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A arte de abrir portas no coração do Recife
Crítica: Baile do Menino Deus
Por Ivana Moura

Um quadro que mescla inspirações sagradas e profanas na mesma cena. Maria, José e o Menino; dois Mateus, o Boi e seus dançantes. Foto: Hans Manteuffel

Os Mateus Arilson Lopes e Sóstenes Vidal. Foto: Paulinho Filizola / Divulgação

Assistir ao Baile é uma experiência altamente recomendável. Na imagem Zabilin e Lucas dos Prazeres. Foto: Hans Manteuffel

No roteiro cultural de qualquer brasileiro, o Baile do Menino Deus, apresentado no Marco Zero, no Recife, impõe-se como experiência fundamental. Este espetáculo natalino constitui um daqueles momentos raros que marcam para sempre nossa percepção da cultura brasileira. Esta celebração deveria estar na lista obrigatória de qualquer pessoa que deseja decifrar a alma nordestina e a genialidade da nossa cultura popular.

Com concepção do espetáculo e direção geral de Ronaldo Correia de Brito, texto original e letras de Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima, e música de Antônio Madureira, esta criação construída ao longo de mais de quatro décadas continua a conquistar novos espectadores e emocionar.

E o impacto desse espetáculo se revela em cada história individual. Ir uma vez é encantar-se; voltar todo ano é garantir uma dose anual de pura alegria. A garota Ana Júlia, de 10 anos, foi pela primeira vez ao Baile, mas já conhecia todas as músicas e estava ansiosa pelo quadro do Jaraguá. Sua avó, assídua frequentadora há 15 anos, não esconde a satisfação de estar com a neta. Moradora de Águas Compridas, ela só neste ano conseguiu levar a menina – depois de tentativas anteriores que encontraram obstáculos, finalmente pôde compartilhar essa tradição que passa de geração em geração, criando vínculos através da arte.

Uma das características mais admiráveis do Baile do Menino Deus é essa capacidade de se reinventar mantendo-se fiel à essência. Todo ano traz novidades: figurinos repensados, novos atores e bailarinos que se integram ao elenco experiente, criando camadas de frescor sobre uma base sólida construída ao longo de 42 anos de existência e 22 edições no Marco Zero. O espetáculo mantém sua força artística com um elenco tarimbado. O talento dos Mateus engrandece no palco e no primeiro dia da temporada Sóstenes Vidal e Arilson Lopes esbanjaram vivacidade, talento e energia – fizeram gracejo até com a chuva que interrompeu o espetáculo, realizado ao ar livre e a céu aberto. Eles se revezam com Daniel Barros e o novo integrante Djaelton Quirino, garantindo diferentes nuances interpretativas ao longo das três apresentações.

Maestro Spok e Joyce Alane. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

Silvério Pessoa, brilho de veterano. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

A prática de convidar artistas consagrados da música pernambucana se renova com Joyce Alane, cantora e compositora do gênero MPB pop em plena ascensão, finalista do Grammy Latino 2025 e indicada ao Prêmio Multishow. A cantora interpreta três músicas do repertório da peça – Beija-Flor e Borboleta, Cigana e Baile do Menino Deus.

Em sua segunda participação nessa brincadeira de natal única, Maestro Spok consolida sua parceria com o espetáculo através de aparições que exploram sua versatilidade artística. Na finalização de Zabilim, ele presta homenagem à Lia de Itamaracá, rainha do coco que participou do Baile no ano passado, entoando o bordão “ai mamãe”, ressaltando esse gesto de reverência.

A riqueza sonora do Baile do Menino Deus é alicerçada por um conjunto de 11 instrumentistas especializados, que formam a orquestra base do espetáculo. Nomes como Karol Maciel no acordeon, Rafael Marques no bandolim e cavaco, João Pimenta no contrabaixo, Raquel Paz na viola e Aristide Rosa no violão e viola nordestina, além dos percussionistas Emerson Coelho, Jerimum de Olinda e José Emerson, e os sopros de Alexandre Rodrigues (Copinha) e Jonatas Gomes no trompete, constroem a tapeçaria musical. 

