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Investigação da palestra-performance: interseção entre a criação artística e o pensamento crítico

Espetáculo Se eu Falo é Porque Você Está Aí, do Teatro do Concreto. Foto: Thiago-Sabino

Daniele Avila Small apresenta Palestra-performance Crítica de Artista nesta segunda-feira (09/11) às 17h, com  provocação da pesquisadora em dança Ivana Menna Barreto e mediação do produtor e curador Paulo Mattos

“A palestra-performance é uma forma híbrida em que os dispositivos de exposição não são concebidos como simples instrumentos subordinados à transmissão de certas ideias; seu efeito performativo é explorado cenicamente de diversas maneiras”, conceitua resumidamente o dramaturgo e pesquisador Marco Catalão, que trabalha o tema em seu pós-doutorado. O alcance, profundidade e variações da linguagem da palestra-performance são investigados na edição de 2020 do Complexo Sul, plataforma de intercâmbio internacional de artistas da cena teatral, que tem como proposta desenvolver o trabalho criativo, a partir da reunião de encenação, dramaturgia e pensamento crítico. A curadoria é assinada por Felipe Vidal e Daniele Avila Small, diretores artísticos do Complexo Duplo, associados ao curador e produtor Paulo Mattos.

A artista pesquisadora, crítica e curadora teatral Daniele Avila Small apresenta Palestra-performance, Crítica de Artista nesta segunda-feira (09/11) às 17h (horário de Brasília) no Palco Virtual do Itaú Cultural. Ela analisa a linguagem da palestra-performance como uma forma de crítica do artista, assim como um exercício prático de criatividade teórica para fomentar a reflexão crítica sobre as complexidades do mundo e da arte. Com mediação do produtor e curador Paulo Mattos, a mesa conta com provocação da criadora, professora e pesquisadora em dança e performance Ivana Menna Barreto.

A programação começou dia 2 com o artista plástico, músico e artista interdisciplinar paulista André Sztutman Integrante da plataforma Experimenta/Sur, da Colômbia, que tratou do Arquivo como Estratégia de Criação. O artista, diretor e pesquisador Francis Wilker, professor da Universidade Federal do Ceará foi o provocador convidado do encontro e a mediação foi feita por Daniele Avila Small.

A Palestra-performance na Dramaturgia Contemporânea é tema do terceiro encontro dessa edição, comandado pela romancista, dramaturga e diretora de teatro Cynthia Edul e pelo artista do teatro, literatura e música Ariel Farace, representantes da Panorama Sur, da Argentina. A mesa do dia 16/11 tem Felipe Vidal na mediação e provocações de Renan Ji, da revista eletrônica Questão de Crítica. Uma contextualização da palestra-performance a partir da virada performativa dos anos 1960 e uma análise do trabalho de artistas libaneses, como Walid Raad y Rabih Mroué, e do grupo mexicano Lagartijas al Sol estão na pauta de discussões.

Espetáculos

Uma mostra de espetáculos também faz parte da programação da 2ª edição da Complexo Sul. Artistas e grupos convidados apresentam palestras-performances criadas especialmente para estrear online no evento, seguida de debates.

Nesta terça-feira (10/11), às 20h, a peça Se eu Falo é Porque Você Está Aí, do grupo brasiliense Teatro do Concreto, cria um trajeto por obras que já não existem, na capital do país em constante transformação. O grupo reforça que “os espaços se lembram de tudo”. Da inauguração de Brasília, em 1960 aos momentos da história como os caras pintadas e impeachment de Fernando Collor, em 1992. Histórias do macro e do microcosmo se entrelaçam. Como o episódio de uma atriz que pediu um minuto de silêncio pelos meninos da Candelária durante espetáculo numa oficina mecânica, em 2006, e posteriormente decidiu não fazer mais teatro. Essa oficina foi destruída em 2015. Depois da apresentação tem bate-papo com o pesquisador, ator e crítico teatral mineiro Guilherme Diniz, mediado pelo diretor de teatro, ator, dramaturgo e tradutor Felipe Vidal.

