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Pernambuco no Porto Alegre em Cena

 

Mudando de pele. com Taís Araújo. Foto Nana Moraes

Lia Lia, com Bete Coelho e Camila Pitanga. Foto: Divulgação

Bando do Nada com o espetáculo Imorais. Foto Divulgação

Pela Noite, produção do Recife inspirada em Caio Fernando Abreu. Foto: Divulgação

Porto Alegre tem um festival que, há 33 edições, transforma a cidade em um acontecimento teatral. A cena se expande para além das casas de espetáculos e ocupa ruas, praças e espaços alternativos. São 13 espaços, dos tradicionais às salas independentes, que viram endereços do Porto Alegre em Cena, um dos maiores festivais de artes cênicas da América Latina, que desde 1994 arrasta em média 100 mil espectadores por ano, e que neste ano, entre 10 e 20 de setembro, ocupa a capital gaúcha. Esse é o tamanho de uma prática que virou tradição. Em 2026, esse encontro se confirmou rápido. Metade dos ingressos esgotou em menos de 24 horas após a abertura das bilheterias virtuais, e a maioria dos espetáculos já não tem mais lugares disponíveis para venda. Por trás dessa operação está o coordenador-geral Luciano Alabarse, com a direção geral de Letícia Vieira, a coordenação geral de produção de Claudia D’Mutti e a curadoria da programação local assinada por Adriana Jorgge, Gabriela Munhoz, Luísa Dias Rosa e Rodrigo Marquez.

Os ingressos desta edição abriram na quarta-feira (12), às 17h, no site oficial. uma semana depois, estão praticamente todos esgotados. As quatro montagens pernambucanas no festival lotaram; duas delas, Imorais e Pela Noite, voaram em poucas horas e estiveram entre as primeiras sessões esgotadas da edição, na companhia das produções estreladas de artistas que o grande público conhece da televisão e do cinema, como Taís Araújo (Mudando de Pele), Bete Coelho e Camila Pitanga (Lia Lia), Danielle Winits (Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente) e Grace Gianoukas (Dora).

Um festival que já foi trincheira do teatro mundial

Falar de Porto Alegre em Cena é falar do festival de artes cênicas mais longevo da capital gaúcha; e um dos mais respeitados do país. Desde 1994, o evento pavimentou uma relação incomum entre uma capital do Sul e o que há de mais radical na cena internacional. A lista de quem passou por seus palcos é impressionante. Peter Brook, o encenador inglês que redefiniu o que se entende por clássico; Pina Bausch, a coreógrafa alemã que reinventou a dança-teatro; Bob Wilson e Patrice Chéreau, dois gigantes da direção contemporânea; Philip Glass, o compositor minimalista; a companhia japonesa Sankai Juku, com seu butô hipnótico; o músico bósnio Goran Bregovic; e Marianne Faithfull, cantora e atriz britânica, para além do teatro.

O festival também foi porta de entrada do Brasil para companhias que dificilmente desembarcariam em território nacional por outros caminhos. O caso mais célebre é o do Théâtre du Soleil, de Ariane Mnouchkine. Na 14ª edição, em 2007, o grupo francês apresentou Les Éphémères  em Porto Alegre; e, para recebê-lo, a produção do festival construiu uma réplica da Cartoucherie, o lendário teatro em que a companhia atua no bosque de Vincennes, em Paris. A experiência rendeu um retorno. Anos depois, o festival foi co-realizador da vinda de Os Náufragos da Louca Esperança ao Rio Grande do Sul. Coisas que só um festival com essa musculatura consegue fazer.

EDDY – violência & metamorfose. Foto: Divulgação

O tamanho desta edição

São 46 espetáculos de teatro, dança, circo e música vindos de dez estados – São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Goiás, Minas Gerais e Rio Grande do Sul – e mais produções da Argentina e do Canadá. Além dos nomes já citados, o festival reúne ainda Sandra Pêra em Eu Apenas Queria que Você Soubesse – A Música de Gonzaguinha; Juliana Linhares e Laila Garin em As Centenárias, versão musical da obra de Newton Moreno, com 16 canções originais de Chico César sob direção de Luís Carlos Vasconcelos. Também na programação Mãos Trêmulas, texto premiado de Victor Nóvoa sobre amor na terceira idade, etarismo e o apagamento dos idosos, com Cleide Queiroz e Plínio Soares sob direção de Yara de Novaes; EDDY – violência & metamorfose, inspirado na obra do escritor francês Édouard Louis; Corpomundo, mais recente espetáculo da Cia. de Teatro e Dança Fábrica de Sonhos, que une arte, inclusão, diversidade e pertencimento; Medeia, espetáculo solo de Tânia Farias, do Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre.

A curadoria atravessa temas como  corpo, racismo, maternidade, envelhecimento, memória, desejo, solidão e pertencimento e faz reverências a Caio Fernando Abreu (30 anos de morte) e Guimarães Rosa (70 anos de Grande Sertão: Veredas). A abertura, no dia 10, é com La Pampa Grande, encontro musical entre artistas gaúchos e argentinos que reúne nomes como Dolores Solá, Liliana Herrero, Hique Gomez, Arthur de Faria, Vitor Ramil e Nina Nicolaiewsky.

Nem sempre foi fácil. Entre crises de financiamento, a pandemia que fechou teatros por quase dois anos e a disputa por atenção num cenário cultural cada vez mais fragmentado, o festival conheceu edições enxutas, de orçamento apertado e público hesitante. A edição passada, por exemplo, levou 31 espetáculos. A atual traz 46; um salto de 15 montagens, com três internacionais, 28 nacionais e 15 locais.

Que Muito Amou, da Cênicas Cia. de Repertório, com direção de Antônio Rodrigues, que também atua

HBLYNDA EM TRANSito, da artista HBlynda Morais. Foto: Divulgação

Pernambuco em quatro atos

A participação pernambucana no festival é um microcosmo da cena recifense: dramaturgia autoral, adaptações literárias e um solo de afirmação de existência. As quatro montagens estão com lotação máxima.

