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Quem passa, dança
Circulação do espetáculo Passos
da Compassos Cia de Dança

Com 36 anos de estrada, a Compassos Cia de Dança leva o espetáculo Passo, criado em 2017, a quatro bairros entre Recife e Olinda. Foto: Morgana Narjara / Divulgação

As apresentações desse circuito são gratuitas e conta com oficina aberta e Libras em cena. Foto Divulgação

Na apresentação recente no Solo São Gens, no bairro do Recife. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

Uma praça num fim de tarde. Pessoas passam apressadas, distraídas, carregando sacolas e preocupações. De repente, seis corpos começam a se mover no meio do terreiro, sem palco, sem distância. Um convite silencioso. Quem quiser, entra. Quem quiser, dança. Quem quiser, apenas fica e sente o chão vibrar.

Essa é a ideia por trás de Passo, espetáculo da Compassos Cia de Dança que circula entre Recife e Olinda de 16 de outubro a 6 de novembro. A montagem acabou de passar pelo projeto Sextas da Gen(s)TE, no Solo Gens, e agora escolhe as periferias para continuar andando, com entrada gratuita.

Uma companhia que não para de andar

Raimundo Braanco, diretor da Compassos. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

A Compassos completa 36 anos em 2026 e está entre as companhias mais longevas em atividade no Brasil. Foi fundada em 1990 pelo bailarino e ator Raimundo Branco, formado no Balé Popular do Recife entre 1976 e 1984 e hoje uma das referências da dança pernambucana. Desde o primeiro trabalho, a companhia mistura dança popular e contemporânea com teatro, um caminho que rendeu prêmios ao longo da trajetória, como o de melhor espetáculo da Apacepe por Oratorium, em 2000, e cinco premiações com Em Anexo, em 2006.

Desde 2007, a companhia desenvolve a pesquisa Dança do cotidiano, que mistura movimento, memória e vocalidade e leva para a cena o corpo comum de quem trabalha, brinca e resiste. É dessa pesquisa que Passo se alimenta. Criado em 2017, o espetáculo estreou em circulação pelo interior de Pernambuco, com apoio do Funcultura, passando por 12 cidades e distritos, além de apresentações no Paço do Frevo e no Festival Internacional de Dança do Recife. Nove anos depois, continua em movimento.

Por que essa dança é para você

Seis artistas cruzam capoeira, cavalo-marinho, maracatu rural, teatro de bonecos e dança contemporânea,

A dança costuma parecer coisa distante. Coisa de quem estudou anos, de quem tem técnica, de quem vive no palco. Passo desmonta essa ideia. O espetáculo se assume como uma grande brincadeira de folgazões, aqueles que guardavam a semana inteira para cair na dança dos terreiros, entrando somente depois de pedir licença aos donos da casa.

Em cena, seis performers bailarinos e atores cruzam capoeira, cavalo-marinho, maracatu rural, teatro de bonecos e dança contemporânea, com saias penduradas em varas de bambu ocupando o espaço. O elenco reúne Ana Bione, Fernando Rybka, Patrícia Costa, Marcio Sá e Sandra Rino, artistas criadores de formações diversas. Eduardo Calixto completa o grupo como tradutor de Libras e performer, unindo a língua de sinais à dança.

Os artistas conversam, dançam, brincam e convidam quem cruza o caminho a experimentar o brinquedo. A fronteira entre palco e plateia desaparece. Quem assiste vira parte. Para Raimundo Branco, Passo é um rito de presença, de memória e de reinvenção, feito para circular e para ser visto de perto.

Um espetáculo que caminha

Sandra Rino, bailarina da Compassos. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

A inspiração vem de longe. O poema drmatático Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, atravessa a criação. Como a personagem Severino, que percorre estradas sem fim, Passo é um espetáculo migrante. Visita praças e terreiros, rios e córregos, no campo e no asfalto. Pede para estar em cada lugar e apresentar o seu brinquedo.

A caminhada começa no dia 16 de outubro no Ponto de Cultura Lua de São Jorge, na Cidade Tabajara, em Olinda. Segue pela Escola de Danças Populares Família Pernambuco, em Casa Amarela, pelo Centro de Artes e Comunicação da UFPE e termina no COMPAZ Atriz Leda Alves, no Pina. Em cada parada, oficina e apresentação, sempre com bate-papo depois. Parte dos locais escolhidos tem ligação direta com a história do diretor, centros de capoeira administrados por mestres que passaram pela sua formação nos anos 1980, um detalhe que mostra como a rota é afetiva.

