Arquivo da tag: José Manoel Sobrinho

José Manoel Sobrinho:
meio século de teatro como
projeto de vida e de territórios
Por Ivana Moura

José Manoel Sobrinho reúne nesta quinta-feira (17/09), pessoas amigas, para celebrar 50 anos de teatro. Foto: Rogério Alves

Diretor, professor e gestor cultural, Zé Manoel dirigiu mais de 100 espetáculos e formou mais de mil atores. Foto: Rogério Alves

Alguns artistas fazem carreira; outros fazem história. José Manoel Sobrinho pertence ao segundo grupo. E não por acaso. Sua trajetória de 50 anos não se conta apenas em espetáculos, embora sejam mais de 100; conta-se na capacidade rara de transformar teatro em política cultural, política cultural em formação de gente e formação de gente em cena viva. Celebrar seus 50 anos de arte é, portanto, celebrar uma parte decisiva da história do teatro pernambucano contemporâneo.

A origem explica muito. Agrestino de Bezerros, filho de um pai viajante, Zé Manoel mudou-se 30 vezes até os 11 anos, num vai-e-vem entre Bezerros, Pesqueira, Gravatá, Vitória de Santo Antão, Jaboatão, Sirinhaém e Recife. Essa infância nômade talvez lhe tenha dado cedo duas lições que atravessam toda a sua obra. A de que o fazer artístico não pertence a um único lugar e a de que a cultura precisa circular para existir. Aos 14 anos, o teatro chegou pelas mãos de uma professora de português no Colégio Paola Frassinetti, em Prazeres; a iniciação definitiva veio com o Teatro Experimental de Olinda e Valdi Coutinho, a quem ele credita “todas as oportunidades”. Foi ali que o jovem ator percebeu que o teatro podia problematizar a vida. E decidiu que aquilo seria seu ofício.

O ator, porém, deu lugar ao encenador por necessidade. Faltavam diretores para os grupos da periferia, e foi preciso assumir a direção como uma urgência coletiva. Essa virada é emblemática do seu modo de operar – o artista que se faz na lacuna, que converte ausência em invenção. Em 1979, com Carlos Lira e Mário Antônio Miranda, fundou em Prazeres, Jaboatão dos Guararapes, a TTTrês Produções Artísticas, e com ela o Movimento de Teatro Periférico, articulando a Região Metropolitana do Recife numa época em que Jaboatão vivia um vazio cênico. A sede do grupo era a sua própria casa, onde também nasceu a Biblioteca Orlando Miranda de Carvalho. Mais de quatro décadas depois, a TTTrês segue ativa, um raro exemplo de continuidade na cena independente do estado.

Teatro, gestão e militância sempre caminharam juntos na sua biografia, inclusive na presidência da Feteape, a Federação de Teatro de Pernambuco, primeira entidade representativa da sociedade civil nas artes cênicas do estado, fundada em 1976. Quando ocupou cargo nos anos 1980 chegou a ser persona non grata na Fundação de Cultura do Recife por defender a categoria, ironia que ele próprio conta com humor décadas depois.

Espetáculo Sistema 25. Foto: Divulgação

À frente da Feteape coordenou os projetos Coringa e Alvará de Expressão, levando arte a oito presídios de Pernambuco. Essa experiência, vivida entre extremos e dores, marcou fundo sua visão de mundo: “Vi a arte mudando a vida das pessoas, se não para mudar a condição, mas para fazer refletir sobre os pactos de convivência.” Ela desembocaria, mais tarde, em um dos trabalhos mais emblemáticos de sua carreira: Sistema 25, sobre o sistema prisional brasileiro, inspirado no conto Em Osasco, de Plínio Marcos. A montagem reuniu 25 atores, seis compositores e cerca de 30 cenas construídas coletivamente num processo que o diretor chamou de Jogos de Aproximação – um teatro de resistência puro sangue, realizado sem patrocínio, movido pela paixão dos atores e a militância do encenador.

O capítulo mais longo e estruturante foi o Sesc-PE. Foram 42 anos (de 1977 a 2020) que o viram passar de prestador de serviços a professor, coordenador e, finalmente, gerente de Cultura, o posto mais alto do organograma da área. Sob sua liderança, o Sesc pernambucano deixou de ser uma instituição de serviços para se tornar um dos principais vetores de formação e difusão cultural do estado: cursos, festivais, equipamentos e uma capilaridade impressionante com o interior, que ele sempre defendeu como marca inegociável. Mais de mil alunos passaram por suas aulas em todo o Brasil. Seu nome permanece vivo no Espaço Cultural Fábrica de Criação Popular José Manoel Sobrinho, do Sesc em Triunfo.

Mas os 42 anos de Sesc não foram só de Sesc. Ainda dentro deles, em meados dos anos 1990, um convite da Prefeitura de Camaragibe abriu a José Manoel uma segunda escola, a do poder público. Ele chegou para dar um curso de teatro, três turmas nascidas de um compromisso de campanha; e antes de encerrar as aulas, já era diretor de Cultura da cidade. Ficou dez anos. Quando a gestão do prefeito Paulo Santana criou a Fundação de Cultura, Turismo e Esportes, passou um ano como vice-presidente e seis como presidente. Ali, no corpo a corpo de uma cidade pequena e de orçamento curto, ele aprendeu que a política cultural se decide primeiro no município; e que é lá que ela se torna concreta, ou não passa de intenção. Camaragibe reservou 5% do orçamento para a Cultura, número raro no país, e ergueu as bases de um Sistema Municipal de Cultura, mesmo com resistência na Câmara e dinheiro escasso. “Camaragibe foi uma grande escola de gestão da Cultura para quem viveu a experiência”, diz. Quem o ouve hoje articular município, estado e nação como uma cadeia única de responsabilidades ouve alguém que aprendeu essa lição no chão de Camaragibe.

A saída do Sesc, aos 62 anos, poderia ter sido um ponto final. Foi, ao contrário, um recomeço. E aí reside outra constante de sua trajetória: a recusa ao imobilismo. Em 2021, presidiu por um ano (de 1º de janeiro a 30 de dezembro) a Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR), braço executivo da política cultural municipal no primeiro mandato do prefeito João Campos, cargo que deixou no fim daquele mesmo ano. Hoje atua como assessor parlamentar de cultura no gabinete da vereadora Cida Pedrosa e está empenhado na campanha dela a deputada estadual pelo PCdoB, nas eleições de outubro. Em 2025, concluiu o mestrado em educação na UFPE, com dissertação sobre a política de cultura na rede pública de ensino do Recife – fechando, aos 50 anos de teatro, um ciclo que ele próprio reconhece ter deixado para tarde. Formou-se em Letras apenas aos 50 anos, depois de entrar e sair de várias faculdades, sempre adiado pelas viagens e pela cena. 

Como a Lua, montagem de 2014. Foto Laryssa Moura / Divulgação

No teatro para crianças e jovens, campo em que poucos sustentam uma obra por tanto tempo, ele encontrou em Vladimir Capella um autor para toda uma vida. O paulista defende um teatro sem faixa etária, e José Manoel fez dessa defesa a sua. Dele dirigiu a delicadeza de Como a Lua, que fala de nascimento e morte sem subestimar a plateia, montada em 1984 e remontada em 2014 com música de João Falcão; a longevidade rara de Avoar, mais de dez anos ininterruptos em cartaz; e ainda Com Panos e Lendas e Píramo e Tisbe. Assinou O Mágico de Oz, O Menino do Dedo Verde e Cantigas ao Pequeno Príncipe. Em 1993, levou à cena As Incríveis Aventuras do Barão Langsdorff, de Sidnei Cruz, sobre o naturalista alemão que percorreu o Brasil no século 19. Mais recentemente, encenou Ave Guriatã, de Robson Teles, livre inspiração do cordel de Marcus Accioly, com alunos do Curso de Interpretação para Teatro do Sesc.

Na cena adulta, as escolhas também dizem quem ele é. Sistema 25, a partir de Plínio Marcos, com 25 atores e dramaturgia construída em sala de ensaio, é o retrato de um teatro de resistência feito sem patrocínio. Esquecidos por Deus, monólogo sobre o livro de Cícero Belmar, com Murilo Freire, investiga memória e apagamento. Formigas bebem absinto no armazém do caos, do paraibano Everaldo Vasconcelos, mergulha nas relações humanas em crise. Janos Adler, de Luiz Felipe Botelho, enfrentou o tema do HIV no início dos anos 1990, quando o assunto ainda era tabu. E Sobre os Ombros de Bárbara, no ano passado, devolveu corpo e voz a Bárbara de Alencar por Augusta Ferraz.

O repertório, aliás, nunca se deixou aprisionar por uma única origem. Montou pernambucanos como Alexandrino Souto, Luiz Felipe Botelho, Marcus Accioly, Robson Teles e Cícero Belmar; paraibanos como Bráulio Tavares (Trupizupe, o Raio da Silibrina), Altimar Pimentel (Viva a Nau Catarineta) e Everaldo Vasconcelos; paulistas como Capella, Plínio Marcos, Oswald de Andrade e Fauzi Arap; e o gaúcho Érico Veríssimo, cujo O Deus Único marcou sua primeira ação em teatro, em 1974.

Hoje, em fase de produção de Araras Vermelhas, novo espetáculo a partir da obra homônima de Cida Pedrosa (livro finalista do Prêmio Jabuti), dividindo com Samuel Bennaton a direção do espetáculo e com Colette Dantas e Rogério Alves no elenco, Zé Manoel segue fazendo o que sempre fez: reunir pessoas em torno da arte. O encontro desta quinta-feira, na Rua Mamede Simões, com música, conversa no Bar Super 8 e a presença de ex-alunos, autores, músicos e amigos, é o retrato fiel do artista que investe na convivência e na troca. “50 anos de teatro, sem nenhum intervalo. Meu Deus, eu nem acredito. Por isso que eu quero comemorar. Mereço esse momento.” Merece – e a cena pernambucana comemora com ele.

Samuel Bennaton, Rogério Alves, José Manoel e Colette Dantas no ensaio de Araras Vermelhas. Foto: Divulgação

Serviço

O quê: Encontro pelos 50 anos de teatro de José Manoel Sobrinho
Quando: quinta-feira, 17 de setembro, a partir das 18h
Onde: Rua Mamede Simões, Recife
Programação: apresentações musicais com artistas convidados e conversa com o homenageado no Bar Super 8

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , ,

Lady Tempestade, com Andrea Beltrão
abre Festival Recife do Teatro Nacional
celebrando vozes femininas

Andrea Beltrão em Lady Tempestade. Foto: Nana Moraes / Divulgação

Atriz interpreta a advogada pernambucana Mércia de Albuquerque. Foto: Nana Moraes / Divulgação

2 de abril de 1964. Uma cena de horror se desenrolava pelas ruas do Recife e mudaria para sempre a vida de uma jovem advogada. Gregório Bezerra, comunista histórico e líder das Ligas Camponesas, ferrenho opositor do recém-instalado regime militar, estava sendo arrastado seminu pelo asfalto, amarrado ao para-choque de um jipe. O coronel Darcy Villocq comandava aquela demonstração de brutalidade que seria transmitida pelo Repórter Esso para todo o país – o primeiro caso documentado de tortura política pós-golpe.