Imorais, o espetáculo de estreia do Bando de Nada Coletivo de Teatro, com texto de Cristiano Primo, mergulha numa família atravessada por comportamentos fora da norma como abuso, traição, incesto, para discutir a hipocrisia das convenções morais.

Outra adaptação abre caminho por um território afetivo: Pela Noite, da NOZ Produz, parte do conto homônimo de Caio Fernando Abreu para reconstruir o reencontro de dois homens separados há quase vinte anos. Um coro de duas vozes conduz a narrativa, feita de solidão, memória, desejo e erotismo, enquanto Pérsio e Santiago decidem, juntos, sair pela noite. A direção é de Edjalma Freitas, com Amanda Clélia, Wydi Silva, Paulo César Freire e Rogério Wanderley em cena. 

Que Muito Amou, da Cênicas Cia. de Repertório, com direção de Antônio Rodrigues, reúne três contos de Os Dragões Não Conhecem o ParaísoSapatinhos Vermelhos, Praiazinha e “Dama da Noite– para investigar as múltiplas faces do amor, do desejo, da perda e da solidão. Personagens “fora da roda”, à margem, expõem afetos levados ao limite, com Barbara Brendel, Antônio Rodrigues e Guga Patriota.

Há ainda um solo que amplia o leque temático. HBLYNDA EM TRANSito, da artista HBlynda Morais, que transforma a própria trajetória de mulher gorda, preta, candomblecista e não binária em performance, teatro, dança e música, com direção musical de Monique Sampaio.

Por trás do contingente pernambucano há uma ponte que vem de longe. A relação entre a produção teatral do Recife e o Porto Alegre em Cena tem na APACEPE – Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco – uma de suas articuladoras centrais. Presidida por Paulo de Castro, ator, diretor e produtor que há 27 anos realiza o Janeiro de Grandes Espetáculos, festival internacional do Recife, que também tem recebido produções gaúchas ao longo dos anos. 

Caio Fernando Abreu com sotaque pernambucano

Uma coincidência bonita da edição é  que dos três trabalhos que celebram os 30 anos da morte de Caio Fernando Abreu, dois vêm do Recife. O escritor nascido em Santiago, na Região Central do Rio Grande do Sul (autor de Morangos Mofados e Os Dragões Não Conhecem o Paraíso) , é homenageado por Pela Noite e Que Muito Amou, ambas pernambucanas, além de uma edição especial do Sarau Voador, com Deborah Finocchiaro e Roger Lerina. O gaúcho mais universal da literatura brasileira encontrou no Nordeste leitores que o devolvem, em cena, à sua terra.

Reside Amaro: a semente que brotou no Recife

Antes de Porto Alegre, a ideia nasceu no Recife. O Reside Alegre, que aquece o festival gaúcho desde 2025, é um desdobramento do Reside Amaro, festival realizado em fevereiro de 2025 no bairro de Santo Amaro, na região central da capital pernambucana. A proposta era a mesma que depois atravessaria o país: transformar as histórias de moradores em dramaturgia, apresentada dentro das próprias casas, bares e ruas do bairro.

O projeto foi gestado pela a produtora Paula de Renor, diretora do Reside Festival, que se inspirou no “teatro vecinal” (teatro de vizinhança) da argentina Monina Bonelli, do coletivo Teatro Bombón, de Buenos Aires. Juntas, com o curador Celso Curi (SP), idealizaram uma ação inédita no Brasil: por três dias, o quarteirão entre as ruas Capitão Lima e Rocha Pita, em Santo Amaro, no Recife,  virou palco de mais de 70 apresentações gratuitas, com vizinhos como artistas e intérpretes das próprias histórias. O produtor e agitador cultural Roger de Renor, morador do local, abriu as portas de casa e se tornou o anfitrião do encontro entre artistas e moradores.

A experiência, que contou com alunos do Curso de Interpretação para Teatro (CIT) do Sesc Santo Amaro em todas as etapas, foi a quinta edição do Reside.FIT/PE Festival Internacional de Teatro de Pernambuco, realizado pela Remo Produções Artísticas, com patrocínio do Banco do Nordeste via Lei Rouanet, apoio do Ministério da Cultura e incentivo do Funcultura e do SIC Recife.

A segunda edição no Recife, porém, ainda não saiu do papel. O Reside Amaro ainda não conquistou um edital que viabilize sua realização novamente. A proposta, porém, não se perdeu. Foi justamente essa ideia – a de um festival que mora dentro do bairro e nasce das histórias de quem vive ali –  que o Porto Alegre em Cena enxergou como algo inédito.

Reside Alegre: a cidade como matéria de dramaturgia

Ao ver na proposta do Reside Amaro um formato inédito de festival, o Porto Alegre em Cena propôs aos envolvidos (a mesma equipe que gestou o projeto no Recife) a realização do Reside em Porto Alegre. Nasceu assim o Reside Alegre, que estreou em 2025 integrando as ações formativas do festival gaúcho e agora realiza sua segunda edição.

O projeto escuta histórias de moradores e as transforma em dramaturgia, apresentada depois nas ruas e em espaços fora dos teatros convencionais, como casas, lojas, esquinas. Depois de estrear no Centro Histórico, a iniciativa ocupa agora a rua Alberto Torres, na Cidade Baixa, onde funciona a sede do festival, com a diretora e iluminadora Nara Maia como “vizinha embaixadora”, ao lado da atriz, diretora e produtora Sandra Possani.

A coordenação reúne a argentina Monina Bonelli (direção), a pernambucana Paula de Renor (curadoria), e os paulistas Celso Curi (curadoria e direção) e Wesley Kawaai (coordenação). A mostra resultante das vivências com os moradores da Cidade Baixa acontece nos dias 5 e 6 de setembro, às vésperas da abertura do festival.

