A barra pesa na prisão

Sistema25 aborda a vida na prisão. Na foto de Camila Sergio, Will Cruz e Ricardo Andrade

Sistema 25 aborda a vida na prisão. Na foto de Camila Sergio, os atores Will Cruz e Ricardo Andrade

Sistema 25 é um experimento cênico no sentido mais potente desse termo. Que vai se transformando. Que encara o risco para não cair na acomodação. Com um elenco de 25 atores, com direito a revezamento de papeis e com entradas e saídas de vários integrantes. O espetáculo foi urdido em 12 meses de ensaios para a construção de 30 cenas e 7 canções originais. Os intérpretes compartilham a situação de encarceramento com 25 espectadores que ocupam a mesma geografia. O sistema prisional brasileiro é a camada macro exposta nesta montagem dos grupos Cênico Calabouço e Teatral Risadinha, com direção de José Manoel Sobrinho.

Num dia de visitas no presídio ocorre uma rebelião. E é nesse ambiente tenso, opressor, que esses personagens revelam suas individualidades contaminadas pelo coabitação tão próxima em celas minúsculas.

“Vinte e cinco homens empilhados, espremidos, esmagados de corpo e alma entre grades de ferro e paredes úmidas e frias, num cubículo onde mal caberiam oito pessoas e seus desesperos, seus tédios, suas desesperanças e o tenebroso ócio”, escreveu o dramaturgo Plínio Marcos em texto que inspirou a peça.

A “Cena da Origem” da encenação é o conto Em Osasco, do livro Inútil Canto e Inútil Pranto pelos Anjos Caídos, que forneceu o mote para a criação das narrativas. E para encorpar essa dramaturgia foram somadas pesquisas sobre homens presos. Para criar esse estado-limite de intimidade e de desumanidade

A encenação foi erguida sem patrocínio. Foram mais de 12 meses de ensaios, idas e vindas. Já fez algumas curtas temporadas no Teatro Marco Camarotti, no Espaço Experimental. Faz 16 apresentações na CAIXA Cultural Recife, de quinta a sábado, de 4 a 27 de agosto.

As sessões acontecem às 19h nas quintas e sextas-feiras e às 15h e 19h aos sábados. Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5 (meia) e estarão à venda nas quartas-feiras que antecedem o primeiro dia de apresentação da semana, respectivamente: 3, 10, 17, e 24 de agosto. O espetáculo dura 2h40 minutos.
Espetácuo faz 16 apresentações na Caixa Cultural Recife. Foto. Camila Sergio

As partituras de ação foram edificadas pelos atores-dramaturgos-narradores, sob o comando do encenador José Manoel Sobrinho continua em processo.

Criaturas que em condições indignas mas que mantém códigos de honra. Entre lutas por pequenos e podres poderes, os encarcerados expõem também suas fragilidades, afeto, desejo de proteção, medo, lealdade, cumplicidade, traição. Há de tudo, exposto com uma lupa da degradação do ser humana.

A direção musical é de Samuel Lira, e no elenco estão atores Alberto Braynner, André Xavier, Beto Nery, Breno Fittipaldi, Bruno Britto, Cláudio Siqueira, Eddie Monteiro,Edinaldo Ribeiro, Emanuel David D´Lúcard, Flávio Santos, Geraldo Cosmo, Guto Kelevra, Hypolito Patzdorf, Marcílio Moraes, Neemias Dinarte, Nelson Lafayette, Nildo Barbosa, Normando Roberto Santos, Otacilio Júnior, Paulo André Viana, Pedro Dias, Ricardo Andrade, Robson Queiroz, Samuel Bennaton e Will Cruz.

Seminários –  A encenação agrega a ações de debate político-social sobre os sistemas existentes dentro e fora das grades, com três encontros, sempre às 19h. Ensaio sobre o Amor, no dia 10/08, Ensaio sobre a Força, dia 17/08 e Ensaio sobre a Dor, no dia 24/08. Haverá trechos da peça para incitar o debate com especialistas. A entrada é gratuita, com senhas distribuídas a partir das 18h.

