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Perdendo a cabeça

Ser, o não-ser, espetáculo de teatro negro. Foto: Rodrigo Moreira

A coragem e a ousadia de experimentar uma linguagem que quase não é vista nos palcos pernambucanos. Só isso já seria suficiente para atiçar a curiosidade do público, mas não para necessariamente capturá-lo. O Grupo Capibaribe Negro sabe disso e vai além. Consegue conquistar com a graciosidade de um espetáculo pouco pretensioso, mas que se mostra bem construído em seus propósitos.

Atores jovens, a maioria deles saídos da universidade ou da escola de teatro, decidiram enveredar pelo teatro negro e pelas formas animadas. A ausência de luz, ou melhor, a medida perfeita no seu uso, aliada à manipulação coordenada de objetos, são os pré-requisitos para que Ser, o não-ser se erga.

Como bem disseram os atores ao final da montagem, nem é preciso entender exatamente a história que eles contam para se divertir e surpreender. A sinopse explica “Ser, o não-ser conta com sutileza a eterna busca do homem racional e sua inquietude perante sua existência no mundo. O homem que agora perdeu sua fé e renasceu completamente fragmentado, parte numa odisséia penumbrosa em busca da paz de se sentir completo outra vez”. Se eles estão dizendo que é isso, tudo bem. Na realidade, nem importa tanto assim…

Grupo fez três temporadas este ano no Joaquim Cardozo e se apresentou na Mostra Capiba

A narrativa começa com um homem que perde a cabeça e depois o corpo todo. Sobram só as mãos, que vão atrás de outro corpo, feito com um lençol. Mas ainda faltam os olhos, o rosto, a boca, que pode ser um livro, o nariz roubado de um boneco de neve resfriado. A música ajuda a dar ritmo e compor o ambiente da montagem. Quem faz a sonoplastia é Júlia ShaKurr. A direção é de Pedro Cardoso e o elenco é formado por Juliana Nardin, Ailton Brito, Kedma Macedo e Kelina Macedo.

Talvez fosse interessante, como um próximo passo, conseguir se apropriar da dramaturgia de maneira mais efetiva. Comunicar não só através das cores reluzantes e movimentos dos bonecos. Contar um enredo mais claro ao público. Vimos algumas dessas experiências por aqui – com o teatro de objetos (não o teatro negro) no Festival Internacional de Teatro de Objetos (Fito), realizado no Marco Zero. Fiquei lembrando, por exemplo, dos espetáculos do espanhol Jaime Santos, da La Chana Teatro: Entre dilúvios e O pequeno vulgar, que têm um enredo totalmente assimilado pelo público, e nem por isso, os espetáculos deixam de ser inventivos.

A direção é de Pedro Cardoso

Só este ano, o Capibaribe Negro já fez três temporadas no Teatro Joaquim Cardozo, no Centro Cultural Benfica, que foi onde este elenco deslanchou e tomou intimidade de verdade com o espetáculo. Quantas pessoas teriam prestigiado o grupo nesse longo período em cartaz? E aí as considerações vão muito mais no sentido da divulgação propriamente dita do que na construção da montagem. É preciso articular meios – seja por fotografias adequadas, pelo contato mais efetivo com a imprensa, pela atuação nas redes sociais – para que a montagem realmente seja bem-sucedida. Não basta só ter um bom espetáculo. Claro que a propaganda “boca a boca” é importante, mas pode ser incrementada se as pessoas tiverem uma noção e forem despertadas para o que podem desfrutar no espetáculo. Só digo uma coisa… já estou curiosa para a próxima montagem.

Manipulação é feita por quatro atores

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Imperdível Senhora Carrar

Um pequeno tablado com uma janelinha suspensa, luz branca, gestual que atiça antigos sonhos, dez bons atores e uma direção primorosa para dar conta de problemas éticos e das utopias renovadas em Os fuzis da Senhora Carrar, com texto do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. A montagem é uma revisitação estética e histórica de outra encenação de Os fuzis… realizada em 1978, pelo Grupo Teatro Hermilo Borba Filho, com direção de Marcus Siqueira. E faz parte do projeto de pesquisa cultural Transgressão em três atos, desenvolvido pelos jornalistas Cláudio Bezerra, Alexandre Figueirôa e Stella Maris Saldanha, que protagoniza a peça.

Os Fuzis da Senhora Carrar leva à cena a história de Tereza Carrar, moradora de uma pequena vila de pescadores e mãe de Pedro e Juan. O tempo é de conflito entre pacifistas e soldados, entre homens comuns e revolucionários anti-franquistas. Mas nossa protagonista já perdeu o marido e faz qualquer coisa para não ver os filhos metidos na guerra. A peça foi escrita por Brecht em 1937, no período da Guerra Civil Espanhola, que durou de 1936 a 1939. Dizem que não existe dor maior do que perder um filho (a). Tereza tenta evitar essa dor. Não é tarefa fácil, os generais avançam e a perda da liberdade se faz sentir cada vez mais perto. Como manter a neutralidade diante de uma situação dessas? Mas como entregar seus jovens filhos a uma guerra sangrenta, da qual dificilmente se sobrevive?

Sabemos que Brecht imaginava que o teatro deveria servir como instrumento de transformação social e de reflexão crítica da plateia. Mas Senhora Carrar é a mais dramática das peças do dramaturgo alemão. É estruturada de forma linear e nos faz acompanhar a decisão trágica dessa mulher que, diante dos acontecimentos não encontra outra alternativa para se manter viva.

“Por quem lutar ou enlutar, Carrar?”, pergunta o encenador João Denys no programa da peça, em meio a uma avalanche de questionamentos que a própria montagem já desperta. Lá atrás, na ditadura do general Franco, as atrocidades e os terrores da guerra, o sacrifício humano e a barbárie. A guerra hoje é mais difícil. Existe uma letargia diante do capitalismo que dita destinos e as facilidades de comunicação sufocam o verdadeiro diálogo. Mas diante da intolerância, da miséria e da grotesca realidade cotidiana, da subserviência ou do torpor, a Senhora Carrar de Stella Maris Saldanha e de João Denys se insurge para lembrar da humanidade, sem romantismo ou heroísmo. Mas carregada de emoção.

Com seus rostos pintados de branco, os atores agem com a grandeza que o texto merece. A atuação de Stella Maris Saldanha como a protagonista Tereza é de tirar o chapéu. Voz clara, gestos firmes e nuances comoventes de uma mãe que luta enquanto pode para proteger seus filhotes. Ela sangra no palco e essa dor atinge o público. O ator Roger Bravo faz José, o filho de Tereza que quer ir para o front. Uma performance convincente. José Ramos faz o operário com garra e competência. Os três ficam a maior parte do tempo em cena. Alfredo Borba faz o papel do padre reacionário com destreza.

Também participam do elenco, em papeis menores mas não menos importantes: Ailton Brito, Evandro Lira, Karina Falcão, Socorro Albino, e Antonio Marinho. Enquanto não estão no palco, o elenco fica sentado na primeira fila. A direção de arte (cenário, figurino e maquilagem) é assinada pelo próprio João Denys. A sonoplastia, também de Denys, amplifica a carga das cenas. Um espetáculo ainda mais necessário neste começo de século 21.

SERVIÇO
Os Fuzis da Senhora CarrarNeste sábado, às 21h
Teatro Hermilo Borba Filho.
Ingresso R$ 10.

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