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Um encontro com Boal

Augusto Boal.

Augusto Boal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Teatro do Oprimido pode ser realizado em qualquer parte do planeta, visto que em toda parte há seres humanos e também há opressão

 

É um método de descoberta do desejo e de ensaio de realização deste desejo.

Ele surgiu em São Paulo, no início dos anos 1970. No princípio chamava-se Teatro Jornal.

Na Argentina tive uma experiência  com o Teatro Invisível, que é uma forma de utilizar o teatro dentro da realidade sem revelar que é teatro
A censura se dá de duas formas. Uma delas é a policial, usada no regime autoritário no Brasil.  A outra – tão ruim quanto – é aquela que se dá na forma da sedução.
Isso é o padrão de censura dominante no Brasil. É a coerção pelo poder econômico.
São as empresas que determinam o que pode ser feito e o artista não está livre para fazer suas experiências.
O que ocorre no Brasil é a privatização da cultura. O patrocinador vê a produção artística como parte de seu projeto de marketing.
Isso vai torna a arte asséptica. O que os patrocinadores geralmente querem é reproduzir um mundo velho, já conhecido e aprovado.
O pressuposto de que cultura tem de dar lucro é dos neoliberais.
A cultura tem que ser subsidiada.
O lucro da arte se dá de outro jeito. Enriquecendo a forma de pensar do espectador. É um lucro do crescimento humano, de um valor muito difícil de ser medido já que não se trata de uma mercadoria vulgar.
A arte faz o homem mais rico

 

Augusto Boal e o Teatro do Oprimido em Paris, 1975. Cedoc-Funarte

Augusto Boal e o Teatro do Oprimido em Paris, 1975. Foto: Cedoc-Funarte

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Augusto Boal era puro amor ao teatro. Um  mito. Uma bússula.  Um libertário que apostava  que essa arte aparentemente tão frágil poderia mudar o mundo, fazer a revolução.

Lembro do teatrólogo com um sorriso sempre aberto e entusiasmo pela vida que contagiava seu interlocutor. Ele veio ao Recife para um encontro e eu tive o prazer e a honra de passar algumas horas ao seu lado, ouvindo suas ideias. Sua sede por justiça. Sua fome de oportunidades para todos.

Boal faz falta.

A entrevista abaixo foi publicada em 20 de setembro de 2000, no Diario de Pernambuco.

 

Augusto Boal

Augusto Boal esteve no Recife em 2000, durante a Conferência Internacional Mudança de Cena II

O teatrólogo Augusto Boal foi tratado como sujeito de extrema periculosidade pelo regime militar. Foi preso, torturado e exilado em 1971. Nessa temporada forçada no exterior, criou técnicas de teatro. O Teatro do Oprimido foi lançado em 1974, traduzido para dezenas de idiomas e até hoje é uma publicação bem vendida. O livro reúne experiências do autor/diretor com o teatro invisível, quando o espectador participa do espetáculo e de técnicas para colocar no centro da cena quem está à margem. O seu método é praticado em mais de 70 países em todo mundo. Boal sempre lutou por um mundo mais justo para todos. Figura central do Teatro de Arena nos anos 1950 e 1960, em São Paulo, ele fez espetáculos como Arena conta Zumbi. O dramaturgo, que lançou recentemente sua autobiografia, Hamlet e o Filho do Padeiro, da editora Record, chega hoje ao Recife para participar da conferência internacional Mudança de Cena II.

ENTREVISTA // Augusto Boal

Como o senhor vê o atual momento do teatro brasileiro, dominado pelo besteirol e pelas constantes reclamações dos artistas e público de que o teatro brasileiro vai mal?

Augusto Boal – Vai de mal a pior. O teatro segue o País que vai de pior em pior, como dizia a canção do João do Vale. Hoje nós vivemos escravos em um País escravo. Não nos damos conta disso porque se trata de uma nova forma de escravidão, na qual os senhores são invisíveis – FMI, bolsa de NY, Hong-Kong, bancos internacionais. Onde estão? Não os vemos, mas somos escravos porque o que caracteriza a escravidão é a total ausência de livre arbítrio – nós não temos mais livre arbítrio, os brasileiros não podem decidir o que fazer com um salário mínimo de 151 reais, com o pagamento mensal de um bilhão e 500 milhões de dólares de juros e serviços da dívida externa. Sobram as migalhas. Dana-se a educação, a saúde, a cultura. Enquanto o Brasil não se libertar desse jugo odioso, o teatro irá sempre mal, de mal a pior… A privatização da cultura faz com que muitos artistas estejam deixando de ser donos de suas vozes para se transformarem em vozes dos seus donos. É triste.

Hoje, o senhor faria revisões à metodologia do Teatro do Oprimido?

Boal – Não são necessárias. O que é necessário á incluir novas técnicas que dêem conta de novos problemas. O método é o mesmo, mas nestes quase 30 anos tem sido constantemente enriquecido: teatro imagem, teatro fórum, teatro invisível, arco-íris do desejo, teatro legislativo. Nada disto é inútil, precisamos apenas saber em que momento usar uma técnica ou uma outra. T.O. não é moda nem modismo: é método mesmo, método de pensar, forma de inventar.

Como o senhor identifica os trânsitos possíveis entre a arte e a realidade brasileira?

Boal – A arte é uma representação do real, não é o real. Como tal, de algum ponto no mundo essa representação é feita – isso mostra que o artista está localizado em algum lugar e vê o mundo – por isso, toda arte é sempre política. Além do mais, ao contrário da pintura, por exemplo, que representa um instante do real, o teatro representa o movimento desse real. Maior ainda a nossa responsabilidade: O que mostrar? Para onde vai o mundo e para onde poderá ir?

“O teatro é uma forma de se entender a dor, dominá-la. Fazemos teatro para sermos maiores que a dor”. Este é um poético conceito do senhor sobre o fazer artístico e até das motivações da opção pela arte. Quando isso pode se materializar?

Boal – Qualquer ato artístico criador concretiza esse sonho. Ser artista é ser humano. Ser humano é ser capaz de transformar o mundo. É verdade que uma boa parte da humanidade está desumanizada, mas ainda existem muita gente que respira, vive, trabalha para que o mundo – principalmente o Brasil e outros países igualmente miseráveis no que se refere à sua população – se transforme!

O mundo de hoje está numa maré de despolitização. O individualismo é a principal tendência em todos os segmentos. Como é possível fazer conexões com as utopias de uma sociedade mais justa para todos diante da globalização, que continua impondo a exclusão?

Boal – Existem dois sonhos: O que substitui a realidade e o que é posto à nossa frente para que alcancemos a mudança. Nada se pode mudar se não for antes sonhado. Chame-se a isto utopia, pouco importa – é o sonho bom. O mau é quando vemos o povo olhando TV e vendo na tela a mesa farta enquanto que em sua casa nem sequer tem mesa, menos ainda comida; na tela, felicidade e piscinas de água quente; na casa do telespectador, nem água corrente nem felicidade.

Nas décadas de 1960 e 1970 a discussão das relações entre política e teatro animavam o fazer teatral no Brasil. Como este debate pode ser feito atualmente?

