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Entrevista “coletiva” – Daquilo que move o mundo

Daquilo que move o mundo. Fotos: Ivana Moura

Como estou fora do Recife, ainda não vi Daquilo que move o mundo. Mas há muitos meses, nas conversas no Central, nos encontros nos teatros, sabia da montagem e do que ela estava “causando” nos envolvidos. Com direção de Tiche Vianna, uma das fundadoras do Barracão Teatro, a peça traz no elenco três jovens criadores: Kleber Lourenço, Jorge de Paula e Tay Lopez. Para saber um pouquinho mais da peça e, principalmente, do pensamento deles, resolvi fazer uma entrevista “coletiva”. Os atores mesmos se entrevistaram e fizeram perguntas para a diretora. Saíram considerações importantes sobre o fazer teatral, sobre o que os move, sobre crises e amizade. Obrigada, meninos!

ENTREVISTA // KLEBER LOURENÇO, JORGE DE PAULA, TAY LOPEZ

Jorge: Por que valeu a pena mover-se tanto para realizar o Daquilo que move o mundo?
Kleber: Valeu a pena porque sabia que nesse processo aprenderia demais! Valeu a pena por que queria voltar a trabalhar de forma coletivizada, por acreditar no trabalho dos criadores envolvidos e por querer experimentar outras linguagens artísticas. Muito pela vontade de crescer, me desafiar e pelo amor ao teatro.

Kleber: Como era o Jorge de 1998, entrando na Universidade Federal, e como você se vê hoje, em relação ao teatro?
Jorge: Bem, quando iniciei meu Curso de Artes Cênicas tinha 17 anos e nenhuma bagagem em Teatro. Ser ator nunca havia sido cogitado por mim em minhas peregrinações adolescentes na escolha do meu “futuro profissional”. Foi só no 3º ano do Ensino Médio, depois de ter vivenciado no colégio ações que envolviam teatro e dança, que o interesse começou. Deixei de ser cirurgião plástico para ser ator. Entrei na Universidade e fui lançado ao abismo. Sem rede de segurança. O “novo” me assustou muito. Virei pedra. Passei algum tempo trancafiado em mim. Convivia de forma mais espontânea com poucas pessoas. A maioria de fora da Universidade. Entretanto, foi a convivência com pessoas maravilhosas da minha turma de Artes Cênicas – companheiros de vida e de cena até hoje – que aos poucos venci todos os receios, as vaidades, e fui, de fato, sentindo-me mais confortável com a minha escolha profissional. Hoje, depois de muitos anos dedicados a dobradinha arte-educador/ator, reconheço-me como ator e estou vivenciando dedicação exclusiva a isso. Todos os meus receios encontraram lugar. E aqueles que não encontraram pouso certo, caminham menos ansiosos. Afinal, fazer teatro no Brasil é um ato de resistência. Quando muitas coisas gritam para você “não faça”, eu insisto. Com satisfação.

Espetáculo está em cartaz no Espaço Fiandeiros

Jorge: Por estar já há algum tempo morando em São Paulo, como você percebe o teatro pernambucano?
Tay: De fato, faz aproximadamente 14 anos que resido em São Paulo, porém, minha percepção com relação ao teatro que se faz em Pernambuco (posso falar melhor de Recife), é um tanto quanto interna, pois apesar de morar longe, sempre acompanho as notícias pelos veículos de comunicação que tenho acesso e também por estar na cidade no momento em que acontece o Janeiro de Grandes Espetáculos, um apanhado da produção anual. Percebo que, hoje em dia, o teatro de Grupo tem sido uma constante na cidade. Haja vista as várias sedes que foram abertas nos últimos anos e o pensamento coletivo como um todo. Sobretudo os atores que saíram da universidade e se reuniram com outros, comungando de um pensamento artístico, compartilhado e conceitual para a cena Teatral. Percebo uma transição das “produções” para os “coletivos”, onde não mais há artistas contratados, subalternos em prol de um espetáculo e sim uma junção de pessoas que desejam falar de algo que os atinja, que os comova. Claro que auxiliados pelos editais que apareceram na cidade nos últimos 10 anos. Em São Paulo, acompanhei de perto a formatação da Lei do fomento, desde as reuniões do “arte contra a barbárie” até a implementação da Lei. Sabemos que São Paulo tem uma população 8 vezes maior do que a de Recife e isso reverbera na quantidade de espetáculos em cartaz na cidade, assim como nas verbas compartilhadas, através das leis de incentivo, dos SESCs, e de outras formas capitais que viabilizam a produção local. Com a implementação do Fomento vários pequenos espaços alternativos surgiram na cidade, pois uma das condições da Lei é a continuidade de pesquisa. O que levou vários grupos a constituírem uma sede. Isso está diretamente ligado à linguagem utilizada, saindo dos palcos italianos tradicionais, tendo o espectador mais próximo da encenação e flertando com as artes plásticas, performáticas, com a dança, as multilinguagens… Tendo um teatro que podemos chamar de contemporâneo. Para isso fez-se necessário um política cultural, deixando o Teatro de ser um produto e sim um resultado artístico real, sem maneirismos de enquadramento num gosto massificado e comercial. Sendo assim, fazendo uma analogia com o que vi surgir em São Paulo, percebo um movimento parecido em Recife, tendo as suas devidas proporções. Percebo um maior engajamento político dos artistas locais e das vontades de ter em Recife uma cena forte e que dialogue com o que está se fazendo no Mundo, não como uma cópia, mas sim como um reflexo do entorno que vivemos: homens contemporâneos e inquietos. Percebo ainda uma carência de atividades de formação e gostaria que existisse um maior diálogo com os outros estados do Nordeste, pois temos muitas questões culturais pertinentes à nossa região e isso poderia ser um caminho para acharmos algo definitivamente próprio. Percebo que estamos caminhando para um lugar onde o Teatro, não seja mais visto como algo secundário na vida dos artistas, e sim, seja no sentido mais pleno, a profissão que dá a inquietação necessária para criar e o conforto para viver. Ainda é uma Utopia, claro. Mas percebo que este pensamento tem estado mais presente. E só ele para fazer com que nos juntemos em prol de mudanças no legislativo que rege as artes cênicas no estado.