 

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Experiência e graça de Caetana

Fabiana Pirro (em pé) e Lívia Falcão na peça Caetana. Foto: Ivana Moura

Madura, mas sem perder o viço. A peça Caetana, do Grupo Duas Companhias, de Pernambuco, mostrou no Porto Alegre em Cena – Festival Internacional de Artes Cênicas, que tem as qualidades da experiência e também uma vivacidade, uma ludicidade que a montagem exige. O espetáculo que se apresentou ontem no Teatro Túlio Piva lotado, faz mais duas sessões, uma hoje e outra amanhã. O público encarou a chuva e o frio para conferir as artimanhas dessas personagens de sotaque nordestino.

O termo Caetana é a poética forma de denominar a morte, utilizada pelo dramaturgo Ariano Suassuna em suas obras e poemas. A montagem de Moncho Rodriguez agregou o título e algo da estética armorial. A peça expõe a saga da encomendadora de almas Benta (Lívia Falcão), para driblar a morte/ Caetana (Fabiana Pirro).

Espetáculo participa do Porto Alegre em Cena com três apresentações

A rezadeira já facilitou a passagem e indicou o caminho do além para várias almas perdidas, em troca de dinheiro, é claro. Mas dessa vez é ela mesma quem se vê diante da morte, e vai parar no Reino do Invisível. Lá, Benta reencontra as almas anteriormente encomendadas por ela que aparecem em forma de bonecos.

A encenação faz referências ao circo, ao teatro mambembe, à literatura de cordel, ao mamulengo e a outras manifestações populares. Parte da ação se passa dentro da estrutura em formato circense. A trilha sonora, composta pelo português Narciso Fernandes, modula os climas do espetáculo com uma partitura que junta sonoridades da música ibérica e nordestina.

Caetana estreou no dia 17 de julho de 2004, no Festival de Garanhuns/PE. Tem, portanto, oito anos, mais de 150 apresentações e já foi vista por aproximadamente 55 mil pessoas, segundo a produção. Nesse percurso, o texto, de Moncho Rodriguez e Weydson Barros, ficou mais orgânico e ajustado às necessidades da cena.

A temática do inevitável encontro com a morte e a tentativa de fuga desse destino existe desde que o mundo é mundo. Esses arquétipos narrativos remetem para a tradição ibérica, suas lendas e contos maravilhosos. Nesse universo mágico, Benta traça círculos pelo espaço com Caetana no seu encalço. Outros personagens constróem outros desenhos num enredo de situações engraçadas, inclusive a aflição de Benta.

As atrizes foram aplaudidas com entusiasmo pela plateia gaúcha

As atrizes estão cada vez mais afinadas. Lívia Falcão explora de sua Benta a graça das figuras espertinhas e o carisma do palhaço. Ela imprime leveza, ousadia e ironia à sua personagem encantadora. Fabiana Pirro interpreta Caetana com sobriedade e peso e traça com seu corpo coreografias para a personagem. Pirro também faz as outras almas que foram recomendas para o além pela benzedeira, por trás de bonecos que ganham vida nas várias vozes da atriz. As duas nos divertem com nossas próprias assombrações.

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O perfeccionismo no palco

Bob Wilson em cena em Krapp's last tape. Fotos: Ivana Moura

Quando estava escrevendo sobre o festival de Porto Alegre para esse post sobre as principais mostras do país, lembrei que não compartilhei aqui uma das melhores coisas de 2011: a oportunidade de ver um espetáculo com Bob Wilson em cena (Krapp’s last tape) e ainda entrevistá-lo.

Foi quase uma maratona! Primeiro porque, perfeccionista como ele só, decidiu cancelar a primeira apresentação no festival; lembro que, depois de muito insistir, Ivana sacar a sua máquina para tirar fotos, conseguimos assistir ao ensaio da montagem, no outro dia, à tarde; à noite, vimos o espetáculo. No dia seguinte, depois do almoço, o Theatro São Pedro ainda estava fechado quando chegamos, eu, Ivana e Daniel Schenker para garimpar a nossa entrevista! E deu certo! Ele conversou uns quarenta minutos conosco e, ao final, a repórter/blogueira (em momento tiete – juro que ‘quase’ nunca faço iso) ainda pediu para tirar foto! Depois do imbróglio, vamos à entrevista.

Entrevista // Bob Wilson

Como foi a criação de Krapp´s Last Tape?
Cada produção é diferente. Esta, felizmente, fui capaz de desenhar o cenário no teatro onde eu iria apresentar. Então, construí o cenário já na medida do que eu teria mesmo, exatamente. Muito rapidamente procurei uma mesa, o gravador na internet, achei caixas para guardar livros. E depois eu tinha a proporção do cenário, para que se eu estivesse noutro teatro, mais largo, pudesse adicionar, ter outra janela. Então num período curto de tempo, eu tinha o cenário acertado. Depois eu fiz a luz. Fiz diferentes efeitos de luz para o quarto. Depois fui para o palco. Fiz um tipo de coreografia, antes de fazer o texto. Depois eu tinha alguém no palco, maquiado, para que pudesse ver como era ter alguém naquele quarto. Aí comecei a colocar o som. Comecei com a chuva, os trovões. Ou eu estava no palco, ou eu tinha alguém fazendo o que eu tinha feito, para que eu pudesse ver. Fiz o áudio. E aí tinha o texto, os efeitos sonoros e tudo mais. E depois eu tive que aprender tudo, para ficar livre. O mais importante no meu trabalho é o tempo. Quanto tempo eu espero antes de fazer isso (pegando o copo). Algo realmente rápido ou algo devagar, movimentos suaves ou não… Eu tive que aprender e isso leva muito tempo para aprender.