Boal – Através da ação. Fazendo Teatro do Oprimido, por exemplo.

As técnicas do Oprimido foram adotadas em várias cidades do mundo. A que o senhor atribui o sucesso internacional do seu método?

Boal – Ao fato de que é verdadeiramente um método democrático e não uma cartilha, não um catecismo. É socrático e sinceramente pergunta, interroga, quer saber e não ordena, não força ninguém a fazer o que talvez não possa. É criativo, é saudável, é terapêutico, é divertido. Como não fazer sucesso no mundo inteiro se assim é? Hoje, o T.O. se pratica em mais de 70 países do mundo.

O senhor tem uma agitada agenda internacional. O que o público de outros países questiona nas suas conferências?

Boal – Dialogamos. Os temas que os participantes em qualquer país sempre querem tratar são principalmente: a opressão da mulher, o racismo, e a falta de dinheiro, emprego, etc.

Como o senhor vê a política no Brasil nesse final de século?

Boal – Precisamos lutar por uma nova abolição. Basta de escravidão! Eu me sinto como Bolívar: sou (somos!!!) lavradores do mar – tudo o que fizemos ficou por fazer. O Brasil se libertou do colonialismo português e caiu sob o domínio feroz e humilhante da globalização atual.

Qual sua expectativa sobre o futuro? O senhor é otimista?

Boal – Acredito no trabalho, na luta, na criatividade, na solidariedade, no trabalho conjunto, acredito em tudo que é bom. Sou otimista sim, mas não sou bobo!

Qual o seu sentimento sobre a “globalização cultural”?

Boal – Querem nos transformar em robôs, em clones, em ovelhas Dolly, em números. Querem nos arrancar nosso nome. E eu quero que cada um de nós seja capaz de dizer “eu” para que possa logo depois dizer “nós”! Quero a unificação de todos os que lutam e os globalizantes querem a uniformização, isto é, a destruição da identidade!

 

Boal protagonizou debates contra a opressão

Boal protagonizou debates contra a opressão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Só depois de concluir o curso de química na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1950 é que Boal foi atrás de sua formação teatral. Ele estudou teatro na Universidade de Columbia , em Nova Iorque, foi aluno de John Gassner e assistiu aulas do Actor’s Studio.

Após esse aprendizado tornou-se diretor e dramaturgo e depois teórico teatral.

No Teatro de Arena, Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e José Renato protagonizam uma revolução cênica a partir do pensamento. Boal dirigiu clássicos da dramaturgia mundial de Molière, Lope de Vega, Gogol, Maquiavel. Colocou em cena o homem comum, em montagens como Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes.

Na Argentina ele criou a estrutura teórica dos procedimentos do Teatro do Oprimido.

 

Ele retornou de vez ao Brasil em meados da década de 1980.

Montou:

O Corsário do Rei (1985), texto de sua autoria com música de Edu Lobo e letras de Chico Buarque;

Fedra (1986), de Racine, com Fernanda Montenegro no papel-título.

 

Em 2009, ano de sua morte, foi nomeado embaixador mundial do teatro pela UNESCO.

 

Espetáculos de Augusto Boal no Teatro de Arena

1956. Ratos e Homens. De John Steinbeck. Direção: Augusto Boal.
1957. Juno e o Pavão. De Sean O’Casey. Direção: Augusto Boal.
1957. Marido Magro, Mulher Chata. Texto e direção: Augusto Boal.
1958. A Mulher do Outro. De Sidney Howard. Direção: Augusto Boal.
1959. Chapetuba Futebol Clube. De Oduvaldo Vianna Filho. Direção: Augusto Boal.
1959. A Farsa da Esposa Perfeita. De Edy Lima. Direção: Augusto Boal.
1959. Gente como a Gente. De Roberto Freire. Direção: Augusto Boal.
1960. Revolução na América do Sul. De Augusto Boal. Direção: José Renato.
1960. Fogo Frio. De Benedito Ruy Barbosa. Direção: Augusto Boal.
1961. Pintado de Alegre. De Flavio Migliaccio. Direção: Augusto Boal.
1961. O Testamento do Cangaceiro. De Chico de Assis. Direção: Augusto Boal.
1962. A Mandrágora. De Maquiavel. Direção: Augusto Boal.
1963. O Melhor Juiz, o Rei. De Lope de Vega. Direção: Augusto Boal.
1963. O Noviço. De Martins Pena. Direção: Augusto Boal.
1964. Show Opinião. De Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Augusto Boal. Direção: Augusto Boal.
1964. Tartufo. De Molière. Direção: Augusto Boal.
1965. Arena Conta Zumbi. De Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri. Direção: Augusto Boal.
1965. Tempo de Guerra. De Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal. Direção: Augusto Boal.
1966. O Inspetor Geral. De Nikolai Gogol. Direção: Augusto Boal.
1966. A Criação do Mundo Segundo Ary Toledo. De Augusto Boal e Guarnieri. Direção: Augusto Boal.
1967. Arena Conta Tiradentes. De Augusto Boal e Guarnieri. Direção: Augusto  Boal.
1967. O Círculo de Giz Caucasiano. De Brecht. Direção: Augusto Boal.
1967. La Moschetta. De Angelo Beolco. Direção: Augusto Boal.
1968. Mac Bird. De Bárbara Garson. Direção: Augusto Boal.
1968. Primeira Feira Paulista de Opinião. Vários autores. Direção: Augusto Boal.
1968. Sérgio Ricardo na Praça do Povo. Texto e direção: Augusto Boal.
1969. Chiclete e Banana. Texto e direção: Augusto Boal.
1969. O Comportamento Sexual Segundo Ary Toledo. Direção: Augusto Boal.
1970. Arena Conta Bolívar. Texto e direção: Augusto Boal.
1970. A Resistível Ascensão de Arturo Ui. De Brecht. Direção: Augusto Boal.
1970. Teatro Jornal Primeira Edição. Vários autores. Direção: Augusto Boal.

 

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Quando teatro era resistência

Paulo José. Foto: Pollyanna Diniz

Paulo José. Foto: Pollyanna Diniz

Foram duas horas de conversa. Não lembro exatamente qual era o teatro em Curitiba, mas ficava afastado do Centro. Fui ver Murro em ponta de faca e pedi uma entrevista. Gentil, ele disse que me atenderia na tarde do dia seguinte, antes da nova sessão do espetáculo.

Paulo José faz parte da história do teatro brasileiro – e, definitivamente, essa não é só uma frase de efeito. Ele, Augusto Boal, Vianinha, José Renato Pécora, Gianfrancesco Guarnieri. Um tempo em que o teatro era, muito mais do que hoje, atividade de resistência. O que o Arena, o Centro Popular de Cultura (CPC) queriam era, além de levar ao palco a realidade dos trabalhadores, da exploração, do capitalismo, discutir sobre os processos históricos que determinavam essa realidade, sem que isso significasse um teatro chato – muito pelo contrário.

Como Murro em ponta de faca, peça que tem direção de Paulo José, faz curta temporada no Centro Cultural da Caixa desta quarta-feira (6) até o próximo sábado, resolvi resgatar essa entrevista com o ator, diretor e dramaturgo, realizada em 2011, no Festival de Curitiba.

