Teatro de reflexão e resistência. Vem aí a MITsp!

Espetáculo belga abre a 4ª MITsp. Foto: Phile Deprez

Espetáculo belga abre a 4ª MITsp. Foto: Phile Deprez

Que estamos vivendo uma crise econômica, política, social, não há nisso novidade. Um golpe arquitetado por homens brancos, ricos, corruptos e vestindo ternos tirou do poder a presidenta Dilma Rouseff. Depois disso, diariamente, nos deparamos com notícias e declarações que nos fazem quase perder a fé de que ainda há alguma possibilidade neste país. Mas qual o papel dos artistas diante disso? E de um festival de teatro? A quarta edição da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que começa na próxima terça-feira (14) e dura uma semana (21), decidiu ao menos (um grande intento) tentar refletir sobre o momento que estamos atravessando. O texto curatorial, praticamente um manifesto, assinado por Antônio Araújo, diretor artístico da MITsp, e Guilherme Marques, diretor geral de produção, fala sobre resistência. “Não apenas resistência de sobrevida para um festival ainda novo, mas de fortalecimento da imaginação, de recusa ao cinismo, de superação da apatia e, principalmente, de continuar acreditando na nossa capacidade de ação e de transformação. Recusamos, em igual medida, tanto o estado de coisas a que chegou este país, quanto o estado de ‘coisa’ que insistem em nos imputar”.

Desde a primeira edição da MITsp, não só a curadoria dos espetáculos faz com que a mostra tenha se tornado a mais significativa do país para o teatro de pesquisa, mas a ideia fundamental de que teatro e reflexão andam juntos. Se os espetáculos conseguem, em sua grande maioria, nos tirar do eixo pela experimentação artística, pelas temáticas, pelas abordagens, pelo hibridismo de linguagem, a discussão criada em torno desses espetáculos e do próprio teatro sempre foi um dos pilares da mostra. Este ano, a curadoria do eixo denominado Olhares Críticos, responsável por pensar todas essas conexões em torno da reflexão que a mostra pode gerar, foi assinada pelos jornalistas e críticos Kil Abreu e Luciana Romagnolli. As ações pedagógicas continuam sob a responsabilidade da jornalista Maria Fernanda Vomero. Há ainda o seminário internacional Discursos sobre o Não Dito: racismo e a descolonização do pensamento, cuja curadoria é de Eugênio Lima e Majoí Gongora.

A mostra começa oficialmente (algumas atividades pedagógicas já iniciaram) no Theatro Municipal de São Paulo, dia 14, com o espetáculo belga Avante, Marche!, direção de Alain Platel, Frank Van Laecke e Steven Prengels. Uma banda de música, que pode servir como retrato da nossa sociedade, e a situação de saúde de um músico nos colocam diante da resistência e da finitude. O espetáculo vai contar com músicos brasileiros, sob a regência do maestro Carlos Eduardo Moreno. Para quem for na segunda sessão, no dia 15, um presente: Tom Zé vai comentar o espetáculo ao final da apresentação, na ação intitulada Diálogos Transversais.

Artista libanês Rabih Mroué apresenta três trabalhos. Foto: Houssam Mchiemech

Artista libanês Rabih Mroué apresenta três trabalhos. Foto: Houssam Mchiemech

Ainda no dia 14, começam as sessões da Mostra Rabih Mroué. O artista visual, dramaturgo, diretor e performer libanês apresenta três espetáculos: Tão Pouco Tempo, Revolução em Pixels e Cavalgando Nuvens. Na coletiva de imprensa da mostra, Antônio Araújo revelou que tenta trazer o artista à MITsp há alguns anos. O trabalho de Rabih Mroué condiz com um dos principais eixos da mostra este ano: o teatro documentário, produções que utilizam fatos reais, documentos, história. No caso do libanês, o contexto de guerra do seu país é levado ao palco, como em Revolução em Pixels, quando ele discute como os sírios estavam documentando a guerra e a própria morte; ou em Cavalgando Nuvens, que tem como performer seu irmão, vítima de um tiro durante a guerra civil libanesa. A ação Pensamento-em-processo, uma conversa com Rabih Mroué, sua esposa (que também é performer em Tão Pouco Tempo) Lina Majdalanie, e seu irmão Yasser, será mediada no dia 16, às 10h, no Itaú Cultural, por Pollyanna Diniz, uma das editoras do Satisfeita, Yolanda?.

