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Semana Hermilo:
Entre arquivo, cena e pensamento

Hermilo Borba Filho e corredor do teatro que leva seu nome, em imagem editada com AI. Programação gratuita no Recife relê a obra de HBF com exposição, espetáculos, palestras e atividades formativas. Foto: Andréa Rêgo Barros e Arquivo

Exposição Mão Molenga – 40 anos de história. Foto: Carla Denise

A cada nova edição, a Semana Hermilo recoloca uma pergunta simples e decisiva: o que uma cidade faz, de fato, com a obra de um autor que ajudou a pensar sua cena cultural? Neste ano, entre 4 e 11 de julho, a programação gratuita promovida pela Prefeitura do Recife no Teatro Hermilo Borba Filho responde a essa questão com uma combinação de exposição, espetáculos, palestras e ações formativas em torno de Hermilo Borba Filho (1917-1976), escritor, encenador, professor, crítico e ensaísta nascido em Palmares, cuja atuação foi central para a formulação, em Pernambuco, de uma literatura e de um teatro ligados à cultura popular nordestina.

Realizada desde 2002, a Semana se firmou como um dos principais espaços públicos de circulação da obra e do pensamento de Hermilo no Recife. Essa permanência também passa pela atuação de Leda Alves (1931-2023), atriz, escritora, gestora cultural e companheira de Hermilo, com quem fundou, nos anos 1960, o Teatro Popular do Nordeste (TPN). Formada em Arte Dramática pela UFPE, Leda teve papel preponderante na defesa da cultura popular e na preservação desse legado no campo institucional. Foi secretária de Cultura do Recife entre 2013 e 2020, além de ter dirigido o Teatro Santa Isabel e presidido a Cepe e a Fundarpe. Sua trajetória ajudou a manter em circulação a memória de Hermilo, como também uma leitura de sua obra vinculada à cultura popular como prática artística e como política pública.

A edição de 2026 distribui esse legado em três frentes. Há um eixo de memória e visualidade, com a exposição do Mão Molenga; um eixo de cena, com Sob Julgamento e O Traidor; e um eixo de reflexão crítica, com palestras voltadas à dramaturgia, à ficção em prosa e ao projeto do Teatro Popular do Nordeste.

Mão Molenga. Foto Fábio Caio

A abertura, no dia 4, começa com a exposição Mão Molenga – 40 anos de história, em cartaz até 4 de agosto. Criado em 1986, o Mão Molenga Teatro de Bonecos é um dos grupos mais duradouros do teatro de animação em Pernambuco. O grupo ostenta uma trajetória continuada de pesquisa em bonecos, formas animadas, oficinas, vídeo e TV, além de manter um acervo de mais de 300 bonecos e cerca de 600 figurinos de época. A formação histórica do coletivo reúne Marcondes Lima, Fábio Caio, Carla Denise e Fátima Caio, hoje lembrada in memoriam.

A mostra leva para dentro da Semana uma tradição concreta do teatro popular nordestino, em que o boneco atua como linguagem, invenção plástica e permanência cultural. Ao aproximar Hermilo de uma prática artística viva e de longa duração, a exposição reforça um ponto essencial: a cultura popular que atravessa sua obra é campo material de criação, transmissão e memória.

Na mesma noite, entra em cena Sob Julgamento, com nova sessão no dia 5. Com concepção e direção de Marcondes Lima, a montagem assume um ideário brechtiano e se organiza em cinco episódios, correspondentes a etapas de um processo judicial: citação do réu, resposta do réu, instrução probatória, alegações finais e sentença. As cenas reúnem situações construídas a partir de fatos reais e outras extraídas de obras de Bertolt Brecht, intercaladas por canções do cancioneiro brasileiro.  A presença do espetáculo na abertura ajuda a qualificar o elo entre a Semana Hermilo e o ambiente de formação: trata-se de um trabalho realizado por alunos do curso de teatro da UFPE, em sintonia com a vocação do Centro Apolo-Hermilo como espaço de pesquisa e prática cênica. 

De 6 a 9 de julho, o centro da programação passa a ser o ciclo de palestras, que amplia o alcance da homenagem. Na segunda-feira (6), a mesa Da manhã à meia-noite – A modernidade expressionista nas dramaturgias de Nelson Rodrigues e Hermilo Borba Filho, com Samantha Lima de Almeida e Anco Márcio Tenório Vieira, e mediação de Carlos Carvalho, tem apoio direto em pesquisa acadêmica. Em dissertação defendida na UFPE em 2021, Samantha sustenta que tanto Nelson quanto Hermilo recorrem a elementos dramáticos expressionistas, embora avancem por trajetórias diferentes: Nelson voltado ao chamado Teatro Desagradável, e Hermilo comprometido com um Teatro do Nordeste, ligado a temas e formas da região.

Na terça-feira (7), a programação se volta para Os Ambulantes de Deus, novela de Hermilo Borba Filho discutida na palestra Êxodo, desordem e mito – A sátira menipeia em Os Ambulantes de Deus, com Raphael Victor Alves de Jesus e Marcondes Lima, também sob mediação de Carlos Carvalho. A aproximação da novela com ideias como êxodo, mito e desordem aponta para uma prosa atravessada por deslocamento, imaginação religiosa e tensão simbólica, deslocando a leitura de Hermilo para além de um quadro de costumes ou de uma marca estritamente regional.

Na quarta-feira (8), o foco recai sobre o romance Agá, na palestra Metaficção e intermidialidade no romance Agá, de Hermilo Borba Filho, com Eron Villar e Yuri Jivago Amorim Caribé, com mediação de Carlos Carvalho. Também aqui há respaldo acadêmico. Em dissertação defendida na UFPE em 2023, Eron analisa Agá a partir de categorias como metaficção, intertextualidade e intermidialidade, mostrando um romance em que o eu-narrador articula elementos de ficção e realidade e estabelece relações com outras linguagens, como teatro, dança e histórias em quadrinhos. O interesse desse recorte está em reposicionar Hermilo como escritor de construção complexa, atento às passagens entre literatura e outras artes.

Na quinta-feira (9), a mesa Hermilo Borba Filho. TPN, o teatro do mundo retoma um dos núcleos decisivos de sua trajetória: o Teatro Popular do Nordeste. Participam da conversa Luiz Reis e a jornalista Ivana Moura, com mediação de Carlos Carvalho. Hermilo fundou o TPN em 1960, com o objetivo de abrir caminho para um teatro de arte em caráter profissional na região. Seu trabalho buscava um espetáculo nordestino, com estética épica apoiada nos folguedos populares. Luiz Reis é autor da tese de doutorado Fora de cena, no palco da modernidade: um estudo do pensamento teatral de Hermilo Borba Filho, defendida na UFPE em 2008. A expressão “teatro do mundo” sugere justamente isso: um projeto que parte do Nordeste não para confiná-lo, mas para transformá-lo em linguagem de cena, leitura de país e ambição estética.

A programação inclui ainda atividades formativas como o workshop Teatro como insurreição poética, com Quiercles Santana, e a oficina O cavalo-marinho na construção do corpo cênico, com Mestre Fábio Soares. As atividades formativas acontecem ao longo do período de 6 a 9 de julho e têm duração de três ou quatro horas, reforçando a vocação da Semana para articular fruição e transmissão, cena e pensamento.

O encerramento cênico acontece com O Traidor, em sessões nos dias 10 e 11 de julho. A peça, adaptada e dirigida por Carlos Carvalho, retoma um dos núcleos mais políticos da obra de Hermilo.

Ao articular arquivo, formação, pesquisa e encenação, a edição de 2026 reafirma a função que a Semana cumpre desde 2002: manter Hermilo Borba Filho em circulação pública.

Peça com alunos do curso de teatro da UFPE, com concepção e direção de Marcondes Lima. Foto: Divulgação

Sob Julgamento leva Brecht, rito jurídico e formação universitária para a abertura da Semana

Escolhido para abrir a programação cênica da Semana Hermilo, Sob Julgamento conjuga procedimento teatral, matéria jurídica e formação universitária. Com concepção e direção de Marcondes Lima, o espetáculo se baseia no ideário brechtiano e se estrutura em cinco episódios que acompanham o curso de uma ação judicial: citação do réu, resposta do réu, instrução probatória, alegações finais e sentença.