Entrevista // Paulo José

Qual a diferença de dirigir Murro em ponta de faca em 1978 e em 2011?
Esta versão agora nos dá a possibilidade de mergulhar no personagem. Naquele momento, tudo tinha acontecido. Era muito mais ebulição do que razão. Hoje a peça intriga, provoca, dá vontade de conhecer mais da época. É saber o princípio, a origem desse mal. Na época, o sucesso dela, o encontro dela com o público, era natural por causa das circunstâncias, da luta pela anistia, da campanha Tortura nunca mais. Não precisava nenhuma teatralidade especial. Poderia ser quase uma leitura. Agora é mais profundo, estamos menos presos à superfície, ao aparente. E são muitas as referências a coisas que aconteceram naquela época, que não necessariamente as pessoas sabem hoje. Há uma referência clara, por exemplo, ao chileno Víctor Jara (professor, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, músico e ativista), que teve as mãos cortadas. É cheio de referências também ao Marighella (Carlos). Apesar de que, no Brasil, a ditadura foi menos dura do que na Argentina e no Chile. Os militares aqui tinham origem de classe média, classe média baixa. Em muitas situações, eles se encontravam tendo que reprimir a própria família. Diferente do exército argentino, que tinham inimigos de raízes. Aqui, os militares se viam às voltas com parentes presos, tendo que resolver “pepinos” familiares.

É a segunda vez que Paulo José dirige texto de Boal

É a segunda vez que Paulo José dirige texto de Boal

Como você enfrentou a ditadura. Mesmo não tendo sido exilado, teve essa sensação aqui mesmo?
Claro! Eu era do Teatro de Arena. E a peça que estava em cartaz na época do golpe era O filho cão. Era do Guarineiri (Gianfrancesco) e eu dirigia e atuava. A polícia foi lá para fechar o teatro. Mas nós escapamos todos. Guarnieiri e o Juca de Oliveira foram para Bolívia. Augusto Boal foi para uma fazenda. Fiquei na casa de Cacilda Becker, que morava numa cobertura, esquina com a Avenida Paulista. Fiquei lá um mês. Depois de 15 dias na Bolívia, o Guarnieri e o Juca decidiram voltar. Disseram que preferiam morrer. Depois disso, o Boal foi preso, torturado. Éramos privados da liberdade de ir e vir, de todos os bens, de qualquer conforto que o dinheiro pudesse dar, dos teus discos, filmes, instrumentos musicais. Esse sentimento não tem idade. E hoje as pessoas, noutra situação, também são desprovidas de tudo. Mas naquela época, essas pessoas iam para a Sérvia, para a Croácia. Ficavam sem dinheiro, precisavam da família no Brasil. Mas mandar dinheiro também não era fácil. Então, às vezes, era fome, necessidade mesmo. Era uma indignação, uma vergonha, a gente ser tutelado por imbecis. Apresentar uma peça para a censura, para que eles dessem o parecer. Pessoas desqualificadas, ignorantes. Às vezes a gente colocava, por exemplo, um palavrão na peça, só para poder negociar. Porque eles iam implicar com aquilo e deixavam outras coisas passar. Os policiais entravam na tua casa. Os livros perigosos ficam no fundo falso do guarda-roupa. Lembro de perguntarem que eram Aristófanes.

O Boal chegou a ver a peça sendo encenada? Qual a importância dele para o nosso teatro?
O Boal escreveu no exílio. E quando voltou em 1983, acho (na realidade, 1986), a peça já tinha sido encenada. O Boal era devotado ao teatro. Enquanto nós éramos “adúlteros”, namorávamos o cinema, a tv, ele era fiel. Quem sustentou o Arena foi o Boal, por mais de dez anos. Nós íamos para o TBC, para o Oficina. Mas o Boal estava no Arena.

Falando nisso, atuar na televisão, cinema ou teatro é a mesma coisa?
São formas diferentes de trabalhar, mas não há dificuldade. Tenho preferência por cinema e teatro. A televisão é redundante, não é muito inovador. A comunicação é horizontal. Se todo mundo tem que entender, o foco é menor. No teatro, se uma pessoa entender, tudo bem. A programação da televisão também tende a ter um discurso homogêneo, desde a manhã ate a hora que acaba. E o meio se transforma na própria mensagem.

A música é importante? Neste trabalho, o senhor está “brincando” no teclado…
Sempre trabalho com música. Gosto muito, por exemplo, do trabalho do Galpão, porque é muito musical, porque todos tocam. Gosto muito do teclado, mas eu não toco mesmo, por causa do Parkinson. Até para escrever no computador é difícil. Quero digitar uma tecla e vou para outra.

Como foi a descoberta de que tinha a doença e lidar com isso?
Foi em 1992. Uma doença degenerativa, progressiva e irreversível. Foi o que me disse o médico. Ele estava lá, receitando o remédio e eu perguntei “por quanto tempo vou tomar?”. “Durante toda a vida”, ele me disse. E aí, olhando para ele, um homem quase careca, perdendo o cabelo, descobri que ele também tinha o Parkinson dele: o envelhecimento. Que é progressivo, irreversível, degenerativo. A diferença é que eu tinha a certeza que ia morrer e ele não. Como se fosse eterno. Você passa a ter limitações, mas você descobre outras coisas, a introspecção, a concentração. Passei a escrever bem. A minha acuidade musical aumentou. Os meus sentidos foram aguçados. Cada um tem o seu Parkinson. E eu tenho 74 anos, já estou fora da garantia. É só manutenção, não troca mais peça nenhuma.

Mas quais são os cuidados?
Remédios. E hoje faço aula de voz, ginástica, hidroginástica.

Você já fazia ginástica?
Não! Ginástica faz mal! (Risos) Queima! Nunca fiz. Fazia exercício, mas tinha que ser prático, com bola, ou andar a cavalo.

Tem medo da morte?
Não tenho medo. Mas você tem que se preparar bem. As pessoas morrem mal porque não se preparam. São surpreendidas. Estou procurando deixar um testemunho pessoal das coisas que fiz. Estou passando a limpos coisas que escrevi para publicar. Cadernos de direção, de cinema. Dei aula de cinema em Cuba, por exemplo. Na Globo, dei aula para diretores e atores.

Nas duas últimas peças em que você esteve envolvido, você trabalhou com as suas filhas (Um navio no espaço ou Ana Cristina César e Histórias de amor líquido). É diferente? E o seu trabalho de direção também tem sido diferente com o tempo?
Acho que não…Cada peça tem suas exigências, necessidades. Mas a diferença que é estou ficando calmo, sossegado, não fico sofrendo. Até porque percebi que é só uma peça de teatro, tem limites previamente estabelecidos. Então fico mais calmo, tranqüilo. O que me interessa no teatro são as relações humanas, é ajudar a desenvolver potencialidades nos outros. E as pessoas me ouvem, me respeitam. Então me aproveito disso. Eu “chupo” o sangue destes atores jovens, a energia deles para mim.

