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“A memória é uma força, não um fardo.”*

Arqueologias do presente – A batalha da Maria Antônia. Foto: Jennifer Glass

X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo

A citação que intitula esse texto é um comentário do programa da exposição de Tadeusz Kantor, atualmente em cartaz no Sesc Belenzinho, a que tive oportunidade de assistir logo antes da apresentação de Arqueologias do presente – A batalha da Maria Antônia do grupo Opovoempé na Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo. Menciono aqui a exposição não apenas para contextualizar a citação, mas para lembrar que a recepção de uma obra é sempre trabalhada pela sua poética. O estado do corpo em uma exposição que nos interessa é uma mistura interessante de atenção e distração. O início desse trabalho do Opovoempé opera a passagem para esse estado.

O espaço cênico é formado por mesas, painéis, paredes e um espaço vazio, com o número 68 no centro de uma forma circular, em referência ao ano de 1968. Os painéis contêm frases que enquadram os tópicos propostos com documentos de diferentes procedências: cópias de matérias de jornal, artigos publicados nos anais da AMPUH, monografias, impressos de páginas na Internet, projetos de lei, um mapa cujas ruas devem ser renomeadas, etc. Nas mesas, jogos e outros documentos como livros e dispositivos de áudio com fones de ouvido para cada um ler ou escutar gravações de discursos ou depoimentos acerca da ditadura militar no Brasil e da situação análoga em outros países latino-americanos.

Entre os livros, me chamaram a atenção os de Educação Moral e Cívica em uma mesa que lembra uma mesa de professor na sala de aula, com aquela típica bandeirinha do Brasil. Sobre a mesa, uma sinalização que dizia algo como “Criança Anos 70”. Tendo nascido em 1976, me lembro de ter aula de Moral e Cívica, mas não me lembrava do conteúdo dessas aulas. Em dois livros, encontrei narrativas – pretensamente históricas – sobre índios. Em um deles, uma narrativa praticamente eliminava os índios do Brasil, falando deles no pretérito: “O índio, que era o homem primitivo do Brasil, vivia, na oportunidade da descoberta deste, no regime da mais rudimentar cultura, aproximando-se esta, da Idade da Pedra.” Tirei uma foto da página para não esquecer, mas não tenho a referência bibliográfica.

Acima, dei ênfase ao fato de que se tratam de narrativas “pretensamente” históricas porque a premissa básica da escrita da história é o compromisso com a verdade. Só que não em países que sofreram processos ditatoriais. Nesses casos, a história, bem como parte significativa do jornalismo, serve para criar ficções de acordo com interesses específicos. O trabalho do grupo Opovoempé me aprece apresentar a ideia da construção deliberada de discursos mentirosos ao oferecer essas evidências para o espectador encontrar de uma forma que prescinde de qualquer estratégia de convencimento.

Depois de um tempo em que os espectadores estão no espetáculo como se estivessem em uma exposição ou em uma sala de jogos, um dos atores inicia um jogo em que os espectadores respondem a perguntas ao se deslocar no espaço, de acordo com o grupo a que pertencem. Por exemplo: o ator propõe que quem nasceu antes de 1964 deve ficar no ponto X e quem nasceu depois, no outro X. Assim, com algum humor, vai se apresentando uma espécie de cartografia da formação do público. Com esse movimento, os espectadores trocam olhares, riem, às vezes aplaudem o outro grupo ou o reprimem em tom de brincadeira. Os atores administram o tempo das propostas com tranquilidade e com isso o público vai se adequando ao tempo de permanecer, que também é o tempo de escutar. Até que parte do elenco começa a narrar os fatos da Batalha da Maria Antônia. Eles estão com fones de ouvido e falam na medida em que escutam depoimentos gravados. A preparação do ritmo interno do espectador me parece bem eficaz, embora tenha ficado com a impressão de que o público, no dia da apresentação que eu vi, estava excessivamente tímido para a proposta da peça.

O espaço cênico é formado por mesas, painéis, paredes e um espaço vazio, com o número 68 no centro

O espaço cênico é formado por mesas, painéis, paredes e um espaço vazio, com o número 68 no centro

Os criadores de Arqueologias do presente se propõem um risco real quando optam por fazer a temperatura do espetáculo depender bastante do público de cada dia. Para o bem ou para o mal das apresentações isoladamente, é interessante que a poética do espetáculo tenha essa dimensão de risco e essa abertura concreta para o trajeto de pensamento que o espectador vai percorrer.