Direção e dramaturgia são de Tiche Vianna

Tay: Posso dizer que nos conhecemos praticamente crianças, cheios de vontades e de expectativas com relação ao mundo artístico. O que ficou do menino de Caruaru e o que, naquela época, era semente e hoje é fruto? Qual adubo ainda te faz florescer?
Kleber: Daquela época Tay, ainda existe (espero que por muito tempo) o menino curioso e com a necessidade de se expressar pela arte. Viver dela e nela. Hoje percebo frutos colhidos, mas a vontade de aprender do menino ainda é a mesma. É o adubo. Saber que a estrada é longa e sempre tenho mais desafios a me fazer.

Tay: Atuar nos põe em contato diretamente com invisibilidades e epifanias que nos norteiam na construção de um personagem ou no momento da apresentação do próprio espetáculo. Qual a sua ligação com o Sagrado? Ele existe?
Jorge: O sagrado se revela em mim quando invisto em algo e me conecto a ele com empenho e respeito. Seja meu ritual matinal de só falar pela manhã depois de beber um copo de água até o hábito de orar todas as vezes que sou impulsionado para isso. Dessa forma, o sagrado está presente em minha vida de muitas formas e a linguagem teatral é uma delas. Para mim, toda nova experiência em teatro é um vazio. Cada construção de personagem, cada récita é um momento imprevisível e irreproduzível. Por isso, para garantir a realização das minhas criações em teatro preciso me conectar ao sagrado. É ele que me conduz às necessidades específicas de cada obra e permite que eu consiga corporificar personagens. A minha arte é justamente meu corpo movido pelo sagrado.

Kleber: O que o deslocamento para fora do Recife te trouxe? O que você tem e o que falta?
Tay: O deslocamento para fora das fronteiras do Recife me fez ter uma perspectiva de olhar diferente. Sobre mim mesmo, sobre minha terra e sobre o Teatro que desejava. Saí de Recife ainda muito jovem com apenas 19 anos e saí em busca de formação. Em 1999, a cidade oferecia enquanto terceiro grau, a licenciatura em Artes Cênicas, através da UFPE. Um tanto quanto desestimulado por alguns resolvi não prestar vestibular e partir atrás de uma formação mais voltada para o trabalho do ator. Escolhi São Paulo e fui! Comecei muito novo no Recife, com apenas 11 anos, fazendo um teatro mais comercial onde nem eu saberia distinguir, na época, qual seria a diferença entre o Teatro-arte-depoimento e o teatro reprodutor de fórmulas televisivas. Deslocar-me da cidade me pôs obrigatoriamente em contato com a multiplicidade teatral de São Paulo. Colocou-me obrigatoriamente em contato com o que me faz ator. Não entrei na USP para fazer Bacharelado em Artes Cênicas, mas tive a oportunidade de participar de processos de montagens da EAD, de participar de seleções de elenco, onde terminei sendo convidado pra ingressar no XPTO, grupo que até hoje faço parte, fiz inúmeras oficinas gratuitas nos SESCs, nas Oficinas Culturais do Estado, no SESI… Enfim… Estar em São Paulo, colocou-me num estado real, contínuo e obrigatório de formação artística. Acredito que somos a representação de tudo o que vivemos. Das peças a que assistimos, dos livros que lemos, dos filmes que vemos, dos amigos que temos, dos lugares que visitamos. Não posso negar que estar em São Paulo é estar mais próximo, culturalmente, do que está se produzindo no Mundo. Sabemos que a cidade é rota dos principais espetáculos, das principais exposições e cidade-sede de intercâmbio dos artistas mais variados. Ter acesso a essas obras é um pouco se educar e beber numa fonte que realmente te alimenta. Sinto falta de uma formação tradicional, de um diploma, sinto falta da família e do mar que também me faz ator. Vivo em crise e estou, sem demagogia, mais atento ao que não tenho do que ao que tenho. Tenho vontades, muitas… Todo final de ano penso em desistir de tudo, em prestar um concurso público e virar um engravatado burocrático. Penso que ainda existe tanta coisa pra aprender. Falta-me tempo e dinheiro para consumir mais arte, para viajar mais, para parar só para estudar… Mas sei que tenho um histórico que não me arrependo. E que me honra. Tenho uma felicidade extrema em exercer a minha função no espaço teatral. Tenho cada vez mais respeito pela arte. Tenho sorte em ter encontrado artistas instigantes no meu caminho. Tenho gratidão em poder melhorar enquanto ser humano, através do Teatro. Começo a acreditar que tenho mais convicções e certezas, conseguindo sair da fase do SIM para tudo e começando a dizer NÃO para aquilo que não me movimenta enquanto artista. Sinto falta de algo que nem sei o que é. Mas é isso o que me move. Talvez seja a tal completude mítica que nos faz caminhar!