Por trás da magia dos 70 artistas que se apresentam no palco, há um universo de dedicação e rigor. Com a produção coordenada por Carla Valença e a Relicário Produções, são trezentos profissionais envolvidos no total, a maioria trabalhando incansavelmente nos bastidores, a excelência artística e técnica se manifesta em cada aspecto da montagem. A contribuição de Quiercles Santana na preparação de elenco e assistência de direção é fundamental, garantindo a coesão e o alto nível das performances. Desde a direção musical até a coordenação de som (Estúdio Carranca), luz (Jathyles Miranda) e cenografia (Sephora Silva), tudo demonstra um rigor técnico e um cuidado artístico meticulosos. Mas é justamente a presença do elemento humano — com seus improvisos e espontaneidade — que torna a apresentação ainda mais tocante e verdadeira.

Nesse contexto grandioso, o elenco vocal do auto de natal, por sua vez, representa um verdadeiro mapa da música pernambucana contemporânea, reunindo desde veteranos consagrados até jovens promessas em uma sinfonia coletiva de rara expressividade. Carlos Filho e Sue Ramos formam uma dupla vibrante que conduz Ciganas e Ciganos e Salve Maria. Elon Barbosa se reveza entre parcerias, ora com Gabriela Martinez em Ô de casa, ora com Isadora Melo no delicado Amanheceu. A própria Isadora, cuja carreira começou nos palcos do Baile quando ainda adolescente, também empresta sua voz encantadora à tradicional Ciganinha – música que integra o espetáculo desde 1983 e que ela interpreta nesta temporada, alternando com Joyce Alane. Cláudio Rabeca transita entre sua rabeca em Quando cheguei ao lado de Lucas Dan e os vocais de Acendei uma luz, confirmando a multiplicidade de talentos do espetáculo.

Entre as participações especiais, Silvério Pessoa dedica sua força interpretativa a Boca de forno e Jaraguá, enquanto Lucas dos Prazeres combina seus tamancos em Todos os dias com a sensibilidade de Anjo. A nova geração se sobressai através de Alice de Souza, Guilherme Simões e Julia Souza, que se alternam entre os elementos cósmicos da Louvação – Sol, Lua e Estrela – e se unem em Vinde Pastoras, revelando a força da nova safra de intérpretes pernambucanos. Nesse panorama de talentos, Laís Senna, que dá vida à personagem Maria na peça, também se distingue por sua voz deslumbrante, interpretando lindamente o Acalanto. Ricardo Pessoa conduz com sua voz potente o quadro Santos Reis, que exalta os povos formadores do Brasil, com o apoio dos coros adulto e infantil.

Coro infantil. Foto: Paulinho Filizola / Divulgação

Dimas Popping, especialista na dança popularizada por Michael Jackson. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

PE Original Style tira o fôlego com as manobras. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

As coreografias são assinadas por Sandra Rino. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

Novos figurinos de Marcondes Lima. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

No centro da narrativa, Maria e José, interpretados por Laís Senna e Lucas Dan, constroem um casal que equilibra o extraordinário e o cotidiano. Não são figuras distantes, mas pessoas comuns tocadas pela transcendência – reflexo da proposta do Baile de humanizar o sagrado através da cultura popular.

O coro infantil de 13 crianças, preparado por Célia Oliveira, traz ao espetáculo a renovação que o Natal proclama. Suas vozes cristalinas contrastam com a complexidade do mundo adulto, lembrando que celebramos, fundamentalmente, o nascimento de uma criança.

Sandra Rino, com sua dedicação incansável e olhar visionário, enfrenta o desafio hercúleo de juntar e encaixar danças tradicionais nordestinas, dança contemporânea e elementos de street dance. A coreógrafa constrói um vocabulário corporal que faz diferentes tradições dialogarem, transformando a complexidade dessa combinações em pura energia cênica. Se a arte, como diria Shakespeare, é feita de som e fúria, Sandra Rino é essa fúria criativa que dá forma e sentido ao movimento.

