Arquivo mensais:dezembro 2011

A experiência do invisível

O presente, com Kellia Phayza e Paula Carolina. Foto: Rodrigo Moreira

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.
(Mateus 6:19-21)

Homens e mulheres invisíveis. Estão bem perto de nós, mas é muito difícil que consigamos enxergá-los. A vida é mesmo tão corrida. Não posso perder o ônibus, a aula, o horário do trabalho, a sessão do cinema. Será que a vida acontece tão depressa assim para todos? Os atores da companhia Fiandeiros dizem que, para os moradores de rua, é como se o tempo simplesmente não passasse. Uma eterna espera por algo que não se materializa. Não bastava que esses atores pesquisassem, discutissem. Precisavam ver de perto, sentir na pele – mesmo sabendo que voltariam para as suas casas depois – o que era ser um morador de rua. Essa vivência se transformou no espetáculo Noturnos, apresentado na V Mostra Capiba de Teatro.

A experiência da invisibilidade – como contam, pessoas conhecidas cruzaram com eles nas ruas, mas nem notaram – é comum aos três quadros dramatúrgicos independentes que compõem a montagem. No primeiro, O presente, a relação entre duas mulheres (Kellia Phayza e Paula Carolina); em A cura, a loucura de um homem (Jefferson Larbos); e, por fim, dois artistas frustrados (Manuel Carlos e Daniela Travassos) em Salobre.

Escrevi sobre esse espetáculo, que à época ainda era só a conclusão do projeto de pesquisa Paralelas do tempo – A teatralidade do “não ser”, em maio, quando ele foi apresentado no próprio espaço da Fiandeiros, na Boa Vista, durante o Palco Giratório. Já ali, me provocava. Por expor algo que normalmente não queremos ver. Por trazer ao palco o dedo na ferida. Mas não a partir de uma visão elitista. Claro que sempre será um olhar externo; mas pelo menos há a tentativa de se desatar da relação opressor – oprimido.

Jefferson Larbos em A cura

Um dia depois do espetáculo no Capiba, ouvi um questionamento: “será que a montagem, no caso de ser apresentada para moradores de rua, iria reverberar? Eles iriam se identificar com aquele discurso?”. Seria uma experiência bastante interessante. E eu me arrisco a dizer que não é preciso que os atores falem como os moradores de rua ou que o texto, em toda a sua poesia, seja captado por completo. Acho que algumas teias de aproximação se formariam sim.

O tema não é fácil. Pelo contrário, traz o desafio, que esses atores souberam superar. Manuel Carlos, também responsável pela cenografia, maquiagem (estava um pouco exagerada…todo mundo ficou igual, branco!) e figurino, dá todas as nuances de um palhaço que não tem mais graça, mas teima, como num ritual, em se despedir do ofício. Segurar um monólogo sobre a loucura também não é nada fácil, mas percebo que Jefferson Larbos cresceu desde a última vez que o vi, está caminhando com muito mais naturalidade pelo seu personagem. Ah…não podia também esquecer a luz, pesquisada por Suzana Vital, e a sonoplastia, que ficou sob responsabilidade de André Filho.

Estamos vivos ou mortos? Sentir fome é bom, é sinal de que ainda se está vivo. Embora castigo de morte seja não saber para quê se vive. Qual o endereço da rua onde existe amanhã? Todo mundo tem um pedaço invisível dentro de si. (colagem de trechos da peça)
——-
Fui ao teatro Capiba na última quinta-feira de carro, com uma amiga. Passávamos numa rua esquisita, não sei nem que bairro era aquele, quando vi algumas poucas pessoas na calçada e um homem tendo um ataque que parecia ser de epilepsia. Paramos o carro. O homem parecia voltar, aos pouquinhos. Recusou remédio. Disse que morava muito longe dali. Que tinha ido fazer uma visita. Alguém disse para termos cuidado naquela área. De repente um motoqueiro para: “isso é mentira. Já vi esse homem fazer isso três vezes só para ganhar algum dinheiro. Vão embora”. Saímos todos, rapidamente. O homem ficou na calçada, sentado. Não sei se era mentira, se era verdade. Senti um vazio, uma tristeza.