Ficha técnica:

Encenação José Manoel Sobrinho
Assistente Direção Breno Fiitipaldi e Neemias Dinarte
Dramaturgia Beto Nery, Breno Fittipaldi, Billé Ares, Bruno Britto, Cláudio Siqueira, Edinaldo Ribeiro, Eddie Monteiro, Emanuel David D´Lúcard, Geraldo Cosmo, José Manoel Sobrinho, Marcílio Moraes, Neemias Dinarte, Robson Queiroz, Samuel Bennaton, Will Cruz
Direção Musical Samuel Lira
Músicas André Filho, Eduardo Espinhara e Geraldo Maia
Letras André Filho, Eduardo Espinhara, Emanuel David D´Lúcard, Marcílio Moraes, Romildo Luis, Samuel Bannaton, Thyago Ribeiro e Will Cruz
Coreografia do Tango Rogério Alves
Elenco Alberto Braynner, André Xavier, Beto Nery, Breno Fittipaldi, Cláudio Siqueira, Eddie Monteiro, Edinaldo Ribeiro, Emanuel David D´Lúcard, Flávio Santos, Gleison Nascimento, Geraldo Cosmo, Guto Kelevra, Hypolito Patzdorf, João Neto, Marcílio Moraes, Neemias Dinarte, Nelson Lafayette, Nildo Barbosa, Normando Roberto Santos, Otacilio Júnior, Paulo André Viana, Pedro Dias, Ricardo Andrade, Robson Queiroz, Samuel Bennaton, Sandro Sant´na e Will Cruz
Design e operação de Iluminação Luciana Raposo
Assis de Operação Júnior Brow
Arte VisualBeto Saulo
Produção Executiva de Carminha Lins, Virginia Grécia e Paulo Ferrera.

Serviço:
SISTEMA 25
Local: CAIXA Cultural Recife
Endereço: Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife, Recife/PE
Data: 4 a 27 de agosto de 2016, de quinta a sábado.
Horário: 19h nas quintas e sextas-feiras e 15 e 19h nos sábados.
Ingresso: R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia) – vendas nas quartas-feiras que antecedem os dias de apresentação da semana, respectivamente: 3, 10, 17 e 24 de agosto, a partir das 10h e exclusivamente na bilheteria do espaço.
Informações: (81) 3425-1915

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Mascate passeia por Recife e Olinda

Espetáculo O Mascate, a Pé rapada e os Forasteiros em cartaz no Hermilo Borba Filho. Foto: Antonio Rodrigues

Não está fácil fazer teatro no Brasil. No Pernambuco multicultural, vixe! Mas os artistas das cênicas são resilientes e seguem pelejando. Parece até aquela marchinha de carnaval. Com dinheiro ou sem dinheiro, eheheheh eu brinco. No caso, brilha… É isso que eles querem: brilhar. Esse é o contexto do espetáculo O Mascate, a Pé rapada e os Forasteiros, que inicia sua segunda temporada nesta quarta-feira (3), no Teatro Hermilo Borba Filho, com sessões às quartas e quintas de agosto, sempre às 20h.

Diógenes D. Lima encarou o desafio de processar as inúmeras histórias do Recife e de Olinda para erguer essa montagem que utiliza objetos. Falar das cidades-irmãs pode render homenagens pela trajetória de ambas, mas também críticas à realidade contemporânea. O tom é satírico.

O ator manipula e interpreta seus objetos/personagens a partir de uma caldeirão de influências, inclusive da música do saudoso Reginaldo Rossi, que cantou as belezas das cidades, com romantismo exagerado e muitas alfinetadas de ironia.

Os ingressos estarão a venda na bilheteria do teatro, somente nos dias de apresentação, a partir das 18h.

SERVIÇO
O Mascate, a Pé rapada e os Forasteiros
Onde:Teatro Hermilo Borba Filho (Cais do Apolo, s/n – Bairro do Recife
Quando: 03, 04, 10, 11, 17, 18, 24, 25 e 31 de agosto (quartas e quintas, às 20h)
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Duração: 60 min
Classificação: 16 anos

FICHA TÉCNICA
Texto e Atuação: Diógenes D. Lima
Supervisão Artística: Marcondes Lima e Jaime Santos
Coreografias: Jorge Kildery
Adereços: Triell Andrade e Bernardo Júnior
Iluminação: Jathyles Miranda
Execução de Iluminação: Rodrigo Oliveira
Execução de sonoplastia: Júnior Melo
Programação Visual: Arthur Canavarro
Fotografia: Ítalo Lima
Gerente de Produção: Luciana Barbosa
Produção: AGM Produções

