Arquivo da tag: Sobre os Ombros de Bárbara

10ª edição do Palco Giratório PE
dá motivos para pensar
a produção pernambucana

Notícias do Dilúvio, da Cia Biruta de Teatro, de Petrolina (PE). Foto: Fernando Pereira/ Divulgação

O retorno do Palco Giratório ao Recife faz da 10ª edição do festival na cidade e na Região Metropolitana um tempo privilegiado para pensar a cena pernambucana. A programação começa nesta quarta-feira, 20 de maio, e segue até 7 de junho. Ao longo desse período, mais de 70 atividades ocuparão teatros, praças, cinemas e outros espaços do Recife, de Jaboatão dos Guararapes e de São Lourenço da Mata. São 41 espetáculos, além de oficinas, seminários, ações formativas e atividades de intercâmbio, com programação gratuita ou a preços populares. Trata-se de uma retomada estratégica: Pernambuco volta a ocupar lugar forte na rede nacional desse projeto do Sesc, que em 2026 circula por 113 cidades de 23 estados e tem na Tropa do Balacobaco, de Arcoverde, a representante pernambucana no circuito nacional, com o espetáculo Re Te Tei.

O Palco Giratório é muito mais que um festival de circulação de espetáculos. Desde sua criação, em 1998, funciona como uma máquina de mobilidade: grupos atravessam o país, encontram contextos distintos, tensionam modos de produção e recepção e testam a capacidade de suas obras de se manterem vivas fora de seus ambientes de origem. Sua lógica é itinerante. Sua força está na construção continuada de uma malha de encontros, intercâmbio e formação de público.

Em Pernambuco, o projeto opera como núcleo articulador regional; tensiona práticas locais, conecta artistas à circulação nacional e desenha um mapa mais complexo das artes cênicas brasileiras contemporâneas. E funciona também como termômetro: o que estamos produzindo? como dialogamos com o país? quais estéticas insistem? onde estão as urgências reais do Recife e da Região Metropolitana?

A programação desta edição se mobiliza em torno de eixos que dialogam com questões incontornáveis do presente: negritude, acessibilidade, respeito às diferenças, juventudes, protagonismo infantil e potências do corpo atravessam o festival de ponta a ponta. Mas a tradução pode ser verificada com os espetáculos.

A abertura com Capiba, pelas ruas eu vou, da Aria Social, já funciona como declaração de escala, pertencimento e memória. O musical estreou em 2022 e homenageia um dos maiores nomes da música popular pernambucana e mobiliza um grande elenco de bailarinos-cantores para transformar a trajetória de Capiba em linguagem de cena. Mais adiante, a presença de Adilson Ramos e de Miro dos Bonecos reforça que essa edição também reconhece, em chave popular, tradições vivas da cultura pernambucana.

Capiba, pela ruas eu vou. Foto Alice Cohim

Miro dos Bonecos. Foto: Divulgação

A presença pernambucana na programação se desdobra, então, em direções bastante distintas, o que é um dado importante. Helô em Busca do Baobá Sagrado, do grupo DoceAgri, trabalha pertencimento, ancestralidade e protagonismo negro; Notícias do Dilúvio – Um Canto a Canudos, da Cia Biruta, de Petrolina, revisita a luta popular a partir da resistência feminina; Sobre os Ombros de Bárbara, com Augusta Ferraz, devolve corpo e voz a mulheres silenciadas desde a Revolução Pernambucana; Agbará Obirin, da Cia de Dança Daruê Malungo, inscreve a força dos corpos negros em movimento como resistência e celebração; Pontilhados, do Grupo Experimental, transforma o Recife Antigo em matéria dramatúrgica e faz da cidade cenário e personagem; Espécie em Extinção, do Grupo Córpore, desloca a crise ecológica para o corpo entendido como território de resistência; Roda, do Núcleo de Dança do Centro Cultural Sesc Garanhuns, reafirma a dança como encontro, troca e experiência coletiva; A Ver Estrelas, do Coletivo Trela de Experimentação Cênica para a Infância, aposta na imaginação infantil como força de expansão; enquanto intervenções como CloseUP, de Rauan Moreira, mostram que a proximidade, a rua e o risco de presença também cabem no desenho do festival.

