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MITsp lança plataforma com programação inédita e de acervo

Réquiem, direção de Romeo Castellucci, abre programação. Foto: Pascal Victor/ArtComPress

 

Pensamento em Processo com elenco de Isto é um negro? está disponível na plataforma. Foto: Nereu Jr

O ano era 2014. Na plateia cheia do Auditório Ibirapuera, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, muita gente conhecida da cultura. Havia um burburinho, pairava um clima que era uma mistura de ansiedade e entusiasmo. Há muito tempo, talvez desde os festivais de Ruth Escobar, que o Brasil não tinha um festival internacional na dimensão que se projetava a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, sob a direção de Guilherme Marques e Antonio Araújo.

Naquele ano, além da abertura com Romeo Castellucci e o seu Sobre o conceito de rosto no filho de Deus, vimos espetáculos de nomes como Mariano Pensotti, Guillermo Calderón, Rodrigo Garcia, Angélica Lidell, Marcelo Evelin. Só para citar alguns. Quem não tinha ingresso garantido, como era o nosso caso, já que estávamos contratadas para fazer críticas, enfrentava filas gigantescas, três horas de espera para conseguir o tíquete para ver os espetáculos.

Acompanhamos ainda, talvez o grande diferencial da MITsp desde aquele ano inicial, uma programação crítica e reflexiva com uma potência que era… incrível. Sei o peso do adjetivo, mas escolho usar com consciência, não encontro outro nome olhando para trás. Debates a partir dos espetáculos com pessoas de outras áreas que não o teatro, conversas com todos os encenadores, publicação de críticas diárias, um catálogo, com textos de vários acadêmicos.

Lembro que, depois daqueles dias, do tanto de troca que aconteceu naquele curto período, voltamos ao Recife com a sensação de que tinha rolado uma pós-graduação inteira. A cabeça fervilhava. Dali surgiu, por exemplo, a DocumentaCena – Plataforma de Crítica.

Nunca mais deixamos de acompanhar a MITsp como críticas e, durante alguns anos, como equipe de produção, já que eu assumi a coordenação de conteúdo editorial da mostra durante três edições: 2017, 2018 e 2019. Claro que sempre fizemos a propaganda do quão importante seria ter mais pernambucanos acompanhando a programação da MITsp. E voltávamos com as malas pesadas, carregadas de catálogo para quem pedia.

A distância, os custos financeiros, a disponibilidade de tempo para se ausentar da cidade por um período mais longo, sempre foram impeditivos para que tivéssemos mais pernambucanos vivendo essa experiência conosco.

Com a pandemia, o fechamento dos teatros, o suporte da internet, as coisas mudaram. A partir desta sexta-feira (12), começa a programação da MIT+ (www.mitmais.com), um dos braços do festival, que é uma plataforma virtual de conteúdo de arquivo e de outros inéditos. O acesso é gratuito, sendo necessário apenas um cadastro. Para as exibições de espetáculos, no entanto, há horários pré-definidos, assim como um festival tradicional. O acervo de encenações não fica disponível por todo tempo.

“Democratizar o acesso a todo esse arquivo era uma ideia de 2016. A gente também queria conhecer o público da MIT, uma informação muito importante, para saber onde estávamos chegando, para ter um canal mais direto”, explica Natalia Machiaveli, idealizadora e diretora da plataforma. “Queremos disponibilizar todo o acervo da parte reflexiva e pedagógica, porque os espetáculos temos sempre uma questão de direitos autorais. Essa disponibilização vai ser ao longo do tempo, porque estamos reeditando, fazendo legendas, dando a cara da MIT+, o que leva um tempo e tem um custo”, complementa.

A abertura dessa programação inicial é com Réquiem, versão de Romeo Castellucci para a missa fúnebre de Mozart, com orquestração do maestro Raphael Pichon. Depois do espetáculo, será exibida uma entrevista feita por Julia Guimaraes com o encenador italiano sobre sua trajetória.

A artista em foco da edição é a sul-africana Ntando Cele que, em 2018, apresentou Black Off. Imagina a imagem de uma negra, pintada de branco, peruca loura, como apresentadora de um talk show, querendo fazer piada com a plateia sobre racismo. Foi um dos principais destaques daquela edição, que será reexibido agora, ao lado do inédito Go Go Othello, onde a artista faz um paralelo com Otelo e intercala cenas de stand-up, videoarte, dança e música, perpassando a história de artistas negros, questionando os estereótipos racistas no mundo da arte. Ntando Cele vai conduzir ainda um workshop, uma residência e vai participar de uma conversa com a filósofa Denise Ferreira da Silva e a bailarina Jaqueline Elesbão.