As cenas são construídas a partir de fatos reais e de trechos extraídos da obra de Bertolt Brecht, costurados por músicas do cancioneiro brasileiro. O resultado, segundo a proposta da montagem, é um percurso por julgamentos justos e injustos, num tempo em que o tema da sentença, da culpa e da disputa por verdade se impõe no espaço público.

O espetáculo reúne no elenco Amanda Camyle, Ana Carolina, Anne Oliveira, Brenda Lima, Carlos Alberto, Diana Goiana, Gusttavo Revorêdo, Laura Ianes, Letícia Gonçalves, Lia Mariz, Marcus Azevedo, Marcus Carvalho, Maria Morim, Nívia Mariana, Ocean, Rayssa Tawane e Vinny Carvalho. Tem apoio pedagógico e assistência de direção de Marina Lino, produção de Grazielly Santana e Mariana Castelo, cenografia e figurino de Marcondes Lima e coletivo, maquiagem de Marina Lino e coletivo, iluminação de Nelba Santos, sonoplastia de Marina Lino e coletivo, coordenação do LAFACE por Rose Mary Martins e Marcondes Lima, além de design gráfico e fotografia do Estúdio Dionísio.

Na leitura de Carlos Carvalho, a presença de Sob Julgamento na Semana faz sentido também pela forma. Trata-se de um espetáculo anti-ilusionista, afinado com um ambiente de pesquisa e formação, realizado por estudantes do curso de teatro da UFPE. Nesse sentido, a peça entra na programação como trabalho convidado e como sinal de continuidade entre estudo, cena e pensamento teatral.

Ingressos gratuitos serão distribuídos uma hora antes do início de cada sessão.

Fátima Aguiar e Paulo de Pontes em O Traidor. Foto: Divulgação

O Traidor leva ao palco Zumba e a violência do poder

Entre os trabalhos apresentados na Semana Hermilo, O Traidor ocupa um lugar particular. A montagem, definida como adaptação livre do conto homônimo de Hermilo Borba Filho, tem dramaturgia e direção de Carlos Carvalho e se apoia, segundo a equipe, na experiência do elenco e numa cena de linguagem essencial, anti-ilusionista, centrada na palavra e na interpretação.

É a história de Clerivaldo dos Santos da Silva, conhecido como Zumba Dentão, sapateiro, militante bolchevique e figura popular de Palmares, na Zona da Mata Sul de Pernambuco. Inserido numa sociedade marcada pelo coronelismo, pelo poder dos usineiros e pela desigualdade social, Zumba dedica a vida à militância por uma sociedade igualitária. Por causa dessa atuação, é preso e torturado diversas vezes, o que transforma seu apelido em Zumba Sem Dente.

Casado com Discleide, também comunista – e, na peça, apreciadora de filmes de bangue-bangue americanos -, Zumba decide se candidatar a prefeito. O ponto de ruptura da história se dá quando ele é sequestrado e torturado. A peça incorpora ainda um dado trágico decisivo: Zumba era analfabeto. Quando a cidade busca encontrar uma tentativa de libertá-lo da cadeia, um bilhete é enviado para avisá-lo sobre a ação. A versão espalhada por Cabo Luiz, no entanto, é a de que o sapateiro teria entregado o conteúdo às autoridades, provocando prisões. Em seguida, a rádio noticia que Zumba, em suposta tentativa de fuga, teria sido abatido a tiros. Discleide recebe o corpo mutilado.

O elenco é formado por Paulo de Pontes, Fátima Aguiar e Cleusson Vieira. Paulo de Pontes interpreta Zumba; Fátima Aguiar, Discleide; e Cleusson Vieira, Cabo Luiz. Carlos Carvalho assina ainda desenho de luz, figurino e adereços. A peça tem 45 minutos de duração e busca um diálogo direto entre atores e plateia, com ênfase na palavra viva e na exposição da narrativa sem ilusão de naturalismo.

Serviço

Semana Hermilo 2026

De 4 a 11 de julho
Teatro Hermilo Borba Filho
Entrada gratuita

Programação

04/07 – Sábado
19h – Abertura e estreia da exposição Mão Molenga — 40 anos de história
20h – Espetáculo Sob Julgamento , com alunos do CAC/UFPE

05/07 – Domingo
19h – Espetáculo Sob Julgamento, com alunos do CAC/UFPE

06/07 – Segunda-feira
19h – Palestra Da manhã à meia-noite — A modernidade expressionista nas dramaturgias de Nelson Rodrigues e Hermilo Borba Filho, com Samantha Lima de Almeida e Anco Márcio Tenório Vieira
Mediação: Carlos Carvalho

07/07 – Terça-feira
19h – Palestra Êxodo, desordem e mito — A sátira menipeia em Os Ambulantes de Deus, novela de Hermilo Borba Filho, com Raphael Victor Alves de Jesus e Marcondes Lima
Mediação: Carlos Carvalho

08/07 – Quarta-feira
19h – Palestra Metaficção e intermidialidade no romance Agá, de Hermilo Borba Filho, com Eron Villar e Yuri Jivago Amorim Caribé
Mediação: Carlos Carvalho

09/07 – Quinta-feira
19h – Palestra Hermilo Borba Filho. TPN, o teatro do mundo, com Luiz Reis e Ivana Moura
Mediação: Carlos Carvalho

10/07 – Sexta-feira
19h – Espetáculo O Traidor, adaptação do conto homônimo de Hermilo Borba Filho, com dramaturgia e direção de Carlos Carvalho

11/07 – Sábado
19h – Espetáculo O Traidor, adaptação do conto homônimo de Hermilo Borba Filho, com dramaturgia e direção de Carlos Carvalho

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Parabéns, Teatro de Santa Isabel
pelos 176 anos
Brevíssima reflexão
Por Ivana Moura

Teatro de Santa Isabel foi inaugurado em 18 de maio de 1850. Foto: Divulgação

Por onde se analisa um teatro que amamos? Pela qualidade do que programa, pela relação com a cidade, pela liberdade que concede aos artistas, pela coragem de enfrentar o poder, pela capacidade de formar público, pela memória que preserva, pela política de acesso que pratica, pelo que escolhe acolher e pelo que recusa programar – entre tantas pressões, pela continuidade – ou pela dispersão – do pensamento que o move, pela capacidade de enfrentar conflito, pelas condições de trabalho de quem faz o palco existir? O Teatro de Santa Isabel completa 176 anos nesta segunda-feira, e a data pede mais que celebração, pede olhar atento.

Inaugurado em 18 de maio de 1850, no bojo do projeto civilizatório de Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa Vista, o Santa Isabel nasce no ponto em que arquitetura, poder e imaginação urbana se cruzam; uma vitrine de uma elite que queria ver o Recife espelhado na Europa. Projetado por Louis Léger Vauthier, foi o primeiro teatro do Brasil erguido com mão de obra especializada e se tornaria o mais antigo exemplar neoclássico de Pernambuco. Sua construção, estendida de 1841 a 1850, deu ao Recife um edifício-síntese, uma forma de se pensar e de se expor. Tombado pelo IPHAN em 1949 e reconhecido entre os 14 teatros-patrimônio do país, o Santa Isabel permanece como uma dessas raras arquiteturas em que a pedra também argumenta.

Sua história é a de um palco que já viu muita coisa: da explosão lírica de Carlos Gomes à Campanha Abolicionista, passando pela tensão da ditadura militar. Sabe-se que o SNI (Serviço Nacional de Informações, um órgão de espionagem da ditadura que monitorava suspeitos do regime) produziu relatórios sobre atividades teatrais ligadas à casa e que o teatro figurava como espaço sensível aos tentáculos da repressão.

Hoje, 176 anos depois, uma das perguntas que se impõe é “o que tem feito com esse tempo”. O Santa Isabel segue em funcionamento – o que, dadas as circunstâncias do país, não é pouco. Mas a distinção relevante é entre operar e ter um projeto.

Pois um teatro-monumento não existe apenas para ser admirado. Existe para ser ativado. E é nesse ponto que sua história ultrapassa o valor arquitetônico e entra na vida pública da cidade. Joaquim Nabuco, por exemplo, associaria ao Santa Isabel à vitória moral e política da Abolição, porque ali seus discursos, récitas e atos públicos ajudaram a converter convicção em mobilização. O teatro foi um dos lugares em que a luta ganhou corpo, voz e adesão.

