Semana Hermilo: Entre arquivo, cena e pensamento

Hermilo Borba Filho e corredor do teatro que leva seu nome, em imagem editada com AI. Programação gratuita no Recife relê a obra de HBF com exposição, espetáculos, palestras e atividades formativas. Foto: Andréa Rêgo Barros e Arquivo

Exposição Mão Molenga – 40 anos de história. Foto: Fábio Caio

A cada nova edição, a Semana Hermilo recoloca uma pergunta simples e decisiva: o que uma cidade faz, de fato, com a obra de um autor que ajudou a pensar sua cena cultural? Neste ano, entre 4 e 11 de julho, a programação gratuita promovida pela Prefeitura do Recife no Teatro Hermilo Borba Filho responde a essa questão com uma combinação de exposição, espetáculos, palestras e ações formativas em torno de Hermilo Borba Filho (1917-1976), escritor, encenador, professor, crítico e ensaísta nascido em Palmares, cuja atuação foi central para a formulação, em Pernambuco, de uma literatura e de um teatro ligados à cultura popular nordestina.

Realizada desde 2002, a Semana se firmou como um dos principais espaços públicos de circulação da obra e do pensamento de Hermilo no Recife. Essa permanência também passa pela atuação de Leda Alves (1931-2023), atriz, escritora, gestora cultural e companheira de Hermilo, com quem fundou, nos anos 1960, o Teatro Popular do Nordeste (TPN). Formada em Arte Dramática pela UFPE, Leda teve papel preponderante na defesa da cultura popular e na preservação desse legado no campo institucional. Foi secretária de Cultura do Recife entre 2013 e 2020, além de ter dirigido o Teatro Santa Isabel e presidido a Cepe e a Fundarpe. Sua trajetória ajudou a manter em circulação a memória de Hermilo, como também uma leitura de sua obra vinculada à cultura popular como prática artística e como política pública.

A edição de 2026 distribui esse legado em três frentes. Há um eixo de memória e visualidade, com a exposição do Mão Molenga; um eixo de cena, com Sob Julgamento e O Traidor; e um eixo de reflexão crítica, com palestras voltadas à dramaturgia, à ficção em prosa e ao projeto do Teatro Popular do Nordeste.

Mão Molenga. Foto Fábio Caio

A abertura, no dia 4, começa com a exposição Mão Molenga – 40 anos de história, em cartaz até 4 de agosto. Criado em 1986, o Mão Molenga Teatro de Bonecos é um dos grupos mais duradouros do teatro de animação em Pernambuco. O grupo ostenta uma trajetória continuada de pesquisa em bonecos, formas animadas, oficinas, vídeo e TV, além de manter um acervo de mais de 300 bonecos e cerca de 600 figurinos de época. A formação histórica do coletivo reúne Marcondes Lima, Fábio Caio, Carla Denise e Fátima Caio, hoje lembrada in memoriam.

A mostra leva para dentro da Semana uma tradição concreta do teatro popular nordestino, em que o boneco atua como linguagem, invenção plástica e permanência cultural. Ao aproximar Hermilo de uma prática artística viva e de longa duração, a exposição reforça um ponto essencial: a cultura popular que atravessa sua obra é campo material de criação, transmissão e memória.

Na mesma noite, entra em cena Sob Julgamento, com nova sessão no dia 5. Com concepção e direção de Marcondes Lima, a montagem assume um ideário brechtiano e se organiza em cinco episódios, correspondentes a etapas de um processo judicial: citação do réu, resposta do réu, instrução probatória, alegações finais e sentença. As cenas reúnem situações construídas a partir de fatos reais e outras extraídas de obras de Bertolt Brecht, intercaladas por canções do cancioneiro brasileiro.  A presença do espetáculo na abertura ajuda a qualificar o elo entre a Semana Hermilo e o ambiente de formação: trata-se de um trabalho realizado por alunos do curso de teatro da UFPE, em sintonia com a vocação do Centro Apolo-Hermilo como espaço de pesquisa e prática cênica. 

De 6 a 9 de julho, o centro da programação passa a ser o ciclo de palestras, que amplia o alcance da homenagem. Na segunda-feira (6), a mesa Da manhã à meia-noite – A modernidade expressionista nas dramaturgias de Nelson Rodrigues e Hermilo Borba Filho, com Samantha Lima de Almeida e Anco Márcio Tenório Vieira, e mediação de Carlos Carvalho, tem apoio direto em pesquisa acadêmica. Em dissertação defendida na UFPE em 2021, Samantha sustenta que tanto Nelson quanto Hermilo recorrem a elementos dramáticos expressionistas, embora avancem por trajetórias diferentes: Nelson voltado ao chamado Teatro Desagradável, e Hermilo comprometido com um Teatro do Nordeste, ligado a temas e formas da região.

Na terça-feira (7), a programação se volta para Os Ambulantes de Deus, novela de Hermilo Borba Filho discutida na palestra Êxodo, desordem e mito – A sátira menipeia em Os Ambulantes de Deus, com Raphael Victor Alves de Jesus e Marcondes Lima, também sob mediação de Carlos Carvalho. A aproximação da novela com ideias como êxodo, mito e desordem aponta para uma prosa atravessada por deslocamento, imaginação religiosa e tensão simbólica, deslocando a leitura de Hermilo para além de um quadro de costumes ou de uma marca estritamente regional.

Na quarta-feira (8), o foco recai sobre o romance Agá, na palestra Metaficção e intermidialidade no romance Agá, de Hermilo Borba Filho, com Eron Villar e Yuri Jivago Amorim Caribé, com mediação de Carlos Carvalho. Também aqui há respaldo acadêmico. Em dissertação defendida na UFPE em 2023, Eron analisa Agá a partir de categorias como metaficção, intertextualidade e intermidialidade, mostrando um romance em que o eu-narrador articula elementos de ficção e realidade e estabelece relações com outras linguagens, como teatro, dança e histórias em quadrinhos. O interesse desse recorte está em reposicionar Hermilo como escritor de construção complexa, atento às passagens entre literatura e outras artes.

Na quinta-feira (9), a mesa Hermilo Borba Filho. TPN, o teatro do mundo retoma um dos núcleos decisivos de sua trajetória: o Teatro Popular do Nordeste. Participam da conversa Luiz Reis e a jornalista Ivana Moura, com mediação de Carlos Carvalho. Hermilo fundou o TPN em 1960, com o objetivo de abrir caminho para um teatro de arte em caráter profissional na região. Seu trabalho buscava um espetáculo nordestino, com estética épica apoiada nos folguedos populares. Luiz Reis é autor da tese de doutorado Fora de cena, no palco da modernidade: um estudo do pensamento teatral de Hermilo Borba Filho, defendida na UFPE em 2008. A expressão “teatro do mundo” sugere justamente isso: um projeto que parte do Nordeste não para confiná-lo, mas para transformá-lo em linguagem de cena, leitura de país e ambição estética.

A programação inclui ainda atividades formativas como o workshop Teatro como insurreição poética, com Quiercles Santana, e a oficina O cavalo-marinho na construção do corpo cênico, com Mestre Fábio Soares. As atividades formativas acontecem ao longo do período de 6 a 9 de julho e têm duração de três ou quatro horas, reforçando a vocação da Semana para articular fruição e transmissão, cena e pensamento.

O encerramento cênico acontece com O Traidor, em sessões nos dias 10 e 11 de julho. A peça, adaptada e dirigida por Carlos Carvalho, retoma um dos núcleos mais políticos da obra de Hermilo.

Ao articular arquivo, formação, pesquisa e encenação, a edição de 2026 reafirma a função que a Semana cumpre desde 2002: manter Hermilo Borba Filho em circulação pública.

