Centro de Pesquisa Teatral – CPT
retoma atividades em formato digital

Legado de Antunes Filho é tema de seminário Foto: Emidio Luisi / Divulgação

A Pedra do Reino, montagem de 2006. Foto Isabel DElia / Divulgação

O escritor Ariano Suassuna e Antunes Filho na estreia d’A Pedra do Reino. Foto: Emidio Luisi / Divulgação

Última peça de Antunes, Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse. Foto: Matheus José Maria

Antunes dirigindo Xica da Silva, em 1988

Desde a década de 1980 que muitos aspirantes a atrizes e atores de todo Brasil sonhavam ou se arriscavam na concorrida seleção para integrar as turmas de formação do Centro de Pesquisa Teatral – CPT-Sesc. Criado em 1982 e coordenado por Antunes Filho, até a morte do encenador, em maio do ano passado, o laboratório permanente de concepções teatrais, aprendizado de atores e de dramaturgos ganhou corpo e fez história. Virou referência no Brasil e exterior. O trabalho inestimável de Antunes é destacado neste momento em que o CPT investe na expansão de ações para o digital, numa busca de ampliação de acesso.

O CPT-SESC formou mais de mil profissionais das artes cênicas entre atores, dramaturgos, cenógrafos e iluminadores e criou 46 espetáculos – Macunaíma, Antígona, Xica da Silva, A Pedra do Reino, Blanche, Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse, entre outros.

No material de divulgação, o diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda destaca esse momento urgente de valorização do teatro. “É num mundo que exclama por autocrítica e autorreflexão que o CPT-SESC, inspirado no legado do eterno Antunes Filho e irmanado a tantas mentes talentosas, reitera a força transformadora e necessária do teatro”.

Disposta em cinco frentes, a programação, está dividida em Formação de Atores; Criação e Experimentação; Dramaturgia; Cenografia; e Memória, Acervo e Pesquisa.

As atividades começam já nesta terça-feira, 1º de setembro, e abrangem seminários, bate-papos, debates, ateliês de dramaturgia, mostras digitais do acervo, laboratórios, cursos, entre outras. Alguns profissionais que participam dessas jornadas e que nutrem ligações com o CPT são os fotógrafos Emídio Luisi, Lenise Pinheiro e Bob Sousa, as dramaturgas Silvia Gomez e Michelle Ferreira e o cenógrafo JC Serroni.

O seminário CPT 2020 é a primeira ação desta nova fase e ocorre desta terça a quinta, dias 1º, 2 e 3 de setembro, às 11h, com transmissão pelas redes do CPT-SESC. Os assuntos devem rondar o legado de Antunes e as novas perspectivas para a criação e experimentação teatrais.

Samir Yazbek, Marcio Abreu, Gabriel Villela, Bia Lessa, Christiane Jatahy e Janaina Leite participam do seminário

No primeiro dia, participam os diretores Samir Yazbek, Gabriel Villela e Bia Lessa e o diretor regional do Sesc-SP, Danilo Santos de Miranda. Na quarta-feira, dia 2, o foco é a teatralidade nos dias de hoje, com Marcio Abreu (diretor-encenador da Cia Brasileira de Teatro), Christiane Jatahy (diretora-encenadora) e Grace Passô (atriz, diretora e dramaturga). Na quinta, dia 3, encerrando o seminário está agendada a primeira edição do Diálogos e Intercâmbios, evento mensal criado para promover o intercâmbio entre diretores de coletivos ibero-americanos -, este dia com conversa entre os colombianos Rolf Abderhalden e Ximena Vargas, do Mapa Teatro, e os brasileiros Marcos Felipe (diretor da Cia Mungunzá) e Janaina Leite (pesquisadora e fundadora do Grupo XIX).

 