SERVIÇO:
2ª edição da Complexo Sul
Mesa Palestra-performance, Crítica de Artista
9 de novembro (segundas-feiras), às 17h
retirar o convite até 30 minutos antes no link: https://www.sympla.com.br/complexo-sul-2020—mesa-2–palestra-performance-critica-de-artista__1026025

Espetáculo Se eu Falo é Porque Você Está Aí 
https://www.sympla.com.br/complexo-sul-2020—espetaculo–se-eu-falo-e-porque-voce-esta-ai__1025926
Dia 10 de novembro (terças-feiras), às 20h
Online e ao vivo via Zoom

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Oficinas gratuitas no Trema! Festival de Teatro

Daniele Ávila Small ministra ofcina sobre teatro documentário. Foto: FTC

Daniele Avila Small ministra oficina sobre teatro documentário. Foto: FTC

Teatro Documentário Contemporâneo Ibero-Americano, com Daniele Avila Small (RJ); Deriva + participação no espetáculo Orgía, com o Teatro Kunyn (SP) e O Corpo Expressivo – Masterclass de movimento, com André Braga (Portugal) são as três oficinas gratuitas oferecidas pelo Trema! Festival de Teatro, no início de maio. Boas oportunidades de diálogos e vivências para os artistas da cena pernambucana. As inscrições estão abertas até o dia 28 de abril, sexta-feira próxima no link: https://www.tremafestival.com.br/oficinas-e-debates .

No teatro-documentário, as montagens se valem de documentos (escritos, orais, audiovisuais), mas não descartam a invenção. É um campo amplo que inclui muitas possibilidades cênicas, da peça-palestra, a peça-processo, o biodrama, a performance autobiográfica, o teatro-tribunal entre outras. – que tem potencializado o teatro no mundo inteiro.

De 5 a 7 de maio, a crítica, diretora e dramaturga Daniele Avila Small traça um arcabouço teórico para dissecar obras na oficina Teatro Documentário Contemporâneo Ibero-Americano, no Sesc Santa Rita, das 10h às 13h. Estão na pauta de discussão o conceito de historiografia de artista, o testemunho na primeira pessoa e o corpo como documento, a descolonização do saber no teatro documentário e a relação do teatro documentário com os estudos de história pública. Tudo numa perspectiva crítica.

Daniele Avila Small é a encenadora do “documentário de ficção” Há Mais Futuro Que Passado, uma dramaturgia criada coletivamente por ela, Clarisse Zarvos e Mariana Barcelos, que se dedica a refletir sobre o lugar da mulher latino-americana na história da arte.

Doutoranda em Artes Cênicas pela UniRio, idealizadora e editora da revista eletrônica Questão de Crítica e autora do livro O crítico ignorante – uma negociação teórica meio complicada, publicado pela Editora 7Letras, ela lembra que a oficina pode interessar também ao pessoal de cinema e de história.

orgia-3-atores

Oficina Deriva vai selecionar 12 atores para integrar peça Orgía ou de Como os corpos podem substituir as ideias

Doze atores do sexo masculino, maiores de 18 anos, serão selecionados para a oficina Deriva, para atuarem junto com o Teatro Kunyn na recriarão o segundo ato do espetáculo OrgÍa ou de como os corpos podem substituir as ideias no Recife, com sessões nos dias 10, 11 e 12 de maio, a partir do Espaço Pasárgada, às 15h. O espetáculo OrgÍa discute a homoafetividade na esfera pública e vasculha a reação da cidade diante da multiplicidade de desejos.

As digressões erótico-sociológicas do então professor de teatro na Universidade Federal de Pernambuco Túlio Carella, ancoradas nas ruas da Recife dos anos 1960, estão na base do espetáculo Orgía Ou De como os corpos podem substituir as ideias. Livremente inspirado nos diários íntimos, em que o heterônimo de Carella, Lúcio Ginarte, registra suas aventuras sexuais com anônimos populares e seus diálogos com intelectuais.

Para participarem de Deriva, os atores devem ter disponibilidade integral durante os seis dias de oficina (de 07 a 12 de maio) . O grupo já avisa que faltas ou atrasos eliminarão os atores da atividade.

A peça vai começar num espaço fechado, onde público conhece melhor o personagem principal, interpretado pelos atores Ronaldo Serruya, Paulo Arcuri e Luiz Gustavo Jahjah. E depois segue em uma jornada sensorial pelas ruas do Recife, utilizando aparelhos de MP3. A peça conta com direção de Luiz Fernando Marques (Grupo XIX de Teatro).

