Arquivo da categoria: Agenda

Parábolas sobre o sentido da vida

Montagem de Nossa Cidade , com a turma do Curso de Interpretação para Teatro do Sesc Santo Amaro

Você sabia, pergunta um rapazinho, que a luz dessas estrelas demorou milhõesde anos para chegar até nós? Vemos o cintilar de mundos que, provavelmente, estão mortos há muito tempo… 

Talvez seja o contrário, rebate a menina. Talvez nós é que estejamos mortos para eles…

Nossa Cidade é uma peça que amplia sentimentos de coisas miúdas, de episódios cotidianos. do norte-americano Thornton Wilder (1897-1975), que retrata o dia-a-dia de uma pacata cidade, Grover’s Corners, no início do século 20. O foco vai para o cotidiano de duas famílias locais, os Gibbs e os Webb. Escrito em 1938, o texto de Wilder é uma busca de superação das contradições do drama moderno.

A montagem de Nossa Cidade, com elenco da turma de conclusão do Curso de Interpretação de Teatro (CIT) do SESC Santo Amaro, faz as últimas apresentações neste fim de semana. Hoje e amanhã, às 19h, no Teatro Marco Camarotti. São 16 atores no elenco.

Antunes Filho assinou uma montagem que rasga o nervo sobre a transitoriedade da vida recentemente. O Teatro de Amadores de Pernambuco – TAP encenou o mesmo texto em 1949.

Com o texto Nossa Cidade, o dramaturgo Thornton Wilder ganhou um dos três prêmios Pulitzer

Com o texto Nossa Cidade, o dramaturgo Thornton Wilder ganhou um dos três prêmios Pulitzer

A direção de Malú Bazán, trabalha com diversos gêneros teatrais, do épico ao drama. O próprio enredo de Thornton Wilder propõe um jogo metateatral, a partir da atuação do Diretor de Cena, que relata como tudo irá acontecer, expõe a cidade e comenta como vive a população.

Homens e mulheres da classe média norte-americana conservadora e protestante levam suas vidas. Um médico, um leiteiro, o organista da igreja, o professor, o regente do coral, a professora, o entregador de jornais, o guarda, uma vizinha. Criaturas do passado e do presente. As famílias casam seus filhos. Eles vivem felizes até a separação pela morte de um deles.

A peça tem três atos com temáticas diferentes: A Vida Diária, Amor e Casamento e Morte. A encenação  utiliza alguns objetos de como escada, cadeiras e mesas. No elenco estão Analice Croccia, Ane Lima, Caíque Ferraz, Enny Mara, Isabelle Barros, Ludmila Pessoa, Luís Bringel, Marcos Medeiros, Micheli Arantes, Natali Assunção, Nataly Sousa, Paulo Castelo Branco, Pollyanna Cabral, Raphael Bernardo, Romildo Júnior e Wilamys Rosendo.

Ficha técnica
Espetáculo Nossa Cidade
Texto: Thornton Wilder
Direção: Malú Bazán
Elenco: Analice Croccia, Ane Lima, Caíque Ferraz, Enny Mara, Isabelle Barros, Ludmila Pessoa, Luís Bringel, Marcos Medeiros, Micheli Arantes, Natali Assunção, Nataly Sousa, Paulo Castelo Branco, Pollyanna Cabral, Raphael Bernardo, Romildo Júnior e Wilamys Rosendo

Serviço
Quando: Sábados e Domingos, às 19h (última semana)
Quanto: Grátis
Onde: Teatro Marco Camarotti, Sesc Santo Amaro do Recife (Rua Marquês do Pombal, 455, Santo Amaro
Fone: (81) 3216-1609

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Arte da manipulação e da persuasão

Normando Roberto Santos (Padre Timóteo) em A Mandrágora

Normando Roberto Santos (Padre Timóteo) em A Mandrágora. Foto: Roberto Ramos

Astucioso, pérfido, ardiloso, velhaco, de má-fé são “qualidades” de quem é maquiavélico. E só quem já foi passado para trás por pessoas com esses requisitos podem saber a real dimensão do maquiavelismo. É sinistro!!! Há quem admire como brilho de inteligência e seus adeptos estão espalhados por todas as áreas. Na política e no empresariado eles se multiplicam. Na peça A Mandrágora, escrita por Nicolau Maquiavel, as artimanhas são expostas como um jogo. A adaptação de Guilherme Vasconcelos transportou o enredo para o Sertão nordestino, com seus coronéis obtusos, mulheres aparentemente de moral ilibada, mães interesseiras e figuras ardilosas que manipulam situações.