Há ainda um gesto importante de ampliação de campo. O documentário Salu e o Cavalo Marinho, de Cecília da Fonte Alves, reinscreve a cultura popular no debate do festival a partir da memória de um artista; Pisadas, do Manifesto Cultura Popular, trata o corpo como arquivo vivo; o show de Adilson Ramos introduz na programação a permanência de uma memória sentimental e popular da canção pernambucana; e a presença de Miro dos Bonecos, com os Mamulengos do Novo Milênio, reafirma o mamulengo como forma viva, capaz de mobilizar riso, destreza e transmissão cultural. A isso se somam a contação de histórias para bebês com Yalle Feitosa e atividades voltadas à infância lembram que formação de público começa antes da institucionalização do gosto. Esse alargamento de linguagem pode ser lido como abertura real ou como risco de dispersão curatorial. Ainda assim, no melhor dos casos, aponta para um entendimento mais complexo do que seja artes cênicas hoje.

Ao lado dessa presença local robusta, o circuito nacional entra como como fricção. Franquinh@ – Uma História em Pedacinhos e Frankenstein, do Coletivo Gompa, operam em registros distintos a mesma questão da monstruosidade, da criação e da responsabilidade, deslocando-a da infância ao público adulto. Corpos de Tambor, do Coletivo Croa, aproxima elementos culturais da Amazônia de expressões urbanas contemporâneas; Sancho Pança, o Fiel Escudeiro, com o Palhaço Piruá, reinscreve o clássico a partir da periferia e da sabedoria popular; No Coração da Lua, do Grupo Estação de Teatro, mergulha em matéria noturna, sonho e delicadeza; A Maçã, com William Seven, sugere um teatro que aposta na reflexão; Peça Única, da House of Hands Up MS, faz da linguagem de sinais um princípio formal; O Encontro da Tempestade com a Guerra, do Circo Experimental Negro, afirma o circo como linguagem atravessada por luta, raça e invenção; HA!, do Grupo Artilharia Cênicas, recoloca o humor no terreno da resistência; No Armário Não Cabe Ninguém, do GPETI, em sua pesquisa em teatro para infância enfrenta a questão da diversidade sem reduzi-la a um enunciado pedagógico simplificado; Bando, do Máscara Encena, leva o teatro à praça; Caixa Ninho, do Eranos Círculo de Arte, e Miau, do Grupo Pé de Vento, reforçam essa ocupação de espaços não convencionais. 

Essa heterogeneidade é um dos traços mais significativos da edição. Ela põe lado a lado práticas e estéticas que raramente convivem sem mediação – grupo consolidado e coletivo emergente, teatro documental e palhaçaria, pesquisa formal e vocação pedagógica, espetáculo de rua e criação de sala, cultura popular e elaboração contemporânea. 

A homenagem ao Grupo Sobrevento

Para Mariela. Foto: Lauro Medeiros / Divulgação

A escolha do Grupo Sobrevento, de São Paulo, como homenageado da edição do Palco nacional é reveladora. Ao completar 40 anos de trajetória, o coletivo reafirma uma linha de trabalho marcada pela atenção aos deslocamentos, à vulnerabilidade e às formas de precariedade inscritas na experiência contemporânea. Seu teatro lida com migração, trânsito, perda e desamparo.

O espetáculo em circulação especial, Para Mariela, retoma a condição de crianças bolivianas migrantes por meio do teatro de formas animadas, mas sem suavizar o conflito. Mistura delicadeza formal e densidade política. Não ameniza a violência do tema; antes, a faz aparecer por outra via, mais oblíqua, mais persistente.

Trela: a infância como pauta séria

Paralelamente aos espetáculos, o festival realiza a segunda edição do Trela – Seminário de Artes Cênicas para as Infâncias, de 28 a 30 de maio, no Teatro Apolo. O seminário toca em dos pontos mais consistentes da programação, da dimensão estrutural da cultura.

Ao reunir pedagogos, psicanalistas, artistas e pesquisadores,  o Trela organiza de modo mais consequente uma pergunta que ainda costuma ser tratada como periférica: qual é a responsabilidade coletiva de cuidar das crianças também por meio das artes?

A homenagem a Vilma Carijós, do Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo, reforça esse eixo ao vincular infância, educação, território e negritude numa mesma constelação de trabalho histórico. A presença de Maria Homem na abertura amplia o debate e lhe dá densidade pública. O seminário, assim, funciona como uma de engrenagens centrais do festival. Rconhecer a infância como pauta séria é reconhecer que discutir artes cênicas hoje implica discutir também formação, cuidado, linguagem e futuro.