Vamos falar de televisão. Como é o próximo papel?
É nessa novela nova..Morde e assopra. Entro e fico até o fim da novela. Representa o amor na terceira idade. É o Plínio. Ele volta para a cidadezinha onde tinha deixado a namorada. Gosto de trabalhar como ator. Tenho contrato com a Globo desde 1969. Então tenho que fazer algo de vez em quando. Faço a novela..aí passo mais algum tempo fazendo teatro e cinema.

Falando em cinema…o que o senhor acha da produção pernambucana?
Ah…o Cláudio Assis, o Lírio Ferreira, já estão consagrados, sabem fazer. Cláudio Assis é um louco! Aspirinas e urubus é um filme muito bom. Tem baianos também muito bons no cinema. Meu próximo papel é no filme Palhaço, de Selton Mello, que deve ser lançado em maio. É um filme autoral, que o Selton escreveu, produziu. Temos uma safra muito boa.

E deixa eu perguntar…o que o senhor acha da ministra Ana de Hollanda?
A linhagem é boa…é filha de Sérgio Buarque, de uma família que tem respeito pela cultura. Mas está apenas começando…Mesmo o governo da Dilma ainda é muito cedo. Já percebemos que ela tem diferenças de Lula, mas ainda é cedo…

Uma pergunta clássica: algum papel que gostaria de fazer e ainda não teve oportunidade?
Tem personagens da literatura, personagens reais, que a gente gosta. Mas eu não estou sofrendo com isso. Tenho tanta coisa para fazer sempre!

E vai fazer teatro até quando?
Até morrer!

Não existe aposentadoria para o teatro?
Não existe! Até porque, no teatro, tem papel para todo mundo, independentemente da idade. Aos 90, ainda terão papeis que são ideais pra mim.

Montagem faz curta temporada no Recife

Montagem faz curta temporada no Recife

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Porque tradição e reinvenção não se opõem*

Tu sois de onde?, solo do grupo Peleja. Foto: Renata Pires

Satisfeita, Yolanda? no Palco Giratório

*Valmir Santos
jornalista, crítico, pesquisador, curador

O ator-dançarino Lineu Gabriel, do Grupo Peleja, reflete sobre as formas e conteúdos que o mobilizaram na criação de Tu sois de onde?. É seu primeiro trabalho solo, tendo convidado para a direção a atriz Ana Cristina Colla, do Grupo Lume (SP).

A obra estreou em novembro de 2012, passou pelo Janeiro de Grandes Espetáculos e participa do Festival Palco Giratório Recife em sessão única nesta quinta-feira (23), às 19h, no Teatro Hermilo Borba Filho, seguida de bate-papo mediado por Leandro Regueira.

Ao buscar conexões com sua subjetividade, Lineu, que estudou em Campinas (SP) – graduado em antropologia e mestre em artes pela mesma instituição, a Unicamp –, foi prospectar o campo fértil, complexo e sofisticado das manifestações tradicionais da Zona da Mata Norte de Pernambuco.

Tu sois de onde? é atravessado pela questão da identidade a partir das corporeidades e sonoridades do maracatu de baque solto, resultado de residência artística apoiada pelo Funcultura e realizada entre 2011 e 2012 no município de Condado, junto aos artistas populares do Leão de Ouro, sobretudo os cabeças de lança.

A seguir, a íntegra das questões enviadas pelo Jornal Ponte Giratória, publicação semanal que circula durante o Palco Giratório (a versão impressa foi editada no formato de reportagem).

Confiram aqui o Jornal Ponte Giratória.

ENTREVISTA // Lineu Gabriel

Jornal Ponte Giratória – O solo Tu sois de onde? sugere conteúdos em torno da identidade e do depoimento pessoal. É desafio para o intérprete-criador tocar raízes sem ensimesmar-se numa época, a nossa, em que a figura do eu é ostensiva?

Lineu Gabriel – Antes de responder objetivamente sua pergunta, creio que seja válido abordar brevemente o processo criativo do espetáculo. O solo surgiu de necessidades pessoais, todo o repertório do Grupo Peleja é autoral, ou seja, nossas criações sempre partem (ao menos até aqui) da necessidade de suprir anseios como artistas. No caso das criações solo eu acredito que elas precisam encontrar conexões com a subjetividade do criador, ao contrário, a obra fica sem estofo, sem força.

Outro ponto que tem de ser considerado é que este é meu primeiro trabalho solo, então, além do tema em si, existia uma necessidade de estar sozinho em cena para tratar de algumas deficiências que sinto em relação a minha formação. Assim, o solo também é um lugar para que eu possa me desenvolver enquanto artista em um nível muito diferenciado do que acontece em uma criação coletiva.

Bom, dito isto, eu acho que é, sim, um desafio o não ensimesmamento. Aliás, diante do que acredito que seja a função social do artista: sempre foi um desafio, uma doação. A contemporaneidade em que vivemos é sim marcada pelo o que você chamou de “figura ostensiva do eu”, porém, paradoxalmente minha formação como artista me leva a encarar a questão sob outro ângulo: a obra é muito maior do que a pessoa, ou seja, eu estou ali no palco apenas em função de algo maior, que pretende, através de mim, tocar as pessoas. Trato de questões que são minhas, mas ao mesmo tempo já existiam quando nasci, de modo que essas questões me atravessam, podendo reverberar (ou não) no público. Meu espetáculo parte do desejo de compartilhar questões universais por meio de uma costura de fragmentos (e reinvenções destes fragmentos, já que estamos falando de arte) de minha história pessoal, afetiva.

Entendo quando menciona a “ostensividade”, mas tenho certeza de que, apesar de ser um solo, o espetáculo parte de outras necessidades… Na realidade, é preciso confessar que, apesar da escolha profissional, sou tímido, não gosto de me expor.

Lineu Gabriel

Lineu Gabriel

JPG – Como você percebe o diálogo com a tradição popular sem abdicar do rigor da invenção artística ou sucumbir ao lugar-comum?

Lineu – A abordagem que realizo das expressões artísticas tradicionais não é superficial, assim, é impossível não relacionar tradição com reinvenção, atualização. Ou seja, essas expressões artísticas são extremamente dinâmicas, são reinventadas, atualizadas cada vez em que seus atores a realizam. Até ouso dizer que em muitos casos o “rigor da invenção” é muito mais latente neste “lugar” do que no teatro ou na dança contemporânea. Eu acredito muito no potencial artístico das expressões tradicionais, acho que ainda é possível encontrar nelas uma força que nem sempre vemos em criações que seguem caminhos mais formais. Acho uma pena que ainda hoje exista uma prerrogativa de que estas manifestações são “menores”, menos importantes que as demais… Aí entramos em outro ponto de sua pergunta: o “lugar-comum” em que se encontram as criações que abordam o “popular”.

Existe uma coisa que acho que é fundamental para que possamos compreender o “popular” de forma mais generosa: precisamos derrubar esta classificação que divide o “popular” e o “contemporâneo”. É uma questão complexa para a qual ainda sinto que tenho muito para desenvolver. Porém, na minha interpretação o que vejo nas manifestações que tive a oportunidade de conhecer de perto é que elas são extremamente contemporâneas. Se ousarmos questionar esta classificação parcial e hierarquizada onde o popular encontra-se em desvantagem, vamos encontrar muitos pontos de diálogo, ou seja, existem muitas contribuições que um lado tem para ofertar ao outro (isto insistindo neste equívoco de separar em dois lados, dois lugares).

