Arquivo mensais:dezembro 2011

Forró e poesia

Cante lá que eu canto cá abriu a V Mostra Capiba de Teatro. Foto: Rodrigo Moreira/ Divulgação

Festival de teatro é momento não só para aprimorar o olhar cênico, para ver montagens de diferentes estilos e lugares, para discutir dramaturgia, direção, elenco. É também uma celebração. Sendo assim, a V Mostra Capiba de Teatro começou muito bem. Ao som do forró e da poesia de Patativa do Assaré com o espetáculo Cante lá que eu canto cá, da Cia do Tijolo, de São Paulo.

O mesmo grupo foi o responsável por uma das melhores experiências que tive no teatro este ano. Em maio, eles vieram ao Recife dentro da programação do Palco Giratório, para apresentar Concerto de ispinho e fulô. Na realidade, Concerto… é a montagem resultante do show que eles apresentaram agora no Capiba.

As declamações da poesia de Patativa são entrecortadas por músicas de diferentes compositores cantadas ao vivo, como Qui nem jiló. “Se a gente lembra só por lembrar / Do amor que a gente um dia perdeu/ Saudade inté que assim é bom / Pro cabra se convencer/ Que é feliz sem saber/ Pois não sofreu / Porém, se a gente vive a sonhar/ Com alguém que se deseja rever/ Saudade intonce aí é ruim/ Eu tiro isso por mim/ Que vivo doido a sofrer”.

Na banda, um sanfoneiro de São Paulo (e não é que lá tem sanfoneiro do bom?) Aloísio Olivier, Jonathan Silva (violão) e Maurício Damasceno (percussão e bandolim). O elenco tem Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti, Fabiana Barbosa e Thaís Pimpão. A direção geral é de Rodrigo Mercadante.

As músicas servem ao propósito de criar correspondências temáticas e estilísticas com a obra de Patativa, poeta que nunca saiu do Ceará, mas conseguiu transformar os seus versos em espelhos de realidades muito maiores. E olhe que nem precisou de estudo para isso. A sabedoria popular não tem mesmo uma ligação direta com os bancos das escolas. Nem mesmo com os sentidos, já que Patativa era cego – mas enxergava como ninguém esse Sertão de meu Deus.

O show é o embrião de uma dramaturgia costurada com muita proeza em Concerto de ispinho e fulô, de uma interpretação que é viva, pulsante. As experiências, como a participação do público e as memórias dos artistas transformadas na dramaturgia, são apenas relances do que acontece na montagem.

Dá para perceber que o show não abarcou o mergulho que esses atores tinham dado na obra de Patativa do Assaré. O encantamento e, sobretudo, o diálogo que travaram com os versos do cearense ganharam a proporção devida em Concerto (que não foi apresentada no Capiba por falta de espaço). Cante lá que eu canto cá é só um pedacinho de bode assado quando a fome é grande; o cheiro de baião de dois na panela; o gostinho da primeira lapada de pinga.

Para quem quer mesmo se embriagar, o grupo apresenta Concerto de ispinho e fulô, se não me engano, em Triunfo e Arcoverde. Vou saber a agenda direitinho e digo a vocês.

Dinho Lima Flor como Patativa do Assaré

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Prorrogado prazo para cadastro de espetáculos no Fringe

Foi prorrogado até 16 de dezembro o prazo para o registro online das propostas das companhias interessadas em participar do Festival de Teatro de Curitiba, dentro da mostra Fringe. Não é necessário enviar o projeto pelo correio, basta entrar no site www.fringe.com.br e preencher o cadastro até às 23h59 do dia 16 de dezembro de 2011.

O 21º Festival de Teatro de Curitiba ocorre de 27 de março e 8 de abril de 2012. O Fringe começa no dia 28. Podem participar da mostra grupos de teatro, música, dança e das mais diversas manifestações culturais. Os artistas que se apresentam em espaços de rua recebem auxílio de hospedagem e alimentação para estadia em Curitiba. Os outros tem que arcar com essas despesas.

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Discordâncias teatrais

Ricardo Martins como o fantasma de um ator que interpretou Hamlet. Fotos: Ivana Moura

Os momentos de tensão geralmente são muito mais frequentes numa relação do que aqueles em que a concordância reina. Não que isso seja ruim. Principalmente quando a convivência está prestes a completar 25 anos. Esse é o tempo de atividade do Armazém Companhia de Teatro, que está no Recife até hoje apresentando Antes da coisa toda começar, às 21h, no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu (ingressos: R$ 30 e R$ 15). Por isso não é necessariamente ruim que Ivana Moura tenha saído do teatro entediada, dizendo que não tinha gostado do texto. Pollyanna Diniz, pelo contrário, já via a peça pela segunda vez, disposta a encarar uma terceira. As duas, de maneiras diferentes, se sentiram provocadas. E foram as opiniões divergentes, as defesas calorosas, que geraram essa “análise dupla” da peça de uma companhia que tem uma história pontuada por montagens que surpreendem o público.

A força de estar no limite
Por Pollyanna Diniz

Não queriam delicadeza. Antes da coisa toda começar é uma porrada. Expõe personagens atormentados, esperanças perdidas, futuros interrompidos. Pode parecer contraditório, mas não é, que a peça trate exatamente daqueles momentos em que nos sentimos capazes de tudo. São faces de uma mesma moeda, limites frágeis. A peça também não trata de memória, como a anterior (e essa sim, delicada) Inveja dos anjos, mas é, em certa medida, uma discussão sobre o fazer teatral. Até porque a criação e o palco certamente foram instantes em que os atores do Armazém se sentiram plenos – natural que isso transpareça no texto de Paulo de Moraes (também diretor) e Maurício Arruda Mendonça.

