Arquivo da categoria: Críticas

Você está me ouvindo?
Isso é um estrondo estético-político
Crítica: Pai contra mãe

Aysha Nascimento e Flávio Rodrigues em cena de Pai contra mãe ou Você está me ouvindo? Foto: Marcelle Cerutti / Divulgação

Nem todos compreendem em profundidade palavras como atroz e impiedoso quando se referem ao arcabouço do racismo entranhado na sociedade brasileira. E não é uma questão de cognição. (Ou é???) De todo modo, o entendimento não atravessou o corpo (da branquitude). Por isso é preciso dizer de novo, mostrar, para ver se desperta alguma sensibilidade adormecida. Você está me ouvindo?

Os adjetivos são tentativas de nomear o inominável. “…Cruel, desumano e aterrorizante é a herança escravocrata materializada na miséria e nas desigualdades raciais e sociais que vivemos e convivemos até os dias atuais. Uma espécie de necropolítica (Mbembe, 2018) cotidiana acaba por decidir quem sobreviverá ou não”, escreve Jé Oliveira, diretor e dramaturgo do espetáculo Pai contra mãe ou Você está me ouvindo?, no programa da peça.

Nem todos sentem na própria pele as feridas abertas que o sistema racista, patriarcal e misógino continua a infligir diariamente em nossa existência coletiva. O Coletivo Negro, com maestria, destrincha brechtianamente esse rosário de violências sistêmicas na peça livremente inspirada no conto de Machado de Assis, Pai contra mãe, escrito em 1906 – uma obra que, mesmo após mais de um século, continua a ecoar verdades, pois as engrenagens opressoras permanecem erguidas, sustentando os alicerces de nossa coletividade fraturada. 

No conto Pai contra Mãe, Cândido Neves, o Candinho, um homem branco e “livre”, mas desempregado e afundado em dívidas, sobrevive de favor com sua esposa grávida, Clara, na casa de Tia Mônica. Pressionado pelo proprietário que exige o pagamento do aluguel atrasado e pela tia, que sugere entregar o recém-nascido à roda dos enjeitados caso não obtenha recursos, ele se sente encurralado. Em seu desespero, Candinho se torna “capitão do mato avulso” e recorre à captura de uma escravizada fugitiva em troca da recompensa oferecida.

 Já na versão cênica do Coletivo Negro, essa subjugação ganha contornos contemporâneos e mais complexos: Osvaldo, homem negro recém-empregado como vigilante de supermercado, persegue Zaíra da Conceição, mulher negra retinta, após um alerta do sistema de monitoramento que a acusa falsamente de furto. Ele a conduz à força para um reservado do estabelecimento – uma espécie de senzala particular – onde a pressiona violentamente durante o interrogatório, provocando o aborto. 

O espetáculo expõe brilhantemente a perspectiva interseccional de camadas sobrepostas de opressão: Osvaldo, mesmo sendo negro, exerce poder institucional sobre Zaíra, porém permanece subjugado pelo sistema capitalista neoliberal que o emprega precariamente. Esse intrincamento demonstra como raça, classe e gênero se entrelaçam, criando hierarquias mesmo entre os historicamente oprimidos – mas reservando às mulheres negras o lugar mais vulnerável dessa estratificação social.

O supermercado como cenário teatral estabelece um paralelo significativo entre a escravidão histórica e as estruturas do capitalismo tardio. Enquanto no conto machadiano, a perseguição a Arminda ocorre abertamente nas ruas coloniais, o espaço comercial funciona de forma mais sutil, porém igualmente eficaz. As câmeras de vigilância, protocolos de segurança e monitoramento constante substituem as correntes físicas do passado, mantendo, contudo, sua função essencial: limitar a autonomia e explorar o trabalho sob uma aparência de normalidade e ordem social estabelecida. O que evidencia como práticas opressivas se adaptam e se revestem de novas formas ao longo do tempo.

A maternidade interrompida permanece como elemento central em ambas narrativas, mas com potências distintas. Se no conto original o aborto de Arminda é narrado friamente com efeito calculadamente cortante, na peça teatral este fato torna-se nevrálgico para o desfecho que projeta-se como um “se liga, mano”.

Thiago Sonho, Lua Bernardo e Maurício Pazz: músicos que tocam na peça. Foto: Marcelle Cerutti / Divulgação

Criadas especificamente para o espetáculo, as composições musicais operam como pontes temporais que conectam passado ao presente. Na tessitura cênica elaborada por Jé Oliveira, a dimensão musical estabelece-se como uma dramaturgia sonora, onde letras e melodias constituem uma poética  própria da encenação, amplificando questões cruciais sobre ancestralidade e resistência.

A proposta musical posiciona-se como elemento estruturante da narrativa épica, executada pelo trio formado por Lua Bernardo (baixo acústico e elétrico, sopros e voz), Maurício Pazz (bandolim, violão, guitarra, cavaco e voz) e Thiago Sonho (percussão, bateria, samplers e voz). Assinadas por Oliveira em parceria com Jonathan Silva – responsável pelas melodias – , as composições articulam uma linguagem que atravessa tempos históricos distintos, costurando o Brasil colonial ao contemporâneo através de estruturas rítmicas que funcionam como arquivo vivo da memória afrodiaspórica.

Entre tradições percussivas de matriz africana e experimentações sonoras contemporâneas, entre jogos vocais que remetem aos cantos de trabalho e harmonizações que dialogam com o jazz e a música experimental, a paisagem sonora da montagem reforça o que o texto aponta: a persistência dos sistemas de opressão sob novas máscaras.

A música em Pai contra Mãe ou Você está me Ouvindo? reivindica escuta e desestabiliza certezas – elementos fundamentais para uma obra que, longe de oferecer respostas consoladoras, insiste em formular as perguntas perturbadoras que a sociedade brasileira continua a evitar. Particularmente emblemática é a composição Quem manda no mundo não muda, concretizando sonoramente o argumento central da montagem.

Flávio Rodrigues como narrador: Machado de Assis. Foto: Marcelle Cerutti / Divulgação

A vocalização de Flávio Rodrigues como narrador — um Machado de Assis materializado e retinto — provocou-me um impacto desconcertante logo nas primeiras cenas. O ator inicia sua atuação pelo caminho do estranhamento e do deboche calculado, uma escolha que potencializa os aspectos mais incômodos do texto machadiano. Seu trabalho vocal evolui gradativamente, transformando o distanciamento irônico em uma contundente crítica social, num movimento que espelha a própria estratégia narrativa da peça. A decisão de representar o autor como um homem negro retinto funciona como dispositivo cênico que robustece a identidade racial do escritor, frequentemente embranquecida pela historiografia tradicional.

Jé Oliveira demonstra notável maturidade ao orquestrar os diversos elementos cênicos em uma narrativa coesa e impactante. O adensamento de sua poética como encenador (Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens; Gota d’Água {Preta}) manifesta-se na precisão com que articula música, atuação, cenografia e projeções, criando um todo integrado onde cada componente amplifica o efeito dos demais. Ao provocar questionamentos complexos, Oliveira confirma profunda compreensão do teatro como espaço de reflexão política. Com habilidade singular, o diretor equilibra momentos de densidade com necessários respiros poéticos, conduzindo o público por uma experiência teatral marcante.

Um dos aspectos mais contundentes da encenação é a coragem de apresentar racismo e classe como sistemas de opressão interdependentes. A montagem não romantiza a negritude nem reduz as complexas relações raciais brasileiras a esquemas simplistas. Ao contrário, escava as contradições internas das desigualdades racializadas.

Com agudeza crítica, a encenação expõe a fragmentação interna da comunidade negra mencionada por Oliveira, explorando como determinados indivíduos não se reconhecem como negros ou negam a existência do racismo. Mais que isso, a obra desnuda os mecanismos de dominação que estrategicamente posicionam negros contra negros, mulheres contra mulheres ou pobres contra pobres, transformando potenciais aliados em adversários. Essas engrenagens conseguem  fragmentar grupos que, unidos, poderiam desafiar os poderes opressivas.

Elenco: Aysha Nascimento, Flávio Rodrigues e Raphael Garcia

A cenografia concebida por Flávio Rodrigues traduz materialmente as metáforas sobre o corpo negro na sociedade brasileira. O uso do plástico como elemento central aparece potente em sua polissemia: ora sugere o mar que trouxe os escravizados, ora se transforma em envoltório que cobre corpos assassinados, ora sufoca como as estruturas opressivas que limitam a respiração social. Este material barato e descartável, funciona como alegoria para a objetificação histórica dos corpos negros no Brasil.

As projeções ampliam a potência do cenário, estabelecendo conexões imagéticas entre o passado colonial e o presente neoliberal. Esta camada sobreposta aos elementos físicos cria profundidades que enriquecem simultaneamente a experiência estética e o impacto político do espetáculo, evidenciando continuidades históricas através de uma linguagem iconográfica contemporânea.

A atuação do elenco constitui um dos pilares de força da montagem. Aysha Nascimento, como a mãe escravizada, constrói uma presença cênica que oscila entre a fragilidade imposta pela pressão social e a força interior de quem resiste. Seu corpo comunica tanto quanto suas palavras, numa performance física intensa que materializa o sofrimento e a resistência.

Raphael Garcia, interpretando o pai endividado, navega com precisão pelos territórios moralmente ambíguos de seu personagem, evitando tanto a demonização simplista quanto a absolvição fácil.