De qualquer modo, penso que a forma como a peça lida com o espectador é exemplar do desejo de convívio e partilha que o trabalho propõe. Até nos momentos em que um ou outro ator faz uma pergunta diretamente para um espectador, o tom é de conversa, não de interrogatório nem de desafio. A relação é sempre horizontal. Mesmo quando eles tomam a palavra para dar os depoimentos, a fala é entre iguais, sem pretensão de autoridade.

Vejo duas formas documentais distintas na peça. A primeira é composta pelos objetos, por coisas materiais, por imagens e textos impressos. A outra é feita de vozes, depoimentos falados, entonações, expressões físicas do corpo, pessoas reais. É como se a peça nos convidasse a escutar a história de outra maneira, convocando uma humanidade, um corpo a corpo para esse processo.

Em determinado momento, um dos atores perguntava qual era o X da questão, indagando o porquê das coisas estarem como estão. Talvez seja possível responder que há um vício tautológico geral de dizer que as coisas estão assim porque sempre foram assim. E o que vemos com essa e outras peças que buscam formas singulares de lidar com a história é, primeiramente, o obvio: que o país em que vivemos agora é o resultado do projeto de cinco décadas atrás. Mas a peça também sugere que a força da memória pode ser a de entender que se as estruturas que (ainda) cultivam a violência e a ignorância são uma construção, também podemos acreditar na sua desconstrução e trabalhar por ela.

Temperatura do espetáculo depende bastante do público

Temperatura do espetáculo depende bastante do público

*Crítica escrita por Daniele Avila Small – Questão de Crítica/DocumentaCena**
**A DocumentaCena – Plataforma de Crítica articula ideias e ações do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena. Esses espaços digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, críticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo (2014); e do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).

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Falemos exaustivamente daquele (do nosso) tempo

 Arqueologias do presente – A batalha da Maria Antônia. Foto:  Jennifer Glass

Arqueologias do presente – A batalha da Maria Antônia. Foto: Jennifer Glass

X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo

Se a ignorância aprisiona as possibilidades do sujeito, o conhecimento é capaz de transformá-lo. Como já pregava Paulo Freire, a maneira mais efetiva de construir esse conhecimento talvez seja respeitando individualidades, levando-se em conta o que enxergamos do mundo ao nosso redor e as nossas potencialidades como seres em desenvolvimento. Sabedores disso, os atores do grupo Opovoempé, de São Paulo, propõem a experiência e a partilha no espetáculo Arqueologias do presente – A batalha da Maria Antônia como forma de reconstituir o que foram os anos da Ditadura Militar no Brasil, tendo como elemento disparador da dramaturgia a batalha entre estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, no ano de 1968.

Quando entra no espaço cênico, uma instalação visual, o público logo se depara com um local repleto de informações e proposições; e, sendo assim, com a necessidade real de se fazer presente efetivamente na construção daquela experiência, baseada prioritariamente na informação. A responsabilidade é dividida entre todos que, de alguma forma, se percebem integrantes de um sistema que só funciona com a colaboração e a participação consciente: algo está sendo elaborado em conjunto, somos todos coautores de um processo que trata da apropriação da nossa própria história.

Notícias de jornais, documentos, livros e estudos estão disponíveis ao público

Notícias de jornais, documentos, livros e estudos estão disponíveis ao público

Nas várias mesas dispostas no Anexo do Centro Cultural São Paulo, na X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, jogos propunham a convivência e a discussão a partir de diferentes questões. Em determinada mesa, as pessoas debatiam como seria a sociedade ideal. O que de fato poderia caracterizar essa sociedade? Haveria a presença do Estado? O trabalho se faz necessário? Logo ali ao lado, no jogo de cartas, a proposta era elaborar construções de pensamentos a partir de determinadas palavras-chave. No jogo da memória, as imagens se sucedem em associações, em negociações semânticas. Enquanto uns jogavam, outros caminhavam pelo espaço, se demorando nos painéis com manchetes de jornais, nos livros, nas imagens, nos áudios disponíveis.

Através de depoimentos reais, os atores reconstroem o que foi o episódio da Rua Maria Antônia, quando estudantes de direita e de esquerda se enfrentaram com a conivência do poder estabelecido, causando muita destruição, pavor e morte. O prédio da antiga Faculdade de Filosofia da USP era considerado um reduto de resistência ao regime militar. Outras histórias se sucedem para fazer perceber o que de fato acontecia naqueles anos de repressão, como era comum que alguém desaparecesse, como alguém do alto escalão do Exército poderia estar sentado ao seu lado na sala de aula, como um professor, um catedrático, era espancado em plena luz do dia.