Dança que acolhe todo mundo

Eduardo Calixto atua como tradutor de Libras e performer. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

A acessibilidade aqui não é detalhe. A Língua Brasileira de Sinais é performada pelos artistas e pelo tradutor-intérprete Eduardo Calixto, reconhecida como prática artística viva e contemporânea. Crianças, jovens, adultos, pessoas surdas, todos são bem-vindos. A programação é livre e gratuita.

Quem quiser ir além pode participar da oficina O Passo do Brincante, gratuita, para pessoas a partir de 12 anos. São três horas para experimentar os passos do frevo, do cavalo-marinho e da capoeira de Angola, além da movimentação dos caboclos do maracatu rural. Não é preciso saber dançar. É preciso ter vontade. Na turnê de 2017, a oficina foi além e convidou participantes locais para compor o elenco em cena, marca do espírito de troca do projeto.

Passo é um convite para redescobrir a dança como algo que pertence a todo mundo. Não como espetáculo distante, mas como brinquedo, encontro e memória viva das tradições populares. E a Compassos não pretende parar. Depois dessa temporada, Raimundo Branco segue em estudos para um projeto solo previsto para 2027, o próximo passo de uma caminhada que, aos 36 anos, ainda tem muita estrada pela frente.

Fernando Rybka, em primeiro plano. Foto: Júnior Sampaio / Divulgação

SERVIÇO

Temporada Passo, da Compassos Cia de Dança.
Entrada gratuita, classificação livre.

Ponto de Cultura Lua de São Jorge
(Av. Potiguar, 29, Tabajara, Olinda)
Dia 16/10, sexta-feira 16h, oficina O Passo do Brincante e bate-papo
19h, apresentação de Passo e bate-papo

Escola de Danças Populares Família Pernambuco
(Rua Visconde de Taunay, 207, Casa Amarela, Recife)
Dia 22/10, quinta-feira, 18h, oficina e bate-papo
Dia 24/10, sábado, 16h, apresentação de Passo e bate-papo

Centro de Artes e Comunicação da UFPE
(Campus Cidade Universitária, Recife)
Dia 28/10, quarta-feira, 19h, oficina e bate-papo
Dia 30/10, sexta-feira, 18h, apresentação de Passo e bate-papo (horário sujeito a alteração)

COMPAZ Atriz Leda Alves
(Rua José Rodrigues, 586, Pina, Recife)
Dia 04/11, quarta-feira, 19h, oficina e bate-papo
Dia 06/11, sexta-feira, 19h, apresentação de Passo e bate-papo

Mais informações no Instagram @compassosdanca

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A arte de abrir portas no coração do Recife
Crítica: Baile do Menino Deus
Por Ivana Moura

Um quadro que mescla inspirações sagradas e profanas na mesma cena. Maria, José e o Menino; dois Mateus, o Boi e seus dançantes. Foto: Hans Manteuffel

Os Mateus Arilson Lopes e Sóstenes Vidal. Foto: Paulinho Filizola / Divulgação

Assistir ao Baile é uma experiência altamente recomendável. Na imagem Zabilin e Lucas dos Prazeres. Foto: Hans Manteuffel

No roteiro cultural de qualquer brasileiro, o Baile do Menino Deus, apresentado no Marco Zero, no Recife, impõe-se como experiência fundamental. Este espetáculo natalino constitui um daqueles momentos raros que marcam para sempre nossa percepção da cultura brasileira. Esta celebração deveria estar na lista obrigatória de qualquer pessoa que deseja decifrar a alma nordestina e a genialidade da nossa cultura popular.

Com concepção do espetáculo e direção geral de Ronaldo Correia de Brito, texto original e letras de Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima, e música de Antônio Madureira, esta criação construída ao longo de mais de quatro décadas continua a conquistar novos espectadores e emocionar.

E o impacto desse espetáculo se revela em cada história individual. Ir uma vez é encantar-se; voltar todo ano é garantir uma dose anual de pura alegria. A garota Ana Júlia, de 10 anos, foi pela primeira vez ao Baile, mas já conhecia todas as músicas e estava ansiosa pelo quadro do Jaraguá. Sua avó, assídua frequentadora há 15 anos, não esconde a satisfação de estar com a neta. Moradora de Águas Compridas, ela só neste ano conseguiu levar a menina – depois de tentativas anteriores que encontraram obstáculos, finalmente pôde compartilhar essa tradição que passa de geração em geração, criando vínculos através da arte.