Entre os que testemunharam aquela barbárie estava Mércia de Albuquerque, advogada de 30 anos. Aquela imagem ficou cravada em sua retina. Ao chegar em casa, ela comunicou ao marido Octávio uma decisão que mudaria sua vida: defenderia Gregório Bezerra e qualquer pessoa que necessitasse de proteção contra as arbitrariedades do novo regime.

Mais de sessenta anos depois, essa história de coragem chega ao 24º Festival Recife do Teatro Nacional através do espetáculo Lady Tempestade, que abre a programação no dia 20 de novembro no Teatro de Santa Isabel. Andrea Beltrão protagoniza o monólogo sobre a advogada que defendeu mais de 500 presos políticos.

Com texto de Sílvia Gomez e direção de Yara de Novaes, o espetáculo parte dos diários que Mércia escreveu durante os anos mais duros da ditadura. Passado, presente e futuro se embaralham na narrativa, que utiliza uma estrutura “diário dentro do diário”.

Andrea Beltrão interpreta A., mulher que recebe misteriosamente os escritos de Mércia e gradualmente se envolve com aquelas histórias de resistência. A protagonista encara o dilema de se aprofundar ou não naquela realidade, mas acaba mergulhando nas memórias que revelam a busca por justiça e o paradeiro de desaparecidos, ecoando as súplicas de mães desesperadas.

A dramaturgia explora a ideia de que alguém do presente recebe uma convocação do passado, criando um tempo verbal instável que oscila entre passado, presente e futuro. Essa estrutura temporal reflete como o Brasil permanece reincidente no esquecimento de sua própria história. Uma frase se torna leitmotiv da montagem, repetida após trechos dramáticos do diário: “Essas coisas acontecem, aconteceram, acontecerão”. Para materializar esse conceito em cena, a direção de Yara de Novaes constrói uma jornada visual que espelha a própria transformação de Mércia.

O espetáculo inicia em um ambiente doméstico deteriorado – mobiliário gasto, cores apagadas, iluminação que sugere clausura e melancolia. Conforme a narrativa avança e o passado invade o presente, essa cenografia se reinventa: sons de violência cedem lugar a celebração, a decadência visual dá espaço à luminosidade, e o palco se torna território de resistência e esperança.

Complementando essa atmosfera de encontro entre tempos, a presença de Chico Beltrão, filho de Andrea, adiciona uma camada geracional ao espetáculo. Responsável pela trilha sonora e por momentos pontuais de diálogo, sua participação surgiu de uma proposta da diretora. Embora Andrea inicialmente tenha hesitado em envolver o filho – produtor musical, não ator – no projeto teatral, Yara identificou que essa configuração familiar ampliaria o impacto emocional da montagem. 

Lady Tempestade consolidou-se como um dos maiores sucessos teatrais contemporâneos e já circulou por várias cidades brasileiras. Desde sua estreia em 2024, a montagem realizou cerca de 150 apresentações e ultrapassou a marca dos 70 mil espectadores, registrando sessões esgotadas e repercussão positiva na imprensa.

O alcance da obra expandiu-se além dos palcos. A dramaturgia foi publicada pela Editora Cobogó em 2024, enquanto uma versão cinematográfica, dirigida por Maurício Farias, já teve suas filmagens concluídas em janeiro e fevereiro de 2025. O filme conta com direção de fotografia de Chico Rufino, direção de arte de Luciane Nicolino, desenho de som de Arthur Ferreira, participação de Chico Beltrão e produção da Taba Filmes, Boa Vida e Quintal Produções.

Festival conecta vozes femininas através dos séculos

Augusta Ferraz no ensaio Sobre os Ombros de Bárbara. Foto: Reprodução do Instagram

O tema “Vozes Femininas – Histórias que Ressoam” conecta diferentes épocas e contextos. Ao longo da programação – ainda sendo ultimada pela organização, com contratos em finalização e sem divulgação oficial da prefeitura – o público encontra desde Mércia Albuquerque, que enfrentou a ditadura no século XX (Lady Tempestade, na abertura dia 20), até Bárbara de Alencar, que desafiou o império no século XIX (apresentações agendadas para os dias 29 e 30), passando por outras montagens que abordam as lutas das mulheres contemporâneas. Essas histórias revelam como a resistência feminina se reinventa em cada período, mantendo sua força através dos tempos.

Primeira presa política brasileira e protagonista da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador de 1824, Bárbara de Alencar (1760-1832) ganha vida através da interpretação de Augusta Ferraz. Sobre os Ombros de Bárbara, com dramaturgia de Brisa Rodrigues da própria Augusta, sob direção de José Manoel Sobrinho, explora as contradições de uma mulher republicana durante a monarquia.

Nascida em Exu, Bárbara quase custou a vida da mãe no parto. Aos 22 anos, casou-se e mudou-se para o Crato, onde teve cinco filhos – dois estudaram no Seminário de Olinda, epicentro do liberalismo europeu entre as elites. Organizou células revolucionárias em sua residência, articulando movimentos que desafiaram o poder imperial.

Posteriormente presa, foi transportada a pé por 600 quilômetros até Fortaleza, permaneceu três anos em calabouços, liderou um segundo levante, perdeu dois filhos nas revoltas e morreu aos 72 anos sem testemunhar a proclamação da República. Augusta Ferraz, da série Guerreiros do Sol, dá vida a essa escravocrata em crise, apresentando um corpo violentado e uma resistência ao arbítrio.

Laboratório Franco-Brasileiro

Trabalho desenvolvido pela companhia francesa ktha em Seul. Foto: Reprodução

A companhia francesa ktha chega ao Recife para desenvolver  a peça A Gente Quer com artistas locais, dentro da programação do Ano Cultural Brasil-França 2025. O grupo não carrega espetáculos prontos; ele criou uma metodologia de criação teatral que se concretiza diferentemente em cada cidade, ocupando espaços urbanos alternativos como contêineres, carrocerias de caminhões, telhados, túneis, estacionamentos, etc.

Em agosto, na Casa do Povo, no bairro do Bom Retiro em São Paulo, durante o festival ERUV, seis artistas brasileiros participaram de residência de duas semanas para criar as versões brasileiras de A Gente Quer e Tu Es Là / Você está Aqui. As apresentações lotaram o espaço, validando a potência dessa metodologia aplicada ao contexto brasileiro.

Para Recife, após analisar mais de 100 cartas de intenção, a companhia selecionou 10 artistas locais: Lucas Vinícius, Catarina Almanova, Ludmila Lopes, Anna Batista, Ana Luiza DAccioli, Rodrigo Hermínio, Maria Pepe, Guara Rios, Bruna Luiza Barros e Caru dos Santos. Durante 10 ensaios, eles vão construir uma versão que dialogue com as particularidades pernambucanas.

Desde 2021, essa metodologia se realizou em mais de 15 cidades do mundo, gerando espetáculos únicos. A dramaturgia funciona como uma matriz: uma extensa lista de desejos e reivindicações que ganha forma específica através do trabalho com performers locais, criando rituais coletivos de partilha de anseios urbanos.

Festival Recife do Teatro Nacional 2025
📅 20 a 30 de Novembro de 2025
🎭 Abertura: 20 de novembro – Lady Tempestade
📍 Teatro de Santa Isabel e outros espaços
🎫 Programação gratuita
Homenageadas: Auricéia Fraga e Augusta Ferraz

Postado com as tags: , , , , , , , , ,


Percurso teatral
#Dossiê Aldeia do Velho Chico 2022
#6

Formigas, Lampião, É da carne dos homens, Cia. Biruta e  Ana Paula Ribeiro . Fotos: Divulgação

Cada vez mais me convenço da necessidade de fortalecimento da prática da crítica teatral. Isso inclui a urgência de remuneração dos espaços já existentes na internet (são muitos e é preciso ampliar), com a inclusão desses trabalhos no sistema das artes da cena a partir de editais e similares. Digo isso porque eu mesma, na raça, escrevo há anos sem uma remuneração direta, como muitos dos meus colegas. Alguns festivais investem na movimentação de análises acerca da programação (mas são poucos), o que permite e incentiva a valorização de uma fortuna crítica e de um painel reflexivo sobre a cena.

A ausência de análise, de diálogo, enfraquece uma possível discussão e muitas encenações não recebem um olhar crítico. Enquanto os que recebem várias perspectivas críticas vê dinamizado o próprio trabalho da cena e ganha reforço na projeção do grupo.

São reflexões que chegam como constatação e desafio para que muitos diálogos entre cena e pensamento crítico se estabeleçam e se expandam.

Nada é inocente. Nem a cena. Nem sua recepção nem qualquer avaliação crítica. A análise crítica da qual estou falando aqui é a que se posiciona publicamente, por escrito, por vídeo, por áudio, por outro meio ou tudo isso junto e misturado. A crítica feita entre amigos, na mesa do bar, nos ambientes hermeticamente fechados são importantes com exercício individual de expressão. Mas a que estou pondo em consideração é aquela do contexto da crítica pública, que corre mais riscos – de todo tipo.

Essas questões ficaram bem acesas durante o acampamento da Aldeia do Velho Chico, em Petrolina, e depois, enquanto tudo aquilo reverberava na minha cabeça e no meu corpo, acerca da criação, da recepção e da feitura crítica.

A Aldeia do Velho Chico é um festival multilinguagem. Há uma forte predominância das expressões da cultura tradicional com suas danças e cantos atravessadas de histórias, da ancestralidade que não conseguimos detectar as origens.

Outro dado forte do evento são as apresentações das artes da cena – dança, performance, teatro etc – em formatos de espetáculos ou em processo de criação, células em formação, pílulas carregadas de muita potência, mas ainda sem formatação estética estabelecida.

Então vamos fazer um breve percurso por entre os espetáculos e cenas da Aldeia do Velho Chico.

Formigas bebem absinto no armazém do caos

Cena de Formigas bebem absinto – Foto Tássio Tavares / Divulgação

Público participante do espetáculo Formigas bebem absinto. Foto Tássio Tavares / Divulgação

Nesse percurso começo pelo mais difícil, enquanto recepção no evento.