Go Go Othello. Foto: Manaka Empowerment

A sul-africana Ntando Cele apresenta o inédito Go Go Othello. Foto: Manaka Empowerment

Janaina Leite, artista em foco na MITbr (braço com a programação nacional na mostra) no ano passado, abre o processo de Camming – 101 Noite. Janaina faz um paralelo entre o livro As Mil e umas Noites e as camgirls profissionais, que precisam garantir a atenção dos clientes. Depois das exibições, no dia 14 de março, vai acontecer também uma conversa sobre o processo de criação.

Da programação do acervo disponibilizada na plataforma e aberta a qualquer momento, há mesas e debates que fizeram parte dos eixos Olhares Críticos e Ações Pedagógicas, como uma conversa com o elenco de Isto é um negro? e todas as edições da Revista Cartografias, catálogo da mostra, além de conteúdos inéditos.

PROGRAMAÇÃO:

ESPETÁCULOS

Réquiem
Em sua versão de Réquiem, o encenador italiano Romeo Castellucci faz da missa fúnebre de Mozart um espetáculo de celebração à vida. O espetáculo é conduzido pela orquestração do maestro Raphaël Pichon, que faz uma costura entre a composição original e outras peças sacras, menos conhecidas, do compositor austríaco.
Quando: 12, 13, 14 e 15 de março, às 19h
Duração: 1h40min

Ntando Cele apresentou Black Off na MITsp 2018. Foto: Guto Muniz

Black Off
A sul-africana Ntando Cele aborda e enfrenta estereótipos racistas. Na primeira parte do espetáculo, numa espécie de comédia stand-up, a performer assume o seu alter ego, Bianca White, uma comediante, viajante do mundo e filantropa. Depois, numa mistura de performance musical e vídeo, Ntando passa a destrinchar estereótipos de mulheres negras e tenta descobrir como o público a vê.
Quando: 13, 14, 15, 16 e 17 de março, às 21h
Duração: 1h40min

Go Go Othello
Para discutir o espaço do negro no meio artístico, Ntando Cele faz um paralelo com Otelo, o mouro de Veneza, um dos raros protagonistas negros da história do teatro. Ela intercala cenas de comédia stand-up, performance, videoarte, dança e música num ambiente que remete a uma casa noturna. A sul-africana perpassa a história de artistas negros e se transforma em personagens diversos para questionar estereótipos racistas no mundo da arte.
Quando: 16, 17, 18, 18, 20 e 21 de março, às 20h
Duração: 1h20min

Descolonizando o conhecimento
Na palestra-performance, Grada Kilomba faz um apanhado de seu próprio trabalho e utiliza vários formatos, de textos teóricos e narrativos a vídeo e performance, para questionar as configurações de poder e de conhecimento.
Quando: 17 e 18 de março, às 18h
Duração: 1h10min

Entrelinhas
Num diálogo entre o passado e o presente, a coreógrafa e intérprete Jaqueline Elesbão discute a violência contra a mulher e evidencia como a voz feminina, em especial a da mulher negra, é historicamente silenciada dentro de uma sociedade machista e de mentalidade escravocrata.
Quando: 19, 20, 21, 22, 23 e 24 de março, às 20h
Duração: 30min

O encontro. Foto: Stavros Petropoulos

O encontro, de Simon McBurney. Foto: Stavros Petropoulos

O Encontro
Por meio de tecnologias de som, o inglês Simon McBurney leva o espectador a uma imersão pela Amazônia brasileira. Inspirado no livro Amazon Beaming, de Petru Popescu, ele conta a história de um fotógrafo que, no fim dos anos 1960, se viu perdido em meio à terra indígena do Vale do Javari.
Quando: 25, 26, 27, 28, 29, 30 e 31 de março, às 20h
Duração: 2h17min

sal., espetáculo de Selina Thompson, visto na MITsp 2018, está na programação. Foto: Guto Muniz

sal.
Em 2016, Selina Thompson embarcou em um navio cargueiro para refazer uma das rotas do comércio transatlântico de escravos: do Reino Unido à Gana e, de lá, à Jamaica. As memórias, questionamentos e sofrimentos desse percurso levaram a performer ao universo de um passado imaginário.
Quando: 26 de março, às 19h
Duração: 1h