Uma das características mais admiráveis do Baile do Menino Deus é essa capacidade de se reinventar mantendo-se fiel à essência. Todo ano traz novidades: figurinos repensados, novos atores e bailarinos que se integram ao elenco experiente, criando camadas de frescor sobre uma base sólida construída ao longo de 42 anos de existência e 22 edições no Marco Zero. O espetáculo mantém sua força artística com um elenco tarimbado. O talento dos Mateus engrandece no palco e no primeiro dia da temporada Sóstenes Vidal e Arilson Lopes esbanjaram vivacidade, talento e energia – fizeram gracejo até com a chuva que interrompeu o espetáculo, realizado ao ar livre e a céu aberto. Eles se revezam com Daniel Barros e o novo integrante Djaelton Quirino, garantindo diferentes nuances interpretativas ao longo das três apresentações.

Maestro Spok e Joyce Alane. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

Silvério Pessoa, brilho de veterano. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

A prática de convidar artistas consagrados da música pernambucana se renova com Joyce Alane, cantora e compositora do gênero MPB pop em plena ascensão, finalista do Grammy Latino 2025 e indicada ao Prêmio Multishow. A cantora interpreta três músicas do repertório da peça – Beija-Flor e Borboleta, Cigana e Baile do Menino Deus.

Em sua segunda participação nessa brincadeira de natal única, Maestro Spok consolida sua parceria com o espetáculo através de aparições que exploram sua versatilidade artística. Na finalização de Zabilim, ele presta homenagem à Lia de Itamaracá, rainha do coco que participou do Baile no ano passado, entoando o bordão “ai mamãe”, ressaltando esse gesto de reverência.

A riqueza sonora do Baile do Menino Deus é alicerçada por um conjunto de 11 instrumentistas especializados, que formam a orquestra base do espetáculo. Nomes como Karol Maciel no acordeon, Rafael Marques no bandolim e cavaco, João Pimenta no contrabaixo, Raquel Paz na viola e Aristide Rosa no violão e viola nordestina, além dos percussionistas Emerson Coelho, Jerimum de Olinda e José Emerson, e os sopros de Alexandre Rodrigues (Copinha) e Jonatas Gomes no trompete, constroem a tapeçaria musical. 

Por trás da magia dos 70 artistas que se apresentam no palco, há um universo de dedicação e rigor. Com a produção coordenada por Carla Valença e a Relicário Produções, são trezentos profissionais envolvidos no total, a maioria trabalhando incansavelmente nos bastidores, a excelência artística e técnica se manifesta em cada aspecto da montagem. A contribuição de Quiercles Santana na preparação de elenco e assistência de direção é fundamental, garantindo a coesão e o alto nível das performances. Desde a direção musical até a coordenação de som (Estúdio Carranca), luz (Jathyles Miranda) e cenografia (Sephora Silva), tudo demonstra um rigor técnico e um cuidado artístico meticulosos. Mas é justamente a presença do elemento humano — com seus improvisos e espontaneidade — que torna a apresentação ainda mais tocante e verdadeira.

Nesse contexto grandioso, o elenco vocal do auto de natal, por sua vez, representa um verdadeiro mapa da música pernambucana contemporânea, reunindo desde veteranos consagrados até jovens promessas em uma sinfonia coletiva de rara expressividade. Carlos Filho e Sue Ramos formam uma dupla vibrante que conduz Ciganas e Ciganos e Salve Maria. Elon Barbosa se reveza entre parcerias, ora com Gabriela Martinez em Ô de casa, ora com Isadora Melo no delicado Amanheceu. A própria Isadora, cuja carreira começou nos palcos do Baile quando ainda adolescente, também empresta sua voz encantadora à tradicional Ciganinha – música que integra o espetáculo desde 1983 e que ela interpreta nesta temporada, alternando com Joyce Alane. Cláudio Rabeca transita entre sua rabeca em Quando cheguei ao lado de Lucas Dan e os vocais de Acendei uma luz, confirmando a multiplicidade de talentos do espetáculo.

Entre as participações especiais, Silvério Pessoa dedica sua força interpretativa a Boca de forno e Jaraguá, enquanto Lucas dos Prazeres combina seus tamancos em Todos os dias com a sensibilidade de Anjo. A nova geração se sobressai através de Alice de Souza, Guilherme Simões e Julia Souza, que se alternam entre os elementos cósmicos da Louvação – Sol, Lua e Estrela – e se unem em Vinde Pastoras, revelando a força da nova safra de intérpretes pernambucanos. Nesse panorama de talentos, Laís Senna, que dá vida à personagem Maria na peça, também se distingue por sua voz deslumbrante, interpretando lindamente o Acalanto. Ricardo Pessoa conduz com sua voz potente o quadro Santos Reis, que exalta os povos formadores do Brasil, com o apoio dos coros adulto e infantil.