ENTREVISTA // TICHE VIANNA

Jorge: O que Recife moveu em você?
Tiche: Recife moveu em mim sentimentos antagônicos. Esta cidade com sua história estampada nas ruínas dos antigos palácios, casarões, ruas estreitas e gente de tudo que é jeito mostrando a mistura de tantas culturas, me deixava alegre diante da possibilidade de ousar e triste diante das suas próprias contradições. A cidade me revelava a imposição da modernidade como se os edifícios quisessem se distanciar de alguma coisa que não se quer ver. Aí eu percebia o abandono das coisas essenciais, como o do bem estar das pessoas simples. Diante de um mar incrível, onde não podemos nos banhar por causa dos tubarões ou diante de rios imensos onde não entramos por causa da poluição, compreendi o que significa a aparência de ter coisas das quais não podemos usufruir e o quanto este choque de realidades tão coladas umas às outras é capaz de criar vilões e submetidos. Mas há muito afeto em Recife, muitas carícias também. O antagonismo se deu em mim porque ao mesmo tempo em que fazia algo que amo fazer: criar teatro, inventar mundos que são reflexos iluminados de realidades presentes, lutava contra essa tristeza de ver tão explicitamente um abandono imenso e um salve-se quem puder ou quem for capaz de se salvar. Me salvei porque estava criando e estava com gente que também sabe se salvar na arte. Mas pisamos terrenos minados várias vezes. Acho que o espetáculo retrata esses sentimentos. Não é possível ultrapassar o limite até que se reconheça estar preso entre as margens!!! Recife moveu em mim a percepção de muitas margens e a urgência de ultrapassá-las!

Atores entrevistaram diretora

Tay: Levando-se em consideração nossas inquietações artísticas e nosso eterno caminho de busca, tendo sempre a consciência de uma obra em construção, onde mora a segurança num trabalho teatral? Qual pilar te sustenta e te dá estabilidade para conduzir um processo?
Tiche: Tay, a segurança não mora, ela nem existe. É uma invenção da necessidade humana para termos coragem de ousar. Não é preciso segurança para fazer teatro, é preciso confiança. Não confiamos porque estamos seguros, confiamos porque acreditamos no que podemos. O que me sustenta são as relações com meus parceiros de criação durante o processo. Meu pilar é a confiança que eles mostram ter sobre suas possibilidades de inventar o desconhecido. Nunca me sustento em um processo de criação, ao contrário, desmonto e porque me desmonto construo, pra não ficar para sempre aos pedaços. Quem desmonta não tem estabilidade nehuma. Se fosse estável eu quebraria. Vivo porque me desestabilizo diante de cada novo acontecimento gerado pelo movimento infinito da existência.

Kleber: O que ficou da experiência conosco?
Tiche: Ficou admiração, ficou amizade, ficou parceria, ficou confiança, ficou prazer, ficou a pergunta: porque foi tão árduo chegar ao fim?

Serviço:Daquilo que move o mundo
Quando: Quinta e sexta-feira, às 20h; e sábados e domingos, às 18h. Até 07 de outubro
Onde: Espaço Fiandeiros – Rua da Matriz, 46, 1º andar, Boa Vista.
Quanto: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Informações: (81) 4141.2431
Lotação sujeita ao espaço da sala: 30 lugares

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Uma família setentona

Um sábado em 30, texto de Luiz Marinho, direção de Valdemar de Oliveira

Não é nada fácil um grupo de teatro comemorar 70 anos. Muitos menos um grupo amador. Sem bem que a questão do “amadorismo” aqui não é um ponto crucial – não se relacionamos a palavra amador à ideia de falta de profissionalismo. O Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP) foi responsável por muitos avanços no pensamento estético do teatro pernambucano. É só pensar que o TAP trabalhou com diretores como Ziembinski, Graça Mello e Bibi Ferreira.

Nessa trajetória, uma das peças fundamentais para o grupo é Um sábado em 30, texto de Luiz Marinho, direção de Valdemar de Oliveira. A montagem estreou no dia 8 de julho de 1963 no Teatro de Santa Isabel. E é justamente no palco mais nobre da cidade, com Um sábado, que o TAP celebra suas sete décadas numa minitemporada de hoje a domingo.

E a festa começa de maneira muito especial – com uma homenagem a Geninha da Rosa Borges; ela vai simbolicamente entregar as chaves da casa dessa família nordestina, patriarcal, a Renata Phaelante, que a partir de agora assume o papel de Dona Mocinha. Há ainda outras substituições – como é o caso de Fernando de Oliveira, que por questões de saúde, terá seu papel defendido por Adelson Simões.

Geninha da Rosa Borges recebe homenagem na estreia. Foto: Nando Chiappetta

Reinaldo de Oliveira, filho de Valdemar e responsável por levar adiante o TAP, admite que desta vez não foi fácil erguer a montagem. Foi preciso repassar o texto muitas vezes, as marcações. Mas Reinaldo diz logo que não muda nada na direção. “A direção é a original, a de Valdemar de Oliveira. Ele e Luiz Marinho discutiram como essa peça, foram construindo o resultado no palco juntos”.

Em novembro, Reinaldo lança Os palcos de minha vida, pela editora Bagaço. No livro, o médico e ator vai esmiuçar sua trajetória no TAP. Promete curiosidades, histórias de bastidores e mais um resgate histórico dessa companhia para o nosso teatro.