Formigas bebem absinto no armazém do caos estreou no dia 5 de março, no Theatro Santa Roza, em João Pessoa, na Paraíba. Com direção de José Manoel Sobrinho, texto de Everaldo Vasconcelos e no elenco Anderson Lima, Antônio Deol, Larissa Santana, José Maciel, Margarida Santos, Mônica Macedo, Emmanuel Vasconcelos. Procurei e não encontrei registro crítico acerca da peça.

A montagem tem direção de arte de Tainá Macedo, direção musical de Samuel Lira, preparação corporal de Luiz Velozo, fotografias e designer de iluminação de Bruno Vinelli e produção de Aelson Felinto.

A expectativa em torno da peça era grande, principalmente pelo nome de José Manoel Sobrinho – funcionário do Sesc Pernambuco por muitos anos – ,  que anunciou que o espetáculo seria um outro jeito de experiência estética em relação ao seu próprio percurso.

A teoria do caos é convocada como referencial teórico da cena para falar de uma dinâmica da vida social. É uma teoria cientifica recente e de alto grau de complexidade, que vem sendo aplicada para elucidar fenômenos antes considerados incompreensíveis. O Caos torna questionáveis as nossas maiores certezas e suscita novas indagações no que se refere a nossa própria realidade.

Fala-se que mudança mínima no início de um evento pode ocasionar consequências  imprevisíveis, metaforicamente justificado pelo chamado “Efeito Borboleta”. É muito citado o exemplo do vestibulando que perde o exame porque o pneu do ônibus furou e partir desse imprevisto prosaico toda sua vida futura é mudada (universidade, amigos, amores, trabalho, filhos etc.)

O que salientam os artigos dessa teoria é que o Caos não é desordem, mas sim imprevisibilidade. Existe uma ordem no suposto acaso, determinada por leis precisas. Não vou além, para não me perder, pois o caminho é matemático, de lógica bem específica.

O que me parece o primeiro problema do espetáculo Formigas bebem absinto no armazém do caos é que a direção aproxima a peça mais da ideia do senso comum de desordem, remete para os efeitos da instabilidade brasileira, do que perseguir na cena uma regra que testifique o imprevisível.

A utilização de procedimentos e elementos recorrentes do que é considerado teatro contemporâneo no Brasil – uso de microfone, projeção de vídeo, música tocada ao vivo, luz que fragmentando o corpo, luz difusa, atores manipulando a iluminação com holofotes na mão, inclusão do público na cena, não funcionam como uma dramaturgia que dê conta da proposta.  

A dramaturgia textual de Everaldo Vasconcelos emprega em excesso ditos populares, que empobrecem o jogo de cena. A fábula, mesmo com intenção de ser fragmentada, apresenta  uma trupe artística que se encontra e viaja a partir do consumo do absinto. Interpretam personagens clássicos, se relacionam entre si, expõem preconceitos como demonstrações misóginas dentro do grupo, reproduzem a violência do patriarcado.

Há choques entre as camadas dessa leitura do mundo, de uma intenção criativa libertadora, que não se realiza no palco. Pelo menos na sessão apresentada em agosto de 22 em Petrolina.

Se o desejo era explorar o cenário catastrófico desses tempos em fúria talvez as disrupções no palco necessitassem de outras escolhas para essas formigas.

Eu Cá com meus Botões

Ator e bailarino bailarino Adriano Alves em Eu Cá Com Meus Botões – Foto André Amorim / Divulgação

Plateia da peça Eu Cá Com Meus Botões. Foto André Amorim / Divulgação

Ao lado do Teatro Dona Amélia, no beco entre a quadra e o caminho da piscina, foi instalado o ambiente para espetáculos curtos, experimentos em processos que chamo de pílulas e a ação Tecendo Ideias. Uma área de passagem, que às vezes abrigava bem a exibição, às vezes não. As interferências sonoras dos esportes incomodaram algumas vezes, mas não foi a maioria.

A programação artística nesse local começou com o infantil Eu Cá com meus Botões, solo do bailarino Adriano Alves com direção de Thom Galiano. Praticamente sem palavras, mas inspirada na poesia de Neruda e nos textos de Pedro Bandeira, e outros, a cena envereda pela experimentação lúdica, embarca no território das lembranças das infâncias. Com uma partitura corporal de gestos suaves, que sugere uma viagem por aconchegos e afetos com pessoas e animais – reais ou fantasiosos – e brincadeiras encantatórias aos olhos da criança.     

Terceira obra infantil do Coletivo Trippé, que atua há 11 anos no Sertão do São Francisco, a peça Eu Cá com meus Botões aprofunda a investigação do diálogo entre dança e poesia. Os pequenos estavam vidrados no desenrolar da peça, e responderam com alegria às interações do artista. Este é o primeiro solo do bailarino Adriano Alves, que aposta no jogo cênico inspirado nos poetas desde 2012.

Lampião no Reino dos Infernos

Cena de Lampião no Reino dos Infernos. Foto: André Amorim / Divulgação

Espetáculo Lampião no Reino dos Infernos foi apresentado na área externa do Sesc. Foto: André Amorim

O ator e multiartista Sebastião Simão Filho já plantou muitas sementes; já contribuiu na criação de grupos e na formação de atores em Petrolina, Recife e outras regiões. É sua vocação. E ele entende essa arte como essencialmente coletiva e vai agregando.

Para a Aldeia do Velho Chico chegou com Lampião no Reino dos Infernos para apresentar na área externa, no estacionamento, com uma lona sem teto montada onde a equipe manipulava os bonecos (de vários tamanhos e categorizações), os dispositivos de luz e instrumentos sonoros e outras coisinhas mais.

A galeria de bonecos do espetáculo permite uma movimentação interessante, e o elenco jogava afinado no gestual do boneco.

No que trate da dramaturgia, escolher Lampião como protagonista de uma história é sempre um risco. Persona que dependendo do olhar pode ser entendida como “defensora” de pobreza ou um bandido sanguinário. Na peça, ele vai de um a outro.

A trupe de Simão bebe nas tradições populares dos mestres mamulengueiros, nas alegorias do juízo final, sátiras que envolvem moralidade, teatro vicentino e vai antropofagicamente devorando essas e outras referências. Dá seu recado. A manipulação funciona, há sinuosidade, os bonecos são bonitos. O publico gosta e aplaude.

Como a sessão foi no dia em que as apresentações concorriam umas com as outras, em vários espaços da unidade do Sesc-Petrolina, me pareceu que a opção mais acertada para esse Lampião seria de proposta mais compacta.

Estudo Nº1: Morte E Vida

Estudo Nº 1 – Morte e Vida – Foto: André Amorim / Divulgação

Grupo Magiluth e seu Estudo Nº 1 – Morte e Vida – Foto: André Amorim / Divulgação

Situar Estudo Nº1: Morte e Vida, do Grupo Magiluth como uma peça-palestra ainda diz pouco sobre a obra, só para pegar o estribilho da própria montagem. Inspirada no poema dramático Morte e Vida Severina, do pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e na multiplicação de Severinos, o trabalho investiga as causas e os efeitos da atuação humana sobre o clima, que produz refugiados, do Nordeste do Brasil a Kiribati, no Oceano Pacífico.

Essa questão tão séria da ação humana sobre o planeta, as crises que nos deixa a todes por um triz do extermínio, avança na poética desse espetáculo que vibra nas urgências desses dias.

Com direção de Luiz Fernando Marques, o Lubi, essa encenação cutuca o nervo, não poupa a ferida aberta desses tempos tão terríveis. Já assisti algumas vezes ao espetáculo e a cada nova vez detecto um detalhe do posicionamento político libertário do grupo. Os rapazes estão plenos em suas atuações.

Profusão de imagens, corpo, jogos, linguagens, texto, fala, luz e som, podcast. E eles repetem em espiral para falar das ações migratórias à uberização e abrem novos caminhos para pensar, repensar o que estamos fazendo com o mundo, o que mundo dos poderosos está fazendo com os artistas, o que é ser artista nesse mundo da mercadoria. Escrevi na estreia uma critica desse  Estudo Nº 1. Se interessar, vai lá.

Caminhos – Cirkombi

Pedrinho Milhomens, o Palhaço Sequinho em Caminhos Cirkombi. Foto: Tassio Tavares / Divulgação

Exibição de Caminhos Cirkombi no Sesc Petrolina. Foto: Tassio Tavares / Divulgação

Ele tem as pernas tão finas que parecem que vão quebrar quando anda. Um dos seus charmes. Não o único. Pedrinho Milhomens, o Palhaço Sequinho, aventureiro, cozinheiro, marginal, –como se autodefine nas redes – contagia com o seu gosto pela vida. Atuou com seu brincar na Aldeia do Velho Chico.

Marcou presença no último dia da programação, quando aconteciam muitas coisas em sequência acelerada ou ao mesmo tempo. Sua cena foi exibida num espaço exíguo embaixo da escada amarela, naquele corredor… Espaço suficiente para Palhaço Sequinho dar o seu show.  

Caminhos é o nome da brincadeira e tem assinatura na direção de Odilia Nunes, atriz e palhaça de Afogados da Ingazeira. Não pense numa história linear, mas em muitas histórias que entram umas dentro das outras para produzir muita graça. O trabalho é simples, utiliza os truques da palhaçaria para acionar a fabricação do riso.

O tempo do espetáculo é o da preparação de um bolo, que inclui assar e distribuir com a plateia. Mesmo quem não come – porque não tem fatia para todo mundo – o público sai saciado de alegria. Uma delícia de cena. Tão simples que conquista .

Luanda Ruanda – Histórias Africanas

Stephany Metódio em Luanda Ruanda – Foto Fernando Pereira / Divulgação

Como parte da ação A Escola Vai ao Sesc foi exibida a peça Luanda Ruanda – Histórias Africanas, do Coletivo Tear, de Garanhuns. A arte-educadora Stephany Metódio e os músicos Alexandre Revoredo e Nino Alves conduzem o público por uma viagem fascinante.

Durante a encenação, a plateia é brindada com histórias e intervenções musicais, baseadas nos ritmos da cultura africana, com a participação forte das crianças nas bruxarias e preparativos culinários para a reinvenção do mundo. As técnicas teatrais utilizadas por Stephany Metódio envolveram a plateia nesse percurso pelas lendas e costumes afro-brasileiros.   

O espetáculo foi apresentado em dois momentos na Aldeia do Velho Chico: na Ilha do Massangano e no Sesc. Luanda Ruanda é fruto de pesquisas das artistas Stephany Metódio e Marília Azevedo efetivadas em comunidades quilombolas de Garanhuns.