Luz e som do espetáculo são impressionantes

Porque fazer o Krapp neste momento e não só como diretor, mas como ator?
Bem, de tempos em tempos, eu atuo e trabalho por mim mesmo. Porque eu acho que é bom para mim, como um diretor, estar em contato dessa forma com o meu próprio trabalho. Eu realmente não gosto de atuar muito, mas acho que é bom de tempos em tempos ter a mesma experiência que os atores têm fazendo meu trabalho. Eu vou fazer 70 anos este ano e a peça é com um homem de 70 anos. De algumas maneiras, meu trabalho é próximo ao trabalho do Beckett. Beckett gostava de Charles Chaplin, dos filmes mudos. Se você olhar um filme de Charles Chaplin, é tudo denso, é tudo tempo. Ele tinha que fazer, mais e mais, e mais, até ter o tempo correto. Não havia nada natural ou psicológico. O rosto era pintado de branco e eles faziam a cena trágica como comédia. É diferente do teatro psicológico, naturalista, que eu odeio. Eu acho que pela conversa que eu tive com Beckett, ele gostava do teatro como um mundo artificial, não é um mundo naturalista, é outro mundo que ele cria. É algo próximo ao meu trabalho também. Não é Tennessee Williams, David Mamet, lidando com o naturalismo, o psicológico, é outra maneira de fazer teatro e eu me sinto muito mais relacionado ao trabalho do Beckett, ao que ele fez como dramaturgo, como artista, do que a Tennessee Williams ou alguém assim.

Se o senhor pudesse fazer o mesmo exercício de Krapp, ouvir uma fita gravada há 30 anos, perceberia muitas mudanças no seu trabalho?
Acho que o trabalho artístico é como uma árvore, algumas vezes tem flores, outras vezes elas caem. Tem a estação do inverno, da primavera. Mas acho que o meu trabalho é um só em essência. Cézanne disse que ele estava sempre pintando a mesma coisa; Proust disse que ele estava sempre escrevendo a mesma novela; e Einstein disse uma vez, quando um repórter pediu para que ele repetisse o que ele tinha acabado de dizer, que não era necessário repetir, porque tudo fazia parte de um mesmo pensamento. Então, em essência, o que estava acontecendo trinta anos atrás é um processo, de uma mesma coisa. Constantemente mudando. A única coisa constante é a mudança. Talvez parar e ouvir. Aquela seqüência de sons que nós acabamos de ouvir não vai acontecer nunca novamente. Então, isso é constante. A única coisa realmente constante na vida é a mudança. Mas em essência, é o mesmo pensamento, que é pensado novamente, como um rio, que continua sempre, mas que está sempre mudando, segundo a segundo.

O senhor se sente um homem de 70 anos?
Algumas manhãs, eu me sinto sim. Mas vejo pessoas de 70 anos e digo: “ah, meu Deus, olha aquele homem velho!” – e eu tenho a mesma idade! Mas ainda me sinto com seis anos ou algo assim, tentando amarrar meus sapatos, aprendendo como fazê-lo. Acho que, mentalmente, não me sinto mais velho. Minha vida é meu trabalho. Então é sempre uma constante preocupação. Não é como se eu fosse para o escritório, fosse ao trabalho e depois fosse para casa, visse televisão, ficasse com o cachorro, ou o que quer seja. É tudo parte de uma coisa só: trabalho. E essa é uma maneira de viver. E acho que sempre fui assim. Lembro que, quando eu tinha onze, doze anos, minha mãe estava com uma amiga ao telefone e disse: “eu não sei o que Bob está fazendo, mas ele tem muitos projetos”.

Há uma fala recorrente com relação ao teatro do Bob Wilson que diz que a imagem é mais forte do que a palavra. Mas até que ponto o texto também está na imagem?
Primeiro, eu não concordo que a imagem ou o visual são mais importantes no meu trabalho do que o texto. Acho que trabalho mais aspectos visuais e sonoros do que a maioria das pessoas no teatro. As formas primárias pelas quais nos comunicamos no palco ou na vida é pelo que vemos e ouvimos, as duas igualmente importantes. Meu teatro dá a mesma importância para o áudio, o texto, as coisas que ouvimos e vemos. O problema que sempre achamos no teatro e que eu tenho…é que não conseguimos na realidade ouvir algo, porque somos visualmente distraídos. E não podemos realmente ver algo, porque somos distraídos pelo som. Então, feche os olhos. Falando em geral, se nós fechamos os olhos, nós ouvimos melhor, porque estamos concentrados no som, não estamos distraídos pelas pessoas, por alguém segurando a câmera, fazendo esse pequeno movimento. Então, se eu quero ver algo melhor, por exemplo, se eu estou vendo televisão, eu desligo o som. Eu começo a ver as notícias, coisas que eles estão fazendo que normalmente eu não olharia ou não pensaria, quando estou ouvindo as notícias. O desafio como um realizador de teatro é: posso criar algo no palco que me ajude a ouvir melhor quando eu ligo o som? Ou algo que me ajude a ver melhor? Ou posso criar algo que, o que eu diga, me ajude a ouvir melhor? É uma construção. Uma construção consciente. Eu terminei de dirigir uma ópera e era muito difícil fazer com que alguns dos cantores não seguissem a música com os seus movimentos. A música vai mais rápido, rápido e rápido. E eles querem se mover mais rápido. Mas eles iriam se mover devagar, contra essa música rápida. E isso cria uma tensão entre o que estou vendo e ouvindo e talvez eu escute melhor do que quando estou ilustrando a música com o movimento. Então o que estou vendo cria algo que me faz ouvir melhor. Eu posso dizer: “Eu quero matar você” (agressivamente) ou posso dizer (bem lentamente, suave, com um leve sorriso) “Eu quero matar você”. Talvez o sorriso seja mais ameaçador. Porque eu escuto “eu quero matar você” e eu vejo…(faz o movimento). Então um sorriso não é só um sorriso. A vida é muito complicada. Eu aprendi uma grande lição anos atrás com o meu amigo Daniel Stern. Ele fez mais de 250 filmes de mães falando com os filhos, quando o bebê estava chorando. Era uma pesquisa do Departamento de Psicologia da Columbia University. Então o bebê iria chorar e a mãe iria pegar o bebê e confortá-lo. E ele fez uma coisa curiosa. Pegava os filmes e diminuía a velocidade, então você poderia ver frame por frame, o que estava acontecendo. E em oito de dez casos, a primeira reação da mãe, no primeiro frame, é que ela está (faz cara de terror). Em um segundo de tempo, é muito complexo o que acontece entre mãe e filho. E quando as mães vêem isso, elas ficam chocadas. “Mas eu amo minha criança”. Talvez o corpo esteja se movendo mais rápido do que pensamos, mas há uma linguagem. O meu teatro é um teatro mais formal. Romeu diz que ama Julieta… é muito complicado. Um teatro mais formal dá mais distância para que você possa ter tempo para reflexão sobre muitas coisas. Eu tento não estabelecer uma interpretação, para que cada um possa livremente fazer associações, livremente pensar, e que aquilo possa ser diferente para cada um, para mim, como diretor, para o ator, para o público. Determinar uma ideia ou uma interpretação é uma mentira. Hamlet é uma peça bastante complexa, mas fazer uma interpretação de Hamlet é negar todos os princípios que normalmente associamos a um príncipe. Meu teatro é um teatro não interpretativo. Acho que a interpretação limita a experiência do que está acontecendo. O que é mais importante é a experiência de estar fazendo algo. As pessoas dizem que, nas minhas peças, as pessoas se movem lentamente. Se eu movo minha mão até o copo e eu movo mais lentamente do que normalmente faço, e eu penso que estou me movendo devagar, é chato, mas se eu não penso sobre isso, e eu movo, tudo está acontecendo, toda energia do mundo está acontecendo nesse gesto. Não há um conceito para tempo, é o que você experimenta. E isso, como eu disse antes, está constantemente mudando. O que é mais importante para mim, em fazer teatro, é o que eu experimento naquele momento e que aquilo pode ser a minha expressão. No teatro formal você pode tocar a mesa… Eu posso tocar minha cabeça e isso é verdade e isso é minha expressão. Eu posso atuar? Sim, mas isso é verdade, eu sinto. No teatro formal, se você quer atuar, seus sentimentos, você tem que estar ciente de que você está atuando. “Você tem que pagar o aluguel…Eu não posso pagar o aluguel” (brincando com voz masculina e depois feminina). Então você sabe que os atores estão atuando, eles sabem, e isso é verdade. E eu acho que o naturalismo é geralmente uma mentira porque árvores no palco são artificiais, as luzes, sua voz é artificial.