Coro infantil. Foto: Paulinho Filizola / Divulgação

Dimas Popping, especialista na dança popularizada por Michael Jackson. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

PE Original Style tira o fôlego com as manobras. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

As coreografias são assinadas por Sandra Rino. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

Novos figurinos de Marcondes Lima. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

No centro da narrativa, Maria e José, interpretados por Laís Senna e Lucas Dan, constroem um casal que equilibra o extraordinário e o cotidiano. Não são figuras distantes, mas pessoas comuns tocadas pela transcendência – reflexo da proposta do Baile de humanizar o sagrado através da cultura popular.

O coro infantil de 13 crianças, preparado por Célia Oliveira, traz ao espetáculo a renovação que o Natal proclama. Suas vozes cristalinas contrastam com a complexidade do mundo adulto, lembrando que celebramos, fundamentalmente, o nascimento de uma criança.

Sandra Rino, com sua dedicação incansável e olhar visionário, enfrenta o desafio hercúleo de juntar e encaixar danças tradicionais nordestinas, dança contemporânea e elementos de street dance. A coreógrafa constrói um vocabulário corporal que faz diferentes tradições dialogarem, transformando a complexidade dessa combinações em pura energia cênica. Se a arte, como diria Shakespeare, é feita de som e fúria, Sandra Rino é essa fúria criativa que dá forma e sentido ao movimento.

Este ano, a ousadia artística de ampliar o leque expressivo trouxe elementos surpreendentes. A inclusão de Dimas Popping, especialista na dança popularizada por Michael Jackson, pode parecer estranha à primeira vista. Mas é exatamente nessa audácia que reside o traquejo do diretor Ronaldo Correia de Brito. Fazer o universo natalino abraçar diversas expressões da celebração humana. O popping se soma ao grupo PE Original Style com seus 9 breakers (Bboy Akira, Bboy Eddy, Bboy Fábregas e outros), criando um mosaico cultural que reflete o Brasil contemporâneo sem abandonar sua identidade cultural.

A renovação dos figurinos, criados por Marcondes Lima e executados por uma equipe de 9 costureiras, revela uma cabedal de referências que se combinam e dialogam. Além das cores vibrantes da cultura nordestina, o vestuário também adotou brancos e pretos, tecidos e texturas que remetem ao artesanato local, além de adereços criados por Álcio Lins e Wilson Aguiar que criam pontes com o imaginário dos folguedos populares. Os mantos e panos se movimentam com o vento da beira do cais, criando efeitos visuais que incorporam até mesmo as condições climáticas do Marco Zero. O figurino constitui discurso visual que reafirma a brasilidade do espetáculo. A manipulação de bichos fantásticos por Luan Lucas, Marcílio Santos e Ruan Henrique adiciona elementos lúdicos que encantam especialmente o público infantil.

Quando São Pedro testa a paciência do público

Ronaldo Correia de Brito subindo a rampa com suas crianças ao final da peça. Foto: Hans Manteuffel

O primeiro dia da temporada 2025 ofereceu um exemplo eloquente da relação especial entre o Baile e seu público. Uma chuva de verão daquelas típicas do Recife – caprichosa e intensa – desabou  com apenas 15 minutos de espetáculo. A produção precisou de uma pausa de aproximadamente uma hora para esperar a chuva passar, enxugar completamente o palco, verificar todo o equipamento elétrico de som e luz e garantir a segurança de artistas e público.

Nesse intervalo forçado por São Pedro, algo singular aconteceu. Enquanto a animadora mantinha o público aquecido, o diretor Ronaldo Correia de Brito aproveitou o momento para compartilhar duas histórias do seu arsenal. Ele comentou que antigamente não chovia em dezembro no Recife durante a época do Baile, mas a crise climática mudou isso. Para exemplificar, recordou que na década de 1970, em viagem pelo Ceará com Assis Lima, visitou um mestre de reisado. Durante a jornada a cavalo, foram pegos por uma chuva torrencial – “no Ceará não chove muito, mas quando chove, um pingo d’água banha a gente. São gotas muito grossas”. Chegaram encharcados à casa do mestre, que os recebeu com vinho. Após beberem e se acomodarem nas redes, o anfitrião realizou um gesto de altíssima dignidade: lavou os pés dos visitantes em uma bacia d’água, reproduzindo o gesto de Jesus.

