Premiação Janeiro de Grandes Espetáculos 2026

Prêmio JGE Copergás entregou 30 troféus a produções e artistas pernambucanos. Foto: Hans von Manteuffel

Prêmio é uma coisa muito sedutora. Difícil encontrar quem não queira um ou vários para sua coleção. Os prêmios mais poderosos exercem múltiplo papel como catalisadores de carreiras e geradores de visibilidade. Possuem capacidade de elevar talentos ao patamar de figuras proeminentes na indústria e na esfera pública cultural, transformando artistas em ícones de reconhecimento. Distinções de prestígio global, como o Oscar no cinema, o Grammy na música ou o Nobel e o Pulitzer na literatura e jornalismo, influenciam percepções e criam verdadeiras referências – dotadas de vozes ativas que podem moldar narrativas e tendências artísticas e sociais num cenário internacional cada vez mais interconectado.

No Brasil também os troféus mais desejados (e tudo que vem com eles) também redefinem destinos, com alcances diversos. Mas toda premiação tem valor e desempenha seu papel. Operando em escala regional no cenário de Pernambuco, o festival Janeiro de Grandes Espetáculos, da Apacepe, sob a produção de Paulo de Castro, é a única premiação de sua natureza e escopo nas artes cênicas do estado. O troféu deste que é o maior em duração (quase um mês de atividades) e mais amplo festival das artes cênicas do estado – englobando música, dança, teatro, circo e cinema com a Mostra Cine JGE – é inegavelmente disputado pelos participantes do JGE e valorizado por seus vencedores como um símbolo de excelência e reconhecimento entre pares. Sua singularidade reside em carregar, celebrar e perpetuar o autêntico “DNA pernambucano de grandes espetáculos”.

Neste cenário, a 32ª edição do Janeiro de Grandes Espetáculos, que teve como tema “Da Lama ao Palco” em homenagem aos 60 anos de Chico Science, realizou sua cerimônia de premiação, o Prêmio JGE Copergás, no Teatro do Parque, na quarta-feira, 04/02. O evento distribuiu 30 troféus entre produções, artistas e técnicos pernambucanos, com as performances mais bem avaliadas em Teatro Adulto, Teatro para a Infância e Juventude, Circo, Dança e Música, além da Mostra Janeiro de Cenas Curtas. O festival prestou homenagens significativas ao ator, diretor e produtor José Mário Austregésilo e ao ator Severino Florêncio (teatro); à Mestra Nice Teles, do cavalo-marinho (dança); à Escola Pernambucana de Circo (circo); ao Maestro Duda, que completou 90 anos como um dos nomes máximos do frevo (música); e à professora Rose Mary Martins (ópera).

Roberto Costa conquistou prêmios de melhor espetáculo adulto e infantil. Foto: Hans von Manteuffel

A Cigarra e a Formiga conquistou três troféus: Melhor Espetáculo, Melhor Direção e Melhor Ator para Luan Alves. Reprodução do Instagram

O produtor, diretor e dramaturgo Roberto Costa foi como uma das figuras mais celebradas ao conquistar estatuetas em duas categorias distintas. Em Teatro Adulto, seu musical Francisco, um Instrumento de Paz, baseado na adaptação da história de São Francisco de Assis, foi eleito Melhor Espetáculo e recebeu um Prêmio Técnico pela direção musical de Hadassa Rossiter e pelo figurino, assinado pelo próprio Roberto Costa.

Francisco apresenta a jornada de transformação espiritual de Francesco Bernardone, ancorado em uma trilha musical ao vivo e na performance de Paulo César Freire no papel-título. A montagem busca tocar a sensibilidade do público expondo os valores de simplicidade, solidariedade e desapego material defendidos pelo fundador da Ordem Franciscana – congregação religiosa católica fundada no século XIII que prega a vida em pobreza voluntária, o cuidado com os necessitados e uma relação harmoniosa com a natureza.

Roberto Costa também se destacou na categoria Teatro para a Infância e Juventude com A Cigarra e a Formiga, conquistando três troféus: Melhor Espetáculo, Melhor Direção e Melhor Ator para Luan Alves. Já é conhecida a habilidade de Roberto Costa para criar trabalhos que atendem a diferentes públicos. As escolhas dos vencedores desta edição evidenciam uma preferência por montagens de linguagem acessível, com narrativas reconhecíveis que dialogam com um público amplo.

Fabiana Pirro

A atriz Fabiana Pirro, que integra o elenco do filme “O Agente Secreto” de Kleber Mendonça Filho – produção que concorre em quatro categorias ao Oscar, um feito inédito para o cinema brasileiro –, conquistou o troféu de Melhor Atriz pela atuação em Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III. O espetáculo conta com dramaturgia original de Moncho Rodrigues, com co-direção de João Guisande após o falecimento de Moncho, e teve Júnior Sampaio no palco ao lado de Fabiana. A obra opera como um teatro dentro do teatro, onde os atores transitam entre seus personagens e reflexões sobre o próprio processo de representar, estabelecendo um diálogo direto com a plateia. O espetáculo navega pelo texto shakespeariano e suas camadas interpretativas, revelando as tensões dos intérpretes em cena e questionando as manipulações do poder político, servindo como advertência sobre os perigos da conivência com extremismos. É admirável observar a dedicação, talento e paixão dessa atriz inquieta que busca constantemente se aprimorar.

Na categoria de Melhor Ator, Felipe Nunes foi reconhecido por sua atuação em Imorais, espetáculo que questiona convenções morais através da história de uma família com comportamentos não convencionais, explorando temas complexos com texto de Cristiano Primo e direção de Emmanuel Matheus.

O prêmio de Melhor Direção coube a Arthur Cardoso por Vossa Mamulengecência, uma comédia que dialoga engenhosamente com o universo de Ariano Suassuna. O enredo acompanha as peripécias de Cheiroso Dorabela, artesão de mamulengos e comerciante de perfumes, que emprega sua astúcia e senso de humor para confrontar os poderosos de Zebataubá: a prefeita desonesta Prazeres, a autoritária delegada Mourão e o corrupto juiz Trajado. O espetáculo se desenvolve através de uma sucessão de situações cômicas e surpreendentes, culminando em um final que honra a tradição dramatúrgica suassuniana.

A premiação ocorreu nos jardins do Teatro do Parque. Foto: Hans von Manteuffel

Na categoria Circo, Caminhos se destacou ao conquistar três prêmios: Melhor Espetáculo, Melhor Artista Circense Masculino para Pedro Milhomens e Prêmio Técnico para Clarissa Siqueira pela sonoplastia. Sob direção de Odília Nunes, o espetáculo do Palhaço Sequinho, de Triunfo (Sertão de Pernambuco), combina elementos poéticos e humorísticos em uma narrativa sobre autodescoberta, utilizando objetos cotidianos transformados em instrumentos de magia e malabarismo.

Em Dança, Lago dos Cisnes da Cia Fátima Freitas levou dois prêmios: Melhor Espetáculo e Melhor Bailarina para Maria Júlia Cavalcanti, que interpretou Odile, o Cisne Negro. Lago dos Cisnes é uma das obras fundamentais do balé clássico, com música de Tchaikovsky, que narra o amor entre o príncipe Siegfried e a princesa Odette, transformada em cisne pelo feiticeiro Rothbart. A obra representa um dos maiores desafios técnicos da dança clássica, exigindo domínio técnico, expressividade dramática e resistência física. Maria Júlia Cavalcanti destacou-se no papel do Cisne Negro, personagem que demanda virtuosismo técnico e presença cênica intensa.

Encruzilhada Agreste, show protagonizado por Revoredo e Gabi da Pele Preta, foi duplamente premiado na categoria Música: Melhor Espetáculo e Melhor Cantor para Revoredo. A apresentação constitui um projeto paralelo às carreiras individuais dos artistas, reunindo-os em um encontro musical que valoriza suas origens agrestinas através de composições autorais, inéditas e releituras de clássicos que moldaram suas trajetórias. Ylana Queiroga conquistou o troféu de Melhor Cantora com Janga, espetáculo intimista que transforma suas memórias de infância no bairro do Janga, em Paulista, em canções que misturam ritmos pernambucanos, sob direção musical de Yuri Queiroga.

A Mostra Janeiro de Cenas Curtas desempenha papel fundamental ao oferecer palco e visibilidade para atores e autores estreantes, funcionando como laboratório de experimentação e porta de entrada para novos talentos na cena teatral pernambucana. Ida ao Teatro, da Evoé Artes, dominou a categoria conquistando o 1º lugar de Melhor Cena Curta, além dos troféus de Melhor Atriz para Viviana Borchardt e Melhor Ator para João Fernando.

Duas sugestões para a próxima edição: primeiro, a implementação de premiações em dinheiro para todas as categorias seria um avanço significativo, oferecendo suporte financeiro concreto aos artistas e estimulando a economia criativa local. Segundo, seria benéfico expandir o sistema de avaliação: as categorias contam com dois jurados que neste ano foram Filipe Enndrio e José Manoel Sobrinho (Teatro Adulto); Cleyton Cabral e Edivane Bactista (Teatro Infantojuvenil); Gilberto Trindade e Malu Vieira (Circo); Célia Maira e Raimundo Branco (Dança); e Leandro Almeida e Tatto Medinni (Música). O ideal seria ter pelo menos três jurados, preferencialmente cinco, e que essa comissão fornecesse pareceres escritos para todas as apresentações analisadas, contribuindo para um mapeamento crítico da produção artística local e oferecendo feedback valioso aos artistas.

