Arquivo mensais:dezembro 2011

Rute e Raquel – mas as duas são mocinhas

O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas fará duas apresentações no Santa Isabel

O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas volta ao Teatro de Santa Isabel para duas apresentações neste sábado e domingo, às 20h. Já escrevemos muito por aqui sobre a montagem. É um melodrama super divertido, baseado no folhetim A emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela. O grupo fez temporadas de sucesso, levou muitos prêmios no Janeiro de Grandes Espetáculos do ano passado (inclusive melhor espetáculo pelo júri oficial e pelo público), rodou o país se apresentando em festivais, foi ao interior do estado.

O elenco é bastante entrosado e competente, até por conta mesmo do número de apresentações que o grupo já fez. Nestas duas sessões no Santa Isabel, no entanto, teremos uma curiosidade. A Clotilde Iara Campos será substituída por sua irmã, a bailarina e atriz Íris Campos. Será que vamos perceber a diferença nas mocinhas? É só conferir. Os ingressos para o espetáculo custam R$ 30 e R$ 15 (meia). Informações: (81) 3355-3322.

Juro que não sei quem é quem! Alguém se habilita?

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Perdendo a cabeça

Ser, o não-ser, espetáculo de teatro negro. Foto: Rodrigo Moreira

A coragem e a ousadia de experimentar uma linguagem que quase não é vista nos palcos pernambucanos. Só isso já seria suficiente para atiçar a curiosidade do público, mas não para necessariamente capturá-lo. O Grupo Capibaribe Negro sabe disso e vai além. Consegue conquistar com a graciosidade de um espetáculo pouco pretensioso, mas que se mostra bem construído em seus propósitos.

Atores jovens, a maioria deles saídos da universidade ou da escola de teatro, decidiram enveredar pelo teatro negro e pelas formas animadas. A ausência de luz, ou melhor, a medida perfeita no seu uso, aliada à manipulação coordenada de objetos, são os pré-requisitos para que Ser, o não-ser se erga.

Como bem disseram os atores ao final da montagem, nem é preciso entender exatamente a história que eles contam para se divertir e surpreender. A sinopse explica “Ser, o não-ser conta com sutileza a eterna busca do homem racional e sua inquietude perante sua existência no mundo. O homem que agora perdeu sua fé e renasceu completamente fragmentado, parte numa odisséia penumbrosa em busca da paz de se sentir completo outra vez”. Se eles estão dizendo que é isso, tudo bem. Na realidade, nem importa tanto assim…

Grupo fez três temporadas este ano no Joaquim Cardozo e se apresentou na Mostra Capiba

A narrativa começa com um homem que perde a cabeça e depois o corpo todo. Sobram só as mãos, que vão atrás de outro corpo, feito com um lençol. Mas ainda faltam os olhos, o rosto, a boca, que pode ser um livro, o nariz roubado de um boneco de neve resfriado. A música ajuda a dar ritmo e compor o ambiente da montagem. Quem faz a sonoplastia é Júlia ShaKurr. A direção é de Pedro Cardoso e o elenco é formado por Juliana Nardin, Ailton Brito, Kedma Macedo e Kelina Macedo.

Talvez fosse interessante, como um próximo passo, conseguir se apropriar da dramaturgia de maneira mais efetiva. Comunicar não só através das cores reluzantes e movimentos dos bonecos. Contar um enredo mais claro ao público. Vimos algumas dessas experiências por aqui – com o teatro de objetos (não o teatro negro) no Festival Internacional de Teatro de Objetos (Fito), realizado no Marco Zero. Fiquei lembrando, por exemplo, dos espetáculos do espanhol Jaime Santos, da La Chana Teatro: Entre dilúvios e O pequeno vulgar, que têm um enredo totalmente assimilado pelo público, e nem por isso, os espetáculos deixam de ser inventivos.