O espetáculo faz duas apresentações no Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu, em Boa Viagem) hoje e no dia 29 de agosto, às 20h.  A montagem conta com incentivo do Governo do Estado por meio do Funcultura.

A Mandrágora, dirigida por Marcondes Lima, ganha as cores-clichês do Nordeste, com as flores das chitas do cenário, por exemplo. A trama está centrada no desejo sexual de Calímaco, um paraibano radicado no Recife, por Lucrécia, esposa de moral impoluta do Coronel Nício Calfúcio. O casal tem uma dificuldade. Não consegue ter filhos. Parênteses: Os velhacos atuam sempre na área da fragilidade dos outros. Para resolver a sua cobiça e fingir que está solucionando o problema do casal, Calímaco, se passa por médico e receita um infalível e mortal remédio à base de Mandrágora (planta afrodisíaca).

A arte de enganar e a degradação dos valores morais ganham um tom de comicidade da “mangação da casca de banana”, da “sambada sobre o cadáver”, do “aplauso para os corruptos” que na rebatida com a realidade brasileira produz irritação. Tudo é meio over no espetáculo. Exagero nas interpretações, nos figurinos, no cenário, no sotaque. Tudo isso, talvez, para destacar o ridículo de toda situação. Há quem goste dessas maquinações.

Serviço
Espetáculo A Mandrágora
Quando: 22 a 29 de agosto de 2015, às 20h
Onde: Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu)
Av. Boa Viagem, s/n , bairro de Boa Viagem. (81) 3355-9821
Ingressos: R$ 20,00 (meia: R$ 10,00)

Ficha técnica
Texto: Nicolau Maquiavel
Adaptação: Guilherme Vasconcelos
Direção: Marcondes Lima
Assistente de Direção: Taveira Junior
Figurinos, Cenários e Adereços: Marcondes Lima
Assessoria de Imprensa: Gianfrancesco Mello
Programação Visual: Cláudio Lira
Plano de Iluminação: Játhiles Miranda
Execução de Iluminação: Játhiles Miranda
Pesquisa Musical: Samuel Lira
Execução de Sonoplastia: Ricardo Correia
Plano e Execução de Maquiagem: Marcondes Lima
Produção Executiva: Taveira Junior
Assistente de Produção: Thalita Gadêlha.
Elenco: Flávio Andrade (Calímaco), Mário Antônio Miranda (Coronel Nício Calfúcio), Nínive Caldas (Lucrécia), Diógenes de Lima (Ligúrio), Normando Roberto Santos (Padre Timóteo), Auricéia Fraga (Dona Sóstrata), Múcio Eduardo (Siro) e Thalita Gadêlha (Mulher).
Recomendação etária: 14 anos.
Duração: 70 minutos.

Postado com as tags: , , , , , , , ,

Teatro pernambucano de fora do FIG

Plateia do espetáculo Gonzagão, a lenda, que lotou o Palco Pop/Forró. Foto: Costa Neto

logo garanhuns

O Festival de Inverno de Garanhuns (FIG) é gigantesco, com vários polos nas mais diversas linguagens, da música às artes visuais, do cinema à cultura popular. Passando por patrimônio, literatura, fotografia e artes cênicas. Durante dez dias do mês de julho, esse evento consolidado, e que já conta um quarto de século, atrai gente de todo o Brasil interessada na programação artística gratuita, na gastronomia, nas iniciativas educativas e no friozinho que confere um charme especial a essa cidade do Agreste pernambucano.

Com tantos predicados e um público faminto por consumir arte e cultura, a programação da 25ª edição FIG surpreendeu, frustrou e deixou indignada a classe teatral do Recife e de outras cidades do estado: nenhum espetáculo de teatro adulto de Pernambuco foi selecionado para participar do evento. A única peça de teatro adulto de Pernambuco que entrou nessa grade foi Frei Molambo, de Marcelo Francisco, mas na cota de Garanhuns (do mesmo modo como acontece com a música na Praça Dominguinhos, que sempre traz uma atração da cidade).