Este ano, a ousadia artística de ampliar o leque expressivo trouxe elementos surpreendentes. A inclusão de Dimas Popping, especialista na dança popularizada por Michael Jackson, pode parecer estranha à primeira vista. Mas é exatamente nessa audácia que reside o traquejo do diretor Ronaldo Correia de Brito. Fazer o universo natalino abraçar diversas expressões da celebração humana. O popping se soma ao grupo PE Original Style com seus 9 breakers (Bboy Akira, Bboy Eddy, Bboy Fábregas e outros), criando um mosaico cultural que reflete o Brasil contemporâneo sem abandonar sua identidade cultural.

A renovação dos figurinos, criados por Marcondes Lima e executados por uma equipe de 9 costureiras, revela uma cabedal de referências que se combinam e dialogam. Além das cores vibrantes da cultura nordestina, o vestuário também adotou brancos e pretos, tecidos e texturas que remetem ao artesanato local, além de adereços criados por Álcio Lins e Wilson Aguiar que criam pontes com o imaginário dos folguedos populares. Os mantos e panos se movimentam com o vento da beira do cais, criando efeitos visuais que incorporam até mesmo as condições climáticas do Marco Zero. O figurino constitui discurso visual que reafirma a brasilidade do espetáculo. A manipulação de bichos fantásticos por Luan Lucas, Marcílio Santos e Ruan Henrique adiciona elementos lúdicos que encantam especialmente o público infantil.

Quando São Pedro testa a paciência do público

Ronaldo Correia de Brito subindo a rampa com suas crianças ao final da peça. Foto: Hans Manteuffel

O primeiro dia da temporada 2025 ofereceu um exemplo eloquente da relação especial entre o Baile e seu público. Uma chuva de verão daquelas típicas do Recife – caprichosa e intensa – desabou  com apenas 15 minutos de espetáculo. A produção precisou de uma pausa de aproximadamente uma hora para esperar a chuva passar, enxugar completamente o palco, verificar todo o equipamento elétrico de som e luz e garantir a segurança de artistas e público.

Nesse intervalo forçado por São Pedro, algo singular aconteceu. Enquanto a animadora mantinha o público aquecido, o diretor Ronaldo Correia de Brito aproveitou o momento para compartilhar duas histórias do seu arsenal. Ele comentou que antigamente não chovia em dezembro no Recife durante a época do Baile, mas a crise climática mudou isso. Para exemplificar, recordou que na década de 1970, em viagem pelo Ceará com Assis Lima, visitou um mestre de reisado. Durante a jornada a cavalo, foram pegos por uma chuva torrencial – “no Ceará não chove muito, mas quando chove, um pingo d’água banha a gente. São gotas muito grossas”. Chegaram encharcados à casa do mestre, que os recebeu com vinho. Após beberem e se acomodarem nas redes, o anfitrião realizou um gesto de altíssima dignidade: lavou os pés dos visitantes em uma bacia d’água, reproduzindo o gesto de Jesus.

Na segunda narrativa, Ronaldo refletiu sobre sua própria trajetória e lembrou que quando fazia teatro popular no Ceará, no Crato, no Cariri cearense, bastavam “uma casa e quatro cadeeiros”. Hoje, “a partir do momento em que passamos a depender de tecnologia de luz e de som, passamos a viver essas vicissitudes”.

Músicos que tocam no Baile do Menino Deus. Foto: Paulinho Filizola / Divulgação

O repertório de 23 composições de Antonio Madureira (Zoca) constitui um dos maiores tesouros desse Baile. O espetáculo alterna entre composições mais animadas e outras mais contemplativas, criando ondulações rítmicas que garantem o desenvolvimento dramático. Desde a Abertura que estabelece o tom festivo até o Acalanto de maior ternura, cada música funciona como capítulo musical da narrativa, conduzindo a emoção do público através dos arranjos assinados por Antônio Madureira, Nelson Almeida e Rafael Marques.

