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Como viver plenamente? pergunta Tchekhov na montagem da cia. brasileira de teatro

O elenco é composto por Camila Pitanga (foto), Cris Larin, Edson Rocha, Josy.Anne, Kauê Persona, Rodrigo Bolzan (foto), Rodrigo Ferrarini e Rodrigo de Odé. Foto de Nana Moraes / Divulgação

A peça trata de temas recorrentes na obra de Tchekhov, como o conflito entre gerações, as transformações sociais através das mudanças internas do indivíduo, as questões do homem comum e do pequeno que existem em cada um de nós. Foto Nana Moraes / Divulgação

Por Que não Vivemos tem direção de Márcio Abreu Foto Nana Moraes

Qual o momento em que abandonamos potências pessoais? Abdicamos de sonhos? Abrimos mão da plenitude da vida? O espetáculo Por que não vivemos?, adaptação de Platonov, primeiro texto escrito pelo dramaturgo russo Anton Tchecov (1860-1904) persegue essas perguntas. A encenação da cia brasileira de teatro é a primeira montagem no Brasil desse texto identificado após a morte do autor e publicado em 1923.

Com direção de Marcio Abreu, a temporada foi interrompida em São Paulo devido à covid-19. Adaptada para o formato digital, a peça está dividida em três atos, exibidos um por dia em duas sessões diárias (11, 12 e 13 de dezembro, às 18h e às 21h), em apresentações gratuitas, com reservas pela Sympla.

“São pessoas que gostariam de estar em outro lugar, mas não fizeram nada para isso. Mostra como a trama da vida vai se desenrolando e as pessoas vão caindo na armadilha de ficar onde estão” Giovana Soar, assistente de direção.

Os atores Camila Pitanga, Cris Larin, Edson Rocha, Josy.Anne, Kauê Persona, Rodrigo Bolzan, Rodrigo Ferrarini e Rodrigo de Odé movimentam a cena de uma história que ocorre num lugar indefinido, uma propriedade rural de uma jovem viúva. Platonov, um aristocrata falido, se tornou professor por despeito e para camuflar sua revolta contra seu falecido pai e a sociedade. Bem articulado, brilhante e sedutor, ele é admirado e invejado. Seu reencontro com Sofia, um amor de juventude, reaviva seu desespero.

“É o primeiro texto de Tchekhov, um texto muito jovem, mas muito revisitado em diversos países porque tem nele o que depois vem a ser o cerne do Tchekhov”, Márcio Abreu, diretor.

Dessa galeria de personagens é possível identificar pessoas do nosso convívio. A provocação existencial é destaca de um desses encontros entre Platonov (Rodrigo dos Santos) e Sofia (Josi Lopes). Ele levanta a bola: por que não vivemos como poderíamos ter vivido?

A reunião se torna um hábito entre o grupo, e passa a acontecer todos os anos após a passagem do inverno, prolongando-se por dias. Desta vez, numa festa, determinadas tensões, até então ocultas, vêm à tona, deflagrando um conflito marcado pela pergunta-chave da peça, um dilema para uma aristocracia em decadência. Afinal, por que todos não poderiam ter sido ou vivido ou amado como desejaram certa vez?

Por que não vivemos? estreou em julho de 2019 no CCBB do Rio de Janeiro, fez temporada no CCBB Brasília no mês de setembro e no CCBB Belo Horizonte em novembro do mesmo ano. Em 2020, o espetáculo chegou a São Paulo, no Teatro Municipal Cacilda Becker, desta vez com patrocínio do Banco do Brasil e Eletrobras Furnas, mas teve sua temporada interrompida após a realização de 10 sessões.

A adaptação digital de Por que não vivemos?

As pesquisas sobre a escuta, a manipulação e detalhe do som, em especial àquele aliado às palavras, às dramaturgias – que a cia brasileira de teatro iniciou em junho de 2020 – renderam duas peças sonoras da série Escutas Coletivas: Maré, uma reação artística ao real sobre o Complexo da Maré, localizado no Rio de Janeiro, e Luto, um exercício sonoro a partir da peça Rubricas, de Israël Horovitz.

“A montagem tem um foco muito específico nas personagens femininas. São elas que causam transformação, que caminham, que querem mudanças, contravenções e que enfrentam conceitos pré-estabelecidos na sociedade da época”, Giovana Soar, assistente de direção.

Essa experiência da Escuta Coletiva é retomada no primeiro ato da transposição de Por que não vivemos? para a versão digital. Neste episódio – com duas sessões, no dia 11 de dezembro – o destaque é para o formato da ESCUTA COLETIVA, sem imagens e com a apresentação, pelo elenco, de suas personagens e relações na obra, além da “festa de reencontro”, proposta na dramaturgia de Tchekhov.

O segundo ato, dia 12 de dezembro, imprime outros significado às imagens gravadas para o espetáculo presencial, com cenas executadas ao vivo pelos atores, o que torna mais próxima a experiência realizada digitalmente.

O terceiro e último ato, programado para dia 13 de dezembro, focaliza atores e atrizes, a partir de suas casas, em super closes narrando as ações/cenas para o desfecho da peça.