Daniela Travassos e Manuel Carlos

Postado com as tags: , , , , , , , , ,

De: Pollyanna / Para: Ophélia

Ophélia conversando com o seu amigo coveiro. Foto: Rodrigo Moreira

Querida Ophélia,
Foi tão bom encontrá-la na última semana na V Mostra Capiba de Teatro! O público ficou encantado com a atuação segura e ao mesmo tempo delicada de Pollyanna Monteiro. Trazer ao primeiro plano a sua história, dizer o que ela – e o que nós – pensamos e traçar uma relação tão íntima e sem atropelos com o texto de William Shakespeare é uma descoberta. De que existem maneiras de recontar os clássicos sem a sisudez dos “grandes” atores e diretores. De que dá para ser um “galo de campina” como Paulo Michelotto, diretor, conseguindo dar leveza, mas ao mesmo tempo sustentação, para um trabalho que agarra a plateia pela simplicidade e pouca pretensão.
É bem verdade que existem muitos pontos de fuga na sua dramaturgia – e isso nem é um defeito, já que os atores da Cia de Teatro e Dança Pós-Contemporânea d’ Improvizzo Gang estão bem acostumados a lidar com o imponderável. A participação do público, embora eu ache que isso possa se tornar mais natural ainda à montagem, é um desses elos com o inesperado. Vai que o príncipe não aceita ser príncipe? Não teria o menor problema, tenho certeza. Você logo conseguiria outro. Eram muitas pessoas na plateia que podiam também ocupar os papéis de rei, rainha, coveiro.
De maneira muito informal, a dramaturgia nos alcança, vai nos tomando aos pouquinhos; é forte, profunda. A conversa que você trava com o coveiro e a capacidade de passear tão tranquilamente entre esses personagens, já que a participação do rapazinho de cabelos cacheados ficou restrita à ótima dublagem, são pontos fortes na sua história. Também há intrigas, relacionamentos perdidos, mas há bem mais o encontro com o que se é de verdade, com a realidade que nos cerca, com a dimensão que tomamos de nós mesmos.
A iluminação desenhada por Cleisson Ramos dá os contornos da sua trajetória. E como é lírica a forma como o espetáculo começa. Contando exatamente o seu fim, embora isso nem de longe signifique que a esperança para você acabou. O silêncio é temporário.
Dê um beijo por mim em Pollyanna Monteiro, mesmo nome, mesma terra e, quem sabe se tivermos mais um tempinho juntas, descobrimos até parentes em comum. Mande minhas saudações ao diretor Paulo Michelotto. É ótimo ver a sua irreverência e a maneira com que quebra as regras no palco e constrói as suas próprias, para depois tornar a quebrá-las.
Espero reencontrá-la em breve,
Pollyanna Diniz

Pollyanna Monteiro como Ophélia

Postado com as tags: , , , , , ,

O Solo do Outro em três coreografias

Ela sobre o silêncio, com Helijane Rocha

Até chegar a contemplar um campo de girassóis, essa mulher terá que se livrar das amarras, materiais e subjetivas, que a oprimem. Em Ela sobre o silêncio, Helijane Rocha começa o solo presa por 33 cintos, dos pés à altura da boca. Debate-se no chão, rola e passa a se livrar de alguns para levantar-se e tentar andar com suas próprias pernas.

Esses primeiros movimentos são de desespero, de quem está cerceado em sua liberdade. Ela solta, primeiro, os braços, e tenta equilibrar-se, depois liberta a boca. A boca que come; que fala, grita ou cala; a boca que beija. Não é fácil. Exige força e equilíbrio da bailarina.

Depois ela consegue desatar as pernas e pés e aparece nua em movimento de emersão de quem estava a afoga-se. Os braços querem o voo, buscam o Sol. Mas custa ter um pouco de desenvoltura na vida e ela cai. Passa por movimentos aflitivos. A coreografia aponta para as limitações impostas ao feminino. E a potência para a libertação em movimentos criativos.

A face da falta é a coreografia apresentada por Jefferson Figueirêdo

A face da falta é a coreografia de Jefferson Figueirêdo, de 22 anos, que dança a saudade do mestre Nascimento do Passo. Ele exibe técnica e desenvoltura nos movimentos desconstrução da dança popular em seu corpo. O bailarino começou a carreira aos 10 anos, e mostra essa vivência em imagens de arquivo numa televisão ou músicas de um MP3. Mas há uma quebra quando ele tenta tornar o público cúmplice dessa experiência, ao distribuir fotos da infância e falar sobre sua vida.

