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O corpo que dança
até cansar o cansaço
Juliana Linhares no Recife
Por Ivana Moura

Apresentação no Teatro de Santa Isabel, no dia 2 de agosto. Foto: Jessica Mendes / Divulgação

Show integrou programação do Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz. Foto: Jessica Mendes

O corpo cansado que dança é a poética que Juliana Linhares põe em movimento no palco do Teatro de Santa Isabel, lotadíssimo na noite de domingo (02/08). Até Cansar o Cansaço (segundo álbum transformado em espetáculo) parte do estado de exaustão da era da hiperconexão e responde com o que parece contraditório: em vez de repouso, mais corpo, mais presença, mais movimento. A artista potiguar, formada no teatro, faz do palco um campo de forças onde a canção é cena, a voz é gesto, e o cansaço não é o fim; é o ponto de partida.

Artista jovem, sim, mas com trabalho maduro, urdido durante anos em elaboração criativa com profissionais de diferentes campos – do teatro à neurociência, da canção popular à dramaturgia contemporânea. Já se tornou uma das maiores artistas da cena, da música e do teatro surgida nos últimos anos. A moça já ganhou um espaço imenso, mas tem tudo para voar muito mais alto.

Magnetismo e humanidade. Brilhantismo e humildade – qualidades que parecem combinar com Juliana. Há conceito, espessura e paixão na alegria que desperta e compartilha neste espetáculo. É impressionante a presença, a performance, o fascínio; é acalanto e cutucada a arte dessa moça.

No Carnaval deste ano, vi Juliana em ação duas vezes. No palco do Marco Zero, no centro do Recife, como convidada do Maestro Forró e da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, cantando Frevo Mulher, quando levantou a galera já acesa. E na Praça do Arsenal, num espetáculo inédito que reuniu a paraibana Cátia de França, a baiana Josyara e Linhares potiguar; três figuras do Nordeste no palco. O show percorria os mais de 50 anos de carreira de Cátia, além de canções do repertório autoral de Juliana e Josyara. Era um mergulho afetivo e político na trajetória da paraibana; uma artista que atravessa décadas de experimentação e resistência. Juliana brilhou nessas passagens, mas no Santa Isabel seu trabalho se revelou em outra dimensão: com densidade artística, construção cênica e repertório que as participações no Carnaval insinuavam.

O público reconhecia o que via. Quente, empolgado, participante; em grande parte já acompanhava a carreira de Linhares de outros carnavais e do álbum anterior, Nordeste Ficção(2021), que dialoga intimamente com identidades, territorialidades e representação cultural do Nordeste.

Até Cansar o Cansaço estreou recentemente no Rio de Janeiro, em 16 de julho, no Teatro Claro Mais, com recepção entusiástica do público e da crítica. No Recife, a apresentação ocorreu dentro da programação do Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz.

O repertório vibra na inquietude e na fadiga coletiva da era da hiperconexão, forjado no esforço de traduzir o nosso tempo sem desistir. Tem células das pesquisas do neurocientista Sidarta Ribeiro sobre os sonhos e do cruzamento de Juliana com o dramaturgo e encenador Marcio Abreu, da companhia brasileira de teatro; cujo texto Linha da vida ela interpreta no meio do show, afirmando que o sonho, a fé e a vida vivida são as matérias-primas do espetáculo.

Para atravessar tudo isso, ela faz do corpo o centro da cena. Pula. Dança. Faz piruetas. Canta deitada no chão. Desce à plateia, dança com uma espectadora, recita versos, subverte rimas numa movimentação que mistura o articulado dos bonecos de mamulengo, a irreverência dos brincantes de circo, o ritmo dos dançantes contemporâneos. É uma danada essa Juliana! Performática, ela mastiga a política e cospe feito fogo no já citado monólogo de Abreu, que expande, no palco, as narrativas do disco.

Espetáculo de Juliana Linhares empolgou a plateia pernambucana. Foto: Jessica Mendes / Divulgação

Juliana Linhares ganha espaço na cena nacional. Foto: Jessica Mendes / Divulgação

O teatro é o tronco na trajetória de Juliana. Desde os 9 anos no grupo teatral da escola, passando pela formação na faculdade de Artes Cênicas, na UniRio e pela estreia profissional em 1995, ela construiu uma identidade cênica que vibra em cada gesto no palco musical. Do trabalho com a coreógrafa Angel Vianna em O Tempo Não Dá Tempo” (2018), de Duda Maia, que celebrava os 90 anos de Angel, à investigação do corpo em cena na companhia brasileira de teatro, onde assinou a trilha sonora de Sonho Elétrico, de Marcio Abreu e fez participações especiais como atriz. Com João Falcão, atuou em A Ópera do Malandro e Gabriela, um musical. Atualmente está em cartaz com As Centenárias, de Newton Moreno, com canções de Chico César e direção de Luiz Carlos Vasconcelos, ao lado de Laila Garin.