Em Legítima Defesa
A performance, encenada em meio à plateia, logo após alguns espetáculos da MITsp 2016, traz discursos históricos entrelaçados a depoimentos pessoais, músicas e poesias. Em suas falas, os artistas do Coletivo Legítima Defesa remetem à diáspora negra e a seus desdobramentos históricos, numa ação que busca resistir à narrativa hegemônica e dar voz à própria história.
Quando: 28, 29 e 30, às 19h
Duração: 20min

ABERTURAS DE PROCESSO

Camming – 101 Noites
Janaina Leite faz um paralelo entre o livro As Mil e uma Noites – no qual Sherazade precisa entreter o rei – e as camgirls profissionais, que têm que garantir a atenção dos clientes, num trabalho que vai além do sexual, passando também pela narrativa imaginária, dramatúrgica e até terapêutica.
Quando: 12 e 13 de março, às 23h
Duração: 1h
Bate-papo: 14 de março, às 16h

Ué, Eu Ecoa Ocê’ U É Eu?
Celso Sim, Cibele Forjaz e Manoela Rabinovitch abrem o processo da performance audiovisual, que dialoga com a pandemia e o caos político. Os artistas apresentam dois ritos: um de antropologia funerária, em homenagem aos indígenas mortos em decorrência da Covid-19, e outro de canibalismo guerreiro, uma reação de caça ao inimigo. A performance tem duas versões, uma censurada (ela precisou receber cortes para ser apresentada em Brasília, em dezembro de 2020) e outra sem censura. Ambas serão transmitidas na sequência.
Quando: 22, 23 e 24, às 22h
Duração: 45min (as duas versões)

Um Jardim para Educar as Bestas
O ator Eduardo Okamoto, a diretora Isa Kopelman e o músico Marcelo Onofri realizam abertura de processo de duo para piano e atuação. A encenação alterna dança, música e a história de Seu Inhês, um sertanejo de olhos apertados que, como forma de evitar uma predição de morte da esposa, decide construir um jardim de pedras em meio ao sertão.
Quando: 26, 27 e 28 de março, às 18h30
Duração: 20min

WORKSHOPS

Petformances
A performer Tania Alice e a veterinária Manuela Mellão propõem aos participantes realizar práticas artísticas diversas (performances, escrita, fotografia, pintura etc.), sempre permeadas pelo afeto, ao lado de seus pets.
Quando: 18 de março, das 15h às 17g, e 19 de março, das 15h às 18h
Número de vagas: 20 (os participantes serão escolhidos por ordem de inscrição)

Curando a Branquitude
A sul-africana Ntando Cele propõe um trabalho em conjunto na tentativa de sanar traumas de uma sociedade marcada pela hegemonia da branquitude. A artista busca sabedorias ancestrais e pré-colonialistas na tentativa de reimaginar um futuro e criar um espaço não violento, em que se possa enfrentar a crise global de maneira coletiva.
O workshop será ministrado em inglês, com tradução para o português.
Quando: 20 de março, das 10h às 13h

RESIDÊNCIA

Inter Pretas
A residência virtual é voltada a mulheres artistas e ativistas, em especial pessoas não brancas, que queiram trabalhar com materiais biográficos. Nos encontros, a sul-africana Ntando Cele foca o autocuidado na prática artística e algumas estratégias de empoderamento, além de propor um espaço não violento para “sonhos coletivos”. Ela se alterna entre atividades em grupo e conversas individuais com as participantes.
Quando: de 25 a 28 de março, das 10h às 13h. Os horários dos atendimentos individuais serão combinados com as participantes
Número de vagas: 12

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Pintando o 7 para crianças e adultos

Tempo de Flor, do Grupo Pé de Vento, de Arcoverde (PE). Foto: Yan Vinicius / Divulgação

Grupo Serelepe, de Belo Horizonte (MG) apresenta Brincanectados. Foto: Florencia Giocon / Divulgação

Luciano Pontes e Íris Macedo, curador e idealizadora do projeto. Fotos:  Lucas Molina e Arnaldo Sete / Divulgação

Estímulo à criatividade, exercícios lúdicos e poéticos entre a criança e a família são propostas da edição deste ano do Pintando o 7 – Edição Digital. Com o tema Real e virtual, Brincar não tem igual, o projeto é formado por cinco webinars (seminários ou conferências), cinco espetáculos virtuais e três lives com a participação de artistas, voltadas para escolas estaduais e municipais. A programação é exibida no YouTube da Fervo Projetos, de 11 a 22 de março incorporando a linguagem literária às artes cênicas.