Ficha Técnica
Por que não vivemos?
Da obra Platonov, de Anton Tchekhov
Direção: Marcio Abreu
Assistência de Direção: Giovana Soar e Nadja Naira
Elenco: Camila Pitanga, Cris Larin, Edson Rocha, Josy.Anne, Kauê Persona, Rodrigo Ferrarini, Rodrigo de Odé e Rodrigo Bolzan
Adaptação: Marcio Abreu, Nadja Naira e Giovana Soar
Tradução: Pedro Augusto Pinto e Giovana Soar
Direção de Produção: José Maria
Produção Executiva: Cássia Damasceno
Assistência de Produção: Leonardo Shamah
Iluminação: Nadja Naira
Trilha e efeitos sonoros: Felipe Storino
Direção de movimento: Marcia Rubin
Cenografia: Marcelo Alvarenga | Play Arquitetura
Figurinos: Paulo André e Gilma Oliveira
Direção de arte das projeções: Batman Zavareze
Edição das imagens das projeções: João Oliveira
Câmera: Marcio Zavareze
Técnico de som | projeções: Pedro Farias
Assistente de câmera: Ana Maria
Operador de Luz: Henrique Linhares e Ricardo Barbosa
Operador de vídeo: Marcio Gonçalves e Michelle Bezerra
Operador de som: Bruno Carneiro e Felipe Storino
Contrarregragem: Hevaldo Martins e Alexander Peixoto
Máscaras: José Rosa e Júnia Mello
Fotos: Nana Moraes
Programação Visual: Pablito Kucarz
Assessoria de Imprensa São Paulo: Canal Aberto
Difusão Internacional: Carmen Mehnert | Plan B
Produção: companhia brasileira de teatro
Projeto realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura
Apoio: Secretaria Municipal da Cultura
Patrocínio: Banco do Brasil e Eletrobras Furnas
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo e Governo Federal e companhia brasileira de teatro
Direção de Produção: Giovana Soar e José Maria
Administrativo e Financeiro: Cássia Damasceno
Assistente Administrativo: Helen Kaliski

Serviço
Por que não vivemos?
Temporada Digital: 11, 12 e 13 de dezembro de 2020
Dia 11 de Dezembro – Sexta – 1º Episódio – sessões às 18h e 21h. Duração: 60 minutos
Dia 12 de Dezembro – Sábado – 2º Episódio – sessões às 18h e 21h. Duração: 30 minutos
Dia 13 de Dezembro – Domingo – 3º Episódio – sessões às 18h e 21h, seguidas de bate-papo com elenco, direção e produção sobre a obra e sua experiência digital. Duração: 90 minutos
Gênero: Comédia Dramática
Classificação indicativa: 16 anos
Grátis

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Teatro para os ouvidos e outros sentidos
Crítica da peça sonora “Maré”

A atriz Cássia Damasceno, da companhia brasileira de teatro.

A companhia brasileira de teatro propõe um encontro diferente. Em vez de reforçar o apelo feito à exaustão para os olhos, o grupo privilegia outro sentido: a audição. É a partir do ato de ouvir – se quiser, de olhos fechados, e imaginar e compor e criar as paisagens sussurradas nessas Escutas Coletivas – que se instala o ato teatral

A primeira edição apresenta a peça sonora Maré, com dramaturgia e direção de Marcio Abreu; desenho sonoro do músico e compositor Felipe Storino; e conduzido pelas vozes de Cássia Damasceno, Fabio Osório Monteiro, Felipe Storino, Giovana Soar, Grace Passô, Key Sawao e Nadja Naira.

É uma criação cênica fincada na dimensão sonora. As falas, nas quatro perspectivas do acontecimento, foram gravadas pelos atores individualmente, com seus celulares e enviadas a Abreu e Storino.

Com os espectadores, cada qual no seu canto, com seus fones de ouvidos ou caixas de sons de olhos fechados, ou abertos (naveguei melhor com os olhos cerrados), acomodados em sofás, camas, chão ou onde preferisse, sentados, de pé, deitados, de lado, do jeito que quisesse, durante 40 minutos, ouvimos uma história.

O episódio está dividido em três movimentos. Um prólogo em que o diretor expõe e contextualiza a ação, a escuta sonora compartilhada ao mesmo tempo pelas pessoas presentes na sala virtual e a conversa entre a equipe artística e o público.

Maré foi escrita em 2015 por Marcio Abreu a pedido do mineiro Grupo Espanca. É situada como uma reação artística ao real: uma chacina ocorrida na Maré em 2013. O Complexo da Maré é um dos maiores conglomerados de favelas do Rio de Janeiro, na zona norte da cidade. Naquele ano, o Brasil foi sacudido por uma série de protestos e manifestações de reivindicações várias, que ficaram conhecidas como Jornadas de Junho.

Infelizmente esse não é um caso isolado. Extermínios e carnificinas são comuns nas áreas mais periféricas e empobrecidas, não só do Rio de Janeiro, como nas diversas cidades do país. São crimes cometidos normalmente pela polícia ou pela milícia. Atrocidades frequentemente acobertadas ou não combatidas com eficácia pelo Estado.

As figuras desta peça sonora moram num espaço exíguo – “uma lata de sardinha”, o que não facilita a intimidade do casal: “Esse homem é gostoso me pega quietinho” – expõe a alta voltagem de amorosidade dos seus integrantes. Os adultos trabalham longe de casa e perdem muito tempo no trajeto. A avó assume a ancestralidade, a viga mestra; as crianças, os tesouros; a mãe e o pai.