O figurino faz extensão desse corpo talhado no teatro. Concebido em camadas por Jailson Fernandes, vai sendo revelado, transformado, desfeito, como a própria jornada do espetáculo.

O show chega com a faixa-título, Até cansar o cansaço (Juliana Linhares e Jeff Lyrio, 2026), cantada com travesseiro como adereço cênico e olhos que se agigantam para potencializar o sentido dos versos. É a cena-fundação: o corpo que cansa, o canto que resiste, o sonho como ato político.

A sequência, O rabo do jumento (Elino Julião, 1967), está carregada de humor nordestino. Supostamente baseada num fato real (um jumento que invadiu o roçado do vizinho Nascimento, comeu um pé de coentro, e teve o rabo cortado como castigo), a canção expõe a história de um homem que recusa o dinheiro da indenização e exige o impossível: “Eu não quero pagamento, Nascimento / Eu quero é outro rabo no jumento”. Juliana canta como quem conta um causo que ainda dói: há comicidade no absurdo, mas há também o retrato de uma relação de poder; o vizinho brabo que pune, ameaça e depois tenta comprar o silêncio. Riso e soco no mesmo gesto.

Em Conseguiram, parabéns (Manduka), o narrador bate palmas com sarcasmo para quem conseguiu o que ele jamais conseguiria: matar o próprio querer, sublimar a paixão, esquecer. No contexto do show, a música toca o nervo central: o que exaure é o esforço diário de ser quem não se é, de desintegrar no ar as montanhas de paixão para caber no que se espera. Questiona o preço de se encaixar. No palco, Juliana dá voz a quem se recusa a pagar.

Do pernambucano Juliano Holanda, criador de poesia urbana que enreda as relações humanas em imagens de rara densidade, vem Emaranhada (2024). A canção que tece um jogo de fios: “passando dedo por dedo, formando novo quadrado, losango feito de elástico”. A vida é jogo, e os fios que se cruzam nos arriscam: “o risco de amar no mínimo, risco de amar no máximo”.

No baião Vida virada, a artista canta parte da música deitada no palco, de costas para a plateia, com as pernas para cima e a cabeça virada – inversão que subverte a frontalidade do palco e reinventa a relação com quem assiste. Ela quebra convenções e o público segue encantado.

Chama da criança (Juliana Linhares e Demarca, 2024), do álbum Nasci no Brasil (2024) da Pietá (banda que a revelou), se entrelaça ao conceito do espetáculo em número que costura citações de Salve as folhas (Gerônio e Ildásio Tavares, 1989), Vapor barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) e A mulher do fim do mundo (Romulo Fróes e Alice Coutinho, 2015). “Nessa solidão desenfreada / Sigo me apoiando em quem tem fé / E acredito em forças encantadas / Chama da criança que ainda é”. Cada citação traz, em outra pulsação, o que o show inteiro sustenta: que a vida insiste.

E A palo seco (Belchior, 1973) traz um momento arrebatador do show: um chute coreográfico no ar corta o verso “Eu quero é que esse canto torto / Feito faca, corte a carne de vocês”. Sob ecos e reverbs que seguram a voz depois do último fôlego, ela fala em democracia e liberdade. Escrita em 1973, sob ditadura, a canção chega inteira a 2026: a provocação do corte na carne continua.

Cantando na plateia. Foto: Ivana Moura

“Maravilhosa!” soltou uma voz da plateia. Ao longo do show vieram outras – elogios, exclamações, devoções, saudações – até uma “Perfeita!” O que se vive no Teatro de Santa Isabel é um estado de entusiasmo, de comunhão coletiva. Não por acaso: o trabalho de Juliana Linhares é maduro, provocador, redondo, contagiante, ao mesmo tempo crítico e de bem com a vida. Arrebata o público e gera uma energia que é o reconhecimento partilhado de que algo está acontecendo com todos, ao mesmo tempo, na mesma sala. O consenso, aqui, não é problema; é fenômeno.