Prêmio JGE Copergás de Teatro, Dança, Circo, Música e da Mostra Janeiro de Cenas Curtas:

TEATRO ADULTO

MELHOR DIREÇÃO
Arthur Cardoso – Vossa Mamulengecência

MELHOR ATRIZ
Fabiana Pirro – Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III

MELHOR ATOR
Felipe Nunes – Imorais

PRÊMIO TÉCNICO
Hblynda em Trânsito, pela iluminação de Cleison Ramos e a direção musical de Raphael Venos
Francisco, um Instrumento de Paz, pela direção musical de Hadassa Rossiter e o figurino de Roberto Costa
Um Sábado em 30, pelo conjunto do elenco

MELHOR ESPETÁCULO
Francisco, um Instrumento de Paz

TEATRO PARA INFÂNCIA E JUVENTUDE

MELHOR DIREÇÃO
Roberto Costa – A Cigarra e a Formiga

MELHOR ATRIZ
Gabriela Melo – Histórias Pontilhadas

MELHOR ATOR
Luan Alves – A Cigarra e a Formiga

PRÊMIO TÉCNICO
Histórias Pontilhadas, pela dramaturgia de Tarcísio Vieira, Gabriela Melo e Thayana Lira

MELHOR ESPETÁCULO
A Cigarra e a Formiga

CIRCO

MELHOR DIREÇÃO
Fátima Pontes e Ítalo Feitosa – Nordestinados in Circus

MELHOR ARTISTA CIRCENSE FEMININA
Andreza Cavalcanti – Nordestinados in Circus

MELHOR ARTISTA CIRCENSE MASCULINO
Pedro Milhomens – Caminhos

PRÊMIO TÉCNICO
Clarissa Siqueira, pela sonoplastia de Caminhos

MELHOR ESPETÁCULO
Caminhos

DANÇA

MELHOR COREÓGRAFA/COREÓGRAFO
Neves de Sena – Tudo Acontece na Bahia

MELHOR BAILARINA
Maria Julia Cavalcanti – Lago dos Cisnes

MELHOR BAILARINO
Davi Novaes – Bela Adormecida

PRÊMIO TÉCNICO
Corpos em Travessia, pela linguagem inclusiva

MELHOR ESPETÁCULO
Lago dos Cisnes
Turbantes

MÚSICA

MELHOR DIREÇÃO
Jorge Féo – Osun Oxum Ochun – Afoxé Oxum Pandá

MELHOR CANTORA
Ylana Queiroga – Janga

MELHOR CANTOR
Revoredo – Encruzilhada Agreste – Revoredo e Gabi da Pele Preta

PRÊMIO TÉCNICO
Maestro Duda – Uma Visão Nordestina, pelo conjunto

MELHOR ESPETÁCULO
Encruzilhada Agreste – Revoredo e Gabi da Pele Preta

CENAS CURTAS

MELHOR DIREÇÃO
João Liagui – Matizes da Vida (Cia Muganga)

MELHOR ATRIZ
Viviana Borchardt – Ida ao Teatro (Evoé Artes)

MELHOR ATOR
João Fernando – Ida ao Teatro (Evoé Artes)

PRÊMIO TÉCNICO
Pataxós: Resistência e Sobrevivência, pela relevância da temática social, direção de arte e coreografias de Luciana Alves (L.A. Espaço Artístico e Cultural)

MELHORES CENAS CURTAS (1º, 2º e 3º lugares)
1º LUGAR: Ida ao Teatro
2º LUGAR: Serendiptia
3º LUGAR: Show de Brad e Janet

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Uma montagem festiva da tradição
Crítica: Auto da Compadecida
Por Ivana Moura

Sóstenes Vidal e Williams Sant’anna como João Grilo e Chicó. Foto: Hans von Manteuffel

A montagem de Auto da Compadecida – uma farsa modernesca dirigida por Célio Pontes e Eron Villar, com produção de Paulo de Castro, conquista seu público. Teatros lotados nas primeiras sessões, plateia vidrada na cena e rindo nos momentos esperados, elenco experiente entregando exatamente o que a tradição teatral pernambucana consolidou ao longo de décadas. O espetáculo cumpre com eficiência sua promessa de entretenimento popular, mas provoca uma reflexão necessária: em que medida uma montagem contemporânea deve dialogar criticamente com seu próprio tempo ao encenar um clássico? Esta revela-se comercialmente exitosa, porém levanta questões sobre o papel do teatro popular brasileiro diante de textos que já se cristalizaram no imaginário cultural.

Escrita por Ariano Suassuna em 1955, a obra tece uma fusão dramatúrgica singular entre o cordel, os autos medievais e o imaginário sertanejo, resultando numa comédia ou farsa ou auto ou… que é simultaneamente retrato social agudo e profunda reflexão sobre poder e justiça. Essa riqueza textual impõe um duplo desafio: reverenciar o clássico e fazê-lo vibrar com urgência contemporânea. Como equilibrar fidelidade à tradição com pertinência aos nossos tempos?

A direção responde a esta questão de forma categórica, priorizando a conexão imediata com o público através de escolhas que confirmam expectativas em detrimento da provocação. Os diretores imprimem fluidez cênica, enquanto cortes textuais conferem ritmo acelerado à narrativa. O elenco, reunindo intérpretes experientes – alguns veteranos de outras encenações do texto de Suassuna -, demonstra habilidade no andamento da história. Uma energia coletiva palpável transforma a experiência teatral numa celebração popular.

Outra encenação de muito sucesso, da Dramart, permaneceu em cartaz por 21 anos ininterruptos (1992-2012), dirigida por Marco Camarotti e produzida por Socorro Raposo – a primeira intérprete da Compadecida na montagem inaugural de 1956. Embora Fernanda Montenegro seja a referência nacional através do cinema, Socorro Raposo consolidou-se como figura querida do teatro pernambucano. Esta notável longevidade da encenação criou padrões interpretativos e um público fiel que naturalmente influencia qualquer nova abordagem.

A atual produção preserva estereótipos que, embora funcionem como gatilhos de reconhecimento, merecem análise.

Cleusson Vieira, Carlos Lira, Célio Pontes, Clenira Melo e Gil Paz

Clenira Melo interpreta a mulher do padeiro com manobras cômicas que demonstram domínio técnico absoluto, ainda que a direção pareça ter refreado sua inventividade. Sua parceria com Douglas Duan (o padeiro) oferece momentos de elevada qualidade cômica.

Alexandre Sampaio veste de forma hilariante o Major Antônio Moraes, personificação do poder coronelista nordestino. Autoritário, vaidoso e violento, representa esse sertão atávico que confunde força com autoridade. Quanto mais tenta parecer grandioso, mais revela o ridículo de quem exerce poder sem legitimidade.

Foi acertada a opção de manter o Tinhoso como personagem masculino, evitando dificuldades interpretativas que podem comprometer a clareza da personagem.

Já a figura do sacristão (Cleusson Vieira) é construída dentro do estereótipo do homem gay afeminado, aproveitador e escorregadio – representação que, embora agrade enormemente ao público, perpetua leituras questionáveis. Esta projeção em lugares exclusivamente risíveis projeta uma visão reducionista da figura gay.

O trio Carlos Lira (Padre), Mário Miranda (Bispo) e Cleusson Vieira (Sacristão) atuam para evidenciar a corrupção clerical: covardia, subserviência aos poderosos, ética duvidosa. Este parecer institucional cumpre tarefa dramatúrgica, embora permaneça genérico, perdendo oportunidades de estabelecer conexões específicas entre as problemáticas suscitadas por Suassuna e dilemas políticos contemporâneos.

A encenação trabalha com o universo nordestino povoado por cangaceiros, coronéis e tipos populares. Suassuna escreveu em contexto histórico específico (anos 1950), inclusive com algumas posições consideradas ousadas – como a escolha de um Cristo negro, que mirava a imagem da fé ocidental. 

Contudo, setenta anos depois, o cangaceiro romantizado, o coronel autoritário, os tipos populares caricaturais parecem pedir outras lentes para evitar que se reforce a visão estereotipada do Nordeste, aquela que simplifica a complexidade social da região. A direção opta por preservar integralmente essas imagens, mantendo coerência com o texto original, mas abdicando da possibilidade de problematizar na cena esses elementos.

Gil Paz, Simone Figueiredo e Sóstenes Vidal 

Sóstenes Vidal (João Grilo) brilha na liderança, demonstrando presença e timing cômico apurados. Williams Sant’anna constrói um Chicó medroso e cativante. É perceptível, contudo, dificuldade em acompanhar falas de alguns atores pela junção do sotaque carregado e velocidade da dicção. A produção poderia reconsiderar se vale manter os dois atores cantando, pois suas performances vocais não parecem inteiramente satisfatórias.

Paula Tássia traz leveza com estética mendicante, um ar beckettiano e dos Pierrots do Recife, 
costurando cenas com habilidade. Simone Figueiredo oferece uma Aparecida humana e educadora maternal, beneficiada por figurino bem concebido. Merece destaque o acento feminista que imprime à personagem, buscando ressaltar sobre o papel da mulher na sociedade.

Gil Paz como Emanuel/Jesus entrega um Cristo que consegue ser simultaneamente acessível e imponente, bondoso e austero, humanizando a figura sem pieguice e mantendo solenidade sem excessos. Célio Pontes interpretou o cangaceiro nas primeiras apresentações.

A cenografia é formada por duas casas simbolizando igreja e padaria, transformadas no final em céu, purgatório e inferno. É pouco criativa, mas funciona. Os figurinos são mais inspirados e elaborados, de impacto visual, baseados no imaginário dessas personagens, embora persistam em enquadrar protagonistas pobres com remendos e trapos, apostando numa imagem da pobreza que pode soar pitoresca.

A encenação reforça expectativas, opera através do reconhecimento de personagens, situações e códigos estéticos familiares que geram identificação imediata. Esta montagem cria uma experiência festiva que dialoga diretamente com o público pernambucano, que lotou por anos as apresentações da antiga encenação do Auto da Compadecida. O elenco experiente contribui eficazmente para o projeto estabelecido pela direção, o que deve garantir longevidade e sucesso dessa empreitada.

Ficha técnica
Texto: Ariano Suassuna 
Elenco: Alexandre Sampaio, Carlos Lira, Celio Pontes, Clenira Melo, Cleusson Vieira, Douglas Duan, Gil Paz, Mário Miranda, Paula Tássia, Simone Figueiredo, Sóstenes Vidal e Williams Sant’anna.
Direção: Célio Pontes e Eron Villar
Direção Musical: Douglas Duan
Direção de Arte, Figurino e Identidade Visual: Célio Pontes
Design de Luz: Eron Villar
Cenotécnico e Aderecista: Cleusson Vieira
Técnico de Som: Davison Wescley
Contrarregra: Diney Castro e Paulo de Lima Castro
Assessoria de Imprensa: Paula Schver
Mídias Sociais: Nuvon Branding
Filmagem: Pedro Raiz Produções
Fotografia: Thiago Farias
Captação de Recursos: Pedro Castro
Produção Executiva: Paulo De Castro
Realização: Roda Produções Culturais 

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Zona Zami: um arquivo de automitobiografias*
Crítica: Zona lésbica
Por Annelise Schwarcz*

O elenco de Zona lésbica compartilha, em primeira pessoa, suas vivências em torno do ser lésbica. Foto: Marcos Pastich/PCR

O filme The Watermelon Woman (1996) – dirigido, produzido e estrelado por Cheryl Dunye – tem como protagonista uma jovem negra e lésbica que trabalha numa videolocadora em Filadélfia, interpretada pela própria Cheryl como uma espécie de personagem de si mesma. Seu hobby é assistir a produções hollywoodianas da década de 30. Em um desses filmes, intitulado Plantation Memories (Memórias da Plantação), Cheryl percebe que a atriz negra que a arrebatou pela sua interpretação aparece apenas como “Watermelon Woman” (Mulher Melancia) nos créditos finais. Não é a primeira vez que isso acontece. Cheryl observa como frequentemente as atrizes negras nessas produções não têm seus nomes mencionados nos créditos e, quando tem, são mencionadas através de apelidos. Da mesma forma que suas participações são eclipsadas ou até mesmo invisibilizadas, os papéis destinados a essas atrizes são secundários e estereotipados, sempre como escravizadas ou ex escravizadas, serventes, babás, amas de leite, etc, como no caso da Watermelon Woman (Mulher Melancia), fazendo papel de nanny (babá) no filme. 