Na segunda narrativa, Ronaldo refletiu sobre sua própria trajetória e lembrou que quando fazia teatro popular no Ceará, no Crato, no Cariri cearense, bastavam “uma casa e quatro cadeeiros”. Hoje, “a partir do momento em que passamos a depender de tecnologia de luz e de som, passamos a viver essas vicissitudes”.

Músicos que tocam no Baile do Menino Deus. Foto: Paulinho Filizola / Divulgação

O repertório de 23 composições de Antonio Madureira (Zoca) constitui um dos maiores tesouros desse Baile. O espetáculo alterna entre composições mais animadas e outras mais contemplativas, criando ondulações rítmicas que garantem o desenvolvimento dramático. Desde a Abertura que estabelece o tom festivo até o Acalanto de maior ternura, cada música funciona como capítulo musical da narrativa, conduzindo a emoção do público através dos arranjos assinados por Antônio Madureira, Nelson Almeida e Rafael Marques.

Expandindo a riqueza sonora, a beleza dos múltiplos quadros – dos Mateus brincalhões aos Santos Reis solenes, do coro infantil lúdico aos bailarinos contemporâneos – compõe uma sinfonia visual que transforma a praça em território sagrado da alegria. Ali se desenha um acalanto coletivo, talvez uma utopia temporária de acolhimento. O Baile do Menino Deus carrega o reisado em sua essência de “procurar uma casa, achar uma porta”. Como refletiu Ronaldo naquela noite chuvosa, “esse tema parece antigo, mas é muito atual, porque nós atravessamos um tempo em que o que todos estão procurando é uma casa para morar, e a gente está querendo o fim das fronteiras, que as portas se abram”. O Baile se confirma, então, como festa da hospitalidade – materialização provisória desse sonho ancestral de portas abertas.

Leia AQUI crítica do Baile do Menino Deus 2024

SERVIÇO

Baile do Menino Deus: Uma Brincadeira de Natal – 2025
Quando: 23, 24 e 25 de dezembro, às 20h
Onde: Praça do Marco Zero, Bairro do Recife
Acesso gratuito
Serão disponibilizadas 2.500 cadeiras ao público
Acessibilidade: Espaço reservado para pessoas com cadeira de rodas, audiodescrição e intérprete em Libras
Informações: @bailedomeninodeusoficial

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Excesso ofusca análise do mundo
Crítica de Kalash – Ensaio sobre a extinção do outro

Kalash integrou programação do 23º Festival Recife do Teatro Nacional. Foto: Ivana Moura

Peça do Coletivo Resiste! tem dramaturgia e direção de Quiercles Santana. Foto: Danilo Galvão / Divulgação

Kalash – Ensaio sobre a extinção do outro, dirigida e escrita por Quiercles Santana, apresenta-se como uma ambiciosa e provocativa incursão teatral nas questões mais urgentes da sociedade contemporânea. O título, que faz referência direta a Mikhail T. Kalashnikov, inventor do infame rifle AK-47, estabelece imediatamente o tom de confronto e crítica social que permeia a obra.

Produzida pelo Coletivo Resiste!, a peça conta com os atores-pesquisadores Bruna Luiza Barros, Sandra Rino e Tatto Medinni. Essa designação sugere um envolvimento profundo do elenco no processo criativo, possivelmente contribuindo para a dramaturgia e incorporando documentos e arquivos de suas próprias investigações. Quiercles Santana, figura proeminente no teatro pernambucano, assina a direção de quatro trabalhos de grupos diferentes no Festival Recife do Teatro Nacional.

O espetáculo Kalash propõe-se a ser um ensaio crítico e iconográfico sobre os dias caóticos em que vivemos, considerando um leque amplo de assuntos complexos e interconectados como autoritarismo, negacionismo, extremismo religioso, cultura do ódio e silenciamento de vozes dissidentes. A demanda central que o trabalho almeja é espinhosa e difícil, refletindo a complexidade dos assuntos abordados.

A iluminação desempenha um papel crucial, funcionando quase como um personagem adicional. Há momentos de impacto visual significativo, como na cena da queda da mulher de branco após um disparo. No entanto, algumas escolhas cênicas são questionáveis, como a cena do estupro com a garota dormindo ou morta, que expõe violência de forma previsível abominável.

Sandra Rino em cena do espetáculo. Foto: Danilo Galvão / Divulgação

Kalash adota uma perspectiva experimental, mesclando técnicas de distanciamento brechtianas, elementos de autoficção e uso intensivo de recursos multimídia. Essa combinação visa criar uma experiência teatral que desafia as convenções, buscando um diálogo direto entre realidade, arte e teoria social, incorporando ideias de pensadores como Roland Barthes e Achille Mbembe.

