Coragem de ser Terra para mãos, pés e vistas

 

Maria Paula Costa Rêgo no espetáculo Terra. Foto: Guto Muniz / Divulgação

Maria Paula Costa Rêgo no espetáculo Terra. Foto: Guto Muniz / Divulgação

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As conquistas e perdas dos povos indígenas e a certeza de que a luta continua. Foto: Guto Muniz/ Divulgação

O quanto de índio há em você, cidadão brasileiro? questiona o espetáculo Terra, derradeira parte da trilogia Uma história, duas ou três, do Grupo Grial, concebido e dançado pela bailarina e coreógrafa Maria Paula Costa Rêgo. E se posiciona a favor dos povos primordiais, que historicamente foram ameaçados, subjugados e rebelados; que tiveram seus territórios confiscados por leis feitas pelos beneficiários. Resistiu, Resiste.

Terra condena nos passos da dança contemporânea o genocídio desses povos e o preconceito que persiste até hoje. No corpo da bailarina pulsa a identidade e os movimentos das manifestações populares indígenas do Nordeste brasileiro.

Diálogo com o presente e com a luta. A peça coreográfica tem direção assinada por Maria Paula Costa Rêgo e Erick Valença. A trilha sonora, criada pelo percussionista Naná Vasconcelos, está carregada de efeitos sonoros, com onomatopeias e sons da natureza. E o cenário é assinado pelo artista plástico Manuel Dantas Suassuna.

A temporada integra as comemorações de 20 anos do grupo Grial, criada por Ariano Suassuna e Maria Paula Costa Rêgo e vai de 2 a 4 e de 9 a 11 de fevereiro de 2017, na CAIXA Cultural Recife.

A encenação é uma das mais premiadas do grupo. Terra ganhou o Prêmio APCA de 2013, na categoria Intérprete-Criadora, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte. O solo também arrebatou cinco troféus do Prêmio Apacepe de Dança 2014, do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos.

Entrevista: Maria Paula Costa Rêgo

 Bailarina e coreógrafa do Grupo Grial. Foto: Victor Muzzi

Bailarina e coreógrafa do Grupo Grial. Foto: Victor Muzzi

Ariano Suassuna criou junto com você o Grupo Grial em 1997. Que falta faz Ariano Suassuna para você?
Eu gostava de mostrar a obra finalizada para Ariano, e discutir aquele material. A conversa era sempre muito maior, ele mostrava vídeos e músicas e dava muitas voltas em torno da arte almejada por nós. Este PAR, está me fazendo muita falta.

Qual a importância do Balé Popular na sua vida?
Foi minha segunda grande vivência, e sem ter passado pelo Balé Popular do Recife, eu certamente não teria chegado ao Grupo Grial.

Prêmio é importante? Por quê e para quê?
Quando uma instituição de respeito reúne pessoas conceituadas na sua área, para decidirem quem deve ganhar um prêmio pela sua obra, este prêmio tem um valor imensurável. Abre portas, chama olhares, além de confirmar que as suas escolhas estéticas reverberam de alguma forma.

Como você ultrapassou os limites territoriais e venceu o Prêmio APCA de 2013?
Os limites territoriais são ultrapassados quando acreditamos que ele não existe. Existe a dificuldade financeira, mas criamos espetáculos pensando em alcançar o mundo, então estas dificuldades diminuem.

Qual o seu pensamento em dança e como ele foi construído?
A minha primeira experiência de dança foi com Improvisação, e com o aprimoramento desta técnica, eu tive conhecimento do meu corpo e da capacidade que este corpo tem de materializar sentimentos através da qualidade dos seus movimentos. Ao vivenciar o Balé Popular, eu me joguei naquilo que, para mim, era muito mais que o movimento da dança popular, era o jogo cênico da brincadeira. Estava largada a minha jornada no universo das tradições.
Quando viajei para a França, meus estudos giravam em torno desta questão, mas eram sempre na teoria que eu evoluía. A prática deste discurso veio a se concretizar com a criação do Grupo Grial em 1997. De lá para cá, são as criações que me dão as respostas para minhas questões de construção de uma dança onde o cerne é a tradição popular. Cada criação coreográfica, uma pergunta e, certamente, 2500 respostas!