Outras ações

        • Videodepoimento Antunes Filho em Primeira Pessoa concedido em 2014 ao CPF – Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, entra no ar, na plataforma do Sesc Digital, no dia 9 de setembro, quarta-feira
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        • De 5 de setembro a 29 de novembro, sábados e domingos, às 14h, quinzenalmente ocorre a primeira etapa do Círculo de Dramaturgia, a ser desenvolvido por sete dramaturgos convidados – entre eles Dione Carlos e Francisco Carlos. Eles conduzirão um ateliê imersivo de criação dramatúrgica, com duração de um final de semana, inspirado em seus próprios conceitos e metodologias de escrita.
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        • Cenografia Contemporânea em Primeira Pessoa tem organização e mediação de Aby Cohen. A série de debates acontece de 8 de setembro a 15 de dezembro, terças-feiras, às 20h, e e vai mergulhar no pensamento cenográfico contemporâneo, seus entrecruzamentos e especificidades.
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        • No dia 14 de setembro, acontece o primeiro debate da série Círculo de Debates – Memória, Acervo e Pesquisa, A Pedra do Reino, peça baseada na obra de Ariano Suassuna, que esteve em cartaz em 2006. No primeiro encontro-preservação de acervos teatrais, estarão Chico Pelúcio, Elisabeth Azevedo e Fausto Vianna e a mediação será de Ilona Hertel. Os temas seguintes – Fotografia de Teatro, Crítica Teatral e Dramaturgia – acontecem nos dias 21, 28 de setembro e 5 de outubro.
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        • Até dezembro, ficam em cartaz mostras digitais do acervo de peças encenadas pelo CPT, com figurinos, cartas, peças gráficas e outros itens. Integram a mostra:
          de 14 de setembro a 13 de outubro A Pedra do Reino (de 2006);
          de 14 de outubro a 13 de novembro, A Hora e a Vez de Augusto Matraga (de 1986);
          de 14 de novembro a 13 de dezembro, Xica da Silva (de 1988);
          e de 10 a 31 de dezembro, Tragédias (de 2001, 2002 e 2005), acompanhadas por novos encontros que compõem o Círculo de Debates – Memória, Acervo e Pesquisa. 
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        • Uma série de minicursos individuais e complementares de iniciação às técnicas e recursos tecnológicos que podem ser empregados na criação de espetáculos online e presenciais, é a proposta dos Minicursos Laboratórios, de 15 de setembro a 5 de novembro, terças e quintas-feiras, às 19h. Entre os temas estão: Videoatuação – O uso da câmera de vídeo em cena e no ambiente virtual, com Yghor Boy; Iluminação, com Aline Santini; Ambiência Sonora, com Julia Zakia e Guile Martins; e Zoom – A Quinta Parede, com Bruno Kott. As atividades estarão conectadas ao programa do Espaço de Tecnologias e Artes do Sesc – ETA.
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        • A partir do dia 16 de setembro, acontece o laboratório cênico Vagamundos coordenado pela diretora Maria Thais. Com duração de nove meses, a residência artística terá três etapas. Os primeiros encontros, virtuais, compõem o “Abrindo Terreiros” e contam com participantes de diversos saberes e fazeres. Acontecerão às quartas e quintas-feiras, às 15h e estarão abertos a todos, no canal do CPT no YouTube. A partir da segunda parte, denominada “Talhar”, um grupo inscrito e selecionado participa de um ateliê prático para criação e fabricação de estudos cênicos a partir de materiais narrativos diversos. 
        • Em Decupando Espetáculos, que acontece a partir do dia 18 de setembro, artistas que foram cocriadores nos espetáculos do CPT selecionaram trechos das obras disponíveis na plataforma do Sesc Digital para tecer comentários sobre suas participações nessas realizações. O primeiro deles é Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse – último espetáculo dirigido por Antunes e estreado em 2018. Entre os comentadores das peças estão Simone Mina, Suzan Damasceno, Marcos de Andrade, Raul Teixeira, Telumi Hellen, Rodrigo Mercadante e Fernanda Maia.
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        • No curso livre Primeiro Recorte – Corpo, de 20 de outubro a 5 de novembro, o conhecimento de diferentes linguagens – dança, performance, ioga – amplia o corpo cênico/poético do intérprete no teatro.
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        • Ex-integrantes que participaram de processos e pesquisas no CPT e seguiram caminhos diferentes que não só o teatro, dividem suas experiências no Outras Trajetórias, vídeo que será lançado a partir de novembro.
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        • Reforçando o intercâmbio e o incentivo à circulação de informações, serão realizadas Aproximações Pedagógicas com entrevistas exclusivamente sonoras com profissionais ligados às coordenações pedagógicas das escolas de formação em teatro. Serão disponibilizados oito episódios, no período de 28 de outubro a 16 de dezembro.
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        • De 7 de novembro a 19 de dezembro (sábados, às 13h, quinzenalmente), quatro mestres, ex-integrantes do CPT, participam da série Pílulas de Pesquisas Acadêmicas, na qual falarão sobre suas teses. Seus estudos tratam justamente sobre essa formação e a pesquisa acerca do trabalho de Antunes Filho e do próprio CPT.

PROGRAMAÇÃO DE ABERTURA

SEMINÁRIO CPT 2020
Atividade online no youtube.com/cptsesc
Série de três encontro: reflexão sobre o legado de Antunes Filho com as perspectivas para a criação e experimentação nas artes cênicas.

1º setembro – terça-feira, às 11h
O LEGADO DE ANTUNES FILHO
Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc-SP, recebe os diretores Samir Yazbek, Gabriel Villela e Bia Lessa para uma conversa sobra a influência de Antunes Filho no processo criativo deles.
apresentação e mediação: Sérgio Luís

2 setembro – quarta-feira, às 11h
NOVAS TEATRALIDADES E ESTRATÉGIAS PARA A EXISTÊNCIA DO TEATRO
Marcio Abreu (diretor-encenador da Cia Brasileira de Teatro), Christiane Jatahy (diretora-encenadora) e Grace Passô (atriz, diretora e dramaturga) discutem a continuidade e transformação de seus fundamentos nos novos tempos.
apresentação e mediação: Tommy Pietra

3 setembro – quinta-feira, às 11h
DIÁLOGOS E INTERCÂMBIOS
Estreia da série Diálogos e Intercâmbios – atividade mensal para promover o intercâmbio entre diretores de coletivos ibero-americanos – com a participação dos diretores Rolf Abderhalden e Ximena Vargas, do Mapa Teatro (Colômbia) e dos encenadores brasileiros Marcos Felipe, diretor da Cia Mungunzá e Janaina Leite, pesquisadora e fundadora do Grupo XIX.
apresentação e mediação: Emerson Pirola

PROGRAMAÇÃO CPT 2020

5 e 6 setembro – sábado e domingo, às 14h
UMA DRAMATURGIA – ATELIÊ DE ESCRITA
com Silvia Gomez, dramaturga e jornalista, mineira de Belo Horizonte, radicada em São Paulo desde o início dos anos 2000. Autora das peças O céu cinco minutos antes da tempestade (2008) e Mantenha fora do alcance do bebê (2015), prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor texto, entre outas.

8 setembro a 15 dezembro – terças-feiras, às 17h [quinzenalmente]
CENOGRAFIA CONTEMPORÂNEA EM PRIMEIRA PESSOA
atividade online no youtube.com/cptsesc
Coordenada por Aby Cohen, a série de oito encontros discute temas do pensamento cenográfico contemporâneo, seus entrecruzamentos e especificidades

9 de setembro – quarta-feira, às 11h
ANTUNES FILHO EM PRIMEIRA PESSOA
disponível na plataforma Sesc Digital
Registrado em 2014 pelo Centro de Produção Audiovisual do Sesc, esse depoimento em áudio revela os processos, os objetivos e os caminhos do trabalho realizado no CPT.

14 setembro a 13 outubro
A PEDRA DO REINO – coleções e acervos históricos CPT_SESC
disponível na plataforma Sesc Digital
Figurinos, objetos de cena, materiais gráficos em coleção virtual que apresenta o acervo do espetáculo A Pedra do Reino, romance homônimo de Ariano Suassuna, montado em 2006 pelo CPT/Sesc, com direção de Antunes Filho.