Intrigada, Cheryl decide revirar arquivos e entrevistar pessoas para descobrir quem foi essa atriz, sua vida e sua história. Sua pesquisa é registrada e compõe o documentário com nome homônimo ao apelido da atriz que disparou sua investigação. À medida que a protagonista se aprofunda na pesquisa, ela não só descobre o nome da atriz (Fae Richards), como também descobre que Fae era lésbica. Isso, por si só, justificaria a identificação de Cheryl com a atriz. Só tem um detalhe: o “documentário” em questão é ficcional. A personagem Watermelon Woman (Mulher Melancia), o filme Plantation Memories (Memórias da Plantação), Fae Richards e muitos de seus registros não existem, mas são criados para retratar e superar a falta de registros históricos, assim como a marginalização de mulheres negras e lésbicas no cinema. Enquanto protagonista do próprio filme, em paralelo aos registros da pesquisa fictícia em torno de Fae Richards, Cheryl Dunye documenta a sua vida, seu trabalho, interesses, relações amorosas e amizades, inscrevendo a si mesma enquanto parte da história das mulheres negras e lésbicas no audiovisual. O filme de Cheryl Dunye é considerado disruptivo e pioneiro para além de questões relacionadas à representatividade. Watermelon Woman denuncia que o arquivo não é neutro e que as trajetórias de mulheres negras e queer têm sido esquecidas ou apagadas. Caso levado às últimas consequências, o documentário de Cheryl resultaria em uma tentativa frustrada de resgatar um passado irrecuperável. Somente através da ficcionalização de um arquivo é possível contar essas histórias do passado (nem sempre tão distante) que, em sua artificialidade, não deixam de ser reais. 

É possível dizer que o mesmo exercício de ficcionalização do real/ realização da ficção está presente em Zona lésbica. Na peça idealizada por Carolina Godinho, Dani Nega e Monique Vaillé com dramaturgia de Verônica Bonfim, sete mulheres lésbicas estão em busca de Zami, “um espaço utópico imaginado como um refúgio. Esse lugar simbólico representa o desejo coletivo das personagens de viverem sem medo, em plenitude e acolhimento, construindo uma realidade onde o amor e a liberdade prevalecem” – como descrito na sinopse. 

A narrativa se passa em quatro anos distintos: 1954, 1984, 2014 e 2025. De 1954 – momento em que os direitos para pessoas LGBT+ eram inexistentes – viajamos no tempo para 1984, um ano após o levante no Ferro’s Bar em São Paulo. Conhecido como o “Stonewall lésbico brasileiro” – fazendo referência aos protestos ocorridos no bar Stonewall Inn, nos E.U.A, nos quais a comunidade LGBT se manifestava contra a repressão policial –, o levante no Ferro’s foi deflagrado após as atividas do GALF (Grupo Ação Lésbica Feminista) serem impedidas de divulgarem sua revista Chanacomchana dentro do estabelecimento. O evento ocorreu no mês de agosto e é por isso que, em 2008, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo definiu que o mês de agosto seria o mês do Orgulho Lésbico. 

Da ditadura militar até o ano de 2025 – marcado por avanços institucionais e a consolidação de políticas públicas, mas que nem sempre se fazem presentes nas micropolíticas das relações cotidianas – Zona lésbica nos apresenta as formas de organização e resistência lésbica no Brasil ao longo dos últimos setenta anos através da ficcionalização de cenas que remontam as dinâmicas dessas mulheres. Como era amar outra mulher nos anos 50? Elas dividiam a casa com a sua parceira? Será que os vizinhos achavam que eram apenas amigas? E se descobrissem que não era apenas isso? Será que as parceiras das mulheres marchando contra o feminicídio e lesbofobia durante a ditadura militar sabiam que poderia ser a última vez que veriam seu amor? Essas cenas são interpretadas por Carolina Godinho, Dani Nega, Dandara Azevedo, Jessica Lamana, Monique Vaillé, Nely Coelho e Simone Beghinni e entrecortadas por relatos pessoais de quando e como entraram na zona lésbica. Assim, a especulação dessas existências no passado se soma às vivências compartilhadas pelas atrizes na construção de um arquivo sáfico. A aposta nos relatos endereçados diretamente ao público estabelece um vínculo mais íntimo, através desse olhar que nos olha de volta, mas a ilusão de espontaneidade é quebrada, vez ou outra, devido a algumas dicções roteirizadas ou movimentações muito bem marcadas. 

Esse arquivo ainda conta com as vozes de ícones da música brasileira como Zélia Duncan, Cássia Eller, Ludmilla, Ana Carolina, Adriana Calcanhotto, Martnália, Leci Brandão, Cátia de França, Bia Ferreira, Marina Lima, Maria Bethânia e Gal Costa compondo a mixagem que atravessa as cenas com trechos de suas canções, como uma rádio sintonizando em busca de frequências. A trilha sonora se relaciona com a Rádio Melodrama Lésbico que, na dramaturgia, estava sendo sonhada desde 2014 pelo trisal composto pelas personagens de Carolina Godinho, Dandara Azevedo e Jéssica Lamana e em 2025, após a superação de obstáculos, está no ar. 

A peça aborda as existências e formas de resistência lésbica em quatro temporalidades: 1954, 1984, 2014 e 2025. Foto: Marcos Pastich/PCR

No início da peça, somos informadas/os de que existem ondas na frequência Alfa e frequência Beta. Em estudos sobre hipnose, a onda Beta é associada a um estado de consciência, vigília ou até mesmo estresse, enquanto as ondas Alfa são associadas a um estado de relaxamento, pré sono, além de ser o estado mais propício para a hipnose. Na peça, uma voz em off nos diz enquanto assistimos a projeções coloridas, em uma tela no fundo do palco, que estamos na zona Alfa e que a zona Beta é um pouco melhor, como quem nos quer acordadas/os, conscientes, atentas/os, mas logo em seguida afirma que a zona realmente almejada pelas sapatões é Zami.

Zami está no centro da narrativa e, ao mesmo tempo, à margem. Nas diversas cenas ao longo das quatro temporalidades encenadas, Zami aparece como um lugar mítico ou utópico registrado em um livro eventualmente encontrado por alguma das personagens, questionado por outras, mas não exatamente delimitado. Por que tem esse nome? Quem idealizou? Zami é uma zona espacial ou uma frequência que podemos nos sintonizar independentemente de onde estejamos? É possível estar na zona e não estar na frequência Zami? Apesar de não mencionado ao longo da peça, para mim é difícil ouvir “Zami” e não pensar no livro Zami. Uma nova grafia de meu nome, uma biomitografia (originalmente publicado em 1982) de Audre Lorde. O título “Zami” vem de um termo criolo que se refere a mulheres que trabalham juntas, sinalizando a centralidade das alianças entre mulheres no livro. O termo também pode ser associado a uma espécie de eufemismo para se referir a mulheres lésbicas. 

Zami é o livro autobiográfico de Audre Lorde. Como sabemos, toda autobiografia tem um quê de ficção, por isso Lorde o define como uma “biomitografia”: uma mistura de biografia, mito, memórias, reflexões políticas e poéticas acerca de temas como pertencimento, trabalho, opressões, amor, amizades, gênero, raça e sexualidade. A obra narra a formação identitária de Lorde enquanto filha de pais caribenhos, nascida nos Estados Unidos, mulher negra, lésbica, poeta e feminista, desde sua infância até o início da vida adulta. Operando de forma semelhante, podemos dizer que os relatos das atrizes de Zona lésbica também são fragmentos de suas biomitografias.

Os relatos quebram a quarta parede, se dirigindo em primeira pessoa diretamente à plateia, e operam como uma espécie de suspensão da cena dos casais. Dani Nega falou sobre a origem de seu percurso no teatro com o grupo paulistano Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, famoso pelos experimentos que mixam teatro, hip hop, rap e slam, e de que forma – por conta desses atravessamentos – a palavra se tornou a sua zona lésbica. A primeira experiência na zona lésbica de Monique Vaillé foi em 2003 no chat do UOL. Simone Beghinni sempre soube – como que “por instinto” – que pertencia à zona lésbica. Nely Coelho, por sua vez, só entrou na zona lésbica na faculdade de teatro, mas não sem antes atravessar a depressão e o isolamento por parte dos amigos da época. Dandara Azevedo veio do Maranhão fazer teatro em São Paulo. Nunca tinha nenhuma conversa específica com a sua família sobre sua zona lésbica, apenas avisava com quem estava. Um dia entendeu que assumir era tomar para si, como a própria etimologia do termo sugere, e decidiu se posicionar diante da sua família como lésbica. Carolina Godinho, diferentemente das demais, faz o seu relato na terceira pessoa. A atriz conta que sempre gostou de “coisas de menino” e relembra a música “Maria sapatão” que seu irmão costumava cantar para implicar com ela, quando tinha apenas 10 anos. O padrasto, homofóbico e racista, também contribuia com o clima hostil, então Carolina decide sair de casa, se muda para o Rio de Janeiro e ingressa na faculdade de teatro, onde se apaixona e adentra – dessa vez com os próprios pés – na zona lésbica. Jéssica Lamana, a última a se apresentar, toca o louvor Faz um Milagre em mim, de Regis Danese, no saxofone e é acompanhada por algumas vozes na plateia sussurrando a letra. A zona lésbica de Jéssica começou na casa do Senhor, mas a alegria da descoberta veio embrenhada em culpa e medo de ter pecado. 

O fato dos depoimentos divertirem ou gerarem empatia faz com que essa dimensão da peça se sobressaia com relação às demais, fazendo com que a narrativa em torno da construção da rádio, das personagens e até mesmo a própria fuga para Zami, assim como o vislumbre de um futuro utópico, fiquem ofuscados diante dessa espécie de “excesso de presente e passado”, materializado pela apresentação desse arquivo sáfico das atrizes. Ao longo da peça, algumas questões como “o que é ter cara de sapatão?”, se ser lésbica é uma escolha ou questão de “instinto” e delicadezas em torno de relações interraciais – mesmo entre pessoas do mesmo gênero –, são lançadas, mas não aprofundadas, também se diluindo em meio a tantos acontecimentos. O que há aqui, talvez, seja justamente uma exploração da ambiguidade do termo “zona”, por vezes sendo compreendido como uma dimensão espacial – um território, seja ele real ou imaginário –, mas também nos permitindo uma interpretação na qual “zona” seja compreendido como “bagunça”: um excesso de signos, gírias, debates, corpos, referências, associações – todo um universo sendo apresentado sem que necessariamente se efetue uma organização. No fundo, essa é a experiência de se adentrar em um mundo: toda essa profusão de imagens, a fome por devorar esse universo, a ânsia por recuperar o tempo perdido, o desejo de pertencer, de entender, de conhecer mais e melhor, de se perder nessa floresta de signos. Floresta? Não. Trata-se, mais precisamente, de um brejo – como a própria sonoplastia da peça sugere, ao nos receber com sons de sapo enquanto buscamos nossos lugares, antes da peça começar. 