Poderia elucidar a frase de que o Grupo Grial faz criações com temas e inspirações populares trabalhadas numa chave erudita, porque isso parece um bordão.
O Grupo Grial trabalha com o UNIVERSO DAS TRADIÇÕES festivas e sagradas brasileiras. Quando adentramos nestes universos, os percebemos pelos nossos “olhos” de estrangeiros. Vivenciamos de dentro, ao mesmo tempo que ligamos uma segunda intenção que fica no alerta, “à cata” de elementos de criação contemporânea, de composição coreográfica (e tudo que ela engloba). Essa percepção pode acontecer muito rápido, como pode durar anos! Esse material (imaterial) se amalgama com nosso fazer de dança diário (estudos técnicos e teóricos), e que, juntos, ficam à serviço das nossas criações coreográficas.

Terra é um solo da Maria Paula, criação do grupo Grial que leva para a cena uma discussão densa sobre as origens do Brasil, através da metáfora da terra, do chão que pisamos. O que você acrescenta para falar de Terra.
TERRA, é também uma metáfora do homem moderno que tem se deixado roubar seus espaços (a palavra espaço significa também conquistas sociais).

O tempo traz experiência, mas deixa suas marcas no corpo, na presteza do gesto. Como criadora o que significa dançar hoje? Quais as diferenças de 20 atrás?
TODAS AS DIFERENÇAS! Antes eu colocava o vigor à serviço do que eu estava interpretando, hoje eu coloco a minha dramaturgia corporal a serviço da história.

Sempre me parece muito estranho traduzir corpo em movimento, energia, desenho coreográfico, a dança contemporânea para texto. Colocações como “O trabalho aborda temáticas como memória, tempo e transformações da nossa história” me parecem muito vagas.
Então o que significaria: “As coreografias trazem referências das manifestações populares do Nordeste transformadas em DNA para os passos de Maria Paula Costa Rêgo”?

DNA é algo que nos pertence, do que somos feitos. O Brasil tem muita dificuldade de assumir sua descendência indígena ou africana. Para a maioria de nós, somos descendentes apenas dos povos europeus!! Quando falamos que trago nos meus movimentos este DNA é que assumo a minha herança e a do lugar em que vivo, e coloco minhas criações à serviço deste norte.

Ficha técnica:
Direção: Maria Paula Costa Rêgo e Eric Valença
Intérprete: Maria Paula
Trilha sonora: Naná Vasconcelos
Figurino: Gustavo Silvestre
Luz: Luciana Raposo
Pintura de cenário: Manuel Dantas Suassuna.

Serviço
Terra – Grupo Grial de Dança
Onde:CAIXA Cultural Recife (Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife, Recife/PE)
Quando: 2 a 4 e 9 a 11 de fevereiro de 2016, às 20h
Ingresso: R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia)
Bilheteria: vendas a partir das 10h do dia 1/02 (para os dias 2 a 4) e do dia 8/02 (para os dias 9 a 11)
Informações:(81) 3425-1915
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 45 minutos

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No palco com Dom Helder

O Avesso do Claustro no Santa Isabel, no Recife. Foto: Wellington Dantas

O Avesso do Claustro no Santa Isabel, no Recife. Foto: Wellington Dantas

Nessa segunda-feira, 30, o compositor, cantor e escritor Chico Buarque foi celebrado com o prêmio de literatura Roger Caillois, em Paris, na França, pelo conjunto de sua obra. Ele foi escolhido na categoria literatura latino-americana. O que poderia ser motivo de orgulho virou mote para comentários hostis, carregados de ódio nas redes sociais nos últimos dias. Um absurdo, por tudo que o artista representa. Como já defendeu o escritor e jornalista Xico Sá: “O Brasil precisa voltar a amar Chico Buarque de Holanda. De todas as maneiras. Com tesão e com afeto”.

A esposa do ex-presidente Lula, que sofreu na última semana um Acidente Vascular Cerebral (AVC) hemorrágico, apontado como o tipo mais grave, também foi vítima da cólera e de demonstrações de desumanidade, selvageria e maldade.

O Brasil mostra sua face monstruosa e as respostas chegam na mesma moeda contra os que atacam. O Brasil está se tornando desumano. De uma perversidade que não tem pudor de alardear o desejo de fazer ou ver sofrer quem pensa diferente.