Opovoempé constrói um espetáculo de teatro documentário pleno de potência justamente porque se revela capaz de fazer refletir não só sobre os fatos históricos, mas aponta os indícios do quanto o passado ainda se configura como presente na sociedade brasileira. A nossa democracia impregnada por resquícios de um regime ditatorial. Somos capazes de pensar o nosso presente e as suas mazelas justamente a partir do empoderamento trazido pela consciência do que já passamos como coletividade. Nesse sentido, a montagem se faz ainda mais necessária quando percebemos, entre o público, a presença de muitos jovens, crianças até, que só ouviram falar da ditadura pelos livros de história, pelo professor do colégio.

Se vivemos novamente um momento de crise ideológica, se nos assustamos e nos sentimos perplexos quando o vizinho levanta a bandeira da volta da ditadura militar, o presente nos exige posicionamentos, exatamente como naqueles anos de repressão declarada, quando não havia a possibilidade de manter qualquer tentativa de imparcialidade. O trabalho do Opovoempé nos faz perceber o quanto ainda precisamos tratar de forma quase exaustiva de ditadura, dos nossos traumas, da nossa história. Talvez na experiência de contar e recontar e contar de novo, possamos de alguma forma nos libertar e construir novas perspectivas de presente.

O conflito entre estudantes foi contado através de depoimentos

O conflito entre estudantes foi contado através de depoimentos

Arqueologias do presente é um carimbo de quanto a arte é fundamental nesse processo de construção de memória coletiva. Cada vez que nos apropriamos dos acontecimentos do passado, estamos mais aptos a dialogar com as experiências do hoje, que não se revelam menos opressoras. Que liberdade queremos? A nossa realidade carece dessa capacidade de interpretação. Como lidar diariamente com os “Amarildos”? Com o fato de que grande parcela da população não tem o menor apreço pelos direitos humanos? Com o fato de que seu parente policial militar, na conversa na roda de amigos, diz que, sim, tortura bandido.

As memórias da ditadura precisam ser expostas, com urgência, como forma de resistência e luta contra uma política do esquecimento que não tem a menor intenção de nos empoderar. Na experiência artística circunscrita pelo tempo finito, em pouco mais de uma hora e meia de duração do espetáculo, encontramos, como um respiro, mesmo que doído, a possibilidade de convivência e de superação de realidades. Estamos tratando aqui de um teatro absolutamente necessário. O público impregnado nem aplaude, como se não coubesse o êxtase depois daquela partilha sensível. Vai saindo aos poucos… mas os resquícios permanecem em cada um. E isso não pode ser mensurado.

Ficha Técnica
Concepção, direção e dramaturgia: Cristiane Zuan Esteves
Atores criadores: Manuela Afonso, Ieltxu Martinez, Mariana Senne / Atriz convidada: Andrea Tedesco
Iluminação: Grissel Piguillem
Direção de arte: Vânia Medeiros
Direção de produção: Manuela Afonso e Anayan Moretto
Núcleo artístico opovoempé: Ana Luiza Leão, Cristiane Zuan Esteves, Manuela Afonso, Paula Possani

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***A cobertura crítica da X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo é uma ação da DocumentaCena – Plataforma de Crítica, que articula ideias e ações do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena. Esses espaços digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, críticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo (2014); e do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).

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Santo forte de Caymmi

Espetáculo Dorival Obá, da companhia Vias da Dança. Foto Ivana Mour

Espetáculo Dorival Obá, da companhia Vias da Dança. Foto: Ivana Moura

mbd-22233Dorival Obá combina mistérios com cores e musicalidade baiana de Caymmi. É uma peça-homenagem da companhia Vias da Dança, do Recife, com coreografia repleta de alusões ao candomblé e aos orixás. A pesquisa do grupo dirigido por Heloisa Duque e o lema da encenação mostram que esse filho de Xangô foi largado por sua mãe quando contava 3 anos. No terreiro de candomblé conectou o material simbólico para compor sua música. Os traços alegres de seu repertório estão repletos dessa Bahia mística e esperançosa. A preguiça chega como um estado de espírito embalada pelo calor e leveza do lugar. As mulheres de saia que o educaram entre mandingas e cantigas de roda do candomblé são guias desse percurso. Dorival Obá é uma conjunção desses elementos. É uma dança sensorial, imagética, emotiva. Carrega uma potência nervosa. Uma força explosiva.