Tesoura do desejo (Alceu Valença, 1991) (no arranjo de Elísio Freitas, com a sanfona de Paloma Ronai) marca o momento em que Juliana desce do palco e canta no corredor do Santa Isabel, no meio da plateia pernambucana, bastante aplaudida. É a magia que se forma entre a artista, a banda e um público amante da arte de Linhares. Ela emenda com Balanceiro (Juliana Linhares, Khrystal, Moyseis Marques e Sami Tarik, 2021). E canta “Eu não posso mudar o mundo, mas eu balanço”; dança com uma espectadora, avisa que o corredor está liberado, e alguns se animam para dançar.

Ao lado dessa arquitetura cênica, uma banda precisa. A direção musical é do multi-instrumentista Elísio Freitas, arranjador do show e guitarrista da banda formada por Julia Rodrigues (bateria), Lucas Videla (percussão), Paloma Ronai (sanfona) e Nathanne Rodrigues (baixo). A sanfona de Paloma Ronai e a guitarra de Elísio Freitas entram numa conversa com os outros instrumentos em texturas que vão do baião ao rock, do frevo à balada, sem nunca perder o suingue nem o chamego sobre o que é ser nordestino. Teve também a participação de Helder Vasconcelos, que desenvolveu uma coreografia solo, e Linhares saudou as muitas parcerias com artistas pernambucanos.

A luz do espetáculo esculpe zonas de sombra e fulgor que acompanham os deslocamentos de Juliana pelo palco, potencializando o encontro entre o que se canta e o que se dança, entre a artista e a plateia.

No encerramento, Juliana fala emocionada. Cita o líder indígena e pensador Ailton Krenak: “a gente não pode perder a capacidade e a habilidade de sonhar, porque só sonhando a gente pode reinventar a vida”. Lembra de Angel Vianna, que lhe ensinou que podia se chamar de bailarina. Evoca Ariane Mnouchkine, diretora francesa do Théâtre du Soleil: “o teatro é o lugar onde os mortos veem os vivos”. Agradece ao neurocientista Sidarta Ribeiro, cujas pesquisas sobre os sonhos atravessam o espetáculo desde a primeira cena. E sintetiza: “eu sou o corpo. E através dele a gente pode tudo”. Diz que estava muito nervosa para o show e que preparou o seu melhor: “Espero que vocês saiam daqui um pouco menos cansadas, um pouco mais vivas e conectadas. E eu agradeço imensamente por sonhar acordada por causa de vocês.”

O público não arredava o pé e Juliana não economizava o verso. O espetáculo se prolongou depois do anúncio do fim. Ainda rendeu Tareco e mariola(Petrúcio Amorim, 1995) e outras canções tocadas no bis. Juliana Linhares está ocupando um território que conquistou e nele fincando a bandeira de uma artista que não pede licença para ser grande.

  • Ivana Moura é artista-pesquisadora, jornalista, dramaturga e crítica das artes vivas. Doutora em artes cênicas pela USP (Universidade de São Paulo). Idealizadora, editora e crítica na plataforma Satisfeita, Yolanda?. Foi editora e repórter no Diario de Pernambuco. Integrante da seção brasileira da IATC/AICT (Associação Internacional de Críticos de Teatro).
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Um jovem diretor (e ator) aos 70

Aderbal participou do II Encontro de Diretores de Teatro e do Cena Contemporânea, em Brasília. Foto: Sullian Princivali

Em 2010, ele dirigiu Macbeth, com um elenco encabeçado por Renata Sorrah e Daniel Dantas. Também levou aos palcos Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, com a colaboração dos diretores musicais Jaques Morelenbaum e Jaime Alem. Emendou com a peça Depois do filme, em que é autor, diretor e ator (há dez anos ele não atuava no teatro) e também com a direção de Na selva das cidades, que está em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro e tem no elenco Daniel Dantas e Maria Luiza Mendonça.

O ritmo intenso de trabalho não denuncia a idade de Aderbal Freire-Filho, diretor cearense radicado no Rio de Janeiro: 70 anos. Já tinha entrevistado o diretor algumas vezes por telefone, mas foi nesta última edição do Cena Contemporânea, em Brasília, que tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Aderbal participou do II Encontro de Diretores de Teatro (que teve como tema O diretor e o texto) e ainda apresentou a montagem Depois do filme nos dias 30 e 31. Como voltei de Brasília antes disso, fiz questão de acompanhar a demonstração de trabalho de Freire-Filho no Encontro de Diretores. A entrevista com o diretor tinha feito dias antes, por telefone, quando Marieta Severo e Andréa Beltrão vieram ao Recife para apresentar As centenárias.