Nesse contexto adverso, e com os ingredientes da economia e da política da atual conjuntura, O Avesso do Claustro funciona como um antídoto a toda essa baba ácida. O drama musical revigora o nome de Dom Helder Camara (1909-1999), conhecido como bispo vermelho por sua atuação no tempo da ditadura militar brasileira. Baixinho, hábil comunicador e firme defensor dos direitos humanos, ele é inspiração para se tentar recuperar o humanismo, necessário e urgente. Incentivo para a devolução de sonhos e esperanças.

A montagem, da Cia. do Tijolo, junta traços da biografia do clérigo com episódios de três personagens fictícios ancorados no Recife, Rio de Janeiro e São Paula. A peça tem direção partilhada entre Rodrigo Mercadante e Dinho Lima Flor, Dinho também no papel do protagonista.

Karen e Dinho

Lilian de Lima e Dinho Lima Flor

O Avesso do Claustro fez duas sessões no Recife no Teatro de Santa Isabel, sábado e domingo, (28/01) e domingo (29/01) dentro da programação do 23º Janeiro de Grandes Espetáculos. Apresentações pulsantes, com a plateia participativa em intervenções, diálogos, vaias para os congressistas (não para o ator), fora Temer, risos, choros, muita emoção. Palmas para a memória de Frei Tito, que tem trechos de cartas e poemas expostos, inclusive um relato de torturas padecidas na Operação Bandeirante (Oban), em 1970, e do requinte de perversidade do delegado Fleury que aplicava choque em sua língua na intenção cruel de plagiar o rito da hóstia sagrada.

Foi muito além do que está já previsto no script da cena do lava-pés, sopas e vinho no palco, com o elenco se desdobrando para acolher os que sobem e irradiar bem-querer por todos que estão no teatro.

Essa peça reflete sobre a função da arte a partir dos sentidos; das imagens, dos sons (do batuque de raiz africana e trilha sonora original), do toque, do cheiro da sopa e seu compartilhamento junto com o vinho.

Com lágrimas nos olhos, do palco pude sentir de bem perto a doação proposta da pela Cia. do Tijolo para falar desse mundo perverso e de que até que ponto cada um é responsável pela inflamação desses sentimentos, ao som de Se Deus existe, eu não sei. Ai Rodrigo Mercadante, Dinho Lima Flor, Lilian de Lima, Karen Menatti e Flávio Barollo, que alegria indescritível estar no palco do Santa Isabel para comungar desse amor e também a luta que prossegue.

Cena do lava-pés

Cena do lava-pés, na primeira sessão do Santa Isabel, no Recife

Dom Helder era um homem subversivo, sim. E a peça enfatiza facetas antidogmáticas e anti-institucionais de forma bem-humorada; passagens em que o religioso dribla as regras do claustro com poesia e danças para a Lua; e em oposição clara à opulência do Vaticano.

O protagonismo de Dom Helder é dividido com outras três figuras localizadas em pontos geográficos distintos: um pesquisador que chega ao Recife para investigar o percurso do bispo, uma cozinheira que trabalha no projeto da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de levantamento de uma edificação popular no bairro carioca do Leblon; e uma paulistana que mora numa quitinete de 15 m2, percorre estações da cidade e se depara com desvalidos num quadro de degradação do ser humano na maior metrópole do país.

Ao chegar à estação Santa Cecília e esbarrar com a frase “Deus não existe”, ela dá o gancho para o narrador interromper a cena e comentar: “Como Deus não existe? Deus nunca esteve tão presente nos adesivos de carros, em declarações públicas e, até mesmo, nas reuniões na Câmara dos Deputados!”.

Frei Tito que foi torturado pela ditadura militar brasileira

Frei Tito que foi torturado pela ditadura militar brasileira

Há depoimentos impressionantes, como aquele em que o bispo confessa ter desejado o incêndio do Vaticano e, com ele, a morte do Papa para diminuir a distância entre o poder religioso e os cristãos. A cozinheira carioca também revela que faz boas ações por interesse e rejeita o mal por medo da punição divina.

A peça faz um paralelo da trajetória engajada do bispo em prol dos despossuídos e defesa de perseguidos políticos nos anos de 60/70 e a Teologia da Libertação, os movimentos estudantis cristãos (JUC/JEC) e as Comunidades Eclesiais de Base.

Dom Helder gostava defrases de efeito. E a ele são atribuídas muitas: “o problema do Nordeste não é a seca, são as cercas”; “Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão; se falo das causas da fome, me chamam de comunista”. E fica a pergunta: “Quem, mesmo dentre uma legião de anjos, poderá me ouvir?” 