A montagem participou da programação do 12º Festival Brasileiro de Dança e fez uma única apresentação no Teatro Hermilo Borba Filho. No palco praticamente limpo, um biombo ao fundo guardava o momento da sombra do bailarino projetada sob uma luz avermelhada. As oferendas foram instaladas na parte do espaço mais próxima do público. Em artefatos de barro, alimentos-símbolos como o quiabo faziam a função de proteger e lembrar.

A coreografia – do bailarino e ator Juan Guimarães – é forte, com um acento masculino. Leva para o palco o balanço do mar, a devoção a Xangó, as bênçãos e proteção. Dançam em Dorival Obá os bailarinos Thomas de Aquino Leal, Júlia Franca, Natália Brito, Rayssa Carvalho e Simone Carvalho.

No canto de Caymmi, o balanço das ondas do mar inunda o corpo dos bailarinos. Na encenação, a companhia utiliza depoimentos de Dorival em áudio, a partir de entrevistas que ele concedeu, além de músicas como É doce morrer no mar, Samba da minha terra, O que é que a baiana tem e Canto de Nanã e trechos de percussão. A trilha sonora é assinada por Henrique Macedo.

O desenho coreográfico está impregnado de uma partitura de religiosidade e de sacrifício. Gestual de iniciação e possessão é executado em várias situações. Os braços voam ou se quedam em reverência. Vibram em energia.

Coreografia é assinada pelo ator e bailarino Juan Guimarães

Coreografia é assinada pelo ator e bailarino Juan Guimarães

O corpo e o movimento exalam referências africanas, transfiguradas pela dança contemporânea. É um corpo de culturas ancestrais. Na desconstrução desse corpo, a bacia celebra o jogo do desencaixe, a coluna flexível.

A oração se faz corpo. Um corpo dilatado, que negocia (ou guerreia) com a oposição. Ou abraça o desequilíbrio. Nessa dança de elementos ritualísticos, os pés pensam. Do chão retiram a potência dos orixás.

E não se pode pensar em Xangô, sem pensar em poder. O prazer de Xangô é o poder. Há toda uma movimentação de Oxés (machados duplos) invisíveis, simulações de golpes. Sem descartar a virilidade e agressividade do santo africano, um guerreiro por natureza, que rasga o espaço para frente.

Entre o canto e a reza, o mar e seus encantos, os atabaques repicam e aceleram o ritmo. A voz de Caymmi insufla de energia, de veneração, marca outro tempo e o corpo do dançarino segue o desafio. O tom dos figurinos é avermelhado puxando para o marrom numa celebração ao orixá.

E como poetiza sobre Dorival o compositor Paulo César Pinheiro: “…Caymmi é um deus do mar reencarnado / por isso é que seu canto é uma oração…” E a Vias da Dança produz um espetáculo vivo, alegre que agencia com a espiritualidade mais festiva.

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A repressão risível do desejo

As Bondosas, com os atores Leandro Mariz, Sidcley Batista, Gerson Lobo. Fotos: Ivana Moura

As Bondosas, com os atores Leandro Mariz, Sidcley Batista, Gerson Lobo. Fotos: Ivana Moura

logo garanhunsSidcley Batista, Gerson Lobo, Leandro Mariz e Tom Pires são quatro artistas pernambucanos que migraram para o Rio de Janeiro para trabalhar com arte. Eles são os três atores e o diretor da peça As Bondosas, da Cia SOS de Teatro Investigativo, que foi apresentada nessa terça-feira, no 25º Festival de Inverno de Garanhuns. Ao final da sessão, Gerson Lobo dedicou o espetáculo ao artista de teatro pernambucano, na intenção de que ele seja valorizado aqui e não precise sair para só ser reconhecido pelas instituições quando está lá fora. Recado dado.

Espetáculo lotou o Teatro Luiz Souto Dourado e ainda voltaram cerca de 200 pessoas

Espetáculo lotou o Teatro Luiz Souto Dourado e ainda voltaram cerca de 200 pessoas

As Bondosas do título são Prudência (Sidcley Batista), Angústia (Gerson Lobo) e Astúcia (Leandro Mariz). Essas mulheres contratadas para prantear os mortos alheios guardam vontades secretas, presas por represas frágeis e por isso prestes a explodir.