Expandindo a riqueza sonora, a beleza dos múltiplos quadros – dos Mateus brincalhões aos Santos Reis solenes, do coro infantil lúdico aos bailarinos contemporâneos – compõe uma sinfonia visual que transforma a praça em território sagrado da alegria. Ali se desenha um acalanto coletivo, talvez uma utopia temporária de acolhimento. O Baile do Menino Deus carrega o reisado em sua essência de “procurar uma casa, achar uma porta”. Como refletiu Ronaldo naquela noite chuvosa, “esse tema parece antigo, mas é muito atual, porque nós atravessamos um tempo em que o que todos estão procurando é uma casa para morar, e a gente está querendo o fim das fronteiras, que as portas se abram”. O Baile se confirma, então, como festa da hospitalidade – materialização provisória desse sonho ancestral de portas abertas.

Leia AQUI crítica do Baile do Menino Deus 2024

SERVIÇO

Baile do Menino Deus: Uma Brincadeira de Natal – 2025
Quando: 23, 24 e 25 de dezembro, às 20h
Onde: Praça do Marco Zero, Bairro do Recife
Acesso gratuito
Serão disponibilizadas 2.500 cadeiras ao público
Acessibilidade: Espaço reservado para pessoas com cadeira de rodas, audiodescrição e intérprete em Libras
Informações@bailedomeninodeusoficial

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A brincadeira mais querida do Natal
Crítica do Baile do Menino Deus

Foto: Hans von Manteuffel

Os Mateus Arilson Lopes e Sóstenes Vidal com o grupo de bailarinos. Foto: Hans von Manteuffel / Divulgação

Foto: Hans von Manteuffel

Praça do Marco Zero no Recife, elenco e público. Foto: Hans von Manteuffel / Divulgação

O Baile do Menino Deus – uma brincadeira de Natal é um dos mais emblemáticos eventos natalinos do Brasil, quiçá do mundo. Apresentado anualmente há 21 dezembros na Praça do Marco Zero, no centro do Recife, ele atrai milhares de espectadores em busca de uma experiência cultural singular. Escrito por Ronaldo Correia de Brito (também diretor da peça) e Assis Lima e com músicas de Antônio Madureira, esse auto de Natal habilmente entrelaça a narrativa universal do nascimento de Jesus com elementos da cultura popular nordestina. O resultado é irresistível. Então eu digo, o Baile do Menino Deus salva o Natal de muita gente.

Além de oferecer um refúgio coletivo ao calor intenso, com a brisa do mar à beira do Capibaribe, essa obra revitaliza o espírito comunitário. Transformando o espaço público em um palco potente, o espetáculo toca corações e mentes de maneira particular. Ele reúne na plateia pessoas de várias classes sociais, reafirmando a rua como um espaço de pertencimento e expressão popular ao ar livre.

Em um mundo onde o consumismo frequentemente ofusca o verdadeiro espírito do Natal, o espetáculo propõe uma vivência carregada da essência da data: o nascimento de Jesus, simbolizando esperança, renovação e amor. Ao se concentrar nesses valores, o Baile convida o público a refletir sobre o que realmente importa nesta época do ano.

Para tantos, o espetáculo é um elo de conexão com suas raízes e identidade cultural. Ao incorporar elementos das manifestações populares do Nordeste, como o maracatu, o frevo, o cavalo-marinho, o bumba meu boi, a ciranda, o pastoril, o coco, e outros, o Baile fortalece o senso de pertencimento e orgulho de territoridade. Ele salva o Natal ao reafirmar a riqueza e a diversidade da cultura brasileira, em um ato de resistência contra a homogeneização cultural.

Diante de tantos desafios e incertezas, o Baile do Menino Deus oferece uma alegria do presente e esperança renovada. A cada ano, ao atualizar suas referências e adaptar sua narrativa, a encenação reforça a ideia de que, apesar das adversidades, há horizonte. E inspira cada espectador a maravilhar-se com a vida, com cada nascimento.

