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Roosevelt, Rondon e um país em disputa
CRÍTICA: Nas Selvas do Brazyl
Por Ivana Moura

 

Nas Selvas do Brazyl articula história e crise ambiental com densidade crítica. Foto: Nil Caniné_/ Divulgação

Gustavo Gasparani e Isio Ghelman em Nas Selvas do Brazyl. Foto: Nil Caniné / Divulgação

Nas Selvas do Brazyl afirma perspicácia cênica, rigor dramatúrgico e  densidade crítica que se impõe pela maneira como organiza tempo, espaço e pensamento. Sob a direção de Daniel Herz, com dramaturgia de Pedro Kosovski e atuações de Gustavo Gasparani e Ísio Ghelman, o espetáculo não arrebata de imediato. Pede atenção, escuta e disponibilidade para acompanhar um percurso em que história, política, memória e crise ambiental se entrelaçam com a experiência e o prazer do teatro como forma viva de pensamento.

O ponto de partida é uma expedição histórica real, realizada entre 1913 e 1914  ao longo do chamado Rio da Dúvida, por Theodore Roosevelt Jr. (1858–1919), político, militar, conservacionista, naturalista, historiador, escritor e 26º presidente dos Estados Unidos, e por Cândido Mariano da Silva Rondon (1865–1958), marechal, sertanista, indigenista e engenheiro militar brasileiro. O que a peça imagina é o que não foi dito entre essas duas figuras, ligadas a projetos de mundo profundamente distintos. O teatro, aqui, reabre o episódio, interroga seus vestígios e o devolve ao presente com novas camadas de leitura.

Chamados de “coronel” um pelo outro ao longo da cena, Roosevelt e Rondon entram em confronto como duas figuras que disputam autoridade, linguagem e lugar no mundo. Em certos momentos, o norte-americano se investe de superioridade e faz questão de exibir, diante do seu anfitrião brasileiro, a posição de mando que acredita carregar consigo; Rondon responde com ironia, altivez e combatividade, devolvendo ao visitante a marca do colonialismo que ele representa. O embate não se resolve em conciliação. A cena faz dessa fricção uma forma de tornar visível o choque entre dois projetos de país, de civilização e de poder. Uma cena que deixa reverberar como índice de uma assimetria que atravessa o encontro entre os dois é quando Roosevelt exalta que foi laureado com o Nobel da Paz em 1906, enquanto Rondon foi indicado ao prêmio sem jamais recebê-lo.

O livro Nas selvas do Brasil, de Theodore Roosevelt, publicado pelo Senado Federal, Conselho Editorial, em Brasília, em 2010, com 363 páginas, na série Edições do Senado Federal, pode ser baixado gratuitamente aqui: Nas selvas do Brasil – Senado Federal. O volume aproxima o leitor da base histórica que está na origem da peça e oferece uma chave adicional para quem quiser se aproximar do episódio fora da cena.

No campo audiovisual, a expedição também foi retomada na minissérie O Hóspede Americano (2021), produzida para HBO e HBO Max e dirigida por Bruno Barreto. Em quatro episódios, a obra revisita a travessia amazônica de Theodore Roosevelt e Cândido Rondon, com Aidan Quinn como Roosevelt, Chico Diaz como Rondon, Dana Delany como Edith Roosevelt e Chris Mason como Kermit Roosevelt.

Sob direção de Daniel Herz e dramaturgia de Pedro Kosovski, a montagem põe a floresta no centro de uma reflexão sobre colonialidade, progresso e violência histórica. Foto: Nil Caniné_/ Divulgação

A peça faz essa travessia histórica reverberar no presente. Roosevelt e Rondon deixam de ser figuras do passado e passam a concentrar uma reflexão sobre progresso, colonialidade, dependência geopolítica e violência contra a floresta e os povos originários. A colonialidade e a decolonialidade organizam a própria composição dramatúrgica.

O título já anuncia essa operação. O “z” e o “y” de Brazyl deslocam o país para o campo da nomeação estrangeira, como se o Brasil fosse visto de fora antes de ser plenamente reconhecido por si. Essa fratura entre o país narrado e o país vivido me trouxe, de imediato, a lembrança de Querelas do Brasil, de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, na voz de Elis Regina – uma associação pessoal, mas útil para pensar a distância entre o Brasil que se nomeia e o Brasil que permanece oculto nas suas próprias narrativas. A peça entra nessa zona de tensão e a transforma em matéria dramatúrgica.