Por que o Sr. R, Enlouqueceu? Foto: Ju Ostkreuz

Por que o Sr. R, Enlouqueceu? Foto: Ju Ostkreuz

Outros três espetáculos internacionais compõem a MITsp: o alemão Por que o Sr. R. Enlouqueceu?, com direção de Susanne Kennedy para a Münchner Kammerspiele, uma montagem que faz a adaptação do filme homônimo de Rainer Werner Fassbinder; Mateluna, continuação de Escola, vista na primeira MITsp, do chileno Guillermo Calderón; e Black Off, de Ntando Cele, diretora e performer da África do Sul. Esse último trabalho compõe outro eixo significativo na MITsp: a discussão sobre racismo, empoderamento negro, branquitude e opressão. Tanto que dois dos três espetáculos brasileiros que integram a mostra, A Missão em Fragmentos: 12 cenas de descolonização em legítima defesa, com direção de Eugênio Lima, e Branco: o cheiro do lírio e do formol, de Alexandre Dal Farra e Janaina Leite, enveredam por esse caminho, mas por diferentes vias. O terceiro espetáculo brasileiro da mostra é Para que o céu não caia, da Lia Rodrigues Companhia de Danças. Os ingressos já estão esgotados, mas quem teve a sorte de comprar para a sessão do dia 18 de Para que o céu não caia, no Sesc Belenzinho, vai ter a chance de ouvir o xamã yanomami Davi Kopenawa, cujo livro inspirou o espetáculo, ao fim da apresentação, nos Diálogos Transversais.

Branco: o cheiro do lírio e do formol. Foto: André Cherri

Branco: o cheiro do lírio e do formol. Foto: André Cherri

Dentro dos Olhares Críticos, alguns destaques: o seminário Dimensões públicas da crise e formas de resistência, que contará com quatro mesas e convidados como Heloisa Buarque de Hollanda, Marcio Abreu, Vladimir Safatle, Suely Rolnik e Marcelo Freixo; uma discussão sobre teatro na Palestina, com o diretor Ihab Zahdeh, a atriz Andrea Giadach e Maria Fernanda Vomero; uma entrevista pública com Guillermo Calderón; o lançamento da nona edição da Trema! Revista de Teatro, do Recife; e a mesa Crítica e engajamento, uma proposta da DocumentaCena – Plataforma de Crítica (que reúne Satisfeita, Yolanda?, Questão de Crítica e Horizonte da Cena), que será mediada por Ivana Moura, editora do Satisfeita, Yolanda?.

O Satisfeita, Yolanda?, aliás, acompanha a MITsp desde a sua primeira edição. Este ano, participamos novamente da mostra escrevendo críticas que serão distribuídas nos teatros e publicadas aqui no blog e no site da MITsp.

Confira a programação completa da MITsp no site da mostra.

Mateluna. Foto: Felipe Fredes

Mateluna. Foto: Felipe Fredes

Para Que o Céu Não Caia. Foto: Sammi Landweer

Para Que o Céu Não Caia. Foto: Sammi Landweer

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Possíveis transgressões em Genet

Foto: Lígia Buarque / Divulgaçao

Santo Genet e as Flores da Argélia faz curta temporada no Teatro Hermilo Borba Filho. Foto: Lígia Buarque 

Jean Genet (1910-1986) dizia que sua existência de roubos, exercícios homoafetivos e traições era um pretexto para a poesia. Figura verdadeiramente transgressora, ele recusou o trabalho, o “direito de propriedade”, rejeitou regras e horários, e deu vazão à sexualidade reprimida. Ao abraçar a liberdade, Genet propõe outra “ética” e outra “estética” alimentadas no (i)mundo dos abismos.