Pego esse verbo, maravilhar-se para acompanhar essa montagem.

Foto: Hans von Manteuffel

José e Maria, ao fundo, na festa de casamento. Foto: Hans von Manteuffel / Divulgação

Como contar para uma pessoa que não conhece as tradições populares do Nordeste, nunca viu um bumba meu boi, um cavalo-marinho ou um reisado, o que é aquela lindeza do Baile do Menino Deus na Praça do Marco Zero? Seja uma francesa ou uma paulistana, como explicar que magia é essa? Ou mesmo para um recifense que ainda não foi ao Baile? Como traduzir em palavras o que se passa naquele palco imenso, com suas casinhas, com as passagens de tantos personagens, com tantas cenas simultâneas, tanta dança e canto, música e alegria?

A estrutura da peça é baseada no reisado e na lapinha do Cariri, manifestações culturais enraizadas no sertão do Ceará. Estas tradições, que envolvem a encenação do nascimento de Jesus, a adoração dos Reis Magos e a montagem de presépios, que encantaram Ronaldo Correia de Brito em sua infância, serviram como a principal fonte de inspiração para a criação deste trabalho, que agrega elementos de outros brinquedos do Nordeste.

O Baile é para saudar o Menino que nasceu. Os Mateus – um mais lírico, outro mais cômico, assumem um papel central como condutores da brincadeira e são acompanhados por um coro infantil –  Agatha Carille, Alice Vitória de Souza, Ayla Kristie, Ana Kostic, Anna Jardim, Heitor Miranda, João Guilherme, Karina Paes, Luan Rian, Madiba Florentino, Maria Clara Araújo, Rodrigo Travassos- que confere leveza na missão de avançar na história. Juntos, eles buscam abrir a porta fechada que “esconde” a Sagrada Família. Nesta busca, eles convocam um mundaréu de seres, tanto reais quanto fantásticos, cada um contribuindo de maneira única para o desenrolar da trama.

Foto: Hans von Manteuffel

Coro infantil. Foto: Hans von Manteuffel / Divulgação

Essa celebração da cultura brasileira é uma produção grandiosa. Realizada pela Relicário Produções sob a liderança de Carla Valença, a obra reúne um impressionante contingente de cerca de 300 profissionais, dos quais 70 são artistas, entre performers e criadores. Os realizadores afirmam que a encenação é assistida anualmente por mais de 70 mil pessoas.

A sacada genial deste espetáculo, concebido em 1981 (texto original e letras das canções de Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima, e música de Antônio Madureira), foi eleger o Brasil como cenário e imaginário central. Os criadores devem ter visto pouco sentido em adotar elementos como neve, típicos de representações natalinas tradicionais de outros países, no Nordeste brasileiro. Em uma decisão deliberada e inovadora, os criadores excluíram figuras como Papai Noel com seus trenós, optando por valorizar as expressões dos três principais povos formadores da identidade brasileira: indígenas, negros e ibéricos. 

Desde sua estreia, – em 1983 , no  Teatro Valdemar de Oliveira lotado -, o Baile do Menino Deus passou por diversas fases e locais de apresentação. Mas foi a partir de 2004, com a mudança para o Marco Zero do Recife que o espetáculo ganhou a magnitude e a visibilidade que possui hoje. Neste ano de 2024 o Baile do Menino Deus foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Recife, título concedido pela Câmara Municipal. A encenação ocorre todos os anos nos dias 23, 24 e 25 de dezembro.

Lia de Itamaracá pela primeira no palco do Baile. Na foto, ao lado de Lucas dos Prazeres. Foto: Hans von Manteuffel

Maestros Forró e Spok. Foto: Hans von Manteuffel / Divulgação

Uma constelação de talentos garante o primor artístico do Baile, que inclui os atores Arilson Lopes e Sóstenes Vidal como os Mateus, com Paulo de Pontes e Daniel Barros como seus substitutos. Arilson e Sóstenes brilharam no primeiro e terceiro dias de apresentação, enquanto Paulo e Daniel assumiram os papéis com maestria no segundo dia, mantendo a energia e o carisma característicos dos personagens.