O Pintando o 7 já teve quatro edições desde 2017. Nesta versão de 2021, a gestora cultural e idealizadora do festival, Iris Macedo, convidou o ator e escritor Luciano Pontes, especializado em literatura infantil e juvenil, para fazer a curadoria.

Pontes pensa que vivemos um momento muito especial, que é tempo de reinventar as infâncias. “As virtualidades apontaram caminhos surpreendentes de interação e conexão entre as crianças, suas famílias”. Muitos desafios.

Aproveitando essas janelas digitais, o Pintando o 7 Digital propõe a apreciação/vivência das experiências estéticas em múltiplas linguagens.

O projeto é uma realização da Fervo Projetos Culturais, com incentivo da Lei Aldir Blanc Pernambuco, FUNDARPE, Secretaria de Cultura, Governo de Pernambuco, no âmbito federal, por intermédio da Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo e Governo Federal.

ESPETÁCULOS

Abertura oficial do Pintando o 7
DIA 11/03/21, 19H

Brincanectados (Grupo Serelepe – BH)
DIA 12/03/21, 16H
As memórias da infância, a formação profissional e o encontro com brincantes forneceram aos integrantes do Serelepe os nutrientes para a formatação de Brincanectados. A peça junta canções e jogos tradicionais do Brasil e de países latino-americanos.
Duração: 30 min
Classificação etária: Livre

Tempo de Flor (Grupo Pé de Vento – ARCOVERDE/PE)
DIA 13/03/21, 16H
O espetáculo de lambe-lambe Tempo de Flor é um desejo de aproximação com a memória adormecida. É um compartilhamento de ideias, transcritas para a cena, relidas nas caixas. Flor está no imaginário, nessa busca incansável do interior.
Duração: 20 min
Classificação etária: crianças acima de 4 anos

Cordel-Animado com as irmãs Mari Bigio e Milla Bigio. Foto: Lara Valenca.

O Cordel Animado (Mari e Milla Bigio – PE)
DIA 14/03/21, 16H
As irmãs Mari Bigio e Milla Bigio (PE), prepararam um repertório onde os brinquedos e a brincadeira são protagonistas. Adivinhas em Cordel, cantigas, e “mungangas”, além de outras histórias brincalhonas, mostram ao público que as palavras e os sons são matéria-prima do brincar.
Duração do espetáculo: 50 min
Classificação etária: Livre

O Matuto (Rapha Santa Cruz – PE)
DIA 20/03/21, 16H
Misto de palhaço e mágico, O Matuto apresenta seu universo de encantamento através das surpresas que vão saindo da sua mala. Trilhas sonoras nordestinas animam esse encontro.
Duração do espetáculo: 50 min
Classificação etária: Livre

O duo Livia & Fred exibem um namoro da música clássica europeia com o cancioneiro popular brasileiro

YOUKALI (Lívia & Fred – RJ)
DIA 21/03/21, 16H
Os artistas conduzem a plateia por uma fantástica viagem norteada pela música clássica, relida em arranjos originais para guitarra e voz. Partindo das canções da tradição europeia de séculos passados, a dupla faz tramas com a prática do cancioneiro do Brasil.
Duração do espetáculo: 40 min
Classificação etária: Livre

WEBINARS
TEMA CENTRAL: Infâncias em territórios interativos

DIA 15/03/21, 19h
Tema: O bebê e os estímulos sensíveis para o simbólico
Convidada: Tetê Brandão (PE) – Pesquisadora e especialista em Educação Infantil; autora do livro: O brincar, a vida dos bebês, da editora Vacatussa. Atua como mediadora de oficinas para e com bebês há 3 anos.
Mediação: Luciano Pontes