Cada um desses quatro focos narra, do seu ângulo, a violência policial em um dia de brincadeiras, televisão apaziguadora, “o melhor feijão do mundo”, o chamego no canto.

O fenômeno teatral se confere pela escuta. A dimensão acústica se faz corpo, que quase podemos tocar. Os materiais sonoros sobrepondo em camadas sucessivas, entrecruzadas pela entendimento individualizado num presente compartilhado. Imersos nessas sonâncias, cargas mnésicas pessoais, imaginação, marcas na carne, pele e osso se cruzam para cortar resquícios de indiferença. É pela escuta que poderemos transformar o espaço público.

A Avó, de Grace Passô, traça uma musicalidade tão própria, tão acolhedora, quase uma cantilena que brinca com fluxos vocais de espacialidade, temperatura, texturas. Todas as quatro perspectivas de Maré incitam a raras percepções e sensações de pertencimento a uma presença coletiva costurada pelo tempo de comunhão pelas vozes, pelo som.

As escolhas sonoras do músico Felipe Storino para materializar a chegada da polícia, levam a lugares mais poéticos, menos óbvios do que uma representação hiperrealista que inunda os noticiários, das imagens sonoras exatas. É uma fábula contada com paleta de tons acústicos mais sutis.

Maré nos chega como insights performativos de uma experiência relacional. De um tempo que ativa o entrecruzamento de universos individuais sensíveis, compartilhados um pouco na conversa depois da audição. No primeiro dia, uma das participantes levantou uma questão interessante dessa partilha do sensível carregada por memórias ditas ou silenciadas, que permitem a criação de sentidos tão particulares, íntimos até. No segundo dia, um homem cego comentou como foi afetado pela obra. Sua fala destaca o quanto precisamos ampliar nossa percepção do mundo, para além de nós mesmos.

Ouvir como exercício revolucionário, que tanto precisamos, nesses tempos de lacração. Possibilidade de expandir o fio do diálogo humano. Na oitiva grupal a arte assume papel político, convocando para o presente essa necessidade de sentir o outro. Ou tentar, ao menos.

A dramaturgia textual do Marcio Abreu, sem pontuação intermediando as intenções, faz jorrar sentidos diversos. A primeira edição da série Escutas Coletivas enfrenta o paradigma da supremacia do olhar, desde sua etimologia de ser o teatro o lugar onde (e de onde) se vê, para deslocar a possibilidade de “ver” com os ouvidos, sentir com o som, ser tocado pelo invisível, ser afetado pelo audição, por uma dramaturgia sensorial.

Mergulhar nessa Maré com seus timbres e texturas, ritmos sonoros, camadas, dinâmicas e insubordinações do encontro e do toque energético, tensiona a linguagem por ser ainda e mais música e poesia.  

Escutas Coletivas
peça sonora MARÉ
Quando: dias 29, 30 e 31 de agosto, às 20h30
Contribuição: R$ 25, à venda no Sympla

Ficha técnica:

Dramaturgia e direção: Marcio Abreu
Desenho sonoro:  Felipe Storino
Vozes: Cássia Damasceno, Fabio Osório Monteiro, Felipe Storino, Giovana Soar, Grace Passô, Key Sawao, Nadja Naira.

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Magiluth vasculha política nos laços afetivos

Apenas o Fim do Mundo, com o Grupo Magiluth, estreou no Sesc Avenida Paulista e celebra os 15 anos da trupe. Fotos: Cacá Bernardes / Divulgação

A ação se passa num domingo

Dormi, e sonhei, envolta nas pulsações de Apenas o Fim do Mundo, espetáculo do Grupo Magiluth, a partir do texto Juste la Fin du Monde, do francês Jean-Luc Lagarce. Esses sonhos atravessados por pesadelos sinistros ocorreram ontem, semana passada ou durante todo o ano. As irrupções temporais embaralham essa narrativa complexa e propõe uma experiência rica de sensações no espaço, na memória, na ficção.

O amor em sua plenitude, o que inclui camadas feias, deterioradas, todas as vulnerabilidades desse sentimento – que não cabe em si e por isso mesmo precisa do outro para circular – ronda a temática dessa peça. É uma montagem dura e terna, libertadora, mas dolorida. E nos empurra a um mergulho profundo para enxergar os rastros, os reflexos, os sinais que imprimimos nos mais chegados. É assustador o que as palavras e os silêncios podem causar.

Apenas o Fim do Mundo, em cartaz no 13º andar do Sesc Avenida Paulista até 5 de maio, maximiza o risco, essa ousadia que a trupe recifense se impõe paulatinamente nos 15 anos de trajetória. O Magiluth iniciou as comemorações dos 15 anos com uma “ocupação” no Sesc Avenida Paulista. Foram apresentadas as montagens do repertório Aquilo Que Meu Olhar Guardou para Você (2012) e Dinamarca (2017). Além de oficinas e uma roda de conversa sobre o teatro nordestino (com Fernando Yamamoto e eu, Ivana Moura) .

Com o texto de Lagarce, a palavra comanda o desafio. O dito e o não-dito com sua dor acumulada ao longo dos anos na teia de uma família. De uma escrita delicada e sofrida, de uma economia lírica e avassaladora.

