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Pernambuco no Porto Alegre em Cena

 

Mudando de pele. com Taís Araújo. Foto Nana Moraes

Lia Lia, com Bete Coelho e Camila Pitanga. Foto: Divulgação

Bando do Nada com o espetáculo Imorais. Foto Divulgação

Pela Noite, produção do Recife inspirada em Caio Fernando Abreu. Foto: Divulgação

Porto Alegre tem um festival que, há 33 edições, transforma a cidade em um acontecimento teatral. A cena se expande para além das casas de espetáculos e ocupa ruas, praças e espaços alternativos. São 13 espaços, dos tradicionais às salas independentes, que viram endereços do Porto Alegre em Cena, um dos maiores festivais de artes cênicas da América Latina, que desde 1994 arrasta em média 100 mil espectadores por ano, e que neste ano, entre 10 e 20 de setembro, ocupa a capital gaúcha. Esse é o tamanho de uma prática que virou tradição. Em 2026, esse encontro se confirmou rápido. Metade dos ingressos esgotou em menos de 24 horas após a abertura das bilheterias virtuais, e a maioria dos espetáculos já não tem mais lugares disponíveis para venda. Por trás dessa operação está o coordenador-geral Luciano Alabarse, com a direção geral de Letícia Vieira, a coordenação geral de produção de Claudia D’Mutti e a curadoria da programação local assinada por Adriana Jorgge, Gabriela Munhoz, Luísa Dias Rosa e Rodrigo Marquez.

Os ingressos desta edição abriram na quarta-feira (12), às 17h, no site oficial. uma semana depois, estão praticamente todos esgotados. As quatro montagens pernambucanas no festival lotaram; duas delas, Imorais e Pela Noite, voaram em poucas horas e estiveram entre as primeiras sessões esgotadas da edição, na companhia das produções estreladas de artistas que o grande público conhece da televisão e do cinema, como Taís Araújo (Mudando de Pele), Bete Coelho e Camila Pitanga (Lia Lia), Danielle Winits (Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente) e Grace Gianoukas (Dora).

Um festival que já foi trincheira do teatro mundial

Falar de Porto Alegre em Cena é falar do festival de artes cênicas mais longevo da capital gaúcha; e um dos mais respeitados do país. Desde 1994, o evento pavimentou uma relação incomum entre uma capital do Sul e o que há de mais radical na cena internacional. A lista de quem passou por seus palcos é impressionante. Peter Brook, o encenador inglês que redefiniu o que se entende por clássico; Pina Bausch, a coreógrafa alemã que reinventou a dança-teatro; Bob Wilson e Patrice Chéreau, dois gigantes da direção contemporânea; Philip Glass, o compositor minimalista; a companhia japonesa Sankai Juku, com seu butô hipnótico; o músico bósnio Goran Bregovic; e Marianne Faithfull, cantora e atriz britânica, para além do teatro.

O festival também foi porta de entrada do Brasil para companhias que dificilmente desembarcariam em território nacional por outros caminhos. O caso mais célebre é o do Théâtre du Soleil, de Ariane Mnouchkine. Na 14ª edição, em 2007, o grupo francês apresentou Les Éphémères  em Porto Alegre; e, para recebê-lo, a produção do festival construiu uma réplica da Cartoucherie, o lendário teatro em que a companhia atua no bosque de Vincennes, em Paris. A experiência rendeu um retorno. Anos depois, o festival foi co-realizador da vinda de Os Náufragos da Louca Esperança ao Rio Grande do Sul. Coisas que só um festival com essa musculatura consegue fazer.