Sobre a questão do “lugar-comum”, não acredito que exista risco do Tu sois de onde? somar a isto. Não digo isso por vaidade ou prepotência, mas apenas por que existe um caminho trilhado. Existe uma pesquisa de nove anos, que passou por momentos diferentes, uma pesquisa que envolve vivência, convivência, laços afetivos. No meu caso o “popular” não é um tema, ele entra como ferramenta. Como conteúdo que faz parte de minha formação.

Atualmente, quando brinco carnaval com caboclo de lança (no Maracatu de Baque Solto Estrela de Ouro de Condado), não me preocupo com o que vou fazer com aquilo tudo… Eu simplesmente sou mais um ali brincando, vivenciando esta contradição que é brincar carnaval. Assim, todas essas informações ficam gravadas em mim e podem, ou não, ser acessadas quando entro em um processo criativo. São vivências que fazem parte de mim, mesmo não sendo originalmente daquele contexto.

JPG – A assimilação das técnicas de treinamento de ator no Lume, dada sua convivência e estudos na Unicamp, foram reprocessadas aqui, no Recife ou na Zona da Marta Norte, como um terceiro caminho, de singularidade própria?

Lineu – O trabalho do Lume leva a esta singularidade por si só. Na minha interpretação o foco do que eles edificaram é justamente este empoderamento do artista em relação às suas possibilidades criativas. O que me encanta nesta metodologia (ou no que consegui acessar do que eles desenvolvem) é justamente esta conexão com a subjetividade. Como disse anteriormente, não como um processo egocêntrico (sim, existe certo risco de cair nisto também), mas como uma exploração sistematizada da subjetividade.

Acho que a vinda para Recife, dentro de minha história, inclui muitas coisas. A distância da família, do primeiro “lar” é carregada de processos.

Profissionalmente foi também o momento de aprender a me situar e me posicionar diante de outros profissionais. Acho que este deslocamento nos obriga a organizar nosso discurso, nossa prática. Eu vivenciei muitas crises (e com certeza outras virão) até começar a traçar um esboço de meu caminho profissional dentro das artes.

Voltando a sua pergunta, eu acho que tanto a convivência em Recife como na Zona da Mata Norte tem peso igual para este processo de formação profissional. São lugares diferentes de certo ponto de vista, pois o diálogo com os artistas acontecem de modo muito distinto em cada um desses lugares. Porém, busco respostas para minhas inquietações transitando nesses lugares. Acredito muito no fluxo, no deslocamento. Portanto, acho que o que realmente ressignifica meu fazer artístico é transitar entre lugares diferentes. Talvez seja esta uma das poucas heranças que permaneceram de minha formação em antropologia, a capacidade de enxergar a beleza na diferença.

Serviço:
Tu sois de onde?, grupo Peleja (PE)
Quando: Quinta-feira (23), às 19h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Quanto: R$ 12 e R$ 6 (meia-entrada)

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O grupo Peleja apresenta ainda, dentro do Palco Giratório, Gaiola de moscas. Já escrevemos sobre o espetáculo, que participou da Mostra Capiba ano passado. Leiam e confiram o trabalho. As Yolandas indicam!

Serviço:
Gaiola de moscas, grupo Peleja (PE)
Quando: Sexta-feira (24), às 19h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Quanto: R$ 12 e R$ 6 (meia-entrada)

Gaiola de moscas. Foto: Pollyanna Diniz

Gaiola de moscas. Foto: Pollyanna Diniz

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“Não conseguimos conceber teatro que não tenha relação direta com o pensamento”

Clowns de Shakespeare estreia Hamlet. Foto de ensaio feita por Pablo Pinheiro

Clowns de Shakespeare estreia Hamlet. Foto de ensaio feita por Pablo Pinheiro

O grupo potiguar Clowns de Shakespeare estreia hoje, dentro do Janeiro de Grandes Espetáculos, o espetáculo Hamlet, com direção de um dos encenadores mais importantes do país, Marcio Aurélio. A companhia começa a comemorar aqui no festival os 20 anos de atuação. Além de Hamlet (que será encenada hoje e amanhã, às 21h, no Santa Isabel), apresentam O capitão e a sereia (peça inédita no Recife), nos dias 22 e 23, às 19h, no Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro); e Sua Incelença, Ricardo III, em única sessão, no dia 26, às 18h, no Pátio do Mosteiro de São Bento, em Olinda. O Clowns também lança o projeto Cartografia do Teatro de Grupo do Nordeste com uma mesa redonda na segunda-feira (21), às 17h, no Centro Cultural Correios, e faz uma oficina de 22 a 25, das 9h às 12h30, também nos Correios, intitulada Clowns de Shakespeare – Prática e pensamento.

Conversei com Fernando Yamamoto, que geralmente dirige as montagens do grupo, sobre o processo de criação da companhia, a aproximação com Marcio Aurelio, o trabalho de grupo, a importância de Sua Incelença, Ricardo III. Foi uma das entrevistas que fiz, em dezembro, para a construção da matéria sobre os 20 anos do grupo, que saiu na edição de Janeiro da Revista Continente.

Direção dos espetáculos do Clowns geralmente é de Fernando Yamamoto

Direção dos espetáculos do Clowns geralmente é de Fernando Yamamoto

ENTREVISTA // FERNANDO YAMAMOTO

Vocês estão num movimento de reaproximação com Shakespeare? Logo depois de Ricardo III, porque a decisão de montar Hamlet? Como está sendo esse processo de criação, já que Sua Incelença parece ter “absorvido” tanto vocês? Como esquecer um pouco aquelas referências pra trabalhar com outra obra de Shakespeare? Ou quais referências continuam as mesmas?
Desde Muito Barulho por Quase Nada, em 2003, não montávamos um Shakespeare. Partimos para um Brecht – O Casamento do Pequeno Burguês (2006) e três espetáculos com dramaturgia própria: Roda Chico (2005), Fábulas (2006) e O Capitão e a Sereia (2009). No entanto, desde 2007 já sentíamos uma necessidade de não só retornar a Shakespeare, como partir para uma obra não cômica. É quando nos aproximamos do teórico polonês Jan Kott e, principalmente, do Gabriel Villela e do Marcio Aurelio, durante uma residência que fizemos no TUSP, em São Paulo. Como costumamos trabalhar o planejamento do grupo com dois, três anos de antecedência, já iniciamos o flerte com os dois para montar essas obras. No caso de Hamlet, em especial, é uma peça que o Marcio é um grande especialista, já montou e pesquisou muito em cima dela, e surge para nós num momento em que todos estamos passando, ou perto de passar, pela “crise da meia idade”, que é uma das questões que o Shakespeare aborda. A troca com o Marcio e sua assistente, Ligia Pereira, tem sido de grande aprendizado para nós, principalmente porque eles trabalham com uma linguagem muito diferente do Gabriel Villela, que é mais próxima ao que o grupo já tinha.