No Diário de um Ladrão (1949), sua autobiografia com traços de ficção, o escritor registra a trajetória repleta de crimes, paixões e escatologia. Lá habitam prostitutas, homossexuais, travestis e marginais de alçados à categoria de heróis.

O romancista, poeta e dramaturgo francês é apontado como uma das principais vozes da então chamada literatura marginal do século XX. E ele viveu intensamente a delinquência, a ladroagem, os pequenos crimes, a vagância como mendigo pela Europa e as traições com seus amantes malandros.  

Inspirado nesta obra literária, o espetáculo Santo Genet e as Flores da Argélia se ergue sobre os pilares da pederastia, furto e traição para vasculhar as relações de poder – opressores e oprimidos; religiosidade e santificação; violência e miséria.

A encenação assinada por Breno Fittipaldi é composta de quadros/cenas, com os relatos projetados na atualidade, mas também com a evocação do próprio Genet e os personagens que conviveram com o escritor naquela época. O diretor articula as possíveis transgressões de Genet na contemporaneidade e vamos conferir esse alcance.

Santo Genet e as Flores da Argélia faz curta temporada no Teatro Hermilo Borba Filho, de hoje até o dia 19 de março, de sexta a domingo.  

Foto: Lígia Buarque / Divulgaçao

Montagem do Grupo Cênico Calabouço. Foto: Lígia Buarque / Divulgação

Ficha técnica
Elenco – Alcides Córdova, Alexia Silva, André Xavier, Binha Lemos, Diogo Gomes, Diôgo Sant’ana,  Fábio Alves, Giovanni Ferreira,  Hypolito Patzdorf, Ito Soares, Lucas Ferr, Luiz Carlos Filho, Marcos Pergentino, Natália Oliveira, Roberio Lucardo, Shica Farias, William Oliveira
Dramaturgia, encenação e sonoplastia – Breno Fittipaldi
Assistentes de encenação – Hypólito Patzdorf e Nelson Lafayette
Preparação corporal – Hypolito Patzdorf
Assistente de preparação corporal – Hálison Santana
Preparação vocal e execução de sonoplastia – Nelson Lafayette
Figurino – Paulo Pinheiro
Assistente de figurino – Natália Oliveira
Maquiagem – Vinícius Vieira
Assistente de maquiagem – Sabrina França
Iluminação – Dara Duarte
Execução de luz – Dom Dom Almeida / Tomaz Mazzi
Identidade visual / Plano de mídia artística – Alberto Saulo e Alcides Córdova
Fotografias – Li Buarque
Ações formativas – Alberon Lemos
Equipe de Apoio – Adriane Lacerda, Lorenna Rocha, Nayara Cybelle e Paulo César Pereira e Rafael Motta
Produção executiva – Alcides Córdova, Binha Lemos e Luiz Carlos Filho
Produção geral – Grupo Cênico Calabouço
Classificação indicativa – 18 anos

SERVIÇO
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Quando: De sexta a domingo, Dias 10,11, 17 e 18 de março, às 19h e 12 e 19 de março, às 18

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Humor de Pés-rapados

Diogenes D. Lima em Mascate, pé-Rapada e os forasteiros

Diógenes D. Lima em Mascate, Pé-Rapada e os forasteiros

Pernambuco imortal é o país da grandiloquência. E a partir de idiossincrasias isso pode ser muito engraçado. A comédia da personagem que enche o peito para dizer que é o melhor. Ou o maior. Ora, direis, muitos outros são assim. No Brasil, no mundo. Essas manias de grandeza não são exclusividades de Pernambuco. Sim, sim! Mas por enquanto, meu foco é o qualidefeito dessa gente que vive nesse pedaço de terra tomada lá atrás por portugueses, desejada por holandeses e outros bandoleiros.