Orquestra Sinfônica do Recife. Foto: Marcos Pastich/PCR

Francisco — Um Instrumento de Paz, do Roberto Costa Produções. Foto: Divulgação

Frankinh@ – Uma História em Pedacinhos, montagem do Coletivo Gompa, de Porto Alegre. Foto: Divulgação

A programação de maio segue ativa e já teve música e espetáculos infantis. Na semana do aniversário, a Orquestra Sinfônica do Recife realiza dois concertos gratuitos, terça 19 e quarta 20, às 20h, com ingressos distribuídos uma hora antes na bilheteria ou pelo Conecta Recife. No fim de semana, o teatro recebe Francisco – Um Instrumento de Paz (Roberto Costa Produções, Recife), em duas sessões, sexta 22 e sábado 23. No domingo 24, dentro da programação do Palco Giratório Sesc PE, duas montagens do Coletivo Gompa, de Porto Alegre – o infantil Frankinh@ – Uma História em Pedacinhos, às 16h, e Frankenstein, às 19h, com direção de Camila Bauer e narração de Sandra Dani.

Ainda na sequência, a Mostra de Dança – Especial 10 Anos do Studio No Passo da Dança, escola de balé clássico (27/05), e duas produções do Studio de Danças: Um Sopro de Clarice (30 e 31/05, 19h30), espetáculo sob direção artística de Viviany Luz, que mergulha no universo de Clarice Lispector pelo movimento, e O Quintal da Casa Amarela (31/05, 16h), inspirado no livro Quase de Verdade da mesma autora, onde um quintal habitado por galinhas elegantes, uma figueira enciumada e o cão de Clarice se abre para o público infantil. No entanto, para o dia 18 – a data exata do aniversário – não há nada programado.

As pautas estão sempre esgotadas, mas o processo de ocupação do equipamento – e dos demais teatros públicos do Recife e de Pernambuco – ainda carece de critérios claros e tornados públicos. É uma questão de instituir uma política de programação que seja pública, continuada e passível de debate; escolhas curatoriais inteligíveis para o público e para a classe artística. A questão não é ocupar o palco – é saber por quê, para quem e com que pensamento se ocupa. Um teatro público sem curadoria pode até ter agenda cheia, mas é diferente de operar como centro de decisão estética e política.

E o ponto de discussão é político. O que se espera de um teatro como o Santa Isabel não é apenas funcionamento regular, mas capacidade de produzir sentido: relacionar tradição e risco, memória e invenção, repertório e fricção contemporânea. Um equipamento dessa natureza pode acolher a produção local, dialogar com o circuito nacional e internacional, abrir espaço à infância, à música de concerto, à dança, ao teatro de grupo, sem renunciar à nitidez de um rumo. 

Quanto maior a espessura simbólica de um teatro, maior deve ser a clareza com que ele responde à cidade sobre o que programa, para quem programa e que imaginação pública deseja sustentar.

Aos 176 anos, o Teatro de Santa Isabel continua sendo uma das formas mais altas com que o Recife se olha. Que essa data sirva para perguntar, com rigor e afeto, o que ainda está por ser sustentado ali.

Vida longa ao Santa Isabel, pedra neoclássica da Praça da República. E que poder público, artistas e espectadores estejam à altura da grandiosidade desse teatro.

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Festival Reside Amaro
Uma experiência artística inovadora no Recife

Vizinhos no bairro de Santo Amaro participam de ações artísticas. Foto: Rogério Alves

O Festival Reside Amaro, que ocorre nestes dias 7, 8 e 9 de fevereiro de 2025, é mais que um evento no calendário cultural do Recife; é um manifesto vivo, uma declaração ousada sobre o potencial transformador da arte quando esta pulsa organicamente com o tecido social de uma comunidade.

Paula de Renor, uma produtora cultural com uma visão ousada, sempre sonhou em realizar um festival teatral inovador, diferente dos modelos tradicionais. A inspiração que faltava surgiu quando ela conheceu o trabalho do Teatro Bombón e o conceito de “teatro vecinal” (teatro de vizinhança) da artista argentina Monina Bonelli. Com essa nova perspectiva, Paula uniu forças com Bonelli e o curador Celso Curi para dar vida ao Reside Amaro, um projeto que leva o teatro para o coração do bairro de Santo Amaro, no Recife. Essa proposta única transforma a comunidade no centro pulsante da experiência teatral, promovendo uma colaboração íntima entre artistas e moradores locais para criar performances autênticas e envolventes.

A escolha de Santo Amaro como palco para esta experiência não foi aleatória. O bairro, com sua rica vivência histórica e cultural, serve como um microcosmo perfeito do Recife e, por extensão, do Brasil urbano contemporâneo.

“Santo Amaro é um paradoxo vivo,” aponta Roger de Renor, produtor e ativista cultural e vizinho inspirador. Neste território, casarões coloniais expõem a luta pelo espaço urbano com prédios altíssimos. Comunidades de pescadores, cujas tradições remontam a séculos, convivem lado a lado com startups de tecnologia de ponta.

Esta complexidade sociocultural de Santo Amaro serve como um terreno fértil para o tipo de narrativas plurais que o Reside Amaro busca explorar.

Monina Bonelli_Paula de Renor_Celso Curi._Foto Rogério Alves

O Reside Amaro destaca-se por sua natureza site-specific, onde cada apresentação é cuidadosamente elaborada para se integrar e dialogar com o ambiente específico em que ocorre. Esta técnica transforma espaços cotidianos – desde casas particulares até bares locais – em cenários teatrais singulares, criando uma experiência imersiva tanto para os artistas quanto para o público.

O aspecto comunitário do festival é igualmente central. Ao envolver ativamente os moradores de Santo Amaro no processo criativo, o Reside Amaro opera essa via de mão dupla: traz o teatro para a comunidade, mas também traz a comunidade para o teatro. Esta abordagem resulta em performances que são autênticas reflexões das histórias, culturas e experiências locais.

A maioria das performances é criação original, desenvolvida especificamente para o festival. Outra característica marcante do Reside Amaro é seu caráter processual. Muitas das ações e performances começaram a ser desenvolvidas apenas nas últimas semanas antes do festival. Este curto período de gestação confere às apresentações um frescor e uma espontaneidade raramente vistos em produções teatrais tradicionais. 

“É fascinante ver como as técnicas de teatro comunitário desenvolvidas em Buenos Aires se adaptam e ganham novos significados no contexto de Recife”, observa Monina Bonelli. “Há um diálogo intercultural acontecendo aqui que é verdadeiramente enriquecedor”.

Espetáculos internacionais Rainha, com Maiamar Abrodos e Da Melhor Maneira com Federico Liss e David Rubinstein. Foto: Divulgação

O festival apresenta duas peças argentinas em espanhol com legendas em português. Rainha (Reina en el Gondo), dirigida e escrita por Natalia Villamil e estrelada por Maiamar Abrodos, retrata a vida de uma mulher transgênero idosa no Gondolín, um hotel-refúgio em Buenos Aires, explorando suas memórias e reflexões sobre identidade. Já Da Melhor Maneira (De la mejor manera) é uma obra de Jorge Eiro, Federico Liss e David Rubinstein, dirigida por Eiro e atuada por Liss e Rubinstein. Esta peça acompanha dois irmãos que retornam ao bar da família durante o velório do pai, enfrentando o vazio deixado por sua perda e o desafio de seguir em frente diante de um “abismo silencioso”.

Além das performances, o Reside Amaro tem um forte componente educacional. Alunos do Curso de Interpretação para Teatro do Sesc Santo Amaro estão ativamente envolvidos em todas as etapas do festival, desde a concepção até a execução. Esta iniciativa aprimora o aprendizado dos estudantes, contribuindo para a formação de uma nova geração de artistas.

Com mais de 70 apresentações distribuídas ao longo de três dias, o festival oferece uma programação diversificada e acessível. Todas as apresentações são gratuitas, com ingressos distribuídos uma hora antes de cada sessão. O evento também prioriza a acessibilidade, oferecendo tradução em Libras para várias performances e garantindo que os espaços sejam acessíveis para pessoas com deficiência.