Já Flávio Rodrigues, como narrador-Machado, estabelece um vínculo direto com a plateia que ora convida à cumplicidade, ora provoca desconforto necessário.

Os três atores demonstram notável cumplicidade cênica, que dá sustentação às complexas camadas do espetáculo.

Pai contra Mãe ou Você está me Ouvindo? chega como um manifesto estético-político que ressignifica a obra original de Machado de Assis à luz das urgências contemporâneas. No desfecho da obra, o Coletivo articula uma mensagem direta de conscientização, convocando especialmente a comunidade negra a fortalecer seus laços de resistência coletiva. O recado para os “manos se ligarem” evidencia a persistência de uma lógica perversa: nas disputas por sobrevivência e dignidade, quem está em posição de desvantagem estrutural inevitavelmente arca com o preço mais alto. Então, o peso das crises econômicas, da violência estatal e das injustiças sociais recai desproporcionalmente sobre a população negra e periférica.

 

Pai Contra Mãe Ou Você Está Me Ouvindo?

Ficha Técnica

Idealização, Concepção, Dramaturgia e Direção Geral: Jé Oliveira
Assistência de Direção: Rodrigo Mercadante
Atuação: Aysha Nascimento / Flávio Rodrigues / Raphael Garcia
Direção de Movimento e Coreografia: Aysha Nascimento
Direção Musical: Guilherme Kastrup e Jé Oliveira

Banda:
Baixo Acústico e Elétrico, Sopros e Voz: Lua Bernardo
Bandolim, Violão, Guitarra, Cavaco e Voz: Maurício Pazz
Percussão, Bateria, Samplers e Voz: Thiago Sonho
Composições Originais: Jé Oliveira e Jonathan Silva
Melodias: Jonathan Silva
Arranjos: Guilherme Kastrup, Jé Oliveira, Lua Bernardo, Maurício Pazz e Thiago Sonho
Preparação de canto: William Guedes

Videografia: Bianca Turner
Light Designer: Matheus Brant
Assistência e Operação de Luz: Aline Sayuri
Figurinos: Eder Lopes
Costureira: Nininha Lopes
Cenografia: Flávio Rodrigues
Cenotécnico: Wanderley Wagner
Serralheiro: Mauricio Batista
Engenharia de Som: Tomé de Souza
Contrarregras: China, Billy e Flávio Serafin
Fotos: Marcelle Cerutti
Identidade Visual: Murilo Thaveira
Participação em Vídeo: Lilian Regina e Sidney Santiago Kuanza
Estudos teóricos e oficinas: Aysha Nascimento, Flávio Rodrigues, Jé Oliveira e Raphael Garcia
Produção Executiva: Catarina Milani
Assistência de Produção: Éder Lopes
Produção Geral: Gira Pro Sol Produções – Jé Oliveira

O Satisfeita, Yolanda? faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica,  apoiado pela produtora Corpo Rastreado, junto às seguintes casas : CENA ABERTA, Guia OFF, Farofa Crítica, Horizonte da Cena, Ruína Acesa e Tudo menos uma crítica

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A tradição desencantada
Crítica: Paixão de Cristo do Recife

Primeira noite da Paixão de Cristo do Recife, no Marco Zero. Foto:: TFN

Jesus, mulheres e crianças. Foto: TFN

Paixão de Cristo do Recife é apresentada ao ar livre, na Praça do Marco Zero. Foto: TFN

Desde que comecei a acompanhar a Paixão de Cristo do Recife, exibida primeiramente no Estádio do Arruda e, nos últimos anos, na Praça do Marco Zero, no centro do Recife, sempre me tocou a valentia desse conjunto de artistas pernambucanos em realizar essa montagem, enfrentando desafios financeiros, estruturais e de toda ordem. É uma persistência coletiva que mantém o espetáculo vivo.

Quando soube que a montagem de 2025 traria aspectos mais contemporâneos tanto no conceito quanto na encenação, minha curiosidade foi aguçada. Fui à estreia na sexta-feira (18). Ao final da sessão, senti uma espécie de pesar e perplexidade, como se a experiência provocasse um lamento pelo resultado alcançado, evidenciando a dificuldade em discernir, de imediato, o sentido das inovações propostas.

Antes do início da apresentação, o produtor Paulo de Castro deu seu recado, destacando que o espetáculo reaviva o lema “Paixão do Povo”. Castro agradeceu ao apoio de patrocinadores, dos recursos da Lei Rouanet e de diversas instituições, como a Prefeitura do Recife, a Secretaria de Cultura, a Fundação de Cultura Cidade do Recife, o Complexo Industrial Portuário Governador Eraldo Gueiros – Suape e a Companhia Pernambucana de Gás (Copergás).

A 27ª edição da Paixão de Cristo do Recife vai até segunda-feira, 21 de abril, sempre às 18h, no Marco Zero. Apresentada pela Roda Cultural e com direção e roteiro de Carlos Carvalho, a encenação reúne um elenco composto por 50 atores e 60 figurantes. Entre os protagonistas estão Asaías Rodrigues (Zaza), no papel de Jesus, e Brenda Ligia, interpretando Maria. Além deles, Carlos Lira encarna Pilatos; Albemar Araújo, Herodes; Clau Barros, Madalena; Gil Paz, João Batista; Ivo Barreto, Judas; e Paula de Tássia, o Diabo.

A cena da Santa Ceia. Foto: TFN

Milhares de pessoas acompanham a Paixão de Cristo do Recife, um espetáculo ao ar livre, em uma praça às margens do rio Capibaribe. A produção utiliza vozes pré-gravadas, com os atores dublando a si próprios ou a outros — como no caso do personagem Judas, interpretado por Ivo Barreto, mas com a voz de Júnior Aguiar.

Nesse tipo de encenação, a abundância de teatralidade visual almeja conectar o público aos valores do cristianismo, ao sofrimento e posterior triunfo de Cristo. É necessário envolver o espectador numa experiência coletiva marcante, criar um ambiente que transporte a plateia para a história que está sendo contada. 

Nesta edição da Paixão de Cristo do Recife o encanto que esses elementos da encenação poderiam ter despertado na plateia não aconteceu. Os recursos técnicos mostraram-se insuficientes para engendrar a energia e a magnitude esperada para uma produção de tamanha relevância. A iluminação teve falhas técnicas que se mostraram evidentes ao público, como momentos de sombras que prejudicaram algumas cenas, enquanto a cenografia, mesmo sendo indicativa, se restringiu a uma apresentação simplória, sem realçar adequadamente os momentos dramáticos.

O que realmente se destacava era o descompasso entre a rica tradição histórica da narrativa e a tentativa de tradução contemporânea, marcada por uma execução aquém do ideal.

Um dos primeiros aspectos que chamam a atenção é o figurino, assinado por Álcio Lins, que mistura referências históricas com elementos contemporâneos. Na maior parte da montagem, os personagens vestem roupas comuns, como calças jeans e camisetas coloridas, numa tentativa de aproximá-los do público atual — incluindo Asaías Rodrigues (Zaza), intérprete de Jesus. Em contraponto, alguns integrantes da corte de Herodes e sacerdotes do Sinédrio utilizam vestimentas que rememoram, ainda que de forma muito distante, a indumentária da época de Jesus, criando um hibridismo visual que causa estranheza ao espectador.

Embora a proposta de desconstrução — trazer a narrativa para o presente — seja conceitualmente interessante ao sugerir que Cristo enfrentaria a crucificação mesmo nos dias de hoje, essa opção acabou comprometendo a força poética do espetáculo.

Esse cenário revela a complexidade e o desafio de manter vivas e relevantes as tradições, equilibrando respeito à narrativa histórica e experimentação contemporânea — sempre com o objetivo de tocar o público profundamente, tanto no âmbito espiritual quanto artístico.

Participação do Bacnaré é um dos melhores momentos do espetáculo. Foto: TFN

Na encenação, o diabo é uma personagem feminina. Foto: TFN

A encenação oscila entre momentos de lampejos e outros de completa falta de energia. Por exemplo, as cenas dos carrascos que condenaram Jesus inicialmente ganhavam força, mas logo perdiam o ritmo, resultando em ações desequilibradas, mesmo contando com um elenco de atores experientes.

A cena do bacanal, protagonizada pelo grupo Bacnaré de dança e música, conseguiu criar um ambiente dinâmico e cativante em sua participação. No entanto, não havia unidade, nem ao menos estética na cena: ao mesmo tempo em que o Bacnaré brilhava no centro do palco, o lado direito do palco, sugeria um cabaré popular precário. Um espectador chegou a gritar: “Tira essa galega daí”, alegando desconforto com as roupas transparentes de uma figurante em razão da presença de crianças.

Outra questão diz respeito à proposta de transformar o diabo em uma personagem feminina, interpretada por Paula de Tássia. Embora existam encenações que adotam essa estratégia, a abordagem utilizada em “A Paixão do Recife” provocou em mim reflexões. Sob uma suposta perspectiva feminista, a escolha parecia visar romper paradigmas e oferecer novas leituras sobre poder e a subversão dos papéis tradicionais. Contudo, por que, novamente, atribuir à mulher o papel de tentação, mantendo uma lógica maniqueísta entre o bem e o mal, enfatizando a figura do mal e, ainda, aludindo ao arquétipo da pombagira — não como exaltação do feminino, mas como demonstração da demonização da mulher? Em cena, vemos um Filho de Deus que se sacrifica pela humanidade, enquanto o diabo assume uma forma feminina. Embora a cena seja bem conduzida e a performance de Paula de Tássia seja desenvolta e convincente, questiono as camadas desta narrativa, que parecem reafirmar uma posição patriarcal.