DIA 16/03/21, 19h
Tema: As dimensões afetivas, sociais e culturais do brincar livre
Convidada: Camila Domingues (PE) – Pedagoga, gestora educacional da rede privada de ensino, Fundadora da Casa das Asas, mãe de Miguel de 9 anos.
Mediação: Luciano Pontes

DIA 17/03/21, 19h
Tema: Diversidade cultural e identidade na infância
Convidada: Kemla Baptista (PE) – Contadora de histórias, escritora, mãe, professora e empreendedora social. Responsável pelo Caçando Estórias, iniciativa de arte e educação que apresenta as tradições afro-brasileiras através da contação de histórias.
Mediação: Luciano Pontes

DIA 18/03/21, 19h
Tema: Apreender o mundo – os bebês e a pedagogia dos começos
Convidado: Paulo Fochi (RS) – Atua no assessoramento de escolas privadas além de redes municipais de ensino e produções culturais e artísticas para crianças. Colunista do Portal Lunetas. Tem publicações no campo da pedagogia da infância, educação infantil, bebês, documentação pedagógica e formação de professores.
Mediação: Luciano Pontes

DIA 19/03/21, 19h
Tema: Os espaços do brincar na vida, na escola, na rua e na tela
Convidada: Gabriela Romeu (SP) – Escritora, pesquisadora da infância, documentarista e crítica de teatro infantil. Durante 20 anos, ela escreveu sobre e para crianças, no jornal Folha de S. Paulo, veículo no qual editou o caderno Folhinha.
Mediação: Luciano Pontes

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Salve, salve Cacilda!, guerreira

Atriz Isabella Lemos Foto: Luísa Bonin

“Uma pura chama ardendo diante de nós”, certificou o crítico Décio de Almeida Prado, sobre o impacto de várias atuações de Cacilda Becker Yáconis (Pirassununga, São Paulo, 1921 – São Paulo, São Paulo, 1969). O diretor italiano Ruggero Jaccobi comentou “que havia, por assim dizer, uma espécie de eletricidade na palavra e no gesto de Cacilda. Ela se movia pelo palco desencadeando uma série de choques elétricos… A isso veio se acrescentar a grande versatilidade, aquela curiosidade intelectual pela qual queria continuamente experimentar-se em alguma coisa diferente, da tragédia à comédia de humor, do drama sentimental a certas formas de vanguarda, dos papéis de velha ao de menino – como o famoso Pega Fogo. Não ficava satisfeita nunca”. O depoimento de Jaccobi está registrado no livro Uma atriz Cacilda Becker (organizado por Maria Thereza Vargas e Nanci Fernandes).

O monólogo Viva Cacilda! Felicidade guerreira! investiga algumas facetas dessa atriz brasileira. O filme-teatro é roteirizado e dirigido pela fotógrafa Lenise Pinheiro, inspirado no texto da montagem Cacilda!, de 1998, com dramaturgia e encenação de José Celso Martinez Corrêa. A iniciativa do Coletivo Takamakina de Teatro faz curta temporada online e gratuita a partir desta segunda-feira, Dia Internacional da Mulher.

O trabalho foi gestado durante a pandemia e gravado nas dependências do Teatro do Pequeno Ato, em São Paulo. O interlúdio, como a diretora prefere chamar, celebra os cem anos de nascimento de Cacilda Becker no próximo 6 de abril.

A atriz Isabella Lemos interpreta Cacilda numa narrativa intervalada por registros de áudios feitos pelo ator Marco Ricca, que assume várias vozes , dentre elas a do ator e diretor polonês Zbigniew Ziembinski (1908-1978). As músicas originais são de autoria do maestro Marcelo Pellegrini.

O interlúdio de Lenise, costura textos da peça de Zé Celso à visão feminina de Cacilda Becker na política e na vida doméstica. Nomes como o da encenadora Bia Lessa, da dramaturga Consuelo de Castro (1946-2016), da escritora Maria Clara Machado (1921-2001), e da dramaturga Leilah Assumpção são convocados na cena.

A encenadora arremata o trabalho com ensaios fotográficos autorais de seu arquivo e imagens inéditas capturadas no início dos anos 1990 no apartamento, então desocupado na Avenida Paulista, onde viveram Cacilda, Walmor Chagas, seus filhos e o cachorro Fió.