André Braga coordena trabalho criativo para performance

André Braga coordena trabalho criativo para profissionais e estudantes de artes performativas

O Corpo Expressivo Masterclass de movimento será desenvolvida pelo português André Braga, no dia 4 de maio, no Teatro Barreto Júnior, das 15h às 17h. Com exercício físicos e propostas de improvisação, o professor sinaliza pistas de criação. O programa está dirigido para profissionais ou estudantes de artes performativas.

SERVIÇO

OFICINA 1
TEATRO DOCUMENTÁRIO CONTEMPORÂNEO IBERO-AMERICANO

com Daniele Avila Small (RJ)
Dias 05, 06 e 07 de maio | Sesc Santa Rita | 10h às 13h
Gratuita. Inscrição via formulário até o dia 28 de abril de 2017 no https://www.tremafestival.com.br/oficinas-e-debates.

OFICINA 2
DERIVA + participação no espetáculo ORGÍA

com o Teatro Kunyn (SP)
Dias 07 a 12 de maio, no Espaço Pasárgada
dia 08 e 09 de maio – 15h30 às 18h30 (domingo)
dia 07 de maio – 13h30 às 18h30 (segunda e terça)
dia 10, 11 e 12 de maio – 13h30 às 18h30 (apresentações do ORGÍA)
Atenção: É necessário que os atores selecionados tenham disponibilidade integral nos horários mencionados durante os 06 dias de oficina. Faltas ou atrasos implicarão na não participação dos atores na atividade.
ATENÇÃO 2: Faz-Se Necessário Anexar 2 Fotos do Candidato.
Perfil do público: Atores do sexo masculino maiores de 18 anos.
Número de vagas: 12 vagas.
Recomendações aos participantes: Os participantes devem levar protetor solar, roupas leves, aparelho celular com bluetooth e fone de ouvido. Atividade realizada ao ar livre.
Gratuita. Inscrição via formulário até o dia 28 de abril de 2017 https://www.tremafestival.com.br/oficinas-e-debates.

OFICINA 3
O CORPO EXPRESSIVO Masterclass de movimento

com André Braga (PORTUGAL)
Dias 04 de maio | Teatro Barreto Júnior | 15h às 17h
Duração: 2 horas Público alvo: profissionais ou estudantes de artes performativas.
Número de vagas: 20 vagas.
Gratuita. Inscrição via formulário abaixo até o dia 28 de abril de 2017
https://www.tremafestival.com.br/oficinas-e-debates.

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Um autêntico documento ficcional*

Instrucciones para abrazar el aire, do grupo Malayerba, do Equador. Foto: Jennifer Glass

Instrucciones para abrazar el aire, do grupo Malayerba, do Equador. Foto: Jennifer Glass

X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo

Um dia antes de assistir à peça Instrucciones para abrazar el aire, participei como mediadora de um encontro entre artistas da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, no qual estava o grupo Malayerba, do Equador, com os criadores Arístides Vargas, Charo Francés e Gerson Guerra. No debate, tive a oportunidade de ouvir o grupo falar, com muita clareza e propriedade, sobre o próprio trabalho e sobre a peça que está na programação da mostra. Aqueles que estavam presentes puderam conhecer antes de assistir ao espetáculo os fatos que motivaram a criação. Charo e Arístides nos contaram a história de uma casa em La Plata, que funcionava como imprensa clandestina. Como fachada, ativistas assumiam o papel de cozinheiros que faziam conservas de coelho a escabeche e as conservas eram embaladas com os papéis do jornal que produziam, e que só assim circulava. Em 1976 a casa foi alvejada por fora. Todos os que estavam lá dentro morreram, com exceção de uma criança, ali sequestrada e até hoje não encontrada. A história foi contada para eles por Chicha Mariani, a avó dessa menina desaparecida cujos pais foram assassinados no ataque à casa.

Não por saber previamente da história – que qualquer espectador pode saber procurando informações sobre a peça na Internet, lendo sinopses e críticas do espetáculo – mas por ouvir uma apresentação feita pelos criadores em uma conversa, minha percepção da peça já contava com uma sensação de vínculo, de empatia pelo trabalho. Faço essa observação preliminar porque, como crítica, artista e espectadora, sou defensora das mediações. Vejo a importância da mediação como forma de aproximação entre artistas e público, algo que deveria ser sempre uma prioridade nas iniciativas de teatro – especialmente quando estamos em contato com culturas de teatro que não são aquelas com as quais lidamos no cotidiano de um determinado território cultural.