PROGRAMAÇÃO

CASA 1 (Rua Capitão Lima) CENTRAL DE INFORMAÇÕES

Casa 2 Rua (Rua Capitão Lima) LENE CONVIDA
Performance participativa onde Lene estreia um programa de entrevistas intimista. Recebe personalidades para conversas sinceras e inspiradoras sobre Pernambuco.
Dramaturgia/Direção: Giordano Castro, Mateus Condé.
Atuação: Lene Maria.
07/02: 19h30-22h, 08-09/02: 18h30-21h30. Fluxo contínuo.

Casa 3 (Rua Capitão Lima) COMUNHÃO MUSICAL
Espetáculo musical que une diferentes gerações e histórias de vida. Performances de um padre, uma cozinheira e um cantor profissional.
Direção musical: Douglas Duan.
Vozes: Padre Caetano, Alê Maria, Carlinhos Monteverde.
07/02: 19h, 08-09/02: 18h.

Casa 4 (Rua da Piedade) ÁLBUM DOS VIZINHOS
Projeção de retratos que capturam a essência dos moradores da vila. Transformação de memórias em arte, reforçando laços comunitários.
Fotos: Rogério Alves. Coordenação: Ingredy Barbosa.
07/02: 19h30-22h, 08-09/02: 18h30-21h. Fluxo contínuo.

Casa 5 (Rua Capitão Lima) SOM NA RURAL
Festa itinerante que transforma as ruas em palco de celebração. Picadeiro sonoro que constrói novas histórias e memórias.
comunicação: Roger de Renor. DJ: Dj Vibra.
07/02: 22h-23h.

Casa 6 (Travessa do Ferreira) HEY, HEY, HEY! ROBERTO É O NOSSO REI!
Karaokê em homenagem a Roberto Carlos, realizando o sonho de João Paulo. Inclui mural no Beco do Roberto, multiplicando a presença do Rei.
Artista vizinho: João Paulo Silva. Artista ativador: Douglas Duan.
07/02: 20h-22h, 08-09/02: 19h-21h30. Fluxo contínuo.

Casa 7 (Rua da Piedade) ALTA VIGILÂNCIA
Instalação dramatúrgica que explora a cultura da fofoca em Pernambuco. Narradoras compartilham histórias bisbilhotadas na rua Piedade.
Dramaturgia: Newton Moreno. Narradoras: Amanda Menelau, Márcia Luz.
07/02: 20h-22h, 08-09/02: 19h-21h30.

Casa 8 (Rua da Piedade) CASINHA DE ROGÊ
Instalação/performance que convida à intimidade da casa de Roger de Renor. Reflexões sobre cidades horizontais, utopias e memória. Performance: Roger de Renor.
Duração: 30min.
Capacidade: 20 pessoas/sessão.
07/02: 20h e 21h, 08-09/02: 19h e 20h.

Casa 9 (Rua da Piedade) INDO PARA LÁ
Performance documental sobre uma travessia imaginária de barco. Explora conversas, histórias e imagens que permanecem na memória. Direção: Quiercles Santana. Atuação: Clau Barros, Dorgival Fraga. Duração: 30min. Capacidade: 20 pessoas/sessão. 07/02: 20h e 21h, 08-09/02: 19h e 20h.

Casa 10 (Rua da Piedade) PRONTA PRA GUERRA; PULANDO FOGUEIRAS E DECORANDO O TEXTO COM FUXICOS
Performance inspirada na vida de Joana d’Arc e Ivete Alves de Mesquita. Explora a luta pela existência através de costura, fuxicos e memórias.
Dramaturgia/Encenação: Anderson Leite.
Atuação: Augusta Ferraz.
Duração: 30min.
Capacidade: 20 pessoas/sessão. 07/02: 20h30 e 21h30, 08-09/02: 19h30 e 20h30.

Casa 11 (Rua da Piedade) NO FRIGIR DOS OVOS TUDO TEM SOM
Performance documental que explora os sons e aromas da cozinha. Inspirada na vida de Geraldo Maximiano de Lima, o Rei do Omelete.
Direção: Quiercles Santana. Atuação: Djalma Albuquerque, Anne Andrade, Lua Alves.
Duração: 30min.
Capacidade: 20 pessoas/sessão.
07/02: 20h30 e 21h30, 08-09/02: 19h30 e 20h30.

Casa 12 (Rua Capitão Lima) SABOR DO DESTINO
Audioguia e experiência sensorial baseada na vida de Detinha. Percurso sonoro guiado pelos sabores, com participantes de olhos vendados.
Dramaturgia/Direção: Júnior Sampaio.
Narração: Fabiana Pirro.
Duração: 30min.
Capacidade: 20 pessoas/sessão.
07/02: 20h e 21h, 08-09/02: 19h e 20h.

Casa 13 ((Rua Capitão Lima) RITO DE PASSAGEM
Performance em movimento conduzida por HBlynda até a casa de Reina. Compartilha desafios enfrentados na jornada de reafirmação de identidade.
Criação/Performance: HBlynda Morais.
Duração: 30min.
Capacidade: 30 pessoas/sessão.
08-09/02: 19h.

Casa 14 (Rua Capitão Lima) AMARO
Exibição do curta-metragem desenvolvido durante a residência do festival. Retrata um dia na vida de Amaro, homem emocionalmente contido.
Roteiro/Direção: Diogo Cabral.
09/02: 19h-21h. Fluxo contínuo.

Casa 15 (Rua Capitão Lima) RECEITA PARA CONTAR HISTÓRIAS
Performance documental sobre histórias familiares e receitas. Mistura memórias do Maranhão a Pernambuco através do doce de banana.
Dramaturgia/Direção: João Pedro Pinheiro, Larissa Pinheiro. Com: Lannje Falcão, Aurian Falcão.
Duração: 30min.
Capacidade: 20 pessoas/sessão.
07/02: 20h30 e 21h30, 08-09/02: 19h30 e 20h30.

Casa 16 (Rua Capitão Lima, 410) UMA DOR MENOR
Teatro documental sobre impasses de um enterro familiar. Explora o conflito entre luto pessoal e cerimônia pública de um político.
Dramaturgia/Atuação: Ivana Moura.
Direção: Luiz Felipe Botelho.
Duração: 30min.
Capacidade: 20 pessoas/sessão.
07/02: 20h30 e 21h30, 08-09/02: 19h e 20h30.

Casa 17 (Rua Capitão Lima, 408) RAINHA
Peça argentina sobre a vida de uma mulher transgênero idosa. Explora memórias e reflexões sobre identidade no hotel Gondolín.
Dramaturgia/Direção: Natalia Villamil. Atuação: Maiamar Abrodos.
Duração: 60min.
Capacidade: 30 pessoas/sessão.
08-09/02: 19h30.

Casa 18 (Rua Capitão Lima – auditório da TV Jornal) NOS BASTIDORES DOS PROGRAMAS DE AUDITÓRIO: CONHEÇA A HISTÓRIA DA TV JORNAL
Vídeo que relembra 65 anos da TV Jornal pernambucana. Destaca programas de auditório e participações importantes.
Criação/Produção: TV Jornal.
Duração: 5min. Capacidade: 20 pessoas/sessão.
07/02: 19h, 19h15, 19h30 e 19h45.

Casa 19 (Rua Capitão Lima) CASAR, PARA QUE?
Quadrilha que desafia superstições sobre casamento. Celebra o casamento de dona Neta e Luiz com pompa e circunstância.
Direção/Coreografia: Mônica Lira. Casal: Erivonete Barbosa, Luiz Elias.
08/02: 21h30-23h.

Casa 20 (Rua Capitão Lima – na rua) BOI MARINHO
Cortejo que mistura tradições populares, com destaque para o Cavalo Marinho. Ativação com alunos da Escola Sylvio Rabello e vizinhos.
Mestre/Direção: Helder Vasconcelos. Contra mestra: Laura Tamiana.
09/02: 18h-18h40.

Casa 21 (Rua Capitão Lima – Restaurante Casa Capitão) DA MELHOR MANEIRA
Peça argentina sobre dois irmãos lidando com a perda do pai. Explora o luto e o desafio de seguir em frente após uma perda.
Dramaturgia: Jorge Eiro, Federico Liss, David Rubinstein. Direção: Jorge Eiro.
Duração: 60min.
Capacidade: 30 pessoas/sessão.
08-09/02: 20h.