Lady Macbeth: Coroas de Poder e Sangue no Sertão

Maria Santorini em Lady Macbeth: Coroas de Poder e Sangue no Sertão, Foto André Amorim / Divulgação

Lady Macbeth: Coroas de Poder e Sangue no Sertão, da Trupe Holística de Salgueiro parte de uma ideia interessante – de aproximar as tragédias que ocorreram/ocorrem no semiárido nordestino do texto inspirador, mas sua realização conceitual me parece complicada. Muito já se fez com essa personagem intrigante, e poderosa, de William Shakespeare. Sua complexidade se abre a muitas outras interpretações.

A cena com a jovem atriz Maria Santorini é curta. Praticamente uma célula. O trabalho precisa amadurecer em várias camadas. Existe uma versão em vídeo que foi veiculada durante a pandemia, para quem tiver curiosidade. Não é a mesma experiência, mas dá para ter uma ideia.

O experimento diz que Lady Macbeth ousou seguir seu coração e não mais a sua adaga (nome genérico de um tipo de espada curta, com duplo corte).

O propósito de levar a figura de poder para o Sertão é interessante. Compor a personagem com figurino que faz alusão às vestes elisabetanas cria um atrito de imagem positivo, a meu ver. Mas o conteúdo do discurso carece de sustança. Acho estranho o tom de deboche ao falar em morte de rei e de general. E colocar um texto de Osman Lins no meio das falas não me parece muito adequado.  

É da Carne das Mulheres que Nascem os Homens

É da Carne das Mulheres que Nascem os Homens. Foto: Tassio Tavares / Divulgação

 A atriz Ana Vicente, de Juazeiro, Bahia, trabalha cenicamente a energia concentrada para valorizar a força ancestral feminina em É da Carne das Mulheres que Nascem os Homens cena emocionante.

Sua reconexão com esse algo tão valioso e maltratado por milênios e até hoje pelo patriarcado, que é a energia feminina, vai sendo desenvolvida em pequenas ações que clamam por sua ancestralidade. A roupa é acrescida simbolizando peles de outras mulheres, ela mesma saudando ausências.

Essa carne que enaltece as mulheres persegue o equilíbrio das energias criativas Yin (feminina) e Yang (masculina). Nessa luta é primordial a defesa dos direitos de existir, contra qualquer crime.

Eu Vim da Ilha

Trecho da dança Eu Vim da Ilha. Foto: Fernando Pereira / Divulgação

Eu Vim da Ilha, da Cia de Dança do Sesc Petrolina, erguida em 2011, é uma das criações artísticas de maior projeção da cidade, mas ainda com muito espaço para o devido reconhecimento. A inspiração da peça vem do Samba de Véio da Ilha de Massangano, uma dança tradicional que existe há mais de 100 anos e é passada de geração a geração.

São corporificadas na coreografia as práticas das pessoas ribeirinhas, a noção de travessia, as brincadeiras e a cultura do lugar.

A dramaturgia concentra os afetos das relações da Ilha de Massangano (habitada por cerca de 200 famílias), o sentido de pertencimento dos moradores, que os intérpretes incorporam em suas danças.

Com tamboretes nas mãos, roupas coloridas, alegria e muito requebro, remelexo e malemolência, os dançarinos recriam esse encontro dançante, que é uma síntese do espírito festivo e guerreiro dessa ilha situada no Rio São Francisco.

Foi apresentado um pequeno trecho do espetáculo no mesmo beco que leva à quadra poliesportiva.

Criando Peixes no Bolso

Criando Peixes no Bolso. Foto André Amorim

Na tocante cena Criando Peixes no Bolso, o Grupo Mundaú de Experimentos Cênicos, de Garanhuns, trilha caminhos das simbologias dos círculos, da fertilidade da terra, das águas conduzidas em potes e bacias, na oscilação dos sons, no aquecer das chamas. Os elementos da natureza inspiram a criação dessa peça.

É um trabalho de atravessamentos para os envolvidos. O corpo-experimento dos intérpretes que flerta com a poesia de Manoel de Barros. De olhos famintos e atentos aos cursos, deslocamento, mudança. A partitura corporal aponta para o fortalecimento de laços, pelas pulsações da vida, pela busca do sagrado.

O elenco, com Criando Peixes no Bolso insiste em expressar a renovação dos ciclos e a coragem de enfrentar as estações da vida.

Incubadora Teatral e mais

Partilha de processos criativos – Seminário de Teatro – Foto Fernando Pereira

Público da Incubadora teatral. Foto Tassio Tavares / Divulgação

Cris Crispim e Camila da Cia Biruta. Foto Tassio Tavares / Divulgação

Trup Errante apresentou a cena Velho Novo Otelo. Foto Tassio Tavares / Divulgação

Sessão Loré, com Bruna Florie. Foto André Amorim / Divulgação

A noite das apresentações da Incubadora Teatral foi a mais disputada no Teatro Dona Amélia. E que ótimo que essa sessão com quatro experimentos cênicos tenha sido tão prestigiada. Isso pode ser traduzido em indícios de formação de público e valorização do artista local pelo público da Aldeia.

A Cia Biruta, grupo que desenvolve importante trabalho de pesquisa e de formação em Petrolina e região exibiu o trabalho Notícias do Dilúvio – Um canto a Canudos. Essa investigação resgata para a cena o desempenho de mulheres na Guerra de Canudos, fato sempre escamoteado pela história. Cris Crispim e Camila Rodrigues atuam como Das Dores e Dos Anjos, personagens desse trabalho que rememoram cenicamente essa experiência de resistência. Uma versão desse estudo em andamento foi apresentada em 2021, no Cena Agora: Encruzilhada Nordestes…, do Itaú Cultural.

Mistura potente das práticas culturais, danças populares do sertão, fé, estratégias de guerra de aquilombamento pela ótica feminina.

Mais três experimentos integraram a ação da Incubadora Teatral. O solo de Ana Paula Ribeiro explorou a força da mulher, a violência historicamente sofrida, o combate a essas agressões, a postura de uma nova mulher, a partir de um corpo insubmisso e vibrante. A Trup Errante, de Petrolina mostrou a cena Velho Novo Otelo. A cia Teatral Pé na Estrada exibiu o seu trabalho em processo Pensando em Nelson, baseada na obra A Vida como ela É, de Nelson Rodrigues.

O Núcleo de Teatro do Sesc Petrolina, liderado com paixão pelo ator e professor Paulo de Melo compartilhou o processo de uma dramaturgia coletiva que eles estão construindo a partir das (des)lembranças das bisavós. Células poéticas tocantes foram exibidas por um grupo de jovens dedicados e criativos, entregues a essa arte. A proposta amorosa de mergulhar na história de cada um promete frutos deliciosos e comoventes. Os afetos que atravessam. Foi bonito de ver.

A Sessão Loré – 100 anos do Theatro Cinema Guarany, de Bruna Florie, um espetáculo de Teatro Lambe Lambe cuidou de exibir no pequeno formato como era o acesso do público mais pobre ao cineteatro construído em 1922, em Triunfo, interior de Pernambuco.

Muitas outras coisas aconteceram das artes da cena nesta Aldeia que foram ressignificadas, ampliadas, aprofundadas durante a realização da Aldeia. E continuam reverberando no corpo dos artistas, do público e da cidade.

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Para pensar a política cultural do Recife

É necessário muito trabalho nos bastidores para que a cultura  do Recife volte a respirar. Na imagem de Andrea Rego Barros, o urdimento do Teatro do Parque.

Teatro do Parque com vista a partir dos camarotes. Foto: Andrea Rego Barros / Divulgação

* Atualizada em 29/01/2021 às 11h51

A política cultural é feita de escolhas. De prioridades e investimentos. Como na regra máxima da economia: recursos escassos para atender a desejos infinitos. Nessa difícil equação, os gestores decidem o que fazer com o orçamento. Alguns apostam na oitiva da população, especialmente daquela porção diretamente envolvida, para tomar decisões. Uns acreditam no seu poder clarividente de entender o que o setor cultural e os cidadãos querem sem escutá-los.

Mas nenhuma escolha é ingênua. Ou aleatória. Ela está atrelada às ideologias. Verbas materializam aspirações, sonhos, projetos. Do que se pensa que é melhor para o universo individual ou coletivo. E quem detém nas mãos a construção desse mundo; ou seja, quem está no poder, tem a chance de escolher onde e como e porque aplicar os investimentos; fornecer as condições básicas, médias e suficientes para que os habitantes sobrevivam, vivam, existam. Então, alguns atores sociais podem ser inviabilizados, não priorizados por investimentos públicos, lançados tão ao fim da fila que nunca chegam sua vez.

David Harvey chama de mercadificação a transformação em mercadoria de formas culturais, históricas e da criatividade intelectual.

A política cultural neoliberal do governo de Pernambuco e do Recife equaliza a dimensão de entrega das decisões para o mercado. Isso ficou notabilizado nos últimos oito anos de gestão do PSB na Prefeitura do Recife e no estado mais do que isso. Foi uma trilha de perdas das conquistas da classe artística, que precisou se juntar em movimentos vários para frear estragos ou garantir pontos fundamentais.

O Teatro do Parque, equipamento administrado pela prefeitura, fechado durante 10 anos e reaberto no fim do ano passado, é um exemplo – que nem sempre aparece nas notas oficiais – da articulação de muitos artistas. Foram diversas Viradas Culturais, protestos, mobilizações, comissões para o teatro ser devolvido lindinho à população.

Com João Campos, do PSB, ocupando a cadeira de prefeito depois de oito anos de Geraldo Júlio (PSB), entraram em cena no início do mês o professor, escritor, documentarista e produtor cultural Ricardo Mello, no cargo de secretário de cultura da cidade do Recife, e o diretor de teatro, professor, José Manoel Sobrinho, como presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife. Ambos foram recebidos de braços abertos pela maior parte da classe teatral. José Manoel, de forma efusiva.

Ricardo Mello, secretário de Cultura do Recife na gestão do prefeito João Campos. Foto: Reprodução do Facebook

José Manoel Sobrinho, presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, na gestão de João Campos. Foto: Thiago Faria / Divulgação

Registramos aqui as inquietações a partir das perguntas que fizemos a algumas pessoas das artes cênicas sobre os gestores atuais. Foram dois questionamentos: 1) a opinião sobre a escolha dos nomes 2) as prioridades para a gestão. As respostas foram dadas entre 5 e 15 de janeiro. 

Basicamente são três marcos de recepção. Os que acreditam plenamente em mudanças com a participação desses gestores; os que sabem do valor dos nomes, mas desconfiam do método PSB de administrar; e os que, apesar de torcer para que a cultura recifense dê certo, não confiam na política desse partido, tendo por base os danos ocorridos nos últimos oito anos. 