No Encontro de Diretores, Freire-Filho voltou à década de 1970 para relembrar o Grêmio Brasileiro Dramático, grupo que mantinha quatro peças em cartaz ao mesmo tempo. “Foi a minha primeira tentativa de manter um grupo. Duas dessas peças eram do Roberto Athayde e duas do Flávio Márcio”, contou. Falou ainda do Centro de Demolição e Construção do Espetáculo, nos anos 1990, que estreou com uma experiência que marcaria toda a trajetória do diretor dali para frente: o romance-em-cena. O espetáculo era A mulher carioca aos 22 anos. “Era uma época em que havia uma discussão entre o teatro da palavra e o teatro da imagem. E eu queria as duas coisas juntas”, avalia. Mais de dez anos depois, vieram outras duas peças que levavam o romance inteiro à cena: O que diz Molero (que deve virar filme) e O púcaro búlgaro.

“Penso que o teatro pode muito, desde que o ator conquiste a cumplicidade do espectador para forçar a sua imaginação”, explicou o diretor. “Sinto absoluta necessidade de ter do ator a sua medida de ruptura, de quebra de ilusão. No cinema, a ilusão é contínua. Mas nesse teatro e no romance-em-cena, é descontínua e compartilhada. É um jogo permanente. Nada é estranho a essa arte do teatro cuja ilusão é tão tênue”. O diretor falava da capacidade dos atores de assumirem vários papeis na montagem. Exemplificou isso com dois textos: um de Roberto Bolaño e outro de Lobo Antunes.

Depois, fez uma ponte entre os seus trabalhos anteriores e Depois do filme. Foi muito bom porque tivemos a oportunidade de ver um pouquinho da peça, mesmo que de improviso. Algumas cadeiras (o cenário mesmo possui 15 cadeiras e ainda uma instalação com outras 15) foram levadas ao palco e Aderbal fez a primeira cena do espetáculo e também uma que se passa num famoso bar do Rio, Academia da Cachaça. Como ele diz na entrevista, apesar da peça ser um monólogo, são vários os personagens interpretados pelo ator num jogo de ilusão compartilhado, a partir do talento e técnica, pelo público. Aderbal, que não vem ao Recife desde a apresentação de O que diz Molero, disse que está com muita vontade de circular e a capital pernambucana está sim nesses planos.

Entrevista // Aderbal Freire-Filho

Você está voltando aos palcos como ator depois de um intervalo de dez anos e um filme que fala sobre a amizade entre três amigos. Porque levar esse personagem do cinema ao teatro? E o que o Ulisses tem de autobiográfico?
Depois que eu vi o filme Juventude, do Domingos de Oliveira, que são sim três amigos de infância que uma noite se encontram e ficam conversando sobre muitas coisas – eu, Paulo José e o Domingos de Oliveira; e o filme passou em Gramado, fez temporada nos cinemas do Rio e São Paulo, mas acho que não tinha uma boa distribuição pelo país, então percebi que esse nome Ulisses tem tudo a ver com o Ulisses do Homero, do Joyce, já sugere um herói viajante. Eu me apropriei desse personagem e imaginei umas situações depois que ele terminou esse dia de conversa com os amigos. É uma certa decadência do meu personagem. Na realidade, uma reflexão sobre a vida, a idade, pessoas que como eu chegam aos 70 e ainda se acham capazes de muitas coisas, mas têm mais consciência de que o tempo é curto. Culturalmente, a gente dura mais do que durava o meu avô, um homem de 70 anos antigamente estaca no fim da vida, mas eu me sinto resistindo, vivendo, trabalhando, namorando, mas com a consciência que o tempo é curto. É uma evidência de encarar a morte, tendo ainda a vontade de fazer muita coisa, sentimentos jovens como o do amor, do desejo, tudo isso me interessava muito no personagem e eu continuei.

Personagem Ulisses saiu do filme Juventude, com Domingos Oliveira e Paulo José. Foto: Grupo Estação/Divulgação

Mas é autobiográfico?
Não, não é autobiográfico. Quis fazer um monólogo, mas faço vários personagens. Faço uma vendedora boliviana de pulseira, por exemplo. Os sentimentos de Ulisses muito provavelmente são meus, de aparência pessoal, idade. Tem uma referência que eu faço há um instituto de orientação profissional, porque eu tinha que escolher uma profissão lá atrás. Eu me diverti, ficava lá trabalhando, com meu assistente de direção.

A peça começa como se fosse um roteiro de cinema? Qual a influência do cinema?
É, eu fiz a peça como se fosse um roteiro de cinema. Toda cena eu começo como se fosse um roteiro. Tipo: “exterior, ponte Rio Niterói, noite; interior, dia, Academia da Cachaça, Leblon”. Noutras peças já tem isso, de gostar de ter trabalhar com outros gêneros. Foi assim em Moby Dick, por exemplo. E em Depois do filme eu brinco, como que dizendo que o que acontecia no filme era verdade. Conto na peça uma história de uma cena que foi gravada, mas não ficou na versão final. É uma brincadeira, falando de personagens e atores, uns como verdadeiros e outros não.