Os músicos estão posicionados no palco, integrando a música de forma mais direta à narrativa. A equipe musical, em plena vista do público, é composta pelos instrumentistas Karol Maciel no acordeom, João Pimenta no contrabaixo, Laila Campelo na viola, e Aristide Rosa alternando entre violão e viola nordestina formam o núcleo harmônico. A percussão, essencial para o ritmo pulsante do espetáculo, fica a cargo de Emerson Coelho, Jerimum de Olinda e José Emerson. Alexandre Rodrigues (Copinha) e Henrique Albino nos sopros adicionam camadas melódicas, enquanto o próprio Rafael Marques alterna entre bandolim e cavaco, dirigindo o conjunto do palco. Esta disposição cênica permite intercâmbios interessantes  entre músicos e atores. Um exemplo é a interação cômica entre um dos Mateus e um músico careca.

Foto: Hans von Manteuffel

Coreografias assinadas por Sandra Rino. Foto: Hans von Manteuffel / Divulgação

A coreógrafa Sandra Rino integra diferentes estilos de dança, do tradicional ao contemporâneo, criando uma movimentação visualmente fascinante. O elenco de dança, composto por Beatriz Gondra, Fernando Gomes, Gabi Carvalho, Isabela Loepert, Jonas Alves, José Valdomiro, Marcela Aragão, Marina Vidal, Pinho Fidelis e Tiago Vieira, ocupa o palco com graça e energia.

Este ano, a estreia de Lia de Itamaracá – nossa rainha cirandeira –  brilhou com intensidade singular (antes ela tinha atuado no no segundo filme do Baile). Sua presença magnética tocou fortemente a plateia, transformando sua participação em um momento verdadeiramente histórico para o Baile. Ao lado de Lucas dos Prazeres, Lia interpretou a música da burrinha Zabilin. O figurino de Lia, elaborado com as sete saias mencionadas na própria letra da música, acrescentou uma camada visual à sua performance.

As participações dos maestros de frevo Spok e Forró contribuíram para elevar o calibre musical desta edição. Spok, reconhecido por sua maestria instrumental, também apresentou suas habilidades vocais, na canção Romã, Romã. Ele confessou que sempre quis participar desse espetáculo. O Baile tem essa coisa desejante. Paralelamente, Forró, fiel à sua essência, impregnou o espetáculo com generosas doses de irreverência, adicionando um toque de humor e espontaneidade que se harmonizou perfeitamente com o espírito do Baile.

A riqueza musical do Baile foi ainda mais evidenciada pela atuação de diversos solistas. Silvério Pessoa, Isadora Melo, Surama Ramos, Carlos Filho, Sarah Leandro, Sue Ramos, Cláudio Rabeca, Elon Damaceno e Ricardo Pessoa criaram momentos de puro deleite sonoro. A jovem Júlia Souza, como solista adolescente, adiciona uma camada de frescor à produção.

Surama Ramos, preparadora vocal e solista. Foto: Hans von Manteuffel / Divulgação

Foto: Hans von Manteuffel

Laís Senna, a Maria do Baile do Menino Deus. Foto: Hans von Manteuffel / Divulgação

Nos papéis de Maria e José, temos a atriz, cantora e compositora Laís Senna e o poeta, brincante e sanfoneiro Lucas Dan.

Laís Senna, em sua segunda participação no espetáculo desde sua estreia em 2023, demonstra um crescimento significativo em sua performance. Sua presença cênica  mostra-se mais confiante e expressiva. Como atriz e cantora, ela consegue transmitir a complexidade emocional de Maria com delicadeza. Sua interpretação da música Acalanto é particularmente comovente, revelando suas habilidades vocais, como também sua capacidade de incorporar a essência maternal de sua personagem.