Mônica Lira, coreógrafa e bailarina do Grupo Experimental pensa que foi imprescindível chamar pessoas realmente da área de cultura. “Tivemos durante essas duas gestões de Geraldo Júlio, infelizmente, pessoas técnicas, homens machistas, principalmente o ex-presidente da FCCR. Eu tive a experiência, inclusive, lá dentro, interna, que foi muito ruim. Então, acredito que vai ser muito importante se eles (Ricardo Mello e José Manoel) tiverem realmente recursos e abertura para construir uma política que já deixou de existir há muitos e muitos anos”.

Diálogo, esse ato básico de comunicação, é um dos quesitos mais reclamados pelos artistas durante as duas últimas gestões do PSB. “É uma expectativa de que seja um novo momento, um fio de esperança, uma luz no fim do túnel. Porque não está fácil ser artista, permanecer artista morando num país como o Brasil e com esse desgoverno. E principalmente numa cidade em que a cultura não tinha nenhuma prioridade. A cultura nunca foi prioridade para essa gestão de Geraldo Júlio, em nenhum momento”, reforça Mônica Lira.

Atriz, produtora e curadora Paula de Renor assume a administração do Parque Dona Lindu / Teatro Luiz Mendonça. Foto: Reprodução do Facebook

Paula de Renor, atriz, produtora e conselheira do Conselho Estadual de Cultura foi convidada e aceitou a administração do Parque Dona Lindu / Teatro Luiz Mendonça, os dois equipamentos juntos. Essa informação foi divulgada neste 25 de janeiro. Além de produtora, com longa temporada no festival Janeiro de Grandes Espetáculos, do qual se desvinculou há cerca de três anos, ela administrou um dos espaços mais queridos do Recife das últimas décadas: o Teatro Armazém. Atualmente ela produz o Reside – Festival Internacional de Teatro FIT-PE.

“Eu aceitei porque eu quero apoiar Zé Manoel e Ricardo, pois eu acredito neles, nos dois. Eu acho que que a gente tem que ocupar os espaços – a gente quer dizer a classe artística – tem que ocupar os espaços que pertencem à classe. Os teatros pertencem à cidade, à classe e eu acho que ninguém melhor do que os artistas, e artistas que são gestores também e produtores, para cuidarem desses espaços. Os artistas, como ninguém, sabem cuidar, porque eles precisam e vivem desses espaços. Então foi por isso que eu aceitei esse desafio”, contou ao blog Satisfeita, Yolanda? 

Ator, diretor e dramaturgo Giordano Castro. Foto: Reprodução do Instagram

Mesmo reconhecendo a importância dos dois gestores, o ator, diretor e dramaturgo, integrante do Grupo de Teatro Magiluth, Giordano Castro, confessa que “não acredito muito em grandes mudanças”, lembrando que é mais uma gestão do PSB no Recife. E que, em linhas gerais, levando em conta o histórico dos últimos oito anos de administração desse partido na capital pernambucana, o resultado foi o desmantelamento de algumas conquistas.

Entre elas,  o enfraquecimento de festivais importantes como o de teatro, o de dança e o de literatura. “São festivais muito fortes na cidade que, de alguma forma faziam com que a vida cultural da cidade do Recife acontecesse de forma fervorosa. E esses festivais, eles acabaram”. E, por isso mesmo, Giordano ressalta a importante da alternância de poder. “Mas sendo João (Campos) o novo prefeito, nós vamos democraticamente viver com ele nesses quatro anos e torcer para que eu esteja de alguma forma errado em relação a isso”.

Artistas e produtores Mísia Coutinho, Paulo de Pontes e Gheuza Sena. Fotos: Reprodução do Facebook

A torcida pelos novos gestores é grande. Muitos atores, diretores, produtores, botam muita fé, principalmente no nome de José Manoel Sobrinho. “Conheço de perto a dedicação dele, o empenho e a competência”, frisa a produtora e atriz Mísia Coutinho. O ator e produtor Paulo de Pontes corrobora que as escolhas não poderiam ser melhores. “Já nos dá certa esperança”. A atriz Gheuza Sena também aposta suas fichas em José Manoel “que é uma pessoa que eu conheço a fundo, acompanho bastante o trabalho dele, já muitos anos foi meu professor na Fundaj”.

“Para mim, Recife nunca esteve tão bem representado na parte da cultura”, aposta a atriz, modelo e palhaça Fabiana Pirro. “Ricardo Mello é super engajado em várias áreas da cultura, e não é só um administrativo. Ele é uma pessoa realmente das artes, sensível, muito acessível. Acho que ele vai fazer um grande trabalho à frente dessa pasta”. “E Zé Manoel, minha Nossa Senhora, já participamos de vários projetos, foi ele foi quem fez a gente circular o Brasil todo no Palco Giratório com Caetana e Divinas; sempre nos defendeu. Colocou o Sesc Pernambuco no patamar que você sabe bem. Viva as deusas das artes porque a gente precisava de uma pessoa como o Zé, muito trabalhador, muito disposto a realmente mudar o panorama para os artistas e valorizar os artistas”, diz.

Mais do que apoio da classe, eles vão precisar de recursos e de apoio político. “Para que possam atuar concretamente, se fará necessário recursos que possam apoiar e fomentar as ações culturais necessárias para um efetivo fortalecimento das cadeias produtivas dos segmentos culturais, bem como instrumentalizar todos os equipamentos culturais do município, no que tange à manutenção e programação num formato democrático e valorizando as produções locais sem esquecer as produções visitantes” aponta o jornalista, ator e diretor Manuel Constantino.

Ator, diretor e gestor Quiercles Santana. Foto Reprodução do Facebook

O diretor teatral, produtor e gestor Quiercles Santana lembra que José Manoel assumiu, anos atrás, um cargo similar na cidade de Camaragibe e as coisas mudaram muito de feição por lá durante a sua gestão. “Mudaram para melhor, quero dizer. Incrível o que ele sabe do ofício e como a cabeça dele funciona a mil por hora”. Quiercles comemorou a entrada dos dois no que ele chama de campo de batalha. “Porque se trata de fato de um campo de batalha. E é provável que mesmo sendo almirantes de brigada, muito bem habilitados, nem sempre consigam escolher os soldados certos para lutar ao lado deles nas trincheiras. Espero estar errado, do fundo do coração. Mas é que a prefeitura (e não somente ela) está cheia de mortos-vivos, defuntos que esqueceram de deitar faz tempo, mas que continuam ocupando cargos lá, esses fósseis, empurrando com a barriga, cristalizados em formas de gerir e pensar a cultura datadas de meados do século XIX. E nós precisamos de mais Ricardos e José Manoéis que tragam escutas, sensibilidade e traquejo nas realizações que precisam ser concretizadas na área”.

A capacidade de José Manoel de enxergar a periferia é lembrada pelo diretor e professor Rodrigo Dourado. “Eu acho que é uma marca, quer dizer, ele é um homem que olha para as regiões periféricas. Que esse movimento de interiorização que ele realizou no Sesc possa ocorrer nas periferias culturais do Recife. Que saia um pouquinho desse modelo neoliberal dos centros e dos centros culturais regidos por instituições financeiras”.

Diretor do Grupo João Teimoso e da Guerrilha Cultural, Oséas Borba espera que a prefeitura deixe de lado a política de eventos, priorize cada segmento, dê uma atenção especial aos equipamentos culturais e aos editais. “Então quem sabe a gente não volta ao Conselho Municipal de Política Cultural funcionando como ocorreu no início?”.

Os integrantes d’O Poste – Agrinez Melo, Naná Sodré e Samuel Santos – assinalam que durante toda gestão passada, as artes cênicas tiveram perdas que dificultaram a fruição, a criação e a produção em geral. “Perdemos o departamento de artes cênicas, o prêmio de fomento ao teatro , o SIC ( depois de 06/ 07 anos voltou ). Então José Manoel como presidente da Fundação e que tem uma ligação íntima, direta com a classe artística, é ciente dessas perdas e ele tem um histórico de luta cultural e social junto à Feteape (Federação de Teatro de Pernambuco), ao Sesc e outros e que vai pensar e agir para que retornemos a fruir, produzir o teatro e a dança como expressões de respeito e respeitadas no Recife”.

Diretor do Trema! Festival, o ator Pedro Vilela engrossa o coro dos que vibraram com os nomes dos escolhidos, mas levanta outras questões sobre a conjuntura e se realmente a nova gestão está interessada na constituição de uma nova política cultural para a cidade. “Anteriormente assistimos a tática de utilizar nomes referendados pelos próprios artistas para servirem de escudos a uma gestão que pouco procurou investir no setor”. Então, no seu entender, é necessário, para além de nomes, um terreno favorável para que as mudanças sejam postas em prática. 

Ator e produtor Diógenes D Lima

Há também desconfianças e constatações de que a Prefeitura  do Recife é um sistema e que o PSB está ocupando o cargo há oito anos – e que gerou a situação atual. 

“Primeiramente, não acredito nesse grupo que está na gestão. Eles já mostraram em outros mandatos que não estão interessados em fortalecer a cultura e os artistas da cidade. Equipamentos, incentivos… Tudo abandonado, sucateado… Enfim. Não dá para acreditar que ‘esse rapazinho’ tem autonomia de mudar a prática desgraçada de anos do partido que ele faz parte”, comenta o ator e produtor Diógenes D LIma.

Diógenes pensa que, diante disso, os nomes escolhidos pouco ou nada farão, embora sejam pessoas capacitadas. “Noutros mandatos desse mesmo grupo político, já vimos essa jogada: botam gente nossa na gestão e logo depois substituem por pessoas estranhas que nunca foram e nada sabem de gestão em cultura. Mesmo assim desejo toda sorte do mundo aos colegas. Conto com o caráter e a honestidade deles”.

A conjuntura sociopolítica econômica da cidade do Recife forçou a jornalista, poeta e atriz Daniela Câmara a encontrar uma fonte alternativa para garantir a sobrevivência. Desde que começou a pandemia ela produz e vende bolos. Essa mudança provisória de função trouxe ainda mais autonomia para criticar o que ela acha errado. “Sem querer desqualificar os gestores e secretários, mas a decepção é muito grande. Sabe, eu acho que quem levanta certas bandeiras de esquerda não deveria estar levantando as bandeiras do PSB. É minha linha de pensamento”.

 

Mônica Lira, coreógrafa e bailarina

As políticas públicas culturais atingem diretamente a vida dos artistas.  E tanto podem alavancar carreiras, grupos, projetar talentos, como atravancar, atrasar, prejudicar em muitas camadas.