Os bravos guerreiros contemporâneos negociam o ar que respiram e a self nas redes sociais para garantir dignidade e sobrevivência. O nosso cinema vai longe cravando sua bandeira em paragens longínquas. A nossa música embala sensibilidades em vários ritmos e tons. E o nosso teatro? Resiste, insiste… E tem sua pegada.

O espetáculo O Mascate, a Pé Rapada e os Forasteiros junta política, crítica feroz, deboche, ludicidade sacana na atuação de Diogenes D. Lima com teatro de objetos. Afronta poderosos de ontem e hoje e multiplica seu discurso em pequenos grupos.

A peça faz única sessão nesta quarta-feira (8 de março), às 20h, no Teatro de Santa Isabel, com ator e a plateia no palco.

As personagens dessa reflexão satírica são Olinda, uma fogosa mulher; Recife, um camelô astuto, mas tosco para as experiências amorosas; o velho tarado e explorador Portugal e o forasteiro traficante gay Holanda. O casal Recife/Olinda é vítima de tramas novelescas, degenerado pela ação dos estrangeiros e seus próprios sentimentos de cobiça e poder. Essa versão histórica/fictícia traz pitadas de libertinagem no discurso. E um humor com acento pernambucano.

A montagem traça uma panorâmica, sem aprofundamento de temas ou personagens e zoons em algumas situações satíricas. Explora a superfície, exerce a função piadista. Mas a exposição do ridículo das personagens do passado é certeira para atingir as figuras públicas do presente. Ninguém sai do teatro sem pensar nas mazelas das cidades vizinhas, que sofrem com a incompetência dos políticos.

Luís da Câmara Cascudo já nos ensinou que a expressão pé-rapado significa o pobretão, sobretudo da zona rural, que andava descalço e por isso era obrigado a raspar (ou rapar) os pés para lhes tirar a lama. Na Guerra dos Mascates, aqui em Pernambuco, os mascates do Recife chamavam a nobreza de Olinda pelo depreciativo apelido de Pés-rapados. Essa aristocracia rural combatia sem sapatos contra a cavalaria de botas. Todos tão longe da nobreza, mas com a empáfia que não saiu da agenda positiva.

Teatro de objeto com humor e política

Teatro de objeto com humor e política

Sozinho na cena, Diógenes D. Lima se vira nas figuras de Portugal, Holanda, Recife, Olinda, dele mesmo e de seus pares que não são convidados para protagonizar os filmes do novo cinema pernambucano e que fazem a gozação politica/econômica/social do outro lado da rua do Bar Central.

Um jeito de corpo, um olhar, um adereço, uma mudança de voz, um trejeito. Hábil na construção dos colonizadores, ele brinca das imagens estereotipadas. Uma sombrinha frevo representa Olinda, um pedaço de madeira roliça, Recife. E alguns assessórios colaboram na composição.

O texto satírico levanta pontos sobre a identidade cultural, as políticas públicas e a ação dos gestores. É uma sacada a transfiguração de alguns objetos que apontam para questões graves, como o projeto Novo Recife, a ação do Ocupe Estelita.

O ator manipula os artefatos com picardia e articula sentidos visuais e sonoros que provoquem leituras ambíguas. A dubiedade também pode ser uma tentação para o espectador a reduzir o humor da peça ao teor machista ou misógino de algumas colocações. Faz parte do jogo perigoso da comédia. Mas é bom lembrar que ali, nas dobraduras da cena nenhum personagem é inocente. A perversidade uns com os outros é o disparo do trabalho, que nesse campo se aproxima dos mamulengos tradicionais com o alto teor de violência verbal e física (entre os bonecos).

Diógenes D. Lima ganhou o prêmio de Melhor Ator de Teatro Adulto na edição deste ano do festival Janeiro de Grandes Espetáculos (além de Prêmio Especial do Júri pela Dramaturgia e Melhor Cenário) e quando foi receber o troféu gritou “Fora Paulo Câmara”, se referindo ao governador de Pernambuco, mas sem muito eco no Teatro Apolo. Seguiu a linha política irreverente do espetáculo e deixou o representante do governo no evento, o secretário de cultura do estado, numa breve saia justa.