A história é apresentada por três casas, com três casais: os avós que procuram a neta, os ativistas cozinheiros de coelhos e os vizinhos que observam a casa clandestina. Em cada casa, uma ideia de teatro diferente onde a dupla trabalha com linguagens diversas. A alternância de gêneros é uma premissa da dramaturgia. Passamos rapidamente de cenas cômicas com chistes descompromissados para cenas em que é impossível rir do que está sendo dito e para outras em que o lirismo nos faz ver a beleza apesar do horror. O espetáculo se constrói com diferentes registros de interpretação, que se intercalam e se alimentam uns dos outros. Cada casal assume um tom, uma temperatura, um tempo diferente. Escutamos as histórias por diferentes pontos de vista, que nos demandam que estejamos prontos para mudar de expectativa a cada cena. E parece que a atividade constante de mudança na recepção vai aos poucos derrubando os muros, abrindo brechas para chegar na sensibilidade do espectador. É como acompanhar um festival: a cada espetáculo, as premissas são diferentes, cada um tem as suas regras, temos que adaptar as nossas expectativas, abandonar saberes e adquirir outros a cada vez que começa um novo espetáculo. Nossas noções de teatro são abaladas (felizmente) e aprendemos a ver cada peça de acordo com as suas questões, não só com as nossas.

Atores trabalham com diversas linguagens no espetáculo

Atores trabalham com diversas linguagens no espetáculo

Mas, no que diz repeito a verdades e realidades, me parece interessante e perfeitamente adequada a ideia de documento ficcional, um aparente paradoxo, com o qual a peça é apresentada. Quantos documentos produzidos durante os períodos ditatoriais na América Latina não são de certo modo “ficcionais”, ou melhor, mentirosos? Quantas confissões proferidas ou assinadas por coerção da tortura não são uma “ficção” construída pelo medo? E o que dizer dos documentos dos filhos e filhas, netos e netas, cuja identidade foi roubada e alterada nos inúmeros casos de sequestros? A questão é que entre mentira e ficção a diferença é grande. A mentira é a antítese da verdade, mas a relação da verdade com a ficção é mais complexa. Os procedimentos de criação ficcional estão presentes em todas as formas de escrita historiográfica, a elaboração das narrativas que são comprometidas com a verdade conta necessariamente com a imaginação, com a ficcionalização, como método para criar coerência. Daí que toda historiografia é criativa e, em alguma medida, ficcional.

O aparente paradoxo da ideia de documento ficcional é que a primeira palavra afirma uma verdade e a segunda a desmente, mas não anula sua proposição. O documento ficcional aqui não deixa de ser um documento, mas sua verdade é de outra natureza. A ficção é um meio para orbitar em torno da verdade, essa abstração que nunca poderemos conhecer de fato. Com a confecção deste documento ficcional, o Malayerba está encenando historiografia, colocando verdades em jogo a partir de elaborações poéticas, narrando fatos para que possamos escutar essas narrativas de outra maneira – porque não podemos esquecê-las mas também não conseguimos simplesmente repeti-las.

Neste encenar historiografia, há um fator determinante, uma camada de produção de sentido que é também produção de presença: os corpos de Charo e Arístides como documentos de uma história recente, em que a autenticação das verdades está carimbada na carne da experiência de suas histórias de vida. São corpos historiadores, expressão que tenho usado para falar do trabalho de atores que são narradores e testemunhas, rastros e evidências de acontecimentos dos quais precisam falar. A condição mesma de migrantes, o conhecimento profundo das narrativas de violências das ditaduras, a solidez da trajetória de mais de 30 anos de teatro, tudo isso inscreve nos seus corpos a habilidade para escrever suas histórias no espaço tridimensional do teatro, com a elaboração poética necessária, através da oralidade, da potência da palavra falada no teatro.

Sabemos que a experiência não é passível de compartilhamento, que não somos capazes de sentir a experiência do outro. Mas também não conseguimos deixar de tentar. No teatro, com a generosidade dos corpos que se dão a falar, parece que a escuta dá um passo adiante nesse sentido, impossível como abraçar o ar.