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O rito ancestral do Totem

Retomada

Retomada inspira-se na força guerreira dos povos originários. Foto: Fernando Figueiroa

Retomada, espetáculo do Grupo Totem. Foto: Claudia Rangel

Espetáculo do Grupo Totem é dirigido por Fred Nascimento. Foto: Claudia Rangel

A potência do espetáculo Retomada se nutre da força guerreira dos povos originários do Brasil. Dignidade é a palavra de ordem para traduzir a reação das tribos do país aos ataques violentos e desproporcionais armados por ruralistas. O espetáculo/performance do Grupo Totem conjuga energia e beleza. Resistência política nos pés, nos corpos e gestos dos atuadores inspirados nos rituais indígenas. O melhor de todos os trabalhos da companhia. Assistimos à peça durante o Trema! Festival de Teatro e hoje o bando liderado por Fred Nascimento faz uma apresentação no Instituto Ricardo Brennand, às 17h, na abertura do Cirkula 2016, evento do Programa de Pós Graduação em Antropologia da UFPE.

A cobiça do “homem branco” é motivo do confronto por pedaços (às vezes imensos) de chão. Ainda no século 19 os ocupantes históricos foram expulsos. A Constituição de 1988 reconheceu os direitos das tribos, mas o processo de demarcação por parte do governo tem sido devagar, quase parando.

Ao contrário dos produtores rurais, que com o arsenal bélico e poder político, inclusive com representantes no Congresso para defender seus interesses, avançam a passos largos para expulsar os nativos e as ações violentas deixam sempre um saldo negativo para as tribos.

Os poderosos dos interesses do agronegócio, tão bem alinhados ao governo provisório, intimidam com violência genocida e buscam expulsar ilegalmente as diversas etnias de sua terra ancestral.

A iluminação, a música e o vídeo amplificam a voz da montagem

A iluminação, a música e o vídeo amplificam a voz da encenação

A montagem é resultado da pesquisa Rito Ancestral, Corpo Contemporâneo. A dimensão da ancestralidade foi encaixada na expressão corporal e cênica da peça. Para isso, a trupe participou de laboratório de imersão no contexto indígena de aldeias localizadas em Pernambuco entre as etnias Xucuru, Pankararu e Kapinawá. A teoria perpassa por formulações do antropólogo Victor Turner, em diálogo com Richard Schechner e no Teatro Ritual proposto por Antonin Artaud.

O senso de coletividade, dos elementos rituais, o respeito à Terra e às unidades da natureza transbordam nas várias coreografias do grupo. Resistência política e tradição alimentam os componentes do espetáculo em vigor ritual e mítico. É uma experiência intrigante acompanhar como espectador a combativa obstinação de vozes que não se calam sobre a terra arrasada.

As atrizes-performers Lau Veríssimo, Gabi Cabral, Gabi Holanda, Inaê Veríssimo, Juliana Nardin, Taína Veríssimo e Tatiana Pedrosa carregam no corpo, no olhar, na energia do gesto, na composição da cena uma ancestralidade feminina, em conexão com a Mãe Terra. É desse planeta e dessa substância que são configuradas as renovações do ato ritual. O espaço sagrado é celebrado no corpo físico, no som e na luz, na conotação metafísica e na magnificência que esse corpo expandido atinge o universo ao seu redor.

Retomada, com o Grupo Totem
Quando: 26 de julho de 2016, terça-feira, 17h
Onde: Instituto Ricardo Brennand
Quanto: Grátis. O acesso se dará mediante inscrição por email: comunica@institutoricardobrennand.org.br, indicando nome completo e CPF, no corpo da mensagem, e nome do espetáculo (Retomada – TOTEM) no título da mensagem.