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De janeiro a janeiro, tem festival!

Essa febre que não passa (foto) e Aquilo que meu olhar guardou para você estarão no Festival de Curitiba. Foto: Ivana Moura

Duas montagens pernambucanas – Essa febre que não passa, do Coletivo Angu de Teatro, e Aquilo que meu olhar guardou para você, do grupo Magiluth – estão na programação da mostra oficial do Festival de Teatro de Curitiba. Depois do Janeiro de Grandes Espetáculos e do hiato no mundo das artes – para tudo que não é música e folia carnavalesca, claro – é Curitiba quem abre o calendário de festivais de teatro no país.

De janeiro a janeiro, tem festival em vários lugares do Brasil, com enfoques e objetivos diferentes, mas sempre proporcionando a circulação dos espetáculos e, geralmente, o acesso do público a montagens que dificilmente conseguiriam ser vistas sem o suporte de um festival – já que não há patrocínio para todas as peças e bilheteria definitivamente não garante a possibilidade dos grupos viajarem.

Conversamos com diretores e curadores dos principais festivais do país – Festival de Curitiba, Porto Alegre em Cena, Londrina, Festival de São José do Rio Preto, Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia (Fiac), Cena Contemporânea e Tempo_Festival. Procuramos saber quais as propostas para este ano e, mais ainda, tentamos revelar os méritos de cada um deles para, de alguma forma, contribuir para que os nossos próprios festivais (ao menos os três maiores) – Janeiro de Grandes Espetáculos, Palco Giratório e Festival Recife do Teatro Nacional (esses também foram ouvidos, obviamente) – consigam avançar (ou também servir de espelho) em diversos aspectos.

Curitiba, por exemplo, recebe muitas críticas de que prioriza e incentiva na cidade a proliferação do teatro comercial. Apesar disso, o festival que já vai para a 21ª edição é, indiscutivelmente, um dos mais bem-sucedidos do Brasil. Consegue reunir produções de qualidade na cena nacional, inclusive muitas estreias acontecem lá, e ainda fomentar o experimentalismo, graças à mostra paralela intitulada Fringe, que foi inspirada no Festival Internacional de Edimburgo, na Escócia. Este ano, o Fringe deve ter 368 espetáculos. O grupo Magiluth, que nunca participou do festival, além de estar na mostra oficial, apresenta outros dois espetáculos: 1 Torto e O canto de Gregório, numa mostra dentro do Fringe organizada pela Companhia Brasileira de Teatro, que será realizada no Teatro HSBC.

Los pájaros muertos abre festival no Paraná

A mostra oficial do festival, que acontece entre 27 de março e 8 de abril, terá 29 espetáculos de seis estados brasileiros – São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco -, além de dois internacionais – da Espanha e da Inglaterra. “Apesar dessas atrações, não queremos ser um festival internacional. O nosso grande mote é a produção nacional e mantemos esse foco”, explica Leandro Knopfholz, um dos criadores e diretor geral do evento.

A abertura da mostra será com a peça espanhola Los pájaros muertos; mas o festival tem ainda duas remontagens da companhia carioca Os Fodidos Privilegiados – O casamento e Escravas do amor -, as duas textos de Nelson Rodrigues; a estreia de Eclipse, do grupo Galpão; e de Licht & Licht, da Cia de Ópera Seca; e ainda montagens como Gargólios, de Gerald Thomas; O idiota, de Cibele Forjaz; e O libertino, de Jô Soares.