Ficha Técnica:
Autor: Arístides Vargas
Direção: Arístides Vargas, Maria Del Rosário Francés e Gerson Guerra
Elenco: Maria Del Rosario Francés e Arístides Vargas
Iluminação: Gerson Guerra

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*Crítica escrita por Daniele Avila Small – Questão de Crítica/DocumentaCena**
**A DocumentaCena – Plataforma de Crítica articula ideias e ações do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena. Esses espaços digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, críticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo (2014); e do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).

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Nomeando Jacy*

Jacy, espetáculo do Grupo Carmin, de Natal. Foto: Jennifer Glass

Jacy, espetáculo do Grupo Carmin, de Natal. Foto: Jennifer Glass

X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo

O espetáculo do Grupo Carmin, de Natal, Rio Grande do Norte, se apresenta pela primeira vez em São Paulo na Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo da Cooperativa Paulista de Teatro. Combinação de projeto, obra do acaso e investigação (artística e quase policial), a gênese da criação da peça, escrita em colaboração com os filósofos Pablo Capistrano e Iracema Macedo, é compartilhada com os espectadores pela atriz Quitéria Kelly, pelo ator, diretor e dramaturgo Henrique Fontes, e pelo cineasta Pedro Fiuza, que com palavras e imagens nos relatam duas aventuras paralelas. Uma delas é a criação de uma peça que começou como uma pesquisa sobre a velhice e que foi atravessada por uma história que eles não puderam ignorar. A outra é essa história que eles não puderam ignorar, a vida de uma mulher chamada Jacy, que nasceu em Natal, se emancipou com a II Guerra Mundial, mudou-se para o Rio de Janeiro, foi amante de um militar americano que ministrava treinamentos suspeitos para os militares brasileiros durante a ditadura, e voltou para Natal para morrer no esquecimento. Até que um artista de teatro se deparou com uma imagem na rua.

A conexão entre as duas histórias é justamente essa imagem, uma imagem performativa (se é que se pode dizer algo assim), que fez uma interpelação, como um ato de fala de uma aparição. Andando por uma rua de Natal no ano de 2010, Henrique se deparou com papeis voando de um saco de lixo, entre móveis e objetos recém-descartados, entre eles uma frasqueira daquelas que mulheres de alta classe usavam nos anos 1960. Dentro dessa frasqueira, documentos, artigos de maquiagem, cartas, cartões e objetos pessoais de Jacy. Assim se deu o encontro casual de um homem com um objeto jogado no lixo, que se revela uma sintonia muito fina do acaso com a fortuna e resulta num encontro minuciosamente elaborado do teatro com a história.

A peça é sobre Jacy, mas também é sobre a velhice e sobre o teatro. E é sobre as imagens e a nossa capacidade de se deixar atravessar por elas a ponto de alterar as nossas rotas previamente programadas. O sentido da criação artística é o desvio e, em alguma medida, o da vida de Jacy também. O desvio aqui foi causado por uma interpelação do acaso, um chamado, como se a imagem tivesse dito “Henrique!” e ele entendeu que era com ele. Como vimos no palco do Centro Cultural São Paulo, Quitéria dedica o espetáculo a Jacy, chamando seu nome, como quem devolve a interpelação. Ela diz: “Jacy, onde você estiver, etc.”

Seria possível escrever sobre o espetáculo a partir de diversos pontos de vista. O trabalho é um prato cheio de questões atuais e relevantes sobre a cidade de Natal, a ideia de Nordeste, a história do Brasil, a presença das famílias de poder na política brasileira, os procedimentos de encenação teatral, as poéticas contemporâneas de dramaturgia de teatro documental e suas técnicas de atuação, bem como as implicações entre escrita ficcional e narrativa historiográfica. Mas escolho, tendo em vista o curto prazo e o pequeno espaço, apenas chamar a atenção para o gesto de nomear, interpelar, convocar. Nesse caso, convocar os mortos, convocar uma mulher, falecida, a contar a sua história. Desvelar a vida de Jacy, tirá-la do anonimato, pronunciar seu nome, é um gesto tão artístico quanto político, uma forma de assumir a responsabilidade sobre a memória de alguém, ressuscitar afetos, reescrever as histórias e a história de um lugar de fala nada oficial.