Existe alguma previsão de circulação?
Tenho muita vontade! Vou para Vitória e no Rio não se fico até agosto ou setembro ou se fico até outubro.

Aderbal Freire-Filho vai encenar Depois do filme no Cena Contemporânea. Foto: Nil Caniné

Andréa Beltrão nos disse que você foi um “diretor-criador” na peça As centenárias. Como foi esse trabalho e a primeira parceria com Newton Moreno?
É uma peça com duas atrizes que tem uma história muito bonita, que já fizeram várias peças juntas, que tem uma relação pessoal. E queria acentuar essa amizade no palco. Os papeis que, no livro, seriam direcionados a outros atores, como o coronel, a viúva, Lampião, são feitos pelas próprias atrizes. A peça começa e termina num velório e entre essa cena e a última tem todos os velórios e cada um tem um personagem novo. Sávio Moll, que faz A Morte deu uma composição incrível ao personagem, até porque além da formação de ator, ele é palhaço. Então a minha ideia foi potencializar o trabalho das duas atrizes. Se as duas iriam fazer as carpideiras, a primeira coisa, que foi uma decisão, inspiração, foi que elas tivessem todos esses outros personagens. E isso criou uma necessidade de que elas dialogassem, às vezes, com elas mesmas. Aí entram os bonecos: cada uma delas passa a ter um mamulengo, um boneco de mão que é a sua própria personagem. Isso elimina os atores propostos originalmente pelo livro. Algumas coisas também foram adaptadas. A relação texto e encenação é sempre assim.

As centenárias foi parceria entre Newton Moreno, Aderbal, Marieta e Andréa

Você tem um novo projeto com Andréa Beltrão e Newton Moreno, que é um musical, Jacinta. Como está esse processo?
É a pior atriz do mundo, uma portuguesa. Eu já fiz três peças com a Andréa: A prova, Sonata de Outono e As centenárias. E esse é o próximo projeto, mas ainda não tem nada certo, tem muita vontade! Fizemos uns encontros, umas leituras, trocamos umas ideias, umas sugestões para ajustar no texto.

Como foi trabalhar com o Newton Moreno? O que você acha do texto dele?
Conheci o Newton com As centenárias e vi outras peças. Fiquei encantado com essa aproximação, com a sensibilidade desse poeta, ator, com o alicerce dele, que é fincado no interior, com um olhar do tamanho do mundo. Ele se apóia no conhecimento profundo da sua sociedade, da sua terra, do seu ambiente e projeta isso pra uma cabeça e um coração universais. E tem essa generosidade no que ele faz, essa disponibilidade. Ele não é só autor, mas um homem de teatro, tem formação de ator, de homem do palco, conhece bem como o texto é. Como ele fez isso com outras peças, na direção, sabe o quanto a peça dele vai se transformar noutra peça no palco.

A sua direção mais recente é Na selva das cidades, em cartaz no CCBB no Rio. Como foi esse trabalho?
É uma peça da juventude de Bertold Brecht, uma das primeiras peças dele. Tem uma montagem histórica, feita pelo Zé Celso nos anos 1960 e, desde lá, pelo menos no Rio, não houve outra montagem. Conta a história de um confronto entre dois homens de características bem diferentes – um comerciante e um jovem idealista. No elenco temos nove atores, entre eles Daniel Dantas, Maria Luiza Mendonça, Marcelo Olimpo – aliás, o projeto é dele, ele é da Cia. dos Atores e ele e Daniel Dantas fazem os dois protagonistas, Ines Viana. Ficamos em cartaz até outubro.

Na selva das cidades, com direção de Freire-Filho, está em cartaz no CCBB do Rio. Foto: Dalton Valério

E qual seu próximo projeto?
Emendei uma porção de coisas, juntei Mac Beth, com Orpheu, com Depois do filme e agora Na selva das cidades. Quero me dar um mês ou dois, mas tenho muitas coisas para fazer. Quero filmar O que diz Molero em parceria com o Walter Carvalho, que é nordestino.

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Quero ser Marieta Severo!

Espetáculo será encenado até domingo no Teatro da UFPE

Assisti ao espetáculo As centenárias pela primeira vez há uns três anos, no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. Essa sessão estava florida de gente famosa. E na realidade só consegui um ingresso porque falei com Newton Moreno, o autor, que conversou com o produtor. A temporada estava superlotando.