A história das três carpideiras é à primeira vista muito engraçada. Mas traz em si uma dobra de reflexão, quando impregnam no corpo dessas figuras noções de pecado e de uma moral castradora. As frases absurdas causam aquele efeito risível, se as posições retrógradas são consideradas como um quadro distante da realidade da plateia.

É uma longa jornada noite adentro em que as rezadeiras são atingidas pelo desprezo da família da menina morta. E entre cânticos piedosos, elas julgam o grupo social que as contratou e passam a fazer conjecturas sobre traições, ligações clandestinas e até mesmo as razões da jovem defunta. E algo detona dentro delas, que revelam em doses homeopáticas seus próprios segredos.

Pelos julgamentos morais, pelos interditos parece que essas personagens se encontram num Brasil distante no espaço e no tempo. E como seria bom que fosse assim. Que as mulheres travadas em seus desejos estivessem só no palco. Que os julgamentos morais fossem apenas farsa a divertir o público com aquele tratado absurdo.

Na peça, essas três mulheres de reputação ilibada são dosadas em gradações de sua fé no ofício. Prudência é a mais conservadora, pronta a regular as outras duas do caminho a ser seguido. Astúcia é a mais vulnerável, a que está mais propensa a romper com aquele acordo para liberar os íntimos desejos. E Angústia é a indecisa, pendendo ora para um lado, ora para outro.

O texto de Ueliton Rocon lembra as figuras castas, culpadas e transbordantes de preconceitos de Nelson Rodrigues, com suas camadas de instintos prestes a arrebentar. Mas sem a profundidade do autor de Doroteia; Senhora dos Afogados e Perdoa-me Por Me Traíres.

A direção explora bem os recalques dessas senhoras castíssimas, que dizem que não se veem peladas para não despertar a vaidade. E sabe tirar partido de uma gestual de comunicação direta com a plateia, mantendo o jogo de cena vibrante.

O trio se movimenta carregando pequenos caixotes e traçando desenhos no palco. Os tais caixotes, juntos ou separados, traçam os lugares narrativos, e ajudam na transformação da cena. Os figurinos carregam em si a subversão que virá.

Humor cáustico para falar de desejos reprimidos.

Humor cáustico para falar de desejos reprimidos.

A interpretação dos três atores é o grande destaque de As bondosas, com a mudança de tom, com um gestual bem estruturado (inclusive com sutis movimentações de cabeça) e a força cômica do espetáculo em vários relevos. Dos pecados que elas condenam, a gula e a fofoca são os primeiros que jorram, num jogo de patrulhamento moral. Um par sapatos vermelhos é o detonador da luxúria, que explode dessas “almas ilibidas” dos confins do mundo.

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Folia cênica para Gonzagão

Rei do Baião é celebrado com cores, som e paixão. Fotos: Ivana Moura

Rei do Baião é celebrado com cores, som e paixão. Fotos: Ivana Moura

logo garanhunsO público de Garanhuns já estava totalmente nocauteado, no bom sentido, conquistado, entregue, emocionado, agradecido com o espetáculo Gonzagão – A Lenda, de João Falcão. Para dar o arremate final, o carioca de origem paraibana Marcelo Mimoso canta Onde o Nordeste Garoa, de Luiz Gonzaga, já nos agradecimentos. Ele, que era taxista e vocalista de uma banda de forró e foi levado para o teatro por Falcão, se disse muito honrado em se apresentar na terra de Dominguinhos. Era o que faltava para consolidar o clima sentimental para a plateia de quase duas mil pessoas, que lotou o Palco Pop, na noite de sexta-feira do Festival de Inverno de Garanhuns.

O musical foi concebido para celebrar Luiz Gonzaga, o Rei do Baião (1912-1989), no centenário de seu nascimento. Já tem muitos quilômetros de estrada. A adesão do público é alta por onde passa. Uma cena vibrante, com uma trilha sonora bem executada e um elenco afinado a contar de um jeito bem particular a trajetória de um herói da música brasileira.

João Falcão embaralha a trajetória do Rei do Baião com a de uma trupe, Barca dos corações partidos, que mambemba com a história de Gonzagão. O dramaturgo e diretor se afasta de uma concepção biográfica ou de um compromisso com a verdadeira história de Gonzaga. Não é um espetáculo documental e muitas das quadros foram inspirados em causos que o próprio Luiz Gonzaga contava em seus shows.