Há ainda o momento em que Gustavo Gasparani canta Melodia Sentimental, da obra A Floresta do Amazonas, de Heitor Villa-Lobos, com poema de Dora Vasconcellos. A canção amplia o horizonte da encenação e reforça a ligação entre paisagem, música e imaginação brasileira.

A dramaturgia de Pedro Kosovski costura esse encontro histórico às feridas ainda abertas do presente. Mudanças climáticas, relação entre humanos e natureza, diversidade, ancestralidade e os impasses de um modelo civilizatório fundado na conquista entram em cena como questões importantes. A floresta assume centralidade política e poética. Ela organiza o olhar, tensiona os corpos e redefine a escala da ação. O espetáculo trabalha com isso sem recorrer à ilustração óbvia.

O desenho cênico é decisivo nessa construção. O cenário-labirinto, feito de fios, linhas, emaranhados e suspensões, produz uma imagem precisa da travessia proposta. Há ali caminhos e bloqueios, orientação e perda, mapa e enigma, linha telegráfica e cipó, engenharia e selva. A sonoplastia atravessa essa construção como matéria viva: instaura atmosfera, espessura, tensão e desorientação. O resultado é um espaço cênico que pensa a floresta como força ativa, capaz de devolver ao humano a medida de sua própria precariedade.

As atuações seguem na mesma direção. Ao evitar a caricatura do estrangeiro, no caso de Roosevelt, a montagem opta por um registro mais complexo. O personagem ganha densidade ao encarnar uma visão de mundo, uma forma de poder, uma gramática de domínio. Já Rondon surge com uma espessura particular: militar e pacifista, homem de utopias e de contradições históricas, figura que o espetáculo não suaviza nem simplifica. Essa escolha desloca a cena do retrato de época para uma reflexão mais funda sobre hegemonia, representação e identidade política.

O espetáculo também trabalha com sagacidade a fricção entre humor e confronto. A comicidade aparece como parte da disputa, não como escape. Ela reabre a tensão, desloca hierarquias, expõe a arrogância colonial e acentua a instabilidade dos discursos em choque. O encontro entre os dois homens se desenvolve como arena de ideias, de interesses e de visões de mundo, com o Estado-nação, a floresta e os povos indígenas atravessando a cena como questões incontornáveis.

Entre o Rio da Dúvida e as feridas do presente… Foto: Nil Caniné_/ Divulgação

Nas Selvas do Brazyl é um espetáculo bonito, importante e intelectualmente estimulante. Ao mesmo tempo, é uma peça exigente, que pede do público um gesto de mergulho. Não se oferece como narrativa de consumo rápido. Vai acumulando densidade a partir de ações, falas e deslocamentos que se adensam continuamente. É teatro para quem se interessa por história, pensamento crítico, linguagem cênica e pela potência de uma cena que confia na inteligência de quem assiste.

O contexto da apresentação no Recife também merece registro. No primeiro dia (sábado, 02/05), havia pouca gente na plateia, provavelmente em razão da combinação entre o feriadão de 1º de maio e as fortes chuvas que atingiram a cidade, com alagamentos em várias regiões. Ao fim dessa primeira sessão, elenco e direção dedicaram a apresentação aos trabalhadores do teatro, que garantiram a montagem mesmo sob alerta climático. O gesto foi justo e necessário, porque lembra algo fundamental: o teatro não se sustenta apenas no palco; ele existe por uma rede inteira de trabalho que o torna possível.

Por fim, Nas selvas do Brazyl se afirma como um espetáculo que articula forma cênica, consciência histórica e pertinência contemporânea. Ele fala da Amazônia e, ao mesmo tempo, do país; fala do que foi imposto como progresso, do que foi silenciado como violência e do que ainda precisa ser compreendido como herança em jogo. Seu alcance maior talvez esteja em transformar o teatro em um lugar de rearticulação do Brasil. Menos como imagem estabilizada, mais como conflito em curso, memória ativa e futuro ainda em disputa.