Mesmo sabendo que é muito comum essa aproximação, essa ligação com a vida do artista, na dança contemporânea, penso que nesse caso, perde o impacto, com as conversas e a paradas para manipular os controles da TV.

Januária Finizola em Sobre mosaicos azuis

Na terceira coreografia parece que passou um furacão pelo espaço, com tantos pratos, xícaras e pires quebrados. Januária Finizola, 36 anos, apresenta movimentos para remeter à loucura em Sobre mosaicos azuis. A fragmentação sentida pela personagem esquizofrênica é transmitida em compassos que se quebram e subverte o ritmo.

Mas o solo também questiona até onde vai a loucura de cada um e num determinado momento, a bailarina encara o público, imita gestos de alguns espectadores e revela que “de perto ninguém é normal”, como já alardeou Caetano Veloso. Ela também brinda com o público antes de a taça cair. O trabalho foi inspirado no livro Todos os cachorros são azuis (editora 7 Letras, 2008), de Rodrigo Souza Leão.

As criações foram erguidas a partir do vocabulário coreográfico de Ivaldo Mendonça, que divide a direção artística do projeto com Arnaldo Siqueira. E as apresentações prosseguem neste e no próximo fim de semana.

SERVIÇO
O Solo do Outro
Quando: Sextas e sábados, às 20h, até o dia 17.
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Quanto: Ingressos: R$ 5 (preço único).
Informações: (81) 3355-3320.

Postado com as tags: , , , , , , , , , ,

Pernambucano Zé Barbosa é o Cristo de Nova Jerusalém 2012

Ator Zé Barbosa. Foto: Beatriz Braga

O personagem Jesus da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém será interpretado pelo ator Zé Barbosa, pernambucano de Limoeiro que já integra o elenco do megaespetáculo – ele defendeu o papel, como substituto. Seu amigo e colega de elenco Ricardo Mourão espalhou a boa nova no facebook.

Desde que a produção de Fazenda Nova fez mudanças radicais, com a saída de José Pimentel, já passaram pelo papel de Cristo em Nova Jerusalém Fábio Assunção, Marcelo Valente (pernambucano que ficou por 3 anos), Luciano Szafir, Eriberto Leão, Murilo Rosa, Carmo Dalla Vecchia, Thiago Lacerda. Além de Herson Capri (1999), como lembra Carlos Pinto.

E agora Zé Barbosa. Além de parabenizar o ator, conversei com Zé Barbosa sobre esse momento de alegria para sua carreira. “Eu sou stand-in desde 2009. Sei todas as marcas, textos, tudo que você imaginar. Tive a experiência de assumir o personagem, por um dia em 2010, quando Eriberto foi receber um prêmio da Globo. Naquele dia fiquei preocupado com a reação do público. Respirei e entrei. Lá havia 8.500 pessoas”, lembra Zé Barbosa. “Agora que vou assumir por uma temporada inteira. Não consigo definir com exatidão o que estou sentindo, mas é uma coisa muito boa”, comenta.

Ele faz 32 anos dia 29 de dezembro. E recebeu seu presente de Natal adiantado. “A Paixão de Cristo faz 45 anos e volta um pernambucano ao papel de Jesus. isso é um presente sem tamanho”.

A montagem é dirigida por Carlos Reis e Lúcio Lombardi. Reis interpretou Jesus por nove anos, de 1969 a 1977. E ambos participam do espetáculo: Reis como Herodes e Lombardi no papel do príncipe do templo.

Intérprete conhece bem o papel, pois já fez substituições.

– Finalmente chegou a vez de Zé Barbosa ficar com o papel principal em Nova Jerusalém?
Quanto a questão do personagem, eu tenho a certeza do ano de 2012. Sim. Segundo o diretor Carlos Reis, eu sou o Jesus 2012. Mas até agora essa é a única certeza que eu tenho.