Ficha técnica
O avesso do claustro
Dramaturgia: Cia. do Tijolo
Direção: Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante
Direção Musical: William Guedes
Com: Lilian de Lima, Karen Menatti, Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante e Flávio Barollo
Orientação teórica: Frei Betto
Músicos: Maurício Damasceno,William Guedes, Clara Kok Martins, Eva Figueiredo e Leandro Goulart
Figurinista: Silvana Marcondes
Concepção e construção de cenário: Cia. do Tijolo e Silvana Marcondes
Assistentes e aderecistas: Alexandra Deitos e Isa Santos
Rede e bonecos de pano: Silvana Gorab
Bonecões: André Mello e Cleydson Catarina
Cenotécnica: Julio Dojcsar e Majó Sesan
Costureira: Atelier Judite de Lima e Cecília Santos
Desenho de luz: Aline Santini
Operadora de luz: Laiza Menegassi
Assistente de luz: Pati Morim
Operação de som: Emiliano Brescacin
Orientação cênica: Joana Levi e Fabiana Vasconcelos Barbosa
Orientação vocal: Fernanda Maia
Composição de trilha sonora original: Caique Botkay e Jonathan Silva
Produção executiva: Cris Raséc
Assistente de produção: Lucas Vedovoto
Designer gráfico: Fábio Viana
Fotos: Alécio Cezar

 
 
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Grupo Experimental celebra Chico Science

Foto: Wellington Dantas

Zambo lembra 20 anos sem o líder do movimento manguebeat. Foto: Wellington Dantas

No seu Monólogo Ao Pé De Ouvido, Chico Science entoa: “Modernizar o passado / É uma evolução musical / Cadê as notas que estavam aqui? / Não preciso delas! / Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos…” Do Recife, ele fez uma revolução musical com o Movimento Manguebeat, que irradia até agora. Neste 2 de fevereiro faz 20 anos que Chico Science partiu para outras galáxias, para o desconhecido sono. Parece que foi ontem, com toda aquela comoção da morte do jovem artista.

Nesta quinta-feira, às 20h, em sua sede, o Grupo Experimental apresenta Zambo, criado há duas décadas para celebrar a memória de Chico Science. A peça coreográfica, concebida e dirigida pela bailarina e coreógrafa Mônica Lira em parceria com Sonaly Macedo, ganhou nova versão exibida em 2016, no evento que reuniu quatro gerações que dançaram o espetáculo.

Nessa configuração participam os bailarinos do grupo Lilli Rocha, Gardênia Coleto, Jorge Kildery, Márcio Filho, Rafaella Trindade e Rebeca Gondim, com participação de Daniel Silva e parte da trilha executada ao vivo por Tarcísio Resende, Paula Caal e Jennyfer Caldas.

A apresentação batizada de Uma dança para Chico é o último elo da corrente Amigos do Experimental. Essa campanha de arrecadação de verba visa manter o coletivo, que não tem apoio regular de nenhum órgão ou instituição. Os que participaram da cruzada compõem o mosaico de patrocinadores da noite. Para o público geral os ingressos custam R$40 (inteira), R$20 (meia) e estarão disponíveis na bilheteria do espaço, uma hora antes da sessão.

Zambo lembra 20 anos sem o líder do movimento manguebeat. Foto: Wellington Dantas

Montagem original foi criada há duas décadas. Foto: Wellington Dantas

Ficha Técnica
Concepção: Mônica Lira e Sonaly Macedo
Direção: Mônica Lira
Músicas: Nusrat Fateh Ali Khan, DJ Spooky, Geoffrey Oryema e Antúlio Madureira
Elenco: Lilli Rocha, Jorge Kildery, Rebeca Gondim, Rafaella Trindade, Gardênia Coleto e Márcio Filho
Artista convidado: Daniel Silva
Músicos convidados: Paula Caal , Tarcísio Resende e Jennyfer Caldas
Concepção maquiagem e penteado: Ivan Dantas
Figurino: Período Fértil
Iluminação: Beto Trindade
Design Gráfico: Carlos Moura
Assessoria de comunicação: Paula Caal
Produção: Emeline Soledade
Colaborador: Danilo Carias
Sonoplasta: Adelmo do Vale