Peça com alunos do curso de teatro da UFPE, com concepção e direção de Marcondes Lima. Foto: Divulgação

Sob Julgamento leva Brecht, rito jurídico e formação universitária para a abertura da Semana

Escolhido para abrir a programação cênica da Semana Hermilo, Sob Julgamento articula procedimento teatral, matéria jurídica e formação universitária. Com concepção e direção de Marcondes Lima, o espetáculo se baseia no ideário brechtiano e se estrutura em cinco episódios que acompanham o curso de uma ação judicial: citação do réu, resposta do réu, instrução probatória, alegações finais e sentença.

As cenas são construídas a partir de fatos reais e de trechos extraídos da obra de Bertolt Brecht, costurados por músicas do cancioneiro brasileiro. O resultado, segundo a proposta da montagem, é um percurso por julgamentos justos e injustos, num tempo em que o tema da sentença, da culpa e da disputa por verdade se impõe no espaço público.

O espetáculo reúne no elenco Amanda Camyle, Ana Carolina, Anne Oliveira, Brenda Lima, Carlos Alberto, Diana Goiana, Gusttavo Revorêdo, Laura Ianes, Letícia Gonçalves, Lia Mariz, Marcus Azevedo, Marcus Carvalho, Maria Morim, Nívia Mariana, Ocean, Rayssa Tawane e Vinny Carvalho. Tem apoio pedagógico e assistência de direção de Marina Lino, produção de Grazielly Santana e Mariana Castelo, cenografia e figurino de Marcondes Lima e coletivo, maquiagem de Marina Lino e coletivo, iluminação de Nelba Santos, sonoplastia de Marina Lino e coletivo, coordenação do LAFACE por Rose Mary Martins e Marcondes Lima, além de design gráfico e fotografia do Estúdio Dionísio.

Na leitura de Carlos Carvalho, a presença de Sob Julgamento na Semana faz sentido também pela forma. Trata-se de um espetáculo anti-ilusionista, afinado com um ambiente de pesquisa e formação, realizado por estudantes do curso de teatro da UFPE. Nesse sentido, a peça entra na programação como trabalho convidado e como sinal de continuidade entre estudo, cena e pensamento teatral.

Ingressos gratuitos serão distribuídos uma hora antes do início de cada sessão.

Fátima Aguiar e Paulo de Pontes em O Traidor. Foto: Divulgação

O Traidor leva ao palco Zumba e a violência do poder

Entre os trabalhos apresentados na Semana Hermilo, O Traidor ocupa um lugar particular. A montagem, definida como adaptação livre do conto homônimo de Hermilo Borba Filho, tem dramaturgia e direção de Carlos Carvalho e se apoia, segundo a equipe, na experiência do elenco e numa cena de linguagem essencial, anti-ilusionista, centrada na palavra e na interpretação.

É a história de Clerivaldo dos Santos da Silva, conhecido como Zumba Dentão, sapateiro, militante bolchevique e figura popular de Palmares, na Zona da Mata Sul de Pernambuco. Inserido numa sociedade marcada pelo coronelismo, pelo poder dos usineiros e pela desigualdade social, Zumba dedica a vida à militância por uma sociedade igualitária. Por causa dessa atuação, é preso e torturado diversas vezes, o que transforma seu apelido em Zumba Sem Dente.

Casado com Discleide, também comunista – e, na peça, apreciadora de filmes de bangue-bangue americanos -, Zumba decide se candidatar a prefeito. O ponto de ruptura da história se dá quando ele é sequestrado e torturado. A peça incorpora ainda um dado trágico decisivo: Zumba era analfabeto. Quando a cidade busca encontrar uma tentativa de libertá-lo da cadeia, um bilhete é enviado para avisá-lo sobre a ação. A versão espalhada por Cabo Luiz, no entanto, é a de que o sapateiro teria entregado o conteúdo às autoridades, provocando prisões. Em seguida, a rádio noticia que Zumba, em suposta tentativa de fuga, teria sido abatido a tiros. Discleide recebe o corpo mutilado.

O elenco é formado por Paulo de Pontes, Fátima Aguiar e Cleusson Vieira. Paulo de Pontes interpreta Zumba; Fátima Aguiar, Discleide; e Cleusson Vieira, Cabo Luiz. Carlos Carvalho assina ainda desenho de luz, figurino e adereços. A peça tem 45 minutos de duração e busca um diálogo direto entre atores e plateia, com ênfase na palavra viva e na exposição da narrativa sem ilusão de naturalismo.

Serviço

Semana Hermilo 2026

De 4 a 11 de julho
Teatro Hermilo Borba Filho
Entrada gratuita

Programação

04/07 – Sábado
19h – Abertura e estreia da exposição Mão Molenga — 40 anos de história
20h – Espetáculo Sob Julgamento , com alunos do CAC/UFPE

05/07 – Domingo
19h – Espetáculo Sob Julgamento, com alunos do CAC/UFPE

06/07 – Segunda-feira
19h – Palestra Da manhã à meia-noite — A modernidade expressionista nas dramaturgias de Nelson Rodrigues e Hermilo Borba Filho, com Samantha Lima de Almeida e Anco Márcio Tenório Vieira
Mediação: Carlos Carvalho

07/07 – Terça-feira
19h – Palestra Êxodo, desordem e mito — A sátira menipeia em Os Ambulantes de Deus, novela de Hermilo Borba Filho, com Raphael Victor Alves de Jesus e Marcondes Lima
Mediação: Carlos Carvalho

08/07 – Quarta-feira
19h – Palestra Metaficção e intermidialidade no romance Agá, de Hermilo Borba Filho, com Eron Villar e Yuri Jivago Amorim Caribé
Mediação: Carlos Carvalho

09/07 – Quinta-feira
19h – Palestra Hermilo Borba Filho. TPN, o teatro do mundo, com Luiz Reis e Ivana Moura
Mediação: Carlos Carvalho

10/07 – Sexta-feira
19h – Espetáculo O Traidor, adaptação do conto homônimo de Hermilo Borba Filho, com dramaturgia e direção de Carlos Carvalho

11/07 – Sábado
19h – Espetáculo O Traidor, adaptação do conto homônimo de Hermilo Borba Filho, com dramaturgia e direção de Carlos Carvalho

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Festival celebra infâncias no Recife em julho

 

O 22º Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco reúne 15 espetáculos, inclusive a produção portuguesa Vamos para Bremen, da companhia TeatroPlage, de Lisboa.  

Pluft, o Fantasminha, da Cênicas Cia de Repertório Foto: Wilson Lima / Divulgação 

Edição homenageia os 40 anos do Mão Molenga. Foto: Reprodução do Youtube

Um balão que não consegue voar, um burrinho que decide sair de casa, uma menina em busca de um baobá sagrado, um Pinóquio em versão musical e até um Hamlet levado para o circo. A 22ª edição do Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco aposta na versatilidade de linguagens, temas e formatos. De 4 a 26 de julho, o evento ocupa os teatros de Santa Isabel, do Parque e Barreto Júnior com 15 espetáculos, além de programação gratuita em espaços públicos e ações formativas voltadas a artistas, educadores e público.

Com o tema “Aplausos para a Imaginação”, essa edição se organiza em três frentes: palco, com os espetáculos apresentados nos teatros; rua, com atrações gratuitas de artes cênicas e circo; e formação, com o 12º Colóquio do Teatro para Infâncias e Juventude, oficinas e palestras presenciais e online. A realização é da Métron Produções, de Edivane Bactista e Ruy Aguiar, com incentivo do SIC – Sistema de Incentivo à Cultura do Recife, Fundação de Cultura Cidade do Recife, Secretaria de Cultura e Prefeitura do Recife.