A dramaturgia buscou um caminho direto para dialogar com as sequelas atuais. Em determinadas falas, como as de Maria, procurou relacionar o sofrimento das mães com o peso da violência policial, aproximando a figura da Mãe de Deus do sofrimento dos oprimidos contemporâneos. Contudo, essa estratégia se apresentou como uma solução fácil — um discurso social que não explora a profundidade que esses temas exigem.

Figurinos de época e estilo casual são utilizados no espetáculo. Foto: TFN

Quase um aparte, ou desvio, ou…

No quadro atual, considero cada vez mais problemático analisar os trabalhos das artes cênicas de Pernambuco, visivelmente pressionados pela falta de apoio, de editais, de políticas robustas e de espaços para o desenvolvimento das ideias, desde o processo até o resultado final com dignidade. A precarização está presente em praticamente todos os âmbitos da feitura das artes cênicas pernambucanas. Mas o que fazer diante disso? Ser sempre conivente na análise por conta dessa situação? Ou cobrar para que se chegue a resultados que apresentem mais qualidade, independente do estilo do trabalho?

Esse é um assunto complexo, que merece ser discutido com mais fôlego. No entanto, na maior parte do tempo atribuo essa carência aos limites impostos pelo capitalismo e à falta de recursos, à precarização progressiva das artes cênicas. Mas será que essa é a única explicação? Penso nas montagens das décadas de 1980 e 1990 dirigidas em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, por Vital Santos e outros artistas, que, embora marcadas pela carência de recursos, transbordavam inquietação e uma estética inovadora. Mas era outro contexto, dirão alguns. Sempre é outro contexto.

A verdade é que o teatro pernambucano precisa ser respeitado e, para isso, deve contar com investimentos, editais e condições para se realizar plenamente. Não adianta ser “meia-boca”, sabe? Não basta só o Funcultura, que patrocina dois projetos por ano para montagens novas, uma ou outra para manutenção e poucas outras coisas.

O fato é que o teatro pernambucano está em condições extremamente precárias. As casas de espetáculos estão caindo aos pedaços; as que estão em boas condições — como o Santa Isabel e o Parque, casas maiores — são ocupadas com a circulação do teatro nacional, que também é importante. Os artistas do Recife reclamam, mas parece que os órgãos públicos não respondem. Enquanto milhões são investidos em turismo, o teatro fica diante de uma carência crônica. Pode parecer que estou desviando o assunto, mas tudo está entrelaçado. E são questões complexas, é verdade, mas profundamente conectadas.

Cena de Pilatos. Foto: TFN

Reconheço a importância e a experiência do diretor e encenador Carlos Carvalho, que tem uma trajetória respeitável. No entanto, como colaboração honesta, é preciso apontar as fragilidades da montagem, como a falta de coesão do conjunto cênico.

Essa 27ª edição da Paixão de Cristo do Recife se caracteriza por ser um espetáculo morno. Conta com muitos atores e atrizes talentosos e dedicados. Porém, um espetáculo dessa envergadura ganha pontos e convence o público pela composição cênica, pelo ritmo, pela harmonia da visualidade em combinação com a sonorização, a perfeita dublagem e os gestos largos.

A atuação de Asaías, que faz de Jesus uma figura próxima do povo, é admirável, mas o personagem de Cristo demanda que o elenco funcione como guindaste simbólico para sua liderança e apoio. A presença das atrizes é marcante para além dos papéis de Maria, de Lígia, e Madalena, de Clau, mesmo que pontuais.

Judas, interpretado por Ivo Barreto, suscita uma reação da plateia e existe uma boa solução para o seu enforcamento. Albemar cria um Herodes carregado de ironia. Além disso, outros atores, como Carlos Lira, que interpreta um Pilatos consistente, entram no redemoinho de cenas que perdem força, mesmo com a participação de um time experiente.

O que me parece, inclusive pela reação ao final da sessão, é que a Paixão de Cristo do Recife não conseguiu envolver o público como noutras edições de sua própria trajetória. Uma produção que falha em criar conexões mais intensas ou que não apresenta elementos visuais inovadores, surpreendentes ou emocionalmente marcantes pode ter dificuldades para manter a plateia engajada. Nesse contexto, são a apatia e o desencanto que surgem, como consequência direta ao espetáculo.

 

O Satisfeita, Yolanda? faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica,  apoiado pela produtora Corpo Rastreado, junto às seguintes casas : CENA ABERTA, Guia OFF, Farofa Crítica, Horizonte da Cena, Ruína Acesa e Tudo menos uma crítica

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Dois portos: reflexões sobre diversidade, disparidade e deslocamentos*

Projeto Conexões Norte Sul reuniu espetáculos e ações de Porto Velho e Porto Alegre. Na foto, Trivial – Um espetáculo de B-boys, de Porto Alegre.  Foto: Nando Espinosa

A Cabeça de Tereza foi criado no âmbito da Universidade Federal de Rondônia. Foto: Agência Ophélia

Quando se trabalha com arte no Brasil e, especificamente, com as artes da cena, partindo de lugares que não aqueles considerados “eixo”, ou seja, São Paulo e Rio de Janeiro, no Sudeste do país, o que se há de fazer é não se deixar enquadrar. Mover-se por dentro e por fora para instaurar as nossas próprias realidades. O Brasil é muito grande para caber num eixo só. Imaginar – e percorrer – os caminhos que podem ser traçados se mostra uma tarefa de liberdade e de resistência. E essa não é uma afirmação romântica ou que idealiza desigualdades e precariedades. Falo de uma operação cotidiana, repetitiva, trabalhosa, por vezes exaustiva, mas imprescindível quando lidamos não só com sobrevivência, mas com o que nos move. A vista nem alcança os caminhos reais e simbólicos que podem ser forjados, quais mapas desenhamos quando as miradas são ampliadas. 

Fazendo perguntas que promovem esses deslocamentos de imaginários, o projeto Conexões Norte Sul, idealizado pelo Itaú Cultural em parceria com o Sesc Rio Grande do Sul, e curadoria de Jane Schoninger, coordenadora de Artes Cênicas, Visuais e Arte Educação da instituição (Porto Alegre/RS), e Andressa Batista (Porto Velho/RO), artista, gestora e produtora cultural, partilhou espetáculos, conversas com espectadores e debates entre 6 e 16 de março. Quais conexões entre dois Portos, um no Norte e outro no Sul do país, podemos alinhavar? Porto Velho, em Rondônia, estado criado oficialmente em 1982, e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, estado devastado por enchentes que mataram 183 pessoas e deixaram 27 desaparecidos no primeiro semestre do ano passado? A distância entre as duas cidades, localizadas cada uma num extremo, reforça o quanto o Brasil é enorme e as dificuldades implicadas nessa obviedade. 

Se a arte precisa circular, alcançar públicos diversos, ser colocada em fricção a partir do encontro com outras realidades, gerar relações, isso fica muito mais difícil quando levamos em consideração, por exemplo, o custo amazônico, que são as despesas relacionadas à transporte e logística na região. Quando os investimentos já anunciados e provisionados por meio de políticas públicas atrasam meses ou mesmo nem chegam. Quando os orçamentos para a cultura no país são cortados pela inaptidão política em reconhecer a economia criativa como um motor de desenvolvimento para as diversas regiões do país. Quando produtores e artistas não encontram parceiros na iniciativa privada interessados em deslocar os seus investimentos do “eixo” que supostamente gera visibilidade. São muitos os “quandos”. Questões como essas foram abordadas na mesa “Modos de produção e seus operários”, com a participação das produtoras Luka Ibarra e Cynthia Margareth, a primeira de Porto Alegre e a segunda de Limeira (SP), residente em São Paulo, e do ator Chicão Santos, de Porto Velho, com mediação do crítico Kil Abreu, de Belém do Pará, residente em São Paulo. 

Na segunda mesa do evento, a discussão teve como tema “Curadorias, circulações”, com as curadoras Galiana Brasil, recifense que reside em São Paulo, e Jane Schoninger, de Porto Alegre, e Kil Abreu. A conversa propôs questionamentos que perpassam o poder que as curadorias exercem num país desigual e diverso como o Brasil. Quem são as pessoas que possuem o poder de decidir quais artistas, grupos e trabalhos vão circular? Por quais lugares do país esses curadores se movem e estabelecem relações? E, mesmo que sejam curadores de lugares fora do “eixo”, quando levam trabalhos aos seus territórios, quais as referências? Qual o lugar do pensamento e da crítica na construção de uma cena que possa, de fato, ser chamada de brasileira? Quais as repercussões dos festivais e das circulações para os artistas de uma cidade? Até que ponto as curadorias desenhadas no país, seja por curadores de instituições públicas ou privadas e por curadores independentes, podem ser consideradas instrumentos que questionam uma estrutura colonialista de pensamento e ação?

Participantes da mesa Modos de produção e seus operários. Foto: Pollyanna Diniz

Jane Schoninger, Galiana Brasil e Kil Abreu compartilharam suas experiências na mesa Curadorias, circulações. Foto: Agência Ophélia

Artistas, curadores e críticos participaram da mesa Curadoria, circulações. Foto: Agência Ophélia

Espetáculos como metáforas

São, de fato, muitas perguntas. Parece que giramos em círculos quando falamos, por exemplo, sobre política cultural no Brasil. Nessa espiral, o que me interessa é imaginar outras possibilidades, tanto de questionamentos quanto de respostas. E os espetáculos que perpassam essa conexão Porto Velho – Porto Alegre são meios de estabelecer diálogo, dissenso, provocação, encantamento. De modo diverso, enxergo que cada um deles carrega metáforas que podem ser relacionadas às discussões que o projeto Conexões Norte Sul propõe.