Criadores que desnudaram limites, seja com gritos ou no silêncio de uma relação que não se constrói. É o caso da cantora (Simone Mazzer) que tentou se matar e é visitada pela irmã. A conversa poderia ser diferente, as sombras se sobrepõem, mas não há entendimento. Ricardo Martins, Patrícia Selonk e Thales Coutinho alcançaram a medida na construção desses personagens. Se qualquer uma dessas peças não estivesse bem, as histórias poderiam soar over ou clichê. Clichê? Que seja! Quem nunca? Quem nunca amou desmedidamente? Quem nunca se sentiu perdido? Quem nunca achou que não poderia mais? Mas insistiu. Porque, como para o Armazém, o mais importante é que histórias sejam contadas, construídas.

Talvez seja importante falar da música. Da cenografia, que propõe um ponto de fuga. Que é como uma fotografia acinzentada das paredes de uma casa velha, que podem avançar no palco e ser utilizadas como plataformas. Das projeções. Adendos, quando o mais importante mesmo é ver que “pensar só em coisas sublimes”, como diz a personagem Zoé, seria muito chato.

Música do espetáculo é executada ao vivo pelos próprios atores. Direção musical é de Ricco Viana, que compõe a banda

Decalque de si mesmo
Por Ivana Moura

Da Armazém Companhia de Teatro, assisti a Alice através do espelho, Pessoas invisíveis, Da arte de subir em telhados, Tempestade, Toda nudez será castigada, Inveja dos anjos. Quarta-feira fui ver Antes da coisa toda começar, a 19ª montagem da companhia. E o que encontrei foi um decalque de outras peças do grupo. A dramatugia escorrega em clichês de personagens e situações. E desta vez, para mim, o diretor mostrou que não conseguiu falar do próprio universo de criação.

Referências shakespereanas abundam nas tentativas de criar algo original. Uma derrapagem. Os discursos, os fraseados, as entonações caem em algo enfadonho. A peça parece se arrastar em um turbilhão de palavras que se colam umas às outras mas que não despertam qualquer tipo de emoção.
Um fantasma habita um teatro abandonado. E evoca lembranças, materializa três figuras que deveriam estar no limite. Uma é Zoé, apaixonada pelo irmão. Outra é uma cantora que já tentou várias vezes o suicídio. E o terceiro é Téo, que reflete sobre o sentido da vida e da criação artística.

Os personagens principais da montagem

A trilha sonora roqueira tocada ao vivo não torna o espetáculo mais visceral. Não é nem que a encenação tenha se voltado para o próprio umbigo, criando dificuldade de diálogo com a plateia. Falta comunicação. É como se alguém estivesse nos contando episódios trágicos e não convencesse.

A estrutura de narrativa fragmentada parece que entrou numa forma. O debate psicológico é um jogo de déjà vu e a suposta densidade escorre pelos dedos. As memórias do fantasma recaem em algo previsível. A movimentação cênica interessante acrescenta pouco. As projeções de vídeo e paredes que se movimentam chegam como recursos que se encerram em si mesmos. O espetáculo fica longo porque a cada tentativa de apresentar alguma surpresa, o que há é mais do mesmo.

Companhia faz última sessão hoje à noite, no Teatro Luiz Mendonça

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Audiência pública para discutir o Procultura

O Procultura será discutido em audiência pública, segunda-feira, 5 de dezembro, no Teatro Arraial, a partir das 18h. O encontro está sendo convocado pelo deputado federal Pedro Eugênio (PT-PE), em parceria com a Fundarpe.

Além do parlamentar, devem participar da discussão os secretários de cultura de Pernambuco, Fernando Duarte e do Recife, Renato L.

O objetivo é ouvir os segmentos culturais de Pernambuco para enriquecer a construção do relatório que estabelecerá novas regras para o financiamento da cultura, nas diversas regiões brasileiras.

O discurso de Eugênio é de defesa de uma melhor distribuição dos recursos para o segmento. “É importante que tanto os recursos do programa de renúncia fiscal, quanto daquele que é o principal instrumento de fomento do setor, que é o Fundo Nacional de Cultura sejam distribuídos de forma mais democrática”, afirma o deputado.

Serviço:
Audiência Pública para discutir o Procultura
Quando: 5/12/2011 (Segunda-feira), às18h
Onde: Teatro Arraial (Rua da Aurora, 457 – Boa Vista)

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Inscrições para o Fringe, do Festival de Curitiba

Só até domingo, o Fringe, mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba, recebe as propostas dos grupos que desejam participam da próxima edição do programa.

O Festival será realizado de 27 de março a 8 de abril. E o Fringe começa no dia 28. Podem participar companhias, produtoras, grupos e artistas independentes de teatro, música, dança e das mais diversas manifestações culturais. O único pré-requisito é que pelo menos 80% dos componentes da montagem tenham registro profissional. O cadastro está disponível em www.fringe.com.br.

Após a realização do cadastro online, a confirmação de participação no evento será feita pela Organização do Festival, no máximo, até o dia 21 de dezembro de 2011. As companhias que se apresentam em espaços de rua são isentas do pagamento da taxa de participação e recebem auxílio para estadia em Curitiba.

O Fringe é formado por espetáculos de diversos gêneros e formatos, inéditos ou não, para adultos ou crianças, em espaços tradicionais, alternativos ou de rua. A participação é livre e depende unicamente de concordar com os termos do Regulamento Oficial do Fringe 2012, disponível no www.fringe.com.br e da disponibilidade dos espações de apresentação. Não há curadoria para a seleção dos espetáculos. O Fringe está presente no Festival de Teatro de Curitiba desde a 7ª edição, em 1998.

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