14 setembro – segunda-feira, às 18h
CIRCULO DE DEBATES

MEMÓRIA, ACERVO E PESQUISA – PRESERVAÇÃO DE ACERVOS TEATRAIS
atividade online no youtube.com/cptsesc
com Elisabeth Azevedo, Fausto Vianna e Chico Pelúcio
apresentação e mediação: Ilona Hertel

15 a 24 setembro – terças e quintas-feiras, às 19h
MINICURSO LABORATÓRIO – ILUMINAÇÂO

atividade online na plataforma Teams
coordenado por Aline Santini, o curso oferece iniciação à técnica e recursos tecnológicos de iluminação que podem ser empregados na criação de espetáculos online e presenciais
Inscrições a partir de 8 de setembro

Serviço
Reabertura do Centro de Pesquisa Teatral CPT_SESC
A partir de 1º de setembro de 2020
www.sescsp.org.br/cpt | instagram/cptsesc

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Teatro para os ouvidos e outros sentidos
Crítica da peça sonora “Maré”

A atriz Cássia Damasceno, da companhia brasileira de teatro.

A companhia brasileira de teatro propõe um encontro diferente. Em vez de reforçar o apelo feito à exaustão para os olhos, o grupo privilegia outro sentido: a audição. É a partir do ato de ouvir – se quiser, de olhos fechados, e imaginar e compor e criar as paisagens sussurradas nessas Escutas Coletivas – que se instala o ato teatral

A primeira edição apresenta a peça sonora Maré, com dramaturgia e direção de Marcio Abreu; desenho sonoro do músico e compositor Felipe Storino; e conduzido pelas vozes de Cássia Damasceno, Fabio Osório Monteiro, Felipe Storino, Giovana Soar, Grace Passô, Key Sawao e Nadja Naira.

É uma criação cênica fincada na dimensão sonora. As falas, nas quatro perspectivas do acontecimento, foram gravadas pelos atores individualmente, com seus celulares e enviadas a Abreu e Storino.

Com os espectadores, cada qual no seu canto, com seus fones de ouvidos ou caixas de sons de olhos fechados, ou abertos (naveguei melhor com os olhos cerrados), acomodados em sofás, camas, chão ou onde preferisse, sentados, de pé, deitados, de lado, do jeito que quisesse, durante 40 minutos, ouvimos uma história.

O episódio está dividido em três movimentos. Um prólogo em que o diretor expõe e contextualiza a ação, a escuta sonora compartilhada ao mesmo tempo pelas pessoas presentes na sala virtual e a conversa entre a equipe artística e o público.

Maré foi escrita em 2015 por Marcio Abreu a pedido do mineiro Grupo Espanca. É situada como uma reação artística ao real: uma chacina ocorrida na Maré em 2013. O Complexo da Maré é um dos maiores conglomerados de favelas do Rio de Janeiro, na zona norte da cidade. Naquele ano, o Brasil foi sacudido por uma série de protestos e manifestações de reivindicações várias, que ficaram conhecidas como Jornadas de Junho.

Infelizmente esse não é um caso isolado. Extermínios e carnificinas são comuns nas áreas mais periféricas e empobrecidas, não só do Rio de Janeiro, como nas diversas cidades do país. São crimes cometidos normalmente pela polícia ou pela milícia. Atrocidades frequentemente acobertadas ou não combatidas com eficácia pelo Estado.

As figuras desta peça sonora moram num espaço exíguo – “uma lata de sardinha”, o que não facilita a intimidade do casal: “Esse homem é gostoso me pega quietinho” – expõe a alta voltagem de amorosidade dos seus integrantes. Os adultos trabalham longe de casa e perdem muito tempo no trajeto. A avó assume a ancestralidade, a viga mestra; as crianças, os tesouros; a mãe e o pai.

Cada um desses quatro focos narra, do seu ângulo, a violência policial em um dia de brincadeiras, televisão apaziguadora, “o melhor feijão do mundo”, o chamego no canto.

O fenômeno teatral se confere pela escuta. A dimensão acústica se faz corpo, que quase podemos tocar. Os materiais sonoros sobrepondo em camadas sucessivas, entrecruzadas pela entendimento individualizado num presente compartilhado. Imersos nessas sonâncias, cargas mnésicas pessoais, imaginação, marcas na carne, pele e osso se cruzam para cortar resquícios de indiferença. É pela escuta que poderemos transformar o espaço público.

A Avó, de Grace Passô, traça uma musicalidade tão própria, tão acolhedora, quase uma cantilena que brinca com fluxos vocais de espacialidade, temperatura, texturas. Todas as quatro perspectivas de Maré incitam a raras percepções e sensações de pertencimento a uma presença coletiva costurada pelo tempo de comunhão pelas vozes, pelo som.

As escolhas sonoras do músico Felipe Storino para materializar a chegada da polícia, levam a lugares mais poéticos, menos óbvios do que uma representação hiperrealista que inunda os noticiários, das imagens sonoras exatas. É uma fábula contada com paleta de tons acústicos mais sutis.

Maré nos chega como insights performativos de uma experiência relacional. De um tempo que ativa o entrecruzamento de universos individuais sensíveis, compartilhados um pouco na conversa depois da audição. No primeiro dia, uma das participantes levantou uma questão interessante dessa partilha do sensível carregada por memórias ditas ou silenciadas, que permitem a criação de sentidos tão particulares, íntimos até. No segundo dia, um homem cego comentou como foi afetado pela obra. Sua fala destaca o quanto precisamos ampliar nossa percepção do mundo, para além de nós mesmos.

Ouvir como exercício revolucionário, que tanto precisamos, nesses tempos de lacração. Possibilidade de expandir o fio do diálogo humano. Na oitiva grupal a arte assume papel político, convocando para o presente essa necessidade de sentir o outro. Ou tentar, ao menos.

A dramaturgia textual do Marcio Abreu, sem pontuação intermediando as intenções, faz jorrar sentidos diversos. A primeira edição da série Escutas Coletivas enfrenta o paradigma da supremacia do olhar, desde sua etimologia de ser o teatro o lugar onde (e de onde) se vê, para deslocar a possibilidade de “ver” com os ouvidos, sentir com o som, ser tocado pelo invisível, ser afetado pelo audição, por uma dramaturgia sensorial.

Mergulhar nessa Maré com seus timbres e texturas, ritmos sonoros, camadas, dinâmicas e insubordinações do encontro e do toque energético, tensiona a linguagem por ser ainda e mais música e poesia.  