Recorte holandês no Rio de Janeiro

Qual o teatro feito na Holanda? Você já se fez essa pergunta? Os diretores e curadores Márcia Dias, Bia Junqueira e César Augusto, do Tempo_Festival das Artes – Festival Internacional de Artes Cênicas do Rio de Janeiro, já. Tanto que um recorte dessa cena teatral poderá ser visto entre 5 e 12 de outubro no chamado 2° Tempo do festival. “O festival é realizado em três tempos: o primeiro é dedicado ao pensamento – trazemos artistas internacionais para fazer residência, debates, encontros com filosófos, pessoas de outros segmentos. Já o segundo é aquele dedicado à programação artística propriamente dita. E há ainda o Tempo_Contínuo, que é o site, um suporte permanente”, conta Márcia.

Para quem duvida sobre o quanto o teatro na Holanda é profícuo, Márcia Dias responde: “Estou com material de mais de 60 espetáculos, entre teatro e dança, para que possamos fazer a curadoria”. Ano passado, o Tempo fez um recorte da cena argentina – inclusive co-produziu (com o Festival Internacional Santiago a Mil, o Festival d’Automne de Paris e a Maison des Arts et de la Culture de Créteil, na França), O vento num violino, do Teatro Timbre 4, que esteve pela primeira vez no Recife no último Janeiro de Grandes Espetáculos.

Espetáculo do grupo argentino Timbre 4 foi co-produzido por festival carioca

Londrina tem o festival de teatro mais antigo do Brasil

O festival de teatro mais antigo do Brasil é o Festival Internacional de Londrina – Filo. São 44 anos (a mostra só não foi realizada uma única vez e, por isso, o festival vai para a sua 43ª edição) e a programação inclui não só teatro, mas dança, circo, música. “Tentamos montar uma programação diversificada. E conseguimos uma média de 80, 90 e até 100 mil pessoas por edição”, conta o diretor da mostra, Luiz Bertipaglia.

A relação do Filo com a cidade, explica Bertipaglia, é bastante especial. “O festival tem 44 anos e a cidade 77. O festival foi crescendo com Londrina. As pessoas entendem que o festival faz parte da história da cidade”. Outra facilidade com relação à público é que Londrina não é tão grande – tem cerca de 600 mil habitantes e aí as ações conseguem ser mais efetivas junto ao espectador.

Segundo o diretor, a cena teatral londrinense foi impulsionada pelo Filo. “Muitas companhias foram criadas em função do festival. E acho que foi fundamental também para a criação, em 1998, do curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual”.

Grupo belga vai encenar texto de Alejandro Jodorowsky no Filo

As inscrições para os grupos nacionais no Filo terminaram no dia 9 de fevereiro. A curadoria dos internacionais é feita pelo próprio Luiz Bertipaglia. Em primeira mão, o diretor nos confirmou a apresentação de The ventriloquist’s school, do grupo belga Poit Zero (um texto de Alejandro Jodorowsky), e Translunar paradise, montagem do grupo da Inglaterra Theatre Ad Infinitum (uma história sobre vida, morte e amor eterno que começa depois que a esposa de William morre e ele vai para uma ilha da fantasia, das suas memórias passadas). O festival será realizado entre 8 e 30 de junho.

Teatro africano no Distrito Federal

Geralmente o festival Cena Contemporânea, de Brasília, é realizado em agosto ou setembro. Esse ano, no entanto, será um pouco mais cedo: de 17 a 29 de julho. Guilherme Reis, coordenador do festival, diz que a mudança é por conta de um convite da Universidade de Brasília (UnB), que está completando 50 anos. “Vamos fazer uma edição especial, voltada para América Latina e África. Em 1987 e 1989, a UnB realizou o Festival Latino Americano. Por isso essa ação”, explica Reis que garante que terá liberdade para realizar suas escolhas, de forma independente da universidade.

El rumor del incendio, do México, estará no Cena Contemporânea

“Tenho uma oferta grande de espetáculos africanos e algumas co-produções que passam também por Portugal, Canadá e Espanha”. A grade de programação ainda não está fechada, mas o coordenador adianta que devem ser 12 ou 13 espetáculos internacionais, sendo seis ou sete latino-americanos e o restante de espetáculos africanos, além da produção nacional com a presença de montagens de diretores como Henrique Dias e Cibele Forjaz. Dos internacionais, estão confirmados The butcher brothers, da África do Sul, e El rumor del incendio, do México.

O Cena é um festival privado que nasceu em 1995, mas está indo para a 13ª edição. “Em alguns anos, não conseguimos realizar. Mas desde 2003 não paramos mais. Brasília tem uma situação atípica com relação a apoio. Pela primeira vez, ano passado, recebemos incentivo do Distrito Federal”, conta Reis. Um dos méritos do Cena é envolver a cidade – mesmo quem não vai ao teatro, não fica ileso ao Ponto de Encontro, um espaço montado na Praça do Museu Nacional da República, que abriga apresentações musicais.

Teatro de dois em dois anos

O Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte (FitBH), em Minas Gerais, acontece de dois em dois anos. “Essa já era a proposta desde que ele foi criado, em 1994. Era para ter fôlego mesmo, para fazer sempre um grande festival”, explica Marcelo Bones, diretor do evento que, ao lado da diretora Yara de Novaes e da atriz Grace Passô, fará a curadoria da mostra. O evento está marcado para acontecer entre 12 e 24 de junho. A grade de programação ainda não está fechada, mas já há algumas definições. Bones adianta que devem ser 12 espetáculos internacionais, 15 nacionais e ainda 10 montagens de Belo Horizonte – que ocupam não só os palcos dos teatros, mas também as ruas.

“Vamos trabalhar a partir de três conceitos: o teatro e a cidade; o teatro e outras linguagens artísticas; e a cooperação e o intercâmbio entre criadores”, explica Marcelo Bones. O festival, que vai para a 11ª edição, é realizado pela Prefeitura de Belo Horizonte – responsável por 60% dos custos do evento. “Apesar de depender da agenda política, é um evento consolidado, importante para a cidade. Todas as pessoas sabem que o evento está acontecendo, gera movimentação”, diz o diretor.