SERVIÇO
O Mascate, a Pé rapada e os Forasteiros 
Onde: Teatro de Santa Isabel
Quando: Nesta quarta-feira, às 20h
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Duração: 60 min
Classificação: 16 anos

FICHA TÉCNICA
Texto e Atuação:Diógenes D. Lima
Supervisão Artística:Marcondes Lima e Jaime Santos
Coreografias:Jorge Kildery
Adereços:Triell Andrade e Bernardo Júnior
Iluminação:Jathyles Miranda
Execução de Iluminação:Rodrigo Oliveira
Execução de sonoplastia:Júnior Melo
Programação Visual:Arthur Canavarro
Fotografia:Ítalo Lima
Gerente de Produção:Luciana Barbosa
Produção:Cia. de Artes Cínicas Com Objetos, do município do Paulista.

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As lutas pela Terra dos índios

Terra, Maria Paula Costa Rêgo. Foto: Guto Muniz /Dvulgação

Maria Paula Costa Rêgo espalha beleza no espetáculo que fala sobre indígenas Foto: Guto Muniz /Divulgação

Quanta deslealdade, covardia, desumanidade enfrentam os indígenas brasileiros até hoje. Os gananciosos da terra impingem a pecha de inimigo aos povos primordiais. E partem para o ataque pelas vias legais, com criações de leis que retiram direitos das tribos. Operam na parcialidade da mídia e constroem narrativas que tentam justificar o saque aos territórios. As ideias tacanhas de superioridade persistem na mente dos que defendem commodities, manipulados pela política neoextrativista do governo e pelos saqueadores legitimados em ruralistas e poderosas mineradoras. 
Os estragos são medonhos aos recursos naturais do País. É possível que não tenhamos noção.

Um pouco desse quadro inspirou a coreógrafa e bailarina Maria Paula Costa Rêgo, do Grupo Grial de Dança, a montar o solo Terra. O espetáculo rendeu o prêmio de melhor criadora-intérprete da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) para Maria Paula. Além de cinco troféus do Prêmio Apacepe de Dança 2014, do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, nas categorias Melhor Espetáculo, Trilha Sonora, Figurino, Bailarina e Iluminação. 

A peça coreográfica traz uma radicalidade política dos guerreiros que persistem na luta contra a destruição da Amazônia, suas riquezas e culturas e de outros territórios. Dos que resistem pela terra a dentro desse Brasil afora. Nos passos e gestos pulsam uma ligação com o solo venerável e com a natureza.

Após penúltima apresentação de Terra, sexta-feira (10/02), na curta temporada do espetáculo na Caixa Cultural Recife, pergunto o que Maria Paula encontrou no lugar mais próximo que chegou do índio brasileiro. Ela responde, tristeza. E explica que sua pesquisa ficou à margem de tribos de resistências, que não dão confiança ao “homem branco”, com razão; que sofrem com as manipulações governistas de entidades que deveriam defendê-las. 

Na sua investigação Maria Paula e seu diretor Eric Valença encontraram os indígenas desgarrados de suas tribos, bêbados e degradados vivendo das migalhas do capitalismo e ainda assim levando na bagagem sombras dos símbolos de sua cultura. Dessas raspas, dessas frestas, dos assombros cometidos pela barbárie de grupos anti-indígenas são erguidas imagens de uma força metafísica.

tera foto guto muniz

foto: Guto Muniz / Divulgação

 Meia tonelada de areia no palco. Foto: Marcos Aurélio / Divulgação

Meia tonelada de areia no palco. Foto: Marcos Aurélio / Divulgação

Maria Paula ocupa o espaço com seu virtuosismo e abraça a luz de Luciana Raposo. Com essa iluminação, o local é povoado de outros seres, a guerrear, brincar e fazer seus rituais. Os movimentos e a materialidade formada pela areia jogada ao ar e a iluminação precisa criam corpos que dialogam com a bailarina. A lona, que ora representa a terra invadida, que resiste, que esconde riqueza, possibilita ótimas combinações coreográficas.