Lenise é fotógrafa especializada em teatro, uma das mais respeitada no país, e atua no campo desde 1982. É também iluminadora, cenógrafa e mantém um blog na Folha, Cacilda! Dirigiu em 2020 a peça Uma lei chamada mulher, de Consuelo de Castro, baseada na vida de Maria da Penha, que esteve em cartaz no Sesc Ipiranga, com Isabella no elenco.

Peça faz apresentações pelo canal Youtube. Foto: Luísa Bonin / Divulgação

Viva Cacilda! Felicidade guerreira!
Temporada de seis apresentações de 08 a 13 de março às 19hs.
Quando: De 8 a 13 de março, às 19h
Onde No YouTube
https://m.youtube.com/channel/UCKrZF3Y8K9Qj9E3Q5PcSYsA
Quanto: Grátis
Classificação 16 anos
Elenco Isabella Lemos
Direção Lenise Pinheiro
Duração 55 min.

Cacilda Becker e Filho. Foto: Chico Albuquerque (1955) In: Enciclopédia Itaú Cultural

Quando Cacilda Becker morreu, aos 48 anos, Carlos Drummond escreveu escreveu um comovente poema:

ATRIZ (Para Cacilda Becker)

“A morte emendou a gramática.
Morreram Cacilda Becker.
Não era uma só. Era tantas.
Professorinha pobre de Piraçununga
Cleópatra e Antígona
Maria Stuart
Mary Tyrone
Marta de Albee
Margarida Gauthier e Alma Winemiller
Hannah Jelkes a solteirona
a velha senhora Clara Zahanassian
adorável Júlia
outras muitas, modernas e futuras
irreveladas.
Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo
e um mendigo esperando infinitamente Godot.
Era principalmente a voz de martelo sensível
martelando e doendo e descascando
a casca podre da vida
para mostrar o miolo de sombra
a verdade de cada um dos mitos cênicos.
Era uma pessoa e era um teatro.
Morrem mil Cacildas em Cacilda.”
Carlos Drummond de Andrade. junho de 1969.

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Medusa contra o Feminicídio

Fabiana Pirro em Medusa. Foto Renato Filho

Em todo o mundo houve aumento de violência doméstica desde o início das medidas de isolamento social provocados pelo novo coronavírus. No Brasil, os números são alarmantes. Por dia, em 2020, pelo menos cinco mulheres foram assassinadas ou vítimas de violência, segundo dados da Rede de Observatório da Segurança. Os casos de feminicídio (quando as vítimas foram mortas por serem mulheres) aumentaram 2,2% em relação ao ano anterior.

A atriz Fabiana Pirro entra em cena a performance #MedusaMusaMulher

Porque somos constantemente assediadas, boicotadas, erotizadas, exploradas, mutiladas, desumanizadas, silenciadas, invisibilizadas, traficadas, estupradas e assassinadas— por homens. Ela diz basta!

Porque é uma injustiça culpabilizar a vítima em caso de estupro. Isso produz raiva e revolta, sentimentos que são combustíveis para a luta. Ela reage.

Porque a mulher não pode ser incriminada por ser bonita, desejável, por não corresponder às cobiças, por não se deixar enquadrar como objeto, pelo fato de ser mulher. Ela quer cura.

A artista levanta sua voz, avança com seu corpo para apontar os horrores e usa sua potência interpretativa para combater a violência de gênero. Pirro assume de forma furiosa uma posição de combate, pelo resgate da beleza, da força e da esperança.

#MedusaMusaMulher, é a versão escrita por Cida Pedrosa e dirigida por Breno Fittipaldi, que vem sacudindo as mentes e corações no protesto contra o feminicídio e todas as violações da integridade das mulheres.  

A apresentação online de #MedusaMusaMulher tem o apoio da Lei Aldir Blanc de Pernambuco. A programação começa nesta segunda-feira (8 de Março) com o debate Medusa Agora. Do Mito À Mulher e se estende até 15 de Março, com a performance ao vivo pelo Instagram e Facebook @fabianapirro. As exibições são gratuitas.

O debate vai abordar o dia a dia do enfrentamento ao Feminicídio em Pernambuco, numa conversa entre a atriz Fabiana Pirro, o diretor Breno Fitipaldi e a promotora de Justiça, Henriqueta de Belli, que projetam a tragédia da Medusa para os dias atuais. A mediação é da jornalista Ana Nogueira.