Eu entendi que esta ausência de amor de que me queixo e que foi para mim sempre a única razão das minhas covardias,
sem que nunca até então a tivesse percebido,
que esta ausência de amor fez sofrer sempre mais os outros do que eu. Luiz, fala de Apenas o Fim do Mundo

Entendo que o Magiluth não renuncia ao aspecto político de suas investigações anteriores. Vislumbro um deslocamento de rota, uma escavação rumo à formação do núcleo duro do poder, o treinamento dessa atuação política – a estrutura familiar. Longe de ser o paraíso na Terra, a família é uma coisa assombrosa, prodigiosa, impregnada de sentimentos que vão dos mais sublimes aos mais sórdidos.

É na essência da família onde tudo começa e prossegue em movimentos sem trégua. A peça convoca para investigações do que é família. De que laços emotivos e de compromisso estão repletas essas ideias. A concepção psicanalítica de família concebida por Freud postula-a como uma instituição humana duplamente universal. Lacan atribui à família a responsabilidade de agenciar o procedimento de humanização do indivíduo, pela invenção da subjetividade.

É evidente que os novos contextos fazem composições de famílias bastante diferentes em questões de estrutura e dinâmica – homoparentais; transparentais, monoparentais, famílias instituídas pela ciência.

Cena simultânea em dois planos

“… diante de um perigo extremo, imperceptivelmente, sem
querer fazer barulho ou cometer um gesto muito violento que acordaria o inimigo e que te destruiria imediatamente,

assumindo o risco e sem nunca ter esperança de sobreviver,
apesar de tudo,
no ano seguinte,
eu decidia voltar a vê-los, voltar atrás,
voltar sobre os meus passos e fazer a viagem,
para anunciar, lentamente, com cuidado, com cuidado e precisão

a minha morte próxima e irremediável…”  Luiz, fala de Apenas o Fim do Mundo                                                                                                                            

Enquanto outras produções do grupo estão impregnadas de preocupações políticas explícitas, da militância ou de referências a movimentos espalhados pelo mundo, em Apenas o Fim do Mundo esse caráter escorre pelas brechas de uma possível política que atinge corpos individuais nas guerras executadas contra alguns.

Jean-Luc Lagarce morreu jovem, aos 38 anos, em 1995, vítima da Aids. Há, possivelmente, qualquer coisa de autobiografia em Apenas o Fim do Mundo. O protagonista da peça – Luiz – está doente, com uma perspectiva de morte próxima, mas que nunca é nomeada no texto.

Luiz (Pedro Wagner) volta à casa materna, depois de uma dúzia de anos fora, para contar que tem uma doença terminal. Ele nos conta – a nós espectadores – mas não fala para a família. Dá pra conjecturar sobre a parábola do filho pródigo.

A Mãe (Erivaldo Oliveira) utiliza todas as estratégias para que Luiz se sinta bem-vindo. O irmão Antônio, guarda mágoa pelo que considera abandono, e reage com pequenas explosões de violência. A irmã Suzana, uma quase desconhecida para Luiz, oscila entre a mágoa e a excitação. Para completar o quadro, Catarina, a atenta mulher de Antônio, que também não conhecia o cunhado.

Erivaldo Oliveira faz A Mãe

Pedro Wagner faz Luiz

Em Necropolítica (N-1 Edições), o filósofo e pensador camaronês Achille Mbembe segue o pressuposto de “que a expressão máxima da soberania reside em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer”, razão pela qual “matar ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais.”

Então “ser soberano é exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implantação e manifestação de poder.” Nessa visada “a soberania é a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é ‘descartável’ e quem não é.”

Mas o que isso tem a ver com Apenas o Fim do Mundo, uma peça escrita por um francês em 1990, traduzida para o português por Giovana Soar, em 2005, sobre um filho que retorna à casa materna para anunciar sua morte próxima? O que uma reunião familiar que fala sobre o amor diz sobre quem importa e que não importa?

Projeção no começo da peça

No início das apresentações são projetadas poucas frases. Uma diz respeito à Aids e aos riscos atuais.

Na página da Fiocruz, do Ministério da Saúde, está exposta uma linha do tempo sobre a epidemia da Aids.

Alguns tópicos:
1977/78 – Estados Unidos, Haiti e África Central apresentam os primeiros casos da infecção, definida em 1982;
1982 – Confirmação do primeiro caso de Aids no Brasil e identificação da transmissão por transfusão sanguínea. Adoção temporária do termo Doença dos 5 H – Homossexuais, Hemofílicos, Haitianos, Heroinômanos (usuários de heroína injetável), Hookers (profissionais do sexo em inglês).
1983 – Uma reportagem publicada no jornal Notícias Populares traz como manchete: Peste-Gay já apavora São Paulo. É a pior e a mais terrível doença do século – dois brasileiros mortos.
1986 – Criação do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde.
1989 – Pressionada por ativistas, a indústria farmacêutica Burroughs Wellcome reduz em 20% o preço do AZT no Brasil.
1990 – Cazuza morre aos 32 anos. Mais de 6 mil casos de Aids são registrados no país.
1991 – O Ministério da Saúde dá início à distribuição gratuita de antirretrovirais. A OMS anuncia que 10 milhões de pessoas estão infectadas pelo HIV no mundo. No Brasil, 11.805 casos são notificados
1997 – Morre o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.
1999 – O Governo Federal divulga redução em 50% de mortes e em 80% de infecções oportunistas, em função do uso do coquetel anti-Aids. O Ministério da Saúde disponibiliza 15 medicamentos antirretrovirais.
2003 – O Programa Brasileiro de DST/Aids recebe prêmio de US$ 1 milhão da Fundação Bill & Melinda Gates em reconhecimento às ações de prevenção e assistência no país, que abriga 150 mil pacientes em tratamento.
2004 – Recife reúne quatro mil participantes em três congressos simultâneos: o V Congresso Brasileiro de Prevenção em DST/Aids, o V Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids e o I Congresso Brasileiro de Aids. Mais de 360 mil casos de Aids são registrados no país.