O teatro Poeira é mais lindo e aconchegante do que imaginei. Tem gotas de afeto espalhada pelo espaço e só percebi isso muito depois.

A história de duas carpideiras que tentam enganar a Morte e choram pelos humanos que se vão para abrir caminho me deixou em princípio desconfiada. Achei que uma narrativa tão próxima do que tive contato a vida inteira não iria me arrebatar. Mas a peça começou e as linhas do enredo foram fazendo sua teia de beleza e conquista.

Com quinze minutos de espetáculo estava entregue. Ao talenco das duas atrizes, Marieta Severo e Andréa Beltrão, à engenhosidade do diretor Aderbal Freire Filho e à simplicidade encantatória de mais esse texto de Newton Moreno.

Agora, com a vinda do montagem de As centenárias para o Recife, o que mais despertou minha admiração é a cumplicidade entre as duas atrizes, Marieta e Andréia, juntas no palco e na administração dos Teatros Poeira e Poeirinha. E uma invejável vontade de ter uma amizade desse quilate. Que quando uma repórter, Pollyanna Diniz, a Yolandinha, pergunta a Andréia qual o defeito da Marieta que mais a irrita, ela responde sem pestanejar: “A Marieta não tem defeitos. Quem tem defeitos sou eu e você”. Respeito e proteção a toda prova. Nem todo mundo merece uma amizade assim.

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Marieta Severo

Todas as quintas-feiras, ela está na televisão interpretando a dona de casa Nenê, esposa do Lineu, mãe da Bebel e do Turco, sogra do Agostinho. Mas nem só de A grande família vive a atriz Marieta Severo. Muito pelo contrário. Ela estreou nos palcos em 1965 e geralmente tem projetos no teatro e cinema, administra ao lado da amiga e parceira de palcos e negócios Andrea Beltrão o Teatro Poeira e o Poeirinha, no Rio de Janeiro, é mãe de três filhas (fruto do casamento de 30 anos com Chico Buarque), tem netos e ainda arruma tempo para namorar o diretor Aderbal Freire-Filho.

Agora ela vem ao Recife no próximo fim de semana para apresentar a divertida montagem As centenárias, um texto que o pernambucano Newton Moreno escreveu especialmente para Marieta e Andréa. São duas carpideiras – aquelas mulheres que antigamente eram chamadas quando alguém morria, para “chorar o defunto”. Socorro e Zaninha convivem com a morte, mas fogem dela como diabo da cruz. No meio de muitos causos, encontram até com Lampião. A peça ainda tem no elenco Sávio Moll e a direção é de Freire-Filho.

Na conversa por telefone, Marieta fala muito sobre As centenárias, sobre o trabalho no Teatro Poeira, não encontra defeitos em Andrea Beltrão, cita Jô Bilac como um novo dramartugo especial. E revela como consegue arrumar tempo para fazer tudo e sempre muito bem.

Marieta Severo e Andréa Beltrão em As centenárias

Entrevista // Marieta Severo

Vocês estavam em dívida com Pernambuco. A peça é do Newton Moreno, tem um contexto regional, mas ainda não tinha dado certo trazer ao Recife?
A gente está muito feliz em levar, como a gente chama, “As veinhas”, ao Recife. O Newton como pernambucano, bebeu na cultura nordestina, isso está muito arraigado à peça. Usamos, por exemplo, bonecos que são manipulados. Fazer a peça aí tem um significado muito especial. Estreamos em 2007, ficamos dois anos no Rio, quatro meses em São Paulo, já fizemos outras oito cidades e estamos chegando aí agora.

Embora a montagem seja uma comédia, ela trata de assuntos bem sérios e tem momentos em que fala, por exemplo de solidão. O que você diria do texto?
Eu acho que isso é um pano de fundo. O assunto principal é a morte, elas estão fugindo da Dona Morte, que quer pegar o filho de uma delas. Então elas estão o tempo todo neste embate. Mas isso é feito com muitos signos e com a cultura popular nordestina que é debochada, irônica. E vejo que a esperança é colocada em cena. Elas lidam com a morte, já que são carpideiras, rezadeiras, são chamadas para chorar os mortos e a peça vai falando desses causos. É uma história divertida, engraçada, mas sim, como você disse, com muitos ingredientes: a fome, a solidão, a bravura dessas mulheres. Mas os causos são muitos bons. O homem que diz que a mulher era uma “quenga” e quer que no velório riam dela, o Lampião que não chora há muitos anos.