Ideathon: inovação com medida concreta

Nos dias 21 e 22 de maio, o festival realiza ainda um Ideathon, maratona de inovação voltada à criação de protótipos para desafios reais do setor cultural. A iniciativa reúne estudantes, profissionais e interessados em pensar soluções aplicadas para o campo. O prêmio de R$ 4 mil para a ideia vencedora não altera por si só a estrutura econômica da cultura, mas tem valor como gesto de indução: sinaliza que o festival não quer apenas exibir obras prontas, mas também estimular imaginação organizativa, formulação e resposta prática.10ª edição do Palco Giratório

PROGRAMAÇÃO

Quarta-feira (20), às 19h
🎭 Abertura do festival: Espetáculo Capiba, pelas ruas eu vou
📍 Teatro do Parque: Rua do Hospício, 81, Boa Vista – Recife
🎟️ Entrada gratuita, com retirada antecipada pela internet; é preciso levar 1 kg de alimento para doação na hora do espetáculo

Sexta-feira (22), às 9h30
🎭 Espetáculo Helô em busca do baobá sagrado
📍 Sesc de Casa Amarela – Teatro Capiba: Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, 4490, Mangabeira – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sexta-feira (22), às 14h
🎭 Espetáculo Notícias do dilúvio – Um canto a Canudos
📍 Cine Teatro Samuel Campelo: Praça Nossa Senhora do Rosário, 510, Centro – Jaboatão dos Guararapes
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Sexta-feira (22), às 16h
🎭 Espetáculo O dia em que a Morte sambou
📍 Instituto Marcos Hacker de Melo: Rua Ten. João Cícero, 258, Boa Viagem – Recife
🎟️ Ingressos esgotados

Sábado (23), às 16h
🎭 Leitura dramatizada A cantora careca
📍 Centro Cultural Mercado Eufrásio Barbosa: Largo do Varadouro, s/n, Varadouro – Olinda
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Sábado (23), às 17h
🎭 Espetáculo Para Mariela
📍 Teatro Hermilo Borba: Cais do Apolo, 142, Bairro do Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sábado (23), às 19h
🎭 Espetáculo Sobre os ombros de Bárbara
📍 Sesc de Casa Amarela – Teatro Capiba: Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, 4490, Mangabeira – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sábado (23), às 20h
🎭 Espetáculo Para Mariela
📍 Teatro Hermilo Borba: Cais do Apolo, 142, Bairro do Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Domingo (24), às 11h
🎥 Filme Salu e o cavalo-marinho
📍 Cinema São Luiz: Rua da Aurora, 175, Boa Vista – Recife
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Domingo (24), às 16h
🎭 Espetáculo Frankinh@ – uma história em pedacinhos
📍 Teatro de Santa Isabel: Praça da República, s/n, Santo Antônio – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Domingo (24), às 17h30
🎭 Espetáculo Corpos de Tambor
📍 Sesc de Casa Amarela – Teatro Capiba: Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, 4490, Mangabeira – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Domingo (24), às 19h
🎭 Espetáculo Frankinh@ – uma história em pedacinhos
📍 Teatro de Santa Isabel: Praça da República, s/n, Santo Antônio – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Terça-feira (26), às 16h30
🎭 Espetáculo Bando
📍 Praça do Rosário: Centro, Jaboatão dos Guararapes
🎟️ Gratuito

Quarta-feira (27), às 9h30
🎭 Espetáculo Bando
📍 Praça Dom Vital/Mercado São José: Praça Dom Vital s/n, Recife
🎟️ Gratuito

Quarta-feira (27), às 14h
🎭 Espetáculo Roda
📍 Cine Teatro Samuel Campelo: Praça Nossa Senhora do Rosário, 510, Centro – Jaboatão dos Guararapes
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Quarta-feira (27), às 15h
🎭 Espetáculo No coração da Lua
📍 Teatro Barreto Júnior: Rua Estrada Jeremias Bastos, Pina – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Quinta-feira (28), às 19h30
🎭 Espetáculo A maçã
📍 Teatro Barreto Júnior: Rua Estrada Jeremias Bastos, Pina – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Quinta-feira (28), às 19h30
🎭 Espetáculo Agbará Obirin
📍 Teatro do Parque: Rua do Hospício, 81, Boa Vista – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sexta-feira (29), às 14h
🎭 Espetáculo A ver estrelas
📍 Teatro Apolo-Hermilo: Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Sexta-feira (29), às 14h e às 19h
🎥 Filme Mambembe
📍 Cine Teatro Samuel Campelo: Praça Nossa Senhora do Rosário, 510, Centro – Jaboatão dos Guararapes
🎟️ Gratuito