A direção é de Pedro Cardoso

Só este ano, o Capibaribe Negro já fez três temporadas no Teatro Joaquim Cardozo, no Centro Cultural Benfica, que foi onde este elenco deslanchou e tomou intimidade de verdade com o espetáculo. Quantas pessoas teriam prestigiado o grupo nesse longo período em cartaz? E aí as considerações vão muito mais no sentido da divulgação propriamente dita do que na construção da montagem. É preciso articular meios – seja por fotografias adequadas, pelo contato mais efetivo com a imprensa, pela atuação nas redes sociais – para que a montagem realmente seja bem-sucedida. Não basta só ter um bom espetáculo. Claro que a propaganda “boca a boca” é importante, mas pode ser incrementada se as pessoas tiverem uma noção e forem despertadas para o que podem desfrutar no espetáculo. Só digo uma coisa… já estou curiosa para a próxima montagem.

Manipulação é feita por quatro atores

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Programação parcial do 18º Janeiro de Grandes Espetáculos

Essa febre que não passa. Foto: Ivana Moura

A grade com os espetáculos inéditos, as atrações nacionais e internacionais do 18º Janeiro de Grandes Espetáculos ainda está sendo fechada. Mas os produtores Carla Valença, Paula de Renor e Paulo de Castro anunciaram as peças pernambucanas selecionadas.

O programa será realizado de 11 a 29 de janeiro de 2012, no Recife, Olinda e Caruaru, com produção da Apacepe (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco).

Também já estão definidas as comissões de avaliação de cada área, que decidirão quem receberá os prêmios ao final do festival. (Como Leidson Ferraz explicou nos comentários, foram essas as comissões que selecionaram os espetáculos que vão participar do Janeiro. O júri do prêmio ainda será escolhido) O júri para teatro adulto é formado por Elton Bruno Siqueira, Quiercles Santana, Fátima Aguiar e Roberto Lúcio. Para teatro para infância e juventude é composto por Ana Elizabeth Jápia, Cira Ramos, Williams Sant’Anna e André Filho. E para dança: Paulo Henrique Ferreira, Christianne Galdino, Sandra Rino e Marília Rameh.

TEATRO ADULTO:

A Inconveniência de Ter Coragem (Pontinho de Cultura Galpão das Artes/Limoeiro)
As Levianas em Cabaré Vaudeville (Cia. Animé/Recife)
Divinas (Duas Companhias/Recife)
Essa Febre Que Não Passa (Coletivo Angu de Teatro/Recife)
Manual Prático de Felicidade (Teodora Lins e Silva Companhia de Teatro)
Noturnos (Cia. Fiandeiros de Teatro/Recife)
O Canto de Gregório (Grupo Magiluth/Recife)
Palhaços: O Reverso do Espelho (Dramart Produções/Recife)

Palhaços, o reverso do espelho. Foto: Ivana Moura

TEATRO PARA INFÂNCIA E JUVENTUDE

Algodão Doce (Mão Molenga Teatro de Bonecos/Recife)
Assim Me Contaram, Assim Vou Contando… (Cia. de Teatro Enlassos /Recife)
O Circo do Futuro (Ilusionistas Corporação Artística e Chocolate Produções Artísticas/Recife)
O Pirata Tubarão e o Índio Xavante (Circus Produções Artísticas/Recife)
O Urubu Cor de Rosa (Grupo Scenas/Olinda)
Nem Sempre Lila (Grupo de Teatro Quadro de Cena/Recife)
Pluft, O Fantasminha (Cênicas Núcleo Paralelo/Recife)
Valentim e o Boizinho de São João (Cia. Máscaras de Teatro/Recife)

DANÇA:

Aluga-se Um Coração (Qualquer Um dos 2 Cia. de Dança/Petrolina)
Cordões (Grupo Peleja/Olinda)
Dark Room (Cia. Etc/Recife)
Espaçamento (Cláudio Lacerda/Dança Amorfa/Recife)
Estar Aqui ou Ali? (Visível Núcleo de Criação/Recife)
Eu Vim da Ilha (Cia. de Dança SESC Petrolina/Petrolina)
Ilhados – Encontrando as Pontes (Grupo Experimental/Recife)
Sob a Pele (Dante Cia. de Dança e Teatro/Recife)

Algodão doce, do Mão Molenga. Foto: Ivana Moura

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Ouvindo Hermilo falar

Dramaturgo e diretor Hermilo Borba Filho

Uma entrevista de mais de 40 minutos concedida pelo dramaturgo e diretor Hermilo Borba Filho (1917-1976) em 1973, para o Sistema Nacional do Teatro, é um dos grandes trunfos do DVD Coleção Teatro – Volume Três – Hermilo Borba Filho, que será lançado hoje, às 19h, pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e Massangana Multimídia.