Peça traz história de personagem real, permeada pela ficção

Peça traz história de personagem real, permeada pela ficção

Ouvimos a história pessoal, tão real quanto fictícia, de Jacy, uma mulher independente, amante, escritora de cartas, que não seguia as regras do seu meio, e nos damos conta de que vivemos hoje no Brasil um momento de grandes revoluções nas mentes e ainda maiores retrocessos na política no que diz respeito ao entendimento do que é uma família. E temos que, em pleno 2015, defender com unhas e dentes os direitos da mulher sobre o seu próprio corpo. O lugar da mulher na sociedade brasileira está à flor da pele na história pessoal de Jacy, como relatada pela dramaturgia do espetáculo. A família, como instituição, também está em cheque na peça do Grupo Carmin. E a velhice, questão política e social da maior importância, pontua a história da mulher, da família e do país com delicadeza diligente.

E tem um Brasil ali. O fato de que o ponto de vista da peça é marcado pelas ruas e pela história
de Natal é justamente o que oferece aos espectadores um olhar específico, particular, criativo, um olhar autoral para essa massa informe de imagens e narrativas que é a ideia de um país. Esse olhar autoral é o que cria mundos e, em consequência, dá a ver o que cria.

Jacy é daquelas peças que fazem a gente ver que o teatro está no mundo e que o teatro é muito importante. Como Jacy, essa figura possivelmente encantadora que parecia não ser ninguém especial para quem estava à sua volta, o teatro tem passado despercebido nas narrativas e nas imagens sobre história, memória e identidade brasileiras. Descobrir Jacy é descobrir o teatro, a maravilha da criação real-ficcional a partir de uma imagem, de um acaso, de uma convocação que muda o percurso programado, (re)descobrir, mais uma vez, que o teatro tem muito a dizer e que os modos de dizer do teatro têm força de interpelação.

Ficha técnica
Textos: Pablo Capistrano e Iracema Macedo
Dramaturgia: Henrique Fontes e Pablo Capistrano
Direção: Henrique Fontes
Assistente de direção: Lenilton Teixeira
Consultoria: Marcio Abreu
Atores: Quitéria Kelly e Henrique Fontes
Videomaker: Pedro Fiúza
Designer de Luz: Ronaldo Costa
Direção artística e cenografia: Mathieu Duvignaud
Trilha sonora original: Luiz Gadelha e Simona Talma
Coordenação de produção: Quitéria Kelly
Assistente de produção e desenhista: Daniel Torres
Designer gráfico: Vitor Bezerra
Fotógrafo: Vlademir Alexandre

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*Crítica escrita por Daniele Avila Small – Questão de Crítica/DocumentaCena**
**A DocumentaCena – Plataforma de Crítica articula ideias e ações do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena. Esses espaços digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, críticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo (2014); e do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).

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O fetiche da miséria e a maldade do outro*

Condomínio Nova Era. Foto: Jennifer Glass

Condomínio Nova Era. Foto: Jennifer Glass

X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo

Condomínio Nova Era, peça do grupo A Digna Companhia, está na programação da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo com apresentações no espaço do grupo Sobrevento, talvez pequeno demais para o espetáculo criado originalmente para se apresentar em outro lugar. Na peça, nove atores e um músico contam a história de um edifício ocupado por pessoas simples, em condições miseráveis, sofrendo (em linhas gerais) com a falta d’água, a ameaça de despejo e a ausência de perspectivas de vida. O cenário é gradualmente montado e desmontado pelos atores em diferentes parte do espaço cênico. Os espectadores se deslocam entre uma cena e outra, o que dá ao andamento do espetáculo uma certa monotonia. A cada troca, um esfriamento e, com mais gente na plateia do que o espaço comporta, a possibilidade de ver a próxima cena de outro lugar ruim.

A peça se coloca como crítica social, com uma noção literal de teatro político, ou seja, teatro que se entende como político porque trata de um tema político e passa uma mensagem clara de opressores de um lado e oprimidos do outro. Mas o espetáculo é mais midiático do que político na medida em que apresenta as situações como preto no branco, sem espaço para nuances e complexidades, como fazem os noticiários de TV: imagens-fetiche para tentar chocar o espectador e verdades proferidas em tom grave de verdade e denúncia. Penso em imagens-fetiche como aquelas de uma visibilidade espetacular, não dialética, que quer impressionar. A imagem gravada e veiculada numa TV no cenário, em que um jovem delinquente cheio de raiva é entrevistado por um repórter cretino que faz perguntas para estimular o garoto a dizer coisas detestáveis, que estimulam o ódio e o asco do outro, é um exemplo de fetichização. Em vários momentos, o espetáculo assume o mesmo regime de visibilidade das imagens, quando mostra uma tentativa de identificação com o sofrimento, com a miséria, com a pobreza. E também quando fetichiza o esforço do artista.