E como Aderbal Freire-Filho trabalhou com esse texto?
Ele abrigou toda essa história num cenário circense. É como se fossem três palhaços contando essa história através dos bonecos. Nós contracenamos com os nossos próprios personagens como fantoches. Então é uma riqueza de elementos muito grande e o Aderbal articulou isso.

E o Sávio Moll, que também está no elenco? Faz os papeis secundários?
É. Ele faz todos esses papeis e a Dona Morte. Mas nós também fazemos outros papeis. A Andréa faz o coronel que quer que riam da mulher dele, eu faço o Lampião. É tudo muito coreografado, muito marcado, o Aderbal conseguiu uma precisão nessa coreografia que é muito interessante.

Esse texto foi um pedido de vocês ao Newton. Houve alguma recomendação?
A gente encomendou esse texto a ele dizendo que não queríamos um texto em que fôssemos família. Tínhamos feito Sonata de outono. E ele veio com essa possibilidade dessas mulheres que atravessam o tempo. E também mostram na cena a modernidade, em cenas como quando a luz elétrica chega ao Sertão, elas se deparando com um rádio… Também tem o fator de que como o Newton está muito acostumado ao trabalho em grupo, ele troca muito com o ator, com o diretor, mudava o texto, de acordo com as necessidades. A gente ligava, falava pra ele, ele vinha. Então conseguimos essa sintonia, organicidade.

Fora o Newton, que autores te instigam hoje? E grupos?
É um momento muito rico da mossa dramaturgia. Temos um Jô Bilac surgindo, por exemplo. E muita gente mais…é porque eu sou péssima de nomes. Quando desligar, vou lembrar de tanta gente. E também temos espetáculos muito interessantes, uma safra nova, forte, criativa. Os Atores de Laura, no Rio de Janeiro, que já tem uma trajetória, mas com uma pesquisa muito forte, uma riqueza. Acabei de ver O idiota, com a Cibele Forjaz, um espetáculo muito rico teatralmente.

Todo mundo pergunta sobre a amizade entre você e a Andrea e eu também tenho que perguntar. Mas vamos tentar mudar…o que te irrita na Andréa?
A Andréa não me irrita. Gosto muito de estar com ela. Criamos muita coisa e vivemos muita coisa. É uma relação contrutiva e criativa, como todas deveriam ser. As duas cresceram muito nesses 20 anos. Uma ajudou a outra, uma colabora com a outra. Ela tem um talento enorme como atriz. É estimulante estar com ela no palco. Jogar com ela em cena, o humor enorme que ela tem.

Vamos falar do “filho” de vocês e agora do “filhote”, que são os teatros. Como foi isso?
O Poeira tem seis anos e o Poerinha tem seis meses. Dá muito trabalho, muita despesa e um prazer enorme que segura esses dois outros lados. Temos o patrocínio da Petrobras para a programação, para fazer oficinas, para os artistas residentes, workshops, temos uma programação intensa e temos muito orgulho porque muitos trabalhos surgiram através daqui, com pesquisa, e isso é bancado. Mas o teatro em si é bancado por nós. Os dois teatros foram construídos por nós e mantidos por nós. Porque muita gente fala, mas a Lei Rouanet é muito rigorosa. Você não pode comprar nada, adquirir nenhum bem fixo. Então tudo o que é fixo, fomos nós.

Mas vocês tem lucro?
Não, minha filha! Não temos lucro. Temos um prejuízo financeiro.

Queria falar um pouco de política, do Ministério da Cultura, a sua opinião…
Não queria falar disso. Está caminhando tudo bem. Não tem nada especial para comentar.

Mas é mais fácil fazer teatro hoje?
Através da Lei Rouanet que possibilitou muitos e muitos espetáculos, vários e vários que não conseguiriam sem a lei. Mas temos a dificuldade que é manter um espetáculo. Tem uma coisa muito estranha. Hoje você não vive da bilheteria de um espetáculo. Quando o patrocínio acabou, acabou a peça. Tem que repensar.

Por conta da meia-entrada?
É basicamente a meia-entrada. E as produções foram ficando mais caras, são meandros, questões da própria lei. Não é detonar a lei, não acho que seja o caso.

E a televisão? Você não acha que a Nenê é muito retrógrada?
Hoje em dia é muito difícil encontrar uma mulher como a Nenê. Ela é de uma geração que tentou romper padrões, mas ela é tradicional, vive para o lar. E essa realidade ainda existe para muitas mulheres, os valores familiares. Mas sim, é mais difícil. As mulheres estão nas batalhas. O que mais me interessa nela é o que ela representa, a mãe, os valores familiares, a compreensão até acima das necessidades. É bom falar disso e representar isso.