Escutas Coletivas
peça sonora MARÉ
Quando: dias 29, 30 e 31 de agosto, às 20h30
Contribuição: R$ 25, à venda no Sympla

Ficha técnica:

Dramaturgia e direção: Marcio Abreu
Desenho sonoro:  Felipe Storino
Vozes: Cássia Damasceno, Fabio Osório Monteiro, Felipe Storino, Giovana Soar, Grace Passô, Key Sawao, Nadja Naira.

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Encontro com o bailarino de butoh Tadashi Endo e exibição do solo Fukushima Mon Amour

Tadashi Endo em Fukushima mon amour. Foto: Reprodução do YouTube

Espetáculo fal da dor provocada pelo desastre nuclear ocorrido no Japão em 2011. Foto: Maciej Rusinek

A produtora Périplo faz um convite irresistível. Celebrar a vida do artista japonês Tadashi Endo, prestes a completar 73 anos. Além de circular pelo Brasil com espetáculos como Maboroshi, IKIRU – Réquiem para Pina Bausch, One-Nine-Four Seven e MA, Endo dirigiu peças do LUME Teatro e do Bando de Teatro de Olodum e ministrou oficinas de Butoh-MA. A proposta para este domingo, dia 30 de agosto às 19h, inclui uma conversa ao vivo entre Tadashi Endo e alguns convidados, pelo site www.periplo.com.br. E, a partir das 19h30, a transmissão por streaming do espetáculo Fukushima Mon Amour.

O bailarino Tadashi Endo sempre maravilha o público com a maestria dos seus trabalhos solos. Em Fukushima Mon Amour o artista traduz com seu corpo, gestos, movimentos a dor de uma tragédia para não esquecer. O desastre nuclear ocorrido no Japão em 2011 – um tsunami que sacudiu parte da costa do Japão e fez explodir a Central Nuclear de Fukushima – e a esperança de reconstrução alimentam o espetáculo. Mas também questiona o que o ser humano está fazendo para a preservação da vida. Endo dança a sensibilidade dos japoneses, o sentido de cooperação, a resistência e a resiliência frente aos desastres naturais. Mas também pergunta “por que o homem nunca aprende com os desastres causados por ele mesmo”.

O título do solo remete ao filme Hiroshima, mon amour (1959), do cineasta francês Alain Resnais – a história de amor de uma atriz francesa com um arquiteto japonês, após o ataque das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Mas a montagem não faz menção direta ao filme.

Endo reside na Alemanha desde a década de 1980. Bailarino de Butô, coreógrafo e diretor do “MAMU – Butoh Center” em Göttingen, Alemanha, ele acumula em sua carreira a sabedoria das tradições do teatro e da dança, ocidental e oriental. Kazuo Ohno (1906-2010) foi seu mestre.

Com uma trilha sonora composta pelo brasileiro Daniel Maia, a dramaturgia de Fukushima Mon Amour busca levar ao palco as sensações do impacto provocado pelo desastre (que deixou centenas de mortos e feridos, além da liberação de material radioativo) utilizando projeções como elemento cênico.

A dança Butoh-MA, trabalha com o mínimo de movimentos para alcançar elevada intensidade da expressão dos sentimentos, cultivando um equilíbrio entre energia, controle e tensão. A obra de Tadashi destaca questões essenciais do amor, da vida e da morte.

Essa programação se articula à ação da FarOFFa solidária que solicita ao público que faça doações para apoiar 14 instituições que trabalham com pessoas em situação de vulnerabilidade por conta dos efeitos da pandemia. Para obter mais informações de como doar acesse faroffasolidaria.

Em 2015, escrevi sobre Fukushima Mon Amour, ocasião em que Tadashi Endo levou o espetáculo ao Recife.
Confira a crítica!

SERVIÇO
Conversa com Tadashi Endo + exibição de Fukushima Mon Amour
Quado: 30 de agosto, às 19h
A exibição será feita pelo site e pelo YouTube da Périplo.

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Funcultura ignora pandemia soterrado em burocracias*

Inscrição para edital foi feita presencialmente na capital ou por Sedex. Foto: PH Reinaux Secult PE

Artista fez protesto com cartazes. Nas redes sociais, muitos se manifestaram

Visualize o cenário: Pernambuco, 2020, pandemia da Covid-19, crise em muitos âmbitos, inclusive na cultura. A continuidade de um edital público para o setor – mesmo que o resultado seja prometido apenas para o mês de dezembro -, além de obrigação do poder público, é bem-vinda. Mas, para concorrer ao Funcultura Geral 2019-2020, Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, produtores culturais precisaram imprimir uma via de seus projetos, encaderná-la, rubricar todas as páginas, salvar duas vias em pen drive ou DVD e enviar por Sedex para a Fundarpe (ou, no caso de produtores da Região Metropolitana do Recife, se deslocar até a Rua da Aurora, no bairro da Boa Vista).

“Percebemos a dificuldade dos produtores no estado inteiro, mas no interior isso se agrava pelas distâncias. Por aqui, fizemos a conta: um produtor gasta, em média, R$ 100 para conseguir enviar um só projeto. Para algumas pessoas, isso é muito dispendioso. O que ouvimos na reunião da Ripa (Rede Interiorana de Produtores, Técnicos e Artistas de Pernambuco) é que falta empatia por parte da Fundarpe, principalmente neste momento de pandemia”, entende Caroline Arcoverde, atriz e produtora do grupo Teatro de Retalhos, de Arcoverde, cidade do Sertão pernambucano.

“Falta empatia por parte da Fundarpe, principalmente neste momento de pandemia”
Caroline Arcoverde, atriz e produtora do Teatro de Retalhos e integrante da Ripa (Rede Interiorana de Produtores, Técnicos e Artistas de Pernambuco)

“Este ano, em especial, o Funcultura foi extremamente burocrático. Gastamos algo em torno de R$ 100, R$ 120 para cada projeto, sendo que estamos numa pandemia. Os artistas não têm esse dinheiro para investir. Já vi isso aqui na realidade da cidade – muitos dos produtores não enviaram projeto este ano porque não tiveram condições, não tinham dinheiro para fazer um projeto”, reforça André Vitor Brandão, produtor e bailarino de Petrolina, também no Sertão.