Por outro lado, Lucas Dan traz uma ternura ao papel de José. Sua formação como poeta, brincante e sanfoneiro enriquece sua interpretação. A cumplicidade e o entrosamento entre os atores são evidentes em cada interação, cada olhar trocado, cada gesto sutil. Esta sintonia expande a qualidade da atuação, reforça a credibilidade da narrativa, e envolve emocionalmente o público com a jornada do casal.

A sequência do casamento entre José e Maria exibe o casal sob uma luz mais romântica e humana. Ao fazê-lo, a produção consegue um equilíbrio delicado entre o sagrado e o secular, permitindo que o público se conecte com José e Maria não apenas como figuras divinas, mas como um casal enfrentando desafios e emoções muito humanos.

Hip hop do Okado do Canal e seu grupo PE Original Style. Foto: Hans von Manteuffel / Divulgação

O Baile do Menino Deus, embora profundamente enraizado na cultura nordestina e comprometido com a preservação de suas tradições, não se fecha para o mundo. Desde o ano passado, e com maior amplitude neste ano, a inclusão de bailarinos de breakdance, componentes centrais do movimento cultural do hip hop, trouxe um impacto visual e cultural significativo ao espetáculo, com Okado do Canal, nome artístico do multiartista Ellan Barreto, e seu grupo PE Original Style.

A integração do hip hop adiciona dinamismo ao espetáculo e traça uma ponte entre gerações. Os passos de break da Favela do Canal, no bairro do Arruda, trazem uma autêntica representatividade da periferia ao Baile.

Nos bastidores, o estafe de profissionais dedicados assegura a excelência em cada aspecto da produção. Quiercles Santana lidera a preparação de elenco e atua como assistente de direção; e Célia Oliveira faz a preparação do elenco infantil. Sandra Rino é responsável pela coreografia, enquanto Marcondes Lima e Sephora Silva comandam a direção de arte e cenografia. A iluminação cênica fica a cargo de Jathyles Miranda, e Tomás Brandão assume a direção técnica. Juntos, esses artistas e suas equipes contribuem para criar uma experiência visual e sensorial ampla.

Cláudio Rabeca e Lucas D’Ann  na abertura do espetáculo. Foto: Foto: Hans von Manteuffel / Divulgação

Silvério Pessoa, o Boi e Carlos Filho, observados pelos Mateus, Maria e José. Foto: Hans von Manteuffel

O Baile do Menino Deus inicia-se com um arranjo nordestino da festiva Hevenu Shalom Aleichem, tradicional canção folclórica hebraica cujo significado é “Trouxemos paz sobre vocês”. A parceria entre Cláudio Rabeca e Lucas D’Ann cria uma atmosfera de celebração, que segue até o término do espetáculo.

Uma série de cenas memoráveis trouxe esse Baile do Menino Deus de 2024. O dueto entre Carlos Filho e Silvério Pessoa, interpretando o Boi, é um ponto alto, complementado pela formosura da nova versão do boi confeccionada para esta edição. O solo de saxofone do maestro Spok, acompanhado por um passista lírico executando um frevo, cria um momento de pura magia cênica. A chegada majestosa dos Reis Magos e a risada contagiante do Mateus adicionam doses de encantamento à montagem, além de lances já citados e outros fragmentos que me abraçarão depois. Cada espectador tem a liberdade de eleger suas cenas prediletas dentre esse rico mosaico de momentos. Ao final, o público já anseia pela próxima edição em 2025, renovando a esperança que o espetáculo tão engenhosamente cultiva.

O Satisfeita, Yolanda? faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica,  apoiado pela produtora Corpo Rastreado, junto às seguintes casas : CENA ABERTA, Guia OFF, Farofa Crítica, Horizonte da Cena, Ruína Acesa e Tudo menos uma crítica

 

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Chet Baker, Apenas um Sopro,
faz apresentações em São Paulo

O músico Paulo Miklos estreou no teatro com o espetáculo Chet Baker, Apenas Um Sopro, em 2016. Foto Victor Iemini / Divulgação

Os gênios não são perfeitos. A trajetória do trompetista norte-americano Chet Baker sinaliza para essa conjectura. Do jovem cobiçado por mulheres e homens, comparado em beleza a James Dean, – o ator de Juventude Transviada –, à decrepitude em vida são 58 anos e uma mistura explosiva de jazz, drogas, estrelato, violência. Esse arco começa em 23 de dezembro de 1929, em Yale, Oklahoma, EUA, e encerra com uma “queda” fatal de um quarto de hotel em Amsterdã em 13 de maio de 1988.