A curadoria deste ano é assinada por Marcondes Lima, Ruy Aguiar e Williams Sant’Anna. Marcondes atua como encenador, cenógrafo, figurinista, maquiador, ator e docente; Ruy Aguiar reúne trabalhos em coordenação de produção, dramaturgia, direção e gestão cultural; e Williams Sant’Anna transita entre teatro e circo, com atuação como pesquisador, encenador, palhaço, ator, dramaturgo e gestor cultural. O festival homenageia os 40 anos do Mão Molenga Teatro de Bonecos, grupo pernambucano de referência na cena para infâncias.

A abertura, no Teatro de Santa Isabel, será com Vamos para Bremen, da companhia portuguesa TeatroPlage, de Lisboa. Inspirado em Os Músicos de Bremen, dos irmãos Grimm, o espetáculo parte da história de personagens que seguem juntos em busca de outro lugar, apoiando-se na ideia de cooperação. Ainda no Santa Isabel, o festival reúne dois títulos baseados em contos já conhecidos do público infantil. O Sapatinho de Cristal, de Roberto Costa Produções / Yuri Costa, retoma a história de Cinderela, a jovem explorada pela madrasta e pelas irmãs até ter o destino alterado pelo baile e pelo famoso sapato perdido. Já Bonezinho Vermelho, da Métron Produções, parte do universo de Chapeuzinho Vermelho para uma encenação musical. Fecha a programação no Santa Pluft, o Fantasminha, da Cênicas Cia de Repertório, nova passagem do clássico de Maria Clara Machado sobre o fantasma que teme gente e acaba encontrando amizade na convivência com a menina Maribel.

Dia da Libélula. Foto: Raffael Quirino / Divulgação

A programação vem com um recorte mais heterogêneo no Teatro do Parque. Hélio, o Balão que não Consegue Voar, de Cleyton Cabral e Coletivo de Artistas, usa formas animadas e manipulação de objetos para contar a história de um balão de loja de festas que não consegue fazer aquilo que todos esperam dele. A peça tem dramaturgia premiada no Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia e trata do autismo por meio da trajetória desse personagem. Em O Dia da Libélula, da Companhia Teatralizar, o centro da ação é Babete, uma jovem libélula que descobre que viverá apenas um dia e, a partir daí, atravessa um pântano habitado por figuras estranhas e poéticas. É uma peça construída como jornada: há uma personagem, uma descoberta e um percurso.

Também no Parque, Helô, em Busca do Baobá Sagrado, da DoceAgri, acompanha uma menina negra de cabelos crespos que percebe a tristeza se espalhar pelo lugar onde vive. Orientada pela avó, conhecida como Velha Cachimbeira, e acompanhada pelo pai, Helô sai em busca do baobá sagrado, numa história que articula aventura, ancestralidade e identidade. João e o Pé de Feijão, da Capibaribe Produções, leva ao palco a narrativa do menino que troca a vaca da família por feijões mágicos e sobe até o território do gigante. Os 3 Super Porquinhos, de Roberto Costa Produções / Yuri Costa, transforma o conto dos porquinhos e do lobo em comédia musical. Já Queijo & Goiabada, da Cia 2 em Cena, aparece como uma das estreias da grade e parte de uma recriação para infâncias de Romeu e Julieta, filtrada por referências populares. Encerrando a programação do Parque, Quem Mente o Nariz Cresce, uma História de Pinóquio, da Arretado Produções, retoma o personagem criado por Carlo Collodi em montagem que combina teatro, música, circo e bonecos animados.

No Teatro Barreto Júnior, a sequência convoca alguns dos trabalhos mais marcados pela visualidade. O Burro Errante, da dupla Habib e Valeria, é baseado no livro homônimo de Habib Zahra e acompanha um burrinho criado numa família superprotetora que decide partir. A montagem utiliza teatro de sombras coloridas e música ao vivo, apoiando-se mais na construção imagética da travessia. Os Protetores dos Oceanos, do Espaço Cultural Vovozito/Falcões Produções, usa teatro de bonecos para narrar a saga de animais marinhos e, a partir dela, discutir a relação humana com o mar e com a preservação ambiental. Em Histórias Pontilhadas, da Companhia Conta Gotas, o público acompanha Zeca, Olga e Bina, uma família de alfaiates e costureiras que percorre caminhos reais e imaginários com sua carroça-casa. Já Hamlet no Circo, da Circus Produções Artísticas / Davison Wescley, desloca a tragédia de Shakespeare para a linguagem do circo e da palhaçaria.

No festival convivem clássicos reencenados, dramaturgias recentes, teatro de bonecos, sombras, musicais, circo e formas animadas. E com isso apresenta um recorte do que diferentes grupos têm produzido para crianças hoje, com companhias de Pernambuco, Paraíba e Portugal.

Ao homenagear os 40 anos do Mão Molenga Teatro de Bonecos, o festival celebra nesta edição uma referência importante da cena pernambucana para crianças. Fundado em 1986, o grupo construiu uma trajetória ligada ao teatro de bonecos e ao diálogo entre elementos visuais, música e atuação. A escolha do Mão Molenga também encontra eco na própria programação, marcada pela presença de bonecos, formas animadas e encenações em que a visualidade tem peso decisivo.

O Burro Errante. Foto: José Rebelatto / Divulgação

Programação

Teatro de Santa Isabel

04 de julho, 16h30Vamos para Bremen – TeatroPlage (Lisboa, Portugal)
05 de julho, 11hO Sapatinho de Cristal – Roberto Costa Produções / Yuri Costa (Paulista-PE)
11 de julho, 11hBonezinho Vermelho – Métron Produções (Recife-PE)
12 de julho, 16h30Pluft, o Fantasminha – Cênicas Cia de Repertório (Recife-PE)

Teatro do Parque

05 de julho, 11hHélio, o Balão que não Consegue Voar – Cleyton Cabral e Coletivo de Artistas (Recife-PE)
11 de julho, 11hO Dia da Libélula – Companhia Teatralizar (Abreu e Lima-PE)
12 de julho, 16hHelô, em Busca do Baobá Sagrado – DoceAgri (Recife-PE)
18 de julho, 11hJoão e o Pé de Feijão – Capibaribe Produções (Moreno-PE) – estreia
19 de julho, 11hOs 3 Super Porquinhos – Roberto Costa Produções / Yuri Costa (Paulista-PE)
25 de julho, 16hQueijo & Goiabada – Cia 2 em Cena (Recife-PE) – estreia
26 de julho, 16h – Quem Mente o Nariz Cresce, uma História de Pinóquio – Arretado Produções (João Pessoa-PB)

Teatro Barreto Júnior

11 de julho, 11h – O Burro Errante – Habib e Valeria (Olinda-PE)
12 de julho, 16hOs Protetores dos Oceanos – Espaço Cultural Vovozito / Falcões Produções (Igarassu-PE)
18 de julho, 11hHistórias Pontilhadas – Companhia Conta Gotas Produções / Tarcísio Vieira (Recife-PE)
19 de julho, 11hHamlet no Circo – Circus Produções Artísticas / Davison Wescley (Jaboatão dos Guararapes-PE)

Rua

A programação inclui apresentações gratuitas de artes cênicas e circo em espaços públicos do Recife

Formação

12º Colóquio do Teatro para Infâncias e Juventude
Oficinas e palestras presenciais e online
Atividades gratuitas para artistas, educadores e público

Serviço

22º Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco
Quando: de 4 a 26 de julho de 2026, aos sábados e domingos
Horários: 11h, 16h e 16h30
Onde: Teatro de Santa Isabel, Teatro do Parque e Teatro Barreto Júnior, no Recife
Ingressos: entre R$ 30 e R$ 120; ingressos sociais entre R$ 40 e R$ 50
Realização: Métron Produções
Incentivo: SIC – Sistema de Incentivo à Cultura do Recife / Fundação de Cultura Cidade do Recife / Secretaria de Cultura / Prefeitura do Recife
Informações: teatroparacrianca.com.br

