O corpo que dança
até cansar o cansaço
Juliana Linhares no Recife
Por Ivana Moura

Apresentação no Teatro de Santa Isabel, no dia 2 de agosto. Foto: Jessica Mendes / Divulgação

Show integrou programação do Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz. Foto: Jessica Mendes

O corpo cansado que dança é a poética que Juliana Linhares põe em movimento no palco do Teatro de Santa Isabel, lotadíssimo na noite de domingo (02/08). Até Cansar o Cansaço (segundo álbum transformado em espetáculo) parte do estado de exaustão da era da hiperconexão e responde com o que parece contraditório: em vez de repouso, mais corpo, mais presença, mais movimento. A artista potiguar, formada no teatro, faz do palco um campo de forças onde a canção é cena, a voz é gesto, e o cansaço não é o fim; é o ponto de partida.

Artista jovem, sim, mas com trabalho maduro, urdido durante anos em elaboração criativa com profissionais de diferentes campos – do teatro à neurociência, da canção popular à dramaturgia contemporânea. Já se tornou uma das maiores artistas da cena, da música e do teatro surgida nos últimos anos. A moça já ganhou um espaço imenso, mas tem tudo para voar muito mais alto.

Magnetismo e humanidade. Brilhantismo e humildade – qualidades que parecem combinar com Juliana. Há conceito, espessura e paixão na alegria que desperta e compartilha neste espetáculo. É impressionante a presença, a performance, o fascínio; é acalanto e cutucada a arte dessa moça.

No Carnaval deste ano, vi Juliana em ação duas vezes. No palco do Marco Zero, no centro do Recife, como convidada do Maestro Forró e da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, cantando Frevo Mulher, quando levantou a galera já acesa. E na Praça do Arsenal, num espetáculo inédito que reuniu a paraibana Cátia de França, a baiana Josyara e Linhares potiguar; três figuras do Nordeste no palco. O show percorria os mais de 50 anos de carreira de Cátia, além de canções do repertório autoral de Juliana e Josyara. Era um mergulho afetivo e político na trajetória da paraibana; uma artista que atravessa décadas de experimentação e resistência. Juliana brilhou nessas passagens, mas no Santa Isabel seu trabalho se revelou em outra dimensão: com densidade artística, construção cênica e repertório que as participações no Carnaval insinuavam.

O público reconhecia o que via. Quente, empolgado, participante; em grande parte já acompanhava a carreira de Linhares de outros carnavais e do álbum anterior, Nordeste Ficção(2021), que dialoga intimamente com identidades, territorialidades e representação cultural do Nordeste.

Até Cansar o Cansaço estreou recentemente no Rio de Janeiro, em 16 de julho, no Teatro Claro Mais, com recepção entusiástica do público e da crítica. No Recife, a apresentação ocorreu dentro da programação do Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz.

O repertório vibra na inquietude e na fadiga coletiva da era da hiperconexão, forjado no esforço de traduzir o nosso tempo sem desistir. Tem células das pesquisas do neurocientista Sidarta Ribeiro sobre os sonhos e do cruzamento de Juliana com o dramaturgo e encenador Marcio Abreu, da companhia brasileira de teatro; cujo texto Linha da vida ela interpreta no meio do show, afirmando que o sonho, a fé e a vida vivida são as matérias-primas do espetáculo.

Para atravessar tudo isso, ela faz do corpo o centro da cena. Pula. Dança. Faz piruetas. Canta deitada no chão. Desce à plateia, dança com uma espectadora, recita versos, subverte rimas numa movimentação que mistura o articulado dos bonecos de mamulengo, a irreverência dos brincantes de circo, o ritmo dos dançantes contemporâneos. É uma danada essa Juliana! Performática, ela mastiga a política e cospe feito fogo no já citado monólogo de Abreu, que expande, no palco, as narrativas do disco.