Marcio Aurelio, da Cia Razões Inversas, assina direção de Hamlet. Foto: Pablo Pinheiro

Marcio Aurelio, da Cia Razões Inversas, assina direção de Hamlet. Foto: Pablo Pinheiro

Qual a contribuição de Marcio Aurelio neste espetáculo?
Como citei antes, a aproximação com o Marcio vem desde 2007, na residência no TUSP, quando tivemos cinco encontros de investigação em cima justamente de Hamlet. Além de todo o encanto por tanto conhecimento e generosidade, pudemos assistir a dois trabalhos da companhia dele, a Razões Inversas, que nos instigaram ainda mais a poder passar por um processo de montagem com ele, que foram o Anatomia Frozen e Agreste. Ele está passando quatro meses em Natal, num processo de de verdadeira troca, já que tem trazido sua bagagem e procedimentos, mas com muita escuta e observação sobre a forma como nós trabalhamos, nossa linguagem, para que possamos construir de fato um espetáculo que marque o encontro entre ele e nós.

Como essa encenação se estabelece? Há, por exemplo, papeis definidos para cada ator ou há uma troca?
Fizemos uma grande intervenção dramatúrgica, numa linguagem contemporânea que não se preocupa em contar linearmente a fábula, mas sim buscar o recorte que nos interesse para apresentar a obra no máximo da sua potência. Assim, dos oito atores que estão em cena, apenas o César (Ferrario) e o Marco (França) se dividem em dois papéis, os demais têm apenas um: Camille Carvalho (Rosencrantz), César Ferrario (Polônio e Laertes), Dudu Galvão (Horácio), Joel Monteiro (Hamlet), Marco França (Rei Claudius e Fantasma), Paula Queiroz (Guildenstern), Renata Kaiser (Rainha Gertrudes) e Titina Medeiros (Ofélia).

O trabalho com diretores convidados é uma constante? De que forma isso enriquece o trabalho e, ao mesmo tempo, como é possível manter a linguagem própria ao grupo? No momento do impasse, qual opinião prevalece? A do diretor ou dos atores?
O Hamlet é o segundo trabalho com diretor convidado. Antes dele, apenas o Ricardo III teve essa característica. O Muito Barulho por Quase Nada e O Casamento do Pequeno Burguês tiveram o Eduardo Moreira, do Galpão, como diretor convidado, mas nos dois casos ele dividiu a direção comigo, então não se tratava de uma direção externa. Os demais espetáculos tiveram a minha direção. Essa premissa de trabalhar com profissionais convidados, não só na direção, como também na direção musical, figurino, cenário, etc., é uma busca por uma oxigenação na nossa prática, para não corrermos o risco de ficarmos sempre circulando nos próprios vícios. Durante os processos, os diretores têm total autonomia – inclusive no meu caso. No entanto, nestas duas experiências (e com o Eduardo Moreira também) sempre tivemos uma relação muito dialógica. Mas a ideia é sempre aproveitar esses diretores convidados para conhecer melhor suas formas de trabalho.

Sua Incelença, Ricardo III trouxe projeção internacional ao grupo. Foto: Pablo Pinheiro

Sua Incelença, Ricardo III trouxe projeção internacional ao grupo. Foto: Pablo Pinheiro

O que significou Sua Incelença na trajetória de vocês? É o mesmo movimento que aconteceu, por exemplo, com Muito barulho por quase nada ou não? Quais foram os momentos mais marcantes de Sua Incelença? Desde a montagem até agora, na recepção do público?
Sem dúvida o Ricardo III proporcionou ao grupo um grande crescimento em diversos aspectos, principalmente de projeção do nome dos Clowns pelo país, e o início do processo de internacionalização. Acho que o momento em que o espetáculo surgiu foi muito oportuno, já que já tínhamos um certo nome e respeito pelo país, mas que foi muito incrementado pelo encontro com o Gabriel Villela e todo o peso do seu nome. É difícil fazer uma comparação com o Muito Barulho, já que sem dúvida foram marcos na nossa história, mas que de certa forma o Fábulas também foi, assim como O Capitão e a Sereia. São muitos momentos marcantes nessas quase 100 apresentações que o espetáculo já cumpriu. A estreia em Curitiba foi um deles, sem dúvida. A residência que fizemos no Complexo do Alemão, pouco tempo depois dos conflitos que lá aconteceram, foi outro. No Festival de São José do Rio Preto, fizemos a abertura para uma arena com 7.000 pessoas! Alguns dias depois, apresentamos na área rural da cidade, para cerca de 100 pessoas, ao lado de um pasto de boi, numa das melhores apresentações do trabalho até agora. Além disso, as duas viagens internacionais, no Chile e na Espanha, também foram marcantes. No Chile destacaria a apresentação que fizemos na frente do La Moneda, palácio do governo, onde Salvador Allende sofreu o golpe militar e foi assassinado. Para nós, contarmos a fábula desse vilão sanguinário e cruel nesse cenário tão impregnado pela história foi muito emocionante.

Como é que esse grupo se reuniu lá atrás, há 20 anos? Houve muitas mudanças na composição do grupo? E uma pergunta clichê, mas que é bastante difícil. Como manter um grupo artístico, um grupo teatral, por tanto tempo?
Da formação inicial, ainda restam três fundadores, eu, a Renata Kaiser e o César Ferrario. A forma como conseguimos construir e manter o grupo é muito difícil de definir. Sem dúvida um dos mais importantes fatores para isso foi conseguirmos estabelecer um equilíbrio entre os desejos pessoais e as demandas do coletivo. Ninguém trabalha nos Clowns com o objetivo de projeção individual, o grupo sempre está à frente. No entanto, é fundamental que as inquietações de cada integrante tenha espaço dentro do grupo. Investimos muito no grupo, dedicamos muito para construir esse projeto artístico que é o projeto de vida de todos nós. No entanto, quando analiso friamente de onde saímos e onde estamos, vejo que é uma história absolutamente improvável, construir um grupo tão sólido e com uma qualidade artística internacional numa cidade tão árida culturalmente como Natal.

Como se dá o processo de gestão do grupo? O apoio da Petrobras, por exemplo? O que significou esse apoio na trajetória de vocês?
Por mais que o patrocínio da Petrobras, que está próximo de terminar, não contemple nem metade dos gastos que o grupo tem, ele significou uma mudança radical na estrutura dos Clowns. A possibilidade de termos um montante fixo mensalmente, que cubra alguns gastos como aluguel da sede, salário de um secretário, uma parte do salário dos demais integrantes, etc, possibilita uma maior tranquilidade para que possamos de fato investir no aprimoramento artístico, sem precisar abrir concessões. O processo de gestão do grupo é algo em constante reavaliação e transformação. Nesse aspecto, temos uma premissa de tentar sempre buscar o equilíbrio entre o pensamento e a prática, que as questões administrativas sempre levem em consideração os princípios éticos e artísticos que o grupo traz na cena.