O desabafo de Mônica Lira é emblemático. Ela que sempre expressou o Recife nas suas obras sentiu o sentimento de orfandade bater forte. “Me senti abandonada pela minha cidade, porque eu sempre quis permanecer no Recife, amo esse lugar, mas parece que ele não ama a gente. Mas isso é consequência da política”, relata a coreógrafa e bailarina do Grupo Experimental de Dança. “Tenho total consciência de que a cidade foi completamente abandonada em todos os aspectos ligados a nossa área. E vai ser difícil essa reconstrução porque a gente vive um momento de várias crises. Essa crise que a gente está exposta por conta do Coronavírus ela desencadeia outras crises anteriores.  A gente passa por momentos com muita dificuldade financeira há muitos anos. Então agora só ampliou, né? Aumentaram as dificuldades e o desespero é ver artistas passando fome e ver gente morrendo dessa doença horrível”. 

Há três anos a gente perdeu o Espaço (Experimental, na Rua Tomazina, 199, Recife Antigo ) por conta que a Igreja pediu para fazer uma reforma e até hoje não devolveu. A gente está sem teto. A gente está sem trabalho. A gente tá assim sem nada. Então eu penso que os artistas daqui são quase indigentes. Se os artistas do Recife não tiverem suas famílias, não tiverem os seus apoios eles realmente vão para a rua, ficam à míngua. É como todas as pessoas de bem dessa cidade que vivem hoje num estado de calamidade, de muita vulnerabilidade, nas ruas, sem teto, sem comida, sem nada.

Num festival de dança que assisti online, Ailton Krenak (líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta e escritor brasileiro) falou “como é que a gente vai continuar dançando com fome?”. E é bem isso! Acha que é uma extrema responsabilidade assumir, nesse momento que o país atravessa, uma cidade como o Recife para administrar a sua cultura e para tentar fazê-la de novo viver. Porque a gente está atolado nesse mangue, nessa lama, que parece agora pesar de fato uma tonelada em cima de nós.

 

 

Atriz, bailarina e professora trans Sophia William / Foto: Reprodução do Facebook

“Falta representatividade na Secretaria de Cultura do Recife”, entende a atriz e dançarina e professora trans Sophia William . “Mais uma vez se vê um homem branco hetero cis normativo, sendo escolhido para ocupar tal cargo. Não representando piamente a diversidade cultural em que vivemos, não acolhendo essa representatividade em sua figura. O que não me surpreende, enquanto artista negra e trans da cidade do Recife, perceber que essa escolha vem de um prefeito que também detêm tais privilégios”.

Sophia reconhece que o secretário está apto a ocupar tal cargo por ser formado em publicidade, por ter ocupado já algumas gestões culturais, mesmo assim fica temerosa diante das questões sócio-políticas e artísticas da cidade. Ela lembra que os grupos carnavalescos têm visibilidade apenas no carnaval, assim como as quadrilhas têm  apoio apenas durante os festejos juninos. “Parece que há uma compreensão de que os artistas, eles não ocupam outros espaços e não vivenciam outras épocas do ano. Nós estamos fazendo arte o tempo todo porque nós vivemos dessa arte”, reforça.

“O que seria a sanidade de muitas pessoas durante essa pandemia se não fossem os artistas?”, pergunta Sophia William. “Porque, sem nós, os artistas, eu acredito que muita gente não conseguiria estar passando por essa pandemia. Porque nós artistas por muitas vezes seguramos a sanidade de muitas pessoas, com os nossos trabalhos artísticos na internet, travando diálogo, tentando com nossa arte … então, que a partir de agora a arte seja vista por outra perspectiva, entendendo que, sim, nós precisamos de arte entendendo que sim, nós precisamos da cultura”.

PRIORIDADES

Uma questão fundamental, do pagamento dos artistas, que muitas vezes esperam seis meses para receber o cachê, também é lembrado por Sophia Williams como um problema a ser resolvido. Rodrigo Dourado reforça que é preciso ter muito cuidado com essa questão financeira. “A gente sabe que tem muito descaso em relação à gestão dos pagamentos dos artistas”. Eles lembram que quem vive de arte é profissional da arte e necessita receber o recurso com brevidade após a realização do serviço. É urgente acabar com essa lógica perversa, que virou uma marca da máquina pública.

Atriz, modelo e palhaça Fabiana Pirro. Foto: Reprodução do Instagram

A atriz, produtora e palhaça Fabiana Pirro chama a atenção para os trabalhadores, os artistas carnavalescos, que precisam de um cuidado especial do setor público, mais ainda, nestes meses. “Eu acho que essa pandemia nos mostrou bem isso: a gente tem que viver realmente um dia de cada vez, colocando a saúde em primeiro lugar. E eu acho que os gestores têm que realmente organizar o Carnaval para aquelas pessoas todas que vivem do Carnaval não só como uma data específica e sim a vida delas. Há oito anos participo do palco do Marco Zero, por exemplo, mas eu graças a Deus, hoje tenho os meus outros projetos”.

Com a suspensão do carnaval,  milhares de artistas populares que garantem o sustento na festa enfrentam uma situação delicada. Para ajudar alguns desses artistas, e principalmente chamar atenção do poder público de que os mestres e artistas estão passando necessidade, a vereadora Liana Cirne (PT) fez a doação da verba do Auxílio-Paletó para quatro grupos de cultura popular do Recife. Foram compradas 200 cestas básicas e distribuídas entre as agremiações Cruzeiro do Forte, do Cordeiro; Caboclinho Sete Flechas, de Água Fria; Daruê Malungo, da Campina do Barreto, e Maracatu Nação Estrela Brilhante do Recife, do Alto José do Pinho.

O que o poder público vai fazer para garantir recursos aos grupos, artistas, mestres, mestras e profissionais da cultura envolvidos com Carnaval, isso também faz parte da política cultural.

Ator, diretor e jornalista Manoel Constantino. Foto: Reprodução do Facebook

“Diante de um quadro degenerativo e de desmonte que à cultura vem sofrendo no Recife é de extrema importância a escuta, saber, de fato, as nossas demandas, desencadeando um processo de abertura vital, no que tange a ocupação do centro e da periferia, com a produção cultural realizada por seus agentes”, aponta o jornalista, poeta e ator Manoel Constantino.

Diógenes D Lima insiste no assunto. “Dialogar é o início da solução do problema, mas dialogar não é uma prática dos políticos. Sabemos muito bem disso. Eles pensam que Recife e Pernambuco dormem o ano inteiro, só acordando no Carnaval, São João e Natal e isso é uma tremenda ignorância”, critica. E aponta a responsabilidade: “Penso que a prioridade atual é assistir a todos os fazedores de cultura da região (falo região e não apenas o município, porque a cultura do Recife é feita por gente de outras cidades também e essas pessoas viviam no Recife e do Recife antes da pandemia) bem como os que mantém espaços culturais.. A prefeitura tem que viabilizar meios de manter a cultura viva, mesmo com tudo fechado para eventos”.

A atriz Gheuza Sena enxerga como preocupante a manutenção da cultura, dos equipamentos de cultura durante todo o ano. “É preciso criar realmente um movimento que ajude os artistas ao longo do ano. Independente de ciclos já estabelecidos, focar nessa questão de como desenvolver atividades que ao longo do ano fomentem essa vivência dessas pessoas”.

“Tem tanta coisa para Ricardo Mello e José Manoel tentarem consertar que chega ser difícil apontar por onde começar!”, comentou Paula de Renor, no início do mês. “Sabe casa totalmente desorganizada? Bem, acho que não existe gestor bom sem dinheiro, e essa gestão tem que conseguir aumentar o orçamento municipal anual para a cultura, que é vergonhoso. A luta de todos deve ser esta! Além disso, é preciso reestruturar o Conselho Municipal de Cultura, O Sistema de Incentivo a Cultura, o Plano Municipal de Cultura. Fazer uma ponte entre a cultura e o turismo, buscar soluções para a manutenção dos equipamentos culturais do município. E, o mais importante, promover uma gestão compartilhada entre a Secretaria e a Fundação de Cultura, na elaboração e execução de uma política cultural com ações permanentes e continuadas, democráticas, transparentes e acessíveis”. 

Além do diálogo com a classe artística para ouvir as demandas e necessidades reprimidas, o coreógrafo e bailarino Raimundo Branco aponta que é preciso repensar o edital do SIC. “A forma como ele está não atende às artes cênicas. Ele precisa ser revisto para atender a produção como um todo: pesquisa, montagem, formação, fruição, documentação, manutenção”, acredita Branco. O coreógrafo também cobra um posicionamento sobre o papel da representação de dança dentro da FCCR e da Secretaria de Cultura, a valorização do artista e da cultura pernambucana nos grandes eventos e o fim da política de balcão.

Agrinez Melo, Naná Sodré e Samuel Santos, integrantes d’O Poste.

O Grupo O Poste também reivindica a mudança do edital do SIC, “pois ele é excludente e direcionado. E precisa incentivar a linha de fruição, montagem, pesquisa, circulação, formação para os artistas pretos e pretas e artistas em geral. O atual edital é falho”, pensam os integrantes de O Poste.

Agrinez Melo, Samuel Santos e Naná Sodré, do grupo O Poste clamam por ações de visibilidade para negritude. “Faz 16 anos que o grupo existe e tudo que conseguimos foi mérito nosso, com muito sacrifício. Desde o Espaço O Poste ao Festival Luz Negra. Nunca fomos aprovados em editais da prefeitura”. Entre seus pleitos estão “representantes da negritude dentro do quadro de profissionais culturais da prefeitura; incentivo a espetáculos, formação, festivais negros; atividades formativas e de pesquisa na poética negra em todas as esferas artísticas e fomento aos nossos espaços culturais, nossos quilombos artísticos que servem não só de local para apresentar os nossos trabalhos, mas também de acolhimento e escuta para tantos artistas”.

O jornalista Manoel Constantino argumenta que que “se faz urgente que esta nova gestão entenda que a nossa produção cultural possui uma cadeia extremamente competente, geradora de emprego, renda e de entretenimento, tão fundamental quanto os ciclos tradicionais. A gestão deve priorizar o fomento do dia a dia da cultura. E não apenas sazonalmente”. 

E dá como exemplo os imóveis da PCR no Centro e na periferia, que poderiam ser ativados como centros culturais de vivências. “O Pátio de São Pedro, está lá, com casas pertencentes à PCR que poderiam ser espaços vivos da cultura”. Constantino também sugere a reativação do concurso literário do Recife, que é Lei e a reabertura da Livraria da FCCR, voltada para as obras de autores de Pernambuco. “Há tantas possibilidades. E aí depende da vontade política. Vontade política que entenda que a produção cultural é também mola propulsora do PIB”.