E isso fica claro desde o início do espetáculo, quando o elenco entoa em versos: “Quase tudo que sabemos / Do nosso protagonista / Vem de gerações extintas / De um tempo a perder de vista / O resto nós deduzimos / Juntando pista com pista / Por Deus, perdoem os deslizes / Que certamente virão / As imprecisões dos fatos / Os erros de condução / As relevantes ausências / No enredo desse baião”.

A fluidez dramatúrgica é equalizada por uma encenação ágil, bem-humorada, de uma musicalidade contagiante. Falcão acelera o texto com flashes da história do protagonista real/ficcionado, em que os atores assumem vários papeis e a troca entre eles se dá como uma passagem de bastão imaginário. É uma profusão de informações, sem ordem cronológica, permeados por lindas músicas e uma movimentação de cena em ritmo alucinante.

Marcelo Mimoso e Larissa Luz como Gonzagão e Branca

Marcelo Mimoso e Larissa Luz como Gonzagão e Branca

A outra “subtrama” é da atriz que vira a cabeça de todos integrantes do grupo. Mas nessa trupe, segundo o líder não há espaço para a mulher, porque ela desestrutura o ambiente. A atriz e cantora Larissa Luz no papel de Branca não se intimida e sai com os versos “Que diferença da mulher o homem tem? Espera aí, que eu vou dizer, meu bem! Se Eva deu mancada, Adão também deu!”, em Pouca Diferença, com pegada de jazz. A intérprete transborda de energia, sensualidade e vigor e colabora para manter um espetáculo pra cima.

Até tornar-se uma lenda, Gonzagão encara muitas aventuras, que são traduzidas no palco nesses dramas curtos, justapostos, com as canções conduzindo as cenas. Das melodias choradas da sanfona, são apresentadas quase 40 composições, entre elas, Cintura fina, O xote das meninas, Qui nem jiló, Xamego, Baião, Olha pro céu e Asa Branca. Os arranjos musicais tomam outras ousadias, como Roendo Unha como drum’n’bass e Assum Preto como uma peça para violoncelo e voz.

No elenco estão Marcelo Mimoso, Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Thomas Aquino, Renato Luciano , Ricca Barros e Larissa Luz, além dos músicos Rick de La Torre, Daniel Silva, Beto Lemos e Rafael Meninão.

Encontro de Gonzagão e Gonzaguinha em Sangrando

Encontro de Gonzagão (Marcelo Mimoso) e Gonzaguinha (Alfredo Del-Penho) em Sangrando

O reencontro entre Gonzaguinha e Gonzagão é um momento especial e ganha um tom emotivo por tudo que o público sabe, ou imagina, sobre pai e filho. Os atores Marcelo Mimoso e Alfredo Del-Penho dividem a música Sangrando.

Adrén Alves, Ricca Barros e Renato Luciano, no musical que celebra o Rei do Baião. Fotos: Ivana Moura

Adrén Alves, Ricca Barros e Renato Luciano, no musical que celebra o Rei do Baião.

O ator Adrén Alves carrega na garganta vários timbres. Com sua aparência andrógina, ele desliza por personagens masculinos e femininos com muita facilidade. Assume o papel de Santana, a mãe de Gonzaga, se traveste de demônio, ou se queda amorosamente apaixonado. O pernambucano Thomas Aquino (que já foi do Cordel do amor sem fim) trafega com desenvoltura por vários personagens.

A movimentação cênica de Duda Maia enche o palco, com o entra e sai de atores, que carregam os elementos de cada cena. Sergio Marimba, que assina a cenografia e os adereços, criou as sanfonas cenográficas, que produzem um belo efeito. Os figurinos, com seu acento clownesco, são de Kika Lopes.

Nessa celebração à vida, João Falcão inventou um encontro que nunca ocorreu: entre Luiz Gonzaga e Lampião. É uma peleja bem interessante que traz para a peça as experimentações temporais do diretor.

Depois de um solo de rabeca comovente de Beto Lemos, o musical encerra em tom apoteótico, otimista, arrebatado, com Óia eu aqui de novo.

A trupe inteira fica "louca" por Branca.  O primeiro da esquerda é o pernambucano Thomas Aquino

A trupe inteira fica “louca” por Branca. O primeiro da esquerda é o pernambucano Thomas Aquino

* A jornalista Ivana Moura viajou a convite do 25º Festival de Inverno de Garanhuns

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