O Programa Nacional de HIV/Aids do Brasil é reconhecido, até o ano passado, como exemplo no mundo inteiro. Entidades do setor receiam retrocessos nos direitos conquistados e na prevenção à doença no governo de Jair Bolsonaro. Acendeu o sinal vermelho sobre o futuro das políticas de saúde no país.

Parece-me que o Magiluth também fala sobre isso. Dos corpos ameaçados, do que estão na mira para serem destruídos, apagados. E as políticas públicas definem muitos desses caminhos. Para os alvos preferencias, as lutas são incessantes. E suponho que tudo começa na família.

Numa das conversas da família de Apenas o Fim do Mundo, Catarina, a cunhada, conta sobre os filhos. O menino carrega o nome de Luiz.

CATARINA – Ele tem o nome do pai de vocês,
eu acho, nós achamos, nós achávamos, eu acho que é bom,
isso era do gosto do Antônio, era uma coisa, uma coisa que ele, que ele fazia questão,

Na minha família há o mesmo tipo de tradição, …
o nome dos pais ou do pai do pai do filho macho, o primeiro rapaz, essas histórias todas.
E depois,
e já que você não tinha filhos,

o Antônio diz que você não vai ter
já que você não tem nenhum filho,
é sobretudo por isso,
já que você não vai ter nenhum filho,

parecia lógico,
foi o que nos dissemos, que nós o chamássemos Luiz,
como o seu pai, e, portanto, como você.

ANTÔNIO: Mas você continua sendo o mais velho, não há dúvida nenhuma em relação a isso.

Não há luta política confessada no texto de Lagarce. As conspirações, boicotes e desejos inconfessáveis de vingança vêm pela via do afeto, dessa ligação mais íntima com os parentes, nutridos por um cromatismo de amor.

A cidade de São Paulo entra pelas vidraças

(o que eu quero dizer)
«no fim das contas»
como que por desencorajamento, como que por cansaço de mim,
que eles me abandonaram sempre porque eu peço o abandono
Eu acordava com a ideia estranha e desesperada e indestrutível também
de que me amavam vivo como gostariam de me amar morto
sem nunca poder nem saber me dizer nada. Luiz, fala de Apenas o Fim do Mundo

A direção compartilhada entre Giovana Soar – que traduziu o texto para uma montagem da Companhia Brasileira de Teatro em 2005, e Luiz Fernando Marques, Lubi, do grupo XIX maximiza competências. Giovana traz um olhar denso para o texto, uma atenção sutil aos detalhes periféricos, o cuidado com a fala e as inflexões, ampliando as possibilidades de leitura desse peça complexa e profunda. Lubi tratou da encenação, da ocupação do espaço cênico, inventou ambientes da cena naquela sala multiuso com uma criatividade impressionante. As cenas – nascem e desaparecem – em cada canto, com os solilóquios das personagens. Eles desenvolvem uma direção envolvente, compõem com seus atores cenas admiráveis.

A disposição das situações nos cômodos fechados de uma casa e as dinâmicas entre as cenas são bem solucionados na apropriação da sala multiuso do Sesc Avenida Paulista. A varanda iluminada se abre para a cidade, remetendo ao confronto Metrópole/província e de suas articulações e projeções de desejos das personagens. É uma das paisagens mais icônicas de São Paulo e isso remete a muitas reflexões sobre poder, capitalismo, máquinas desejantes. O espetáculo foi erguido a partir da ideia de site specific, segundo o grupo.

Site specific é um termo utilizado há décadas para designar obras traçadas de acordo com o espaço na sua concepção e execução, transformando ou incorporando o espaço ao trabalho. Atualmente pode ser qualquer trabalho cênico que ocorra fora de um teatro tradicional.

No fundo, a solidão de tudo

A trajetória do Magiluth está pontuada por criações de dramaturgias próprias, montagens irreverentes de textos consagrados, com direito ao improviso, aos exageros, a expansões de teatralidades. Em Apenas o Fim do Mundo o risco passa pela contenção. É na moderação que reside o desafio. “A dramaturgia de Lagarce é poderosa, preponderante, quase insuportável”, escreve Giovana Soar no programa.

A palavra é um olho d’água que o elenco trata com sensibilidade para facilitar o rio caudaloso. Os atores fazem o jogo da presença com sutileza nas minúcias, nas ondulações. A violência interna das personagens garante uma dimensão profunda e dolorosa.

Espaço mínimo cria sensação de sufocamento

Após muitos anos longe da casa materna, sem contato com seus parentes, o escritor Luiz volta a sua cidade natal, para um almoço em família. Ele iria falar sobre morte iminente. É um domingo, mas poderia ser a vida inteira, porque os procedimentos são os mesmos. Ao encarar o peso da figura materna, sua – praticamente desconhecida – irmã mais nova Suzana, seu ciumento irmão Antônio, e sua cunhada Catarina, ressentimentos vem à tona.