Novos Velhos Corpos 50+ traz veteranos da dança em Porto Alegre. Foto: Adriana Marchiori

No espetáculo Novos Velhos Corpos 50+, de Porto Alegre, estão em cena artistas da dança com trajetórias relevantes, todos com mais de 50, 60, 70 anos: Eduardo Severino, Eva Schul, Robson Lima Duarte, Monica Dantas e Suzi Weber. Essa última assina a direção geral do espetáculo. Os bailarinos estão acompanhados por músicos que fazem a trilha sonora ao vivo: Dora Avila, Flavio Flu, Marcelo Fornazier e Vasco Piva. 

A mais direta das metáforas entre o espetáculo e o Conexões Norte Sul diz respeito a permanecer criando arte ao longo do tempo, das décadas que se sucedem, a despeito das circunstâncias que possam se interpor nesse caminho. Continuidade, persistência, resistência. Na dança ocidental, os bailarinos carregavam em seus corpos, seus instrumentos de trabalho, um prazo de validade. De algum tempo para cá, brechas estão sendo abertas nesse cenário. Por que não permanecer em cena? Por que ser destituída do direito de criar com o próprio corpo? E aqui falo no feminino porque, como mulher, entendo que essa discussão, quando cruza o gênero, adquire contornos muito cruéis. E se agregarmos classe, a questão fica ainda mais complexa, porque somos matéria-prima moída por uma indústria. São as mulheres aquelas cobradas a se enquadrarem em padrões estéticos irreais e que mudam o tempo inteiro no mundo capitalista do consumo. Somos nós, mulheres, que há pouco tempo perdíamos espaço radicalmente por conta da idade: desde o teatro e as produções audiovisuais, nas quais as mulheres mais velhas tinham papéis socialmente muito determinados, até o mercado de trabalho tradicional. 

Meu Amigo Inglês traz ao palco um artista que lida com as consequências do mal de Parkinson. Foto: Eliane Viana

O corpo velho também está em cena em Meu amigo inglês, espetáculo de Rondônia, com Chicão Santos e Flávia Diniz, texto e direção de Mário Zumba. Neste caso, o corpo de um homem, que lida com as consequências do mal de Parkinson. A temática é aderente por conta da sua amplitude e da sua humanidade, dos impactos sociais que a doença acarreta, no âmbito pessoal e na família.

A dramaturgia e a encenação esbarram, no entanto, na armadilha da reprodução do machismo, do sexismo e de violências simbólicas na relação que se estabelece entre os personagens, marido e mulher, ela muito mais nova do que ele. Num país tão plural como o Brasil, mas desigual, violento e misógino, as problematizações da nossa realidade e as revoluções de pensamento e atitude precisam acontecer desde o espaço da criação e da fruição artística, em cada canto do Brasil. 

O espaço universitário pode ser propulsor dessas revoluções. É o que nos lembra A cabeça de Tereza, também de Rondônia, que tem dramaturgia e atuação de Jam Soares e direção do professor Luiz Lerro, e foi concebido no âmbito do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia, instituição criada em 1982. A universidade tem papel fundamental no questionamento de conceitos e na elaboração e imaginação de novos saberes. Perguntas “antigas” precisam de respostas contínuas: como definimos, por exemplo, o que é centro e o que é periferia quando olhamos para o Brasil? Como determinamos o que é arte regional e o que é arte nacional? Como imaginar projetos que contemplem os nossos lugares de partida e os nossos desejos? Jam Soares, mulher jovem afro amazônida, criou um espetáculo que é um manifesto pela memória de mulheres invisibilizadas na nossa história a partir da personagem ficcional Tereza Sankofa, uma homenagem a Tereza de Benguela que, por cerca de 20 anos, foi líder do maior quilombo no território que hoje é o Mato Grosso. 

Ensaio geral faz homenagem a Selma Bustamante. Foto: Agência Ophélia

Ensaio geral, espetáculo de teatro de rua de Klindson Cruz, manauara residente em Porto Velho, também é uma homenagem a uma mulher. Protagonizado pelo palhaço Pingo, o trabalho celebra a vida e a trajetória de Selma Bustamante, atriz do grupo Ventoforte, em São Paulo, falecida em 2019, que morou por bastante tempo no Amazonas. Embora artifícios dramatúrgicos e de encenação se desgastem ao longo das cenas, como a procura repetitiva por objetos em malas, e o artista perca possibilidades interessantes a partir da interação com os espectadores, o palhaço meio mal-humorado captura a atenção e a curiosidade do público. E o mote é tão importante para o espetáculo quanto para o projeto Conexões Norte Sul: o processo artístico, o ensaio, a transmissão de saberes entre os artistas, a celebração aos que vieram antes de nós.

O espetáculo Teatro dos seres imaginários, da Cia Seres Imaginários, de Porto Alegre, que também foi apresentado na rua, mas com uma estrutura bastante específica, provoca encantamento no espectador, nos lembrando que teatro é exercício político de imaginação e criatividade. O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luís Borges e Margarita Guerrero, é a inspiração para um espetáculo com bonecos que saem da cabeça do autor – um boneco – para dividir o espaço cênico com as cabeças dos espectadores, fazendo as pessoas se moverem em volta de si mesmas na busca por acompanhar aquelas criaturas intrigantes, assustadoras, curiosas. O público, de apenas 18 pessoas, coloca as cabeças numa espécie de caixa de tecido suspensa a 1,5 metro do chão, e o espetáculo de bonecos, que tem direção de arte e música primorosas, se desenrola dentro daquele espaço. A manipulação é feita pelos artistas Cacá Sena, Charles Kray, Elaine Regina e Silvia Regina Ferrare e a música é de Sérgio Olive.

De volta ao palco, Trivial – Um Espetáculo de B-boys, com direção e coreografia de Driko Oliveira, de Porto Alegre, traz a cultura break como motor para um espetáculo que tem na dança sua força física e na palavra a exposição da vulnerabilidade que pode ser transformadora. Estão em cena os Bboys Daniel Carvalheiro, T2, Deaf, Julinho RC e César RC e a B-girl Naju. Com os seus corpos, eles nos mostram o quanto a arte no Brasil é diversa e não aceita caixinhas. O break é da rua, é do palco, é do esporte, é de qualquer lugar. Mas quando expõem por meio de relatos pessoais demandas de suas realidades, como a disparidade entre homens e mulheres no mercado de trabalho, a invisibilidade de jovens negros, as violências a que são submetidos, o espetáculo toma fôlego de mudança, de ruptura. 

É esse fôlego, de artistas que se colocam em suas inteirezas e fragilidades, que precisamos tomar para continuar lidando com o cotidiano de diversidades e disparidades, aqui especificamente nas artes da cena no Brasil. E para lembrar que não lutamos somente por nós, seja qual for a nossa circunstância. As reflexões e provocações do projeto Conexões Norte Sul nos levam ao entendimento de que a briga precisa ser coletiva e deve abarcar todas as realidades: desde os artistas que têm fome, aqueles que andam de metrô ou de avião, os que estão começando, estão na universidade, que possuem trajetórias consolidadas, que já conseguem circular pelo país por meios próprios, que sonham em ver o que criaram extrapolar  limites. Artistas que, independentemente de suas situações específicas, se inquietam e desejam colocar na roda possibilidades coletivas de construir novas realidades. 

*Texto escrito como uma das ações do Projeto Conexões Norte Sul, a convite do Itaú Cultural e Sesc RS. Além de Pollyanna Diniz, do Satisfeita, Yolanda?, participaram do acompanhamento crítico do evento Valmir Santos, do Teatrojornal, e Kil Abreu, do Cena Aberta.

Teatro dos Seres Imaginários se inspira em livro de Jorge Luís Borges e Margarita Guerrero. Foto: Rique Barbo

 

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Os artistas precisam de dignidade
clama a produtora e atriz Paula de Renor,
homenageada do Janeiro de Grandes Espetáculos

A atriz Paula de Renor emocionada, ao lado do produtor do JGE Paulo de Castro, também segurando as lágrimas. Foto: TMF / Divulgação

Paulo de Castro ao centro e Paulo de Pontes. Foto: TMF / Divulgação

Com o quadro pintado pelo artista Cleusson Vieira. Foto: TMF / Divulgação

As aberturas de festivais têm aquela parte cerimonial incontornável, com discursos de colaboradores e patrocinadores, que são essenciais para a sobrevivência do evento, mas um pouco maçante para a plateia. É da natureza dessas cerimônias. Contudo, para ser justa, a abertura desta 31ª edição do Janeiro de Grandes Espetáculos, ocorrida na noite de ontem (09/01), no Teatro de Santa Isabel, está inserida numa informalidade quase doméstica. O ator Paulo de Pontes, mestre de cerimônias do JGE, imprimiu esse tom descontraído e bem-humorado, quase jocoso. Pontes mencionou que tem 56 anos, 20 dos quais dedicado ao festival, que ele destaca como parte essencial da vida cultural pernambucana. Segundo Paulo, “querendo ou não, esse é um dos maiores festivais de artes cênicas e música do Brasil”.