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Jorge Lafond e a memória adiada
Crítica e bate-papo:
Jorge pra Sempre Verão

Jorge pra Sempre Verão. Em primeiro plano Aretha Sadick e Alexandre Mitre. Foto Guará Siqueira / Divulgação

Poucos espetáculos recentes do teatro brasileiro assumem com tanta frontalidade a tarefa de disputar a memória quanto JORGE pra Sempre VERÃO. A peça dirigida por Rodrigo França, com dramaturgia de Aline Mohamad e Diego do Subúrbio, surge da vontade de homenagear Jorge Lafond, eternizado no imaginário popular como Vera Verão. Mas parte, antes, de uma espécie de atraso histórico de um país que consagrou a imagem do artista em horário nobre, transformou seu corpo em signo reconhecível da cultura de massa, mas não converteu essa centralidade em um esforço de preservação e reconhecimento à altura da complexidade de sua trajetória, nem em vida nem depois da morte. Mais do que relembrar um ícone cômico dos anos 1990 ou promover uma justiça sentimental em torno de um artista querido, a montagem interroga os mecanismos que fazem certos corpos virarem patrimônio e outros, caricatura. Nesse sentido, a peça acerta ao recolocar Jorge Lafond para além da moldura estreita do bordão, da gargalhada fácil e da memória televisiva achatada. A encenação insiste em perguntar quem foi esse homem negro, afeminado, popular, inteligente e solitário – e o que a sociedade brasileira fez com ele.

Mas a peça não escolhe o caminho mais óbvio. Em vez de construir uma biografia convencional, organizada em marcos de vida, ascensão, fama e queda, opta por uma dramaturgia de memória fragmentária e biografia coletiva. Essa é uma de suas escolhas mais potentes. Aline não pretende falar em nome total de Jorge, nem reconstituir uma verdade definitiva sobre ele. O espetáculo prefere assumir o recorte, a falta, o fragmento, a memória incompleta. E, com isso, realiza um movimento particularmente interessante: desloca Jorge do lugar de indivíduo isolado e o reinscreve numa constelação de experiências negras, suburbanas, LGBTQIA+, afeminadas e periféricas.

É daí que vem a força mais política da peça. Jorge não aparece apenas como “ele mesmo”, mas como ponto de convergência de muitas histórias. A ofensa “Vera Verão” como apelido de humilhação, a vergonha de ser associado a um corpo afeminado, o processo de ressignificar isso como potência, o convívio com a exclusão dentro e fora de casa, a tentativa de sobreviver a uma sociedade racista e homofóbica: tudo isso é convocado para que o espetáculo fale não só de Jorge, mas a partir de Jorge. A recepção do público confirma esse movimento. Repetidamente, surgem relatos de identificação – menos no sentido de reconhecer apenas a trajetória de uma figura pública e mais no de se perceber na cena em pedaços de si, de suas feridas, da infância e das próprias experiências de exclusão.

No plano artístico, a montagem também encontra soluções expressivas. A divisão entre Jorge e Vera em corpos distintos é uma escolha feliz, porque dramatiza o desdobramento entre sujeito e entidade, pessoa e figura pública, homem e símbolo. Em vez de repetir a mímica da personagem televisiva, o espetáculo a desloca para outro plano. Vera deixa de ser somente caricatura humorística e ganha espessura mítica, política e afetiva. A presença de Aretha Sadick nesse eixo é decisiva. Ao assumir Vera como uma mulher preta e trans, a peça atualiza o debate sobre gênero e dissidência, como propõe uma leitura crítica daquilo que Jorge talvez não pudesse nomear ou viver publicamente em seu tempo. Essa decisão é reforçada por um projeto de cena coerente: corpos pretos retintos no palco, figurinos e direção de arte que não banalizam a imagem de Lafond, uso de imagens de arquivo que ajudam a contextualizar sua trajetória e uma iluminação que costura, com precisão, os movimentos entre documento, evocação e rito.

Outro ponto alto está na forma como a montagem lê o desamparo estrutural de Jorge Lafond como condição persistente de um artista que ocupava um lugar ao mesmo tempo central e sem amparo. Jorge foi um rosto nacionalmente reconhecido, um corpo que sustentou humor, audiência e impacto popular por anos. Ainda assim, a peça insiste em mostrar que ele seguia só. O episódio relacionado à entrada de Padre Marcelo Rossi no programa em que Lafond atuava é tratado como síntese desse mecanismo: a dor maior não está na exposição pública em si, mas na descoberta de que a estrutura que lucra com você não necessariamente o sustenta. O espetáculo é especialmente forte quando identifica que o sofrimento de Jorge vem do preconceito da sociedade, mas também da ausência de respaldo das engrenagens que se beneficiaram de sua presença.

Também merece atenção a maneira como a obra se posiciona no debate sobre apagamento histórico. O espetáculo já realizou mais de 100 apresentações, circulou por diferentes cidades e chega ao Recife carregando a marca de uma trajetória de resistência material. Não por acaso, o tema do financiamento aparece com força no bate-papo. A comparação feita por Aline Mohamad com o reconhecimento póstumo dado a Paulo Gustavo é incômoda, mas eficaz. Enquanto alguns artistas se tornam rapidamente nome de rua, musical, filme, lei e grande projeto de memória, Jorge Lafond precisou esperar décadas por uma peça montada com orçamento muito mais precário. A observação não vale como competição simplista entre trajetórias, e sim como denúncia da desigualdade racial na administração da memória cultural brasileira.

Espetáculo também expõe os limites, as lacunas e os impasses de uma obra que tenta devolver humanidade a ao artista Jorge Lafond. Foto Guará Siqueira / Divulgação

E é justamente por ser forte que a peça também pede leitura crítica. E aqui vamos pensar em suas zonas mais tensas. A primeira delas está no tratamento dado ao subúrbio, à família e ao entorno social. O espetáculo tem razão ao reivindicar a cultura suburbana carioca como matriz sensível e política. Mas acontece que, em alguns momentos, essa reivindicação parece excessivamente protegida pela própria dramaturgia. Há afeto, há pertencimento, há memória coletiva – mas nem sempre há fricção suficiente. O resultado é que certas dimensões da violência cotidiana, da homofobia doméstica, do conservadorismo comunitário e das ambiguidades familiares surgem suavizadas em excesso. Em vez de expor plenamente essas rachaduras, a peça por vezes prefere uma forma de acolhimento que as amortece.

Mais do que individualizar a violência em figuras isoladas, a peça parece interessada em mostrar como racismo, homofobia e apagamento circulam de forma difusa, atravessando linguagem, afetos, instituições e sociabilidades. Esse enfoque tem força, porque impede uma leitura simplificadora em que bastaria localizar “culpados evidentes” para dar conta do problema. Ao mesmo tempo, essa opção faz com que, em certos momentos, a violência apareça mais como atmosfera histórica e social do que como conflito efetivamente tensionado em cena.

Há também passagens em que a peça parece reencenar, sem atrito suficiente, resíduos de violência internalizada. Isso aparece, por exemplo, na conversa entre Jorge e Vera sobre a cor do batom – “charque” ou “carne de sol” – e no gesto usado para indicar que uma tia era “sapata”. Nos dois casos, a cena pode ser lida menos como simples reprodução de uma fala social e mais como reativação de um imaginário preconceituoso que a montagem nem sempre desarma por completo. São momentos breves, mas significativos, porque introduzem uma ambiguidade importante: a peça critica a violência, mas, em alguns instantes, também deixa escapar traços dela sem submetê-los a maior tensão crítica.

Outra questão é a reiteração. Mesmo que, em alguma medida, a repetição pareça deliberada – ao insistir na dor, no insulto, no apagamento e na exclusão, como quem sabe que uma única formulação não basta para enfrentar a amnésia social -, há trechos em que a ênfase retorna mais como reafirmação do já dito do que como desdobramento novo.