Fábulas (2006)

Fábulas (2006)

Como era o cenário teatral em Natal há quase 20 anos, quando vocês surgiram? E no Brasil? O teatro de grupo já tinha essa força?
Nós somos meio isolados na nossa geração em Natal. Até existem outros artistas da nossa geração, mas grupos não. Naquele momento, Natal tinha dois grupos muito tradicionais, o Estandarte e o Alegria Alegria, e um grupo que era uma referência para nós, o Tambor, capitaneado por João Marcelino. Apesar de formado por artistas mais velhos do que nós, o Tambor era mais ou menos contemporâneo, no entanto não resistiu muito tempo. Houve um hiato nessa história, e depois de muitos anos começa a surgir uma outra geração de grupos na cidade, como o Atores à Deriva, Facetas, Mutretas e Outras Histórias, Bololô, Arkhétypos, dentre outros, alguns deles inspirados na nossa experiência. Nacionalmente, era um momento de retomada do teatro de grupo. Começamos a fazer teatro no período em que os famosos encontros de teatro de grupo de Ribeirão Preto aconteceram.

Aqui vocês vão lançar também o projeto Cartografia do Teatro de Grupo do Nordeste. Qual a importância desse levantamento? Dá para apontar, por exemplo, características comuns ao teatro feito no Nordeste?
O projeto surge justamente com essa inquietação. Circulamos muito pelo Nordeste e em cada estado encontramos parceiros que vivem realidades muito parecidas com as nossas, sejam de conjuntura política, gestão ou inquietações estéticas. Esse mapeamento revela facetas opostas nesse sentido: por um lado, existem recorrências claras, como a dependência aos mecanismos de financiamento federais, ou quase inexistência de grupos que conseguem garantir a manutenção de todos os seus integrantes; de outro, ao conhecer mais de perto cada experiência, fica a evidência que cada experiência é muito diversa da outra, e essa diversidade é muito saudável justamente para que um grupo possa alimentar-se das soluções encontradas pelo outro.

Muito barulho por quase nada, espetáculo de 2003

Muito barulho por quase nada, espetáculo de 2003

Queria falar um pouquinho sobre os espetáculos dos Clowns. Para você, Fernando, quais os mais marcantes?
Cada espetáculo teve sua importância e seu momento. Alguns deles foram divisores de água. A Megera DoNada (1998), marcou a transição da primeira fase do grupo, de total amadorismo, dentro da escola, para a nossa legitimação na classe teatral potiguar. O outro salto foi Muito Barulho por Quase Nada, que apresentou o grupo pro resto do país, fez com que circulássemos pelas cinco regiões, conhecêssemos muitos outros grupos, pensadores, críticos e outros profissionais. O Fábulas proporcionou importantes prêmios. O Capitão e a Sereia é provavelmente o trabalho mais especial para os integrantes do grupo que participaram, porque conseguimos como nunca experenciar um processo de pesquisa que dialogou diretamente com o momento e o pensamento do grupo. Foi também a primeira estreia fora de Natal, no SESI Vila Leopoldina, em São Paulo. Depois disso, o Ricardo traz a projeção do nome do grupo e o começo da internacionalização. Agora estamos ansiosos para ver como o próprio grupo responde à radicalização de linguagem que o Hamlet está trazendo.

Quando o grupo conseguiu uma projeção maior? Foi com Muito barulho? O que tinha de especial nessa montagem?
São projeções diferentes. Com o Muito Barulho, aparecemos para o Brasil. No Fábulas, ganhamos os principais prêmios do segmento no país. E com o Ricardo, tivemos um espaço muito especial nos grandes festivais brasileiros, abrindo vários deles (Curitiba, Brasília, Rio Preto e Belo Horizonte), e um espaço na mídia nacional também inédito. Acho que o Muito Barulho foi um trabalho que, por um lado, mostrou ao país que era possível se fazer um teatro de qualidade em Natal. Acredito que foi um choque, no melhor sentido da palavra. Por outro lado, a força do trabalho era a solaridade do grupo, em especial naquele momento de juventude dos integrantes. Acho que é um espetáculo um tanto naïf, e por isso também ele ganha um charme a mais. Temos a intenção de em 2013 remontá-lo, para que participe das atividades de comemoração dos 20 anos do grupo.

O capitão e a sereia é baseado na obra de um pernambucano e tem o cavalo marinho como inspiração. Foto: Maurício Cuca

O capitão e a sereia é baseado na obra de um pernambucano e tem o cavalo marinho como inspiração. Foto: Maurício Cuca

O capitão e a sereia teve profissionais de oito estados envolvidos. Como foi isso? Como vai ser reapresentar esse espetáculo aqui?
O Capitão foi um processo muito especial, sem dúvida o mais próximo do que consideramos o ideal. Conseguimos formar uma equipe de grande qualidade, inclusive com a participação fundamental de dois pernambucanos, o Helder Vasconcelos e o André Neves. Apesar de ser baseado na obra de um pernambucano e ter o cavalo marinho como inspiração, o Capitão ainda é inédito em Recife! Estamos muito ansiosos em poder levá-lo ao Janeiro, porque serão duas estreias na capital pernambucana.

Vocês estiveram muito próximos do Galpão ao menos em duas ocasiões: Muito barulho por quase nada e O casamento do pequeno-burguês. Qual a importância do Galpão no trabalho de vocês? Ou mais especificamente do Eduardo Moreira?
Começamos a fazer teatro sob a influência direta do Galpão. Eles sempre foram a nossa maior referência, seja no aspecto estético, poético, seja no organizacional, de gestão. O Eduardo foi o elo de aproximação da gente com eles, mas depois desses dois trabalhos temos uma relação muito íntima, seja no compartilhamento dos mesmos parceiros – como no caso do Ernani Maletta, Babaya, Gabriel Villela, Mona Magalhães, Francesca della Monica -, seja na troca constante que temos com eles. Para nós é uma honra imensurável poder hoje ter como parceiros e amigos aqueles que um dia foram nossos ídolos “inatingíveis”.

O casamento do pequeno burguês, montada em 2006

O casamento do pequeno burguês, montada em 2006

Qual a importância do teatro infantil na trajetória de vocês?
Apesar de termos tido algumas outras experiências menores, de fato a nossa relação com o teatro infantil se concentra no Fábulas. Foi uma experiência muito marcante, que ampliou nossa compreensão do fazer teatro e trouxe frutos especiais. No entanto, apesar de ter sido muito bom para nós, hoje não temos encontrado sentido em seguir nessa seara, pelos desejos e inquietações que povoam nosso imaginário hoje.

Qual a relação de vocês com Recife? Quando vieram ao Janeiro pela primeira vez? Porque iniciar essa comemoração aqui?
Sempre fomos muito bem recebidos no Recife, e em especial nessa dobradinha Janeiro de Grandes Espetáculos/Teatro Santa Isabel. Acho que fomos pela primeira vez em 2005, com Muito Barulho, e voltamos com Roda Chico, ambos para abrir o Janeiro. Foram apresentações muito marcantes pra nós. Agora, estamos numa grande expectativa, porque será muito especial abrir os 20 anos no Janeiro, no Santa Isabel, estreando o Hamlet e conseguindo levar, finalmente, o Capitão para Recife. Além desses motivos, e da própria questão do calendário, pelo Janeiro ser o primeiro grande festival brasileiro no ano, estávamos também devendo essa ida. A Paula de Renor tentava nos levar de novo há alguns anos, mas em geral estamos de férias nesse período. Quando ela nos convidou para a edição do ano passado, e tive que declinar mais uma vez porque iríamos para o Santiago a Mil, no Chile, me comprometi com ela a levar uma série de atividades para lançar os 20 anos nesta edição de 2013, e que bom que o Janeiro apostou e tudo deu certo!

