinoamericano de Minas Gerais. Daniely Peinado preside a Federação de Teatro do Amazonas e dirige artisticamente o Festival de Teatro da Amazônia. Filipe Dama, secretário de Cultura de Peçanha (MG), é curador e diretor artístico do Encontro de Tradições.

A lista se completa com quem atua em produção, difusão e articulação de rede. Duna Dias trabalha na curadoria do Move Concreto! e na Mostra de Dança do Fim do Mundo. Pedro de Freitas dirige a Periplo, de produção, agenciamento e difusão artística. Oliver Tibeau é diretor cultural e cofundador do Instituto Brasileiro de Teatro. Levy Mota coordena o Laboratório de Teatro da Escola Porto Iracema das Artes, que também é parceira do festival e formou parte dos grupos que estarão na sala.

O conjunto desenha um mapa específico do que significa comprar teatro no Brasil. Um festival europeu, duas unidades do Sesc, duas frentes da Firjan, uma secretaria municipal de Cultura, seis festivais de porte nacional e quatro estruturas de produção, difusão e rede. É esse perfil que define o que será negociado em Caruaru.

Para a Roda de Cenas, que reúne os showcases, foram selecionados seis trabalhos, três em cada dia. Em 28, Quando o Chão Vira Céu, de Gabi Holanda, de Olinda, Histórias Bordadas em Mim, de Agrinez Melo, do DoceAgri, do Recife, e 24, de Reginaldo Oliveira, de Maceió. Em 29, Ybirá e as Sementes de Algaroba, do Coletivo Madalenas Interioranas, de Caruaru, RISCADO, de Daniel Torres, de Natal, e Isso Não É Um Número de Circo, da Cia Devir, do Recife.

Para a Roda de Projetos, que reúne os pitches, foram habilitadas 40 propostas, entre elas AnTígona, a Retomada, Medeia, da Lama ao Caos, Notícias do Dilúvio, um canto a Canudos, Os Mistérios Dolosos de Uma Travesti, Pequeno Manual de Sobrevivência para Mães Artistas, Se Acaso Você Chegasse, musical em homenagem a Elza Soares, e Tv Fracasso. A lista completa está no site do festival.

Em 29 de outubro, no Porto Digital, a rodada recebe lançamento de Mercado Teatral e as Fontes de Receitas, de Michele Rolin, seguido de mesa de conversa aberta ao público. O livro investiga as fontes de receita que sustentaram espetáculos de sete grupos de Porto Alegre entre 2010 e 2019, analisando políticas públicas, festivais, Sesc e bilheteria. É resultado de uma tese que recebeu Menção Honrosa no Prêmio Capes de 2024, e terá acesso digital gratuito por QR code.

Josefina, uma peça-rato, do Cangaias, Foto: Jorge Farias / Divulgação

A programação de espetáculos se distribui em três mostras. A Mostra Argemiro Pascoal traz a produção nacional e internacional contemporânea. A Mostra PE reúne trabalhos pernambucanos de diferentes territórios e linguagens. A Mostra Erenice Lisboa, antes chamada Mostra Infantil, homenageia a dramaturga caruaruense e mantém a aproximação de crianças e jovens com o espetáculo.

Entre o que já passou, alguns dados ajudam a dimensionar a edição. Josefina, uma peça-rato, do Cangaias, passou pelo Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife, em 15 de outubro, e pelo Lycio Neves em 17. A montagem fecha uma trilogia inspirada em Kafka e teve pesquisa desenvolvida no 13º Laboratório de Criação Teatral da Porto Iracema das Artes, com o cotidiano de Maracanaú como matéria-prima.

Mimosa, performance de Flávia Pinheiro, ocupou o Teatro Rui Limeira Rosal em 16 de outubro,  partindo da Mimosa pudica, a planta que fecha as folhas ao toque, para investigar os processos de nomeação e classificação que fundaram a botânica colonial. Obaque, da cia. Loly pop Urban art, de Fortaleza esteve no mesmo teatro em 18 de outubro, extraindo da House Dance e das danças urbanas uma dramaturgia em que o corpo periférico pensa a queda e o chão. From This Comes, de Valentina Parravicini, foi ao Lycio Neves em 24 de outubro, com vinte cadeiras, histórias e lugares numa paisagem instável.