E como você faz para conciliar tudo na sua vida? Televisão, cinema, teatro, três filhas, netos, dois teatros?
Eu faço isso todos os dias. E sempre foi isso. Também construi uma vida de acordo com as minhas necessidades. Sou muito ligada, ligada a muitas coisas, ao trabalho, ao lazer.

Mas você faz tudo ao mesmo tempo ou consegue tirar férias, por exemplo?
A única coisa que eu consigo preservar são as minhas férias porque eu normalmente vou para o exterior, só por isso. E aqui eu sou organizada, tenho o meu escritório, o Poeira, A grande família, um filme para rodar.

Qual é o filme?
Vendo ou alugo, com direção da Betsy de Paula. É uma comédia muito interessante, que reúne quatro gerações. A Nathália Timberg, que vai fazer minha mãe, a Sílvia Buarque, será minha filha e uma atriz jovem, a Beatriz Morgana, que será filha da Sílvia. Vamos filmar em setembro. Elas tiveram uma vida abastada e agora se juntam para vender uma casa e todas elas são representantes muito fieis das suas gerações.

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As centenárias

Marieta Severo e Andréa Beltrão trazem ao Recife semana que vem a premiada montagem As centenárias, com texto de Newton Moreno. Lembro que conversei com Moreno meses atrás, antes do lançamento do blog, e ele me falava da trajetória dessa peça e do quanto essas duas atrizes, principalmente Andréa, por quem o dramaturgo é especialmente “apaixonado”, conseguiram interprertar essas carpideiras.

Eu ainda não vi a peça, embora tenha estreado em 2007, mas li o livro e me diverti muito com Socorro e Zaninha, que são chamadas para rezar os defuntos da cidade, vivem grudadas com a morte, até porque descobriram que esse seria o melhor jeito de fugir da “indesejada”.

Marieta Severo e Andréa Beltrão interpretam as antigas carpideiras

Zaninha – Eita, fome. Socorro, mulé, eu já tou palestrando com minha barriga. Ela tá falano comigo de tanta fome. Tu ouviu?

Socorro – Quieta! (Pausa.) Zaninha, eu tô com um sentimento que ela está por aqui.

Zaninha – Mas ela nunca aparece, a não ser que seja assunto sério. Da última vez que ela apareceu para nóis, tu te alembra bem o que se assucedeu…Será que ela adescobriu que…?

Socorro (Tapando-lhe a boca.) – Silêncio, Tô que só me arrepio, mulé. Num tem um pelo meu quieto no seu canto.

Zaninha – Eita, Socorro.

Socorro – Eita, Zaninha. Tu já pensou numa coisa, Zaninha?

Zaninha – Pensei em duas: cuscuz e buchada.

Socorro – Eita, mulé, tu num tira comida da cabeça.

Zaninha – Só tiro quando ela chega no bucho.

Socorro – O defunto num morreu, mulé. Ora e entonce dessa vez nóis encontra ela.

Zaninha – Ai, mulé, pior. Ela encontra nóis.

Socorro – Viuge, chegou o dia. Hoje faiou o jeito que nóis achô de num cruzar nossos caminho.

Zaninha – Um encontro medonhamente terrorífico como aquele dois ido de irgulino nunca mais, Socorro. A tinhosa mordida que nem ficô naquele encontro tá cum nóis nos ódio dela.

Socorro – Mas desde aquele dia nóis semo esperta. Ela sai nóis chega. Nóis descobriu o único lugar onde ela num tá.

Zaninha – Num tá pruquê já teve.

Socorro – Isso té os home dotô tem que aprender cum nóis. O lugar mais seguro de fugir dum cabra é ficano do lado dele.

Zaninha – O lugar mais longe é o lugar mais perto.

Socorro – Num qué vê a Morte, vai num velório. A esconjurada já agarrou um freguê, já tá levando ele pros confins, já tá ocupada, vortá traveiz pro mermo lugar ela num vorta.

(Trecho de As Centenárias, de Newton Moreno)

Montagem é uma comédia divertidíssima com texto de Newton Moreno

Serviço:
As centenárias, com Marieta Severo, Andrea Beltrão e Sávio Moll
Quando: sexta e sábado, às 21h e domingo, às 17h
Ingressos: R$ 100 (plateia) e R$ 80 (balcão). Para todos os ingressos há meia-entrada disponíveis. À venda na bilheteria do teatro e nas Lojas Toli do Shopping Recife e do Plaza Casa Forte
Informações: (81) 3207-5757

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