Todos os artistas brilham: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral e Pedro Wagner. Todos usam roupas do cotidiano, inclusive os que defendem personagens femininas. As palavras reverberam no corpo e no espaça. Esse texto não realista, inspirado em analogias realistas permite que os artistas potencializem a presença.

Pedro Wagner carrega um Luiz contido, que emana ondas de sentimentos em seus silêncios, em sua concentração. O motor do seu “ganhar o mundo” não fica claro – o abandono de que os parentes falam. Talvez o fato de ser homossexual tenha sido decisivo para a partida. Enquanto o prestígio do dramaturgo crescia, lá fora, a família acompanhava suas vitórias através do noticiário. O escritor só enviava cartões postais nos aniversários com duas ou três frases.

o que a gente espera,
é que o resto do mundo desapareça com a gente,
que o resto do mundo poderia desaparecer com a gente,
se apagar, se devorar e não mais sobreviver à mim.

Na cena 10, Luiz quase silente abre as comportas das palavras:

Que vão fazer de mim quando eu não estiver mais aqui?
A gente gostaria de mandar, de reger, de aproveitar mediocremente da perturbação deles e conduzi-los um pouco mais.
A gente gostaria de ouvi-los, eu não os ouço,
obrigá-los a dizer besteiras definitivas
e saber enfim o que eles pensam.

A figura materna suporta um peso, do conflito do amor / ódio dessa família. Erivaldo Oliveira trabalha as contradições dessa Mãe, que tenta controlar as relações humanas nessa casa, vislumbrar os segredos, entender os silêncios, as meias-verdades, as omissões.

Há diálogos incríveis e solilóquios arrebatadores para todos os papéis.

Acerto de contas entre os irmãos Antônio (Mário Sergio, em pé) e Luiz (Pedro Wagner, de costas)

Bruno Parmera faz a irmã Suzana

Mário Sergio Cabral é irmão de Pedro Wagner e são também manos na ficção. Na pele de Antônio, Mário Sérgio eleva o grau da emoção nas cenas de desabafos, que jorram de uma fonte profunda.

Suzana, a irmã, é feita por Bruno Parmera, que idealiza e deseja a vida do mais velho da prole. Giordano Castro aproveita bem o nervosismo e a submissão da cunhada, Catarina, com nuances interessantes. Giordano também investe no contraponto mais humorado em algumas cenas, para dar um respiro a tanta tensão. Lucas Torres não dispõe de nenhum papel, mas cuida das mudanças de cenas, deslocando objetos, respondendo pela contrarregragem e tocando bateria na banda.

Mesmo o fato do elenco tocar mal os instrumentos da banda parece uma camada a mais. Enquanto a trilha sonora gravada assume a função de criar ambientes, a música tocada bate em outro lugar. Esse som causa ruído… desconforto… como os insuportáveis incômodos que famílias de LGBTS provocam nos encontros que deveriam ser festivos. Aqueles vigilantes mais próximos do desejo alheio… esses seres que trafegam freneticamente entre a intimidade e a estranheza.

Na peça experimentamos estados de desconforto, nervosismo, sensação de sufocamento. Claustrofobia que vem deles e atinge o público. Os monólogos na tentativa de diálogos são fulminantes. O estranho familiar, de que fala Freud, produz esse sentimento de ultrapassagem, como o atropelamento de um estranho nem tão desconhecido assim.

Carregando o desassossego desse corajoso e implacável espetáculo intuo que a melhor opção ainda seja o amor, mesmo em segredo, mesmo que não pareça justo, mesmo que machuque.

Ficha técnica

Direção: Giovana Soar e Luiz Fernando Marques
Assistência de direção: Lucas Torres
Dramaturgia: Jean Juc-Lagarce
Atores: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sérgio Cabral e Pedro Wagner
Desenho de luz: grupo Magiluth
Direção de arte: Guilherme Luigi
Fotografia: Estúdio Orra
Design Gráfico: Guilherme Luigi
Realização: Grupo Magiluth

Serviço:
Apenas o fim do mundo
Quando: de 11 de abril a 5 de maio, de quinta a sábado, às 21h, e aos domingos, às 18h. Sessões extras: 1º/05 (quarta-feira), às 18h; 2/5 (quinta), 3/5 (sexta) e 4/5 (sábado), às 17h. Até 05/05
Onde: Sesc Avenida Paulista– Arte II (13º andar)
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Duração: 1h40 min

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Magiluth: uma nova peça para falar de amor

Magiluth comemora 15 anos com a estreia de Apenas o fim do mundo. Foto: Estúdio Orra

Grupo pernambucano comemora 15 anos com a estreia de Apenas o fim do mundo. Foto: Estúdio Orra

Desde os últimos dias do mês de março, o 13º andar do Sesc Avenida Paulista, inaugurado em abril do ano passado em São Paulo, é ocupado pelos atores do Magiluth. Através das paredes envidraçadas, a cidade se exibe, apressada e urgente, como sempre, a partir de uma das paisagens mais icônicas da capital. Do lado de dentro, apesar da aparente proteção em meio ao caos, também há urgências e a rotina está exaustiva. Prazerosa, desafiadora, mas exaustiva. Além de apresentar os espetáculos Aquilo que o meu olhar guardou para você e Dinamarca em semanas consecutivas e sessões sempre cheias, o grupo recebeu oficineiros que se inscreveram, interessados em acompanhar o processo de montagem do novo espetáculo, Apenas o fim do mundo, que estreia nesta quinta-feira (11), na mesma sala em que foi criado.  