Já na categoria para infância e juventude, as três peças que compõem a programação são pernambucanas: Era Uma Vez Um Rio, da Cênicas Cia de Repertório; Haru – A Primavera do Aprendiz, de Carla Souza Navarro; e Salada Mista, da Cia 2 em Cena. Cafuringa, de José Alexandre Menezes de Andrade, também de Pernambuco, foi para a grade de teatro de rua.

Teatro Luiz Souto Dourado, que hospeda as peças adultas

Teatro Luiz Souto Dourado, que hospeda as peças adultas. Foto: Normando Siqueira

Teatro adulto – A programação de teatro adulto do FIG este ano é composta por cinco espetáculos do Rio de Janeiro (Gonzagão, A Lenda, da Companhia A Barca dos Corações Partidos; Oleanna, de Pasodarte Eventos; As Bondosas, da Cia. SOS de Teatro Investigativo; O Pastor, do Cine Teatro Produções e No Buraco, Etc e Tal Produção Cultural), um da Paraíba (Quincas, do Grupo de Teatro Osfodidário,), um do Rio Grande do Norte (Jacy, Grupo Carmin) um do Rio Grande do Sul (GPS Gaza, Cia. de Solos e Bem Acompanhados) e o já citado Frei Molambo, de Pernambuco.

A questão é delicada: não se pode pensar em barrar os bons espetáculo nacionais. E, este ano, as peças até agora tem mostrado ótima qualidade, a exemplo de Gonzagão, A Lenda; Jacy; Quincas e Oleanna. Mas o questionamento também é inevitável. Se o FIG tem todo esse destaque – até o governador faz questão de dizer que o festival valoriza a cultura pernambucana -, como não incluir os pernambucanos?! Os grupos teatrais do estado se sentiram desvalorizados. Com a dificuldade de circular pelo estado, é também uma oportunidade perdida de ver produções ganharem outros públicos.

Convocatória – A seleção de propostas para o 25º Festival de Inverno de Garanhuns – FIG 2015 foi feita através de uma Convocatória Nacional. Esse edital previa a composição da programação cultural com “oficinas, shows, cortejos, performances, intervenções, recitais, vivências criativas, espetáculos, palestras, debates, exposições, mostras, encontros, ações de patrimônio cultural e outras atividades artístico-culturais”.

As propostas inscritas foram avaliadas em duas etapas: a primeira – Análise Preliminar (eliminatória), realizada por equipes técnicas da Secult-PE/Fundarpe; a segunda etapa – Análise de Mérito Artístico-Cultural (classificatória e eliminatória), consiste na avaliação do conteúdo das propostas habilitadas. A Comissão de Análise de Mérito de atividades artístico-culturais de fruição de teatro foi formada por Jorge Clésio e Wellington Júnior, indicados pela Secult-Pe; e Carlos Lira e Ronaldo Lopes Brissant, representantes da sociedade civil.

As 87 propostas aprovadas na Análise de Mérito Artístico-Cultural estão listadas por ordem alfabética. O arquivo está disponível no site Cultura.pe. A tabela inclui tanto espetáculos adultos quanto infantis.

Haru é uma das três peças da grade infantil. Foto: Costa Neto Secult-PE

Haru é uma das três peças da grade infantil. Foto: Costa Neto Secult-PE

Das propostas para teatro adulto do Recife ou de outras cidades de Pernambuco, nenhuma entrou na programação. Identificamos como pernambucanos ao menos 13 espetáculos (a lista não diz a procedência de cada obra): Abraço – Nunca Estaremos Sós, de Lívia Rodrigues Lins; Auto da Compadecida, do Teatro Experimental de Arte – Tea; A Mandrágora, de Galharufas Produções (Taveira Belo LTDA); A Visita, de José Severino Florêncio de Souza; A Receita, d’O Poste Soluções Limitadas; Borderline, de José Barbosa Neto; Em Nome do Pai, da Rec Produtores Associados; Madleia + Ou – Doida, de Henrique Celibi; Matheus e Catirina – 25 Anos de Munganga, de José Brito do Nascimento; O Pranto De Maria Parda, de José Gilberto Bezerra De Brito; Obscena, Um Encontro Com Hilda Hilst, de Fabiana Pirro; Senhora de Engenho Entre a Cruz a Torá, de Patrícia Assunção de Souza e Tapioca, de Bóris Trindade Júnior.