O produtor geral do festival, Paulo de Castro, ressaltou que não é possível realizar um evento dessa envergadura sem patrocínio e apoio. Ele expressou gratidão à vice-governadora Priscila Krause, mesmo ausente, por seu suporte nos últimos anos, assim como ao apoio da prefeitura e do governo do estado. Entretanto, Paulo destacou a necessidade de um maior envolvimento do governo federal, cuja proximidade e contribuição são essenciais para garantir a continuidade e o fortalecimento das atividades culturais.

Durante quase 20 anos, Paula de Renor dividiu a tarefa de tocar o Janeiro, junto com Paulo de Castro e Carla Valença. Foto: TMF / Divulgação

A verdade, que sabemos, é que os recursos são escassos e o evento acontece graças principalmente à colaboração dos artistas, que recebem um cachê irrisório e, de fato, dão sustentação ao festival. Melhorar essas condições para os trabalhadores da cultura é imprescindível.

E esse foi o tom do discurso de uma das homenageadas do festival, a atriz e produtora Paula de Renor, em um dos momentos mais marcantes da noite. Emocionada, Paula compartilhou sua alegria com a homengem, mas também expressou a falta que sentiu de Carla Valença, sua amiga e colega de palco, que estava na plateia e não foi homenageada este ano.

Durante seu breve discurso, Paula refletiu sobre as realidades enfrentadas pelos artistas. Ela destacou a necessidade urgente de mais apoio financeiro, dignidade e pagamentos justos para os profissionais das artes cênicas. Enfatizou que, apesar das melhorias da cadeia produtiva ao longo dos anos, ainda há muito a ser conquistado. Paula mencionou que a luta por políticas culturais contínuas é incessante e lembrou a todos que, apesar de ser um dia de festa, os desafios persistem como uma espada sobre as cabeças daqueles que fazem arte.

Paula de Renor, em sua fala, lembrou que os avanços alcançados por produtores e artistas de Pernambuco não vieram facilmente e o JGE sempre foi um espaço de resistência e reivindicação.

Poeta, ativista e vereadora Cida Pedrosa, uma das homenageadas do festival. Foto: TMF / Divulgação

O JGE também prestou homenagens a outras figuras que têm feito contribuições significativas para a cultura pernambucana. Entre os homenageados estavam Márcia Souto, pela condução da política cultural; Bernardo Peixoto, representante do Sistema Fecomércio Sesc/Senac Pernambuco, que não compareceu mas enviou uma representante; a vereadora, poeta e militante cultural Cida Pedrosa; e Queiroz Filho, parceiro de longa data da Apacepe. As demais pessoas homenageadas receberão seus troféus no dia da premiação.

A proposta conceitual desta edição do Janeiro é a liberdade de expressão na cena pernambucana, valorizando a diversidade cultural e a arte como ferramenta revolucionária e transgressora. O festival é dedicado ao grupo Vivencial, fundado na década de 1970 em Olinda e que celebra os 50 anos de sua fundação. Guilherme Coelho, ator e diretor, mentor intelectual e diretor do Vivencial, é um dos homenageados dessa edição.

Lia de Itamaracá ladeada por Elízio de Búzios e Áurea Martins. Foto: TMF / Divulgação 

Ela diz “Eu sou Lia” e o público se derrete. Puro magnetismo. Foto: TMF / Divulgação 

Áurea Martins. Foto: TMF / Divulgação

Orquestra Lunar. Foto: TMF / Divulgação

Elízio de Búzios. Foto: TMF / Divulgação

ABERTURA MUSICAL

O Janeiro de Grandes Espetáculos inaugurou sua programação com o show intitulado Orquestra Lunar e a Música Negra de Áurea Martins e Elízio de Búzios, proporcionando uma deliciosa experiência musical. A aclamada orquestra feminina do Rio de Janeiro, inspirada nas tradições das gafieiras cariocas, impressionou a plateia com uma ótima execução que combinava uma “cozinha” instrumental potente com um naipe de sopros envolvente. A versatilidade do grupo foi evidente na sua capacidade de navegar por diversas sonoridades, como Corta-jaca de Chiquinha Gonzaga e Te queria, de Elízio de Búzios, que ficou conhecida na voz de seu Jorge.

Entre os protagonistas desta noite mágica, os irmãos Áurea Martins, de 84 anos e Elízio de Búzios, de 82 trouxeram ao palco suas incomparáveis trajetórias artísticas. Áurea, com sua voz potente e interpretação forte, honrou o legado da música negra brasileira com e paixão. Junto a ela, Elízio de Búzios infundiu suas composições com um suingue único e contagiante, mostrando criatividade e emoção.

Apesar dos desafios técnicos enfrentados durante o espetáculo, como microfones baixos e problemas no sistema de som, a performance dos músicos manteve o espírito da noite elevado.

Lia de Itamaracá, em sua participação especial, chegou como  a grande estrela da noite. A cirandeira pernambucana, conhecida por seu intenso carisma e presença impressionante em cena, encantou o público. Com dificuldade de locomoção, cantou sentada em uma cadeira, mas exibindo sua magnificência de rainha musical. A dupla de irmãos e as instrumentistas da orquestra acolheram Lia com palavras carinhosas, criando uma aura de reverência e admiração. Mesmo nos momentos de suave descompasso entre a orquestra e a interpretação de Lia, um toque de magia permeava a apresentação, e suas canções clássicas, familiares de muitos anos, reavivaram a paixão da plateia.

No foyer do teatro, antes da apresentação, houve uma sessão de autógrafos do livro Pernalonga: uma Sinfonia Inacabada, onde o jornalista e escritor Márcio Bastos contou a história de um dos integrantes do grupo teatral Vivencial.

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Festival de artes da cena no
Recife, no megalomaníaco
Janeiro de Grandes Espetáculos

Vivencial original, nas fotos P&B de Ana Farache, o grupo que funcionou ativamente de 1974 a 1983 e continua a inspirar subjetividades e projetos artísticos; este Janeiro de Grandes Espetáculos é dedicado a ele. E a peça-homenagem Vivencial, Revivenciando, dirigida por Mísia Coutinho e Guilherme Coelho. Foto: Divulgação

O Janeiro de Grandes Espetáculos (JGE) é um acontecimento difícil de precisar. Configura-se, em sua 31ª edição de 2025, como um plurifacetado evento cultural que, ao mesmo tempo em que celebra a diversidade artística, revela significativas fragilidades em sua concepção curatorial. Com uma programação que se estende por 25 dias – de 9 de janeiro a 2 de fevereiro ocupando diversos teatros do Recife e apresentando mais de 90 espetáculos, o festival transita entre a potência e a superficialidade.

Há uma notável lacuna de um projeto curatorial capaz de estabelecer conexões entre as diversas expressões artísticas. O JGE funciona como um verdadeiro “caldeirão” cultural, onde produções com níveis absolutamente distintos de profundidade estética e política coexistem sem qualquer articulação crítica. Enquanto alguns espetáculos propõem enfáticas reflexões sobre a contemporaneidade, outros se limitam a uma expressão supletiva, sem provocar visível tensionamento ou questionamento.

Apesar dessas exiguidades, o evento mantém sua importância histórica como um dos mais longevos festivais de Pernambuco. Sua capacidade de agregar diferentes linguagens – teatro adulto e infantil, dança, performance, música, circo e cenas curtas, além de leituras dramatizadas – demonstra uma amplitude programática. Mesmo se configurando como um modelo de “quanto mais, melhor”.

Bem, vamos focar no que está posto.

Esse formato, com diversas linguagens artísticas, atende a diferentes públicos. Dos 93 espetáculos, 42 são de teatro adulto, 9 de teatro infantil, 20 de música, 19 de dança e 3 de circo, com uma ênfase notável em produções para o público adulto nesta edição. Artistas pernambucanos compõem a maior parte da programação, reafirmando o papel do festival como vitrine da produção local. O JGE abrange artistas de outros estados brasileiros e uma obra internacional de Portugal.

Esta edição do Janeiro de Grandes Espetáculos dedica-se ao grupo Vivencial, coletivo que completa 50 anos e representa uma das expressões significativas da contracultura pernambucana nos anos 1970 e 1980. O Vivencial emerge como uma das diversas iniciativas que confrontaram os padrões estéticos e políticos de sua época. Estudiosos têm analisado criticamente a trajetória da trupe, reconhecendo sua importância, sendo sempre prudente não mitificá-lo como única ou principal referência de resistência cultural no período. O Vivencial integra um mosaico de coletivos e artistas que desenvolveram práticas de enfrentamento e experimentação no cenário pernambucano.

A escolha de incluí-lo na programação apresenta-se como um convite à análise histórica, e essa reflexão exige um olhar crítico, distanciando-se radicalmente dos processos de romantização.

Em um momento de intensos debates sobre liberdade de expressão e representatividade, o legado do Vivencial pode ser compreendido como um entre muitos dispositivos de contestação artística que marcaram o período da ditadura militar e os movimentos de resistência cultural.

Espera-se que essa homenagem empolgue o exercício crítico de compreensão das estratégias de resistência estética e política desenvolvidas por diferentes grupos artísticos pernambucanos, problematizando memórias, silenciamentos e narrativas instituídas.