Espetáculo de Juliana Linhares empolgou a plateia pernambucana. Foto: Jessica Mendes / Divulgação

Juliana Linhares ganha espaço na cena nacional. Foto: Jessica Mendes / Divulgação

O teatro é o tronco na trajetória de Juliana. Desde os 9 anos no grupo teatral da escola, passando pela formação na faculdade de Artes Cênicas, na UniRio e pela estreia profissional em 1995, ela construiu uma identidade cênica que vibra em cada gesto no palco musical. Do trabalho com a coreógrafa Angel Vianna em O Tempo Não Dá Tempo” (2018), de Duda Maia, que celebrava os 90 anos de Angel, à investigação do corpo em cena na companhia brasileira de teatro, onde assinou a trilha sonora de Sonho Elétrico, de Marcio Abreu e fez participações especiais como atriz. Com João Falcão, atuou em A Ópera do Malandro e Gabriela, um musical. Atualmente está em cartaz com As Centenárias, de Newton Moreno, com canções de Chico César e direção de Luiz Carlos Vasconcelos, ao lado de Laila Garin.

O figurino faz extensão desse corpo talhado no teatro. Concebido em camadas por Jailson Fernandes, vai sendo revelado, transformado, desfeito, como a própria jornada do espetáculo.

O show chega com a faixa-título, Até cansar o cansaço (Juliana Linhares e Jeff Lyrio, 2026), cantada com travesseiro como adereço cênico e olhos que se agigantam para potencializar o sentido dos versos. É a cena-fundação: o corpo que cansa, o canto que resiste, o sonho como ato político.

A sequência, O rabo do jumento (Elino Julião, 1967), está carregada de humor nordestino. Supostamente baseada num fato real (um jumento que invadiu o roçado do vizinho Nascimento, comeu um pé de coentro, e teve o rabo cortado como castigo), a canção expõe a história de um homem que recusa o dinheiro da indenização e exige o impossível: “Eu não quero pagamento, Nascimento / Eu quero é outro rabo no jumento”. Juliana canta como quem conta um causo que ainda dói: há comicidade no absurdo, mas há também o retrato de uma relação de poder; o vizinho brabo que pune, ameaça e depois tenta comprar o silêncio. Riso e soco no mesmo gesto.

Em Conseguiram, parabéns (Manduka), o narrador bate palmas com sarcasmo para quem conseguiu o que ele jamais conseguiria: matar o próprio querer, sublimar a paixão, esquecer. No contexto do show, a música toca o nervo central: o que exaure é o esforço diário de ser quem não se é, de desintegrar no ar as montanhas de paixão para caber no que se espera. Questiona o preço de se encaixar. No palco, Juliana dá voz a quem se recusa a pagar.

Do pernambucano Juliano Holanda, criador de poesia urbana que enreda as relações humanas em imagens de rara densidade, vem Emaranhada (2024). A canção que tece um jogo de fios: “passando dedo por dedo, formando novo quadrado, losango feito de elástico”. A vida é jogo, e os fios que se cruzam nos arriscam: “o risco de amar no mínimo, risco de amar no máximo”.

No baião Vida virada, a artista canta parte da música deitada no palco, de costas para a plateia, com as pernas para cima e a cabeça virada – inversão que subverte a frontalidade do palco e reinventa a relação com quem assiste. Ela quebra convenções e o público segue encantado.

Chama da criança (Juliana Linhares e Demarca, 2024), do álbum Nasci no Brasil (2024) da Pietá (banda que a revelou), se entrelaça ao conceito do espetáculo em número que costura citações de Salve as folhas (Gerônio e Ildásio Tavares, 1989), Vapor barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) e A mulher do fim do mundo (Romulo Fróes e Alice Coutinho, 2015). “Nessa solidão desenfreada / Sigo me apoiando em quem tem fé / E acredito em forças encantadas / Chama da criança que ainda é”. Cada citação traz, em outra pulsação, o que o show inteiro sustenta: que a vida insiste.

E A palo seco (Belchior, 1973) traz um momento arrebatador do show: um chute coreográfico no ar corta o verso “Eu quero é que esse canto torto / Feito faca, corte a carne de vocês”. Sob ecos e reverbs que seguram a voz depois do último fôlego, ela fala em democracia e liberdade. Escrita em 1973, sob ditadura, a canção chega inteira a 2026: a provocação do corte na carne continua.