Da mesma forma que Lorde constrói a si mesma a partir das suas alianças, do poder do desejo e do erotismo, da história da sua família e da sua relação com a poesia, o elenco em cena vai tecendo uma sensibilidade compartilhada com a plateia, cada uma puxando um fio específico. Fios que são, ao mesmo tempo, singulares – pois trata-se de uma vida singular com uma trajetória específica – sem deixar de nos remeter, de alguma forma, a lugares comuns: um lugar que já estivemos, uma história que já ouvimos ou uma situação arquetipicamente familiar. Entre as que se assumiram e as que foram tiradas do armário, entre as que sempre souberam e as que nunca suspeitaram, os múltiplos relatos e relações possíveis com a zona lésbica vão compondo uma miscelânia de afetos que transitam por paisagens de culpa, dúvidas, medo, isolamento a euforia, empoderamento e pertencimento. E quem nunca habitou alguma dessas paisagens? 

Zona lésbica foi a última apresentação do último dia do 24º Festival Recife do Teatro Nacional. Para encerrar a noite, o elenco convidou um casal na plateia para subir ao palco e ambas se declararam mutuamente em uma cena de enternecer o coração. Todas as atrizes do elenco também formaram casais ou trisais e se beijaram selando a última zona lésbica. O palco se configura em Zami, um aqui e agora que se faz possível porque aqueles corpos em cena se fazem presentes e desejantes.

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha técnica:
Zona lésbica
Idealização: Carolina Godinho, Dani Nega e Monique Vaillé
Texto e dramaturgia: Verônica Bonfim
Adaptação e Textos “Zonas Lésbicas”: Elenco
Elenco: Carolina Godinho, Dandara Azevedo, Dani Nega, Jéssica Lamana, Monique Vaillé, Nely
Coelho e Simone Beghinni
Direção Artística: Simone Beghinni
Voz off: Cesar Augusto, Leci Brandão, Rômulo Chindelar e Zélia Duncan
Direção de Movimento: Iasmin Patacho
Direção Musical: Dani Nega
Direção de Imagem e mapping: Carolina Godinho
Cenógrafa: Carla Ferraz
Iluminadora: Lara Cunha
Figurino: Marah Silva
Visagismo e Maquiagem: Diego Nardes
Direção de Produção: Monique Vaillé e Nely Coelho
Produção Executiva: Nuala Brandão
Técnica e Operação de Luz: Tayná Maciel
Operação de Som e Vídeo: Igor Borges
Programação Visual: Yasmin Lima
Fotos: Íra Barillo
Realização: Delas Cultural e Ginja Filmes

 

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Representatividade e aventura para crianças
Crítica: Helô em busca do baobá sagrado
Por Pollyanna Diniz*

Em seu primeiro livro para crianças, Meu crespo é de rainha, bell hooks escreve: “Feliz com o meu crespo! O meu crespo é de rainha! Feliz com o meu cabelo firme e forte, com cachos que giram, e o fio feito mola se enrola, vira cambalhota!”. Em Amoras, livro de Emicida, a filha diz ao pai: “Papai, que bom, porque eu sou pretinha também!”. O pequeno príncipe preto, de Rodrigo França, que primeiro nasceu como peça e depois foi publicado em livro, traz como personagem um menino preto que vive com um baobá num país muito pequeno. O menino fala sobre sua ancestralidade, tem orgulho da sua cor da pele, dos olhos, do nariz, do cabelo: “Eu sou negro. Um pouco mais claro que alguns negros e um pouco mais escuro que outros. É como a cor verde…Tem o verde-escuro e o verde-claro, mas nenhum dos dois deixa de ser verde. Eu gosto muito da minha cor e dos meus traços”. Helô em busca do baobá sagrado, peça que estreou no 24º Festival Recife do Teatro Nacional, no Teatro Hermilo Borba Filho, faz parte dessa linhagem de obras artísticas significativas, voltadas às infâncias, que carregam em suas narrativas a capacidade de aproximar crianças e adultos de suas próprias vivências, de quem são, e estimular autoestima, orgulho e empoderamento.

A criação de Helô…começou no contexto da pandemia: Talles Ribeiro e Helô, Heloísa Ribeiro de Melo, sua filha, viviam a circunstância do isolamento social – a realidade de ser criança (ou parentar) sem poder ter contato físico com o mundo externo, com outras crianças, com a natureza. Como antídoto, experimentando a liberdade da imaginação, inventaram uma história que tinha a menina como protagonista. Uma nova doença, perigosa e desconhecida, havia se espalhado pelo mundo, e Helô recebia a missão de, com o seu pai, ir atrás do fruto sagrado do Baobá, que livraria todos daquele mal. A aventura foi colocada no papel e, em outubro de 2022, contada no YouTube do grupo O Poste Soluções Luminosas, do qual Agrinez Melo, atriz, companheira de Talles e mãe de Helô, é fundadora.

Agrinez Melo e Cecilia Chá em Helô em busca do baobá sagrado. Foto: Marcos Pastich/PCR

O suporte da literatura foi trampolim para que Agrinez Melo idealizasse o espetáculo, assinando dramaturgia, direção, composição das letras musicais e criação de figurino. Talles Ribeiro está no palco, ao lado da própria Agrinez, e dos jovens atores Cecilia Chá, Ester Soares e Fábio Henrique. Se a história traz uma narrativa de afirmação da cultura negra no contexto das infâncias, exemplificando a tristeza, por exemplo, como consequência do racismo e do bullying com crianças pretas, o fato de termos esse elenco potencializa esse discurso, dando concretude à representatividade.

Num cenário para as infâncias no qual as Cinderelas – ainda – têm o protagonismo e as lojas de brinquedos estão amontoadas de Barbies (isso está mudando, embora mais lentamente do que gostaríamos), ver um elenco inteiro de artistas pretos numa peça voltada às crianças é um manifesto representativo. Olhar para a plateia e perceber crianças negras se identificando com aqueles personagens, pessoas que se parecem com elas, se configura como possibilidade de transformação e de futuro. Deveria ser comum, trivial até, mas ainda não é; e por isso esse ponto precisa ser ressaltado neste texto. Ainda mais quando todo o elenco é bom, equilibrado, afinado e, além de uma atriz com a experiência e o talento de Agrinez Melo, traz atores jovens, que vislumbro como promessas, como Cecília Chá, que ainda canta lindamente, e Ester Soares.

Música é uma das potências do espetáculo. Foto: Marcos Pastich/PCR

No teatro, Helô em busca do baobá sagrado não faz citações diretas à pandemia: a doença que impede o povo de Helô de sorrir é a tristeza. Aconselhada por sua avó, a Velha Cachimbeira, Helô e o pai vão à Floresta Negra para encontrar o fruto sagrado do Baobá. Acompanhamos essa trajetória dos dois, um mergulho na ludicidade, na aventura, na permissão para brincar e vivenciar uma história que tem como personagens um Baobá de 800 anos, um pé de jaca de 100 anos, o médico Dr. Sapão, a Corujita, além da Comadre Fulozinha, dos encantados e de muitos outros. Alguns desses personagens vão ajudar Helô na sua missão, como a sua amiga Anahí, mas outros representam os obstáculos a serem superados, como Seu Quadrado, que fez o mundo ficar cinza e chato com seu preconceito. O espetáculo exalta a ancestralidade, os orixás, a natureza.

A aventura proposta é um deleite à imaginação. Ainda assim, nas montagens infantis, um dos vícios dramatúrgicos é a tentativa de falar sobre temas como coragem com textos diretos, que podem resvalar para uma positividade desmesurada. Sou da geração que cresceu cantando “Tudo pode ser…só basta acreditar” e esse mesmo espírito está na dramaturgia quando, por exemplo, o pai diz que está pensando em desistir da missão na Floresta, e a criança retruca: eles não teriam tentado direito ainda; ou quando o pai fala que a missão é impossível e eles deveriam desistir, e é a criança quem impede que isso aconteça, mostrando ao pai que supostamente não há impossíveis. Em Helô…, a história incorpora a coragem em sua narrativa, de modo muito mais efetivo e sem a necessidade de discursos simplórios. Essa criança – e a sua amiga Anahí – são motores de mudança e instigam os adultos nesse movimento.

Talles Ribeiro e Cecilia Chá. Foto: Edpo César

Numa história colorida, de muitos personagens “incríveis”, aventura e suspense, as soluções cênicas do espetáculo são geralmente inventivas e adicionam camadas à possibilidade da brincadeira, como os diversos tipos de bonecos que compõem a cena, e os atores que se desdobram em mais de um personagem. Especialmente no caso de Talles Ribeiro, quando essa mudança acontece de forma instantânea – na mesma cena ele sai de um personagem para assumir o outro – o pacto lúdico com a plateia é reforçado e gera boas surpresas e risadas.

Um dos elementos de encantamento do espetáculo é a música, uma das dramaturgias da peça. A criação musical foi realizada por Beto Xambá e Thúlio Xambá, músicos do grupo Bongar, as letras, como já dito, são de Agrinez Melo, e a criação da sonoplastia e a execução musical ao vivo são de Monique Sampaio e Paulinho Folha.

Helô em busca do baobá sagrado reafirma a importância da representatividade, das crianças se enxergarem em todos os campos da nossa sociedade, inclusive no teatro, e terem orgulho de si mesmas e de sua ancestralidade. É uma peça que exalta o valor da cor na criança preta, os seus cabelos crespos e frondosos, as suas experiências de vida em comunidade, alimentando a alegria, a criatividade e a brincadeira como potências instigadoras de transformação.