Tudo isso mostra que JORGE pra Sempre VERÃO é um espetáculo vivo, que admite disputa, leitura e tensão. Sua força está também em não se esgotar na reverência. A peça busca restituir complexidade a Jorge Lafond e ao mesmo tempo discutir o país que o transformou em sucesso e o deixou à margem de sua memória oficial. Ao fazer isso, revela que a cultura brasileira ainda escolhe com profunda desigualdade quais mortos quer monumentalizar e quais prefere apenas recordar de maneira superficial. O teatro, aqui, não reverte sozinho a violência histórica. Mas contribui para desnaturalizá-la.

Aline Mohamad (autora, prima de Jorge e atriz), Alexandre Mitre (ator) e Aretha Sadick (atriz). Foto: Ivana Moura

 

 

A voz dos criadores

Principais pontos do bate-papo com a plateia e a equipe da peça – Aline Mohamad (autora, prima de Jorge e atriz), Alexandre Mitre (ator) e Aretha Sadick (atriz) após a sessão de 26 de junho, na Caixa Cultural Recife. Mais do que celebrar Jorge Lafond, a conversa evidencia que o espetáculo se propõe a disputar a memória pública em torno de sua trajetória, interrogando quais nomes o Brasil escolhe preservar, sob quais enquadramentos os preserva e por que certos artistas ainda precisam lutar contra o apagamento para permanecer na história cultural do país.

A peça nasceu de um pedido de perdão

Aline Mohamad: “Tudo começou com uma carta. Uma carta de pedido de perdão que escrevi para o Jorge depois que ele já tinha falecido. Eu mandei para algumas pessoas, incluindo o Rodrigo França, e cheguei a apagar, mas o impacto foi imediato. Cinco pessoas me disseram que tínhamos a obrigação de montar essa peça. Demoramos cerca de dois anos e meio para captar recursos, enfrentando todas as barreiras possíveis, até que conseguimos realizar em 2022. A peça nasce desse desejo de cruzar histórias, porque descobrimos que todos nós temos uma grande história com o Jorge, tenhamos conhecido ele pessoalmente ou não.”

A recusa da biografia tradicional

Aline Mohamad: “Eu tinha uma única certeza: não seria uma biografia estrita. Eu não tinha o direito de tentar fazer isso. O que queríamos era construir a nossa biografia. A biografia de quem foi xingado de ‘Jorge Lafond’ ou ‘Vera Verão’ na infância. Para muitos de nós, esses nomes eram usados como ofensa. O texto, escrito com o Diego do Subúrbio, mistura as vivências das ‘bichas pretas’ urbanas com a minha história familiar. É uma costura de memórias fragmentadas, fotos e relatos orais para preencher os vazios que a história oficial deixou.”

O critério das escolhas dramatúrgicas

Aline Mohamad: “A gente foi descobrindo que todos nós tínhamos uma grande história com o Jorge, independente de ter conhecido ou não. Então a dramaturgia foi sendo montada a partir dessas vivências cruzadas. Era a minha história, a do Diego, a de outras pessoas, e tudo isso foi costurado para virar uma biografia coletiva.”

Alexandre Mitre: “Muitas vezes, na leitura do texto, eu travava porque aquilo me tocava num lugar muito pessoal. E isso acontece também com o público. Muitas pessoas chegam e falam: ‘você estava falando do que aconteceu comigo’.”

A solidão e a violência institucional

Alexandre Mitre: “A violência física que mostramos no palco não é maior que a dor da rejeição. Imagine um artista negro, nos anos 1990, sustentando sozinho o peso de ser o único corpo daquele tipo em um programa de humor líder de audiência. Quando ele precisou de apoio, após ser retirado do palco por uma pressão institucional externa e branca, ele se viu só. A emissora onde ele se fez não o protegeu. Essa falta de acalanto é o que desmonta o artista. Por que voltar para o camarim? Qual o fundamento de continuar se tudo o que você construiu cai diante da decisão de outro homem?”

A memória como quebra-cabeça e responsabilidade coletiva

Aretha Sadick: “A vida pessoal dele foi muito pouco registrada. Então o espetáculo também é um recorte de memórias. Tem o que alguém contou, tem o que apareceu numa foto, tem um relato daqui, outro dali. Isso faz com que a peça também compartilhe com o público a responsabilidade de manter essas histórias vivas, para que os próximos Jorges não sejam esquecidos da mesma forma.”

Corpos negros e trans no centro da cena

Aretha Sadick: “É raro termos um elenco 100% de pessoas pretas retintas no palco. Levar esses corpos escuros para os teatros do Brasil é uma demarcação política necessária. No nosso espetáculo, a Vera é deliberadamente uma mulher trans. Queríamos explorar essa possibilidade: se Jorge já sofria tanto por ser negro e afeminado, como seria se ele pudesse ter expressado essa identidade trans? Além disso, temos uma política de entrada gratuita para pessoas trans, porque queremos que esses corpos se vejam refletidos e reconhecidos.”

Aline Mohamad: “No nosso espetáculo, a Vera sempre será uma mulher preta e trans. Isso também faz parte da política da peça, assim como a decisão de montar uma equipe majoritariamente negra e LGBT.”

Dinheiro, racismo e o valor da memória

Aline Mohamad: “A comparação é inevitável. Nada contra o Paulo Gustavo, mas quando ele morreu, virou lei, musical, filme e rua. Jorge Lafond não teve nada disso, e ele abriu as portas para que muitos chegassem onde chegaram. Montamos essa peça com R$ 100.000,00, o que deve ser 10% do orçamento de um grande musical do eixo Rio-São Paulo. Existe um projeto de apagamento das nossas histórias. Precisamos que as instituições entendam que essas trajetórias importam e que precisamos de dignidade e recursos para circular além dos grandes centros.”

Alexandre Mitre: “Muitas personalidades pretas importantes para o entretenimento brasileiro pereceram no mais puro ostracismo, sem investigação, sem valorização. Jorge Lafond foi mais um desses nomes. Contar a história dele é também impedir que esse esquecimento continue.”

O apagamento como projeto de sociedade

Aretha Sadick: “A gente não gosta muito da palavra dívida, mas ao mesmo tempo é um projeto de sociedade: o apagamento, o esquecimento da história, propositalmente. A gente mantém a memória dessas pessoas vivas porque existe um projeto para que essas histórias sejam apagadas o tempo todo, como se passasse uma borracha.”

Ficha técnica

Espetáculo: JORGE pra Sempre VERÃO
Direção: Rodrigo França
Dramaturgia: Aline Mohamad e Diego do Subúrbio
Elenco na temporada atual: Alexandre Mitre, Aline Mohamad e Aretha Sadick; Noêmia Oliveira em etapas anteriores da montagem
Direção de movimento: Tainara Cerqueira
Trilha original: Dani Nega
Direção de imagens: Carolina Godinho
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Cenário: Rodrigo França e Wanderley Wagner
Figurinos: Marah Silva
Visagismo: Diego Narang

Serviço
JORGE pra Sempre VERÃO
Local: Caixa Cultural Recife
Endereço: Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife, Recife–PE

Quando: 2, 3 e 4 de julho de 2026, 19h30; Sessão extra no sábado: 16h30
Bate-papo com a plateia: após a apresentação de 3 de julho
Acessibilidade: sessões de sábado com tradução em Libras
Ingressos: R$ 30 e R$ 15

Postado com as tags: , , , , , , ,

10ª edição do Palco Giratório PE
dá motivos para pensar
a produção pernambucana

Notícias do Dilúvio, da Cia Biruta de Teatro, de Petrolina (PE). Foto: Fernando Pereira/ Divulgação

O retorno do Palco Giratório ao Recife faz da 10ª edição do festival na cidade e na Região Metropolitana um tempo privilegiado para pensar a cena pernambucana. A programação começa nesta quarta-feira, 20 de maio, e segue até 7 de junho. Ao longo desse período, mais de 70 atividades ocuparão teatros, praças, cinemas e outros espaços do Recife, de Jaboatão dos Guararapes e de São Lourenço da Mata. São 41 espetáculos, além de oficinas, seminários, ações formativas e atividades de intercâmbio, com programação gratuita ou a preços populares. Trata-se de uma retomada estratégica: Pernambuco volta a ocupar lugar forte na rede nacional desse projeto do Sesc, que em 2026 circula por 113 cidades de 23 estados e tem na Tropa do Balacobaco, de Arcoverde, a representante pernambucana no circuito nacional, com o espetáculo Re Te Tei.