Peça é baseada no mito grego. Foto Renato Filho

A concepção de #MedusaMusaMulher tem como base o mito grego de Medusa, que narra que a sacerdotisa foi castigada por um crime que não cometeu. Por ser um mito, há várias versões. Em essência, os deuses gregos estavam embutidos de suas características divinas, mas pareciam com os humanos em desejos, defeitos e virtudes; tudo maximizado, sem limites.

Medusa, sacerdotisa do tempo da deusa Atena, cidade grega de Hélade, era cobiçada por muitos. Ela despertou o desejo de Posseidon, o deus dos mares. Medusa o recusou. Posseidon não admitiu a rejeição. Invadiu o templo, quando Medusa estava sozinha, e a estuprou. 

Em cólera com a profanação de seu templo, Atena decidiu punir o culpado por tal injúria: Medusa. Parece quem tem alguma coisa errada aqui, não? Pois bem, a sacerdotisa foi culpabilizada por ter sido estuprada. Atena arrancou de Medusa toda a beleza e seus cabelos viraram um ninho de serpentes e ela foi condenada a rastejar. E quem a encarasse diretamente nos olhos seria subitamente petrificado. Medusa foi transfigurada em uma criatura monstruosa chamada Górgona. Em seu fim, Medusa teve sua cabeça decepada por um semideus, Perseu, filho de Zeus.

Medusa que se tornou o avatar perfeito na luta contra a violência sofrida pelas mulheres, seja física, sexual ou psicológico. #MedusaMusaMulher é uma batalha constante pelo humano e sua humanidade.

Fabiana Pirro apresenta #MedusaMusaMulher desde 2018. Foto Renato Filho / Divulgação

A estreia de #MedusaMusaMulher ocorreu em setembro de 2018 na programação do Festival Transborda do SESC Pernambuco, numa exibição a bordo do catamarã sobre as águas do rio Capibaribe. Seguiram-se apresentações na Mostra de Música Leão do Norte, do SESC Arcoverde, no I Festival Chama Violeta, na Ingazeira, ambos no Sertão pernambucano, e no Festival Ojuobá de Esporte e Cultura, em Icaraizinho de Amontada, no litoral do Ceará.

Em 2019, a performance percorreu vários palcos e eventos, levantando o debate sobre o feminicídio, destaque para a apresentação em comemoração aos 13 anos da Lei Maria da Pena, a convite da Comissão da Mulher Advogada (CMA) da OAB Pernambuco. Desde o início da pandemia, tem realizado apresentações on line, como no Festival Ocupa Maravilhas e na Mostra Marcos Freitas – Território das Artes, do SESC Garanhuns.

FICHA TÉCNICA
#MedusaMusaMulher
Direção e criação: Breno Fittipaldi
Performance e concepção: Fabiana Pirro
Texto: Cida Pedrosa
Trilha sonora: Cannibal Santos e Pierre Leite
Figurino: Eduardo Ferreira
Adereços: Maria Teresa Pontes (@terafeitoamao)
Sandália: Jailson Marcos
Maquiagem: Henrique Mello
Fotos: Renato Filho
Produção: Ellyne Peixoto e Fabiana Pirro
Assessoria de Imprensa: Ana Nogueira

SERVIÇO
8 de MARÇO (segunda-feira): MEDUSA AGORA. DO MITO À MULHER – debate com a
promotora de Justiça, Henriqueta de Belli, às 17h
15 de MARÇO (segunda-feira): apresentação da performance #MedusaMusaMulher, às
17h
Onde: INSTAGRAM e FACEBOOK @fabianapirro

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Antônio Abujamra, o eterno provocador

Antônio Abujamra é festejado com debates, show, espetáculo e leitura no Itaú Cultural

Ator e diretor paulista Antônio Abujamra (1932-2015) deixou marcas de irreverência nos palcos e nas telas; na história do teatro brasileiro. O Itaú Cultural inicia suas atividades cênicas de 2021 com uma homenagem a esse homem do teatro com Antônio Abujamra – A Voz do Provocador. A programação online ocorre de 18 a 21 e de 25 a 28 de fevereiro, de quinta-feira a domingo, com conversas, encenações inéditas e música. O legado de Abujamra é celebrado no ano em que se comemora três décadas de fundação da Cia Os Fodidos Privilegiados, criada pelo ator e diretor no Rio de Janeiro.