Sexta-feira (29), às 15h
🎭 Espetáculo Sancho Pança, o fiel escudeiro
📍 Sesc Ler São Lourenço da Mata: Avenida das Pêras, 56, Tiuma – São Lourenço da Mata
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Sexta-feira (29), às 20h
🎤 Show Adilson Ramos
📍 Teatro do Parque: Rua do Hospício, 81, Boa Vista – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sábado (30), às 15h30
👶 Contação de histórias para bebês
📍 Teatro Hermilo Borba: Cais do Apolo, 142, Bairro do Recife
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Sábado (30), às 16h
🎭 Espetáculo Caixa Ninho
📍 Teatro Hermilo Borba: Cais do Apolo, 142, Bairro do Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sábado (30), às 16h30
🪄 Espetáculo CloseUP
📍 Teatro do Parque: Rua do Hospício, 81, Boa Vista – Recife
🎟️ Gratuito

Sábado (30), às 17h
🎭 Espetáculo No Armário Não Cabe Ninguém
📍 Teatro do Parque: Rua do Hospício, 81, Boa Vista – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Domingo (31), às 11h
🎥 Filme RE TE TEI
📍 Cinema São Luiz: Rua da Aurora, 175, Boa Vista – Recife
🎟️ Gratuito

Domingo (31), às 16h
🎭 Espetáculo Sancho Pança, o fiel escudeiro
📍 Parque da Macaxeira: Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, s/n, Macaxeira – Recife
🎟️ Gratuito

Domingo (31), às 16h30
🎭 Espetáculo Pontilhados
📍 Recife Antigo: Avenida Rio Branc, s/n, Bairro do Recife
🎟️ Gratuito

Domingo (31), às 17h
🎭 Espetáculo HA!
📍 Parque da Macaxeira: Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, s/n, Macaxeira – Recife
🎟️ Gratuito

Terça-feira (2), às 15h
🎭 Espetáculo HA!
📍 Sesc Ler São Lourenço da Mata: Av. das Pêras, 56, Tiuma – São Lourenço da Mata
🎟️ Gratuito

Terça-feira (2), às 18h
👯‍♀️ Vivência Ballroom – Empoderamento, Corpo e História
📍Cine-Teatro Samuel Campelo: Praça Nossa Sra. do Rosário, 510, Centro – Jaboatão dos Guararapes
🎟️ Gratuito, retirada do ingresso na internet

Quarta-feira (3), às 15h
🎭 Espetáculo O Encontro da Tempestade com a Guerra
📍Sesc Santo Amaro: Praça do Campo Santo, 1-101, Santo Amaro – Recife
🎟️ Gratuito

Quarta-feira (3), às 20h
🎭 Espetáculo Peça Única
📍Teatro Barreto Júnior: R. Est. Jeremias Bastos, Pina – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Quinta-feira (4), às 18h
🎭 Espetáculo Espécie em Extinção
📍 Teatro Hermilo Borba: Cais do Apolo, 142 – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Quinta-feira (4), às 19h30
🎭 Palhaço Pinóquio (espetáculo de abertura)
🎭 Espetáculo Eduardo, o Rei das Praças
📍 Teatro Apolo-Hermilo: R. do Apolo, 121 – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sexta-feira (5), às 12h
🎭 Espetáculos Miau – Grupo Pé de Vento
📍Restaurante Sesc RioMar: Av. República do Líbano, 251, Pina – Recife
🎟️ Gratuito

Sexta-feira (5), às 20h
🎭 Espetáculo Pisadas
📍Teatro Apolo-Hermilo: R. do Apolo, 121 – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sábado (6), às 12h
🎭 Espetáculos Miau – Grupo Pé de Vento
📍Restaurante Sesc RioMar: Av. República do Líbano, 251, Pina – Recife
🎟️ Gratuito

Sábado (6), às 16h
🎭 Espetáculo Dandara na Terra dos Palmares
📍Teatro Apolo-Hermilo: R. do Apolo, 121 – Recife
🎟️ A partir de R$ 15, à venda na internet

Sábado (6), às 16h
🎶 Mestre Zezinho de Casa Amarela
📍Paço do Frevo: Praça do Arsenal da Marinha, 91 – Recife
🎟️ Gratuito