No estado que se orgulha de ter um dos maiores parques tecnológicos do país, os artistas e produtores de cultura precisam lidar com um formulário burocrático e as implicações financeiras da inscrição no edital, quando tudo poderia ser feito pela internet, como um cadastro. “Este é um momento em que todo mundo está sem perspectivas e a gente está precisando do que é direito nosso; esse edital é uma conquista, dinheiro público que precisa ser empregado na cultura, especialmente agora, com tanta gente desempregada, tantos espaços em vias de fechar”, pontua Daniela Travassos, atriz e produtora da Companhia Fiandeiros de Teatro, do Recife.

“Esse edital é uma conquista, dinheiro público que precisa ser empregado na cultura, especialmente agora, com tanta gente desempregada, tantos espaços em vias de fechar”
Daniela Travassos, atriz e produtora da Companhia Fiandeiros de Teatro

O edital publicado no fim de 2019, antes da pandemia, não foi alterado. Mas, diante da situação de crise e de isolamento social, as imposições burocráticas se tornaram insustentáveis e geraram muitos posts de protestos nas redes sociais, de artistas de várias linguagens.

“Há uns dois anos, tínhamos decidido dar um tempo na concorrência ao Funcultura, porque tem sido muito sofrido lidar com tamanhas exigências e limitar as ideias a tantas questões que não tem nada a ver com mérito artístico. E isso se agrava agora. Então, por exemplo, tentaram diminuir o papel, mas aumentaram outras exigências, como o pen drive ou DVD e o tamanho do arquivo. Mesmo que eu entregue um pen drive com um tamanho enorme, meu projeto cada currículo do meu projeto é limitado a ter 2MB e, se ultrapassar isso, simplesmente o projeto é eliminado”, explica a produtora da Fiandeiros.

Para quem nunca precisou preencher um formulário do Funcultura, as reclamações dos artistas podem parecer até prosaicas. Mas a burocracia do edital é uma questão real, que se arrasta há anos, sem avanços, ignorando a realidade para além dos muros da Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco). “A gente perde um tempo absurdo formatando formulário, tipo de letra, parágrafo, alinhamento, inserção de linhas, tamanho de arquivo. Mas, para mim, o mais grave neste quesito é querer que a gente faça uma planilha de orçamento em Word. Deveria ser, no mínimo, em Excel. Isso facilitaria os cálculos, a incidência dos impostos. Se a gente modifica o valor de uma pequena rubrica, isso interfere no valor total. Então, você tem que ficar o tempo inteiro monitorando esses valores, porque o Word não é uma ferramenta de cálculo”, explica André Filho, diretor e produtor da Fiandeiros.

Leidson Ferraz, jornalista, ator e pesquisador de teatro, fez um protesto presencial, no momento da entrega do formulário na Fundarpe, com cartazes que carregavam dizeres como “Evolua, Funcultura! Cadê a prometida informatização?” ou “BuRRocracia excessiva! Exclusão de muitos”. “Um edital cultural tem que ser o mais simples, o mais fácil possível, para abarcar democraticamente todo mundo. Como imaginar artistas populares, do circo, de tantas manifestações, sendo obrigados a lidar com essa burocracia toda? Isso impõe que as pessoas tenham que contratar produtores que vão ganhar uma parcela do valor, já tão defasado. São imposições injustificáveis, que só fazem excluir uma grande maioria. O que deveria estar sendo julgado era o valor artístico de cada proposta”, avalia Ferraz.

“Um edital cultural tem que ser o mais simples, o mais fácil possível, para abarcar democraticamente todo mundo”
Leidson Ferraz, jornalista, ator e pesquisador de teatro

Os valores do Funcultura também são questionados pelo artista. “O primeiro projeto que eu aprovei, em 2004, na área de publicações em teatro, tinha uma rubrica de R$ 50 mil. Hoje, o valor disponibilizado é R$ 40 mil. Desisti de colocar um projeto em livro, porque com esse valor é impossível fazer uma publicação com a qualidade que eu sempre fiz. O orçamento mais barato que encontrei, com uma gráfica boa, foi R$ 31 mil. Como vou pagar os outros profissionais envolvidos na produção de um livro?”, questiona.

Novo mundo caótico, velho formulário de papel

Como ignorar a realidade de pandemia que se instalou no país a partir de março? Em meio a tudo que tem acontecido no Brasil, os produtores que propuseram projetos de criação, circulação, festivais, mostras, precisaram pedir carta de anuência aos teatros e espaços culturais – ainda que eles estivessem (estejam) fechados. Como pensar a circulação internacional de um espetáculo quando muitos teatros no mundo não estão funcionando e fronteiras de vários países estão fechadas para os brasileiros?

As inscrições para o Funcultura Geral estavam previstas para acontecer de 14 a 30 de abril. Por conta da Covid-19, o prazo foi prorrogado – ficou valendo o período de 20 de julho a 3 de agosto. O edital, no entanto, não abarcou mudanças, mesmo que artistas de linguagens diversas, através das suas comissões setoriais (que formam o Conselho Estadual de Política Cultural) tenham proposto sugestões.

Paula de Renor diz que era preciso vontade política para mudar edital

No dia 8 de junho, a Comissão Setorial de Teatro reuniu cerca de 70 artistas para uma reunião virtual que durou quase quatro horas. A proposta é que o edital focasse em projetos menores. As verbas destinadas à itinerância nacional e internacional de espetáculos seriam remanejadas para outras ações. A rubrica de manutenção de espetáculos, por exemplo, subiria de R$ 60 para R$ 100 mil e a de programação de espaços de R$ 90 para R$ 180 mil, sendo que, nessa última, seriam contemplados até quatro projetos no valor máximo de R$ 45 mil.

O edital não teria exigências como carta de intenção ou anuência para atividades em equipamentos públicos e atividades formativas poderiam ser propostas em formato virtual. “A pandemia aconteceu, não podemos ter um olhar de normalidade para as coisas. Não dá para prever ações como se nada tivesse acontecido”, opina Paula de Renor, atriz, produtora e representante de Teatro e Ópera na Conselho Estadual de Política Cultural.