SERVIÇO
Zambo – Uma dança para Chico
Quando: Nesta quinta-feira (02/02), às 20h,
Onde: Espaço Experimental, sede do Grupo Experimental
Ingressos: R$40 (inteira), R$20 (meia), na bilheteria do espaço, uma hora antes do espetáculo

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Indicados ao Prêmio Apacepe 2017

Ossos, Mascate, Alguém para fugir e Paideia são indicados a melhor montagem

Ossos; Mascate, Alguém para fugir comigo e pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação são indicados a melhor peça 

Depois de uma maratona de quase um mês, o 23º Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival Internacional de Artes Cênicas de Pernambuco divulga as produções indicadas ao Prêmio Apacepe de Teatro e Dança deste ano. Os vencedores serão conhecidos na festa de entrega que ocorre na próxima sexta-feira (03/02), às 19h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife. Fone. 3355 3321). Não existe gratificação em dinheiro, mas as estatuetas são de grande valia para os artistas pernambucanos.

Mas para que serve um prêmio no campo das artes do espetáculo? É uma distinção, funciona para criar acontecimento midiático, incentivar novas criações, consagrar projetos ou projetar artistas individuais ou coletivos.

Anos atrás questionei a validade da premiação a Apacepe. Houve reações fortes. Hoje entendo que o teatro pernambucano precisa realçar o talento, a atuação dos artistas dentro de um determinado contexto e é também o momento de confraternizar (que às vezes funciona, às vezes não). Isso acontece no cinema, que proteja cineastas e atores e outras funções da indústria, com muito dinheiro e um concursos espalhados pelo mundo. No jornalismo os prêmios alavancam carreiras.

Mas em todas essas disputas, é fundamental pensar no perfil de quem julga. Isso vale para uma sessão num tribunal, os destinos da Lava Jato, o resultado do Oscar ou da premiação da Apacepe.

Então meus caros, o resultado é uma combinação da sensibilidade, percepção de quem viu, comparou e atribuiu um valor de prêmio. Com outros avaliadores, os resultados possivelmente seriam diferentes. 

Segue a lista dos indicados

INDICAÇÕES TEATRO ADULTO

Melhor Espetáculo
Alguém Pra Fugir Comigo – Resta 1 Coletivo de Teatro (Recife)
O Mascate, a Pé Rapada e os Forasteiros – Cia. de Artes Cínicas Com Objetos (Paulista)
Ossos – Coletivo Angu de Teatro e Atos Produções Artísticas (Recife)
pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação – Coletivo Grão Comum e Gota Serena (Recife)

Melhor Diretor
Analice Croccia e Quiercles Santana – Alguém Pra Fugir Comigo
Júnior Aguiar – pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação
Marcondes Lima – Ossos

Melhor Ator
André Brasileiro – Ossos
Diógenes D. Lima – O Mascate, a Pé Rapada e os Forasteiros
Gil Paz – Puro Lixo, o Espetáculo Mais Vibrante da Cidade
José Neto Barbosa – A Mulher Monstro
Júnior Aguiar – pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação

Melhor Atriz
Apenas uma indicação

Melhor Ator Coadjuvante
Arilson Lopes – Ossos
Daniel Barros – pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação

Melhor Atriz Coadjuvante
Não há indicação

Melhor Ator Revelação
Não há indicação

Melhor Atriz Revelação
Não há indicação

Melhor Sonoplastia ou Trilha Sonora
Juliano Muta, Leonardo Vila Nova e Tiago West – pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação
Katarina Menezes e Kleber Santana – Alguém Pra Fugir Comigo
Juliano Holanda – Ossos

Melhor Iluminação
Elias Mouret – Alguém Pra Fugir Comigo
Játhyles Miranda – Ossos
Júnior Aguiar – pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação
Natalie Revorêdo – A Rã
Natalie Revorêdo – Olhos de Café Quente

Melhor Cenário
Charles Eugênio – A Rã
Diógenes D. Lima, Gustavo Teixeira, Triell Andrade e Bernardo Júnior – O Mascate, a Pé Rapada e os Forasteiros
Marcondes Lima – Ossos
Otto Neuenschwander – Puro Lixo, o Espetáculo Mais Vibrante da Cidade

Melhor Figurino
Agrinez Melo – Histórias Bordadas em Mim
Manuel Carlos de Araújo – Puro Lixo, o Espetáculo Mais Vibrante da Cidade
Marcondes Lima – Ossos
Resta 1 Coletivo de Teatro – Alguém Pra Fugir Comigo

Melhor Maquiagem
Álcio Lins – Baba Yaga
Diógenes e José Neto Barbosa – A Mulher Monstro
Manuel Carlos de Araújo – Puro Lixo, o Espetáculo Mais Vibrante da Cidade

*Haverá três Prêmios Especiais do Júri.