Elizio de Búzios e Áurea Martins e a Orquestra Lunar abrem a programação do JGE. Foto: Captura de tela

Lia de Itamaracá é a convidada especial da Orquestra Lunar. Foto: André Seiti / Divulgação

Almério apresenta show Nesse Exato Momento no JGE. Foto: Eric Gomes / Divulgação

Cantor e compositor Martins. Foto: Divulgação

ABERTURA E MUSICAIS

Promete ser em tom maior a abertura desta edição, neste 9 de janeiro, com um espetáculo musical Orquestra Lunar e a Música Negra de Áurea Martins e Elízio de Búzios, que celebra a riqueza e diversidade da música negra brasileira, colocando em destaque dois ícones muitas vezes subestimados em nossa cena cultural: os irmãos Áurea Martins e Elizio de Búzios. O show tem a participação especial de Lia de Itamaracá.

Áurea Martins, de 84 anos, vem com sua interpretação única, que mescla a força do samba com a sofisticação do jazz. Apesar de seu talento inquestionável, Áurea permaneceu por muito tempo como uma “joia escondida” da música brasileira, reconhecida principalmente nos círculos mais íntimos de músicos e aficionados.

Elizio de Búzios, também octogenário, é um compositor e intérprete que personifica o suingue carioca. Sua contribuição para a black music brasileira é significativa, tendo composto dezenas de canções que capturam a essência da cultura afro-brasileira urbana. Seu estilo de canto e performance é uma aula viva de ritmo e expressão corporal. Eles são acompanhados pela talentosa Orquestra Lunar (composta inteiramente por mulheres, da qual Áurea faz parte. No repertório, obras do próprio Elizio e mais músicas que celebram a brasilidade.

A participação de Lia de Itamaracá no espetáculo amplia ainda mais o alcance cultural da apresentação, trazendo a força da cultura pernambucana. Lia, cirandeira inconfundível, representa outro pilar fundamental da música negra brasileira, adicionando camadas de regionalismo e tradição ao show.

O filão musical do festival se estende além da noite de estreia, oferecendo uma variedade de estilos e artistas. PC Silva, conhecido por seu trabalho autoral e interpretações sensíveis, está entre os destaques. Almério, com seu som que mescla elementos regionais e contemporâneos, também integra o line-up. Martins, artista versátil, promete uma performance que explora diferentes facetas da música brasileira.

O grupo Estesia, com sua proposta de fusão de ritmos, deve trazer uma atmosfera única aos palcos do JGE. Geraldo Maia, veterano da música pernambucana, contribuirá com sua experiência e repertório rico. Igor de Carvalho e Tibério Azul chegam com outras experimentações.

Um momento aguardado é a celebração dos 30 anos de carreira do Afoxé Oxum Pandá, grupo que mantém viva a tradição dos afoxés em Pernambuco. Irah Caldeira apresentará um show dedicado exclusivamente a composições femininas, destacando o papel das mulheres na música brasileira.

Silvério Pessoa e Publius prestarão uma homenagem a Lô Borges e Beto Guedes, referências da música mineira e brasileira. Esta apresentação se propõe a ser uma viagem pelo cancioneiro do Clube da Esquina, reinterpretado sob a ótica de artistas pernambucanos.

A seleção musical do JGE propõe uma experiência sonora que vai do regional ao nacional, do tradicional ao contemporâneo.

 

TEATRO, TEATROS

Ceronha Pontes em Senhora dos Nossos Sonhos. Foto: Amaury Carvalho / Divulgação

Yerma Atemporal. Foto: Divulgação

Fabiana Pirro e João Guisande. Foto Hans von Manteuffel / Divulgação

Vanise Souza, e Célia Regina, em Um Minuto para Dizer que Te Amo. Foto: Divulgação

Ceronha Pontes estreia sua dramaturgia e atuação em Senhora dos Nossos Sonhos, um espetáculo que explora a vida e obra da psiquiatra Nise da Silveira. A peça mergulha na relação entre arte e saúde mental, destacando o trabalho revolucionário de Silveira no tratamento de pessoas com transtornos mentais no Brasil.

Uma releitura contemporânea da obra de García Lorca ganha vida em Yerma Atemporal, sob a direção de Simone Figueiredo e Paulo de Pontes. Esta montagem investiga o papel da mulher na sociedade atual, centrando-se na angustiante obsessão da protagonista em se tornar mãe.

Baseada no texto de Ronaldo Correia de Brito, a peça Noite convida o público a adentrar um casarão antigo transformado em museu, onde duas irmãs idosas estão confinadas. A obra explora temas como memória, família e a passagem do tempo.

O envelhecimento, a morte e a graça são temas centrais em Senhora, um espetáculo autoficcional que acompanha a jornada de um ator ensaiando uma peça com o objetivo de trazer sua família para o teatro. A narrativa se entrelaça com memórias relacionadas à avó do protagonista, que sofre de Alzheimer.

Já em Um Minuto para Dizer que Te Amo, dirigida por Rudimar Constâncio, quatro vidas se encaram no labirinto do Alzheimer. Pela música, memórias se fragmentam e se reconstroem, revelando os muitos rostos do amor em meio ao esquecimento. Um mapa íntimo de perda, afeto e resistência.

Fruto de uma colaboração entre Pernambuco e Salvador, Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III traz Fabiana Pirro e João Guisande para o palco. A peça oferece uma perspectiva metateatral sobre o processo de criação artística, explorando os dilemas enfrentados por dois intérpretes ao trabalhar com o texto de Shakespeare.

Circo Science – do Mangue ao Picadeiro. Foto: Rogério Alves / Divulgação

Lau Veríssimo em ITAÊOTÁ , do Grupo Totem. Foto: Débora Oliveira

Mais que um espetáculo de dança, ITAÊOTÁ é um ritual de cura das feridas coloniais, onde seis performers traçam uma cartografia da alma, reacendendo a delicadeza de um tempo esquecido. Através de movimentos, sons e visualidades, ITAÊOTÁ faz um chamado à alegria genuína e à reconexão com a existência em sua forma mais orgânica e coletiva. A performance convida o espectador a experimentar passar por um portal onde o passado e o futuro se encontram, redesenhando as fronteiras entre corpo, natureza e memória.

O segmento do circo engloba três encenações. Uma delas é o ótimo espetáculo Circo Science – do Mangue ao Picadeiro, que celebra os 30 anos do Movimento Manguebeat e do álbum Da Lama aos Caos, através de números circenses, coreografias e músicas. Com isso, mergulha na essência de Chico Science, revelando as vozes, movimentos e identidades das periferias. É um manifesto de diversidade, superação e resistência cultural, onde corpos pretos, mulheres, gays e lésbicas se afirmam como uma potente trupe circense.

Quem está aí, monólogo de Shakespeare, com Thiago Lacerda. Foto: Divulgação

Sandra Possani em A mulher que queria ser Micheliny Verunschk. Foto: Vilma Carvalho / Divulgação

As produções nacionais incluem Quem Está Aí?, estrelada por Thiago Lacerda, que traz adaptações de Shakespeare, apresentando monólogos extraídos de Hamlet, Medida por Medida e Macbeth. Com direção de Ron Daniels, o espetáculo transforma a simplicidade do cenário – apenas uma mesa e uma cadeira – em uma entrada para uma viagem íntima pelos universos de traição, poder, amor e morte da obra shakespearena.

A Mulher que Queria ser Micheliny Verunschk, da Cia Stravaganza de Porto Alegre, é uma adaptação do romance homônimo de Wilson Freire. Protagonizada por Sandra Possani e dirigida por Adriane Mottola, a obra mergulha na história de uma mulher à margem, um “porto sem cais” que desafia sua própria condição. Micheliny emerge como metáfora da resistência feminina: uma alma aprisionada que resiste através da imaginação, da escrita e do desejo de reescrever sua própria narrativa. 

Outras obras nacionais incluem O Alienista – Casa de Loucos, de Maceió; Céu em Si, de Belo Horizonte; Esquecidos por Deus, de Caaporã, Paraíba.

Única produção internacional, Damas da Noite e uma Farsa de Elmano Sancho, de Portugal. Foto: Filipe Ferreira / Divulgação

Estrela Dinn faz Kassandra, entre a mítica profetisa grega e uma prostituta transexual contemporânea, no solo com texto de Sergio Blanco. Foto: Siano / Divulgação

MOSTRA VIVENCIAL

A Mostra Vivencial é o carro-chefe da homenagem do JGE ao grupo olindense e junta  espetáculos de diferentes regiões do Brasil e um de Portugal, que capturam e reinterpretam a essência transgressora que caracterizou o grupo em sua trajetória histórica.

Entre as peças está Kassandra. No entrelaçamento entre a mítica profetisa grega e uma prostituta transexual contemporânea, Sergio Blanco cria um solo performático que desmorona fronteiras entre mito e realidade. Enfiada num vestido de oncinha e saltos rosa pink, Kassandra narra sua Odisseia pessoal: um corpo-território que transita entre sexo, guerra e poder. Protagonizada por Estrela Dinn, com direção de Adriane Mottola, a performance dissolve os limites entre passado e presente, entre o trágico e o cômico. Em um inglês rudimentar de imigrante, Kassandra revela sua condição de exilada: estranha em seu próprio corpo, em todos os países.

Em Damas da Noite, de Portugal, Elmano Sancho mergulha na fronteira tênue entre realidade e ficção, revelando Cléopâtre – o filho não nascido, o duplo imaginário. Através do ambiente provocativo do transformismo, o espetáculo desconstrói binarismos de gênero, identidade e existência. Uma peça sobre a fluidez do ser, onde corpos se transformam, fronteiras se dissolvem e a identidade se revela como território móvel e infinito. Damas da Noite é um ritual de metamorfose, onde o artista confronta suas próprias expectativas de nascimento e existência. Uma viagem poética pelos territórios da identidade, onde cada máscara revela uma camada mais profunda do humano.