“A pandemia aconteceu, não podemos ter um olhar de normalidade para as coisas. Não dá para prever ações como se nada tivesse acontecido”,
Paula de Renor, atriz, produtora e representante de Teatro e Ópera na Conselho Estadual de Cultura

A burocracia, no entanto, impediu que o edital fosse alterado. “Para que isso acontecesse, era preciso vontade política, agilidade jurídica, para que encontrássemos uma adequação. Porque o problema é que o governador precisaria cancelar esse editar e fazer um decreto normatizando o outro. E não tínhamos certeza dessa agilidade, não houve empenho para encontrar uma solução jurídica”, explica Paula de Renor.

Na prática, o que pode acontecer é que as execuções dos projetos tenham que ser postergadas, como uma itinerância de espetáculo, por exemplo. O edital já prevê esse adiamento. “O que a gente queria era que esse dinheiro entrasse logo na cadeia da economia criativa, que ajudasse o maior número de artistas e impulsionasse a produção no estado”, finaliza a conselheira.

Promessa de informatização

De acordo com Aline Oliveira, superintendente do Funcultura, o próximo edital, que deve ser lançado em dezembro, deve contar com inscrições pela internet. “Conforme já foi anunciado no Conselho Estadual de Política Cultural, a gestão assumiu um compromisso de implementar as inscrições virtuais até o exercício de 2021 e fará todo o esforço possível para antecipar as inscrições virtuais já para os novos editais do Funcultura”, explica.

A superintendente admite que “estamos atrasados nesse processo”. “Mesmo com um sistema pronto, seria necessária uma estrutura de equipe e de tecnologias que infelizmente o Funcultura não teria condições de manter no momento. Desde 2019, a atual gestão da Fundarpe e do Funcultura têm estudado as ferramentas disponíveis no mercado para resolução do problema. Antes de decretar-se o estado de emergência em Pernambuco, em função da Pandemia da Covid-19, estavam sendo realizadas tratativas para contratação de serviços com o objetivo de modernizar o Funcultura. Entretanto, os decretos de contingenciamento e a próprio isolamento social dificultaram o avanço dos debates”, complementa.

ERRATA*
Matéria atualizada no dia 31 de agosto, às 11h24. Na fala de Daniela Travassos, onde constava “Mesmo que eu entregue um pen drive com um tamanho enorme, meu projeto é limitado a ter 2MB (…)”, a sentença correta é “Mesmo que eu entregue um pen drive com um tamanho enorme, cada currículo do meu projeto é limitado a ter 2MB (…)”. Pelo erro, o Satisfeita, Yolanda? pede desculpas aos leitores.

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Masculinidades em constantes (des)construções

O artista Elilson participa da Mostra Todos os Gêneros do Itaú Cultural com tributo ao irmão morto

Barrela, de Plínio Marcos. Foto: Marta Santos

Bola de Fogo, de Fabio Osório Monteiro. Foto Patricia Almeida

Existe uma única forma de ser homem? É claro que não!!! Mesmo que alguns insistam em assumir o papel de troglodita, esse tipo não serve mais, se é que um dia prestou. A encrenca do termo sexualidade apareceu no século 19, como aponta Foucault, n’A História da Sexualidade, portanto é um conceito que ocupa as sociedades modernas e pós-modernas. Se já houve um tempo em que a mulher era percebida como um homem invertido, ao longo desse trajeto, o masculino passou de modelo de perfeição, domínio e superioridade à crise de masculinidade. Outros corpos exigiram o protagonismo e repeito às singularidades. Muitas lutas travadas em vários campos abalaram a virilidade hegemônica do modelo macho-man.

Então, masculinidades, no plural, é o mote da sétima edição de Todos os Gêneros: Mostra de Arte e Diversidade promovida pelo o Itaú Cultural deste 24 a 30 de agosto (segunda-feira a domingo) integralmente online, no site do www.itaucultural.org.br. Essa programação gratuita reúne exibições de cenas encomendadas, peça de Plínio Marcos, rap paulistano, músicas do interior do país, dança e debates.

“Cada edição desse projeto recupera os temas das mostras anteriores para agregar outras perspectivas de existência. Nunca partimos do zero, mas de um histórico de vozes que ecoam novamente a cada edição”, defende Galiana Brasil, gerente do Núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural, no material de divulgação. “Assim chegamos nesse momento de colocar em foco as tantas possibilidades de construção – e, mesmo, desconstrução – a fim de refletirmos a pluralidade de uma existência homem”.

A programação inicia com Filho Homem, uma investigação do ator carioca Bernardo de Assis nos cruzamentos entre violência, amor e a descoberta da transexualidade, na ficção que mostra dois irmãos, que foram forjados um para ser homem e o outro para ser mulher. Encerra com shows carregados da sonoridade queer. O cantor pernambucano do Agreste Ciel Santos, autodenominado brincante de saia e batom, apresenta faixas do disco Enraizado. O  rapper paulista Rico Dalasam toca músicas do recém-lançado disco Dolores Dala Guardião do Alívio.

São muitos mergulhos no universo de identidade de gênero, sexualidade, corpo e afetividade. Faz parte da programação o espetáculo Barrela, de Plínio Marcos (1935-1999), encenado pela companhia Cemitério de Automóveis, dirigida por Mário Bortolotto. A peça aproveita um fato real de um jovem preso por um pequeno delito e violentado pelos companheiros de cela.

Já em Bola de Fogo, o baiano Fábio Osório Monteiro exibe uma performance de si mesmo como baiana de acarajé, função que abraçou em 2017, inclusive contando com registro oficial na Associação Nacional das Baianas de Acarajé e Mingau, ABAM.

Oboró. Foto: Julio Ricardo

A realidade e a subjetividade de homens negros, marcadas por questões como a hipersexualização do corpo numa sociedade de estrutura racista formam as cenas de Oboró, com os atores Cridemar Aquino, Drayson Menezzes e Sidney Santiago Kuanza, gravadas especialmente para esta edição de Todos os Gêneros. Oboró tem texto de Adalberto Neto e direção de Rodrigo França.

Cenas encomendadas

Cinco artistas convidados respondem à provocação “a masculinidade que me deram e a masculinidade que criei” com cenas criadas para web.