Expandindo fronteiras

Where were you on January 8th? integrou programação do festival em São José do Rio Preto ano passado

O teatro contemporâneo é sempre o mote do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (Fit). Cerca de 40 companhias participam da programação que, este ano, vai de 4 a 14 de julho. Para se ter uma ideia, o festival recebeu 570 inscrições de grupos interessados em participar – desses, seis são pernambucanos. A curadoria é formada por Kil Abreu (que, durante quatro anos, foi curador do Festival Recife do Teatro Nacional), Sérgio Luis Venitt de Oliveira, Beth Lopes e Natália Noli Sasso. “Como festival internacional, estamos indo para a 12ª edição, mas o festival já tem 43 anos. Só na época da ditadura militar é que a programação não aconteceu uns dois ou três anos”, conta Marcelo Zamora, diretor do Fit.

“A gente achava que o festival precisava do recorte internacional”, complementa Zamora. O festival é realizado pela prefeitura, embora, o órgão seja responsável por apenas 10% do orçamento. “Somos um festival que vai atrás de propostas mais radicais, conceituais, com riscos maiores. E isso é sempre uma provocação para o nosso público”, diz o diretor. 60% da programação do festival em São José do Rio Preto, em São Paulo, é gratuita.

Relacionamento internacional

Em 18 anos, o festival Porto Alegre em Cena conseguiu estabelecer uma relação invejável com grupos internacionais. Muitas companhias vêm ao Brasil apenas para se apresentar lá. Ano passado, por exemplo, o diretor Bob Wilson só passou por Porto Alegre com A última gravação de Krapp, em que ele mesmo está em cena. “O trabalho sério e de respeito aos grupos ampliou muito os contatos do festival. É um meio onde as informações circulam. Então hoje conversamos com o mundo inteiro e, quando há um cenário propício, convidamos esses grupos”, diz Luciano Alabarse, que além de diretor é muito da alma do festival de Porto Alegre.

Bob Wilson era o diretor e o ator de A última gravação de Krapp, espetáculo apresentado no último POA em Cena. Foto: Mariano Czarnobai/Divulgação

Apesar de toda dedicação de Alabarse, a mostra não é privada, mas realizada pela Secretaria de Cultura da cidade. “A equação da qualidade é um grande desafio. Harmonizar a burocracia pública com a agilidade requerida por um festival internacional de grande porte é difícil. Há momentos em que penso em pegar em armas”, brinca Alabarse. “Importante é que não haja concessões artísticas. O festival não flerta com sucessos televisivos, celebridades duvidosas, peças de apelo comercial. O que está em jogo é a discussão cênica que faz diferença. Essa postura estabelece limites”, complementa.

Como um festival que já tem uma carreira consolidada, as negociações para que os grupos participem do POA em Cena podem durar anos. “Em 2012, o Berliner Ensemble vai visitar Porto Alegre pela primeira vez. O compositor inglês Michael Nyman, da mesma forma. E o Fuerza Bruta, sucesso mundial, vai aterrisar nos pampas. Essas são atrações já confirmadas”, adianta Luciano Alabarse.

O mais jovenzinho entre os festivais

O Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia (Fiac) só teve quatro edições e, ao que parece, um longo percurso pela frente. A data da próxima edição já está marcada: será de 28 de setembro a 6 de outubro. “Como nos anos anteriores, não direcionaremos a seleção em torno de um conceito pré-definido. Adotamos um caráter mais panorâmico, buscando alcançar uma mostra caracterizada pela diversidade e levando espetáculos que, de alguma forma consideramos, significativos, seja pela proposta de inovação na linguagem, aposta em um processo artístico ou experimentação, ou pelo ineditismo de grupos ou artistas importantes”, explica Ricardo Libório, coordenador do Fiac.

Um dos desafios do festival, aliás, não só dele, mas de praticamente todos no Brasil, é a formação de plateia. “Estamos amadurecendo algumas ações, que vão desde a ampliação do número de sessões por espetáculos, o fortalecimento de nossa coordenação de formação de platéias e a busca de parcerias estratégicas com a Secretaria de Educação, além de buscar modelos de promoção focada em grupos específicos que tenham potencial de ampliar o público ‘consumidor’ de teatro, para beneficiar não apenas o alcance do Festival em si, mas a atividade teatral em Salvador ao longo de todo o ano”, finaliza. A grade do festival ainda não foi definida.

OS PERNAMBUCANOS

Janeiro de Grandes Espetáculos faz escala em Portugal

O próximo Janeiro de Grandes Espetáculos pode ser aberto por uma montagem idealizada na ponte áerea Recife – Portugal. A ideia é que cinco atores daqui façam um intercâmbio com o Centro Póvoa de Lanhoso, que fica na vila de mesmo nome no distrito de Braga. O projeto é de Paulo de Castro, um dos produtores do festival, ao lado de Paula de Renor e Carla Valença. “Ainda estamos fechando os detalhes; porque devemos lançar uma seleção para essa escolha. Queremos proporcionar essa vivência com um centro internacional”, explica Paula de Renor.

Curadores do Janeiro pensam em estruturar intercâmbios e parcerias

Desde 2011, o Janeiro de Grandes Espetáculos é um dos integrantes do Núcleo de Festivais Internacionais do Brasil. “Aqui em Pernambuco, somos o único festival internacional. E o que queremos realizando parcerias é melhorar a programação e ainda trabalhar o público para essas montagens, porque as pessoas ainda têm receio da qualidade; talvez pela língua, embora as montagens tenham legenda sempre que preciso”, comenta Paula.

Realmente, não são todas as montagens internacionais que empolgam o público mesmo – ao contrário da programação das peças locais. É delas, independente de quantos meses ficaram em cartaz durante o ano anterior, o maior público do festival. “Esse é realmente o nosso foco. Dar visibilidade à produção local e possibilitar melhorias na cadeia do teatro para o resto do ano”, complementa Paula.