A trilha sonora de Naná Vasconcelos convoca tribos diversas desses Brasil das desigualdades. Elas vão para a guerra, mas também mostram inocência e alegria da descoberta e muitos atributos estéticos, traduzidos nos efeitos sonoros desconcertantes, que criam  onomatopeias e sons da natureza com muito rigor.

São muitas problematizações desse estanho mundo contemporâneo levantadas pela encenação Terra, guiadas nos passos da tradição dos brincantes populares, que já fazem parte da pesquisa do Grial.

Plena e consciente do domínio da emoção que pode extrair do seu corpo, Maria Paula vivencia os vários estados de espírito dos índios nossos irmãos de misérias e de grandezas.

Para o índio, a terra é sagrada. Não pode ser encarada como algo que a cobiça desmedida do homem civilizado sangra até exaurir. A intérprete insiste nesse acorde e cria imagens que traçam um caleidoscópio histórico, desde os exploradores das primeiras colonizações europeias, aos violentados atuais nos seus direitos conquistados.

Esse é um dado aterrador. Mas, segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade, durante a ditadura militar brasileira, pelo menos oito mil indígenas foram assassinados, por ação ou por omissão do Estado. 

A invasão dos territórios continua, os massacres e todas as violências se inscrevem nos giros no ar desse espetáculo tão repleto de sentidos, nos rolamentos e em toda a habilidade da bailarina de jogar com meia tonelada de areia instalada na cena.

Como defende o organizador do livro Memórias sertanistas: Cem anos de indigenismo no Brasil (Ed. Sesc), “Não é preciso ‘genocidar’ os indígenas para que outros brasileiros, nas cidades, sejam felizes”. Terra grita pela defesa do índio e mostra as armas se for necessário ir pro ataque. Com coragem, humanidade e beleza.

Ficha técnica:
Direção: Maria Paula Costa Rêgo e Eric Valença
Intérprete: Maria Paula
Trilha sonora: Naná Vasconcelos
Figurino: Gustavo Silvestre
Luz: Luciana Raposo
Pintura de cenário: Manuel Dantas Suassuna.

Serviço
Terra – Grupo Grial de Dança
Onde: CAIXA Cultural Recife (Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife, Recife/PE)
Quando: 2 a 4 e 9 a 11 de fevereiro de 2016, às 20h
Ingresso: R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia)
Informações: (81) 3425-1915
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 45 minutos

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Coletivo Angu flerta com afetos de canções

Elenco Angu de Canções. Fotos: Pedro Portugal / Divulgação

Elenco Angu de Canções. Fotos: Pedro Portugal / Divulgação

Isadora Melo e André Brasileiro. Foto: Pedro Portugal /Divulgação

Isadora Melo e André Brasileiro. Foto: Pedro Portugal /Divulgação

Marcondes Lima. Foto: Pedro Portugal /Divulgação

Marcondes Lima. Foto: Pedro Portugal /Divulgação

Almérico Foto: Mery Lemos /Divulgação

Almérico Foto:  Mery Lemos /Divulgação

Nínive Caldas e Ivo Barreto. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

Nínive Caldas e Ivo Barreto. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

“Que descuido meu / Pisar nos teus espinhos / É essa mania minha / De olhar pro céu…”, as músicas de Juliano Holanda não saem da minha cabeça desde que assisti Angu de Canções. E a linda voz de Isadora Melo (que o Brasil inteiro ainda vai descobrir e reverenciar) embalam meus pensamentos. Ouriço, Morrer em Pernambuco, Pés, Altas Madrugadas, Cinema embaralhando minhas ideias sobre amor, abandono, sofrimento, salvação, superação, sublimação, morte. Potente, forte, doído.

Com elenco do Coletivo Angu de Teatro – Nínive Caldas, Hermila Guedes, Marcondes Lima, André Brasileiro e Ivo Barreto – além dos convidados Isadora Melo, Almério e Henrique Macedo – traz aquela revolta do amor ferido, um pouco da sujeira do rock sem rock e a política do ato de existir e se expor.