Abu, de Cabo a Rabo é a mesa que abre a programação – no dia 18 (quinta-feira), às 20h, e conta com a participação do crítico teatral e professor Edélcio Mostaço para distinguir a trajetória desse artista influenciado pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), de inteligência brilhante, sensível, de humor ácido e que não renunciava à autoironia. A conversa será mediada pela diretora, roteirista e produtora de teatro e eventos Márcia Abujamra, sobrinha do ator, que idealizou essa mostra junto com o Itaú Cultural.

Cia Os Fodidos Privilegiados – Exorbitâncias e O Casamento, a Renovação do grupo é o tema da segunda mesa (sexta-feira, 19, também às 20h), com as atrizes Filomena Mancuzzo, Guta Stresser e Paula Sandroni, e o diretor João Fonseca. Eles apresentam histórias e gravação de cenas de espetáculos.

Fundada em 1991, no Rio de Janeiro, a Cia Os Fodidos Privilegiados montou três peças naquele ano: Um Certo Hamlet, A Serpente e Phaedra. Em 1995, juntou 60 atores em cena no espetáculo Exorbitâncias. Em 1997, o grupo estreou O Casamento, de Nelson Rodrigues.

O Casamento, montagem de 1997. Foto Chico Lima / Divulgação

Coroa para o povo

O Veneno do Teatro, espetáculo criado Antônio Abujamra e interpretado por ele por mais de 10 anos, ganha nova versão, interpretado pelo ator Elias Andreato e com roteiro e direção de Marcia Abujamra, nos dias 20 e 21 (sábado e domingo), às 20h. A encenação junta trechos de histórias biográficas da encenação original com trecho de vídeos de espetáculos que Abujamra dirigiu e depoimentos de arquivo de alguns artistas, a exemplo de Antunes Filho, Alcides Nogueira e Felipe Hirsch.

Crítico teatral e professor Edélcio Mostaço e diretor e dramaturgo Sérgio de Carvalho. Fotos: Reprodução do Facebook

A mesa Antônio Abujamra e o teatro épico no Brasil ocorre na quinta-feira, dia 25, às 20h, conduzida pelo dramaturgo e encenador Sérgio de Carvalho, fundador da Companhia do Latão. Carvalho vai focar na importância do trabalho de Antônio Abujamra em diálogo com o movimento de renovação da cena brasileira.

A leitura online de Um outro Hamlet, com companhia Os Fodidos Privilegiados, avança para a montagem do espetáculo Hamleto – que o grupo prepara para 2021, para celebrar seus 30 anos de fundação – dá prosseguimento ao programa Antônio Abujamra – A Voz do Provocador, na sexta-feira e no sábado, dias 26 e 27, às 20h.

Com direção de João Fonseca e de Johayne Ildefonso, Hamleto se baseia no texto escrito em 1972 pelo italiano Giovanni Testori (1923-1993), com adaptação de Antônio Abujamra, que dá novos rumos à história de Hamlet, de Shakespeare, com ingredientes políticos e de deboche. Sugere uma relação homossexual entre Hamlet e Horácio, e permite que o protagonista ceda as riquezas da coroa para o povo no ato de sua morte.

O Teatro Dissonante de Antônio Abujamra: A Temporada Carioca é o título do último debate, no sábado, 27, às 17h, com participação do professor André Dias.

No domingo, 28, às 20h, o encerramento da programação Antônio Abujamra – A Voz do Provocador é com o show online Abujamra Presente, com o músico André Abujamra, filho caçula do diretor. Cantor, compositor, guitarrista, percussionista, pianista, produtor musical com mais de 70 trilhas feitas para cinema, onde também tem trabalhos como ator e diretor, André Abujamra apresenta um repertório sacado de seus quatro discos – Mafaro, Homem Bruxa, Omindá e Emidoinã.

Antônio Abujamra – A Voz do Provocador acontece pela plataforma Zoom e os ingressos podem ser reservados via Sympla. Informações pelo site www.itaucultural.org.br.

Serviço:

Antônio Abujamra, a Voz do Provocador
Quando: De 18 a 21 e de 25 a 28 de fevereiro (quinta-feira a domingo)
Onde: No site do Itaú Cultural: www.itaucultural.org.br  

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