O material é um bônus do documentário Hermilo no grande teatro do mundo, dirigido e roteirizado pela jornalista e dramaturga do grupo Mão Molenga de Teatro, Carla Denise, que será exibido gratuitamente no Cinema da Fundaj, no Derby. Na mesma ocasião também será relançada pela Edições Bagaço a tetralogia Um cavalheiro da segunda decadência formada pelos romances Margem das lembranças, A porteira do mundo, O cavalo da noite e Deus no pasto.

“A ideia desse vídeo surgiu de forma institucional, foi uma solicitação à Fundaj (onde Carla trabalha) quando se estavam homenageando os 90 anos de nascimento de Hermilo, em 2007. Eu fui convidada para dirigir esse documentário, mas depois de uma pesquisa, percebi que não existia um material em audiovisual sobre Hermilo”, explica a jornalista. Dois anos depois, em 2009, durante uma semana e meia, Carla entrevistou atores, diretores, professores, pesquisadores. Algumas dessas pessoas conviveram com Hermilo e foram capazes de recriar a sua trajetória pessoal e profissional, principalmente no teatro.

Há entrevistas com o ator Germano Hauit, com Abelardo da Hora, com o diretor Lúcio Lombardi, com o pintor José Claúdio, com Ariano Suassuna, com a atriz Geninha da Rosa Borges, com o ator Reinaldo de Oliveira e a viúva Leda Alves, além de pesquisadores como Luis Reis e João Denys.

“Era bricalhão, espirituoso, inteligente, mas na hora do ensaio, era rigoroso”, lembra Reinaldo de Oliveira, ator e diretor do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP). Na realidade, Hermilo começou no teatro ainda em Palmares, na Sociedade de Cultura de Palmares, onde nasceu. Quando veio estudar no Recife, se ligou ao grupo Gente Nossa, de Samuel Campelo. Durante quase dois anos, ganhava dois mil réis para ser “ponto” dos atores, ditar o texto para que eles repetissem. Era um repertório para fazer rir, peças de costumes da década de 1920.

Quando Samuel morreu, Valdemar fundou o TAP e Hermilo começou traduzindo peças de autores como Oscar Wilde. Foi também ator no TAP, mas aquele não era o teatro que ele queria.

No Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), entre 1946 e 1953, a obra de Hermilo toma os contornos políticos que a marcariam. Montou Garcia Lorca, Ibsen, Tchekhov. “Acho que, em certas épocas de crise, em certas épocas em que o homem necessita de ser politizado, acho que o teatro deve, como qualquer arte, não ficar abstraído dessa função política do homem. Ele tem que entrar nessa discussão”, diz Hermilo na entrevista. “O Teatro do Estudante de Pernambuco achava que não se poderia falar num teatro nacional sem a fixação de um autor nacional”, complementa. Em São Paulo, Hermilo começou como encenador profissional. Passou cinco anos por lá, foi crítico de teatro da Última hora e da Revista Visão, mas como explica Luis Reis, o teatro moderno que estava acontecendo em São Paulo não o interessava, porque copiava modelos europeus.

De volta ao Recife, Hermilo funda o Teatro Popular do Nordeste (TPN), cujo manifesto foi escrito por Ariano Suassuna. Estreou em 1960 com A pena e a lei, de Ariano, musicada por Capiba, no Teatro do Parque. “O TPN era um teatro de trincheira, denunciava o que estava acontecendo no Brasil”, conta Leda. Antes de montar uma peça, Hermilo sentava com os seus atores em volta de uma mesa – esse era, aliás, o momento mais importante; além de levar os intérpretes para frequentar terreiros e conhecer as manifestações populares. “Apesar de ele ter nascido no início do século, é contemporâneo, muito importante no cenário nacional. Um dos que primeiro viu o potencial das tradições populares para além da ideia do folclore. E ele bebeu nessa fonte para recriar a arte dele”, avalia Carla Denise.