Domingo (7), às 16h30
🎭 Miro dos Bonecos – Mamulengos do Novo Milênio
📍Paço do Frevo: Praça do Arsenal da Marinha, 91 – Recife
🎟️ Gratuito

Domingo (7), às 17h
🎭 Espetáculo Re Te Tei
📍Paço do Frevo: Praça do Arsenal da Marinha, 91 – Recife
🎟️ Gratuito

Domingo (7), às 19h
FESTA CUBANA
📍 Clube Bela Vista

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Lady Tempestade, com Andrea Beltrão
abre Festival Recife do Teatro Nacional
celebrando vozes femininas

Andrea Beltrão em Lady Tempestade. Foto: Nana Moraes / Divulgação

Atriz interpreta a advogada pernambucana Mércia de Albuquerque. Foto: Nana Moraes / Divulgação

2 de abril de 1964. Uma cena de horror se desenrolava pelas ruas do Recife e mudaria para sempre a vida de uma jovem advogada. Gregório Bezerra, comunista histórico e líder das Ligas Camponesas, ferrenho opositor do recém-instalado regime militar, estava sendo arrastado seminu pelo asfalto, amarrado ao para-choque de um jipe. O coronel Darcy Villocq comandava aquela demonstração de brutalidade que seria transmitida pelo Repórter Esso para todo o país – o primeiro caso documentado de tortura política pós-golpe.

Entre os que testemunharam aquela barbárie estava Mércia de Albuquerque, advogada de 30 anos. Aquela imagem ficou cravada em sua retina. Ao chegar em casa, ela comunicou ao marido Octávio uma decisão que mudaria sua vida: defenderia Gregório Bezerra e qualquer pessoa que necessitasse de proteção contra as arbitrariedades do novo regime.

Mais de sessenta anos depois, essa história de coragem chega ao 24º Festival Recife do Teatro Nacional através do espetáculo Lady Tempestade, que abre a programação no dia 20 de novembro no Teatro de Santa Isabel. Andrea Beltrão protagoniza o monólogo sobre a advogada que defendeu mais de 500 presos políticos.

Com texto de Sílvia Gomez e direção de Yara de Novaes, o espetáculo parte dos diários que Mércia escreveu durante os anos mais duros da ditadura. Passado, presente e futuro se embaralham na narrativa, que utiliza uma estrutura “diário dentro do diário”.

Andrea Beltrão interpreta A., mulher que recebe misteriosamente os escritos de Mércia e gradualmente se envolve com aquelas histórias de resistência. A protagonista encara o dilema de se aprofundar ou não naquela realidade, mas acaba mergulhando nas memórias que revelam a busca por justiça e o paradeiro de desaparecidos, ecoando as súplicas de mães desesperadas.

A dramaturgia explora a ideia de que alguém do presente recebe uma convocação do passado, criando um tempo verbal instável que oscila entre passado, presente e futuro. Essa estrutura temporal reflete como o Brasil permanece reincidente no esquecimento de sua própria história. Uma frase se torna leitmotiv da montagem, repetida após trechos dramáticos do diário: “Essas coisas acontecem, aconteceram, acontecerão”. Para materializar esse conceito em cena, a direção de Yara de Novaes constrói uma jornada visual que espelha a própria transformação de Mércia.

O espetáculo inicia em um ambiente doméstico deteriorado – mobiliário gasto, cores apagadas, iluminação que sugere clausura e melancolia. Conforme a narrativa avança e o passado invade o presente, essa cenografia se reinventa: sons de violência cedem lugar a celebração, a decadência visual dá espaço à luminosidade, e o palco se torna território de resistência e esperança.

Complementando essa atmosfera de encontro entre tempos, a presença de Chico Beltrão, filho de Andrea, adiciona uma camada geracional ao espetáculo. Responsável pela trilha sonora e por momentos pontuais de diálogo, sua participação surgiu de uma proposta da diretora. Embora Andrea inicialmente tenha hesitado em envolver o filho – produtor musical, não ator – no projeto teatral, Yara identificou que essa configuração familiar ampliaria o impacto emocional da montagem. 

Lady Tempestade consolidou-se como um dos maiores sucessos teatrais contemporâneos e já circulou por várias cidades brasileiras. Desde sua estreia em 2024, a montagem realizou cerca de 150 apresentações e ultrapassou a marca dos 70 mil espectadores, registrando sessões esgotadas e repercussão positiva na imprensa.