Corpo de Jurados Teatro Adulto: Breno Fittipaldi, Jorge de Paula e Rita Marize
Coordenação/Produção de Corpo de Júri: Augusta Ferraz

INDICAÇÕES TEATRO PARA A INFÂNCIA

Vento Forte para Água e Sabão; Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo; Brinquedos & Brincadeiras e DORalice

Vento Forte; Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo; Brinquedos & Brincadeiras e DORalice

Melhor Espetáculo
Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo – Cia. Biruta de Teatro (Petrolina)
Vento Forte Para Água e Sabão – Companhia Fiandeiros de Teatro (Recife)

Melhor Diretor
André Filho – Vento Forte Para Água e Sabão
Antonio Veronaldo – Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo

Melhor Ator
Antonio Veronaldo – Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo
Tiago Gondim – Vento Forte Para Água e Sabão

Melhor Atriz
Juliene Moura – Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo
Daniela Travassos – Vento Forte Para Água e Sabão

Melhor Ator Coadjuvante
Ricardo Angeiras – Vento Forte Para Água e Sabão
Victor Chitunda – Vento Forte Para Água e Sabão

Melhor Atriz Coadjuvante
Geysa Barlavento – Vento Forte Para Água e Sabão
Kéllia Phayza – Vento Forte Para Água e Sabão

Ator Revelação
Não há indicação

Atriz Revelação
Beatriz Cavalcanti – Brinquedos & Brincadeiras
Gabriela Melo – Brinquedos & Brincadeiras

Melhor Sonoplastia ou Trilha Sonora
André Filho e Samuel Lira – Vento Forte Para Água e Sabão
Mateus Marques – DORalice
Moésio Belfort & Carlos Hiury – Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo

Melhor Iluminação
Beto Trindade – DORalice
Carlos Tiago Alves Novais – Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo
João Guilherme de Paula – Vento Forte Para Água e Sabão

Melhor Cenário
Antonio Veronaldo e Uriel Bezerra – Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo
João Denys e Manuel Carlos – Vento Forte Para Água e Sabão

Melhor Figurino
Apenas uma indicação

Melhor Maquiagem
Não há indicação

*Haverá dois Prêmios Especiais do Júri.

Corpo de Jurados Teatro Para Crianças: Ana Elizabeth Japiá, Márcia Cruz e Samuel Santos
Coordenação/Produção de Corpo de Júri: Augusta Ferraz

INDICAÇÕES DANÇA

Amor, Segundo as Mulheres de Xangô;  Enchente; Os Superficiais; e Segunda Pele

Amor, Segundo as Mulheres de Xangô; Enchente; Os Superficiais; e Segunda Pele

Melhor Espetáculo
Amor, Segundo as Mulheres de Xangô – Grupo Grial (Recife)
Enchente – Flávia Pinheiro (Recife)
Os Superficiais – Cia. Etc. (Recife)
Segunda Pele – Coletivo Lugar Comum (Recife)

Melhor Coreografia
Não há indicação

Melhor Bailarino
Apenas um indicado

Melhor Bailarina
Iara Campos – Microclima
Maria Agrelli – Segunda Pele
Marcela Felipe – Enchente
Maria Paula Costa Rêgo – Amor, Segundo as Mulheres de Xangô

Bailarino Revelação
Não há indicação

Bailarina Revelação
Não há indicação

Melhor Iluminação
Cleison Ramos – Dúvido
Luciana Raposo – Amor, Segundo as Mulheres de Xangô
Luciana Raposo – Segunda Pele

Melhor Figurino
Gustavo Silvestre – Amor, Segundo as Mulheres de Xangô
Marcondes Lima – Os Superficiais

Melhor Cenário
Não há indicação

Melhor Sonoplastia ou Trilha Sonora
Caio Lima e Hugo Medeiros – Segunda Pele
Tarsísio Resende – Amor, Segundo as Mulheres de Xangô

*Haverá dois Prêmios Especiais do Júri.