Samba que Soma, do Quilombo Urbano de Itacaré, na Bahia, apresentou em 17 e 18 de outubro, uma investigação sobre as memórias que organizam coletivamente o Samba Duro do bairro Porto de Trás, em narrativas dançantes formadas no encontro entre gerações. O Corpo, o Peso, o Descanso, de Céu Vasconcelos, ocupou a Estação Ferroviária e o Marco Zero em 16 de outubro.

Vingança é um jardim selvagem, da Cia. Rústica de Porto Alegre Foto: Jorge Farias / Divulgação

A temporada da Cia. Rústica foi a maior presença de um grupo no festival. A companhia de Patrícia Fagundes ocupou o Lycio Neves de 17 a 22 de outubro, com O Fantástico Circo Teatro de um Homem Só, Vingança é um Jardim Selvagem, Cabaré da Vida Pequena e Cabaré do Amor Rasgado, além da oficina Poéticas Festivas. Cabaré da Vida Pequena teve três sessões, e é definido pela própria companhia como um pequeno cabaré do sul do mundo, longe de circuitos de fama, reúne cinco artistas entre afetos, quedas, desejos, canções e risadas. A companhia já seguiu viagem.

Bananada Lacrimae, de Marcelo Evelin, é a montagem que fecha o ciclo transestadual da edição, com elenco local e quarteto de cordas ao vivo, em 31 de outubro, às 21h, no Lycio Neves. A Mostra Respira de Música Autoral, do Coletivo Cultural Respira, ocupa o Centro Cultural Respira em todas as noites de 26 a 30, às 22h.

Um dado de acessibilidade atravessa a programação inteira. Boa parte das sessões tem tradução em Libras, e os dois cabarés da Cia. Rústica tiveram Libras e audiodescrição. Numa edição com 35 apresentações em duas cidades, isso se apresenta como política.

Os lançamentos de livro

Dois lançamentos durante o festival lidam com memória e com o ofício de fazer arte no Brasil. Lantejoulas no Mangue, de Márcio Bastos, reconstrói a trajetória do grupo de teatro Vivencial. Copi, a desmesura de uma vida meteórica, de Renata Pimentel, percorre a vida do escritor, dramaturgo e quadrinista argentino. As obras integram as coleções Nossas Histórias, da Autêntica, e Vidas Sequestradas, do O Sexo da Palavra, e seguem à venda durante o festival.
Os eventos de lançamento foram em 13 de outubro, no Hermilo Borba Filho, no Recife, e em 16 de outubro, no Lycio Neves, em Caruaru.

A estrutura que sustenta o voo

O FETEAG 2026 é apresentado pelo Ministério da Cultura, pelo Itaú e pelo Banco do Nordeste, com realização do Teatro Experimental de Arte. Tem incentivo do Funcultura, da Fundarpe e da Secretaria de Cultura de Pernambuco, e apoio da Lei Aldir Blanc e da Fundação de Cultura de Caruaru. Conta com a parceria do Porto Digital, do Hub Porto Dragão do Mar e Porto Iracema das Artes, da Embaixada da França no Brasil e do Junta Festival, e com apoio institucional do Sesc e da Prefeitura do Recife, por meio do Centro Cultural Apolo-Hermilo.

O conjunto é robusto na aparência e delicado na prática. A longevidade do FETEAG não se apoia em receita própria nem em mercado consolidado. Apoia-se numa malha de editais, emendas e parcerias institucionais que precisa ser reconstruída a cada edição. A vitória ética que comemoramos no campo nacional tem desdobramento direto em ações e festivais como o FETEAG, e a cultura deve cobrar esse desdobramento.

 

Serviço

FETEAG 2026, Festival de Teatro do Agreste. De 5 a 31 de outubro, em Caruaru e no Recife. Mostras de espetáculos, formação, Caruaru Conectada e lançamentos de livro. Programação completa em feteag.com.br e no perfil @feteag.


Warning: Undefined variable $categories_list in /home/satisfeitayolanda/www/blog/wp-content/themes/twentytwelve_child/functions.php on line 93
Postado com as tags: , , , , , , , , ,