Já Quiercles Santana sugere que documentos sejam revisitados, como a última Conferência Municipal de Cultura, para examinar esses arquivos com urgência, porque quase nada foi implementado. O diretor considera que o campo teatral passa por “uma enorme a indigência”. “Os edifícios teatrais estão ferrados, caindo aos pedaços, pedindo socorro. É problema com falta de equipamentos de som e luz (ou com instrumentos obsoletos), com central de refrigeração deficiente, com equipes técnicas e administrativas defasadas. Os diversos festivais que a cidade abriga devem ser ressignificados”. 

Inspirado, Quiercles Santana aponta muitas propostas, entre elas a retomada de projetos como o PAC (Programa de Animação Cultural) e o FALE (Fórum de Acesso Livre ao Estudante), que tinham Fátima Pontes e o padre Reginaldo Veloso à frente, alguns anos atrás. “Na época, escolas recebiam nos finais de semana pessoas ligadas ao teatro, à dança, ao circo, à grafitagem, ao canto-coral, à capoeira, à percussão, às artes visuais, à música e faziam produções muito potentes. Discutia-se sobre sexo, família, futuro, trabalho, drogas, tudo. Era emocionante ver o espírito crítico florescendo nas comunidades de base. Super importante para sairmos da Idade Média em que estamos metidos. Foi deixando as comunidades ao deus dará, que os filhos de Deus estão fazendo o papel que é do poder público. E a arte e a cultura podem ser armas potentes de educação estética e política. Temos artistas importantes que podem circular com oficinas e cursos mais duradouros”.

Oséas Borba toca em outro ponto que é a burocracia de licença de solo para quem trabalha com eventos de rua, como ele, que coordena o Sarau das Artes. “É muito desgastante para qualquer produtor ter que ir em vários lugares, vários órgãos diferentes, para conseguir uma licença para fazer um evento na rua. Então é preciso democratizar isso para os artistas que trabalham com eventos na rua. Além de dar uma atenção especial ao Recife Antigo, ao bairro Boa Vista, a todos esses casarões. Tem muito casarão abandonado que pode virar, como tem pé direito os altos, podem virar excelentes espaços culturais”, sinaliza.

Essas apostas ou mesmo declarações de desconfianças dos artistas da cena traduzem a vontade de que o cenário artístico-cultural do Recife volte a ser vigoroso e vibrante. Nós torcemos para que a capital pernambucana reverta essa condição de apatia e exerça um papel preponderante na cultura do país, que seus artistas tenham toda as condições necessárias para alçar altos voos, realizar seus projetos e exercer o talento. Com reconhecimento, respeito e incentivo do estado. Vamos desejar, que o desejo movimenta o mundo. 

 

Postado com as tags: , , , , , ,

27º Janeiro de Grandes Espetáculos tem programação enxuta, presencial e digital

Janelas para Navegar Mundos, do Coletivo Trippé, de Petrolina. Foto: Wiharlley Rubson

Tudo é uma questão de referencial. A 27ª edição do Janeiro de Grandes Espetáculos – JGE Conecta começa nesta quinta-feira (7) com uma programação enxuta: 35 espetáculos exibidos on-line e 13 presenciais, no Teatro de Santa Isabel, Teatro do Parque e Teatro Luiz Mendonça. No ano passado, uma edição construída depois do revés de 2019 –  que cancelou a apresentação da atriz Renata Carvalho, ocasionando desistências de apresentações de vários grupos em solidariedade à artista – , o festival contou com 90 atrações e programação na capital e em mais seis cidades: Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe, Goiana, Caruaru, Garanhuns e Serra Talhada.

As circunstâncias relativas à pandemia do coronavírus e as restrições econômicas brecaram o ímpeto megalomaníaco costumeiro do festival, mas marcaram uma posição importante de existência/resistência. Além disso, é possível dizer que a programação 2021 tem coerência e a marca de José Manoel Sobrinho, gerente de programação do festival, recém empossado presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife.

A programação inclui, por exemplo, três espetáculos da região Norte: Mestiçagem / Megesitsem, da Contém Dança Cia; Jogo do Bicho, do grupo Garagem (ambos grupos do projeto de residência de Artes Cênicas do Sesc Amazonas, de Manaus); e Lugar da Chuva, do coletivo Frêmito Teatro, do Macapá, em parceria com o Agrupamento Cynétiko, de São Paulo. “O Nordeste precisa dialogar com a produção de todas as regiões do Brasil. Procurei aproximar um pouco mais o Norte, apesar da dificuldade que se tem”, diz José Manoel.

Outra marca dessa programação é a participação massiva de grupos do interior do estado – uma queixa antiga que foi resolvida este ano, em parte, pelas “facilidades” do digital. Só de Petrolina, no Sertão pernambucano, temos os espetáculos Cavalo, da Qualquer um dos 2 Companhia de Dança, que será presencial, no Teatro do Parque; Janelas para navegar mundos (on-line) e Debaixo d’Água, presencial, no Teatro de Santa Isabel, ambos do Coletivo Trippé; Rua dos Encantados, da Cia de Teatro Sarau das Seis; Sentimentos Gis, de Cleybson Lima; Desalinho, do Núcleo 27 de Dança; e Processo Medusa, do Núcleo Biruta de Teatro.

Cavalo, espetáculo da Qualquer um dos 2 Companhia de Dança. Foto: Thierri Oliveira

Grupos consolidados da capital pernambucana, que participam com frequência do Janeiro de Grandes Espetáculos, desta vez não estão na programação. “Os grupos de referência não estão presentes porque não se inscreveram”, explica José Manoel. “O interior inscreveu muito mais do que a Região Metropolitana do Recife. Nenhum espetáculo de dança da Região Metropolitana se inscreveu para a programação presencial. Nós não tínhamos nem a oportunidade da escolha, porque não houve inscrição”, complementa.

Outra perspectiva para a ampliação das inscrições do interior pode estar na participação da Ripa – Rede Interiorana de Produtores, Técnicos e Artistas de Pernambuco na comissão de seleção, que pensou a programação 2021, e fez uma divulgação massiva do edital. Além de Djaelton Quirino, representante da Ripa, participaram da comissão Gheuza Sena (atriz do Recife), Genivaldo Francisco (representante da Amotrans – Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de PE) e Clara Isis Gondim (bailarina de Petrolina).

O Botequim da Elizeth Cardoso, espetáculo assinado pela Amotrans. Foto: Divulgação

Outra questão que talvez deva ser levada em conta é que o edital pedia que os espetáculos inscritos nunca tivessem se apresentado no festival, o que pode ter inviabilizado a participação de grupos da capital que não estrearam trabalhos no 2020 pandêmico.

A programação não inclui também nomes mais consagrados no cenário nacional e internacional. “Não há e não houve nenhuma intenção do Janeiro de Grandes Espetáculos de manter uma distância dos ícones, das referências do teatro brasileiro ou internacional. O que houve foi uma limitação real do atual contexto que a gente vive”, confessou o gerente de programação.

Até a primeira semana de dezembro de 2020, as equipes de trabalho envolvidas no festival não tinham certeza do orçamento do JGE. A programação foi pensada com grupos que aceitaram receber percentuais de bilheteria, ao invés de cachês fixos, ou toparam se apresentar gratuitamente – principalmente aqueles que possuem ligações com grupos de pesquisas de universidades ou com o Sesc do Amazonas, por exemplo. De acordo com Paulo de Castro, diretor geral do festival, o orçamento total do JGE Conecta é de R$ 630 mil.

Novidades – Uma parte substancial da programação do Janeiro este ano integra a Mostra de Escolas Independentes de Teatro, Dança e Circo, com apresentações sem cobrança de ingressos. O público será chamado a colaborar com os valores que desejar e o total será dividido entre os grupos.

Segundo José Manoel, “a mostra tem um caráter pedagógico, de discutir sustentabilidade, como sobrevivem as escolas independentes de teatro, dança e circo que, de fato, são grandes formadores hoje de artistas em Pernambuco. O conceito de qualidade passa pela possibilidade da vivência”.

Outra novidade é a inclusão da linguagem do circo como uma categoria do Janeiro, ao lado de Teatro adulto, Teatro para infância e juventude, Dança, Música e Mostra de Escolas Independentes de Teatro, Dança e Circo.

Desobediência, da Escola O Poste. Foto: divulgação

Abertura – Mesmo que a cerimônia de abertura vá acontecer de forma online, não vai ser desta vez que os espectadores se livraram dos tradicionais e tediosos – com raríssimas exceções – discursos da noite inaugural. A conta do Instagram do festival marcou a participação do secretário de Cultura de Pernambuco, Gilberto Freyre Neto, do prefeito do Recife, João Campos, do secretário de Cultura do Recife, Ricardo Mello, e de José Manoel Sobrinho, gerente de programação da edição 2021 e agora presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife.

Os homenageados desta edição foram divididos por categoria. Na música, o maestro Ademir Araújo e a pianista Ellyana Caldas. No teatro, o escritor e dramaturgo Ronaldo Correia de Brito e a atriz Arari Marrocos, de Caruaru. No circo social, a artista-educadora Fátima Pontes; e, no circo popular, o mágico Alakazam. Na dança, o artista e pesquisador Jailson Lima, de Petrolina, e a bailarina Cláudia São Bento.

A programação de abertura, que será gratuita, contará com apresentações de Laís de Assis, violeira e violonista, e de Gabi da Pele Preta, que se autodenomina “cantriz”. A mestre de cerimônias será a atriz Fernanda Spíndola.

Bilheteria – Tanto para os espetáculos presenciais quanto para os que vão acontecer on-line, os ingressos custam R$ 20 (com cobrança de taxa adicional de R$ 2,50 pela Sympla). As transmissões dos espetáculos online vão acontecer pelo YouTube do festival e algumas conversas chamadas de “Palavração”, pelo Instagram.