FICHA TÉCNICA
Encenação: Fred Nascimento
Atrizes-performers: Gabi Cabral, Gabriela Holanda, Inaê Veríssimo, Juliana Nardin, Lau Veríssimo e Taína Veríssimo
Música original: Cauê Nascimento, Fred Nascimento e Gustavo Vilar
Direção de palco: Tatiana Pedrosa
Cenografia: grupo Totem
Figurino: grupo Totem
Maquiagem: grupo Totem
Designer de luz: Natalie Revorêdo
Vj: bio Quirino
Pintura corporal: Airton Cardin
Assistente técnico: Ronaldo Pereira
Fotografia: Fernando Figueirôa
Designer gráfico: Iara Sales
Preparador vocal: Conrado Falbo
Assessoria de imprensa: Beth Oliveira

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Abuso de poder no ambiente corporativo

Débora Falabella e Yara de Novaes em Contrações. Foto: Vitor Zorzal

* Atualizada no dia 28 de julho, às 13h

Até onde você iria para garantir seu emprego? Puxaria o tapete de seu colega? Aceitaria se prostituir ideológica, estética e eticamente? Seria capaz de trair o seu melhor amigo? E você Outro que ocupa um cargo de confiança, mataria a própria mãe para se manter no poder? Eita terreno escorregadio!

O mundo do trabalho é feroz. O sistema capitalista predador. E ele pode devorar sua autoestima, sua dignidade, seus ideais. As relações no mundo corporativo são nutridas por sentimentos estranhos,  covardes, egoístas. Tomamos conhecimento ou vivenciamos coisas escabrosas para exercer a profissão.

As atrizes Débora Falabella e Yara de Novaes mostram os bastidores desse microcosmo de pequenos poderes exercidos numa empresa no espetáculo Contrações. A peça cumpre temporada de 28 a 30 de julho e de 4 a 6 de agosto, na CAIXA Cultural Recife. Os ingressos para a primeira semana já estão esgotados.

O Satisfeita, Yolanda? escreveu sobre o espetáculo Contrações em 2014, durante o Festival de Curitiba. Confira aqui o texto.

O texto Contrações, do dramaturgo inglês Mike Bartlett, expõe o horror da roda empresarial, com suas regras esdrúxulas, funcionários subalternos subjugados a pressões absurdas, com receio de perderem seus empregos.

É uma peça de teatro com situações plausíveis. A direção de Grace Passô reforça o conteúdo cruel, absurdo e usa a metáfora do esfriamento da temperatura do ambiente com o acirramento do conflito.

Frio traduz relação entre funcionária e chefe . Foto: Divulgação

Na peça, a gerente linha-dura inominável de um escritório de uma grande corporação (Yara de Novaes) convoca Emma (Débora Falabella), sua jovem e eficiente funcionária, para ler em voz alta uma cláusula do contrato que proíbe aos empregados estabelecerem qualquer relação sentimental ou sexual com outro contratado da firma.

E sempre é possível encontrar argumentos para defender regras estapafúrdias: segurança dos assalariados, produtividade da empresa, linhas de planejamento para melhorar bem-estar das equipes. Mas o que pesa mesmo é a sangria emocional e um jogo baixo para deixar claro quem está no comando.

Isso é o começo do calvário kafkiano para Emma.

Débora Falabella e Yara de Novaes em Contrações. Foto: Guto Muniz / Divulgação

Processo de “fritura” atinge corpo de Emma. Foto: Guto Muniz / Divulgação

O autoritarismo da chefe, com facetas de manipulação e vilania veladas, é revelado nos sucessivos encontros. Perseguida e humilhada Emma, para manter seu emprego, conta a respeito de seu envolvimento amoroso com um dos companheiros de vendas. Dizer não a esse tipo de opressão é possível, mas na prática é bem difícil.

Contrações critica o modelo de trabalho que massacra o humano em prol dos interesses empresariais. A experiência angustiante vai diminuindo a autoestima da personagem de Débora, que definha e sucumbe diante da maldade de sua chefe. É o pior dos mundos. Assédio mascarado que adoece o assediado diante do seu algoz.

O espetáculo estreou em outubro de 2013 e naquele ano rendeu às interpretes o prêmio APCA São Paulo de melhor atriz, dividido entre as duas.