FICHA TÉCNICA

Idealização: Gustavo Gasparani
Texto: Pedro Kosovski
Direção: Daniel Herz
Elenco: Gustavo Gasparani e Isio Ghelman
Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenografia: Dina Salem Levy
Figurino: Wanderley Gomes
Trilha Sonora: Marcello H
Preparação Corporal: Márcia Rubin
Design Gráfico: Luciano Cian
Fotos de Divulgação: Nil Caniné
Pesquisa e Assistência de Direção: Carolina Pucu
Assistência de Cenografia: Alice Cruz
Coordenação Administrativo-financeira: Cacau Gondomar
Performance e Rede social: Lead Performance
Produção Executiva: Luciano Pontes
Coordenação de Produção: Ártemis
Direção de Produção: Silvio Batistela
Produção: Idarte Produções Artísticas
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil

 

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Entre o humor e a falta de sentido

Cia Atores de Laura, do Rio de Janeiro, reapresenta hoje o espetáculo Absurdo. Fotos: Pollyanna Diniz

Alguém calunia você em praça pública e você em vez de procurar o advogado, a polícia ou os “capangas” continua a conviver com esse crápula com a educação que sua mãe e as rígidas freiras do colégio caríssimo lhe deram. Outra cena, um fulano sempre que lhe encontra lhe abraça e lhe beija, diz que você é sensacional, mas na verdade ele lhe odeia e quando você vira as costas fala coisas horríveis e até faz campanha para ocupar o seu lugar na firma; ou quer que você morra – real ou simbolicamente. Um espectador normal, que não seja tomado pela ganância e pela inveja em doses cavalares possivelmente achará essas cenas absurdas.

O diretor do grupo Atores de Laura, Daniel Herz diz que “as questões do teatro do absurdo estão camufladas no cotidiano”, que a peça que foi apresentada ontem e será reapresentada hoje no Teatro Luiz Mendonça, do Parque Dona Lindu, mostra que “quanto mais conhecemos alguém, mais se abre um abismo de desconhecimento”. É, muitas vezes…Um paradoxo a se enfrentar.

O espetáculo Absurdo traz um texto de criação coletiva da companhia carioca. A peça tem como referência o Teatro do Absurdo e as obras de Eugène Ionesco e outros mestres desse movimento. A criação coletiva do texto traz rasgos de humor e inteligência que conseguem a aderência da plateia, mas isso não ocorre o tempo todo. Há uma frouxidão na dramaturgia que contamina todo o jogo dramático.

Uma mesa de jantar e quatro cadeiras compartilhadas por dois casais. Eles habitam o mesmo espaço cênico. Mas cada casal só dialoga entre si, cada marido com sua própria mulher. Os dois casais vivem o mesmo dilema da sobrevivência da relação amorosa após 20 anos.

Direção é de Daniel Herz e dramaturgia é coletiva

Essas pessoas da sala de jantar também dividem o mesmo e único filho. E também podem trocar de parceiros. A revelação desse filho é uma das cenas que vale o espetáculo. A outra é quando o homem caído no chão é carregado até a mesa. Algumas cenas de repetição também são muito interessantes.

O elenco dos atores de Laura é ótimo: Ana Paula Secco, Anderson Mello, Luiz André Alvim, Márcio Fonseca e Verônica Reis. Mas a montagem recai num abismo monótono e até chatoso, na gangorra de afirmações e negações sem avanços estilísticos para tratar do desatino e de um círculo vicioso de falta de soluções. Eles partem de situações aparentemente bem comuns para chegar à incomunicabilidade ou às circunstâncias ilógicas.

Montagem faz parte das comemorações dos 20 anos do grupo

O espetáculo ganha quando tem mais agilidade e perde quando emperra no contraste. O jogo de contrários não tem força suficiente para que a montagem flua com a proposta do grupo de ir na corrente do humor de Ionesco e afastado do peso de Beckett. As escolhas do dramaturgo irlandês e sua consciência do vazio de sentido não passam perto da montagem, mas a leveza e o humor irresistível de Ionesco também não ganham fôlego nas opcões do grupo pelo ilógico e irracional.

Na encenação Absurdo a palavra mente. Frases são ditas e a outra pessoa escuta outra coisa. O simulacro do casamento nao alcança a distorção cênica gerada pela intimidade. Falta uma maior sustentação. Os diálogos ganham um aspecto mais superficial e falta uma amarração das cenas como um todo.

Apesar do humor, diálogos geralmente não conseguem fugir da superficialidade

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