Cantando na plateia. Foto: Ivana Moura

“Maravilhosa!” soltou uma voz da plateia. Ao longo do show vieram outras – elogios, exclamações, devoções, saudações – até uma “Perfeita!” O que se vive no Teatro de Santa Isabel é um estado de entusiasmo, de comunhão coletiva. Não por acaso: o trabalho de Juliana Linhares é maduro, provocador, redondo, contagiante, ao mesmo tempo crítico e de bem com a vida. Arrebata o público e gera uma energia que é o reconhecimento partilhado de que algo está acontecendo com todos, ao mesmo tempo, na mesma sala. O consenso, aqui, não é problema; é fenômeno.

Tesoura do desejo (Alceu Valença, 1991) (no arranjo de Elísio Freitas, com a sanfona de Paloma Ronai) marca o momento em que Juliana desce do palco e canta no corredor do Santa Isabel, no meio da plateia pernambucana, bastante aplaudida. É a magia que se forma entre a artista, a banda e um público amante da arte de Linhares. Ela emenda com Balanceiro (Juliana Linhares, Khrystal, Moyseis Marques e Sami Tarik, 2021). E canta “Eu não posso mudar o mundo, mas eu balanço”; dança com uma espectadora, avisa que o corredor está liberado, e alguns se animam para dançar.

Ao lado dessa arquitetura cênica, uma banda precisa. A direção musical é do multi-instrumentista Elísio Freitas, arranjador do show e guitarrista da banda formada por Julia Rodrigues (bateria), Lucas Videla (percussão), Paloma Ronai (sanfona) e Nathanne Rodrigues (baixo). A sanfona de Paloma Ronai e a guitarra de Elísio Freitas entram numa conversa com os outros instrumentos em texturas que vão do baião ao rock, do frevo à balada, sem nunca perder o suingue nem o chamego sobre o que é ser nordestino. Teve também a participação de Helder Vasconcelos, que desenvolveu uma coreografia solo, e Linhares saudou as muitas parcerias com artistas pernambucanos.

A luz do espetáculo esculpe zonas de sombra e fulgor que acompanham os deslocamentos de Juliana pelo palco, potencializando o encontro entre o que se canta e o que se dança, entre a artista e a plateia.

No encerramento, Juliana fala emocionada. Cita o líder indígena e pensador Ailton Krenak: “a gente não pode perder a capacidade e a habilidade de sonhar, porque só sonhando a gente pode reinventar a vida”. Lembra de Angel Vianna, que lhe ensinou que podia se chamar de bailarina. Evoca Ariane Mnouchkine, diretora francesa do Théâtre du Soleil: “o teatro é o lugar onde os mortos veem os vivos”. Agradece ao neurocientista Sidarta Ribeiro, cujas pesquisas sobre os sonhos atravessam o espetáculo desde a primeira cena. E sintetiza: “eu sou o corpo. E através dele a gente pode tudo”. Diz que estava muito nervosa para o show e que preparou o seu melhor: “Espero que vocês saiam daqui um pouco menos cansadas, um pouco mais vivas e conectadas. E eu agradeço imensamente por sonhar acordada por causa de vocês.”

O público não arredava o pé e Juliana não economizava o verso. O espetáculo se prolongou depois do anúncio do fim. Ainda rendeu Tareco e mariola(Petrúcio Amorim, 1995) e outras canções tocadas no bis. Juliana Linhares está ocupando um território que conquistou e nele fincando a bandeira de uma artista que não pede licença para ser grande.

  • Ivana Moura é artista-pesquisadora, jornalista, dramaturga e crítica das artes vivas. Doutora em artes cênicas pela USP (Universidade de São Paulo). Idealizadora, editora e crítica na plataforma Satisfeita, Yolanda?. Foi editora e repórter no Diario de Pernambuco. Integrante da seção brasileira da IATC/AICT (Associação Internacional de Críticos de Teatro).
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