ENTREVISTA // RENATA PHAELANTE

Quais papeis você já fez na montagem? Entrou com quantos anos? E o quanto isso foi importante na sua formação profissional?
Entrei para o elenco de Um sábado em 30, em 1985, aos 12 anos de idade, no papel de Maria de Jesus, uma das filhas de Dona Mocinha, uma adolescente em fase colegial, papel que já havia sido defendido por minha mãe, Vanda Phaelante, há alguns anos. Mas em Um sábado em 30 acontece uma coisa muito interessante: existe uma personagem na peça, que é a Leninha, um papel que sempre é feito por uma criança; é claro que essa criança cresce muito rápido e, quando menos esperamos, ela não tem mais idade para fazer a criança. Daí geralmente há um remanejamento de papeis: quem faz a pequena, passa pro papel de Maria de Jesus e essa normalmente passa para o papel da filha mais velha, Maria das Mercês. Foi o que aconteceu comigo. Passei pro papel da filha mais velha, Maria das Mercês. Fique nesse papel por algum tempo, creio que uns cinco anos e fui remanejada para o papel de Filó, uma personagem pela qual fui e sou apaixonada. Filó é uma das empregadas da casa, que é iludida pelo filho do patrão. Hoje, estou prestes a defender com muita honra o papel de Dona Mocinha, feito há tantos anos por Geninha. Estou nervosa com o peso da responsabilidade mas, ao mesmo tempo, sinto-me agraciada por essa oportunidade e por mais esse aprendizado. Costumo dizer que Um sábado em 30, me inseriu no universo do naturalismo. É curioso. Às vezes tenho a sensação de que estou realmente em casa… as cenas são construídas de tal forma, que se torna confortável estar em cena. É maravilhoso ver os empregados à mesa, servindo-se de sopa e pão, comendo em cena. Sentir o cheiro da sopa que vem quentinha da casa de Reinaldo de Oliveira e que fica sendo aguardada fora de cena, pelo restante do elenco que está nas coxias… parece que as coxias são parte da casa de Seu Quincas e Dona Mocinha.É um aprendizado constante. Flagro-me rindo muito nos ensaios, com as mesmas tiradas que escuto há 20 anos!

Renata Phaelante como Filó

Que momento marcante você destacaria nessa sua trajetória com Um sábado?
São vários momentos que guardo com carinho! Talvez citasse a nossa viagem à Brasíllia, onde fomos tão bem recebidos e tivemos que dar espetáculos extras; mas sem dúvida o que é mais marcante é o convívio e o aprendizado. Contracenar com Dona Diná de Oliveira, “Sá Nana”, inesquecível “Sá Nana”, que hoje é tão bem representada por Zeza de Paula. Dona Diná era mesmo uma “grande dama”, uma mulher que quando entrava em cena, crescia de uma forma… E Vicentina do Amaral, a nossa “Vivi”, no papel da vitalina Quitéria, maravilhosa. Ela arrancava aplausos em cena aberta, com um simples “Bom dia!”, sua primeira fala no espetáculo. É lembrar e ter os olhos marejados. É uma história linda!

E a responsabilidade de assumir um papel que era de Geninha?!
Meu Deus! Só de pensar me dá aquele friozinho na espinha! Geninha é maravilhosa, de uma naturalidade que me deixa pasma. É uma grande responsabilidade mesmo, mas não tenho a pretensão de ser tão boa quanto Geninha! Apenas quero defender esse papel com muita dignidade e o que eu colher de frutos nisso, já é lucro! Darei o meu melhor! Espero que gostem e espero me divertir, como sempre me diverti atuando nesse espetáculo.

ELENCO atual de Um sábado em 30:
Reinaldo de Oliveira – Chico
Maria Paula – Sá Nana
Ivanildo Silva – Julião
Clenira Bezerra de Melo – Zefa
Rogério Costa – Major Paulino
Ivana Delgado – Quitéria
Éricka Costa – Maria das Mercês
Fabiana Melo – Maria de Jesus
Vanda Phaelante – Sá Luzia
Diná de Oliveira – Pacote
Renata Phaelante – Dona Mocinha
Alderico Costa Neto – Romeu
Hector Costa – Gustavo
Emerson Rodrigues / Thomas André – Vasco
Adelson Simões – Seu Severiano
Renato Phaelante – Seu Quincas
Gabriela Quental – Filó
Brenda Fernanda – Leninha
Maria Mattoso – Joana
Yluska Washington – Ama

Serviço:
Um sábado em 30
Texto: Luiz Marinho
Direção original: Valdemar de Oliveira
Quando: de 13 a 16 de setembro (quinta a sábado, às 20h; e domingo, às 19h)
Onde: Teatro de Santa Isabel (Praça da República, s/n)
Quanto: R$ 10 (preço único promocional)
Informações: (81) 3355-3323

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Aprendizes frustrados

Elenco do projeto Terra Queimada, proposto pelo Aprendiz Em Cena

No último mês de fevereiro, escrevi uma matéria sobre o projeto Aprendiz Em Cena, promovido pelo Centro Apolo-Hermilo. É um projeto bastante importante, de experimentação e fomento às artes cênicas, que já teve vários formatos. Ano passado, a ideia foi que um diretor estreante pudesse formar um elenco e, sob a coordenação e orientação artística/pedagógica de Vavá Schön-Paulino (que dirige o Centro), montar o texto Terra queimada, o mais premiado do dramaturgo pernambucano Aristóteles Soares (1910-1989). Era condizente, aliás, com outro projeto da Prefeitura do Recife, o relançamento da obra de Aristóteles, que aconteceu durante o Festival Recife do Teatro Nacional de 2010.

Em fevereiro, a matéria era sobre o ensaio aberto da montagem – que tinha previsão de estrear, na realidade, no Janeiro de Grandes Espetáculos, o que não aconteceu. Depois do ensaio, o que foi anunciado é que o espetáculo iria cumprir temporada em abril no Teatro Hermilo Borba Filho, mas isso também nunca saiu do campo das promessas.