Debate – O questionamento dos produtores é, justamente, se nenhuma dessas encenações mereceria estar no FIG. O produtor Taveira Júnior, de A Mandrágora (Galharufas Produções) considerou a programação do Festival muito ruim, porque contemplou tão somente espetáculos de fora de Pernambuco. “Achei sem identidade com o povo pernambucano que é quem, na verdade, paga o Festival. Minha surpresa maior não foi não constar na lista, e sim saber que uns cem números de espetáculos locais e de qualidade não estavam presentes na mesma, sob a alegação de que não houve pontuação mínima”, argumentou Taveira.

“Acho que não fica claro qual o critério para essas ‘contratações’”, pontua o ator José Barbosa Neto, de Borderline. Também com um sentimento de frustração, Barbosa Neto diz que um dos motivos de ter se mudado para o Recife, além da pesquisa de um novo espetáculo, foi constatar o quanto o pernambucano consome cultura.

Duda Martins e Lívia  Lins, que atuam e dirigem Abraço, produziram musical com dinheiro do próprio bolso. Foto: Fernanda Acioly/ Divulgação

Duda Martins e Lívia Lins produziram musical com dinheiro do próprio bolso. Foto: Fernanda Acioly

As duas atrizes, diretoras e produtoras de Abraço – nunca estaremos sós, Lívia Rodrigues Lins e Duda Martins, são mais moderadas – consideram a programação boa: “diversificada em suas linguagens, traz grandes e ótimos espetáculos, como é o caso de Gonzagão – A lenda, mas deu pouco espaço para as produções locais”, ponderam.

Gilberto Brito, ator de O Pranto de Maria Parda, é mais enfático e se diz não convencido com as escolhas: “parece arrumadinho”. Outro que também discorda do resultado é o ator, dramaturgo e produtor Henrique Celibi, de Madleia + ou – doida. “O tempo passa e a política cultural dos festivais que acontecem aqui é de exclusão do teatro local”, avalia.

Fabiana Pirro, atriz de Obscena

Fabiana Pirro, atriz de Obscena, Um Encontro com Hilda Hilst

Sem desmerecer outros trabalhos, a atriz Fabiana Pirro insiste que é preciso que haja espaço para a produção do estado no FIG. “Estou com uma peça novinha – Obscena, Um Encontro Com Hilda Hilst-, pronta para ser mostrada. E que foi montada sem nenhum apoio do governo ou da prefeitura”. Fabiana lembra que a grade de música contempla os locais e acredita que a de teatro deveria fazer o mesmo. “Sem bairrismo de ser tudo de Pernambuco. Já vi coisas lindas de fora no FIG como o Galpão, Denise Stoklos, mas poxa, vamos botar para trabalhar os da casa também, a gente precisa pagar conta, a gente precisa continuar nossa atividade, porque a gente faz toda a produção para ir pro palco”.

A produção de Em nome do pai (Rec Produtores Associados) atendeu aos critérios exigidos pelo edital, passou por todas as etapas, mas não houve acordo quanto à questão financeira. “Era necessário que o valor colocado (exigência do edital), fosse comprovado em vendas anteriores e como nosso espetáculo ainda não possui este currículo, pois estreou no final de abril e fez apenas uma temporada, não conseguimos uma comprovação de valor que correspondesse à apresentação mais as despesas”, explica a diretora Cira Ramos.

A proposta inicial do grupo foi de R$ 12 mil, porque a produção calculou duas diárias para toda a equipe e todas as despesas (impostos, cachês, translado, transporte de cenário, hospedagem, alimentação e outros. “Foi negociado para baixarmos para R$ 9 mil. Mas as comprovações que conseguimos, não chegaria a este valor”, expõe Cira. Em nome do pai então declinou do convite, já que, segundo os cálculos, o grupo teria prejuízo.