Contudo, é nessa mesma ambição que Kalash encontra seus maiores desafios. O excesso de temas leva a uma exploração por vezes superficial, criando uma “poética de revolta” que nem sempre se traduz efetivamente na cena ou na performance dos atores.

Algumas cenas apresentam um caráter excessivamente explicativo, – na tentativa de expor seus conceitos e garantir que seus pontos de vista sejam compreendidos – potencialmente subestimam a capacidade interpretativa do público. O didatismo, mesmo que seja um recurso de repetição e estilo, soa problemático no caso, resultando em explanações redundantes.

Tatto Medinni e Bruna Luiza Barros. Foto Danilo Galvão / Divulgação

A estrutura da peça apresentou inconsistências na sessão no Teatro Apolo, dentro da programação do 23º Festival Recife do Teatro Nacional. A proposta inicial de apresentar três cenas do “porão” não se concretizou integralmente, com apenas duas sendo efetivamente mostradas. A da relação de uma tia com seu sobrinho sitiados em uma zona de guerra. E a do avô e sua neta em um carroça quando o homem é baleado. A terceira não aparece. Ficamos sem saber se isso resultou de problemas técnicos ou decisões deliberadas da direção.

Certas escolhas cênicas parecem gratuitas ou mal justificadas. O uso repetido de cigarros acesos, fumados e jogados ao chão por duas vezes, por exemplo, chega mais como um acinte desnecessário do que como um elemento que adiciona valor significativo à peça. Penso que cigarros só deveriam ser utilizados no teatro em casos excepcionais. Não me convenceu.

Da mesma forma, a pregação irônica do pastor que combate a milícia neopentecostal em sua igreja, embora potencialmente intenso, se dilui entre a crítica ao estereótipo e a reprodução do clichê. Protagonizado por Tatto Medini, este momento é apresentado de forma excessivamente enfática (gritada, às vezes), comprometendo a sutileza necessária para que a ironia surta efeito. A dramaturgia busca realizar um sofisticado trabalho de articulação da ironia como mecanismo crítico, mas falha em sua execução. Como resultado, o impacto pretendido se perde, e a proposta cênica não consegue se materializar de maneira efetiva.

A utilização de imagens e vídeos de guerras, fome, miséria e autoritarismo levanta questões sobre a eficácia e o impacto emocional dessas representações. Considero o conceito de “fadiga da compaixão” de Susan Moeller e as ideias de Susan Sontag sobre a “exaustão das imagens” para pensar um pouco mais  em Kalash. A profusão de imagens perturbadoras pode, paradoxalmente, diminuir seu impacto emocional, transformando o sofrimento retratado em um espetáculo que perde sua capacidade de provocar empatia e ação.

Moeller argumenta que a exposição contínua a imagens e narrativas de sofrimento, especialmente através de uma cobertura midiática sensacionalista, pode levar a uma exaustão emocional e dessensibilização do público. No contexto de Kalash, a profusão de imagens corre o risco de provocar essa fadiga da compaixão nos espectadores ou uma apatia dilatada.

A recepção do público, apesar dos aplausos, percebi como fria, com comentários críticos na saída do teatro, sugerindo um desacordo entre a aspiração artística da peça e seu plano em engajar o público.

Cena do porão, do sobrinho com a tia. Foto: Ivana Moura

Cena do porão, do avô com a neta. Foto: Ivana Moura

 

Ficha técnica:

Dramaturgia e direção: Quiercles Santana @quiercles
Atores- pesquisadores:  Bruna Luiza Barros @brunaluizabarros__ , Sandra Rino @rinosandra e Tatto Medinni @tattomedinni
Produção executiva: Carla Navarro
Preparação corporal: Tatto Medinni
Direção musical: Kleber Santana @klebersantana_bill
Designer de luz: Luciana Raposo @lucianaraposoluz
Coreografias: Sandra Rino
Arte gráfica e social media: Bruna Luiza Barros
Direção de arte: Coletivo Resiste!
Cenotécnico: Flávio Freitas @defreitasmendesflavio
Fotografias: @morgananarjara e @arreparavisse
Costura: @georgetebarlavento
Adereços: @tianemsan e @laylabarlavento

O Satisfeita, Yolanda? faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica,  apoiado pela produtora Corpo Rastreado, junto às seguintes casas : CENA ABERTA, Guia OFF, Farofa Crítica, Horizonte da Cena, Ruína Acesa e Tudo menos uma crítica