Além do diretor Ivan Ferreira, que trabalha com teatro desde 2005 e mantém um espaço chamado Engenho de criação, o processo envolvia, como atores, Aryella Lira, Daniel Barros, Dulce Pacheco, Durval Cristóvão, Rodrigo Félix e Marinho Falcão. A direção, criação e execução musical eram de Diogo Lopes.

Diante da inexistência de uma temporada, do retorno de um projeto supostamente (será que ainda?) tão importante para a cidade, mandamos uma entrevista para os atores de Terra queimada, que foi respondida por Daniel Barros e Dulce Pacheco.

ENTREVISTA // Daniel Barros e Dulce Pacheco

Como foi o processo de montagem? Pessoalmente, houve crescimento? Foi o que vocês esperavam nesse sentido?
A melhor coisa desse projeto foi poder encontrar novas pessoas. Ivan, Ary, Dulce, Durval, Rodrigo, Marinho e Diogo foram como um copo de água gelada no meio do deserto. Especialmente Ivan que, com muita gentileza e amor incondicional pelo teatro, teve a capacidade de semear coisas boas no meio desse caos todo, que foi a produção do Aprendiz. Passamos muitos meses mergulhados no universo de Terra queimada, estudando e descobrindo a nossa forma, juntos, de fazer teatro. Isso foi mais importante dentro do processo: a possibilidade do encontro, a possibilidade das ampliações de consciência propostas por Ivan. Saímos muito modificados e, consequentemente, machucados disso tudo. Esperávamos cuidado e respeito do Centro Apolo-Hermilo. Foi como um filho abortado. Quase um estupro pro artista. Mas pelo menos uma coisa boa aconteceu: crescemos muito e ainda hoje estamos juntos e vivendo essa nossa experiência de se encontrar, independente do Centro.

Qual foi a participação de Vavá Schön-Paulino?
Vavá é o coordenador do centro Apolo/Hermilo. O primeiro dia de reunião do elenco foi com ele, todas as informações do projeto inteiro foram dadas por ele; quanto e quando iríamos receber, quanto tempo de ensaio, espaço cedido pra ensaio, data de estreia, data de temporada. Tudo foi dito no primeiro dia. E também ele seria o orientador pedagógico do Aprendiz. Nada do que foi dito aconteceu. Vava só viu um ensaio nosso, não encontrava Ivan pra falar da parte artística do projeto, não atendia os telefonemas ou respondia e-mails. Nem os cachês foram pagos, nem estreamos no Janeiro de Grandes espetáculos e só fomos informados disso que a programação do festival saiu no Facebook. Não houve uma preocupação em avisar por telefone ou e-mail. A grande participação de Vavá nisso tudo foi na falta de informação, que era grande e total. Não sabíamos de mais nada quanto à produção do projeto, quando iríamos receber ou quando iríamos estrear. Nada!! E não adiantava procurar. Orientador? Produção? Com a gente nunca existiu. Ele tinha uma assistente – Daniela Mastroianni – que teoricamente era pra facilitar a ponte entre Vavá e o grupo, mas que, na prática, sumiu tanto quanto ele. O que mais revolta é a falta de consideração com o profissional da arte. No Recife, nós lutamos tanto pra sairmos do patamar de “amadores” (no sentido não profissional), mas não somos tratados como profissionais. Nem um pouco. Nem por um Centro que deveria cuidar melhor dos profissionais que ali estão.

Porque o projeto nunca foi encenado?
Depois da frustração de não estrearmos no Janeiro de Grandes Espetáculos, procuramos o coordenador para uma reunião. Pressionamos e conseguimos uma data uma semana antes do carnaval para fazer um ensaio aberto, pois foi muito tempo de trabalho, muita dedicação, muito dinheiro gasto por todos pra estarmos ensaiando o projeto Aprendiz Em Cena. Não era um projeto nosso, era um projeto do Centro Apolo-Hermilo. Enfim, no meio disso, vai batendo uma indignação, pois foi muita falta de respeito. Dia 10 de fevereiro foi realizado o ensaio aberto, sem figurino, sem cenário…mas com muita vontade de mostrar para as pessoas nosso processo, mostrar o resultado de nossos quatro meses de trabalhos intensos. Foi engraçado que, ao final da apresentação, com casa cheia, o orientador enfim apareceu, com toda pompa de orientador, batendo no peito e falando: “nós criamos!”. Nós onde? Que a pessoa nunca viu nada, nunca orientou? É o efeito plateia. E então depois do ensaio aberto teríamos uma temporada marcada para os finais de semanas de abril. Vejam bem, isso foi dito ao final do ensaio para as pessoas que presenciaram nosso ensaio aberto e combinado com todo elenco. Nos programamos para essa temporada. Mesmo sem receber um centavo fizemos o ensaio aberto. E logo depois retomamos os ensaios para a temporada em abril. Como Recife é uma cidade muito pequena, todo mundo sabe e se conhece, ficamos sabendo que já teria outro grupo no mês de abril ocupando o mesmo horário que foi prometido à temporada de Terra queimada. Esperamos uma informação e nada aconteceu. Nada foi dito e passou o mês e a gente nunca soube de nada. Então resolvemos parar o projeto, até hoje, dia 9 de agosto de 2012 (dia em que a entrevista foi concedida, por e-mail). É importante ressaltar que o grupo tentava incessantemente entrar em contato com o “coordenador” e ele nunca atendia os celulares. Parecia que tudo estava jogado, não só o nosso grupo com o projeto do Centro, mas vários outros que, em conversas informais, nos informavam que estavam na mesma situação.