Pela lei de responsabilidade fiscal, todos os espetáculos precisam cumprir as mesmas regras. Mas aí entra a lógica do mercado. Espetáculos, shows, com gente mais famosa e com produtores mais articulados, conseguem maiores cachês. Ao exigir essas comprovações de apresentações feitas, as montagens mais antigas e as que tem mais poder de persuasão ganham espaço.

Cira Ramos, diretora do espetáculo Em nome do pai

Cira Ramos, diretora do espetáculo Em nome do pai. Foto: José Barbosa

Cira Ramos entende que a exigência de comprovação de cachê é excludente para as montagens locais. “Os grandes espetáculos de fora conseguem vender para o FIG com valores reais aos praticados em outras realidades”, deduz. A diretora faz questão de deixar registrado que os funcionários da Fundarpe foram cuidadosos e fizeram esforço para tentar manter o espetáculo na programação. “Enquanto não houver uma mudança neste formato, a nossa produção local continuará excluída deste Festival. Ou então a Fundarpe arque com as despesas das produções pernambucanas, para que o cachê de apresentação fique direcionado para pagamentos dos profissionais. Não é possível embutirmos todas as despesas dentro de um cachê absurdamente baixo! Principalmente sabendo que só recebemos com três ou mais meses depois de finalizado o FIG”, complementa.

O produtor Taveira Júnior sugere um percentual mínimo para espetáculos pernambucanos no FIG. Já José Barbosa Neto propõe a possibilidade de criar mostras, como ocorre em alguns festivais. “Isso poderia equilibrar e promover mais o acesso e a fruição de nossas produções”, acredita.

Lívia Rodrigues e Duda Martins atestam que não são contra a participação de grupos de fora. “Isso faz parte de um festival do porte do FIG e é bom para o intercâmbio cultural. No entanto, a prioridade deve ser das produções locais, pelos motivos óbvios de valorização da cultura local”. Para a dupla de Abraço a questão não é “incluir os espetáculos pernambucanos”. É sim “incluir alguns de fora”. “A sugestão é implantar uma cota para os nacionais e “incentivar” a comissão julgadora a conhecer mais a fundo o que está sendo produzido no estado, o que acreditamos que aconteça muito bem em outros campos artísticos, como a música”.

As atrizes  Agrinez Melo, Naná Sodré e o diretor Samuel Santos, do Grupo O Poste Soluções Luminosas

As atrizes Agrinez Melo, Naná Sodré e o diretor Samuel Santos, do Grupo O Poste Soluções Luminosas

Para o Grupo O Poste Soluções Luminosas, cujo núcleo permanente é formado pelo diretor Samuel Santos e pelas atrizes Agrinez Melo e Naná Sodré, “Se a Fundarpe, toda vez e a cada ano, vem diminuindo os espaços de escoamentos da cena local, ela está trabalhando contra o que ela mesma se destina. É dar um tiro no próprio pé. É preciso, de fato, ter esse objetivo como meta. Já ouvimos dizer que o FIG não é um festival local e sim nacional e, como nacional, a prioridade são os grupos e as atrações de fora. Mas aqui não estamos falando em termos de conceito de festival, mas sim de diretrizes da Secretaria e da Fundação. Estamos falando da Portaria Fundarpe nº 05, de 24/08/2009. Estamos falando de arte e artistas locais e seus principais campos de escoamentos”, atestam. O grupo explicita o Artigo 2º da referida Portaria: “É dever da Fundarpe preservar seu patrimônio histórico, cadastrar os seus bens culturais materiais e imateriais, apoiar e incentivar a valorização, a difusão e a fruição das suas manifestações, pluralidade da produção cultural e impulsionar a sua sustentabilidade econômica”.