O Palco Giratório é muito mais que um festival de circulação de espetáculos. Desde sua criação, em 1998, funciona como uma máquina de mobilidade: grupos atravessam o país, encontram contextos distintos, tensionam modos de produção e recepção e testam a capacidade de suas obras de se manterem vivas fora de seus ambientes de origem. Sua lógica é itinerante. Sua força está na construção continuada de uma malha de encontros, intercâmbio e formação de público.

Em Pernambuco, o projeto opera como núcleo articulador regional; tensiona práticas locais, conecta artistas à circulação nacional e desenha um mapa mais complexo das artes cênicas brasileiras contemporâneas. E funciona também como termômetro: o que estamos produzindo? como dialogamos com o país? quais estéticas insistem? onde estão as urgências reais do Recife e da Região Metropolitana?

A programação desta edição se mobiliza em torno de eixos que dialogam com questões incontornáveis do presente: negritude, acessibilidade, respeito às diferenças, juventudes, protagonismo infantil e potências do corpo atravessam o festival de ponta a ponta. Mas a tradução pode ser verificada com os espetáculos.

A abertura com Capiba, pelas ruas eu vou, da Aria Social, já funciona como declaração de escala, pertencimento e memória. O musical estreou em 2022 e homenageia um dos maiores nomes da música popular pernambucana e mobiliza um grande elenco de bailarinos-cantores para transformar a trajetória de Capiba em linguagem de cena. Mais adiante, a presença de Adilson Ramos e de Miro dos Bonecos reforça que essa edição também reconhece, em chave popular, tradições vivas da cultura pernambucana.

Capiba, pela ruas eu vou. Foto Alice Cohim

Miro dos Bonecos. Foto: Divulgação

A presença pernambucana na programação se desdobra, então, em direções bastante distintas, o que é um dado importante. Helô em Busca do Baobá Sagrado, do grupo DoceAgri, trabalha pertencimento, ancestralidade e protagonismo negro; Notícias do Dilúvio – Um Canto a Canudos, da Cia Biruta, de Petrolina, revisita a luta popular a partir da resistência feminina; Sobre os Ombros de Bárbara, com Augusta Ferraz, devolve corpo e voz a mulheres silenciadas desde a Revolução Pernambucana; Agbará Obirin, da Cia de Dança Daruê Malungo, inscreve a força dos corpos negros em movimento como resistência e celebração; Pontilhados, do Grupo Experimental, transforma o Recife Antigo em matéria dramatúrgica e faz da cidade cenário e personagem; Espécie em Extinção, do Grupo Córpore, desloca a crise ecológica para o corpo entendido como território de resistência; Roda, do Núcleo de Dança do Centro Cultural Sesc Garanhuns, reafirma a dança como encontro, troca e experiência coletiva; A Ver Estrelas, do Coletivo Trela de Experimentação Cênica para a Infância, aposta na imaginação infantil como força de expansão; enquanto intervenções como CloseUP, de Rauan Moreira, mostram que a proximidade, a rua e o risco de presença também cabem no desenho do festival.

Há ainda um gesto importante de ampliação de campo. O documentário Salu e o Cavalo Marinho, de Cecília da Fonte Alves, reinscreve a cultura popular no debate do festival a partir da memória de um artista; Pisadas, do Manifesto Cultura Popular, trata o corpo como arquivo vivo; o show de Adilson Ramos introduz na programação a permanência de uma memória sentimental e popular da canção pernambucana; e a presença de Miro dos Bonecos, com os Mamulengos do Novo Milênio, reafirma o mamulengo como forma viva, capaz de mobilizar riso, destreza e transmissão cultural. A isso se somam a contação de histórias para bebês com Yalle Feitosa e atividades voltadas à infância lembram que formação de público começa antes da institucionalização do gosto. Esse alargamento de linguagem pode ser lido como abertura real ou como risco de dispersão curatorial. Ainda assim, no melhor dos casos, aponta para um entendimento mais complexo do que seja artes cênicas hoje.

Ao lado dessa presença local robusta, o circuito nacional entra como como fricção. Franquinh@ – Uma História em Pedacinhos e Frankenstein, do Coletivo Gompa, operam em registros distintos a mesma questão da monstruosidade, da criação e da responsabilidade, deslocando-a da infância ao público adulto. Corpos de Tambor, do Coletivo Croa, aproxima elementos culturais da Amazônia de expressões urbanas contemporâneas; Sancho Pança, o Fiel Escudeiro, com o Palhaço Piruá, reinscreve o clássico a partir da periferia e da sabedoria popular; No Coração da Lua, do Grupo Estação de Teatro, mergulha em matéria noturna, sonho e delicadeza; A Maçã, com William Seven, sugere um teatro que aposta na reflexão; Peça Única, da House of Hands Up MS, faz da linguagem de sinais um princípio formal; O Encontro da Tempestade com a Guerra, do Circo Experimental Negro, afirma o circo como linguagem atravessada por luta, raça e invenção; HA!, do Grupo Artilharia Cênicas, recoloca o humor no terreno da resistência; No Armário Não Cabe Ninguém, do GPETI, em sua pesquisa em teatro para infância enfrenta a questão da diversidade sem reduzi-la a um enunciado pedagógico simplificado; Bando, do Máscara Encena, leva o teatro à praça; Caixa Ninho, do Eranos Círculo de Arte, e Miau, do Grupo Pé de Vento, reforçam essa ocupação de espaços não convencionais. 

Essa heterogeneidade é um dos traços mais significativos da edição. Ela põe lado a lado práticas e estéticas que raramente convivem sem mediação – grupo consolidado e coletivo emergente, teatro documental e palhaçaria, pesquisa formal e vocação pedagógica, espetáculo de rua e criação de sala, cultura popular e elaboração contemporânea. 

A homenagem ao Grupo Sobrevento

Para Mariela. Foto: Lauro Medeiros / Divulgação

A escolha do Grupo Sobrevento, de São Paulo, como homenageado da edição do Palco nacional é reveladora. Ao completar 40 anos de trajetória, o coletivo reafirma uma linha de trabalho marcada pela atenção aos deslocamentos, à vulnerabilidade e às formas de precariedade inscritas na experiência contemporânea. Seu teatro lida com migração, trânsito, perda e desamparo.

O espetáculo em circulação especial, Para Mariela, retoma a condição de crianças bolivianas migrantes por meio do teatro de formas animadas, mas sem suavizar o conflito. Mistura delicadeza formal e densidade política. Não ameniza a violência do tema; antes, a faz aparecer por outra via, mais oblíqua, mais persistente.

Trela: a infância como pauta séria

Paralelamente aos espetáculos, o festival realiza a segunda edição do Trela – Seminário de Artes Cênicas para as Infâncias, de 28 a 30 de maio, no Teatro Apolo. O seminário toca em dos pontos mais consistentes da programação, da dimensão estrutural da cultura.

Ao reunir pedagogos, psicanalistas, artistas e pesquisadores,  o Trela organiza de modo mais consequente uma pergunta que ainda costuma ser tratada como periférica: qual é a responsabilidade coletiva de cuidar das crianças também por meio das artes?