EDDY – violência & metamorfose. Foto: Divulgação

O tamanho desta edição

São 46 espetáculos de teatro, dança, circo e música vindos de dez estados – São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Goiás, Minas Gerais e Rio Grande do Sul – e mais produções da Argentina e do Canadá. Além dos nomes já citados, o festival reúne ainda Sandra Pêra em Eu Apenas Queria que Você Soubesse – A Música de Gonzaguinha; Juliana Linhares e Laila Garin em As Centenárias, versão musical da obra de Newton Moreno, com 16 canções originais de Chico César sob direção de Luís Carlos Vasconcelos. Também na programação Mãos Trêmulas, texto premiado de Victor Nóvoa sobre amor na terceira idade, etarismo e o apagamento dos idosos, com Cleide Queiroz e Plínio Soares sob direção de Yara de Novaes; EDDY – violência & metamorfose, inspirado na obra do escritor francês Édouard Louis; Corpomundo, mais recente espetáculo da Cia. de Teatro e Dança Fábrica de Sonhos, que une arte, inclusão, diversidade e pertencimento; Medeia, espetáculo solo de Tânia Farias, do Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre.

A curadoria atravessa temas como  corpo, racismo, maternidade, envelhecimento, memória, desejo, solidão e pertencimento e faz reverências a Caio Fernando Abreu (30 anos de morte) e Guimarães Rosa (70 anos de Grande Sertão: Veredas). A abertura, no dia 10, é com La Pampa Grande, encontro musical entre artistas gaúchos e argentinos que reúne nomes como Dolores Solá, Liliana Herrero, Hique Gomez, Arthur de Faria, Vitor Ramil e Nina Nicolaiewsky.

Nem sempre foi fácil. Entre crises de financiamento, a pandemia que fechou teatros por quase dois anos e a disputa por atenção num cenário cultural cada vez mais fragmentado, o festival conheceu edições enxutas, de orçamento apertado e público hesitante. A edição passada, por exemplo, levou 31 espetáculos. A atual traz 46; um salto de 15 montagens, com três internacionais, 28 nacionais e 15 locais.

Que Muito Amou, da Cênicas Cia. de Repertório, com direção de Antônio Rodrigues, que também atua

HBLYNDA EM TRANSito, da artista HBlynda Morais. Foto: Divulgação

Pernambuco em quatro atos

A participação pernambucana no festival é um microcosmo da cena recifense: dramaturgia autoral, adaptações literárias e um solo de afirmação de existência. As quatro montagens estão com lotação máxima.

Imorais, o espetáculo de estreia do Bando de Nada Coletivo de Teatro, com texto de Cristiano Primo, mergulha numa família atravessada por comportamentos fora da norma como abuso, traição, incesto, para discutir a hipocrisia das convenções morais.

Outra adaptação abre caminho por um território afetivo: Pela Noite, da NOZ Produz, parte do conto homônimo de Caio Fernando Abreu para reconstruir o reencontro de dois homens separados há quase vinte anos. Um coro de duas vozes conduz a narrativa, feita de solidão, memória, desejo e erotismo, enquanto Pérsio e Santiago decidem, juntos, sair pela noite. A direção é de Edjalma Freitas, com Amanda Clélia, Wydi Silva, Paulo César Freire e Rogério Wanderley em cena. 

Que Muito Amou, da Cênicas Cia. de Repertório, com direção de Antônio Rodrigues, reúne três contos de Os Dragões Não Conhecem o ParaísoSapatinhos Vermelhos, Praiazinha e “Dama da Noite– para investigar as múltiplas faces do amor, do desejo, da perda e da solidão. Personagens “fora da roda”, à margem, expõem afetos levados ao limite, com Barbara Brendel, Antônio Rodrigues e Guga Patriota.

Há ainda um solo que amplia o leque temático. HBLYNDA EM TRANSito, da artista HBlynda Morais, que transforma a própria trajetória de mulher gorda, preta, candomblecista e não binária em performance, teatro, dança e música, com direção musical de Monique Sampaio.

Por trás do contingente pernambucano há uma ponte que vem de longe. A relação entre a produção teatral do Recife e o Porto Alegre em Cena tem na APACEPE – Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco – uma de suas articuladoras centrais. Presidida por Paulo de Castro, ator, diretor e produtor que há 27 anos realiza o Janeiro de Grandes Espetáculos, festival internacional do Recife, que também tem recebido produções gaúchas ao longo dos anos. 