Corpo de Jurados Dança: Dielson Pessôa, Nadja Maria e Viviane Ferreira
Coordenação/Produção de Corpo de Júri: Augusta Ferraz

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Ossos articula discurso bruto e libertador *

Elenco de Ossos

Elenco de Ossos: Daniel Barros, Arilson Lopes, Marcondes Lima, André Brasileiro, Ivo Barreto, Robério Lucado

                                                                                                        Sidney Rocha *
                                                                                                        Especial para o Satisfeita, Yolanda?

 

ATO I

Querida Yolanda:

Grosso modo, literatura que se parece com teatro não é literatura.

Dizem que a prosa de Marcelino Freire parece teatro. Lamento dizer: não parece. Não parece porque é literatura. Literatura e teatro têm linguagem distinta. Necessariamente. O discurso cênico tem outra função. Há certa natureza ética, que transcende a natureza estética, de modo que teatro não é diversão pura e simples, não está ali para entreter, mas para dizer certa verdade: a condição precária do homem no universo. Nisso o teatro se aparenta mais à filosofia que à literatura. Mas à filosofia que não se rende ao poder, nem ao exagero das interpretações, violência contra a qual Susana Sontag lutou violentamente naquele ensaio: Contra a interpretação.

A busca dessa verdade: tem sido assim desde a Grécia, quando sequer havia distinção entre arte e técnica. É assim na arte dramática de Brecht, de Camus, ou de Beckett e Ionesco, todos interessados somente em expor o homem em sua condição miserável e absurda perante a vida.

Marcelino Freire adaptou seu romance (Nossos ossos, 2013) para entregar ao coletivo Angu de Teatro um texto vigoroso. Um texto, repito. Logo no começo, à direita da cena, o ator, na pele do autor sob a pele de Heleno de Gusmão – ali numa litania à capella, durante todo o espetáculo – ali na primeira das mil ossaturas, expõe a transconfissão do metaescritor:
“O que eu poderia fazer mais, se já escrevi o romance?”
É verdade, Marcelino, mas verdade-só-literariamente.

O discurso cênico termina mostrando a verdade-verdade: o autor se esgota, brocha, acata porque, no teatro, o coito é só dos atores. Só eles podem. Com ph.

Marcelino descobriu cedo que as palavras em estado-de-literatura são uma coisa. Outra coisa são as palavras em estado-de-teatro. A palavra de fato. A palavra-ato.

Em Ossos, reina sobretudo a linguagem não-literária, mas teatral. A metáfora literária enfim perde para discurso do teatro que busca a linguagem ordinária, para suplantá-la. Ossos era para ser um tipo de “teatro de texto” que faz falta ao teatro contemporâneo no Brasil, e isso já bastaria – embora o textocentrismo seja outro tipo de exagero. Mas no teatro as teorias são uma tolice e se perdem no momento exato em que um ator pise o palco. É o que ocorre nessa adaptação. Os atores de Ossos sabem bem as margens miméticas do que vem a ser a encenaçãoatuação. Mas isso seria outro papo.

Eu dizia, Yolanda: uma coisa é texto. Outra, é fala. E outra coisa é voz. Essa pressupõe corpo e sangue. Porque o teatro, diferente do cinema, da literatura, da pintura, nos dá um corpo, de verdade: o do ator. Essa diferença é a essência da mímese do texto dramático. Ossos é também sobre esse corpo, que se tenta conduzir, enterrar, carregar, livrá-lo de uma alma e dá-lo a outra. Por isso o texto é pouco – e a fala não diz tudo. É a voz do ator que transmite o que não está no texto. É massa viva controlável somente pela técnica, no palco. É a única voz que interessa.

Ah, pobre literatura que não pode com essa força.

André Brasileiro e Daniel Barros numa cena de Ossos. Foto: Divulgação

André Brasileiro e Daniel Barros interpretam o escritor Heleno de Gusmão e o michê. Foto: Divulgação

ATO II

“Não sou dramaturgo”, diz o o autor no personagem central de Ossos, vivido com exatidão por André Brasileiro, quando se abre uma das camadas da adaptação – que são como atos dentro de atos, insight ou intuições de Marcondes Lima na busca de uma dicção ou linguagem ou lugar que realizasse o autor-adaptador, mas que contemplasse sua fala [repito: fala] como criador experiente que é.