“Nós, enquanto grupo de teatro, abrimos um espaço (que fica ao lado da Fundarpe, inclusive) sem nenhum apoio institucional. Como não há apoio, como sobreviver? Como manter esses novos espaços que vem fomentando Pernambuco? Como? Levando as produções locais para os festivais, mostras, municípios de Pernambuco. Criando ações fora edital do Funcultura. Aí é que entra o governamental, o pensamento do estado antenado com a arte e os artistas locais e suas prioridades”, complementam os artistas do O Poste. Eles também questionam o espaço físico disponibilizado para as apresentações. “Nem todas as peças se adequam naquele palco (Teatro Luiz Souto Dourado). Primeiro por que ele não oferece uma estrutura, está obsoleto, tem uma péssima acústica e torna qualquer peça distante do público. Mas por que não procurar outros espaços para a prática do teatro além do teatro da estação? Casarões, mercados, galpões etc. Inclusive mandamos proposta de fazer A Receita num espaço alternativo. Caso não fosse possível faríamos no palco da estação. Por que não pensar noutros espaços que não só o teatro?”

De acordo com o edital, as produções são responsáveis por todos os custos de transporte, hospedagem e alimentação; além disso, os produtores denunciam ainda a demora nos pagamentos dos cachês.

Entrevista // Jorge Clésio – Coordenador de Artes Cênicas da Fundarpe

Jorge Clésio é coordenador de Artes Cênicas da Fundarpe

Jorge Clésio é coordenador de Artes Cênicas da Fundarpe

Quantos espetáculos se inscreveram?
Das 140 propostas inscritas, 124 foram selecionadas para a análise de Mérito Artístico-Cultural, dentre elas, 87 foram habilitadas e 53 desabilitadas.

Essa convocatória foi divulgada no Brasil inteiro. De que forma? Jornais? Sindicatos de artistas?
A convocatória teve divulgação nacional, por meio do Portal da Secretaria de Cultura do Estado|Fundarpe: cultura.pe.gov.br, além do mailling de artes cênicas, inclusive para os inscritos nas convocatórias das edições anteriores do FIG.

Os pareceristas também se inscreveram, não é mesmo?
Sim, por meio de convocatória estadual para seleção de profissionais do 25º Festival de Inverno de Garanhuns – 2015. Enfatizar que essa convocatória foi aberta também para todos os segmentos artístico-culturais.

Qual a comissão que julgou o mérito artístico dos projetos, além de você como representante da Fundarpe?
A Comissão foi formada por profissionais de notório saber em suas áreas de atuação, José Carlos de Oliveira Lira e Ronaldo Lopes Brissant, selecionados pela convocatória estadual para seleção de profissionais do 25º festival de Inverno de Garanhuns – 2015, e José Wellington Fernandes Júnior, indicado pela Secult/Fundarpe, conforme previsto na convocatória nacional.

Para chegar a esse resultado, a comissão avaliou os projetos mediante o quê? Projetos em papel? Vídeos? Ou espetáculos presenciais?
As propostas foram analisadas em meio físico, mediante as informações contidas no Anexo XIII – do Formulário de Teatro FIG 2015, e do DVD contendo a gravação do espetáculo na íntegra, segundo critérios constantes na Convocatória:
a) Qualidade artística/cultural da atividade;
b) Currículo do artista, grupo, profissional ou da equipe principal;
c) Relevância da proposta/originalidade/singularidade;
d) Histórico da atividade.

Imagino que o espetáculo Gonzagão, A Lenda, da Companhia A Barca dos Corações Partidos (RJ), tenha sido convidado para abertura. Gosto muito do espetáculo. Mas gostaria que você expusesse as razões dessa escolha, por quem foi feita.
Trata-se de um espetáculo muito bem recebido pela crítica e pelo público nacional. Achamos muito pertinente que Gonzagão – A lenda, se apresentasse nessa edição do FIG 2015, no Palco Pop/Forró, o que possibilitou o acesso a um público bem maior, considerando a capacidade do Teatro Luiz Souto Dourado, de 600 lugares! Além da temática, emblemática para a cultura brasileira, e direção do consagrado pernambucano João Falcão, a disponibilidade de agenda do grupo para abertura das Artes Cênicas no FIG 2015. Além disso, o espetáculo dialoga com a cultura da região, fortalece a identidade a partir de uma narrativa de um personagem mítico. Esse foi o único espetáculo de Artes Cênicas, convidado para o FIG 2015.