O Grupo3 de Teatro foi criado em 2005 por Yara de Novaes, Débora Falabella e Gabriel Fontes Paiva. No repertório do coletivo estão A Serpente,(2005, texto de Nelson Rodrigues, direção Yara de Novaes, com Débora Falabella, Cynthia Falabella, Alexandre Cioletti,  Augusto Madeira como Décio, Cyda Morenyx, Mario Hermeto, Sarito Rodrigues) ;O Continente Negro (de 2007, com texto do chileno Marco Antonio de La Parra, dirigido por Aderbal Freire Filho, com Débora Falabella, Yara de Novaes e Ângelo Antônio no elenco) e Amor e Outros Estranhos Rumores, (2010,texto de Murilo Rubião, direção de Yara de Novaes, com Débora Falabella, Maurício de Barros, Priscila Jorge e Rodolfo Vaz).

Contrações
Quando: De 28 a 30 de julho e de 4 a 6 de agosto; quintas e sextas, às 20h, e aos sábados, às 18h e 20h.
Onde: Teatro da CAIXA Cultural Recife (Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife)
Quanto: R$ 20 e R$ 10
Informações: (81) 3425-1900/1906

Ficha técnica
Texto: Mike Bartlett
Direção: Grace Passô
Atuação: Débora Falabella e Yara de Novaes
Duração: 80 minutos
Recomendação: 14 anos

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Amar é pathos de ampla dimensão

Amar é Crime Foto:- Geraldo Monteiro / Divulgação

Adaptação de quatro contos de Marcelino Freire marca estreia do AMARÉ. Fotos:- Geraldo Monteiro

Os personagens do espetáculo Amar é Crime não “andam sobre cadáveres sem nada sentir”, como os criminosos de Kurt Schneider, psiquiatra alemão. As figuras saídas das narrativas de Marcelino Freire e levadas ao palco por Isabelle Barros ardem e reagem às flechas envenenadas enviadas pelo mundo cruel ou por um objeto de amor (mesmo que imaginário). Desprezados ou feridos, eles chegam a um limite humano tolerável para dar o troco. São gritos desesperados de afirmação.

A encenação de Isabelle é despojada. Três atores, bancos, lanternas, e a doação desses intérpretes que materializam as palavras de Freire em expressividade e movimentos, em quatro cenas da peça. São personagens oprimidos. O amor (esse do desejo contemporâneo que é sinônimo de felicidade) aparece como objeto de luxo para os que vivem num universo que lhes nega direitos básicos de alimentação, saúde, transporte, educação. É uma bomba prestes a explodir.

Quatro contos do livro homônimo de Marcelino Freire, lançado pelo autor em 2011, são adaptados para o palco pelo coletivo AMARÉ Grupo de Teatro, criado em 2014 por ex-alunos do Curso de Interpretação para Teatro do Sesc Santo Amaro. Além de Isabelle Barros, a trupe é formada por Natali Assunção e Marcos Medeiros. A atriz Micheli Arantes participa como convidada neste trabalho.

O elenco atua como atores-narradores das cenas escolhidas pelo grupo: Acompanhante, Crime, Mariângela e Vestido longo.

São vultos invisíveis que sob o domínio de pathos ganham um protagonismo temporário. As situações dessa notoriedade são cercadas por elementos cruéis.

Uma saudade, uma fantasia que ficaram na memória afetiva do velho caquético escorrem como opressão em direção à cuidadora, que recebe as ordens humilhantes de uma parente do idoso no quadro Acompanhante. A dignidade cingida da funcionária já feriu o ancião na sua incapacidade de cuidar de si mesmo e precisar de uma estranha para resolver questões íntimas de limpeza e alimentação. Ele tem espasmos em que seca de vontade e a desconhecida escuta as determinações, da outra da família, que beiram o assédio.

“Hoje minha namorada vai me dar valor”, anuncia o protagonista do episódio Crime. Os atores se revezam no papel para criar nunces do desespero do personagem na voz e no corpo, na projeção de revolta contra o mundo. Ao ser golpeado na sua autoestima, um jovem (negro, pobre, periférico) planeja sequestrar e punir a namorada por uma suposta traição. E detalha os passos do ato transitando entre sua dor particular e as contingências da indiferença social para quem vive na base, com a negação do básico. Ele quer ferir o objeto do seu amor e se transformar numa celebridade instantânea sem importância; daquelas que alimentam os programas policialescos, as chamadas sensacionalistas na televisão, a curiosidade mórbida da sociedade. As consequências são imprevisíveis.