Além do intercâmbio com Portugal, provavelmente começam aqui as comemorações dos 20 anos da companhia Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte, no Janeiro do próximo ano. “Queríamos fazer uma residência com atores daqui e talvez com outros grupos. O Teatro Timbre 4, por exemplo, da Argentina, quer voltar com outros dois espetáculos. Achamos que talvez o formato de vivência seja mais interessante do que a oficina”, diz a produtora.

Espetáculo de Petrolina abre o Palco Giratório em maio

É do Sesc o festival que proporciona a maior circulação de espetáculos no país – o Palco Giratório. Em Pernambuco, além de promover a exibição de montagens em vários locais do estado, em maio, Recife recebe uma edição especial do Palco Giratório. Será praticamente um mês inteiro de programação – incluindo os espetáculos que estão circulando nacionalmente e ainda montagens convidadas, entre elas espetáculos internacionais. Este ano, o Palco Giratório no Recife será aberto no dia 4 de maio, com o espetáculo Eu vim da Ilha, da Companhia de Dança do Sesc Petrolina, no Teatro Barreto Júnior, que ganhou o Prêmio Apacepe 2012 de melhor espetáculo de dança pelo júri oficial – por conta da apresentação no Janeiro de Grandes Espetáculos.

Dois motes especiais: 15 anos e Nelson Rodrigues

Este ano, o Festival Recife do Teatro Nacional vai comemorar 15 primaveras. Como “adolescente” está no momento de repensar o seu papel para a cidade. “Sou positivo, otimista. Espero um festival muito bom. Nas conversas internas, a ideia é que a gente proponha que o mote para o festival seja essa data: os 15 anos”, explica Vavá Schön-Paulino, coordenador da mostra, promovida pela Prefeitura do Recife. Um dos desafios é agregar público; fazer parte do calendário não só para os artistas, mas para a cidade.

Segundo Vavá, Nelson Rodrigues não será o homenageado do festival – porque já foi uma vez, mas os eventos especiais devem lembrar a efeméride dos 100 anos de nascimento do dramaturgo pernambucano. “Tudo ainda vai ser conversado, mas existe sim a possibilidade de termos algum espetáculo de Nelson na grade”, complementa. A data do festival ainda não está fechada, mas deve ser provavelmente entre 15 e 30 de novembro.

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Pterodátilos – A extinção do humano

Mariana Lima, Felipe Abib e Marco Nanini. Fotos: Ivana Moura

Uma “semana do trabalho de Deus”, como canta Gilberto Gil, está ameaçada de extinção. Sem mais nem menos, como ocorreu com os pterodátilos. Tome a humanidade como a família de Arthur – um retrato da sociedade de consumo em plena desintegração, no espetáculo Pterodátilos. O texto do norte-americano Nicky Silver com seus diálogos cruéis, suas frases de efeito cortante e humor ácido é material mais que perfeito para a experimentação cênica de Felipe Hirsch. Marco Nanini comanda o elenco e se desdobra em duas personagens: Ema, uma adolescente gorda, carente, comedora compulsiva que sofre com provável incesto de seu pai e a rejeição da mãe. E o apático Arthur, presidente de um banco, que é demitido no decorrer da peça.

Além do desinteressante pai, e a infantil filha, Pterodátilos reúne nessa família a mãe ensandecida e alcóolatra, personagem de Mariana Lima. Além de estar ao lado de Nanini, a atriz (a doce rainha da novela Cordel encantado) explora uma interpretação extremamente exteriorizada, que se não fosse uma grande atriz iria desafinar. Mas ela apresenta um estado levemente ébrio e o tom histérico e às vezes gritado com propriedade.

Completam o elenco Álamo Facó, como o filho pródigo Toddy, que volta para casa dos pais depois que descobre que está com aids e Felipe Abib, que faz Tom, o namorado de Ema transformado em empregada.

Nanini como o pai e Álamo Facó, como o filho pródigo Toddy

A casa em que essa família vive fica sobre um cemitério de fósseis da ave pré-histórica. Esse cenário de Daniela Thomas traduz o espírito da peça: o desequilíbrio, os buracos como falta, o interior formado de lixo, ruínas e fósseis. O palco tem um mecanismo hidráulico que proporciona movimento, inclinações. As tábuas também estão soltas e o personagem Toddy vai escavando e tirando esses pedaços, criando dificuldades de locomoção para as personagens. O palco vai desmontando como a família. Que chega com a ruína financeira do pai, a paixão incestuosa da mãe pelo filho, o apaixonamento do namorado de Ema pelo irmão dela. Até mesmo a catarse de Ema como saída.

As misérias de cada um são expostas em diálogos, monólogos, discussões e conversas. No começo do espetáculo Tom diz para Ema: “Seu cabelo cheira Hershey’ Kisses..”. Em outro momento Ema diz para Tom “Se ao menos você ficasse doente pra eu poder te doar um rim”. Ou se autoflagela: “Eu era tão gorda que em Tóquio morariam 2 famílias dentro de mim”. E quando não quer mais encarar a realidade informa: “Eu agora sou surda”.

Texto ácido do norte-americano Nicky Silver

Frases de outros personagens também são reveladoras. “Deus, eu estou exausta. Eu comprei um tubinho nude do Valentino e um tailleur off white da Miu Miu. Eu adoro fazer compras. Nós devemos sempre manter a melhor aparência. Nós somos o que vestimos””, comenta Grace, antes de transformar Tom em empregadinha da casa.

Mas o grande deleite é ver Nanini. O seu domínio cênico. O seu talento depurado pelos anos. Mesmo que em algum momento Ema lembre Irma Vap, o megassucesso de Nanini e Ney Latorraca. Mas Nanini sempre se recria e pode fazer rir e pensar.

* Esse material foi escrito durante o Festival Porto Alegre em Cena e publicado no Diario de Pernambuco no dia 19 de setembro de 2011

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