PROGRAMAÇÃO GERAL
27º JANEIRO DE GRANDES ESPETÁCULOS – JGE CONECTA

07/01 – quinta-feira

19h30 – Abertura do 27º JGE  (on-line)
Apresentações de Laís de Assis (Recife) e Gabi da Pele Preta (Caruaru)
Gratuito

08/01 – sexta-feira

19h30 – JGE CONECTA AO VIVO – Música (presencial) – Teatro Luiz Mendonça
Augusto Silva & Frevo Novo (Recife) 

21h – JGE CONECTA TEATRO (on-line) – Caipora Quer Dormir  – um espetáculo infantil para adultos (Giselle Rodrigues Britto e Jonathan Andrade, Grupo de Pesquisa MOVER, do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília – UnB     

Caipora Quer Dormir – um espetáculo infantil para adultos. Foto: Diego Bresani

09/01 – sábado

16h – MOSTRA JGE ESCOLAS INDEPENDENTES DE TEATRO, DANÇA E CIRCO (on-line)
Desobediência (Escola O Poste de Antropologia Teatral, Recife)
Gratuito com campanha de arrecadação no Picpay e QR Code

19h30h – JGE CONECTA AO VIVO – DANÇA (presencial) – Teatro do Parque
Cavalo (Qualquer um dos 2 Companhia de Dança, Petrolina) 

21h – JGE CONECTA MÚSICA – (on-line)
Chris Nolasco – Sou Negra (Recife) 

10/01 – domingo

19h30 – JGE CONECTA AO VIVO – CIRCO (presencial) – Teatro Luiz Mendonça
Enquanto Godot não Vem (Cia. 2 em Cena, Recife) 

21h – JGE CONECTA DANÇA (on-line) – À um Endroit du Début (A um lugar do Início, com Germaine Acogny, École des Sables,, Dakar – Senegal)

11/01 – segunda-feira

10h – JGE CONECTA PALAVRAÇÃO – (on-line)
Conversas virtuais

16h – JGE CONECTA TEATRO PARA INFÂNCIA E JUVENTUDE (on-line)
Re te Tei (Tropa do Balacobaco, Arcoverde) 

21h – JGE CONECTA TEATRO ADULTO (on-line)
A Paixão de Brutus – Um Teatro – Canção sobre o Julio Cesar de Shakespeare (Pedro Sá Moraes, Rio de Janeiro) 

12/01 – terça-feira

21h – JGE CONECTA DANÇA (on-line)
Janelas para navegar mundos (Coletivo Trippé, Petrolina) 

13/01 – quarta-feira

19h – JGE CONECTA TEATRO ADULTO (on-line)
Cachorros não Sabem Blefar (Grupo? Que absurdo!, Caruaru) 

21h – JGE CONECTA MÚSICA. (On-line)
Trajetória Instrumental (Recife) 

14/01– quinta-feira

10h – JGE CONECTA PALAVRAÇÃO – (on-line)
Conversas virtuais

16h – MOSTRA JGE ESCOLAS INDEPENDENTES DE TEATRO, DANÇA E CIRCO (on-line)
E nós que nos Queríamos tão Bem (Curso de Interpretação para o Teatro, CIT, Sesc Piedade – Jaboatão dos Guararapes)                                                                                                                              Gratuito com campanha de arrecadação no Picpay e QR Code

20h – JGE CONECTA AO VIVO – TEATRO (presencial) – Teatro de Santa Isabel
Depois do Fim do Mundo (Cia Experimental de Teatro, Vitória de Santo Antão)

21h – JGE CONECTA DANÇA (on-line)
DNA do Passo (Grupo Destramelar, Recife) 

15/01 – sexta-feira

18h – MOSTRA JGE ESCOLAS INDEPENDENTES DE TEATRO, DANÇA E CIRCO (on-line)
Experimento Multimídia: um Jogo Dialético (Curso de Interpretação para o Teatro, CIT, Santo Amaro, Recife                                                                                                                                     Gratuito com campanha de arrecadação no Picpay e QR Code

19h30 – JGE CONECTA AO VIVO – MÚSICA (presencial) – Teatro do Parque
Viva Pernambuco Ano 20 – André Rio e Convidados: Maestro Fábio Valois e Luciano Magno (Recife) 

21h – JGE CONECTA TEATRO ADULTO (on-line)
Rua dos Encantados (Cia de Teatro Sarau das Seis, Petrolina)

16/01 – sábado

16h – JGE CONECTA AO VIVO – DANÇA PARA CRIANÇAS (presencial) – Teatro de Santa Isabel
Debaixo d`Agua (Coletivo Trippé, Petrolina) 

18h – MOSTRA JGE ESCOLAS INDEPENDENTES DE TEATRO, DANÇA E CIRCO (on-line)
O Despertar (Curso de Teatro Cênicas Cia de Repertório, Recife)                                                          Gratuito com campanha de arrecadação no Picpay e QR Code

21h – JGE CONECTA MÚSICA (on-line)
Revoredo (Garanhuns) 

17/01 – domingo

16h – JGE CONECTA AO VIVO – Teatro para Crianças e Jovens (presencial) – Teatro do Parque
O Espelho da Lua (Tropa do Balacobaco, Arcoverde) 

18h – JGE CONECTA CIRCO (on-line)
O Matuto (Rapha Santacruz, Recife) 

21h – JGE CONECTA DANÇA (on-line)
Sentimentos Gis (Cleybson Lima, Petrolina) 

18/01 – segunda-feira

10h – JGE CONECTA PALAVRAÇÃO – (on-line)
Conversas virtuais

16h – JGE CONECTA TEATRO PARA INFÂNCIA E JUVENTUDE (on-line)
Salve o Marmulengo (Mamulengo Jurubeba, Recife) 

21h – JGE CONECTA Dança (on-line)                                                                                                 Trastos (Juliana Atuesta, Bogotá, Colômbia) 

19/01 – terça-feira

10h – JGE CONECTA PALAVRAÇÃO – (on-line)
Conversas virtuais

16h – JGE CONECTA TEATRO PARA INFÂNCIA E JUVENTUDE (on-line)
Memórias da Emilia (Grupo de Teatro Ená Iomerê, do Colégio Diocesano de Caruaru) 

21h – JGE CONECTA TEATRO (on-line)                                                                                                  Lugar da Chuva (Frêmito Teatro, Macapá, e Agrupamento Cynétiko, São Paulo )

20/01 – quarta-feira

10h – JGE CONECTA PALAVRAÇÃO – (on-line)
Conversas virtuais

19h – JGE CONECTA TEATRO ADULTO (on-line)
Congresso do Kaos (Teatro do Amanhã, Jaboatão dos Guararapes) 

20h – JGE CONECTA AO VIVO – MÚSICA (presencial) – Teatro de Santa Isabel
Pajeú de Cantoria e Contações: Paulo Matricó (Tabira) 

21/01 – quinta-feira

19h – JGE CONECTA AO VIVO – TEATRO (presencial) – Teatro do Parque/jardim
Ópera D’Água (Reduto CenaLAB, Surubim) 

19h – JGE CONECTA DANÇA (on-line)                                                                                      Mestiçagem / Megesitsem (Contém Dança Cia, Projeto de Residência de Artes Cênicas do Sesc Amazonas, Manaus)
Gratuito

21h – JGE CONECTA TEATRO (on-line)                                                                                                      Sonhares (Teatro do Instante, vinculado ao Grupo de Pesquisa Poéticas do Corpo, da Universidade de Brasilia – UnB)
Gratuito

22/01 – sexta-feira

16h – MOSTRA JGE ESCOLAS INDEPENDENTES DE TEATRO, DANÇA E CIRCO (on-line)
Processo Medusa (Núcleo Biruta de Teatro, Petrolina)
Gratuito com campanha de arrecadação no Picpay e QR Code

19h30 – JGE CONECTA AO VIVO – MÚSICA (presencial)
Lua Costa Canta Vanessa da Mata (Jaboatão dos Guararapes) – Teatro Luiz Mendonça

21h – JGE CONECTA TEATRO (on-line)                                                                                                       Jogo do Bicho (Grupo Garagem, Projeto de Residência de Artes Cênicas do Sesc Amazonas, Manaus                                                                                                                                              

23/01 – sábado

16h – MOSTRA JGE ESCOLAS INDEPENDENTES DE TEATRO, DANÇA E CIRCO (on-line)
Contos em Dor Maior (Escola de Teatro Fiandeiros, Recife
Gratuito com campanha de arrecadação no Picpay e QR Code

20h – JGE CONECTA AO VIVO – TEATRO (presencial) – Teatro de Santa Isabel
Desatinos (Cia Capela Alquímica, Recife) 

21h – JGE CONECTA MÚSICA (on-line)
Istmo Digital (Sargaço Nightclub, Recife)

24/01 – domingo

10h – JGE CONECTA PALAVRAÇÃO – (on-line)
Conversas virtuais

18h – MOSTRA JGE ESCOLAS INDEPENDENTES DE TEATRO, DANÇA E CIRCO (on-line)
DiverCircus (Escola Pernambucana de Circo, Recife)
Gratuito com campanha de arrecadação no Picpay e QR Code

19h30 – JGE CONECTA AO VIVO – TEATRO (presencial) – Teatro do Parque
O Botequim de Elizeth Cardoso (Amotrans – Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco, Recife) 
Ingresso: 1 quilo de alimento

21h – JGE CONECTA TEATRO (on-line)                                                                                                   Pele Negra, Máscaras Brancas (Cia de Teatro da UFBA, Salvador)

Pele Negra, Máscaras Brancas. Foto: Adeloyá Magnoni

25/01 – segunda-feira

10h – JGE CONECTA PALAVRAÇÃO – (on-line)
Conversas virtuais

18h – JGE CONECTA ESCOLAS INDEPENDENTES DE TEATRO, DANÇA E CIRCO (on-line)
Desalinho (Núcleo 27 de Dança, Petrolina)
Gratuito com campanha de arrecadação no Picpay e QR Code

21h – JGE CONECTA MÚSICA (on-line)
Violão Solo Nordestino (Renan Melo, Pesqueira) 

26/01 – terça-feira

10h – JGE CONECTA PALAVRAÇÃO – (on-line)
Conversas virtuais

16h – MOSTRA JGE ESCOLAS INDEPENDENTES DE TEATRO, DANÇA E CIRCO (on-line)
O Desagradável Nelson Rodrigues (Teatralizar Curso de Teatro, Paulista)
Gratuito com campanha de arrecadação no Picpay e QR Code

21h – JGE CONECTA TEATRO (on-line)                                                                                              Opereta Popular Canto de Reis (Coletivo Terra, Crato)

27/01 – quarta-feira

10h – JGE CONECTA PALAVRAÇÃO – (on-line)
Conversas virtuais

16h – MOSTRA JGE ESCOLAS INDEPENDENTES DE TEATRO, DANÇA E CIRCO (on-line)
Ubu, O Rei do Gado (Escola Municipal de Arte João Pernambuco, Recife)
Gratuito com campanha de arrecadação no Picpay e QR Code

20h – JGE CONECTA AO VIVO – Música Instrumental (presencial) – Teatro de Santa Isabel 
Festa Eslovaco Pernambucana  (Coletivo Brasil-Eslováquia, Conselho de Artes Eslováquia)

28/01 – quinta-feira

10h – JGE CONECTA PALAVRAÇÃO – (on-line)
Conversas virtuais

19h30 – JGE CONECTA ENCERRAMENTO
PRÊMIO JGE COPERGÁS – Teatro do Parque

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,