Vocês receberam pagamento? E cenário, figurino, foram pagos?
Depois de muito esquecimento, perguntas sem respostas, falta total de respeito aos artistas envolvidos estamos no processo de recebimento do cachê, mas somente os cachês do elenco e do diretor. O projeto, isso dito pelo coordenador, é de 20 mil. E juntando os cachês do elenco e do diretor só chega a 13 mil. Para onde vão os outros 7mil? Não sabemos. E iremos receber sem nunca fazer uma temporada. É dinheiro público. Esse dinheiro, talvez, nunca volte para o povo. Pois quase um ano depois ainda não sabemos se iremos fazer uma temporada.

Qual o sentimento que fica?
Frustração, todo mundo muito frustrado, decepção. Decepção com relação aos tipos de profissionais que estão no poder. Que tomam conta da verba pública e do espaço público como quem toma conta de uma coisa qualquer, sem importância.

O grupo não pensa em apresentar o projeto por iniciativa própria?
Sim, mas temos o entrave de ser um projeto que leva o nome do Aprendiz em cena. Não é nosso, teoricamente, ainda tem o vínculo com o Centro. E ficamos desestimulados.

Procuramos uma resposta da Prefeitura do Recife e publicamos na íntegra a nota que recebemos:

“A Secretaria de Cultura do Recife e o Centro Apolo-Hermilo estão empenhados em solucionar pendências do projeto Aprendiz Encena. A equipe da Secult entrou em contato com o responsável pelo grupo selecionado para a retomada do projeto e para efetuar o pagamento do valor previsto para o desenvolvimento das atividades. Atenta a importância do processo de formação, característica do projeto, a Secult convidará um coordenador artístico-pedagógico para dar continuidade a criação da montagem”.

Ah, também recebemos outro e-mail da assessoria da Prefeitura do Recife. E, qual a surpresa, convocando para uma “ouvidoria”. Qualquer semelhança não é mera coincidência, caro leitor. Segue, então, a convocatória:

“A Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura, convida a classe artística e Entidades Representativas do Teatro e da Dança, para a Ouvidoria que irá proceder no dia15 de agosto próximo, às 18:30h, na Sala Beto Diniz do Teatro Hermilo BorbaFilho, na Rua Martin Luther King s/n, Bairro do Recife, onde irá ouvir os anseios e necessidades acerca do Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo-Hermilo e, na oportunidade, apresentar as ações e providências já realizadas.
Atenciosamente,
Secretaria de Cultura do Recife”

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Magia luso-brasileira em castelo europeu

O elenco de O desejado - Rei D. Sebastião. Fotos: Rui Pitães/Divulgação

Estreou ontem, com direito a cenário de filme: um castelo e forte nevoeiro em Lanhoso, Portugal, a peça O desejado – Rei D. Sebastião. Com direção de Moncho Rodriguez, a montagem feita a partir de um intercâmbio entre Pernambuco e Portugal deve abrir o próximo Janeiro de Grandes Espetáculos. Agora, os atores cumprem uma temporada de mais 12 apresentações em terras lusas; aqui, a ideia é que o espetáculo seja encenado na capital pernambucana e também em Olinda, Caruaru, Arcoverde, Salgueiro e Petrolina.

Entrevistamos dois atores da montagem: Júnior Aguiar, que estava um pouco afastado dos palcos – a última montagem da qual ele participou foi Quase sólidos; e Júnior Sampaio, pernambucano que mora em Portugal há muitos anos e parceiro do blog.

ENTREVISTA // Júnior Aguiar

Qual o enredo do espetáculo?
O espetáculo conta a história de um grupo de comediantes-atores que procuram pelo Rei D. Sebastião – O Desejado, que desapareceu numa batalha na África. Eles procuram pelo invisível, pelo sonho de viver a liberdade e a poesia, querem o encantamento das coisas, querem a verdade que se manifesta pelo teatro! O espetáculo é uma celebração. É a história da História. Portugal precisava de um herdeiro porque estava prestes a perder o seu poder para a Espanha, por causa da proximidade da morte de D. João III, casado com Dona Catarina (da Espanha). Era necessária e urgente a vinda de um herdeiro! Do amor de seu filho João e Joana nasce D. Sebastião.

Como esse mito é transposto para o espetáculo?
O espetáculo faz um paralelo entre os tempos. A crise que agora desespera os portugueses e as velhas crises que sempre ameaçam a soberania, a disputa pelo poder, o sofrimento do povo, as ironias, os tempos que não mudam! Para nós, pernambucanos, existem alguns elementos importantes, como, por exemplo, saber das influências portuguesas na nossa origem. A questão do Mito sebastianista que se configura até hoje no Nordeste Brasileiro (Belmonte, Lençóis Maranhenses..). A história da Pedra do Reino. De uma certa forma, todo o pensamento de Ariano Suassuna. O contexto da criação em que o espetáculo se configura é muito interessante. É o ano de Portugal no Brasil e do Brasil em Portugal. Então se estabeleceu um intercâmbio cultural entre atores dos dois paises, uma parceria entre o Centro de Criatividade de Polvoa de Lanhoso (coordenado por Moncho Rodriguez) e a Apacepe. Estamos aqui por dois meses com passagens, hospedagem e alimentação pagos e recebemos uma ajuda de custo.