Quais são as preocupações estéticas e conceituais do Clowns hoje com relação ao teatro? Que teatro vocês querem fazer? O que discutir hoje?
Essa é uma pergunta difícil de responder, tanto pela complexidade que exige para respondê-la, quanto pelo fato que está em constante transformação. Em determinado momento, quando o grupo completou dez anos, acho que a nossa principal atitude política era provar, para os outros e para nós mesmos, que era possível fazer um teatro de qualidade no Nordeste, no Rio Grande do Norte, em Natal. Naquele momento, isso já bastava, era suficiente. É nesse contexto que surge o Muito Barulho, o Fábulas, o Casamento. No entanto, cumprida essa etapa, as demandas vão se tornando cada vez mais exigentes. Hoje não conseguimos conceber um teatro que não tenha uma relação direta com o pensamento. Algumas questões vêm nos provocando, como o papel do artista latinoamericano, ou como encaramos o passar do tempo, para proporcionarmos um envelhecimento, dos integrantes e do grupo, que possibilite que nos reinventemos, que mantenhamos vivo e renovado o sentido de fazermos teatro dentro dos Clowns. É nessa perspectiva que as questões estéticas precisam se alinhar.

E porque os Clowns insistem em fazer teatro?
Acredito que insistimos porque é no teatro que encontramos o nosso lugar no mundo, é a nossa forma de nos reconhecermos, propormos reflexões e idealizarmos transformações. É nessa perspectiva coletiva, que tanto anda no contrafluxo do que a lógica estabelecida tenta nos empurrar, que nos legitimamos como artistas e como cidadãos.

Vídeo dos 20 anos do Clowns:

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O nosso Jesus

José Barbosa interpreta Jesus pelo segundo ano. Foto: Fábio Jordão/Divulgação

A temporada 2013 da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém será de 22 a 30 de março. Esta semana quem seguiu para Fazenda Nova foi o ator pernambucano José Barbosa, que pela segunda vez tem a responsabilidade de interpretar Jesus. Zé e parte do elenco gravam o material promocional que será utilizado este ano e aproveitam para acertar detalhes da encenação. Antes de colocar o pé na estrada, o ator conversou com o blog, disse que a peça é um instrumento de evangelização e falou da expectativa em contracenar com a amiga Luciana Lyra, atriz também pernambucana que assume o papel de Maria este ano.

ENTREVISTA // José Barbosa

Lembro que ano passado escrevi que o seu Jesus era muito humano. O que você aprendeu com esse papel?
Aprendo todo dia que a doação, o amor e a fé, fortalecem o espírito. Continuo trabalhando nesse Jesus humano, mais irmão do que pai, um professor, mostrando o caminho, ensinando como se chega ao Deus Pai, vivendo da maneira que viveu, na simplicidade, sem pompa, com medos, anseios, fúria, dúvidas, mas acima de tudo um amor imensurável.

O que você quer que as pessoas vejam a partir da sua interpretação?
Que cada pessoa pode ser um pouco desse Jesus. Que as palavras ditas toquem diretamente na alma destas pessoas, que as cenas façam com que o público reflita, medite e compreenda o que significa amar o próximo e a Deus sobre todas as coisas. Esse espetáculo é também instrumento de evangelização, não apenas uma peça teatral.

Ano passado havia muita expectativa porque, afinal, era uma estreia. E agora? Como crítico de si mesmo, em que você acha que pode melhorar?
Em tudo. Quero uma evolução diária, constante, estudar mais, melhorar, afinal não é um personagem qualquer, é Jesus Cristo. Ele é vivo, ainda busco entendê-lo.

Conversando com José Ramos, ele me disse: “Depois de tantos anos, não podemos falar mesmo em novidades, mas em ajustes, principalmente no jeito de interpretar das pessoas que chegam. Cada um tem o seu jeito, o ritmo, mas o espetáculo é maior do que o ritmo de cada um. Eles até nem dizem, mas sentem muito o impacto de estar num teatro desse tamanho”. Sei que você já está na Paixão há um bom tempo, mas esse impacto ainda existe?
Sempre. É uma responsabilidade do tamanho da cidade-teatro. Pisar em Nova Jerusalém é impactatnte e emocionante, arrepia e traz uma felicidade que só quem participa de coração aberto sabe. Quanto as mudanças, elas acontecem sim. Teremos, por exemplo, mudanças no figurino do espetáculo: sacerdotes, soldados, Pilatos, Herodes, Herodíades, Maria, Madalena e Jesus terão novas roupas mais realistas, fruto de pesquisas feitas durante o ano, redesign feito por Vitor Moreira (criador do figurino original da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém) em parceria com Marina Pacheco que encabeçou as pesquisas.

Este ano, Maria também será pernambucana. Qual a sua expectativa? Você acha que este é um sinal da força da encenação, independente das relações comerciais (já que trazer atores de fora é uma questão que passa muito pelo comercial)?
Estou ansioso. Luciana Lyra é uma ATRIZ, em caixa alta mesmo, amiga querida, linda, tem uma bagagem gigantesca no que diz respeito a teatro. Quero aprender, trocar. Estar em cena com Lu interpretando Maria é um sonho bom, daqueles que acordamos sorrindo. Sou a favor da qualidade e da verdade como forma de passar a mensagem. Se esses objetivos são alcançados, a soma deu um bom resultado.

Uma das coisas que também dissemos é que provavelmente a sua carreira seria em muito impulsionada pela Paixão. O que aconteceu neste ano? Quais seus projetos para além da Paixão de Cristo?
Tenho projetos, mas não gosto de comentar, por serem projetos. Gosto de falar quando se consolidam e se tornam algo concreto. Mas tem coisa boa por aí.

Se em Nova Jerusalém você é Jesus, no Baile do Menino Deus fez José. Como foi essa experiência?
Experiência Linda. Sou de Limoeiro, interior de Pernambuco, e o Baile do Menino Deus é uma festa de brincadeiras populares que via na infância. Junto a essa festa, tem o nascimento do menino Jesus; e interpretar o pai dele na Terra, São José, que o ensinou o ofício da carpintaria, que amou Maria e criou esse menino que seria o redentor, cantar acalantos ao lado de Isadora Melo (cantora maravilhosa) que fez a Maria, para aquela criança no palco do Marco Zero, com a cenografia e figurinos de Marcondes Lima, direção de Ronaldo Correia de Brito e Quiercles Santana, com uma orquestra sob a batuta do Maestro José Renato Acioly, com coro adulto e infantil, bailarinos incríveis, Arilson Lopes e Sostenes Vidal como os Mateus, é algo inesquecível. Hoje o filho cresceu, tem 33 anos e é a cara do pai (José).

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