Podemos citar uma dúzia de espetáculos pernambucanos que se inscreveram, passaram pela análise técnica e não entraram na lista final do festival. Você não acha estranho um festival do porte do de Garanhuns não acolher essa produção?
Seguimos criteriosamente a convocatória pública e de abrangência nacional. Nesse caso, todas as 140 propostas inscritas foram submetidas aos mesmos critérios de análise. As propostas habilitadas na Análise de Mérito Artístico-Cultural, mesmo as bem pontuadas, não têm necessariamente sua participação assegurada na programação do 25º FIG, conforme o item 7 da Convocatória. Nesse sentido, vale observar que a programação do Teatro Para Infância e Juventude está 100% pernambucana e isso se deu pelos mesmos critérios, já citados e utilizados pela Comissão de Análise de Mérito. Diante do cardápio das 87 propostas habilitadas pela Comissão, foi possível incluir na Programação de Teatro Adulto 7 espetáculos; 2 de Teatro de Rua; e 3 espetáculos Para Infância e Juventude. Esse trabalho foi feito a partir das seguintes variáveis: respeito à hierarquização da pontuação; disponibilidade de agenda do grupo para o período do FIG 2015; adequação ao espaço e, ainda, a oportunidade do espetáculo em se apresentar com recursos próprios, oriundos de prêmios/fomentos nacionais, como o Myriam Muniz e/ou Lei Rouanet. O processo de composição da programação se deu à luz da transparência, de maneira democrática, o que representa uma conquista da sociedade civil.

Essa produção citada pernambucana é realmente inferior ao que foi escolhido?
Essa afirmativa não reflete, em absoluto, nosso pensamento sobre a produção teatral no estado de Pernambuco, nem de nenhum outro estado brasileiro.

Insisto nisso porque os artistas da área ficaram bem indignados e talvez fosse legal dar uma explicação.
Concordamos com você e sabemos da importância do retorno que precisamos dar aos proponentes sobre o processo e resultado da convocatória. Estamos estudando uma forma mais ágil, por meio da internet, ou carta a ser endereçada aos artistas, além do atendimento usual que damos pelo e-mail cenicas.fundarpe@gmail.com, pelo telefone 81 3184.3077 e, de forma presencial, na Coordenadoria de Artes Cênicas.

Na sua opinião, como está a programação de artes cênicas deste ano?
Consideramos todos os espetáculos que compõem a Programação de Artes Cênicas – Circo, Dança e Teatro – do FIG 2015, com excelente qualidade artística e técnica. Convidamos o público a conferir a diversidade de temas, estilos, conceitos e visões presentes nesse recorte de 41 espetáculos da cena contemporânea brasileira, oriundos de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraíba, Minas Gerais e São Paulo.

Postado com as tags: , ,

A brincante-errante joga com memórias e subjetividades

Iara Sales em PEBA. Foto: Renata Pires

Iara Sales em PEBA. Foto: Renata Pires

Andanças, cicatrizes e memórias compartilhadas da bailarina e performer Iara Sales e do músico-performer Tonlin Cheng e Sérgio Andrade (RJ/BA), dramaturgista e diretor da obra, são inspirações do espetáculo Peba. A encenação começa sua temporada itinerante com duas apresentações, hoje e amanhã, às 18h, na Galeria Capibaribe, no Centro de Arte e Comunicação. As sessões encerram a programação do projeto Solo no CAC, da Universidade Federal de Pernambuco. A temporada soma 12 exibições, contando com a realização do seminário Fuleiragens na fronteira, marcado para setembro, também na UFPE. Também estão agendadas duas apresentações nos dias 26 e 28 de agosto, no Daruê Malungo, durante a 25ª Semana Afro.

Uma coisa “peba”, nas gírias entre Pernambuco e Bahia, é algo precário ou de baixa qualidade, como um produto de fabricação ruim e barata, mas que resolve provisoriamente uma demanda emergente. Ao adotar esse nome, a produção de Peba faz emergir uma fuleiragem boa, uma proposta entre dança, performance e arquitetura sonora montadas a partir de amarrações, gambiarras, reaproveitamento de caixas de som e outros objetos rearranjáveis em cada espaço.