O dramaturgo e ator paulista Ronaldo Serruya utiliza a reza tradicional judaica em homenagem aos mortos, permitida aos filhos homens da pessoa falecida, para aproximar-se desse padrão masculino judaico-cristão que o formou. Kaddish, uma Oração para os Homens que Eu Matei, manifesta a urgência de acabar com esse modelo para afirmar, diante do mundo, o seu corpo queer e portador de HIV.

O pernambucano Elilson explora a representação do número 24 usado como ofensa contra os gays na cena C(h)ancela 24. Ele ergue uma ação-tributo a um irmão, também homossexual, que se suicidou aos 24 anos. O amazonense Odacy Oliveira indaga sobre a couraça como efeito do medo e da vergonha de ser livre. Em CorazA o artista libera a musculatura e se assume.

Já o performer André Vitor Brandão, de Petrolina, Sertão de Pernambuco, discute a a construção de uma masculinidade hegemônica no sertão em Para Não Dançar em Segredo. A masculinidade se torna um princípio energético dinâmico que pode ser alterado em Nkisi Hongolô – A Divindade do Arco-Íris, do coreógrafo gaúcho Rui Moreira.

Para não dançar em segredo, de André Vitor Brandão

Debates

A mesa Masculinidades em Trânsitos vasculha a construção das masculinidades dos participantes – o jornalista gaúcho Airan Albino, que atua nos campos da cultura e das questões de identidade racial com o grupo MilTons, Lino Arruda, quadrinista transmasculino paulista e doutor em literatura com tese sobre autorrepresentação travesti/trans em zines latino-americanos, e o escritor pernambucano Marcelino Freire – numa conversa mediada por Thiago Rosenberg, produtor e editor de conteúdo do Itaú Cultural. O poeta pernambucano Miró faz uma participação especial, lendo um poema de sua autoria.

O carioca Jordhan Lessa, primeiro homem trans publicamente reconhecido da Guarda Municipal da Cidade do Rio de Janeiro, o terapeuta baiano Marcus Boaventura, que atua como facilitador de grupo de homens, e o antropólogo pernambucano Sirley Vieira, coordenador da Rede de Homens Pela Equidade de Gênero (RHEG) e do Instituto Papai participam da roda de conversa A Construção das Masculinidades. A mediação é do mineiro Guilherme Valadares, fundador do Papo de Homem, portal de conteúdo e de formação e transformação das masculinidades.

O debate Paternidades vai compartilhar as experiências do paulista Luis Baron, criador do Canal Topassado, voltado ao bem-estar e ao elevação da autoestima das pessoas LGBTQIA+ idosas; do capoeirista e bailarino pernambucano Orun Santana, filho do mestre de capoeira Meia-Noite, que criou um espetáculo solo dedicado ao pai, e o naturólogo gaúcho Tiago Koch, criador do projeto Homem Paterno, que ajuda homens que anseiam exercer a paternidade integral. A mediação é de Viviane Duarte, fundadora e CEO da iniciativa Plano Feminino e presidente do Instituto Plano de Menina.

Publicação

Uma publicação associada à mostra busca agregar, aprofundar e trazer outras perspectivas sobre a temática masculinidades em um leque de gêneros textuais. Ensaios, contos e poemas criados para o canal digital estão ilustrados com a arte do uruguaio Troche e uma HQ do quadrinista paulista Lino Arruda. Assinam os textos o escritor moçambicano Mia Couto (Um Corpo Extracorpóreo) e o paulistano Ferréz (Patriarcado no Meu Crucifixo).

O pernambucano Miró comparece com o poema Agora Recolho-me a Mim, Marcelino Freire contribui com a publicação com a prosa A Última Flor. Há ainda as reflexões sobre identidade do jornalista Airan Albino em Carnaval Não se Pula Sozinho e os pensamentos sobre o legado da figura paterna descritos pelo psicanalista carioca Tiago Mussi em A Carta (roubada) ao Pai. A jornalista e cineasta Luiza Fagá escreve em Desde a Fronteira, seu percurso por terrenos das masculinidades.

TODOS OS GÊNEROS: MOSTRA DE ARTE E DIVERSIDADE

Sétima edição
De 24 a 30 de agosto
No site do Itaú Cultural www.itaucultural.org.br

Concepção e realização: Itaú Cultural
Curadoria: Núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural

PROGRAMAÇÃO, SINOPSES E SERVIÇO

24 de agosto (segunda-feira)

18h30
Cenas Teatrais – Filho Homem
Um documentário ficcional sobre as diferenças e proximidades entre dois irmãos – um criado
para ser homem e outro criado para ser mulher. Violência, amor e a descoberta da
transexualidade estão entre os temas abordados em cena.
FICHA TÉCNICA:
Concepção e atuação: Bernardo de Assis (RJ)
Duração aproximada: 10 minutos
Classificação Indicativa: não recomendada para menores de 12 anos
Interpretação em Libras

19h
Mesa de abertura – Masculinidades em trânsitos
Com Airan Albino (RS), Lino Arruda (SP) e Marcelino Freire (PE)
Mediação: Thiago Rosenberg (SP)
Duração aproximada: 60 minutos
Classificação indicativa: livre
Interpretação em Libras

25 de agosto (terça-feira)

17h
Roda de Conversa – A construção das masculinidades
Com Jordhan Lessa (RJ), Marcus Boaventura (BA) e Sirley Vieira (PE)
Mediação: Guilherme Valadares (MG)
Duração aproximada: 60 minutos
Classificação Indicativa: não recomendada para menores de 10 anos por conter diálogos
não estimulantes sobre sexo dentro de um contexto educativo
Interpretação em Libras

20h
Cenas Teatrais – Oboró
A obra expõe a realidade e a subjetividade de homens negros, marcadas por questões como
a hipersexualização do corpo e a busca por perfeição em troca de um lugar ao sol numa
sociedade de estrutura racista.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Adalberto Neto
Direção: Rodrigo França
Atuação: Cridemar Aquino (RJ), Drayson Menezzes (RJ) e Sidney Santiago Kuanza (SP)
Produção: Fábio França e Mery Delmond
Realização: Diverso Cultura e Desenvolvimento
Duração aproximada: 40 minutos
Classificação Indicativa: não recomendada para menores de 12 anos
Interpretação em Libras