Estão também na Mostra Vivencial outros cinco espetáculos que desafiam convenções: Mainha é uma Resenha celebra a figura materna com humor nordestino, inspirada no trabalho do saudoso Paulo Gustavo; Vivencial, Revivenciando reconstitui a trajetória do grupo teatral pernambucano  homenageado; Querida Gina mergulha nas complexidades da experiência feminina através de uma metáfora terapêutica; Santo Genet e as Flores da Argélia explora margens sociais e identitárias inspirado na obra de Jean Genet; e Sha da Meia Noite propõe um chá cênico de confrontos de classe com fragmentos de Genet e MPB.

O lançamento do livro Pernalonga, uma Sinfonia Inacabada, do jornalista Márcio Bastos, adiciona uma camada documental à homenagem, oferecendo um olhar íntimo sobre a trajetória de um dos atores do grupo e, por extensão, sobre a efervescência cultural que o Vivencial representou. Esta obra literária serve como um importante registro histórico, preservando memórias e anedotas que poderiam, de outra forma, se perder com o tempo.

A homenagem a Guilherme Coelho, fundador do Vivencial, destaca-se como um reconhecimento à visão artística e à coragem que deram origem ao grupo. Este gesto honra um o indivíduo e se estende como reconhecimento de toda uma geração de artistas que ousaram desafiar as normas sociais e artísticas de seu tempo.

A temática geral do festival, centrada na liberdade de expressão, diversidade cultural e arte como instrumento revolucionário, alinha-se perfeitamente com o espírito do Vivencial.

Cida Pedrosa, Márcia Souto, Maria do Céu e Paula de Renor; quatro das dez personalidades homenageadas  do JGE. Foto: Divulgação

HOMENAGEADAS

Dez personalidades que contribuíram significativamente para a cultura pernambucana são homenageadas pelo 31º Janeiro de Grandes Espetáculos, abrangendo diversas áreas artísticas e de atuação social. Paula de Renor, atriz e produtora, é distinguida como representante das artes cênicas, tendo sido durante mais de 20 anos uma das realizadoras do Janeiro e atualmente é a produtora do festival Reside FIT-PE. Márcia Souto e André Campos são homenageados por sua atuação na política cultural, enquanto Bernard Peixoto é reconhecido por seu trabalho no Sistema Fecomércio Sesc/Senac Pernambuco, ressaltando a importância das parcerias institucionais no fomento à cultura.

Cida Pedrosa, vereadora, poeta, autora e militante cultural, é homenageada por sua atuação que une arte, política e ativismo social. O festival saúda Guilherme Coelho, fundador do grupo Vivencial; Mister Brynner, por sua atuação na arte circense; Nenéu Liberalquino, maestro da Banda Sinfônica do Recife, pela música; e o bailarino e professor Alexandre Macedo, pela dança. Completando a lista, Maria do Céu é homenageada como representante dos artistas e da causa LGBTQIAPN+, evidenciando as disputas e conquistas dos movimentos de diversidade.

CONSELHO E PRÊMIO

O festival Janeiro de Grandes Espetáculos (JGE) oferece uma vasta gama de produções artísticas que podem ser comparadas a um mercado persa cênico. Neste cenário, o espectador tem a liberdade de explorar e selecionar obras que se alinhem com seus gostos pessoais e interesses. Nesse contexto, desde 2019, o festival implementou um Conselho Consultivo para refinar a seleção das obras apresentadas.

Para a edição de 2025, o conselho contou com as contribuições de Simone Figueiredo, Álcio Soares e Genivaldo Fernandes. Complementando este trabalho, a Comissão de Seleção de Espetáculos, formada por Ana Nogueira, Jorge Féo, Silvério Pessoa, Valéria Barros e Paulo de Castro (produtor-geral do festival), atua sob a coordenação de Paulo de Pontes.

O 31º Janeiro de Grandes Espetáculos é uma realização da Apacepe (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco), apresentado pela Prefeitura do Recife e pelo Governo do Estado. O evento conta com o apoio de diversas entidades, incluindo o Sesc, e patrocínio de Suape e Fundarpe. A produção geral está a cargo de Paulo de Castro, com suporte de várias empresas e instituições de mídia locais.

Uma marca do festival é o Prêmio JGE Copergás de Teatro, Dança, Circo e Música de Pernambuco, patrocinado pela Copergás. Esta premiação visa reconhecer e celebrar os talentos locais, oferecendo visibilidade e reconhecimento aos artistas. A cerimônia de premiação, agendada para 1º de fevereiro no Teatro de Santa Isabel, distribuirá 25 troféus em cinco categorias distintas: Teatro Adulto, Teatro Infantil, Dança, Circo e Música. Esta iniciativa busca reconhecer e potencializar a produção artística pernambucana em suas diversas manifestações.

 

P R O G R A M A Ç Ã O

TEATRO ADULTO:

Teatro de Santa Isabel:

16/01/2025 19h30 – Noite, Inteira R$60 Meia R$30, 1h30min
22/01/2025 20h – Rinocerontes, Inteira R$60 Meia R$30, 1h20min
29/01/2025 19h30 – Um Minuto pra Dizer que Te Amo, Inteira R$60 Meia R$30, 1h15min
31/01/2025 20h – Yerma Atemporal, Inteira R$60 Meia R$30, 1h30min

Teatro do Parque

10/01/2025 19h30 – Mainha é uma Resenha – A Peça!, Inteira R$60 Meia R$30, 2h

Teatro Apolo

17/01/2025 20h15 – Ao Paraíso, Inteira R$40 Meia R$20, 1h
30/01/2025 19h30 – Cárcere, Inteira R$40 Meia R$20, 1h30min
31/01/2025 20h – O Clube da Jovem Guarda, Inteira R$40 Meia R$20, 1h40min
02/02/2025 17h – Show de Variedades, Inteira R$60 Meia R$30, 4h

Teatro Hermilo Borba Filho

14/01/2025 19h – A Mulher que Queria ser Micheliny Verunschk, Inteira R$60 Meia R$30, 1h05min
15/01/2025 19h – A Mulher que Queria ser Micheliny Verunschk, Inteira R$60 Meia R$30, 1h05min
21/01/2025 19h30 – Mulheres de Nínive, Inteira R$60 Meia R$30, 1h
23/01/2025 19h – Salto, Inteira R$40 Meia R$20, 45min
25/01/2025 19h e 20h30 – O Alienista – Casa dos Loucos, Inteira R$60 Meia R$30, 1h
31/01/2025 19h – Se Eu Subir, Quem Me Derruba?, Inteira R$60 Meia R$30, 2h

Teatro Capiba

11/01/2025 19h – Senhora, Inteira R$40 Meia R$20, 1h
15/01/2025 19h – Senhora dos Nossos Sonhos, Inteira R$40 Meia R$20, 1h20min
16/01/2025 19h – Senhora dos Nossos Sonhos, Inteira R$40 Meia R$20, 1h20min
18/01/2025 19h – Na Bagagem Poesia, Inteira R$40 Meia R$20, 45min
23/01/2025 19h – Dom – O Santo da Utopia, Inteira R$40 Meia R$20, 70min
25/01/2025 19h – HRWJXN – Jogando com a Palhaçaria!, Inteira R$40 Meia R$20, 1h

Teatro Marco Camarotti

10/01/2025 20h – Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III, Inteira R$60 Meia R$30, 1h15min
11/01/2025 20h – Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III, Inteira R$60 Meia R$30, 1h15min
12/01/2025 18h – Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III, Inteira R$60 Meia R$30, 1h15min
18/01/2025 17h – Contando Histórias, Inteira R$40 Meia R$20, 1h
22/01/2025 19h – Xirê, Inteira R$40 Meia R$20, 1h05min
23/01/2025 19h30 – Samsara Lições para o Fim do Mundo, Inteira R$40 Meia R$20, 65min
24/01/2025 19h – Esquecidos por Deus, Inteira R$60 Meia R$30, 1h
25/01/2025 19h30 – Céu em Si + Bate Papo com o Público, Gratuito, 1h
26/01/2025 18h – Entretanto Teatro – 25 Anos, Inteira R$40 Meia R$20, 50min

Teatro Barreto Jr.

24/01/2025 20h – Auto da Barca do Inferno, Inteira R$60 Meia R$30, 50min
26/01/2025 17h e 19h30 – Saudade, Meu Remédio é Cantar!, Inteira R$60 Meia R$30, 1h38min
29/01/2025 20h – Nós, Poemas em Pé, Inteira R$40 Meia R$20, 45min
30/01/2025 20h – A Divina & O Esplendor – Uma Farsa Forçada, Inteira R$40 Meia R$20, 1h30min
31/01/2025 20h – A Viola do Diabo, Inteira R$40 Meia R$20, 1h20min
02/02/2025 14h30, 17h e 19h30 – As Bruxas de Oz, Inteira R$80 Meia R$40, 1h40min

Sinagoga Kahal Zur Israel

18/01/2025 19h – Senhora de Engenho Entre a Cruz e a Torá, Inteira R$80 Meia R$40, 1h20min
19/01/2025 18h – Senhora de Engenho Entre a Cruz e a Torá, Inteira R$80 Meia R$40, 1h20min

TEATRO INFANTIL

Teatro de Santa Isabel:

19/01/2025 16h30 – O Reino Congelado – Inspirado em Frozen, Inteira R$100 Meia R$50, 1h
26/01/2025 16h30 – Os Saltimbancos, Inteira R$100 Meia R$50, 50min

Teatro do Parque

19/01/2025 17h – O Pequeno Príncipe, Inteira R$60 Meia R$30, 1h
26/01/2025 15h, 17h30 e 19h30 – A Bela e a Fera, Inteira R$100 Meia R$50, 1h30min

Teatro Apolo

12/01/2025 17h – O Dia em que a Morte Sambou, Inteira R$60 Meia R$30, 40min

Teatro Hermilo Borba Filho

11/01/2025 17h – Enrolados – A nova aventura de Rapunzel, Inteira R$100 Meia R$50, 1h
26/01/2025 16h30 – O Livro da Alegria, Inteira R$60 Meia R$30, 40min

Teatro Fernando Santa Cruz

19/01/2025 17h – Lua, Estrela e Baião, Inteira R$60 Meia R$30, 50min

Teatro Barreto Jr.