FICHA TÉCNICA

Idealização
Monina Bonelli

Criação
Monina Bonelli e Celso Curi

Artista criador convidado
Quiercles Santana

Curadores
Paula de Renor e Celso Curi

Vizinho inspirador
Roger de Renor

Vizinha embaixadora
Ingredy Barbosa

Assistente de criação
Márcio Allan

Artistas convidados
Álefe Passarin, Amanda Menelau, Anderson Leite, Augusta Ferraz, Bailarinos da Quadrilha Evolução (Damas – Giovanna Seabra Paiva Carneiro, ⁠Hellen Cavalcante, Perollah Hair, Rayssa Gomes de Vasconcelos, Thadgya Dos Santos Silva e Thais Maely Sidronio. Cavalheiros – Adones Vasconcelos, Aleson Willam Souza, Anthony Matheus de Aquino, Lourival Rodrigues, Rodrigo de Oliveira e ⁠Wladiel Queiroz), Boris Trindade Júnior (palhaço Tapioca), Carlinhos Lua, Carlinhos Monteverde, Carlos Santos, Clau Barros, David Rubinstein, Dj Vibra, Douglas Duan, Fabiana Pirro, Federico Liss, Giordano Castro, HBlynda Morais, Helder Vasconcelos e o Boi Marinho, Ivana Moura, Jeison Wallace, Jerlane Silva (palhaça Bilack), João Pedro Pinheiro, Jorge Eiro, Júlio Brito, Júnior Sampaio, Jurema Fox, Kleber Santana, Larissa Pinheiro, Luiz Felipe Botelho, Maiamar Abrodos, Mônica Lira, Natalia Villamil, Newton Moreno, Pinho Fidelis, Rafael Chamié e Roger de Renor.

Vizinhos artistas
Alê Maria, Alice Barbosa, Aurian Falcão, Dorgival Fraga (Paizinho), Erivonete Barbosa (dona Neta), Everton de Holanda Júnior, Geraldo Maximiano de Lima (Rei do Omelete), Ivete Alves de Mesquita, Joana d’Arc Dantas Mesquita, João Paulo Silva, Lannje Falcão, Lene Maria, Ligia Vieira, Luiz Elias, Maria José (dona Detinha), Maria Laura (Laurinha), Padre Caetano e Thiago Santos.

Artistas Residentes
Alunos do CIT / Sesc Santo Amaro – Anne Andrade, Bibi Santos, Caví Baso, Diogo Cabral, Djalma Albuquerque, Fanny França, Lua Alves, Márcio Allan e Mateus Condé.

Beco do Roberto
Produção: Arte da Imagem Produções
Apoio: Gabinete de Inovação Urbana

Fotos álbum dos vizinhos
Rogério Alves

Fotos registro
Gianny Melo

Fotos e vídeos making of
Ivo Barreto e Wesley Kawaai

Comunicação comunitária
Djalma Albuquerque

Designer
Clara Negreiros

Assessoria de imprensa
Márcio Bastos

Gestão de redes sociais
Cognos Comunicação – Luiza Maia e Tiago Barbosa

WebDesigner / Front-End
Sandro Araújo (SandroWeb)

Acessibilidade comunicacional
CENTRAE

Coordenador de produção
Ivo Barreto

Produção
Remo Produções Artísticas
Paula de Renor e Wesley Kawaai

Assistente de produção
Elias Vilar

Coordenador técnico
Eron Villar

Assistente técnico
Caví Baso

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Sinfonia de silêncios e palavras explosivas
Crítica de Apenas o Fim do Mundo

Bruno Parmera (Suzanne) e Pedro Wagner (Louis), em Apenas o fim do mundo. Foto: Ivana Moura

A proximidade do público cria uma intimidade desconfortável. Foto: Ivana Moura

Durante infindáveis cinco minutos (ou foram cinco horas ou cinco anos), um grupo de desconhecidos (ou quase) e eu, aguardamos pela chegada de Louis (ou Luiz, como queiram), o filho que partiu 12 ou 14 anos antes, e muito pouco ou quase nada enviou de notícias e afetos para a família. Essa espera pensativa aciona as memórias de cada pessoa, mas também de uma cidade, o Recife. Mesmo que o texto original seja francês, o corpo do Magiluth é recifense e isso transpira, ainda mais quando o site specific, o lugar da encenação, é o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), que fica na Rua da Aurora, de frente para o Rio Capibaribe, tendo como fundo a Rua do Sol. As portas abertas, os portões de ferro fechados, mas por onde vemos os carros passarem, ônibus e motos também deixam seus rastros nesse quadro. O registro acústico de fora contrasta com o silêncio cúmplice dos que velam. Ouvimos o fluxo do Capibaribe e sentimos a dramaturgia sonora inicial de uma cidade que quase se esquece do seu centro à noite, em contraste com a expectativa de uma plateia pela personagem, que vem anunciar sua morte próxima.

 A volta de Louis não segue o script do filho pródigo bíblico; talvez convoque outro mito, de Caim e Abel, em que as disputas e ciúmes ativam mágoas antigas. Antoine, o irmão do meio, que permaneceu “em casa”, não suporta imaginar a vida vibrante de Louis mundo afora, tão diferente da sua própria. Esse retorno desavisado acende sentimentos de ofensa, de inveja, algo aquebrantado, intensificando o conflito doméstico. Não há celebração nem abraços calorosos na chegada; vinga a mudez dos segredos de emoções íntimas e as palavras que quando surgem são explosiva ou devastadoras.

O francês Jean-Luc Lagarce escreveu Apenas o fim do mundo – uma obra de sutilezas e que verticaliza a pulsação humana – em 1990, período em que já estava ciente de seu diagnóstico de AIDS, uma condição que, na época, era praticamente uma sentença de morte. Ele continuou a refinar o texto até 1995, ano de sua morte aos 38 anos. Sua peça proporciona uma delicada e impiedosa reflexão sobre a finitude, algo inexorável, e joga desde o seu título (o desaparecimento de alguém não é o fim do mundo) com as ironias dessa experiência que é viver.

Almoço ou jantar em família. Foto Ivana Moura

A musicalidade e o ritmo singular do original francês são alimentados na tradução sensível de Giovana Soar, que articula em português as hesitações e repetições, as pausas e frases inacabadas, bem como o embaraço desses titubeios. Essa tradução captura a tempestade de emoções reprimidas e os rancores abafados, sustentados por anos de distância, criando assim uma verdadeira partitura verbal.

A direção de Giovana Soar e Luiz Fernando Marques (Lubi) transforma o texto desafiador de Lagarce em uma experiência teatral imersiva e sensorial que dura aproximadamente duas horas e meia. Como teatro site-specific, a dupla cria um labirinto emocional nos espaços apresentados que equivale à jornada interna das personagens.

No Mamam, o público – limitado a cerca de 60 pessoas por sessão – é convidado a seguir os atores por diferentes ambientes do museu, ajustado para a peça pela direção de arte de Guilherme Luigi e Lubi. A cada nova cena, somos confrontadas com outra faceta do drama familiar. Nessa cenografia dinâmica e reativa, objetos são desarrumados no decorrer da encenação, mesas se partem durante discussões acaloradas, criando um ambiente caótico que reflete o tumulto interno dessas figuras. 

A proximidade do público, nesse contexto, é uma escolha deliberada da direção. Essa estratégia visa criar uma intimidade desconfortável que espelha e intensifica a paleta de sentimentos de abandono e desemparo que cada personagem carrega. Ao reduzir a distância física, a produção busca envolver os espectadores de maneira mais intensa, permitindo que eles experimentem as emoções complexas e muitas vezes dolorosas que permeiam a narrativa. Essa proximidade favorece uma conexão emocional mais intensa, na qual cada gesto, expressão facial e nuance vocal dos atores são amplificados.

A iluminação apresenta momentos que oscilam entre tons amarelo-sépia, evocativos de lembranças empoeiradas, e azuis etéreos, que sugerem uma realidade quase onírica. A trilha sonora aprofunda o rasgo melancólico, com uma suspensão desse clima na performance rock da banda que se instala no meio da sala.

A banda de rock. Foto: Ivana Moura

Tive a oportunidade de assistir a esta obra teatral quatro vezes: duas no SESC Avenida Paulista, onde estreou em 2019, uma no Mamam no mesmo ano, e agora novamente em 2024, na temporada comemorativa. É gratificante observar o amadurecimento do Magiluth, pois, em termos artísticos, parece ser um processo sempre em construção. Com 20 anos de uma trajetória inspiradora, o grupo reafirma seu compromisso com a arte. Esta peça, tristemente bela, me faz pensar e sentir mais a cada sessão.