Dr. Sapão (Fábio Henrique) é um dos personagens desta aventura. Foto: Edpo César

Ester Soares como Anahí, amiga de Helô. Foto: Edpo César

Cecilia Chá é a protagonista Helô. Foto: Edpo César

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha técnica:
Helô em busca do baobá sagrado
Elenco: Agrinez Melo, Cecilia Chá, Ester Soares, Fábio Henrique e Talles Ribeiro
Dramaturgia, direção, composição das letras musicais e criação de figurino: Agrinez
Melo
Criação musical: Beto Xambá e Thúlio Xambá
Criação sonoplastia e execução musical: Monique Sampaio e Paulinho Folha
Preparação de canto, cenografia, máscaras e adereços: Douglas Duan
Preparação vocal de atores: Naná Sodré
Criação de maquiagem: Vinicius Vieira
Criação e confecção de bonecos: Célia Regina
Iluminação: André Cordeiro
Execução de figurino: Francis Souza e Monique Nascimento, Álcio Lins e Ágata Gabrielli
Consultoria coreográfica: Washi San’s
Assistente de produção e social mídia: Brunna Martins
Produção geral e realização: DoceAgri

 

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Um mês de “Janeiro de Grandes
Espetáculos” com 140 atrações
celebra Chico Science

Desfile da coleção Anamauê – Ecoando a Transformação, assinada pelo estilista Mendx, com a participação de  Louise França, filha de Chico Science, abre o Janeiro. Foto: Rasta Click / Divulgação

Chico Science é celebrado nessa edição do festival. Foto: Divulgação

Zambo, do Grupo Experimental, foi criada em 1997 como homenagem a Chico Science e ao Manguebeat

Circo Science: Do Mangue ao Picadeiro, da Escola Pernambucana de Circo. Foto: Divulgação

O Janeiro de Grandes Espetáculos (JGE) chega à sua 32ª edição com uma trajetória que espelha as próprias transformações da cena cultural pernambucana. Além do teatro, o JGE abriga sob seu guarda-chuva múltiplas linguagens artísticas e festivais específicos, cada um com sua identidade e propósitos.

Se no início de sua trajetória o Janeiro almejou e conseguiu reunir o que existia de mais expressivo no cenário nacional em termos de linguagem cênica, ousadia ou experimentação, isso já se modificou ao longo dessas três décadas. Hoje, os realizadores são categóricos ao afirmar que o festival se tornou uma vitrine da produção local, com impressionantes 95% de montagens pernambucanas compondo sua programação entre 7 de janeiro e 4 de fevereiro de 2026.

O tema deste ano é uma homenagem a Chico Science, que completaria 60 anos em 2026. Embora não seja um conceito que articule profundamente todos os participantes, a celebração permeia o festival, marcando sua 32ª edição com um tributo ao legado do artista.

Isso está sintetizado neste 7 de janeiro no Teatro de Santa Isabel. Pela primeira vez na sua história o JGE inicia saudando a moda pernambucana, como linguagem central da cena de abertura. 

A partir das 18h30, a artista Michelly Cross apresenta no hall de entrada a performance musical Meso’Mangue’Potamos no violoncelo, um pocket show de 30 minutos que faz uma ponte simbólica entre os rios Eufrates e Tigre do Oriente Médio e os rios Capibaribe e Beberibe do Recife. A apresentação conta com a participação especial de dança e expressão corporal de Ruth Mila.

Simultaneamente, acontece o lançamento de dois livros significativos: Chico Science e o Movimento Mangue (2ª edição), de Moisés Monteiro de Melo Neto, obra que revisita a trajetória de Chico Science e do Manguebeat com análise histórica e cultural do movimento que transformou a música brasileira, e Pedagogia Axiológica Emergente para o Teatro, de Benedito José Pereira – Didha Pereira, que propõe uma pedagogia teatral decolonizadora voltada à formação crítica, valores sociais e acesso democrático à arte.

O ponto alto da noite ocorre às 19h30 com a coleção Anamauê – Ecoando a Revolução, assinada pelo estilista Marcelo Mendx, conduzindo o público a uma abertura inédita do Janeiro de Grandes Espetáculos. Inspirada na estética do Movimento Manguebeat, a coleção apresenta 20 figurinos que dialogam com a diversidade cultural, urbana e ancestral do Recife, tendo a batida de Chico Science como guia simbólico.

O desfile reúne um elenco formado por artistas consagrados da dança, do teatro, do circo e da música. Entre elas e eles, estão as atrizes e bailarinas Íris e Iara Campos, os passistas Pinho e Minininho, a atriz e apresentadora Nínive Caldas, a atriz e palhaça Fabiana Pirro e a cantora, compositora e atriz Louise França, filha de Chico Science. 

A homenagem a Chico Science se desdobra em outras produções que integram o festival. Circo Science: Do Mangue ao Picadeiro figura entre as melhores encenações produzidas na cidade nos últimos anos, uma criação da Escola Pernambucana de Circo com direção de Ítalo Feitosa e dramaturgia de Fátima Pontes, que poderia muito bem abrir o festival, pois carrega uma força energética e fala do Chico a partir de hoje; mas vai para o final da maratona cênica. Através de números circenses, coreografias e expressões corporais e com músicas originais de Science remixadas por DJ Vibra e equipe, o espetáculo conecta o legado mangue com as manifestações culturais contemporâneas das periferias do Recife. Está agendado para 1º de fevereiro no Teatro do Parque.

Zambo, do Grupo Experimental, dirigido por Mônica Lira, constitui outro trabalho de referência direta ao músico. Criada em 1997 como homenagem a Chico Science e ao Movimento Manguebeat, a obra se atualizou ao longo dos anos, mantendo a força da diversidade e da identidade cultural pernambucana.

Um caleidoscópio teatral

Remontagem Auto da Compadecida estreia no JGE. Foto Divulgação

Um Sábado em 30, remontagem de comédia de Luiz Marinho consagrada pelo Teatro de Amadores de Pernambuco – TAP. Foto: Divulgação

Memórias Póstumas de Brás Cubas, solo com Marcos Damigo. Foto: Divulgação

O teatro, que permanece como a espinha dorsal do JGE, apresenta mais de 60 peças adultas e infantis, distribuídas entre os principais espaços cênicos da cidade. São tantas montagens oferecidas que o espectador precisa fazer uma verdadeira garimpagem para encontrar o tipo de trabalho que lhe convém, pois há um impressionante sortimento de atrações e de variáveis qualidade de produção nesse repertório.

Entre as estreias, Auto da Compadecida – Uma Farsa Modernesca, dos diretores recifenses Célio Pontes e Eron Villar, revisita a dramaturgia de Ariano Suassuna propondo um diálogo entre a cultura popular nordestina e o teatro contemporâneo. Outra remontagem notável é a do clássico da dramaturgia pernambucana Um Sábado em 30, comédia de Luiz Marinho que esteve em cartaz por várias décadas com o elenco do Teatro de Amadores de Pernambuco. O solo musical cômico-fantástico Memórias Póstumas de Brás Cubas, com Marcos Damigo, é uma produção carioca que faz sucesso há anos em várias temporadas e prova a atemporalidade do clássico machadiano.

É interessante notar que Machado de Assis vai ao palco em diversas montagens: além de Memórias Póstumas, há Dom Casmurro, adaptação de Moisés Monteiro de Melo Neto que explora as relações de amor, traição e desconfiança no oitocentismo fluminense, e O Alienista – Casa dos Loucos, do Grupo Cena Livre, que transforma a quase-novela machadiana em farsa de ritmo veloz, própria do nosso tempo, com os quatro atores nunca saindo de cena e se transformando aos olhos do público através de adereços.

Ophélia, com Pollyanna Monteiro. Foto: Divulgação

Fabiana Pirro e Jr Sampaio em Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III. Foto: Divulgação

Medeia – Da Lama ao Caos, dirigida por Antônio Rodrigues. Foto: Divulgação

Vossa Mamulengecência tem texto de Arthur Cardoso inspirado na obra de Ariano Suassuna. Foto: Divulgação

Lucinha Guerra em Cantigas à Pedra do Reino, que trabalha o universo suassuniano através de músicas

A multiplicidade teatral se estende às novas versões de clássicos: Ophélia, da Cia. de Teatro e Dança Pós-Contemporânea d’Improvizzo Gang, com Pollyanna Monteiro, oferece uma versão feminista da personagem shakespeariana, contada por uma mulher em meio à violência extrema, enquanto Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III, com Fabiana Pirro e Júnior Sampaio, mergulha nas contradições de dois artistas que encenam Shakespeare, explorando não apenas o texto, mas os subtextos que emergem das tensões em cena.

Como releitura de clássico diretamente influenciada pelo Manguebeat, Medeia – Da Lama ao Caos, dirigida por Antônio Rodrigues e com Beatriz Kemily, Gabriela Cicarello, Gabriela Moreira e elenco, reinventa o mito grego para o coração do Recife, onde o mangue é palco de traição, vingança e resistência contra o avanço voraz do falso progresso e da especulação imobiliária.

A obra de Ariano Suassuna ganha múltiplas abordagens. Além da já mencionada estreia de Auto da Compadecida – Uma Farsa Modernesca, o festival apresenta Vossa Mamulengecência, releitura autoral do universo suassuniano com dramaturgia e direção de Arthur Cardoso. Formado por um grupo de jovens artistas, o espetáculo mergulha no universo fantástico de Cheiroso Dorabela – mestre de mamulengos e vendedor de perfumes – que usa suas histórias para questionar figuras de autoridade. E Cantigas à Pedra do Reino, idealizado pela multiartista Lucinha Guerra, com direção de Romero de Andrade Lima, sobrinho de Ariano, celebra o legado suassuniano através de músicas, cantigas e loas que preservam a essência do Movimento Armorial.

A Paixão Segundo José Francisco Filho, conecta a história de Cristo com a figura de Antônio Conselheiro

Francisco – Um Instrumento de Paz, uma produção de Roberto Costa

Circo Godot, dirigido por Quiercles Santana e interpretado por Charles de Lima e Asaías Rodrigues 

Noite, com Fátima Aguiar, Karine Ordonio e Sônia Biebard num texto de Ronaldo Correia de Brito, com direção de Cláudio Lira 

Há espaço significativo para montagens com inspiração cristã: A Paixão Segundo José Francisco Filho, dirigida por José Francisco Filho com texto de Moisés Monteiro de Melo Neto e produção de Mísia Coutinho, conecta a história de Cristo com a realidade brasileira através da figura de Antônio Conselheiro. Enquanto o musical Francisco – Um Instrumento de Paz, da produção de Roberto Costa, retrata a jornada de São Francisco de Assis com música ao vivo e cenários que reportam à Assis do século XIII.

Entre as apostas locais que dialogam com questões urgentes do presente, encontra-se A Divina & o Esplendor – Uma Farsa Forçada, que combina farsa, melodrama, comédia e teatro de formas animadas para criticar a manipulação cultural. Já consolidado no cenário teatral pernambucano e internacional, Circo Godot, da Companhia Circo Godot de Teatro, dirigido por Quiercles Santana e interpretado por Asaías Rodrigues e Charles de Lima, comprova que o diálogo com grandes dramaturgos – neste caso, Samuel Beckett – pode gerar reflexões poderosas sobre o sadismo dos que detêm o poder.