A homenagem a Vilma Carijós, do Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo, reforça esse eixo ao vincular infância, educação, território e negritude numa mesma constelação de trabalho histórico. A presença de Maria Homem na abertura amplia o debate e lhe dá densidade pública. O seminário, assim, funciona como uma de engrenagens centrais do festival. Rconhecer a infância como pauta séria é reconhecer que discutir artes cênicas hoje implica discutir também formação, cuidado, linguagem e futuro.

Ideathon: inovação com medida concreta

Nos dias 21 e 22 de maio, o festival realiza ainda um Ideathon, maratona de inovação voltada à criação de protótipos para desafios reais do setor cultural. A iniciativa reúne estudantes, profissionais e interessados em pensar soluções aplicadas para o campo. O prêmio de R$ 4 mil para a ideia vencedora não altera por si só a estrutura econômica da cultura, mas tem valor como gesto de indução: sinaliza que o festival não quer apenas exibir obras prontas, mas também estimular imaginação organizativa, formulação e resposta prática.10ª edição do Palco Giratório

PROGRAMAÇÃO

Quarta-feira (20), às 19h
🎭 Abertura do festival: Espetáculo Capiba, pelas ruas eu vou
📍 Teatro do Parque: Rua do Hospício, 81, Boa Vista – Recife
🎟️ Entrada gratuita, com retirada antecipada pela internet; é preciso levar 1 kg de alimento para doação na hora do espetáculo

Sexta-feira (22), às 9h30
🎭 Espetáculo Helô em busca do baobá sagrado
📍 Sesc de Casa Amarela – Teatro Capiba: Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, 4490, Mangabeira – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sexta-feira (22), às 14h
🎭 Espetáculo Notícias do dilúvio – Um canto a Canudos
📍 Cine Teatro Samuel Campelo: Praça Nossa Senhora do Rosário, 510, Centro – Jaboatão dos Guararapes
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Sexta-feira (22), às 16h
🎭 Espetáculo O dia em que a Morte sambou
📍 Instituto Marcos Hacker de Melo: Rua Ten. João Cícero, 258, Boa Viagem – Recife
🎟️ Ingressos esgotados

Sábado (23), às 16h
🎭 Leitura dramatizada A cantora careca
📍 Centro Cultural Mercado Eufrásio Barbosa: Largo do Varadouro, s/n, Varadouro – Olinda
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Sábado (23), às 17h
🎭 Espetáculo Para Mariela
📍 Teatro Hermilo Borba: Cais do Apolo, 142, Bairro do Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sábado (23), às 19h
🎭 Espetáculo Sobre os ombros de Bárbara
📍 Sesc de Casa Amarela – Teatro Capiba: Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, 4490, Mangabeira – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sábado (23), às 20h
🎭 Espetáculo Para Mariela
📍 Teatro Hermilo Borba: Cais do Apolo, 142, Bairro do Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Domingo (24), às 11h
🎥 Filme Salu e o cavalo-marinho
📍 Cinema São Luiz: Rua da Aurora, 175, Boa Vista – Recife
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Domingo (24), às 16h
🎭 Espetáculo Frankinh@ – uma história em pedacinhos
📍 Teatro de Santa Isabel: Praça da República, s/n, Santo Antônio – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Domingo (24), às 17h30
🎭 Espetáculo Corpos de Tambor
📍 Sesc de Casa Amarela – Teatro Capiba: Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, 4490, Mangabeira – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Domingo (24), às 19h
🎭 Espetáculo Frankinh@ – uma história em pedacinhos
📍 Teatro de Santa Isabel: Praça da República, s/n, Santo Antônio – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Terça-feira (26), às 16h30
🎭 Espetáculo Bando
📍 Praça do Rosário: Centro, Jaboatão dos Guararapes
🎟️ Gratuito

Quarta-feira (27), às 9h30
🎭 Espetáculo Bando
📍 Praça Dom Vital/Mercado São José: Praça Dom Vital s/n, Recife
🎟️ Gratuito

Quarta-feira (27), às 14h
🎭 Espetáculo Roda
📍 Cine Teatro Samuel Campelo: Praça Nossa Senhora do Rosário, 510, Centro – Jaboatão dos Guararapes
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Quarta-feira (27), às 15h
🎭 Espetáculo No coração da Lua
📍 Teatro Barreto Júnior: Rua Estrada Jeremias Bastos, Pina – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Quinta-feira (28), às 19h30
🎭 Espetáculo A maçã
📍 Teatro Barreto Júnior: Rua Estrada Jeremias Bastos, Pina – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Quinta-feira (28), às 19h30
🎭 Espetáculo Agbará Obirin
📍 Teatro do Parque: Rua do Hospício, 81, Boa Vista – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sexta-feira (29), às 14h
🎭 Espetáculo A ver estrelas
📍 Teatro Apolo-Hermilo: Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Sexta-feira (29), às 14h e às 19h
🎥 Filme Mambembe
📍 Cine Teatro Samuel Campelo: Praça Nossa Senhora do Rosário, 510, Centro – Jaboatão dos Guararapes
🎟️ Gratuito

Sexta-feira (29), às 15h
🎭 Espetáculo Sancho Pança, o fiel escudeiro
📍 Sesc Ler São Lourenço da Mata: Avenida das Pêras, 56, Tiuma – São Lourenço da Mata
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Sexta-feira (29), às 20h
🎤 Show Adilson Ramos
📍 Teatro do Parque: Rua do Hospício, 81, Boa Vista – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sábado (30), às 15h30
👶 Contação de histórias para bebês
📍 Teatro Hermilo Borba: Cais do Apolo, 142, Bairro do Recife
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Sábado (30), às 16h
🎭 Espetáculo Caixa Ninho
📍 Teatro Hermilo Borba: Cais do Apolo, 142, Bairro do Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sábado (30), às 16h30
🪄 Espetáculo CloseUP
📍 Teatro do Parque: Rua do Hospício, 81, Boa Vista – Recife
🎟️ Gratuito

Sábado (30), às 17h
🎭 Espetáculo No Armário Não Cabe Ninguém
📍 Teatro do Parque: Rua do Hospício, 81, Boa Vista – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Domingo (31), às 11h
🎥 Filme RE TE TEI
📍 Cinema São Luiz: Rua da Aurora, 175, Boa Vista – Recife
🎟️ Gratuito

Domingo (31), às 16h
🎭 Espetáculo Sancho Pança, o fiel escudeiro
📍 Parque da Macaxeira: Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, s/n, Macaxeira – Recife
🎟️ Gratuito

Domingo (31), às 16h30
🎭 Espetáculo Pontilhados
📍 Recife Antigo: Avenida Rio Branc, s/n, Bairro do Recife
🎟️ Gratuito

Domingo (31), às 17h
🎭 Espetáculo HA!
📍 Parque da Macaxeira: Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, s/n, Macaxeira – Recife
🎟️ Gratuito

Terça-feira (2), às 15h
🎭 Espetáculo HA!
📍 Sesc Ler São Lourenço da Mata: Av. das Pêras, 56, Tiuma – São Lourenço da Mata
🎟️ Gratuito

Terça-feira (2), às 18h
👯‍♀️ Vivência Ballroom – Empoderamento, Corpo e História
📍Cine-Teatro Samuel Campelo: Praça Nossa Sra. do Rosário, 510, Centro – Jaboatão dos Guararapes
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Quarta-feira (3), às 15h
🎭 Espetáculo O Encontro da Tempestade com a Guerra
📍Sesc Santo Amaro: Praça do Campo Santo, 1-101, Santo Amaro – Recife
🎟️ Gratuito