A ação se passa em um domingo, ou ainda, ao longo de quase um ano inteiro, somos avisados logo no início do texto do francês Jean Luc-Lagarce. Talvez tenha sido mais ou menos assim a gestação de Apenas o fim do mundo. Em julho do ano passado, já tendo se aproximado da dramaturgia, o grupo fez uma residência artística no mesmo Sesc Paulista, aberta a interessados, com Giovana Soar, que traduziu o texto para uma montagem da Companhia Brasileira de Teatro em 2005, e Luiz Fernando Marques, Lubi, do grupo XIX. Em outubro, numa parceria com o Feteag, uma nova residência artística, desta vez no Centro Cultural Benfica, no Recife. Nos dois momentos, o processo contou com a apresentação de ensaios abertos ao público. Os atores passaram ainda duas semanas no sítio Valado, em Chã Grande, a 80 km da capital pernambucana, ao redor de uma mesa, dedicados ao texto.

Apesar de muito coerente com a trajetória do grupo, a escolha de montar essa dramaturgia é uma tarefa de grandes proporções para o Magiluth. “Como atores, eles nunca tinham encarado um texto com essa complexidade, tanto em tamanho quanto em profundidade e formalismo”, explica Giovana, que assume a direção ao lado de Lubi. A atriz, diretora e tradutora conheceu o grupo no Rumos Teatro, em 2011. Antes da estreia de Viúva, porém honesta, assistiu aos ensaios, mas trabalhou mais diretamente com os atores durante o processo de Dinamarca. Já com Lubi, a parceria vem desde a direção de Aquilo que o meu olhar guardou para você (2012).

Acostumados a trabalhar com dramaturgias próprias ou mesmo com adaptações, mas em processos mais livres, que permitiam, por exemplo, o improviso, os atores agora encaram palavras que precisam ser ditas com cuidado, para que não corram o risco de se perderem ou de não alcançarem a devida dimensão. “Eles estão acostumados a uma dramaturgia muito mais coloquial, a falar a palavra que querem, a colocar um caco, fazer piada com o cotidiano, e isso está proibido! Eu tenho sempre um chicote na mão!”, brinca Giovana.

Dramaturgia é do francês Jean Luc-Lagarce

Dramaturgia é do francês Jean Luc-Lagarce

Apenas o fim do mundo é um texto vertical, que esmiúça sentimentos a partir de uma relação familiar. Luiz decide reencontrar a mãe, o irmão e a irmã ao se deparar com a iminência da morte. Basicamente, é uma peça sobre o amor. Uma observação interessante é que Pedro Wagner e Mário Sérgio Cabral, irmãos na vida real, serão irmãos também na ficção. Pedro faz Luiz; Mário é Antônio; Erivaldo Oliveira é a mãe; Suzana, a irmã, é feita por Giordano; e a cunhada, Catarina, ficou com Bruno Parmera. Lucas Torres não está com nenhum personagem, mas é fundamental para o espetáculo, avisa Giovana. “Eles têm uma coisa louca de fazerem tudo! Não tem técnico de luz, de som, eles montam tudo, operam tudo! Por isso Lucas é uma peça primordial”.

Diante da iminência da morte, Luiz (Pedro Wagner) reencontra a família

Diante da iminência da morte, Luiz (Pedro Wagner) reencontra a família

Mesmo com o rigor no trabalho com a palavra, o jogo que é a base da performatividade do grupo se revela na construção das cenas. O espetáculo foi erguido a partir da ideia de site specific, da apropriação do espaço, explica o ator Giordano Castro. “Essa estreia será de muitas descobertas. Nunca vamos ter um espetáculo fechado: ele vai acontecer aqui em São Paulo, mas não necessariamente vai acontecer do mesmo jeito no Recife. Estamos usando o espaço, com o que ele nos proporciona. Em cada lugar que a gente chegar, vamos ter que repensar o trabalho novamente. Isso é muito doido!”, comenta.

A expectativa é que o Recife só veja a peça no segundo semestre. “Estamos terminando uma pesquisa sobre o bairro de São José, vamos fazer a criação de parte do roteiro de uma série em parceria com Hilton Lacerda, e ainda queremos fazer um novo espetáculo de rua. No meio disso tudo, tem a comemoração dos 15 anos do grupo. Pretendemos apresentar algumas peças do repertório e o trabalho novo”, adianta.

A temporada em São Paulo vai até 5 de maio. Antes disso, entre os dias 17 e 20 de abril, os atores ministram uma oficina intitulada “Jogo Total”. As inscrições já estão encerradas. No dia 17, às 20h30, haverá um bate-papo com Ivana Moura, uma das editoras do Satisfeita, Yolanda?, e o diretor do grupo Clowns de Shakespeare, de Natal, Fernando Yamamoto, sobre “Os últimos 15 anos de teatro no Nordeste”. A entrada é gratuita.