A discussão antes da despedida. Foto: Ivana Moura

Embora o texto de Lagarce tenha sido escrito no contexto da “epidemia do HIV/AIDS” no mundo, dos anos 1990, sua montagem no Brasil em 2019 pelo Magiluth (e sua continuação em 2024) ganha outras camadas de sentido no contexto sociopolítico atual. A menção à extinção do departamento de AIDS do Ministério da Saúde pelo governo Bolsonaro, citada no início do espetáculo, estabelece uma ponte entre o drama pessoal de Louis e questões mais amplas de saúde pública e política. Esta conexão sublinha a relevância contínua da obra de Lagarce e a habilidade do Grupo Magiluth em fazer pulsar o político no teatro.

 Catherine (Giordano Castro), encarada por Antoine (Mario Sergio), observado por Louis. Foto: Ivana Moura

Apenas o fim do mundo é uma peça que, perturbadoramente, fala de amor, de forma brutal, desenterrando o que ficou escondido, as recordações, mágoas, ressentimentos e culpas. É uma peça densa e triste, uma beleza melancólica que me toca profundamente.

A vivacidade do jogo físico, característica marcante do grupo, é transposta para o jogo de palavras. O percurso, o deslocamento e a apropriação dos ambientes do Mamam impõem sensações únicas. A conexão com o público está intimamente ligada à experiência de ocupar esses ambientes, potencializada pelo incômodo e desconforto do próprio deslocamento. A visão é fragmentada, variando conforme o ponto de observação.

Essa fragmentação do olhar da plateia projeta as perspectivas diferenciadas de cada personagem, motivadas pela partida de Louis. Assim como o público percebe a cena de maneira parcial, dependendo de sua localização, cada personagem também possui uma visão limitada e subjetiva dos eventos, influenciada por suas emoções e experiências pessoais.

Pedro Wagner no papel de Louis. Foto: Ivana Moura

Em Apenas o fim do mundo, o Grupo Magiluth cria um ensemble afinado. Pedro Wagner, no papel de Louis, entrega uma performance de contenção admirável. Há uma gravidade maior na maneira como Pedro Wagner mastiga aquelas palavras em silêncio, para depois cuspi-las. Sua atuação possui uma densidade mais intensa do que em 2019, quando a peça estreou. Naquele ano, estávamos todas assustadas com o pandemônio e sua gangue, que, alguns anos depois, começa a ser desmascarado. A eloquência de Louis é carregada pelo silêncio que pesa fisicamente sobre todos os presentes.

Interpretando a Mãe, Erivaldo Oliveira desafia as convenções de gênero com uma atuação que transmite fragilidade e empoderamento da matriarca. A personagem, única sem nome, conhece profundamente cada um de seus filhos. Sua tentativa de promover a harmonia entre eles é evidente, assim como seu esforço para garantir seu lugar na memória familiar, relembrando os domingos de verões passados nas conversas durante as refeições. Em uma cena delicada, ela explica a Louis que seus irmãos desejam falar e conversar, destacando a justeza de cada um que permaneceu e a necessidade de serem encorajados. O ator navega habilmente entre a aflição e o humor.

Suzanne, a irmã mais nova, é vivida por Bruno Parmera, que a interpreta com uma energia nervosa que beira o frenético. A prosódia do ator traduz a urgência da personagem em conhecer o mundo, na esperança de um dia poder explorá-lo como Louis fez anos antes, e também em expressar sua própria identidade. Seus movimentos são ágeis e entrecortados, refletindo essa inquietação interna. Quando Suzanne encontra o irmão mais velho, ela fala incessantemente, confessando que esse comportamento não é habitual. Essa dinâmica indica tanto sua admiração por Louis quanto seu desejo de se afirmar em um mundo que ainda está descobrindo.

Assumindo o personagem de Antoine, o irmão do meio, Mario Sergio Cabral entrega uma atuação impressionante, um verdadeiro tour de force, onde projeta suas emoções como um vulcão prestes a entrar em erupção. Descrito pela Mãe como um homem de pouca imaginação, Antoine surpreende ao revelar gradualmente seus sentimentos em relação ao irmão. É desconcertante e ao mesmo tempo envolvente observar como ele, com sua rudeza, fala de amor de maneira tão crua e sincera, tornando suas emoções quase palpáveis. Quando Antoine se permite chorar, o público inevitavelmente se comove, derretendo-se diante da vulnerabilidade que ele expõe.

No papel de Catherine, a cunhada, Giordano Castro, fornece uma perspectiva externa vital para a dinâmica familiar. Entre o riso e o escárnio, e sem a memória da infância por não ser parte integrante daquele núcleo desde sempre, o ator investe em pequenos gestos e sutis alterações vocais para expor verdades ditas a meia-voz, revelando as nuances das intimidades daquela família. Casada com Antoine, Catherine navega entre a vergonha dos pequenos escândalos, as explosões temperamentais do marido e a perturbadora presença de Louis, o cunhado cuja chegada abalou o tênue equilíbrio parental. Em meio a esse tumulto, ela se esforça para proteger Antoine, enquanto sugere que guarda cuidadosamente seus próprios segredos.

Mas nessa peça de tantos desafios há sobretudo um domínio impressionante da técnica. Da técnica interpretativa em que os atores, em alguns momentos, saem de suas personagens para cuidar da artesania dos bastidores, à medida que a casa vai se revelando e se distorcendo ao longo do espaço. Este espetáculo exige um rigoroso controle na administração da sequência das cenas. E o maestro dessa operação é o ator Lucas Torres, que atua como contrarregra, garantindo que toda a engrenagem funcione perfeitamente. Há uma camada metateatral, com Lucas Torres dando instruções no início da sessão, percorrendo todas as cenas e aparecendo como o baterista da banda na sala de jantar. Todo o elenco permanece atento ao andamento da encenação e aos seus detalhes, frequentemente oferecendo orientações à equipe de apoio.

A peça se desenrola como uma dança intricada em torno de um vazio central, com cada personagem orbitando em torno da verdade que Louis veio compartilhar, mas que nunca consegue expressar plenamente. Os movimentos se transformam em uma coreografia elaborada de aproximações e afastamentos, espelhando as tentativas frustradas de conexão entre eles. Não há redenção. Com Apenas o fim do mundo, o Magiluth nos incita a ampliar nossas perspectivas de afeto e a ter cuidado com os segredos e com as verdades que criamos.

Mãe conversa com o filho mais velho. Foto: Ivana Moura

Leia outras críticas de Apenas o fim do mundo,
a de Pollyanna Diniz Hello stranger
e outra de Ivana Moura Magiluth vasculha política nos laços afetivos

 

Apenas o fim do mundo
Ficha técnica:

Direção: Giovana Soar e Luiz Fernando Marques Lubi
Assistente de direção: Lucas Torres
Dramaturgia: Jean-Luc Lagarce
Tradução: Giovana Soar
Atores: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sergio Cabral e Pedro Wagner
Técnico: Lucas Torres
Desenho de luz: Grupo Magiluth
Direção de arte: Guilherme Luigi e Luiz Fernando Marques Lubi
Design gráfico: Guilherme Luigi
Realização: Grupo Magiluth

 

O Satisfeita, Yolanda? faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica,  apoiado pela produtora Corpo Rastreado, junto às seguintes casas : CENA ABERTA, Guia OFF, Farofa Crítica, Horizonte da Cena, Ruína Acesa e Tudo menos uma crítica

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Encontro de avaliação pública
Festival Recife do Teatro Nacional – parte 3
Reflexões e desafios

Momento de escuta e proposta no festival. Foto: Alexandre Sampaio

Exposição da avaliadora Giovana Soar. Foto: Alexandre Sampaio

Com este texto, concluímos esse pequeno retrato do que foi a reunião de avaliação do 23º Festival Recife do Teatro Nacional, realizada no dia 2 de dezembro na sala da Banda Sinfônica no Teatro do Parque. Durante o encontro, diversos assuntos foram debatidos, refletindo sobre os desafios e as conquistas do evento. Um dos principais temas foi a organização e logística do festival, com destaque para a necessidade de ajustes nos horários e melhorias na divulgação, visando aumentar a participação do público, especialmente no OFF REC. A demanda de valorizar e apoiar grupos teatrais locais também foi indicada, com sugestões para fortalecer a cena cultural do Recife e promover maior inclusão e representatividade.

