Parabéns, Teatro de Santa Isabel
pelos 176 anos
Brevíssima reflexão
Por Ivana Moura

Teatro de Santa Isabel foi inaugurado em 18 de maio de 1850. Foto: Divulgação

Por onde se analisa um teatro que amamos? Pela qualidade do que programa, pela relação com a cidade, pela liberdade que concede aos artistas, pela coragem de enfrentar o poder, pela capacidade de formar público, pela memória que preserva, pela política de acesso que pratica, pelo que escolhe acolher e pelo que recusa programar – entre tantas pressões, pela continuidade – ou pela dispersão – do pensamento que o move, pela capacidade de enfrentar conflito, pelas condições de trabalho de quem faz o palco existir? O Teatro de Santa Isabel completa 176 anos nesta segunda-feira, e a data pede mais que celebração, pede olhar atento.

Inaugurado em 18 de maio de 1850, no bojo do projeto civilizatório de Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa Vista, o Santa Isabel nasce no ponto em que arquitetura, poder e imaginação urbana se cruzam; uma vitrine de uma elite que queria ver o Recife espelhado na Europa. Projetado por Louis Léger Vauthier, foi o primeiro teatro do Brasil erguido com mão de obra especializada e se tornaria o mais antigo exemplar neoclássico de Pernambuco. Sua construção, estendida de 1841 a 1850, deu ao Recife um edifício-síntese, uma forma de se pensar e de se expor. Tombado pelo IPHAN em 1949 e reconhecido entre os 14 teatros-patrimônio do país, o Santa Isabel permanece como uma dessas raras arquiteturas em que a pedra também argumenta.

Sua história é a de um palco que já viu muita coisa: da explosão lírica de Carlos Gomes à Campanha Abolicionista, passando pela tensão da ditadura militar. Sabe-se que o SNI (Serviço Nacional de Informações, um órgão de espionagem da ditadura que monitorava suspeitos do regime) produziu relatórios sobre atividades teatrais ligadas à casa e que o teatro figurava como espaço sensível aos tentáculos da repressão.

Hoje, 176 anos depois, uma das perguntas que se impõe é “o que tem feito com esse tempo”. O Santa Isabel segue em funcionamento – o que, dadas as circunstâncias do país, não é pouco. Mas a distinção relevante é entre operar e ter um projeto.

Pois um teatro-monumento não existe apenas para ser admirado. Existe para ser ativado. E é nesse ponto que sua história ultrapassa o valor arquitetônico e entra na vida pública da cidade. Joaquim Nabuco, por exemplo, associaria ao Santa Isabel à vitória moral e política da Abolição, porque ali seus discursos, récitas e atos públicos ajudaram a converter convicção em mobilização. O teatro foi um dos lugares em que a luta ganhou corpo, voz e adesão.

Orquestra Sinfônica do Recife. Foto: Marcos Pastich/PCR

Francisco — Um Instrumento de Paz, do Roberto Costa Produções. Foto: Divulgação

Frankinh@ – Uma História em Pedacinhos, montagem do Coletivo Gompa, de Porto Alegre. Foto: Divulgação

A programação de maio segue ativa e já teve música e espetáculos infantis. Na semana do aniversário, a Orquestra Sinfônica do Recife realiza dois concertos gratuitos, terça 19 e quarta 20, às 20h, com ingressos distribuídos uma hora antes na bilheteria ou pelo Conecta Recife. No fim de semana, o teatro recebe Francisco – Um Instrumento de Paz (Roberto Costa Produções, Recife), em duas sessões, sexta 22 e sábado 23. No domingo 24, dentro da programação do Palco Giratório Sesc PE, duas montagens do Coletivo Gompa, de Porto Alegre – o infantil Frankinh@ – Uma História em Pedacinhos, às 16h, e Frankenstein, às 19h, com direção de Camila Bauer e narração de Sandra Dani.

Ainda na sequência, a Mostra de Dança – Especial 10 Anos do Studio No Passo da Dança, escola de balé clássico (27/05), e duas produções do Studio de Danças: Um Sopro de Clarice (30 e 31/05, 19h30), espetáculo sob direção artística de Viviany Luz, que mergulha no universo de Clarice Lispector pelo movimento, e O Quintal da Casa Amarela (31/05, 16h), inspirado no livro Quase de Verdade da mesma autora, onde um quintal habitado por galinhas elegantes, uma figueira enciumada e o cão de Clarice se abre para o público infantil. No entanto, para o dia 18 – a data exata do aniversário – não há nada programado.

As pautas estão sempre esgotadas, mas o processo de ocupação do equipamento – e dos demais teatros públicos do Recife e de Pernambuco – ainda carece de critérios claros e tornados públicos. É uma questão de instituir uma política de programação que seja pública, continuada e passível de debate; escolhas curatoriais inteligíveis para o público e para a classe artística. A questão não é ocupar o palco – é saber por quê, para quem e com que pensamento se ocupa. Um teatro público sem curadoria pode até ter agenda cheia, mas é diferente de operar como centro de decisão estética e política.

E o ponto de discussão é político. O que se espera de um teatro como o Santa Isabel não é apenas funcionamento regular, mas capacidade de produzir sentido: relacionar tradição e risco, memória e invenção, repertório e fricção contemporânea. Um equipamento dessa natureza pode acolher a produção local, dialogar com o circuito nacional e internacional, abrir espaço à infância, à música de concerto, à dança, ao teatro de grupo, sem renunciar à nitidez de um rumo. 

Quanto maior a espessura simbólica de um teatro, maior deve ser a clareza com que ele responde à cidade sobre o que programa, para quem programa e que imaginação pública deseja sustentar.

Aos 176 anos, o Teatro de Santa Isabel continua sendo uma das formas mais altas com que o Recife se olha. Que essa data sirva para perguntar, com rigor e afeto, o que ainda está por ser sustentado ali.

Vida longa ao Santa Isabel, pedra neoclássica da Praça da República. E que poder público, artistas e espectadores estejam à altura da grandiosidade desse teatro.

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