Como está sendo o trabalho com Moncho Rodriguez?
Moncho Rodrigues é o autor e o diretor da encenação. É o coordenador do centro de criatividade de Polvoa de Lanhoso. É fantástico viver essa experiência e desfrutar com dignidade de todo a estrutura oferecida. Temos salas de dramatuturgia, de figurinos, de adereços, de ensaios, teatros…. Trabalhamos das 14h até meia-noite, com intervalos para as refeições. Durante a manhã, descansamos ou estudamos os textos. Moncho é um homem de teatro que não se esquece. Sua voz atinge nosso coração e pode nos encantar ou pode provocar sentimentos os mais contraditórios. De repente um grito de alerta, uma indicação preciosa, uma pergunta esclarecedora, um abraço. Moncho é claro no que deseja: quer a verdade dos atores. Somente a verdade. Mas a verdade não é fácil, faz doer o corpo inteiro, faz a gente se arriscar até perdermos o controle. É preciso ir além do que se sabe, do que se pode, do que se imagina pretender. Moncho tem o olhar que parece fora do mundo, não quer perder tempo, nem energia em vão. Exige profunda dedicação e disponibilidade. Nenhum ator permanece o mesmo se aceitar as regras do jogo.

Júnior Aguiar e Rafael Amancio

Qual a importância desse intercâmbio?
É preciso viajar pelo mundo. Se o olhar não alcançar longe, se não for surpreendido pelas diferenças culturais, pelas maneiras distintas de ser, pelas possibilidades das histórias, ficamos limitados e corremos o risco de não transcender como seres humanos sensíveis, como atores profissionais com visão ampla e cosmopolita. Trocar é crescer. O grupo de atores portugueses é fantástico. Observamos sua disponibilidade, sua maneira de nos receber, de nos apresentar suas formas de trabalho e de procurar pelas personagens. Eles tambem irão ao Brasil sentir como somos no nosso ambiente, de como incorporamos nossas manifestações culturais. No fim, toda essa experiência se configura em amplo e sólido aprendizado.

Pode nos adiantar algo da montagem?
Abel e Caim abrem o espetáculo. São como João Grilo e Chicó. Espertos, oportunistas, sobreviventes. Abel é feito pelo reconhecido ator português Pedro Portugal. Caim pelo inspirado Márcio Fecher tocando pandeiro, gaita, zabumba. Depois é a vez do casal Cordeiro e Frívola, interpretados perfeitamente por Mário Miranda e Marta. É um casal de espectadores que representam a realidade e que interferem na apresentação do espetáculo. E o grupo de comediantes-atores comandados por Noé (Júnior Sampaio) e Aldonça. Eu interpreto Josué – O ministro Castanheira e Dom Henrique, o cardeal. Rafael Amâncio interpreta Jesus e Gilberto Brito os persoangens Rutílio e Tibia.

ENTREVISTA // JÚNIOR SAMPAIO

Júnior Sampaio e a portuguesa Eunice Correia em cena

Do que trata o espetáculo e qual a importância desse texto para o contexto pernambucano
Trata-se de uma releitura poética do Mito de D. SebastiãO. Uma companhia de cômicos/atores acredita que um dia, para salvar o seu povo, representaria com verdade o sonho do desejado, e com tanta verdade brincaria, que El – Rei, na cena, em pessoa, apareceria para ser a própria personagem. Eles sonham… por ser grande o desejo de num novo tempo de viver. Sendo o que são (atores), porém mais respeitados. A importância do texto para o contexto pernambucano se encontra na constante pesquisa que Moncho Rodriguez atua com o seu teatro: a fusão da cultura do nordeste brasileiro e a cultura ibérica. Os pontos em comum entre as duas culturas estão presentes no texto de forma clara e inequívoca. Uma viagem poética pelas influências ibéricas na cultura nordestina. O texto está recheado de referências culturais nordestinas: o bumba-meu-boi, a pedra do reino, o repente, o martelo… Cidades e regiões são citadas ao longo da peça.

Como tem sido a experiência com Moncho?
A minha experiência com Moncho, mais uma vez, é enriquecedora. Há 20 anos que não trabalhava com ele e é como se tivesse sido ontem. Moncho sabe o que quer para o seu teatro e isto provoca uma segurança compensadora para o ator. O seu rigor e a sua poética comprovam-me que o teatro é uma celebração, que o teatro é magia sagrada.

Qual a marca da direção dele nesse trabalho?
A marca e assinatura de Moncho estão presentes em todo o espetáculo. É um espetáculo de Moncho Rodriguez. Moncho dirigiu-me duas vezes em 1990 em Romance do Conquistador, de Lurdes Ramalho, e em 1992 em A Grande Serpente, de Racine Santos. O Desejado tem toda a poética teatral do Moncho. Costumo dizer, se é que isto interessa, que esta é a sua tese de doutoramento!Dois povos, nordestinos do Brasil e portugueses, em um único universo, e sem distinções. Um trabalho onde a magia de unir é o que importa.

Como é a sua personagem?
A minha personagem é Noé, um ator/comediante, dono da companhia, que acredita no teatro como uma arte de transformação. Apaixonado pela sua função, alucinado pelo palco. Noé é um sonhador… e o seu maior sonho é ver o Desejado através da sua arte. Pode-se dizer que é um D. Quixote, um Merlim. Acredita na arte, na palavra, na fé cênica, no teatro. Sonha com o teatro. Noé pode ser qualquer pessoa que sonha que através da arte podemos chegar ao Desejado…desejo de um mundo melhor. Será que Noé sou eu ou eu é que sou Noé? Já não sei! É esperar e viver o sonho do Desejado.

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O tempo não para! E quem se importa?

José Pimentel como Jesus na Paixão de Cristo do Recife. Foto: Wellington Dantas

Um ator que interpreta Jesus Cristo há três décadas e meia. Não tem como começar de outra forma a apresentação desse homem, “bicho de teatro”, cuja figura é confundida nas ruas com aquela que nos acostumamos a imaginar ser a de Jesus. Ou… poderíamos? Talvez dizendo que – e aí não vou seguir necessariamente a cronologia biográfica (já que ele fez muita coisa!) – em 1962, José Pimentel assinou a encenação de Município de São Silvestre, de Aristóteles Soares, para o Teatro Popular do Nordeste (TPN).