23/01/2025 16h30 – Aladdin – O Musical, Inteira R$100 Meia R$50, 1h20min

CIRCO 

Teatro Marco Camarotti

17/01/2025 20h – Em Busca de um Emprego, Inteira R$60 Meia R$30, 1h20min

Teatro Capiba

19/01/2025 17h – Dunga In Concert, Inteira R$40 Meia R$20, 50min

Teatro do Parque

22/01/2025 20h – Circo Science – Do Mangue ao Picadeiro, Inteira R$40 Meia R$20, 1h

MÚSICA

Teatro de Santa Isabel

09/01/2025 19h – Orquestra Lunar e a Música Negra de Áurea Martins e Elízio de Búzios, Inteira R$60 Meia R$30, 50min
10/01/2025 19h – Orquestra Lunar e a Música Negra de Áurea Martins e Elízio de Búzios, Inteira R$60 Meia R$30, 50min
15/01/2025 20h – Irah Caldeira Apresenta: Mulheres Compositoras do Nordeste, Inteira R$60 Meia R$30, 1h30min
02/02/2025 16h – “O Concerto” com o Quarteto Encore e Betto do Bandolim (Salão Nobre), Inteira R$120 Meia R$60, 1h

Teatro do Parque

12/01/2025 19h – Afoxé Oxum Pandá 30 Anos – A Era de Ouro Chegou!, Inteira R$40 Meia R$20, 1h20min
17/01/2025 20h – Estesia, Inteira R$60 Meia R$30, 1h20min
18/01/2025 20h – Martins – Show Acústico, Inteira R$80 Meia R$40, 1h15min
23/01/2025 19h30 – Som da Terra – 50 Anos Dourados, Inteira R$60 Meia R$30, 2h
24/01/2025 20h – Almério – Nesse Exato Momento, Inteira R$80 Meia R$40, 1h15min
28/01/2025 20h – Tributo Armorial Camerata Pernambucana, Inteira R$40 Meia R$20, 50min

Teatro Apolo

11/01/2025 20h – A Vida Pede Mais Abraço que Razão, Inteira R$80 Meia R$40, 1h
19/01/2025 16h e 19h – Elas Cantam Reginaldo Rossi, Inteira R$100 Meia R$50, 1h30min
22/01/2025 19h – Rock Bossa, Inteira R$40 Meia R$20, 1h15min
23/01/2025 19h – Rock Bossa, Inteira R$40 Meia R$20, 1h15min
28/01/2025 20h – O Melhor Lugar da Praia, Inteira R$60 Meia R$30, 1h20min

Teatro Hermilo Borba Filho

10/01/2025 19h – Nuvem Cigana: Silvério Pessoa & Publius Canta Lô Borges e Beto Guedes, Inteira R$50 Meia R$25, 1h15min
12/01/2025 17h – Me Dê Notícias do Universo, Inteira R$50 Meia R$25, 1h10min
29/01/2025 19h – Cantiga à Pedra do Reino, Inteira R$60 Meia R$30, 60min
30/01/2025 20h – O Tempo Atravessa o Homem, Inteira R$60 Meia R$30, 1h15min

Teatro Marco Camarotti

15/01/2025 19h30 – O Velho em Con(s)erto, Inteira R$30 Meia R$15, 50min
16/01/2025 19h30 – O Velho em Con(s)erto, Inteira R$30 Meia R$15, 50min

Teatro Fernando Santa Cruz

11/01/2025 19h30 – Ruan Trajano: Celebrando Dois Gilbertos e Suas Canções, Inteira R$50 Meia R$25, 1h
16/01/2025 20h – Forróck, Inteira R$40 Meia R$20, 1h
25/01/2025 20h – Infinito Azul, Gratuito, 1h15min

Teatro Arraial Ariano Suassuna

22/01/2025 10h e 15h – Cantiga à Pedra do Reino, Gratuito para estudantes, 60min

DANÇA

Teatro de Santa Isabel

12/01/2025 17h e 20h – Negrô, Inteira R$60 Meia R$30, 45min
14/01/2025 20h – Don Quixote, Inteira R$40 Meia R$20, 70min
18/01/2025 20h30 – Musical Capiba Pelas Ruas Eu Vou, Inteira R$80 Meia R$40, 1h20min
21/01/2025 19h – Cabras de Lampião – 30 Anos de Xaxado, Inteira R$60 Meia R$30, 1h
30/01/2025 19h30 – O Mundo na Ponta dos Pés, Inteira R$60 Meia R$30, 2h
02/02/2025 18h – IV Festival Pole Dance de Pernambuco (Salão Nobre), Inteira R$80 Meia R$40, 2h30min

Teatro do Parque

14/01/2025 20h – Labor, Inteira R$60 Meia R$30, 50min
15/01/2025 19h – Gala Floresta Encantada, Inteira R$50 Meia R$25, 1h40min
29/01/2025 19h – Itã Kijiba – Sabedoria Ancestral, Inteira R$40 Meia R$20, 1h10min

Teatro Apolo

16/01/2025 19h – Mata Sagrada, Inteira R$60 Meia R$30, 45min
25/01/2025 15h e 19h – Festival Florescer de Danças Árabes e Fusões, Inteira R$40 Meia R$20, 2h30min
29/01/2025 19h – Aquarela, Inteira R$70 Meia R$35, 45min

Teatro Hermilo Borba Filho

24/01/2025 20h – Itaêotá, Inteira R$60 Meia R$30, 1h

Teatro Marco Camarotti

31/01/2025 20h – Marim Brincante, Inteira R$60 Meia R$30, 50min

Teatro Fernando Santa Cruz

15/01/2025 20h – Obirin – Kunhã: Dança Inflamada, Gratuito, 30min

Teatro Arraial Ariano Suassuna

17/01/2025 20h – Obirin-Kunhã: Dança Inflamada, Gratuito, 30min

Campo da UR1 – Ibura

25/01/2025 16h – Campo Minado, Gratuito, 60min

MOSTRA VIVENCIAL

Teatro Apolo

10/01/2025 20h – Vivencial, Revivenciando, Inteira R$50 Meia R$25, 45min
15/01/2024 20h30Querida Gina 
24/01/2025 19h – Sha da Meia Noite + exibição do curta: Era Uma Vez Diversiones, Inteira R$60 Meia R$30, 1h

Teatro Hermilo Borba Filho

16/01/2025 19h – Kassandra, Inteira R$40 Meia R$20, 1h05min
17/01/2025
19h – Kassandra, Inteira R$40 Meia R$20, 1h05min
18/01/2025 20h – Santo Genet e as Flores da Argélia, Inteira R$60 Meia R$30, 1h30min
19/01/2025 18h – Santo Genet e as Flores da Argélia, Inteira R$60 Meia R$30, 1h30min

Teatro de Santa Isabel

24/01/2025 20h – Damas da Noite Uma Farsa de Elmano Sancho, Inteira R$80 Meia R$40, 1h
25/01/2025 20h – Damas da Noite Uma Farsa de Elmano Sancho, Inteira R$80 Meia R$40, 1h

Teatro do Parque

10/01/2025 19h30 – Mainha é uma Resenha – A Peça 

MOSTRA JANEIRO DE CENAS CURTAS

Teatro Barreto Jr.

18/01/2025 a partir das 18h – Mostra Janeiro de Cenas Curtas, R$20 + 1kg de alimento não perecível
19/01/2025 a partir das 17h – Mostra Janeiro de Cenas Curtas, R$20 + 1kg de alimento não perecível

OUTROS EVENTOS

Teatro de Santa Isabel

09/01/2025 18h – Abertura – Apresentação do Livro: Pernalonga Uma Sinfonia Inacabada, Gratuito, 1h
10/01/2025 16h – Ensaio Aberto: Orquestra Lunar e a Música Negra de Áurea Martins e Elízio de Búzios, Gratuito, 50min
29/01/2025 16h – Leitura Dramatizada – Ensaio para Velhos Pretos, Inteira R$60 Meia R$30, 1h

Teatro de Santa Isabel (Salão Nobre)

25/01/2025 16h – Leitura Dramatizada – Josephina, Inteira R$40 Meia R$20, 45min

Teatro Marco Camarotti

14/01/2025 19h – Auto da Compadecida – Uma Farsa Modernesca, Gratuito + 1kg de alimento, 1h40min

Teatro Capiba

21/01/2025 19h – Leitura Dramatizada – Condenadas à Vida, Inteira R$40 Meia R$20, 50min
26/01/2025 18h – Leitura Dramatizada – Frei Caneca – Um País Chamado Pernambuco, Inteira R$40 Meia R$20

 

 

 

 

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