Outra questão que talvez comprometa a dimensão crítica e política da peça é o fato de que o espetáculo está “pregando para convertidos”. Me parece que o público da peça é aquele que já sabe que a especulação mobiliária é desumana e higienista, que a polícia é violenta e abusiva e trabalha a favor do capital, e que uma parte imensa da população mundial vive em condições de precariedade absoluta. Quando todo mundo concorda, quando tudo já está dado, sem possibilidade de questionamento, não há debate. Sem debate, não há dimensão crítica. Ao espectador, só cabe confirmar o que já sabe e baixar a cabeça para o discurso dos artistas. Isso não é político. A vitimização de um e a demonização do outro não dá espaço para a reflexão. Por mais que essa polaridade faça sentido na vida, me parece que na arte precisamos ir além dos conceitos binários para instaurar um espaço de pensamento.

A ideia mesma de deslocar os espectadores também é uma espécie de fetiche, que parte de uma crença de que o espectador tem que estar literalmente se mexendo, sendo fisicamente tocado, sensoriamente incomodado ou atingido por alguma substância ou objeto que os artistas atiram na sua direção para ser um espectador “ativo”. Como se dar atenção a um espetáculo, criar imagens e desenvolver um pensamento sobre o que vê fosse de uma passividade condenável. No caso dessa peça especificamente, percebo uma pressuposição com relação ao espectador com a qual não compactuo: a de que o espectador precisa ser despertado da sua ignorância. No discurso da peça e no tom geral da montagem, especialmente quando o diretor entra em cena e começa a falar diretamente com o público sobre si mesmo e o seu próprio trabalho, me pareceu nítida a ideia de que os personagens e os artistas estão em um lugar de superioridade. Pelo tom messiânico do diretor, fica a impressão de que ele se sente detendor de verdades que os espectadores precisam ouvir. A encenação da “entrega” revela mais vaidade do que modéstia.

Em seu artigo O espectador emancipado, Jacques Rancière apresenta uma argumentação muito coerente sobre essa noção de teatro como lugar simplificado da assembleia, no qual o espectador é tratado como se estivesse numa condição de menoridade. Como o espaço do texto e o prazo de publicação são curtos, não me detenho na referência, mas recomendo a leitura, que ajuda a esclarecer o que estou querendo dizer sobre essa relação desigual entre artista e espectador.

É muito difícil quando o teatro tenta fazer denúncias no calor da hora. A urgência da pauta da denúncia não dá chance para o distanciamento necessário para a elaboração poética. A violência é expressão da maldade do homem, mais que dos interesses capitalistas e das diferenças de classe. E a maldade é uma das coisas mais complexas que a humanidade tem que enfrentar como condição própria. Se o mal é condição da humanidade como espécie, representá-lo como condição do outro (um outro esterotipado) pode parecer ingênuo e auto-indulgente.

Peça traz noção literal de teatro político

Peça traz noção literal de teatro político

Ficha técnica
Dramaturgia: Victor Nóvoa
Direção: Rogério Tarifa
Elenco: Adilson Azevedo, Eduardo Mossri, Flavio Barollo, Helena Cardoso, Jonathan Silva, Liz Mantovani, Karen Menatti, Rogério Tarifa, Victor Nóvoa e Zimbher
Direção musical: Jonathan Silva e Zimbher
Composição da trilha original: Jonathan Silva, Zimbher e Flavio Barollo (música: Homem Falido)
Cenografia: Ana Rita Bueno e Rogério Tarifa
Instalação audiovisual: Flavio Barollo
Figurinos: Ana Rita Bueno
Criação de luz: Marisa Bentivegna
Workshop de preparação de atores: Ana Cristina Colla
Operação Som e Luz: Igor Sane
Atores nos vídeos: (Quarto Jucilene) Bruno Maldegan e Priscila Ortelã
Design gráfico: Vertente Design
Fotos: Alécio

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*Crítica escrita por Daniele Avila Small – Questão de Crítica/DocumentaCena**
**A DocumentaCena – Plataforma de Crítica articula ideias e ações do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena. Esses espaços digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, críticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo (2014); e do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).

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