– Você se sente preparado para a maratona?
Eu sou stand-in desde 2009. Sei todas as marcas, textos, tudo que você imaginar. Tive a experiência de assumir o personagem, por um dia em 2010, quando Eriberto foi receber um prêmio da Globo. Naquele dia fiquei preocupado com a reação do público. Respirei e entrei. Lá havia 8.500 pessoas. Agora que vou assumir por uma temporada inteira. Não consigo definir com exatidão o que estou sentindo, mas é uma coisa muito boa. Desde que fui chamado por Carlos Reis no final de 2008, ele falava que gostaria de um pernambucano no personagem. E disse que queria que eu fosse esse pernambucano.

– Você já interpretou o Cristo em outras produções, fora Nova Jerusalém?
Em 2008 eu tinha participado da Paixão do Monte da Fé que acontece em Paudalho. No ano de 2009 Já estava como stand-in em Nova Jerusalém.

– Como você encara as possíveis comparações com outros atores, principalmente os globais
Em relação às comparações, isso será inevitável, mas não é uma coisa que me preocupe. Vou colocar verdade e alma. Isso é o que eu quero passar com meu trabalho.

– O que você tem a dizer sobre esse papel?
Jesus Cristo pessoa, ser humano. Ele se fez carne e habitou entre nós. Revolucionário e pregador do amor e da paz. Interpretar esse homem que tem esta história, que teve a vida terrena que teve… Que morreu por amor e ressuscitou…e recontar essa história em Nova Jerusalém. É um sonho…

Zé Barbosa encarou multidão ao substituir Eriberto Leão

Postado com as tags: , , , , ,

Memórias de um corpo que dança

Tainá Barreto em Guarda sonhos. Foto: Rodrigo Moreira

É como uma poesia corporal. Em seu solo Guarda sonhos, a brasiliense Tainá Barreto dá a sua própria configuração para as manifestações populares, especificamente para o cavalo-marinho e o frevo. O contato com os brincantes da Zona da Mata Norte de Pernambuco impregnaram o corpo dessa bailarina que teve uma formação acadêmica – do clássico ao contemporâneo.

O espetáculo, apresentado na V Mostra Capiba de Teatro, é esse encontro com a cultura popular. Um encontro em que as duas partes trocam, respeitam os seus limites, crescem. Se não fosse assim, haveria o grande perigo de o espetáculo ser uma reprodução dos passos do cavalo-marinho, uma exibição de alguém que aprendeu os passos eletrizantes do frevo. Não. Tainá assume o seu olhar estrangeiro, mas se permite enveredar nesse universo para, a partir daí criar as suas próprias referências e desfiar suas impressões e memórias.

O corpo se modificou nesse processo. Há momentos de quebra, tensão, mas também de extremo lirismo e encantamento. O espetáculo se constrói nas zonas de limite entre a dança e o teatro, embora a dança ocupe um espaço muito maior na cena. A partir de símbolos simples, como uma série de miniaturas de sombrinhas de frevo, ou uma saia cheia de retalhos, Tainá ergue belas imagens aos olhos do público. É assim, por exemplo, quando ela demarca o espaço em que está dançando com uma areia muito fininha ou quando joga em si mesma uma chuva de papéis coloridos.

Nesse sentido, música e iluminação propõem um ambiente lúdico, onírico, como deixa entrever o título do espetáculo. Desde o início, quando os músculos da bailarina são vistos em movimentos e ângulos incomuns, aos pouquinhos, como algo que vai tomando forma devagar. O desenho da iluminação (e é mesmo como uma pintura) é de Lineu Gabriel; e quem assina a direção musical é Helder Vasconcelos. A interferência de Helder, músico, ator, dançarino, que tem uma relação muito próxima com as manifestações populares, vai além da criação da direção e da criação da trilha (que também é de Johann Brehmer). Ele foi um dos “provocadores cênicos” do trabalho da bailarina, ao lado de Carolina Laranjeira e Lineu Gabriel.

Se não há incorporações apenas, o que Tainá viveu quando do contato com essas manifestações populares já se embrenharam em sua pele, em sua musculatura tão visivelmente marcada pela dança contemporânea. São referências que a bailarina agora carrega e que certamente ajudarão a delimitar novos passos.

A direção musical do solo é de Helder Vasconcelos

Postado com as tags: , , , , , , , , ,