Outro ponto central das argumentações foi a infraestrutura e as condições de trabalho das equipes técnicas nos teatros, principalmente do Centro Apolo-Hermilo. Foram levantadas preocupações sobre a exaustão dos profissionais devido à sobrecarga de trabalho e à falta de recursos adequados, além da necessidade urgente de manutenção e atualização dos equipamentos. 

O encontro também explorou a relevância de criar espaços de diálogo e troca de ideias, inspirando-se em modelos de outros festivais, e a necessidade de uma comunicação mais eficaz para alcançar um público cada vez mais expressivo. Essas conversas refletem uma preocupação coletiva em aprimorar o festival e garantir sua sustentabilidade e relevância no cenário cultural local, regional e nacional.

Cena de ONÀ DÚDÚ Caminhos Negros na comunidade do Pilar. Foto: Ivana Moura

Artur Marinho expõe suas práticas na colaboração com Marconi Bispo no projeto ONÀ DÚDÚ Caminhos Negros. Este programa, que já ocorre nas ruas há dois anos, foi integrado ao FRTN pela primeira vez.

O percurso do ONÀ DÚDÚ começa na Praça do Arsenal e vai até a Cruz do Patrão, um trajeto que pode ser desafiador para pessoas idosas ou com mobilidade reduzida. Para facilitar, parte do caminho foi feita de ônibus, retornando ao Recife Antigo e envolvendo moradores locais e a comunidade do Pilar. A produção inclui integrantes do Pilar, criando um modelo de ocupação das ruas que dialoga com um público diversificado, principalmente composto por pessoas negras.

Apesar do sucesso na execução, Artur observa que o público foi o menor já registrado, o que ele atribui à logística de horário, uma terça-feira à tarde, durante um festival. Artur expressa preocupação com a dependência do virtual para divulgação, reconhecendo que nem todos têm acesso a essas plataformas. Ele sugere que o festival poderia se beneficiar de uma página centralizada para melhorar a divulgação e alcançar um público mais amplo.

Um adendo histórico relevante sobre o desenvolvimento do teatro no bairro do Pilar foi feito por Augusta Ferraz, que destacou a contribuição de Paula de Renor. Com o Teatro Armazém, Paula foi pioneira ao levar o teatro para aquela comunidade, promovendo desenvolvimento e dignidade no local. Augusta defende que ao se aventurar nesse espaço e desenvolver a arte, é essencial lembrar que Paula iniciou esse caminho há 20 anos.

Em resposta, Artur Marinho reconhece a importância do trabalho de Paula de Renor, afirmando que o projeto atual é uma continuação desse percurso. Porém ele assinala que a iniciativa atual com ONÀ DÚDÚ Caminhos Negros no bairro do Recife não está apenas levando algo para a comunidade do Pilar, mas sim se unindo a ela para a realização conjunta das atividades.

Augusta reforça que foi exatamente dessa maneira que Paula de Renor começou, através de uma iniciativa colaborativa, trabalhando lado a lado com a comunidade para criar algo significativo e inclusivo. E que é preciso dar crédito a quem iniciou essa parceria e envolvimento comunitário, que tem sido fundamental para o desenvolvimento cultural e social do bairro do Pilar.

A partir de sua experiência em Cara do Pai, Tatto reflete sobre o público. Foto: Divulgação

Ao discutir a dinâmica do público nos festivais de teatro, Tatto Medinni traz sua reflexão sobre a valorização e visibilidade dos espetáculos locais em contraste com produções de maior apelo midiático. Ele destaca sua experiência pessoal ao tentar divulgar sua peça Cara do Pai, a partir de publicações em veículos de comunicação como o JC e o G1. E observa que essas divulgações tendem a ser homogêneas, enfatizando principalmente estreias com figuras renomadas, como Marco Nanini, e grupos como o Magiluth. Essa prática, segundo ele, acaba direcionando o público para esses eventos, criando uma percepção de que são os principais destaques do festival.

Medinni deixa claro que sua crítica não é motivada por inveja, mas sim por uma preocupação genuína com a forma como a supervalorização de determinados espetáculos influencia a escolha do público. Ele conta que seu trabalho teve pouca audiência em várias ocasiões, inclusive no festival, enquanto outros, com maior apelo midiático, estavam lotados. Essa situação, segundo ele, não é culpa do festival, mas sim um reflexo do hábito do público recifense de priorizar espetáculos com artistas famosos, muitas vezes em detrimento de produções locais de igual qualidade.

No entanto, ele também reconhece que houve ocasiões em que espetáculos locais conseguiram atrair grande público e “bombaram”, demonstrando que há um potencial latente na cena teatral de Recife. Medinni menciona trabalhos passados com o Coletivo Angu e a montagem O Amor de Clotilde por um Certo Leandro Dantas, que conseguiram atrair uma plateia significativa.

Para enfrentar esse desafio, Tatto sugere que a assessoria de comunicação que divulgue todos os espetáculos da programação, mas valorize especialmente os locais. Ele acredita que uma comunicação mais abrangente poderia ajudar a equilibrar a atenção do público entre os diferentes eventos, promovendo um maior reconhecimento da cena teatral local.

Mulheres de Nínive teve um atraso de uma hora e meia devido a problemas técnicos. Foto: Divulgação

Ao relatar suas vivências e preocupações, Nathalie Revoredo fornece um panorama dos desafios enfrentados pelas equipes técnicas nos teatros do Recife. Ela expressa satisfação em ter participado ativamente do festival, tanto como oficineira quanto como iluminadora, destacando que é vital integrar novas pessoas ao processo. A inclusão de novos talentos em áreas técnicas como iluminação, cenário e figurino é vista como essencial para trazer a energia e o entusiasmo necessários à continuidade e renovação do festival.

As oficinas pré-festival poderão desempenhar papel crucial na formação de novas gerações de profissionais técnicos. Na sua perspectiva, essa possível mão de obra poderá contribuir com o evento. Além de ajudar a cultivar uma nova perspectiva sobre a produção teatral, incentivando a inovação e a criatividade.

No entanto, Nathalie expressa uma preocupação significativa com a exaustão das equipes técnicas dos teatros, como o Centro Apolo-Hermilo, frisando que ali são dois teatros distintos. Após 11 anos de trabalho nesse contexto, ela observa que os colegas de iluminação estão visivelmente exaustos, o que impacta tanto a qualidade das tarefas quanto no bem-estar dos profissionais. Essa situação é agravada pela estrutura reduzida das equipes, que frequentemente lidam com múltiplas atividades sem o suporte adequado.

No contexto do festival, ela participou de produções No Controle, Antígona – A Retomada e Mulheres de Nínive. Infelizmente, em Nínive, ela e a técnica de som enfrentaram o contratempo de entregar o palco com uma hora e meia de atraso. “Não foi intencional; estávamos ali, sofrendo com a situação, mas também muito conscientes das nossas escolhas. Chegou ao ponto de eu não poder sequer sair para ir ao banheiro, pois não havia tempo ou espaço para isso, e não podia me estressar com ninguém”, lembra Revoredo.

“Estávamos todos respirando fundo, inclusive os dois profissionais incríveis, Savio Uchoa e Ivo Barreto. Juntos, passamos por momentos de choro, risos, sofrimento, correria e vontade de desaparecer, enquanto tentávamos fazer tudo funcionar”, disse a artista iluminadora. Enfim, ela afirma que temos espaços exaustos e um corpo exausto não consegue realizar muito. Isso se aplica a todos os equipamentos, incluindo o próprio material da casa. 

Nathalie Revoredo entende a necessidade de um planejamento antecipado e de contar com uma equipe técnica bem preparada e descansada para lidar com as exigências artísticas e técnicas das montagens. Para produções que requerem maior delicadeza técnica, como no caso de Nínive, seria ideal montar o palco com um dia de antecedência, permitindo um tempo mais dilatado para ajustes e ensaios.

Além disso, Revoredo sublinha a urgência de aumentar o número de técnicos e técnicas nas casas de espetáculo do Recife, especialmente no Apolo e no Hermilo, onde a equipe atual está sobrecarregada. A exaustão não afeta apenas os profissionais, mas também o equipamento, que pode falhar devido ao uso excessivo e à falta de manutenção adequada. A iluminadora registra também que é crucial tratar essas situações com cuidado e empatia, buscando soluções que garantam a sustentabilidade e a qualidade dos festivais, com práticas que respeitem os limites humanos e materiais.