O espetáculo transita entre corporeidade, folguedos e festas de rua dos estados de Pernambuco (PE) e Bahia (BA). A explosão de um botijão de gás está cravada nas cicatrizes desenhadas na pele de Iara Sales, que redirecionou a pesquisa. Peba fala de trânsito e transitoriedade de fronteiras.

“Nesse ir e vir fui intensificando meu olhar sobre o corpo brincante, suas festas, seus modos de mover-se e organizar-se. Percebi relações entre a capoeira e o frevo, samba de roda e cavalo-marinho, o trio elétrico baiano e os blocos de rua pernambucanos, entre outros pontos de convergências e singularidades que formam as identidades locais. Foi nesse entremanifestações culturais que passei a mergulhar nos elementos do corpo festivo, me entendendo como uma brincante-errante que joga com gestualidades, territórios, memórias e subjetividades. Foi no trânsito entre danças, cidades e estudos que vivi experiências impulsionadoras dessa pesquisa, na busca por problematizar referenciais sobre as chamadas Danças Populares”, conta Iara Sales.

FICHA TÉCNICA:
Espetáculo Peba
Concepção e performance: Iara Sales
Trilha, arquitetura sonora e performance: Tonlin Cheng
Citações musicais: Assanhado, de Ramiro Musotto; Lavagem de São Bartolomeu, da Orquestra Popular de Maragogipe.
Dramaturgia: Iara Sales e Sérgio Andrade
Direção Artística: Sérgio Andrade
Assessoria artística e preparação corporal: Gabriela Santana
Gambiarras, instalações e objetos cênicos: Tonlin Cheng
Figurino: Iara Sales e Maria Agrelli
Dramaturgista ao longo do projeto PEBA: transmutações
do corpo brincante entre Pernambuco e Bahia: Sérgio Andrade
Duração: 40 min
Classificação: Livre

Postado com as tags: , , , ,

Glauber fala para Jomard e Arraes

Atores Júnior Aguiar e Márcio Fecher incendiados pela obra, e vida, de Glauber Rocha. Foto: Divulgação

Atores Júnior Aguiar e Márcio Fecher incendiados pela obra, e vida, de Glauber Rocha. Foto: Divulgação

O espetáculo h(EU)stória – o tempo em transe chega à quarta temporada. São dez apresentações no Teatro Arraial Ariano Suassuna, às sextas e sábados, começando amanhã. A partir das cartas escritas pelo cineasta baiano Glauber Rocha para o poeta e educador Jomard Muniz de Britto e o ex-governador Miguel Arraes, a montagem junta vozes e “eus” que como um caleidoscópio projeta tantos “Glauberes” possíveis. E com esse discurso incendiário traça o retrato de um Brasil, ainda em busca da democracia verdadeira e libertária.

No palco, os atores Júnior Aguiar e Márcio Fecher discorrem sobre utopias e desilusões; incorporam o antigo desejo de transformar o mundo num lugar melhor para viver e falam daquilo que nos oprime ou confisca a liberdade.

A encenação recebeu seis indicações ao prêmio APACEPE (espetáculo, diretor, ator (Júnior Aguiar e Márcio Fecher), trilha sonora e iluminação) 20º Festival Internacional das Artes Cênicas de Pernambuco – Janeiro de Grandes Espetáculos. Levou dois troféus, de melhor espetáculo e trilha sonora.

h(EU)stória – o tempo em transe faz parte do projeto da Trilogia Vermelha em que participam os atores Júnior Aguiar, Márcio Fecher e Daniel Barros. Os outros dois espetáculos pa(IDEIA) – pedagogia da libertação (sobre Paulo Freire) tem estreia agendada para setembro e pro(FÉ)ta – o bispo do povo (sobre D. Helder Câmara), tem previsão para 2016.

SERVIÇO
h(EU)stória – o tempo em transe – 4º temporada.
Onde: Teatro Arraial Ariano Suassuna (Rua da Aurora – Boa Vista)
Quando: Sexta e Sábado, 20h, de 22 de maio a 20 de junho
Ingressos: R$ -30,00 (inteira) e R$ – 15,00 (meia)
Informações: 8588.1388 (Aguiar) ou 8493.1650 (Fecher)

Postado com as tags: , ,