É show marcado pela melancolia que está presente principalmente no espetáculo Ossos. A vida é bruta e o seu pior inimigo pode ser aquele a quem você entregou seu coração, como acontece com o protagonista da peça, o dramaturgo Heleno de Gusmão. É dessa vida sem floreios, de um Recife manchado, atingido na sua honra, violento, que os seres dessas canções buscam sobreviver.

Marcelino Freire, autor de três peças montads pelo coletivo: Rasif, Ossos e Angu de Sangue. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

Marcelino Freire, autor de três peças montadas pelo coletivo: Rasif, Ossos e Angu de Sangue. Foto: Pedro Portugal 

As intervenções poéticas do escritor Marcelino Freire davam o tom da tragicidade desses tempos. “Merece um tiro quem inventou a bala”, alardeou com os versos de Miró da Muribeca para emendar com o posicionamento político “E quem inventou Temer e Trump merece o quê?”, para voltar a Miró com suas frases de efeito, em Reflexões sobre a construção civil: “Cimento na cabeça dos outros é isopor”.

Freire articulou na voz novas leituras da poesia Testamento, de Manuel Bandeira, escrita em 1943: “O que não tenho e desejo / É que melhor me enriquece..”. Os textos declamados por Marcelino se encaixavam às interpretações musicais do Coletivo Angu de Teatro e convidados.

E os textos corriam entre músicas, a pontuar e se irmanar com as trilhas sonoras (de Juliano Holanda, Henrique Macedo), a iconografia, os figurinos de Ossos; Angu de Sangue, Rasif – Mar que Arrebenda, Ópera e Essa Febre que Não Passa. A prosa contundente de Macelino assumiu sua leitura de autor em Amor Cristão, dos contos de Rasif: “Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca. (…) Amor salvador. Cristo mesmo quem nos ensinou. Se não houver sangue. Meu filho. Não é amor”.

Marcelino com aquele vozeirão, com uma autoridade de rebelião, com a pertinência na corpo e na postura das coisas impreteríveis que beliscam e arrancam pedaços. Sobre negros e pobres dos cantos da injustiça social, o escritor saca Trabalhadores do Brasil, do livro Contos negreiros com a urgência do grito represado: “Hein seu branco safado? Ninguém aqui é escravo de ninguém”.

E os atores-cantores soltaram a voz, com seus erros e acertos. Em modulações quentes e apaixonadas. Com uma falha aqui outra ali, que tornam mais humanas e calorosas essas canções. 

Hermila Guedes e Henrique Macedo lembrando Socorrinho lá do início da carreira do Angu, sobre o abuso à inocência, essa composição em parceria entre Macedo e Carla Denise.

Lágrimas com Marcondes Lima, De onde você vem, com Ivo e Nínive, Cinema, com Ivo e elenco, Tire seus olhos de mim, com André Brasileiro Ouriço, com Isadora e Juliano Holanda e a marchinha tristíssima e encantadora Morrer em Pernambuco.

Hermila Guedes e Henrique Macedo. Foto: Mery Lemos /Divulgação

Hermila Guedes e Henrique Macedo. Foto: Mery Lemos /Divulgação

Banda formada por Juliano Holanda, Marcondes Lima. Foto: Mery Lemos/ Divulgação

Banda formada por Juliano Holanda, Rafa B e Rogê Victor. Foto: Mery Lemos /Divulgação

Com arranjos de Juliano Holanda, as músicas foram tocadas pela banda composta pelo próprio Juliano (violão, voz e guitarra), Rafa B (bateria) e Rogê Victor (baixo). Uma dramaturgia que corria num fluxo sonoro envolvente, com suas letras imagéticas que carregam reflexões poéticas e existenciais. Que toca a pele mas atinge o osso.

Angu de canções foi apresentado no Teatro de Santa Isabel, em 26/01, dentro do Janeiro de Grandes Espetáculos.

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