Savio Uchoa, diretor técnico do festival, corrobora com visão de Revoredo e reforça o quadro sobre os desafios enfrentados na administração dos teatros Apolo e Hermilo. Ele aponta que a responsabilidade de uma única equipe por dois teatros resulta em uma carga de trabalho significativa. Além disso, descreve o equipamento como ultrapassado e menciona que a programação do festival foi particularmente extenuante, com até sete teatros funcionando simultaneamente em certos dias.

Historicamente, aponta, o festival seguia uma prática de ter um dia de montagem seguido por um dia de espetáculo, o que ajudava a gerenciar a carga de trabalho. No entanto, a atual estrutura de turnos, com uma equipe trabalhando entre manhã e outra tarde/noite, não é ideal. Savio sugere que seria mais produtivo se os técnicos pudessem acompanhar todo o processo, desde a montagem até a apresentação, assegurando continuidade e familiaridade com o trabalho.

Ele relata que o equipamento frequentemente apresenta falhas e necessita de manutenção urgente, o que aumenta ainda mais a pressão sobre os técnicos. Savio menciona que alguns técnicos enfrentaram problemas pessoais que afetaram sua disponibilidade, como a necessidade de cuidar de familiares, o que ilustra a falta de flexibilidade e suporte dentro de uma programação tão extensa.

Além do atraso do espetáculo Nínive, Savio menciona problemas logísticos e burocráticos, como dificuldades com fornecedores e especificidades de licitação, que complicam ainda mais a organização do festival. Ele, com mais de 25 anos de experiência como iluminador, reconhece a frustração de lidar com equipamentos prometidos que não chegam ou não funcionam adequadamente.

O diretor técnico observa que o festival cresceu rapidamente, mas as empresas fornecedoras não acompanharam esse crescimento, resultando em desafios adicionais. Para atender à demanda, Savio trouxe ajuda extra, incluindo seu irmão, Saulo, também artista iluminador, na tentativa de suprir as necessidades do festival.

Apesar dos desafios, Savio acredita que a equipe conseguiu atender bem a maioria das demandas e que o processo foi um aprendizado valioso. Ele enfatiza a importância do diálogo e da colaboração entre todos os envolvidos, reconhecendo que cada membro da equipe tem responsabilidade em suas funções. No final, ele expressa um sentimento de realização, apesar de ter atravessador o caos, destacando o esforço coletivo para superar as dificuldades.

Monga fez a abertura do OFF REC no Teatro Hermilo Borba Filho. Foto: Ivana Moura

Rodrigo Dourado, idealizador e curador do OFF REC ao lado de Edjalma Freitas, inicia sua fala expressando gratidão a diversas pessoas e equipes, como André Brasileiro, Alexandre Sampaio, Pascoal Filizola, Ivo Barreto, Savio Uchoa e a equipe da Prefeitura, pelo apoio e acolhimento no festival. Ele destaca especialmente a contribuição de Giovana à Mostra, e o apoio recebido, principalmente da classe artística, mesmo que a recepção do público em geral tenha sido modesta.

Ao refletir sobre a essência do OFF REC, Dourado enfatiza que o festival serve como uma vitrine de processos em andamento, o que demanda uma reavaliação constante de abordagens e soluções para os desafios técnicos e logísticos. As dificuldades enfrentadas com as arquibancadas, que se tornaram caóticas durante a madrugada devido à sobrecarga das equipes técnicas, ilustram bem essa necessidade de adaptação. Muitas vezes, essas equipes precisaram gerenciar múltiplos espaços simultaneamente, o que complicou ainda mais a logística do evento.

Inspirando-se em modelos de outros festivais, como o Mirada com o Boteco Crítico do projeto Arquipélago, Dourado sugere a criação de espaços de encontro e diálogo, onde debates e conversas informais possam ocorrer após os eventos. A questão da participação universitária também foi tocada, com Dourado lamentando a falta de envolvimento mais ativo das universidades e conselhos acadêmicos nos eventos culturais. Ele lembra que, como coordenador da Semana de Artes Cênicas, enfrentou dificuldades em atrair público para debates e discussões, apesar do interesse pelos espetáculos. Como solução, propõe a filmagem e publicação dos debates futuros, transformando-os em registros permanentes que possam ser acessados e estudados.

Reconhecendo a complexidade da dinâmica cultural da cidade, especialmente em um mês movimentado como novembro, Dourado observa que múltiplos eventos culturais ocorrem simultaneamente, o que exige uma adaptação das estratégias de comunicação e engajamento do público. Ele enfatiza a necessidade de compreender essas novas dinâmicas para continuar atraindo e envolvendo a população nos eventos culturais da cidade.

Espetáculo Senhora. Foto de João Pedro Pinheiro

Larissa Pinheiro, assistente do espetáculo Senhora, reflete sobre sua participação anterior com Yerma Atemporal, mas confessa que esta edição do festival foi especialmente marcante. Ela aprecia a fusão entre teoria e prática, especialmente nas rodas de diálogo, onde encontrou um público diversificado e curioso. Um exemplo disso foi uma participante que, após uma oficina no Teatro São Isabel, decidiu espontaneamente assistir ao debate e ao espetáculo Senhora, demonstrando o impacto positivo do evento.

Valorizar os novos talentos da cena local é uma prioridade para Larissa, que destaca o papel crucial de estudantes e formandos de instituições como o SESC na formação cultural da cidade. Ela também enfatiza que a contribuição artística vai além da juventude, mencionando a inspiradora presença de Maria José, uma atriz de 84 anos, que continua a expressar sua paixão pelo teatro na terceira idade.

A recepção calorosa do espetáculo Senhora em cidades do interior, como Caruaru e Surubim, foi comparada à recepção no Recife, onde o público do FRTN se mostrou mais entusiasta do que o esperado. Larissa vê o festival de forma positiva, encontrando vigor e animação tanto dos participantes quanto do público presente.

Participar deste evento proporciona uma sensação única para Janaína Lima, jornalista da assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura e do FRTN. Com uma longa trajetória ligada ao festival, que remonta aos seus tempos de curadoria local e à elaboração de uma monografia sobre o tema, Janaína agora vivencia uma nova fase profissional na Prefeitura, o que lhe oferece uma visão interna do festival.

Observando com satisfação, ela nota as novas ideias e os rostos que estão injetando vitalidade no evento, renovando a cena cultural. Contudo, Janaína também expressa certa frustração ao perceber que muitos problemas antigos ainda persistem. Ela relembra desafios passados, como a busca por espaço e apoio, e reconhece que algumas dificuldades continuam presentes. Ela está na secretaria há pouco tempo, auxiliando a assessora oficial Bruna Cabral.

Janaína Lima explica que, devido à legislação eleitoral, as redes sociais da Prefeitura foram suspensas, o que criou um desafio significativo na articulação dessas plataformas para o festival de teatro. As atividades online só foram retomadas pouco antes do início do festival, o que exigiu uma rápida reorganização e adaptação para garantir uma comunicação eficaz.

Com a retomada, a Secretaria de Cultura assumiu a responsabilidade de gerenciar essas redes, iniciando um processo de reestruturação e planejamento estratégico para maximizar o alcance e o impacto das comunicações digitais. Janaína reconhece as críticas feitas e a necessidade de melhorar a interação com o público.

Refletindo sobre os desafios enfrentados, Janaína comenta da necessidade de lidar com imprevistos, como atrasos na entrega de fichas técnicas e releases. Ela menciona a complexidade de coordenar todos os aspectos do festival e a importância de aprender a gerenciar essas situações.

O momento de avaliação é visto por Janaína como um componente central do festival, onde todos podem se reunir para discutir e debater após as apresentações. Ela considera esse espaço essencial para o crescimento e a melhoria contínua do evento, permitindo que diferentes perspectivas sejam ouvidas e consideradas.

O Satisfeita, Yolanda? faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica,  apoiado pela produtora Corpo Rastreado, junto às seguintes casas : CENA ABERTA, Guia OFF, Farofa Crítica, Horizonte da Cena, ruína acesa e Tudo menos uma crítica

 

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