Caio Fernando Abreu com sotaque pernambucano

Uma coincidência bonita da edição é  que dos três trabalhos que celebram os 30 anos da morte de Caio Fernando Abreu, dois vêm do Recife. O escritor nascido em Santiago, na Região Central do Rio Grande do Sul (autor de Morangos Mofados e Os Dragões Não Conhecem o Paraíso) , é homenageado por Pela Noite e Que Muito Amou, ambas pernambucanas, além de uma edição especial do Sarau Voador, com Deborah Finocchiaro e Roger Lerina. O gaúcho mais universal da literatura brasileira encontrou no Nordeste leitores que o devolvem, em cena, à sua terra.

Reside Amaro: a semente que brotou no Recife

Antes de Porto Alegre, a ideia nasceu no Recife. O Reside Alegre, que aquece o festival gaúcho desde 2025, é um desdobramento do Reside Amaro, festival realizado em fevereiro de 2025 no bairro de Santo Amaro, na região central da capital pernambucana. A proposta era a mesma que depois atravessaria o país: transformar as histórias de moradores em dramaturgia, apresentada dentro das próprias casas, bares e ruas do bairro.

O projeto foi gestado pela a produtora Paula de Renor, diretora do Reside Festival, que se inspirou no “teatro vecinal” (teatro de vizinhança) da argentina Monina Bonelli, do coletivo Teatro Bombón, de Buenos Aires. Juntas, com o curador Celso Curi (SP), idealizaram uma ação inédita no Brasil: por três dias, o quarteirão entre as ruas Capitão Lima e Rocha Pita, em Santo Amaro, no Recife,  virou palco de mais de 70 apresentações gratuitas, com vizinhos como artistas e intérpretes das próprias histórias. O produtor e agitador cultural Roger de Renor, morador do local, abriu as portas de casa e se tornou o anfitrião do encontro entre artistas e moradores.

A experiência, que contou com alunos do Curso de Interpretação para Teatro (CIT) do Sesc Santo Amaro em todas as etapas, foi a quinta edição do Reside.FIT/PE Festival Internacional de Teatro de Pernambuco, realizado pela Remo Produções Artísticas, com patrocínio do Banco do Nordeste via Lei Rouanet, apoio do Ministério da Cultura e incentivo do Funcultura e do SIC Recife.

A segunda edição no Recife, porém, ainda não saiu do papel. O Reside Amaro ainda não conquistou um edital que viabilize sua realização novamente. A proposta, porém, não se perdeu. Foi justamente essa ideia – a de um festival que mora dentro do bairro e nasce das histórias de quem vive ali –  que o Porto Alegre em Cena enxergou como algo inédito.

Reside Alegre: a cidade como matéria de dramaturgia

Ao ver na proposta do Reside Amaro um formato inédito de festival, o Porto Alegre em Cena propôs aos envolvidos (a mesma equipe que gestou o projeto no Recife) a realização do Reside em Porto Alegre. Nasceu assim o Reside Alegre, que estreou em 2025 integrando as ações formativas do festival gaúcho e agora realiza sua segunda edição.

O projeto escuta histórias de moradores e as transforma em dramaturgia, apresentada depois nas ruas e em espaços fora dos teatros convencionais, como casas, lojas, esquinas. Depois de estrear no Centro Histórico, a iniciativa ocupa agora a rua Alberto Torres, na Cidade Baixa, onde funciona a sede do festival, com a diretora e iluminadora Nara Maia como “vizinha embaixadora”, ao lado da atriz, diretora e produtora Sandra Possani.

A coordenação reúne a argentina Monina Bonelli (direção), a pernambucana Paula de Renor (curadoria), e os paulistas Celso Curi (curadoria e direção) e Wesley Kawaai (coordenação). A mostra resultante das vivências com os moradores da Cidade Baixa acontece nos dias 5 e 6 de setembro, às vésperas da abertura do festival.

 

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