26 de agosto (quarta-feira)

17h
Roda de Conversa – Paternidades
Com Luis Baron (SP), Orun Santana (PE) e Tiago Koch (RS)
Mediação: Viviane Duarte (SP)
Duração aproximada: 60 minutos
Classificação Indicativa: livre
Interpretação em Libras

20h
Espetáculo – Bola de Fogo
Devidamente trajado, o ator e diretor Fábio Osório Monteiro prepara e frita a massa do
acarajé enquanto performa a si próprio e a outros corpos negros. O trabalho explora questões
de política, espiritualidade, memória, afeto e ancestralidade.
FICHA TÉCNICA:
Direção: Fábio Osório Monteiro (BA)
Codireção: Leonardo França
Colaboração: Jorge Alencar e Neto Machado
Produção executiva: Natália Valério
Produtor assistente/contrarregra: Gabriel Pedreira
Interpretação em Libras: Cintia Santos
Produção: Dimenti Produções Culturais
Duração aproximada: 45 minutos
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 12 anos por conter linguagem
imprópria
Interpretação em Libras

27 de agosto (quinta-feira)

20h
Espetáculo – Barrela
Encenação do primeiro texto do dramaturgo paulista Plínio Marcos (1935-1999), a peça traz a
história real de um menino que, preso por um pequeno delito, foi violentado por
companheiros de cela – os quais, mais tarde, foram mortos por ele. O espetáculo discute o
estado de exceção que se cria em determinados ambientes e o código de conduta entre
criminosos.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Plínio Marcos
Direção e trilha sonora: Mário Bortolotto
Elenco: Mário Bortolotto, Walter Figueiredo, Marcos Gomes, Nelson Peres, Paulo Jordão
(Rodrigo Cordeiro), André Ceccato (Marcos Amaral), Daniel Sato e Alexandre Tigano
Iluminação: Caetano Vilela
Cenário e arte do cartaz: André Kitagawa
Assistentes de direção: Marilia Medina e Gabriela Fortanell
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Fotos: Marta Santos
Duração aproximada: 55 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Interpretação em Libras

28 de agosto (sexta-feira)

20h
Cenas Encomendadas
Duração: 30 minutos no conjunto dos vídeos
Kaddish, uma Oração para os Homens que Eu Matei
Partindo da reza tradicional judaica em homenagem aos mortos, que só pode ser recitada
pelos filhos homens da pessoa falecida, Ronaldo Serruya ficcionaliza elementos
autobiográficos para abordar o modelo masculino judaico-cristão que o formou e a
necessidade de matá-lo para afirmar diante do mundo seu corpo queer e que convive com o
HIV.
FICHA TÉCNICA:
Criação, dramaturgia e atuação: Ronaldo Serruya (SP)
Direção e edição de imagens: Luiz Fernando Marques
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 12 anos por conter linguagem
imprópria e descrição de violência
Interpretação em Libras

C(h)ancela 24
Partindo do uso recorrente no Brasil do número 24 – que remete à figura do “veado” e à
condição de ser “viado” – como xingamento contra homens gays, o artista vê essa herança
vocabular da normatividade hétero-masculina e traz na performance e texto ação-tributo que
fez aos 24 anos para um irmão, também homossexual, suicidado com a mesma idade.
FICHA TÉCNICA:
Criação e performance: Elilson (PE)
Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 12 anos por conter citação de ato violento que pode causar angústia
Interpretação em Libras

29 de agosto (sábado)

20h
Cenas Encomendadas
Duração: 45 minutos no conjunto dos vídeos
Para Não Dançar em Segredo
A obra revisita memórias e construções identitárias de gênero do performer André Vitor
Brandão, abordando as problemáticas da construção de uma masculinidade hegemônica no
Sertão. O vídeo é um convite para a celebração das masculinidades na dança e um desejo de tornar manifesta a pluralidade imanente dos corpos masculinos, sobretudo aqueles que
habitam o Sertão.
FICHA TÉCNICA:
Roteiro, direção e interpretação: André Vitor Brandão (PE)
Direção de fotografia, montagem e edição: Fernando Pereira e Robério Brasileiro
Direção de arte: Ana Paula Maich
Trilha sonora original: Gean Ramos
Assessoria criativa: Jailson Lima
Produção: Alan Barbosa
Classificação indicativa: livre
Interpretação em Libras

CorazA
“A couraça era o medo e a vergonha de ser livre. Eu resolvi soltar e liberar minha musculatura
para respirar e ser o que sou!”
FICHA TÉCNICA:
Direção e interpretação: Odacy Oliveira (AM)
Auxiliar de direção: Alan Panteón
Produção e consultoria artística: Valdemir Oliveira
Iluminação: Alan Panteon e Odacy Oliveira
Cenografia: Odacy Oliveira e Alan Panteón
Filmagem: Alan Panteón
Paisagem sonora: Moncho Bunge
Classificação indicativa: livre
Interpretação em Libras

Nkisi Hongolô – A Divindade do Arco-Íris
Uma abordagem da masculinidade como um princípio energético dinâmico e que pode ser
alterado. Assim, os padrões sociais deixam de ser dados para serem construídos e formatados
pela individualidade de cada um. Hongolô é um Nkisi – uma divindade – de princípio
masculino. Está ligado às mudanças e recebe vários nomes, dependendo do seu local de culto
em terras bantus. É também Hongolô que auxilia na comunicação entre os seres humanos e as
divindades.
FICHA TÉCNICA:
Concepção: Pablo Bernardo, Ricardo Aleixo e Rui Moreira (RS)
Câmeras e atuação: Rui Moreira e Ricardo Aleixo
Concepção de design sonoro: Ricardo Aleixo
Montagem de vídeo e áudio: Pablo Bernardo
Classificação indicativa: livre
Interpretação em Libras

30 de agosto (domingo)

20h
Show
Ciel Santos (PE)
Rico Dalasam (SP)
Duração aproximada: 30 minutos
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 16 anos por conter diálogos
sexuais e nudez velada.
Interpretação em Libras

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