Quarta-feira (3), às 20h
🎭 Espetáculo Peça Única
📍Teatro Barreto Júnior: R. Est. Jeremias Bastos, Pina – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Quinta-feira (4), às 18h
🎭 Espetáculo Espécie em Extinção
📍 Teatro Hermilo Borba: Cais do Apolo, 142 – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Quinta-feira (4), às 19h30
🎭 Palhaço Pinóquio (espetáculo de abertura)
🎭 Espetáculo Eduardo, o Rei das Praças
📍 Teatro Apolo-Hermilo: R. do Apolo, 121 – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sexta-feira (5), às 12h
🎭 Espetáculos Miau – Grupo Pé de Vento
📍Restaurante Sesc RioMar: Av. República do Líbano, 251, Pina – Recife
🎟️ Gratuito

Sexta-feira (5), às 20h
🎭 Espetáculo Pisadas
📍Teatro Apolo-Hermilo: R. do Apolo, 121 – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sábado (6), às 12h
🎭 Espetáculos Miau – Grupo Pé de Vento
📍Restaurante Sesc RioMar: Av. República do Líbano, 251, Pina – Recife
🎟️ Gratuito

Sábado (6), às 16h
🎭 Espetáculo Dandara na Terra dos Palmares
📍Teatro Apolo-Hermilo: R. do Apolo, 121 – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sábado (6), às 16h
🎶 Mestre Zezinho de Casa Amarela
📍Paço do Frevo: Praça do Arsenal da Marinha, 91 – Recife
🎟️ Gratuito

Domingo (7), às 16h30
🎭 Miro dos Bonecos – Mamulengos do Novo Milênio
📍Paço do Frevo: Praça do Arsenal da Marinha, 91 – Recife
🎟️ Gratuito

Domingo (7), às 17h
🎭 Espetáculo Re Te Tei
📍Paço do Frevo: Praça do Arsenal da Marinha, 91 – Recife
🎟️ Gratuito

Domingo (7), às 19h
FESTA CUBANA
📍 Clube Bela Vista

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Parabéns, Teatro de Santa Isabel
pelos 176 anos
Brevíssima reflexão
Por Ivana Moura

Teatro de Santa Isabel foi inaugurado em 18 de maio de 1850. Foto: Divulgação

Por onde se analisa um teatro que amamos? Pela qualidade do que programa, pela relação com a cidade, pela liberdade que concede aos artistas, pela coragem de enfrentar o poder, pela capacidade de formar público, pela memória que preserva, pela política de acesso que pratica, pelo que escolhe acolher e pelo que recusa programar – entre tantas pressões, pela continuidade – ou pela dispersão – do pensamento que o move, pela capacidade de enfrentar conflito, pelas condições de trabalho de quem faz o palco existir? O Teatro de Santa Isabel completa 176 anos nesta segunda-feira, e a data pede mais que celebração, pede olhar atento.

Inaugurado em 18 de maio de 1850, no bojo do projeto civilizatório de Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa Vista, o Santa Isabel nasce no ponto em que arquitetura, poder e imaginação urbana se cruzam; uma vitrine de uma elite que queria ver o Recife espelhado na Europa. Projetado por Louis Léger Vauthier, foi o primeiro teatro do Brasil erguido com mão de obra especializada e se tornaria o mais antigo exemplar neoclássico de Pernambuco. Sua construção, estendida de 1841 a 1850, deu ao Recife um edifício-síntese, uma forma de se pensar e de se expor. Tombado pelo IPHAN em 1949 e reconhecido entre os 14 teatros-patrimônio do país, o Santa Isabel permanece como uma dessas raras arquiteturas em que a pedra também argumenta.

Sua história é a de um palco que já viu muita coisa: da explosão lírica de Carlos Gomes à Campanha Abolicionista, passando pela tensão da ditadura militar. Sabe-se que o SNI (Serviço Nacional de Informações, um órgão de espionagem da ditadura que monitorava suspeitos do regime) produziu relatórios sobre atividades teatrais ligadas à casa e que o teatro figurava como espaço sensível aos tentáculos da repressão.

Hoje, 176 anos depois, uma das perguntas que se impõe é “o que tem feito com esse tempo”. O Santa Isabel segue em funcionamento – o que, dadas as circunstâncias do país, não é pouco. Mas a distinção relevante é entre operar e ter um projeto.

Pois um teatro-monumento não existe apenas para ser admirado. Existe para ser ativado. E é nesse ponto que sua história ultrapassa o valor arquitetônico e entra na vida pública da cidade. Joaquim Nabuco, por exemplo, associaria ao Santa Isabel à vitória moral e política da Abolição, porque ali seus discursos, récitas e atos públicos ajudaram a converter convicção em mobilização. O teatro foi um dos lugares em que a luta ganhou corpo, voz e adesão.

Orquestra Sinfônica do Recife. Foto: Marcos Pastich/PCR

Francisco — Um Instrumento de Paz, do Roberto Costa Produções. Foto: Divulgação

Frankinh@ – Uma História em Pedacinhos, montagem do Coletivo Gompa, de Porto Alegre. Foto: Divulgação

A programação de maio segue ativa e já teve música e espetáculos infantis. Na semana do aniversário, a Orquestra Sinfônica do Recife realiza dois concertos gratuitos, terça 19 e quarta 20, às 20h, com ingressos distribuídos uma hora antes na bilheteria ou pelo Conecta Recife. No fim de semana, o teatro recebe Francisco – Um Instrumento de Paz (Roberto Costa Produções, Recife), em duas sessões, sexta 22 e sábado 23. No domingo 24, dentro da programação do Palco Giratório Sesc PE, duas montagens do Coletivo Gompa, de Porto Alegre – o infantil Frankinh@ – Uma História em Pedacinhos, às 16h, e Frankenstein, às 19h, com direção de Camila Bauer e narração de Sandra Dani.

Ainda na sequência, a Mostra de Dança – Especial 10 Anos do Studio No Passo da Dança, escola de balé clássico (27/05), e duas produções do Studio de Danças: Um Sopro de Clarice (30 e 31/05, 19h30), espetáculo sob direção artística de Viviany Luz, que mergulha no universo de Clarice Lispector pelo movimento, e O Quintal da Casa Amarela (31/05, 16h), inspirado no livro Quase de Verdade da mesma autora, onde um quintal habitado por galinhas elegantes, uma figueira enciumada e o cão de Clarice se abre para o público infantil. No entanto, para o dia 18 – a data exata do aniversário – não há nada programado.

As pautas estão sempre esgotadas, mas o processo de ocupação do equipamento – e dos demais teatros públicos do Recife e de Pernambuco – ainda carece de critérios claros e tornados públicos. É uma questão de instituir uma política de programação que seja pública, continuada e passível de debate; escolhas curatoriais inteligíveis para o público e para a classe artística. A questão não é ocupar o palco – é saber por quê, para quem e com que pensamento se ocupa. Um teatro público sem curadoria pode até ter agenda cheia, mas é diferente de operar como centro de decisão estética e política.

E o ponto de discussão é político. O que se espera de um teatro como o Santa Isabel não é apenas funcionamento regular, mas capacidade de produzir sentido: relacionar tradição e risco, memória e invenção, repertório e fricção contemporânea. Um equipamento dessa natureza pode acolher a produção local, dialogar com o circuito nacional e internacional, abrir espaço à infância, à música de concerto, à dança, ao teatro de grupo, sem renunciar à nitidez de um rumo. 

Quanto maior a espessura simbólica de um teatro, maior deve ser a clareza com que ele responde à cidade sobre o que programa, para quem programa e que imaginação pública deseja sustentar.

Aos 176 anos, o Teatro de Santa Isabel continua sendo uma das formas mais altas com que o Recife se olha. Que essa data sirva para perguntar, com rigor e afeto, o que ainda está por ser sustentado ali.

Vida longa ao Santa Isabel, pedra neoclássica da Praça da República. E que poder público, artistas e espectadores estejam à altura da grandiosidade desse teatro.

Postado com as tags: , , ,