O TPN encerrou suas atividades em 1975 e Hermilo faleceu um ano depois, de problemas cardíacos. O DVD Hermilo no grande teatro do mundo e a tetralogia estarão sendo vendidos no lançamento e o DVD depois estará disponível nas lojas da Fundaj.

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Com os pés nos anos 1990

Severino Florêncio como a impiedosa Dorotéia. Foto: Rodrigo Moreira/Divulgação

Há 27 anos, 37 meses e não sei quantos dias, Madalena vive um aperreio de vida. Tem uma mãe que, vamos combinar, ninguém merece. Dorotéia faz questão de mostrar que quem manda, não só na casa, mas em Madalena, é ela. Esse é o mote da montagem Dorotéia vai à guerra, do Grupo de Teatro Arte Em Cena, de Caruaru, apresentada no segundo dia da V Mostra Capiba. Na realidade, Severino Florêncio (Dorotéia) e Welba Sionara (Madalena) já tem intimidade com o texto há vários anos. Severino montou a peça em 1993 ao lado da atriz Maria Alves e ficou em cartaz por dez anos. Welba integrava a equipe técnica da montagem. Foi um grande sucesso na década de 1990, abocanhou prêmios em vários festivais – Severino nem tem certeza de quantos, acha que foram 32.

Remontar um desses grandes sucessos, uma peça em cartaz por tantos anos, levanta muitos questionamentos e dispara desafios. Para Welba, porque viu Maria Alves atuar, mas tem que criar a sua própria Madalena. Mas principalmente para Severino, que segundo o próprio diretor (das duas montagens) Gilberto Brito, tem no personagem um divisor de águas na sua carreira. Então porque voltar? Porque não se debruçar sobre um texto novo, encarar um personagem que fosse acrescentá-lo ainda mais, um processo diferente?

São só provocações…e, como mesmo diz Dorotéia, “a verdade tem muitas variantes”. Fato é que o tema e as discussões que podem ser geradas a partir do texto continuam pertinentes. São as relações de poder e dominação que permeiam as relações e de que forma elas podem ser superadas. Se Severino domina perfeitamente as nuances da sua Dorotéia, tão cruel, mimada, Welba deixa transparecer que a sua interpretação ainda pode crescer – o espetáculo estreou em março. Em muitos momentos, texto e emoção ainda estão em descompasso: o “mamãe” precisa soar mais natural, mais engendrado na atriz.

Parece também não estar bem resolvido o tom da comédia. Há ironia no texto, claro que sim, mas em alguns momentos a dúvida parece pairar: é um drama ou uma comédia? É um drama que se transformou em comédia? É aí o público não consegue, quando deveria, embarcar no riso. Acha muito absurda toda aquela situação ali encenada, tem pena de Madalena, raiva da mãe, raiva de Madalena por não conseguir se libertar, mas não consegue se divertir com o humor negro de Dorotéia ou se sentir vingado quando Madalena parece assumir o controle.

A cena se passa numa casa antiga, sob as vistas dos santos na parede, dentro de um quarto. Um baú, uma cadeira e uma cama são os principais elementos de cena. Mas a encenação é mesmo muito baseada na construção dos atores. E fica a impressão de que a montagem – não vi a anterior, é bom que se diga – caminha nos trilhos e moldes da década passada. Não vou usar de ironias ou eufemismos, como propõe Dorotéia. Saí do teatro com vontade de ver um ator tão competente quanto Severino, tão engajado na luta pelo teatro no interior, se arriscar ainda mais – se retirando da sua própria zona de conforto e, certamente, nos deixando desconcertados.

Montagem ganhou mais de 30 prêmios na década de 1990

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