A literatura brasileira encontra eco em F.A.M.A – Feliz Aniversário Meu Amor, livre adaptação do conto Feliz Aniversário de Clarice Lispector que transporta para o palco o retrato cruel, cômico e pungente de uma reunião familiar onde a celebração deveria trazer alegria, mas revela solidão e introspecção em meio às complexas dinâmicas familiares. Uma atmosfera semelhante de confinamento e reflexão sobre os laços afetivos permeia Noite, do dramaturgo Ronaldo Correia de Brito, com direção de Cláudio Lira e Sônia Biebard, Fátima Aguiar e Karine Ordonio no elenco, que acompanha duas velhas irmãs isoladas numa antiga casa em ruínas enquanto revisitam valores, família e amores perdidos. Já Um Minuto pra Dizer que te Amo, do Matraca Grupo de Teatro, dirigido por Rudimar Constâncio, explora as fragilidades humanas através de cenas alternadas que acompanham a relação entre um homem idoso e seu filho, e uma mulher e sua cuidadora, todos separados pelo Alzheimer, criando um mosaico afetivo onde recordações perdidas se embaralham com memórias impossíveis de esquecer e lembranças inventadas, numa visão tocante da vida em seu ocaso.

O ator Júnior Sampaio marca presença em duas montagens: no solo Atores, que explora as dificuldades da profissão artística, e em Cúmplices, já citada, baseada na peça Ricardo III de Shakespeare, onde divide a cena com Fabiana Pirro.

Gonzaga Leal em Antonin Artaud – Entre a Ordem e a Vertigem. Foto: Divulgação

Germano Hauit em O Futuro Dura Muito Tempo. Foto: Divulgação

Suzy Brasil – Uma Noite Horripilante. Foto: Divulgação

O Ciclo Iluminuras apresenta três monólogos dirigidos por Gonzaga Leal: Antonin Artaud – Entre a Ordem e a Vertigem, com interpretação do próprio Gonzaga Leal, percorrendo momentos de internações psiquiátricas e criação absurda; O Futuro Dura Muito Tempo, com Germano Hauit adentrando a narrativa de Althusser; e Carta a Spinoza, com Maria Oliveira atravessando pensamentos e sentimentos sobre a loucura e a humanidade.

A presença drag marca território no JGE com Suzy Brasil – Uma Noite Horripilante, produção carioca que mistura conto de fadas, sátira e interação com o público, explorando as múltiplas camadas da performance drag através do humor e da fantasia. Também abordando questões de gênero, mas de uma perspectiva mais íntima e autobiográfica, HBlynda em Trânsito apresenta o solo da atriz HBlynda Morais, que após 15 anos no campo das artes cênicas compartilha seu processo de transição de gênero através de uma linguagem que combina dança e música para narrar sua jornada pessoal.

Sugerimos que o espectador visite o site do JGE para explorar a programação e encontrar as atrações que mais o atraem.

Teatro para Infância e Juventude

Cantigas de Fiar, da Companhia Fiandeiros de Teatro. Manuel Carlos é um dos atores-cantores

A Cigarra e a Formiga, da Roberto Costa Produções. Foto: Divulgação

O JGE 2026 dedica uma seção especial ao público mais jovem, com uma programação diversificada de Teatro para Infância e Juventude que explora desde questões ambientais até adaptações de grandes clássicos da literatura mundial. Ao todo, são 14 espetáculos distribuídos ao longo do festival, prometendo encantar e educar através da magia do teatro.

A programação infantojuvenil se inicia no dia 8 de janeiro com Tatu-do-bem, da Companhia Catalumari e os Giguiotes, no Teatro Apolo. O espetáculo apresenta Andrezinho, filho de atores nômades que inicialmente detesta a profissão dos pais, mas que ao conhecer Tuta e Teteu, dois tatus-bolas apaixonados por arte, embarca em uma aventura lúdica pela caatinga. A montagem utiliza visualidades e ritmos da cultura pernambucana para contar uma história que enfrenta Caco, o carcará ditador que ameaça o bioma nordestino.

O universo da fantasia se expande com O Segredo da Arca de Trancoso, da Cênicas Cia de Repertório. Neste espetáculo repleto de reviravoltas, um menino recebe da feiticeira K’Temeré a perigosa missão de entregar uma arca misteriosa sem jamais abri-la. Sua jornada revela o poder mágico do objeto, que oferece conteúdos diferentes para cada pessoa – premiando uns e castigando outros – numa narrativa que dialoga com o imaginário popular brasileiro sobre tesouros e mistérios.

A Cigarra e a Formiga, da Roberto Costa Produções, apresenta uma adaptação musical da clássica fábula de Esopo com 5 atores e 3 músicos, trazendo personagens como Dona Joaninha, Abelhão e Borboleta para falar sobre responsabilidade, solidariedade e amizade através de figurinos caprichados e efeitos especiais. Em contrapartida, Cantigas de Fiar, da Companhia Fiandeiros de Teatro, oferece uma opção mais intimista ao explorar o tema da saudade em um show leve e interativo que percorre trilhas sonoras de espetáculos infantis recifenses, funcionando como uma homenagem às crianças, ao teatro e ao poeta André Filho, com toda a execução musical – textos e instrumentos – realizada pelos próprios atores da companhia.

Entre os clássicos adaptados para o público jovem, temos O Pequeno Príncipe, também da Cênicas Cia de Repertório. A adaptação dirigida por Antônio Rodrigues, com direção musical de Douglas Duan, transporta o público para o reencontro com a criança interior através da inesperada amizade entre um homem perdido no deserto e um garoto vindo de outro planeta. O musical apresenta trilha sonora original executada ao vivo pelos atores, revelando a jornada do Pequeno Príncipe por diferentes mundos e seus encontros com a rosa devotada e a raposa afetuosa.

Shakespeare também encontra espaço na programação infantil através de duas adaptações criativas que aproximam o dramaturgo inglês do universo lúdico das crianças. Hamilet no Circo transporta o drama shakespeariano para o universo circense, criando uma releitura que busca combinar a profundidade dos conflitos humanos com a magia e o espetáculo do picadeiro. Já Sonho de uma Noite de Verão encerra a programação infantil oferecendo ao público jovem uma entrada encantada no mundo da comédia shakespeariana através de suas criaturas fantásticas e tramas de amor e confusão.

Programação completa de Teatro para Infância e Juventude:

08 JAN – 16h30: Tatu-do-bem no Teatro Apolo
10 JAN – 16h30: Jeremias e as Caraminholas no Teatro Barreto Júnior
11 JAN – 16h30: Histórias Pontilhadas na Caixa Cultural
11 JAN – 16h30: A Princesa dos Mares no Teatro Santa Isabel
11 JAN – 17h: O Segredo da Arca de Trancoso no Teatro do Parque
17 JAN – 16h: Matilda no Cine Teatro Samuel Campelo
18 JAN – 16h: A Cigarra e a Formiga no Teatro do Parque
18 JAN – 16h30: Hamilet no Circo no Teatro Apolo
18 JAN – 17h: O Pequeno Príncipe no Teatro Santa Isabel
24 JAN – 16h: Cantigas de Fiar  no Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros
25 JAN – 16h: Cantigas de Fiar no Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros
25 JAN – 16h30: Tudo Começou Assim no Teatro Apolo
27 JAN – 17h: Os Protetores do Oceano no Teatro Capiba
01 FEV – 16h30: Sonho de uma Noite de Verão no Teatro Apolo

Música: Entre Tradição e Experimentação

Moreno Veloso e Igor de Carvalho. Foto: Divulgação

Revoredo e Gabi da Pele Preta no show Encruzilhada Agreste. Foto: Divulgação

Show de João Fenix, Luz e Fé, com direção cênica de Jean Wyllys. Foto: Divulgação

No campo da música, o festival traz quase 20 apresentações, numa curadoria que busca tanto celebrar nomes consolidados quanto abrir espaço para novas sonoridades. O encontro de Igor de Carvalho e Moreno Veloso, que dividem o palco com a participação especial de Lula Queiroga e Karina Buhr, promete um diálogo íntimo e afetuoso, trazendo à tona as ricas sonoridades dos terreiros.

O projeto Elas Cantam Elba reúne  Cristina Amaral, Deusa nordestina do forró, Liv Morais e Natasha Falcão e faz um passeio pelo repertório da cantora paraibana. A incorporação da ópera, com o espetáculo Anastácia, sinaliza uma ampliação do escopo musical do festival.

A programação musical apresenta desde Janga, show de Ylana inspirado nas memórias de infância no bairro homônimo, em Paulista, até Maestro Duda – Uma Visão Nordestina, espetáculo com nuances de concerto-aula que celebra a trajetória do maestro.

Encruzilhada Agreste, protagonizado por Revoredo e Gabi da Pele Preta, celebra as raízes agrestinas na música contemporânea, enquanto Do Frevo ao Jazz, concerto do Maestro Edson Rodrigues, constrói pontes entre a tradição pernambucana e a linguagem jazzística.

O frevo ganha destaque em Felipe Costta Trio – Frevo Sanfonado, espetáculo instrumental que exalta o ritmo em diálogo com a sanfona. Luz e Fé, show de João Fenix, com direção cênica de Jean Wyllys, conduz o público por um repertório de fé e esperança, apresentado pela voz singular do cantor pernambucano que conquistou o mundo. A presença internacional marca-se com Concerto de Música Européia e Latina, do músico eslovaco Adam Marec.

A ancestralidade afro-brasileira encontra expressão em Ọ̀ṣun Oxum Ochun – Afoxé Oxum Pandá + Luiz de Aquino, um ritual contemporâneo que celebra a força da água doce através de uma experiência sensorial, experimental e afrofuturista, com roteiro, concepção e direção geral de Jorge Féo.

O Festival de Palhaçaria: Território de Mulheres

Espetáculo As Charlatonas faz sessão na Praça do Campo Santo Amaro. Foto: Divulgação

Cabaré Janeiro de Palhaças, na Caixa Cultural. Foto: Divulgação

Mary En em Riso e Caos, com Enne Marx na Casa de Alzira. Foto: Divulgação

O PalhaçAria – Festival Internacional de Palhaças do Recife chega à sua 5ª edição em formato pocket, reafirmando seu papel como um dos mais importantes encontros de palhaçaria feminina no Brasil, criado e realizado pela Cia Animée, sob direção de Enne Marx. O festival, que acontece entre 13 e 23 de janeiro, enaltece a valorização da comicidade feminina com 8 espetáculos, um fórum de debates, um lançamento de livro e uma websérie.