 

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O Beijo no Asfalto faz temporada no Apolo

Peça volta neste fim de semana e fica em cartaz no Teatro Apolo até 5 de junho. Foto: Américo Nunes

Peça volta neste fim de semana e fica em cartaz  até 5 de junho. Foto: Américo Nunes

Jornalista de batente, o dramaturgo Nelson Rodrigues conhecia bem os mecanismos da produção de notícias nas redações. E é demolidor ao compor personagens do métier. Em Viúva porém honesta julga tanto o publisher quanto o crítico teatral fisgado do reformatório. Em O Beijo no Asfalto, a imprensa inescrupulosa, na figura do repórter Amado Ribeiro, aliada à justiça submissa – representada pelo delegado Cunha, compõem um quadro de poder em que o cidadão comum pode ser caluniado, vilipendiado, coagido, destruído diante de uma sociedade hipócrita.

Parece até teatro do real.

Mas a peça O Beijo no Asfalto foi escrita 1961 especialmente para o Teatro dos Sete e estreou naquele ano, no Rio de Janeiro, sob direção de Gianni Ratto, com Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sérgio Britto e Ítalo Rossi no elenco, entre outros.

Na trama, um anônimo atropelado pede um beijo a um desconhecido, que foi em seu socorro após o acidente no trânsito num grande centro. O flagrante faz com que a curiosidade mórbida ganhe o lugar da indiferença que domina o caos da metrópole.

A vida do jovem Arandir, que atende ao último pedido do atropelado à beira da morte, se transforma num inferno. O repórter inescrupuloso e oportunista converte o ato de misericórdia em um caso de polícia com grande espaço na imprensa. Sem pudor em explorar com extrema crueldade, jornalistas e policiais sem ética invadem a privacidade da família, destroem a reputação de Arandir e fazem até com que nem mesmo a mulher do cidadão, Selminha, acredite na sua inocência.

A montagem acrescenta a obsessão pela internet. A cena é registrada por dezenas de pessoas munidas de aparelhos celulares e o caso ganha repercussão imediata nas redes sociais. O espetáculo reflete sobre a fabricação das celebridades instantâneas, ética e os meios de comunicação.

O espetáculo O Beijo no Asfalto utiliza do procedimento clássico do coro para expor facetas da sociedade que rumina opiniões, muitas vezes clandestinamente, nas redes sociais. São as manifestações sub-reptícias  de figuras sem identidade revelada, mas com os dentes afiados para condenar fatos e pessoas.

Assinada pelo diretor Claudio Lira, a encenação pernambucana estreou no Rio de Janeiro em agosto de 2012, como parte do projeto Nelson Brasil Rodrigues: 100 Anos do Anjo Pornográfico, organizado pela Funarte. Depois fez temporada no Recife e circulou por algumas cidades.

O Beijo no Asfalto volta neste fim de semana e fica em cartaz no Teatro Apolo, até 5 de junho, com sessões às sextas e sábados, às 20h, e aos domingos, às 19h. A temporada faz parte do projeto Nelson Rodrigues e o Óbvio Ululante (Temporada Jornalística de O Beijo no Asfalto), incentivada pelo Funcultura.

No elenco estão Arthur Canavarro, Andrêzza Alves, Eduardo Japiassu, Ivo Barreto, Pascoal Filizola, Sandra Rino, Daniela Travassos e Lano de Lins.

Ingressos antecipados pelo site www.eventick.com.br/temporada-de-o-beijo-no-asfalt.

FICHA TÉCNICA
Direção: Claudio Lira
Elenco: Andrêzza Alves, Arthur Canavarro, Daniela Travassos, Eduardo Japiassú, Ivo Barreto, Lano de Lins, Pascoal Filizola e Sandra Rino | Participações em Vídeo: Cardinot, Clenira de Melo, Cira Ramos, Márcia Cruz, Renata Phaelante, Sônia Bierbard e Vanda Phaelante
Voz da Locução: Gino Cesar
Música Final / Voz: Lêda Oliveira e Pianista: Artur Fabiano
Direção de vídeo cenário: Tuca Siqueira
Iluminação: Luciana Raposo
Cenário: Claudio Lira
Figurinos: Andrêzza Alves e Claudio Lira
Direção Musical e Preparação Vocal: Adriana Milet
Preparação Física e Coreografias: Sandra Rino
Fotografias: Caio Franco e Américo Nunes
Programação Visual: Claudio Lira
Produção Executiva: Renata Phaelante e Andrêzza Alves