“Quem disse que uma gorda não pode voar?”, pergunta a garota obesa em Mariângela. Ela sofre humilhações impostas pela própria mãe, criatura convencionada pelo senso comum como fonte de amor irrestrito. A menina é sugada por um buraco e fica presa no meio da rua, entalada no solo. Os atores narram sua história antes do ocorrido ressaltando o comportamento desmedido como necessidade de sobreviver e se vingar de alguém que negou e interditou o amor.

Uma vida inteira de privação parece traçar o destino da mulher de Vestido Longo, que cresceu sem ter o que comer, muito menos o que vestir. Nos grotões da fome foi apartada da mãe pela morte e encurralada pelo desejo masculino em troca de um tostão ou de um cascudo. Encontra no consumo da peça de roupa cara a compensação para um passado de abusos e carências. É ela quem reflete: “A miséria no Brasil, puta que pariu, é pornográfica”.

Primeiro trabalho profissional da e estrea de Isabelle Barros como diretora

Espetáculo de estreia profissional de Isabelle Barros como diretora

Isabelle equaliza para baixo a escala da fúria desses seres. As palavras já são sangrentas, cortantes. As frases queimam, mas a encenadora não apela para o transe. As situações-limite expõem gestos desenfreados; explosões no próprio texto. E a encenadora não tenta se sobrepor ao verbo. Ao não exacerbar o gesto, Barros chama esses dramas profundos para a vizinhança, para a proximidade.

Esses quadros arranham a vida em sua perspectiva mais profunda, ou seja, pathetica. No limite, vulneráveis, sem segurança alguma, essas criaturas parecem dominados pelo pathos grego submetido à discursividade. Mas também afasta-se desse conceito originário de pathos ao se enredar na ideia de passividade, afecção, sofrimento. Mas é também louvável que a encenação não tenha se quedado totalmente ao sentido principal de pathos na atualidade como doença, mal-estar ou anormalidade.

A paixão amorosa em seu sentido mais corriqueiro, sensual se manifesta mais no conto Crime, ao mostrar como a exacerbação pode conduzir a uma fatalidade.

Mas o pathos de Amar é Crime se apresenta em sentido mais amplo, como essência das leis que movem o humano. A intensidade da paixão nos quadros do espetáculo carrega potências que regem a vida do espírito, com suas diferentes durações.

Os atores são jovens e expressam suas possibilidades de criar a partir da bagagem vivenciada. Eles têm um frescor dos que ainda não conhecem o fundo do poço. Mas têm brilho que tende a aumentar. Há uma sutileza na direção, que remete para outro lugar da violência.

Saúdo com alegria a chegada de Isabelle Barros, essa jovem diretora de teatro e o AMARÉ Grupo de Teatro, com seus novatos que transbordam de afeto pelo palco. Isabelle vem com um olhar sensível sobre as dores do mundo, que não se perde em estranhamentos e exageros de só aproximar o pathos da doença.  De alguém que trilha a complexidade a partir das frases e intenções roubadas do cotidiano de Marcelino Freire.

SERVIÇO
Amar é Crime
Adaptação teatral do livro homônimo de Marcelino Freire.
Quando: 23, 24, 30 e 31 de julho, às 19h (Ingressos a partir das 18h)
Onde: Espaço Cênicas – Rua Marquês de Olinda, 199. Bairro do Recife (Entrada pela Rua Vigário Tenório).
Quanto: R$ 20 (inteira)/ R$ 10 (meia)
Informações: 81 9 7914 4306
Classificação indicativa: 14 anos
Capacidade do espaço
: 60 lugares
Informações: 97914-4306
Promoçãohttps://www.eventick.com.br/amarecrime

FICHA TÉCNICA
Encenação: Isabelle Barros
Texto: Marcelino Freire com adaptação de Natali Assunção
Elenco: Marcos Medeiros, Micheli Arantes e Natali Assunção
Iluminação: Marcos Medeiros
Figurino e cenografia: Micheli Arantes
Direção musical: Kleber Santana e Isabelle Barros
Produção: AMARÉ Grupo de Teatro

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