Que quatro anos depois, a então Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco deu a Pimentel o prêmio de melhor intérprete masculino por John Proctor, da peça As Feiticeiras de Salém, de Arthur Miller, sob direção de Milton Baccarelli.

Que ele fez Calígula mais de uma vez.

Que a história de Nova Jerusalém não pode ser contada sem a participação dele.

Que as oficinas que ele ministra são quase sempre as mais concorridas nos festivais.

E que, mesmo não tendo ensaio da Paixão de Cristo do Recife por conta da falta de energia, um grupo de alunos-figurantes fez questão de pedir para que ele não fosse embora. Mas falasse a eles do que mais ama: teatro.

Uma figura meio mítica, que todos aprenderam a ver reclamando das dificuldades para montar a sua querida Paixão de Cristo do Recife, que cuida até dos slides que o espetáculo terá.

Hoje à noite, Pimentel sobe mais uma vez ao palco do Marco Zero. Serão cinco apresentações, de quarta a domingo, às 20h, na Praça do Marco Zero, comandando um elenco que ele diz ter uns 100 atores e 300 figurantes.

Na madrugada de terça para quarta-feira, depois de ele ter enfrentado uma tentativa de ensaio frustrada (não tinha ponto de energia disponível), mandei um e-mail para Pimentel com algumas perguntas meio “cara de pau”.

Passava da meia noite quando ele respondeu. Porque o mundo de Pimentel não para. Nem por um minuto ele deixa de pensar no teatro. Ah..sim…só quando vai jogar futebol. Mas até lá, acho que ele veste o personagem! Não necessariamente Jesus.

Pimentel fazia o bêbado Pitelo e assinava a encenação de Município de São Silvestre para o TPN. Foto: acervo José Pimentel

Entrevista // JOSÉ PIMENTEL

Você está fazendo Jesus Cristo pela 35ª vez. O que esse papel te ensinou?
Ah, ensinou-me a amar as pessoas, entre outras coisas. Ensinou-me a não sentir ódio. Ensinou-me a tratar bem os humildes. Ensinou-me a não dar tanto valor ao dinheiro. São muitos ensinamentos. Acredito que sou um homem que foi se tornando melhor a cada Semana Santa, de tanto repetir as palavras que Jesus deixou para a humanidade.

Porque ainda é importante para você interpretar Jesus Cristo?
Não sei se isso é tão importante. Importante é ser ator. Importante é fazer João Grilo, Calígula, John Proctor, Pilatos, demônio e tantos outros papéis. Não dou à interpretação de Jesus o valor que as pessoas imaginam. É mais um papel na minha vida de tantos papéis. Claro que é importante e uma experiência fascinante interpretar Jesus. Talvez as pessoas deem mais importância e se incomodem mais com o fato de eu interpretar Jesus, do que eu mesmo dou.

Quando as pessoas te olham na rua, elas veem Pimentel ou Jesus? Você não acha que o papel tomou conta da sua vida mais do que deveria?
Ah, eles veem ora Jesus, ora Pimentel. Claro que a minha presença na mídia em todos esses anos me tornou conhecido. Talvez mais pelo papel de Jesus do que pelos outros papeis que fiz. Afinal são muitos anos interpretando um único personagem e que é o símbolo da cristandade e base de muitas religiões. Para os que acham que é grande o meu apego ao papel de Cristo eu digo que estão redondamente enganados. Um dos meus sonhos é fazer o papel de Judas. Quem sabe se quando eu deixar o Cristo não vestirei a pele de Judas? Ora, eu sou apenas um ator. De muitos personagens.

Como lidar com as críticas de que você está velho demais para fazer Jesus. Você está velho, Pimentel?
As críticas me incomodam, claro. Pela insistência e pela falta de base para formular a crítica. Por que esse preconceito com a velhice? Por que as pessoas se incomodam tanto com a idade dos outros? Dizem que ator não tem idade. E deve ser verdade. Bibi Ferreira, com 90 anos, está aí cantando, atuando e dirigindo. Geninha da Rosa Borges, aqui mais perto da gente, chega aos 90 anos fazendo teatro e declamando poemas. Cacilda Becker fazia papeis de jovens. Há muitos exemplos de longevidade de atores e atrizes. Não estou velho. É certo que o tempo não para. Mas minha cabeça é mais jovem do que as cabeças de muitos jovens que andam desgarrados por aí. Jogo pelada duas vezes por semana, no meio de jovens e idosos, feito menino, gritando palavrões. Eu uso dois espelhos. Um físico, palpável, dependurado na parede. Não gosto de me olhar nele. Prefiro um espelho invisível que carrego sempre comigo. Quando o astral vai descendo a ladeira eu olho o espelhinho invisível e vejo uma cara de menino safado e brincalhão. Aí o astral volta ao nível normal.

Mesmo com toda a pendenga anual para fazer o espetáculo, José Pimentel existe sem a Paixão de Cristo?
Eu existo com ou sem Paixão de Cristo. Este ano, há três semanas, eu disse numa reunião com os outros três produtores da Paixão que por mim eu não faria mais o espetáculo. Os outros três acharam que a Paixão deveria continuar. Eu fui voto vencido. Então, se a Paixão fosse tão vital para mim, eu jamais proporia o seu fim, porque estaria acabando com a minha existência. É mais uma lenda da Paixão que criaram ao meu respeito.

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