Como pessoa, o músico foi se tornando um caco pelo consumo de heroína e por todos os malabarismos feitos para consumir a droga. A partir de uma suposta briga com viciados, Baker perdeu os dentes e a embocadura para atingir notas mais altas no seu trompete ficou prejudicada.

Paulo Miklos, vocalista da Banda Titãs, encarna esse grande do jazz, um branco que pode ser comparado a figuras como Miles e Coltrane, no espetáculo Chet Baker, Apenas Um Sopro. A peça já fez várias temporadas e vem de um novo circuito por Salvador, Vitória, Curitiba e Porto Alegre. Agora, faz apresentações em São Paulo até 25 de agosto, no Teatro da Faap.

Com direção de José Roberto Jardim e dramaturgia de Sérgio Roveri, o espetáculo é livremente inspirado na vida do lendário trompetista norte-americano Chet Henry Baker Jr. (1929-1988) e tem no elenco Anna Toledo, Jonathas Joba, Piero Damiani e Ladislau Kardos.

Apontado como precursor da bossa nova, por seu cantar com voz aveludada e suavidade no tocar, o músico tinha um temperamento difícil. Muitos livros tentam desvendar a personalidade de Baker. No Fundo de um Sonho – A Longa Noite de Chet Baker, de James Gavin, e a novela policial No Rastro de Chet Baker, de Bill Moody, mostram que, irresponsável e encrenqueiro, Chet foi preso várias vezes preso por porte de drogas.

Baker gravou mais de 150 discos. Casado três vezes, teve 4 filhos e muitas amantes. Suas grandes paixões foram a música e a heroína.

Encenação

A droga que tanto maltratou Baker está no centro do episódio em que o artista foi violentamente espancado em uma rua de São Francisco. Há versões que a agressão foi motivada por dívidas com traficantes, briga entre viciados ou até envolvimento da política. O resultado é que com os lábios rachados, e a perda de alguns dentes, Chet Baker interrompeu a carreira.

A trama mostra Chet Baker na primeira sessão de gravação após o acidente. A insegurança paira no ar e é compartilhada pelos outros quatro companheiros de estúdio: um contrabaixista, um baterista, um pianista e uma cantora.

A ações ocorrem em um estúdio de gravação, com cenário do Grupo Academia de Palhaços, figurinos do estilista João Pimenta, iluminação de Aline Santini e direção musical de Piero Damiani.

Ficha Técnica
Dramaturgia: Sergio Roveri
Direção: José Roberto Jardim
Elenco: Paulo Miklos, Anna Toledo, Jonathas Joba, Piero Damiani e Ladislau Kardos
Idealizador: Fábio Santana
Diretora de Produção: Renata Galvão
Produção Geral: Taís Somaio
Produção Executiva: Marina Aleixo
Direção Musical: Piero Damiani
Figurinista: João Pimenta 
Cenografia: ultraVioleta_s
Desenho de Luz: Aline Santini
Desenho e Operação de Som: Rafael Thomazini
Técnico de Palco: Rogério Febraio
Assistente de luz e operação: Michelle Bezerra
Visagista: Fabio Namatame
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio

Serviço:
Chet Baker, Apenas Um Sopro
Onde:
Teatro Faap (Rua Alagoas, 903, Higienópolis)
Quando: 22, 23, 24 e 25 de agosto, de quinta a sábado, às 21h, e no domingo, às 18h
Ingressos: R$60 (inteira) e R$30 (meia-entrada)
Classificação: 14 anos
Duração: 1h20
Capacidade: 500 lugares
Informações: (11) 97185-9332

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