Ficha técnica

Direção: Giovana Soar e Luiz Fernando Marques
Assistência de direção: Lucas Torres
Dramaturgia: Jean Juc-Lagarce
Atores: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sérgio Cabral e Pedro Wagner
Desenho de luz: grupo Magiluth
Direção de arte: Guilherme Luigi
Fotografia: Estúdio Orra
Design Gráfico: Guilherme Luigi
Realização: Grupo Magiluth

Serviço:
Apenas o fim do mundo
Quando: de 11 de abril a 5 de maio, de quinta a sábado, às 21h, e aos domingos, às 18h
Onde: Sesc Avenida Paulista
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Duração: 1h40 min

 

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Delicadas, e explosivas, relações familiares

Difíceis relações entre pais e filhos são abordadas na peça Esta criança. Fotos: Annelize Tozetto

Difíceis relações entre pais e filhos são abordadas na peça Esta criança. Fotos: Annelize Tozetto

É muito bom ver uma atriz consagrada se associar a uma companhia jovem e em plena ascensão para realizar um trabalho de fôlego, de pesquisa e de entrega. No caso, Renata Sorrah em parceria com Cia Brasileira de Teatro, grupo que já esteve no Recife com Vida, Oxigênio e Isso te interessa?. A parceria entre intérprete e trupe rendeu energia, troca e revitalização para as partes envolvidas.

Esta criança, um texto forte do dramaturgo francês Joel Pommerat, – que catalisa aspectos estranho e familiar – mete o dedo nas feridas das difíceis relações entre pais e filhos. E tem um pouco de tudo, o espectador pode até se identificar.

Marcio Abreu é responsável pela direção do espetáculo, com assistência de direção de Nadja Naira. No elenco, além de Ranata Sorrah estão Giovana Soar, Ranieri Gonzalez e Edson Rocha.

Esta Criança foi o grande vencedor da 25ª edição do Prêmio Shell de Teatro do Rio

Esta Criança foi o grande vencedor da 25ª edição do Prêmio Shell de Teatro do Rio

A peça é composta por 10 situações familiares que não têm ligações entre si. Mas todas convergem para o mesmo tema. As relações de parentesco que podem conter nitroglicerina pura. As variadas abordagens privilegiam aspectos constrangedores, engraçados, tristes e estranhos. Uma mulher quer doar seu pequeno bebê a um casal de seu prédio e o discurso levanta questões da alegria e surpresa da adoção e a tensão e as mil explicações para o abandono.

Uma jovem mulher grávida expõe suas projeções de felicidade, para mostrar aos seus próprios pais que ela pode ir além. Há um diálogo entre uma menininha que porta uma mochila vermelha e seu pai, ele sentado numa pequena cadeira e ela na grande. A garota rejeita o pai que tenta chantageá-la. Um homem explode numa refeição em família e diz que seu pai não é o seu espelho e que por trás de uma aparência tranquila existe um vulcão.

Ansiedade, medo, desejo de provar alguma coisa, desejo de ser alguma coisa. Esse mundo de projeções e lembranças é feito de humor e magia. Mãe, pai, filho, esses papéis que são trocados.

O espetáculo Esta criança foi o grande vencedor da 25ª edição do Prêmio Shell de Teatro do Rio. Teve cinco indicações e levou quatro troféus para casa: Renata Sorrah (melhor atriz), Marcio Abreu (melhor diretor), Nadja Naira (melhor iluminação) e Fernando Marés (melhor cenário).

A encenação percorre relações miúdas e cheias de significado para um homem comum. São fragmentos de alta-tensão. A intensidade que vai além das palavras. Os subterrâneos emocionais são invadidos. Há a virulência da palavra plena, com uma faca afiada.

O encenador conduz tudo com mão firme para extrair a delicadeza, esses pontos fracos marcados na pele e na memória. A cenografia de Fernando Marés e a iluminação de Nadja Naira afinam a proposta, a primeira distorcendo um pouco essa noção do real – que tem tudo a ver com as lembranças do que ocorreu para cada um, que podem estar mais próximas ou distantes do fato em si. A iluminação de Nadja Naira trabalha com os claros/escuros e salienta as sombras em belas imagens.

Renata Sorrah está plena como nesta cena do reconhecimento do corpo do fiho;

Renata Sorrah está plena na encenação, como nesta cena do reconhecimento do corpo do fiho

Um dos momentos mais fortes da peça é quando duas amigas vão ao IML para identificar um corpo, que suspeita-se ser filho de uma delas. Renata Sorrah e Giovana Soar trabalham o desequilíbrio entre felicidade, alívio, egoísmo e dor. A cena é emblemática do espetáculo. Talvez se o diretor Marcio Abreu diminuir um pouco a duração, ganhe em intensidade, força e impacto.

Renata Sorrah está plena, em toda sua capacidade de intérprete, linda no palco, como mãe ou como filha. Giovana Soar, Ranieri Gonzalez e Edson Rocha têm ótimas participações, garantindo a alta qualidade da encenação.

E nos papéis de pai ou mãe, “desejo e sina”, filho ou filha, alguns conseguem arrancar do outro “coração a fecha farpada” e “e sem medo do grito”, com o perdão pedido, dado, não dado, sonhado para tornar a vida mais bela.

* A jornalista Ivana Moura viajou a convite da produção do Festival de Teatro de Curitiba

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