A programação oferece um panorama da palhaçaria feminina contemporânea:

13 JAN – 19h: Mary En em Riso e Caos na Casa de Alzira. Uma performance que explora a comicidade através do riso e do caos.
13 JAN – 20h30: Lançamento do livro Cegonha de Mim na Casa de Alzira. Um evento literário que acompanha a programação artística.
14 JAN – 19h: Bem Me Quero na Casa de Alzira. Um espetáculo que celebra o autocuidado e a autoaceitação com humor e poesia.
15 JAN – 19h: Cabaré Janeiro de Palhaças na Caixa Cultural. Uma noite especial reunindo diversas palhaças em números variados de humor e arte circense.
16 JAN – 19h: As Testemunhas Duo: A Aparição no Teatro Apolo. Uma peça de circo-teatro que promete momentos de surpresa e reflexão.
17 JAN – 19h: Umana no Teatro Santa Isabel. Um solo ou duo que aborda a condição humana com a leveza e a profundidade da palhaçaria.
18 JAN – 11h: Fórum Entre Narizes e Fronteiras: Palhaçaria Feminina em Diálogo Brasil–Portugal na Caixa Cultural. Mediado por Enne Marx, este fórum promove um intercâmbio de ideias e práticas entre artistas brasileiras e portuguesas, explorando a pesquisa e a formação em palhaçaria.
18 JAN – 15h30: As Charlatonas na Praça do Campo Santo Amaro. Uma apresentação ao ar livre que brinca com a figura da vendedora de ilusões e o universo da charlatanaria.
18 JAN – 16h30: As Testemunhas Duo: A Aparição no Sesc Camaragibe. Uma segunda oportunidade para assistir à performance de circo-teatro.
18 JAN – 18h: A Oração no Teatro Arraial Ariano Suassuna. Um espetáculo que pode explorar temas espirituais ou sociais sob a ótica do palhaço.
23 JAN – 19h: O encerramento acontece com a websérie Mary En 20 Anos, transmitida pelo YouTube da Cia Animèe, celebrando a trajetória da artista Mary En.

Enne Marx, reconhecida internacionalmente por seu trabalho de pesquisa e formação em palhaçaria, traz uma perspectiva acadêmica que dialoga com a prática artística no fórum, promovendo intercâmbio entre artistas brasileiras e portuguesas. O festival se conecta com a Rede de Festivais de Palhaças do Brasil, que hoje reúne mais de 20 iniciativas, consolidando Recife como polo difusor da palhaçaria feminina.

Dança e Circo: Corpos em Movimento

V Festival Pole Dance de Pernambuco integra o JGE. Foto: Divulgação

Corpos em Travessia que inclui no elenco pessoas com deficiência. Foto: Divulgação

A diversidade é palavra-chave na programação de dança do JGE, que abrange desde o clássico O Lago dos Cisnes da Cia Fátima Freitas – tradicional montagem do balé de Tchaikovsky com Helena Fink e Maria Júlia Cavalcanti nos papéis principais – até manifestações contemporâneas como o V Festival Pole Dance de Pernambuco, que sob a direção de Alexandra Valença, pioneira da modalidade no Brasil, ressignifica o mesmo clássico através da força e elegância do pole dance.

Entre essas polaridades, o Festival Florescer de Danças Árabes e Fusões, criado por Simone Mahayla e dedicado ao talento das escolas da Região Metropolitana, dialoga com Corpos em Travessia, espetáculo que demonstra como a dança contemporânea pernambucana busca um vocabulário corporal que mescle técnicas do flamenco, dança clássica e contemporânea, baseado no poema de Josimar Lourenço e desenvolvido por um elenco que inclui pessoas com deficiência.

No universo circense, o JGE apresenta um leque que se estende do tradicionalíssimo Eu, Você e o Circo Alakazan a propostas contemporâneas que dialogam com questões sociais urgentes, como Sem Nome o Desempregado, que conta a história de um palhaço que, após perder o pai na pandemia e ver o circo esvaziado pela preferência do público pelas telas digitais, luta para manter a tradição familiar funcionando. Quando a realidade se impõe, ele se vê obrigado a procurar emprego fora da lona.

Cinema: A Sétima Arte no Janeiro

Kátia Mesel realizadora do filme Recife de Dentro pra Fora, de 1997. Foto: Divulgação

A incorporação do cinema como linguagem fixa significa mais do que ampliação de escopo – reconhece a força do audiovisual pernambucano. A escolha do Cinema São Luiz valoriza um espaço que carrega a memória cinematográfica da cidade.

Os quatro curtas-metragens selecionados traçam um panorama da produção audiovisual local: “Recife de Dentro pra Fora“, de Katia Mesel, e “O Mundo é uma Cabeça“, de Bidu Queiroz e Cláudio Barroso, somam-se a “Sim ou Não?“, estreia de Tiago Leitão, e “Recife Frio“, de Kleber Mendonça Filho. A sessão (2 de fevereiro) tem entrada mediante doação de 1kg de alimento, reforçando o caráter social do festival.

A Mostra de Cenas Curtas

A Mostra Janeiro de Cenas Curtas ocupará o Teatro Barreto Júnior entre 16 e 18 de janeiro. Com 27 cenas de 8 a 15 minutos cada, a mostra funciona como laboratório onde atores e autores estreantes podem experimentar diante do público.

A premiação dos três melhores trabalhos e a entrega de troféus para melhor direção e melhores atuações cria um circuito de legitimação que pode ser decisivo para carreiras artísticas. O formato permite experimentação que seria mais difícil em espetáculos de longa duração, funcionando como termômetro das tendências da cena teatral emergente.

Dimensão Territorial

O JGE 2026 se expande do Recife para Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe, Goiana e Limoeiro. A programação internacional conta com obras da Argentina, Portugal e Eslováquia, complementada por produções de Brasília, Rio de Janeiro, Maceió e São Paulo.

Homenageados

Maestro Duda. Foto Divulgação

Ator, diretor, dramaturgo e jornalista José Mário Austragésilo. Foto: Divulgação

Severino Florêncio no espetáculo A visita. Foto: Divulgação

Os homenageados desta edição representam diferentes gerações e linguagens que contribuíram para a construção da cena cultural pernambucana. José Mário Austragésilo e Severino Florêncio, no teatro, são nomes fundamentais da dramaturgia e da direção teatral no estado. Austragésilo é reconhecido como um dos principais responsáveis pela modernização do teatro pernambucano, tendo dirigido espetáculos que marcaram época e formado gerações de atores.

Severino Florêncio defende uma vertente popular do teatro pernambucano, com trabalhos que dialogam diretamente com as tradições culturais do estado. Sua obra inclui adaptações de folhetos de cordel, autos natalinos e espetáculos que incorporam elementos do mamulengo e outras manifestações populares.

Mestra Nice, homenageada na dança, é uma das principais responsáveis pela preservação e renovação das danças populares pernambucanas. Seu trabalho de pesquisa e ensino tem formado bailarinos que atuam tanto em grupos tradicionais quanto em companhias contemporâneas.

A Escola Pernambucana de Circo, homenageada na categoria circo, constitui um marco na formação circense do estado. Fundada com o objetivo de profissionalizar e democratizar o acesso às artes circenses, a escola tem formado gerações de artistas que hoje atuam em companhias nacionais e internacionais.

Rose Mary Martins, na ópera, é pioneira na difusão desta linguagem em Pernambuco. Seu trabalho como cantora, professora e produtora tem sido fundamental para a criação de um público e de uma cena operística no estado.

Maestro Duda, homenageado na música, é um dos maiores compositores, arranjadores e instrumentistas do frevo pernambucano. Sua obra inclui arranjos para orquestras sinfônicas, grupos de frevo e big bands, além de composições próprias que se tornaram clássicos do repertório carnavalesco.

Troféus e parcerias

Quanto ao Prêmio JGE Copergás será entregue no dia 4 de fevereiro no Teatro do Parque, com 30 troféus distribuídos em seis categorias, apontado como um termômetro da produção artística do estado. 

A realização do JGE une diferentes instâncias através da parceria entre a Apacepe (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco), o Sesc e um conjunto de apoiadores institucionais. Suape figura como patrocinador máster, enquanto Fundarpe (Governo do Estado de Pernambuco), Fundação de Cultura Cidade do Recife e Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife atuam como parceiros institucionais. A Copergás mantém o tradicional patrocínio do prêmio que encerra o festival.

Os ingressos variam entre R$ 10 e R$ 140, com opções de espetáculos gratuitos mediante doação de 1kg de alimento não perecível, democratizando o acesso à cultura.

SERVIÇO

Abertura : Moda e Manguebeat
Em 7 de janeiro no Teatro de Santa Isabel, pela primeira na história do festival, o JGE inicia celebrando a moda pernambucana.
Anamauê – Ecoando a Revolução
Estilista: Mendx
Conceito: 20 figurinos inspirados na estética do Movimento Mangue
Elenco: Artistas como Íris e Iara Campos, Pinho, Minininho, Fabiana Pirro e Louise França (filha de Chico Science)

Estrutura e Alcance do Festival
📍 Locais no Recife
Teatro de Santa Isabel
Teatro do Parque
Teatro Apolo
Teatro Hermilo Borba Filho
Teatro Barreto Júnior
Teatro Capiba
Arraial Ariano Suassuna
Teatro André Filho (Espaço Fiandeiros)
Casa de Alzira
Praça do Campo Santo
Cinema São Luiz

🌍 Expansão Regional
Jaboatão dos Guararapes
Camaragibe
Goiana
Limoeiro

🌎 Participação Internacional
Além das produções nacionais (Brasília, Rio de Janeiro, Maceió, São Paulo), o festival recebe obras da 
Argentina
Portugal
Eslováquia

Destaques Especiais
🏆 Homenageados 2026
Teatro: José Mário Austragésilo e Severino Florêncio
Dança: Mestra Nice
Circo: Escola Pernambucana de Circo
Ópera: Rose Mary Martins
Música: Maestro Duda

🎭 Mostra Janeiro de Cenas Curtas
Local: Teatro Barreto Júnior (16-18 de janeiro)
Objetivo: Dar visibilidade a atores e autores iniciantes
Formato: 27 cenas de 8 a 15 minutos
Premiação: Melhores trabalhos, direção e atuações

🏅 Prêmio JGE Copergás
Data: 4 de fevereiro no Teatro do Parque
Categorias: 30 troféus em Teatro Adulto, Teatro Infantil, Dança, Circo e Música

Informações Práticas
🎫 Ingressos: R$ 10 a R$ 140 (disponíveis na Sympla)
🆓 Opções gratuitas: Mediante entrega de 1kg de alimento não perecível

🌐 Programação completa: www.festivaljge.com.br
Realização: Apacepe (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco)
Parcerias: Sesc, Suape, Fundarpe, Fundação de Cultura Cidade do Recife

🗓️ PROGRAMAÇÃO POR DATA

07 DE JANEIRO
19h – ABERTURA DO 32º JANEIRO DE GRANDES ESPETACULOS (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – Livre
19h – OPHÉLIA (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 14 anos

08 DE JANEIRO
16h30 – TATU-DO-BEM (Teatro Apolo) – Teatro Infantil – Livre
19h – A PAIXÃO SEGUNDO JOSÉ FRANCISCO FILHO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – Livre
20h – DOM CASMURRO (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos

09 DE JANEIRO
18h – HERMANOS – UMA COMÉDIA DE IRMÃOS (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Adulto – 14 anos
19h – MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – A DIVINA & O ESPLENDOR – UMA FARÇA FORÇADA (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – MISTURA NORDESTINA (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Música – Livre
20h – JANGA (Teatro Hermilo Borba Filho) – Música – Livre
20h – DOM CASMURRO (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos

10 DE JANEIRO
15h – Oficina: “Maestro Edson Rodrigues – Do Frevo ao Jazz” (Caixa Cultural) – Música – 14 anos – GRATUITO
16h30 – JEREMIAS E AS CARAMINHOLAS (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – EU, VOCÊ E O CIRCO ALAKAZAM (Teatro Hermilo Borba Filho) – Circo – Livre
18h – MOINHO (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 18 anos
19h30 – Maestro Duda – Uma Visão Nordestina (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO
19h30 – POLI DA RAIZ AO CANTO (Teatro do Parque) – Música – Livre
20h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – O ALIENISTA – CASA DOS LOUCOS (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – PERNAMBUCO ARRETADO (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Música – Livre

11 DE JANEIRO
16h – VOSSA MAMULENGECÊNCIA (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos
16h30 – HISTÓRIAS PONTILHADAS (Caixa Cultural) – Teatro Infantil – Livre 
16h30 – A PRINCESA DOS MARES (Teatro Santa Isabel) – Teatro Infantil – Livre
17h – NORDESTINADOS IN CIRCUS (Teatro Apolo) – Circo – Livre
17h – O ÚLTIMO CIGARRO (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 12 anos
17h – SEM NOME O DESEMPREGADO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Circo – Livre
17h – O SEGREDO DA ARCA DE TRANCOSO (Teatro do Parque) – Teatro Infantil – Livre
19h – VOSSA MAMULENGECÊNCIA (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos

13 DE JANEIRO
18h30 – WICKED (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – Mary En em Riso e Caos (Casa de Alzira) – Circo – 16 anos
19h30 – HBLYNDA EM TRASITO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 16 anos
20h30 – LANÇAMENTO LIVRO “CEGONHA DE MIM” (Casa de Alzira) – Circo – Livre – GRATUITO

14 DE JANEIRO
18h30 – WICKED (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – BEM ME QUERO (Casa de Alzira) – Circo – Livre
19h – TURBANTES (Teatro Capiba) – Dança – Livre
19h – ENCRUZILHADA AGRESTE (Teatro Hermilo Borba Filho) – Música – 12 anos

15 DE JANEIRO
19h – CABARÉ JANEIRO DE PALHAÇAS (Caixa Cultural) – Circo – 16 anos 
19h – ATORES (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
19h30 – LUZ E FÉ (Teatro Capiba) – Música – Livre
20h15 – NOITE (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 14 anos

16 DE JANEIRO
19h – AS TESTEMUNHAS DUO: A APARIÇÃO (Teatro Apolo) – Circo – Livre
19h30 – O DIÁRIO QUASE RIDÍCULO DE AURORA (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – Maestro Duda – Uma Visão Nordestina (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO
19h30 – CANTIGAS A PEDRA DO REINO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – O LAGO DOS CISNES (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre
20h – MCP – O SONHO NÃO ACABOU (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – SUZY BRASIL – UMA NOITE HORRIPILANTE (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 16 anos

17 DE JANEIRO
16h – MATILDA (Cine Teatro Samuel Campelo) – Teatro Infantil – Livre
18h – FRANCISCO – UM INSTRUMENTO DE PAZ (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 14 anos
19h – UMANA (Teatro Santa Isabel) – Circo – Livre
19h30 – Do Frevo ao Jazz (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO

18 DE JANEIRO
11h – FÓRUM Entre Narizes e Fronteiras: Palhaçaria Feminina em Diálogo Brasil–Portugal (Caixa Cultural) – Circo – Livre – GRATUITO
14h – Oficina: Já que sou do pandeiro (Caixa Cultural) – Música – 14 anos – GRATUITO
15h30 – AS CHARLATONAS (Praça do Campo Santo Amaro) – Circo – Livre – GRATUITO
16h – A CIGARRA E A FORMIGA (Teatro do Parque) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – HAMILET NO CIRCO (Teatro Apolo) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – AS TESTEMUNHAS DUO: A APARIÇÃO (Sesc Camaragibe) – Circo – Livre – GRATUITO
17h – O PEQUENO PRINCIPE (Teatro Santa Isabel) – Teatro Infantil – Livre
18h – FEVEREIRO (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 16 anos
18h00 – A ORAÇÃO (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Circo – 16 anos

20 DE JANEIRO
10h – Oficina: O universo clássico-popular (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO
14h – Oficina: O universo clássico-popular (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO
19h – A BELA ADORMECIDA (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre
19h30 – DO JACKSON AO PANDEIRO por Lucinha Guerra (Caixa Cultural) – Música – Livre 

21 DE JANEIRO
19h – ELAS CANTAM ELBA (Teatro do Parque) – Música – Livre
19h30 – Rock Bossa (Caixa Cultural) – Música – Livre 
19h30 – PELA NOITE (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 16 anos
20h – CÚMPLICES – TRANSGRESSÕES DE UM RICARDO III (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos

22 DE JANEIRO
19h – CÚMPLICES – TRANSGRESSÕES DE UM RICARDO III (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – UM MINUTO PRA DIZER QUE TE AMO (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – FELIPE COSTTA TRIO – FREVO SANFONADO (Teatro Capiba) – Música – Livre

23 DE JANEIRO
19h – WEBSÉRIE MARY EN 20 ANOS (Youtube da Cia Animèe) – Circo – Livre – PELO YOUTUBE
19h – UM SÁBADO EM 30 (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – Livre
19h30 – CONCERTO DE MÚSICA EUROPÉIA E LATINA (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Música – Livre – 
19h30 – MPB BRASIL (Teatro Santa Isabel) – Música – Livre
20h – MEDEIA – DA LAMA AO CAOS (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Adulto – 16 anos
20h – CIRCO GODOT (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – Livre
20h – CÚMPLICES – TRANSGRESSÕES DE UM RICARDO III (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos

24 DE JANEIRO
16h – CANTIGAS DE FIAR (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – CAMINHOS (Teatro Capiba) – Circo – 12 anos
18h – UM SÁBADO EM 30 (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – Livre
19h – MM BEAUTY UNIVERSAL PERNAMBUCO (Teatro Barreto Júnior) – Dança – Livre – GRATUITO
19h – CORPOS EM TRAVESSIA (Teatro Apolo) – Dança – Livre
19h – CIRCO GODOT (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – Livre
20h – PURO TRANSE AO VIVO (Casa de Alzira) – Música – Livre
20h – MILAGRES (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – ZAMBO (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre

25 DE JANEIRO
16h – CANTIGAS DE FIAR (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – TUDO COMEÇOU ASSIM (Teatro Apolo) – Teatro Infantil – Livre
17h – SÓ RESTA A POEIRA PRA TRÁS (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – Livre
17h – CIRCO GODOT (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – Livre
18h – MM BEAUTY UNIVERSAL PERNAMBUCO (Teatro Barreto Júnior) – Dança – Livre – GRATUITO
18h – SANTERIA AFOXÉ OXUM PANDÁ (Teatro Santa Isabel) – Música – Livre
19h – MILAGRES (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos

27 DE JANEIRO
17h – OS PROTETORES DO OCEANO (Teatro Capiba) – Teatro Infantil – Livre
18h30 – ROUBANDO A CENA (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 12 anos
19h30 – FEUZA – ROCK / ÓPERA (Teatro do Parque) – Música – Livre
19h45 – SAUDADE, SENTIMENTO SEM TRADUÇÃO (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – MILAGRES (Galpão das Artes – Sesc Limoeiro) – Teatro Adulto – 12 anos – INGRESSO NO LOCAL

28 DE JANEIRO
16h – F.A.M.A – FELIZ ANIVERSÁRIO MEU AMOR (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – Livre – GRATUITO
19h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Cine Teatro Samuel Campelo) – Teatro Adulto – 12 anos
19h30 – IMORAIS (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 18 anos
19h30 – TUDO ACONTECE NA BAHIA (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre
20h – MILAGRES (Galpão das Artes – Sesc Limoeiro) – Teatro Adulto – 12 anos – INGRESSO NO LOCAL

29 DE JANEIRO
19h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Cine Teatro Samuel Campelo) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – MEUS 20 MINUTOS DE RECREIO (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 14 anos
19h – ANTONIN ARTAUD – ENTRE A ORDEM E A VERTIGEM (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 16 anos
19h – TEREZINHA CORAÇÃO DE BARRO (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
19h30 – SENHORA DO ENGENHO ENTRE A CRUZ E A TORÁ (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – PEDRAS, FLOR E ESPINHO (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Adulto – 14 anos – INGRESSO NO LOCAL
20h – CÚMPLICES – TRANSGRESSÕES DE UM RICARDO III (Galpão das Artes – Sesc Limoeiro) – Teatro Adulto – 12 anos – INGRESSO NO LOCAL

30 DE JANEIRO
19h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – O FUTURO DURA MUITO TEMPO (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 16 anos
19h30 – SENHORA DO ENGENHO ENTRE A CRUZ E A TORÁ (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – PEDRAS, FLOR E ESPINHO (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Adulto – 14 anos – INGRESSO NO LOCAL
19h30 – IGOR DE CARVALHO E MORENO VELOSO (Teatro Santa Isabel) – Música – Livre
20h – CASA VAZIA (Teatro Capiba) – Dança – 16 anos
20h – MEUS 20 MINUTOS DE RECREIO (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – Ọ̀ṢUN OXUM OCHUN – AFOXÉ OXUM PANDÁ + LUIZ DE AQUINO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Música – Livre

31 DE JANEIRO
17h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – CARTA A SPINOZA (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – Livre
19h – ANASTÁCIA (Teatro Santa Isabel) – Música – 16 anos
19h30 – O JARDIM DAS FLORES MORTAS (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – ASTEROIDE AP162 (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – CORAÇÃO SAUDOSIANO EM VERSO E CANTO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Música – Livre
21h – ANASTÁCIA (Teatro Santa Isabel) – Música – 16 anos

1º DE FEVEREIRO
15h – FESTIVAL FLORESCER DE DANÇAS ÁRABES E FUSÕES (Teatro Barreto Júnior) – Dança – Livre 
16h30 – SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO (Teatro Apolo) – Teatro Infantil – 14 anos
18h – FESTIVAL FLORESCER DE DANÇAS ÁRABES E FUSÕES (Teatro Barreto Júnior) – Dança – Livre 
18h – FESTIVAL POLE DANCE DE PERNAMBUCO (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre
19h – BOCA SECA (Teatro Capiba) – Dança – 18 anos
19h – CIRCO SCIENCE DO MANGUE AO PICADEIRO (Teatro do Parque) – Circo – Livre

03 DE FEVEREIRO
20h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Sesc Ler Goiana) – Teatro Adulto – 12 anos – INGRESSO NO LOCAL

04 DE FEVEREIRO
19h – PRÊMIO JGE COPERGÁS (Teatro do Parque)

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