A direção é conduzida de modo a todos dividirem a cena, a luz, o figurino, deixando clara a voz já reconhecível do coletivo, mas com o pensamento, fala e ação rigorosos do diretor de Ossos. Uma direção não-natural, porque o teatro é mesmo contra a natureza, e nisso consiste a arte – supor certo domínio, e controle, e direção sobre os atos, e omissões.

Por isso, querida Yolanda, não há personagem mais carne-e-osso do que aquele na pele de um ator, todo feito de intuição, e técnica, e erro. Sobretudo erros, Yolanda, porque não existe maria-concebida-[sem-erro]-sem-pecado, no teatro. Ao somar tudo, Marcondes Lima criou a fantasmagoria necessária para transformar Ossos em discurso bruto e libertador. Ossos é carnavalização, riso e grito. O paraíso do baixo-corporal, do prazer e da dor que se assume. A ridicularia da morte sobre a vida. E da vida sobre si mesma.

Taí a verdade desse teatro angular, coletivo.

 

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Marcondes Lima no papel de Estrela. Foto Divulgação

ATO III

O que realmente importa: André Brasileiro trocou a paixão daquela vez da estreia, naquele 11 junho do ano passado, pela exatidão que vi ontem, no mesmo Teatro Apolo, e compôs um Heleno de Gusmão que se põe em pé, sem pedir favor ou pacto de compreensão à plateia.
Marcondes Lima desaparece e faz surgir algumas vênus singulares: Estrela, Carmen Miranda, Fafá de Belém, todas com cor e coração também exatos.

Arilson Lopes faz o motorista do rabecão. Foto Divulgação

Arilson Lopes faz o motorista do rabecão. Foto Divulgação

O Caronte mais real que já vi, o motorista Lourenço – o personagem trágico por excelência em Ossos: vale mesmo vê-lo saltando de dentro de Arilson Lopes, que faz também o interesseiro Carlos.

A trilha sonora de Juliano Holanda. A trilha sonora de Juliano Holanda. A trilha sonora de Juliano Holanda.

Ceronha Pontes preparou urubus, travestis e michês para o banquete claro-escuro e multicor de cada cena.
Ossos é como a vida. E como a morte: Funciona.
Convenhamos, querida: no teatro, isso não é pouco.

Então ficamos assim, Yolanda: Ossos: texto de Marcelino Freire. Fala de Marcondes Lima. Mas a voz é do Angu de Teatro.
E que beleza.
Não perca.

*  Sidney Rocha  é escritor. Escreveu Matriuska (contos, 2009), Fernanflor (romance, 2015) e Guerra de ninguém (contos, 2016). Com O destino das metáforas venceu o Prêmio Jabuti, em 2012, na categoria contos e crônicas e com o romance Sofia, o Prêmio Osman Lins; todos pela Iluminuras.

Daniel Barros e Robério Lucado interpretam garotos de programa em Ossos. Foto: Ivana Moura

Daniel Barros e Robério Lucado interpretam garotos de programa em Ossos. Foto: Ivana Moura

FICHA TÉCNICA

Texto: Marcelino Freire
Direção: Marcondes Lima
Direção de arte, cenários e figurinos: Marcondes Lima
Assistência de direção: Ceronha Pontes
Elenco: André Brasileiro, Arilson Lopes, Daniel Barros, Ivo Barreto, Marcondes Lima, Ryan Leivas (Ator stand in) e Robério Lucado
Trilha sonora original – composição, arranjos e produção: Juliano Holanda
Criação de plano de luz: Jathyles Miranda
Operação de Som: Sávio Uchôa
Preparação corporal: Arilson Lopes
Preparação de elenco: Ceronha Pontes, Arilson Lopes
Coreografia: Lilli Rocha e Paulo Henrique Ferreira
Coordenação de produção: Tadeu Gondim
Produção executiva: André Brasileiro, Fausto Paiva, Arquimedes Amaro, Gheuza Sena e Nínive Caldas
Designer gráfico: Dani Borel
Fotos divulgação: Joanna Sultanum
Visagismo: Jades Sales
Assessoria de imprensa: Rabixco Assessoria
Técnico de som Muzak – André Oliveira
Confecção de figurinos: Maria Lima
Confecção de cenário e elementos de cena: Flávio Santos, Jorge Batista de Oliveira.
Operador de som e luz: Fausto Paiva / Tadeu Gondim
Camareira: Irani Galdino

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