SERVIÇO:
O Beijo no Asfalto
Onde: Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife. Fone: 3355 3321)
Quando: A partir desta sexta-feira (20/05) até 5 de junho. Sextas e sábados às 20h; e domingos, às 19h
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Duração: 1h30m
Indicação: 16 anos

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Escritura clássica no foco da Cia Fiandeiros

Companhia Fiandeiros de Teatro realiza segunda edição do projeto Espaço Fiandeiros Dramaturgia neste mês de junho

Companhia Fiandeiros realiza segunda edição do projeto de Dramaturgia neste mês de junho

A Companhia Fiandeiros de Teatro investe nos processos formativos em artes nesses 12 anos de trajetória. Em 2009, o grupo criou a Escola de Teatro Fiandeiros, que veio suprir uma demanda de formação artística no Recife. Para se ter uma ideia de que existe procura pelo aprendizado na área, somente neste semestre são cinco turmas e 119 alunos matriculados. E os aprendizes já participaram de 13 peças ao longo desses anos.

O texto teatral é uma preocupação constante da trupe. Tanto é assim que no seu repertório constam montagens com escrituras originais compostas a partir de pesquisas inspiradas na dramaturgia pernambucana: Vozes do Recife – um concerto poético (2004), O capataz de Salema (2005), Outra vez, era uma vez…. (2008) e Noturnos (2011).

De 16 a 19 de junho o grupo realiza a primeira etapa da segunda edição do projeto Espaço Fiandeiros – Dramaturgia, com incentivo do Funcultura. O programa é composto de leituras dramáticas dos textos clássicos Antígona, de Sófocles; O canto do cisne, de Tchekhov e A tempestade, de Shakespeare, seguido de debates. Além da palestra A dramaturgia clássica e o teatro contemporâneo: tensões, relações e interseções, com professor da UFPE Rodrigo Dourado, que vai contar com tradução simultânea em Libras.

As leituras serão interpretadas por atores profissionais e alunos da Escola de Teatro Fiandeiros. No segundo semestre haverá apresentação de solos a partir de personagens extraídos das leituras, com participação de diretores convidados.

Na primeira edição do projeto, em 2013, o foco foi sobre os textos inéditos de autores pernambucanos. Desta vez o grupo propõe reflexões e conexões entre história, sociedade, dramaturgia e contemporaneidade à partir dessas obras clássicas.

PROGRAMAÇÃO
Dia 16/06 (terça-feira), às 19h30
Palestra A dramaturgia clássica e o teatro contemporâneo: tensões, relações e interseções – com Rodrigo Dourado

Leitura dramática seguida de debate:

Dia 17/06 (quarta-feira), às 19h30
Antígona, de Sófocles
Direção: Daniela Travassos
Elenco: Sandra Rino, Ivo Barreto, André Riccari, Eduardo Japiassú e Lili Rocha

Dia 18/06 (quinta-feira), às 19h30
O canto do cisne, de Anton Tchekhov
Direção: Manuel Carlos
Elenco: Ricardo Mourão e André Filho

Dia 19/06 (sexta-feira), às 19h30
A tempestade, de William Shakespeare
Direção: André Filho
Elenco: Domingos Soares, Célio Pontes, Marília Linhares, Jefferson Larbos, Carlos Duarte Filho, Geysa Barlavento, Pascoal Fillizola, Manuel Carlos, Luís Távora, Wellington Júnior e Quiércles Santana.

FICHA TÉCNICA DO PROJETO
Concepção e coordenação geral: Daniela Travassos
Produção executiva: Renata Teles e Jefferson Figueirêdo
Estágio em produção: Tiago Gondin (Faculdade Senac)
Realização: Companhia Fiandeiros de Teatro / Espaço Fiandeiros

SERVIÇO
Espaço Fiandeiros – Dramaturgia
Quando: De 16 a 19 de junho, sempre às 19h30
Dia 16 de junho: palestra A dramaturgia clássica e o teatro contemporâneo: tensões, relações e interseções, com Rodrigo Dourado
Dia 17 de junho: leitura dramática de Antígona, de Sófocles + debate
Dia 18 de junho: leitura dramática de O canto do cisne, de Tchekhov + debate
Dia 19 de junho: leitura dramática de A tempestade, de Shakespeare + debate
Onde: Espaço Cultural Fiandeiros: Rua da Matriz, 46, 1º andar, Boa Vista, Recife
Quanto: Entrada franca
Informações: (81) 4141.2431

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