O alcance da obra expandiu-se além dos palcos. A dramaturgia foi publicada pela Editora Cobogó em 2024, enquanto uma versão cinematográfica, dirigida por Maurício Farias, já teve suas filmagens concluídas em janeiro e fevereiro de 2025. O filme conta com direção de fotografia de Chico Rufino, direção de arte de Luciane Nicolino, desenho de som de Arthur Ferreira, participação de Chico Beltrão e produção da Taba Filmes, Boa Vida e Quintal Produções.

Festival conecta vozes femininas através dos séculos

Augusta Ferraz no ensaio Sobre os Ombros de Bárbara. Foto: Reprodução do Instagram

O tema “Vozes Femininas – Histórias que Ressoam” conecta diferentes épocas e contextos. Ao longo da programação – ainda sendo ultimada pela organização, com contratos em finalização e sem divulgação oficial da prefeitura – o público encontra desde Mércia Albuquerque, que enfrentou a ditadura no século XX (Lady Tempestade, na abertura dia 20), até Bárbara de Alencar, que desafiou o império no século XIX (apresentações agendadas para os dias 29 e 30), passando por outras montagens que abordam as lutas das mulheres contemporâneas. Essas histórias revelam como a resistência feminina se reinventa em cada período, mantendo sua força através dos tempos.

Primeira presa política brasileira e protagonista da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador de 1824, Bárbara de Alencar (1760-1832) ganha vida através da interpretação de Augusta Ferraz. Sobre os Ombros de Bárbara, com dramaturgia de Brisa Rodrigues da própria Augusta, sob direção de José Manoel Sobrinho, explora as contradições de uma mulher republicana durante a monarquia.

Nascida em Exu, Bárbara quase custou a vida da mãe no parto. Aos 22 anos, casou-se e mudou-se para o Crato, onde teve cinco filhos – dois estudaram no Seminário de Olinda, epicentro do liberalismo europeu entre as elites. Organizou células revolucionárias em sua residência, articulando movimentos que desafiaram o poder imperial.

Posteriormente presa, foi transportada a pé por 600 quilômetros até Fortaleza, permaneceu três anos em calabouços, liderou um segundo levante, perdeu dois filhos nas revoltas e morreu aos 72 anos sem testemunhar a proclamação da República. Augusta Ferraz, da série Guerreiros do Sol, dá vida a essa escravocrata em crise, apresentando um corpo violentado e uma resistência ao arbítrio.

Laboratório Franco-Brasileiro

Trabalho desenvolvido pela companhia francesa ktha em Seul. Foto: Reprodução

A companhia francesa ktha chega ao Recife para desenvolver  a peça A Gente Quer com artistas locais, dentro da programação do Ano Cultural Brasil-França 2025. O grupo não carrega espetáculos prontos; ele criou uma metodologia de criação teatral que se concretiza diferentemente em cada cidade, ocupando espaços urbanos alternativos como contêineres, carrocerias de caminhões, telhados, túneis, estacionamentos, etc.

Em agosto, na Casa do Povo, no bairro do Bom Retiro em São Paulo, durante o festival ERUV, seis artistas brasileiros participaram de residência de duas semanas para criar as versões brasileiras de A Gente Quer e Tu Es Là / Você está Aqui. As apresentações lotaram o espaço, validando a potência dessa metodologia aplicada ao contexto brasileiro.

Para Recife, após analisar mais de 100 cartas de intenção, a companhia selecionou 10 artistas locais: Lucas Vinícius, Catarina Almanova, Ludmila Lopes, Anna Batista, Ana Luiza DAccioli, Rodrigo Hermínio, Maria Pepe, Guara Rios, Bruna Luiza Barros e Caru dos Santos. Durante 10 ensaios, eles vão construir uma versão que dialogue com as particularidades pernambucanas.

Desde 2021, essa metodologia se realizou em mais de 15 cidades do mundo, gerando espetáculos únicos. A dramaturgia funciona como uma matriz: uma extensa lista de desejos e reivindicações que ganha forma específica através do trabalho com performers locais, criando rituais coletivos de partilha de anseios urbanos.

Festival Recife do Teatro Nacional 2025
📅 20 a 30 de Novembro de 2025
🎭 Abertura: 20 de novembro – Lady Tempestade
📍 Teatro de Santa Isabel e outros espaços
🎫 Programação gratuita
Homenageadas: Auricéia Fraga e Augusta Ferraz

Postado com as tags: , , , , , , , , ,