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O palco entre o permitido
e o proibido: os anos 1960
do teatro no Recife
Livro de Leidson Ferraz
Por Ivana Moura

Pesquisa de Leidson Ferraz, com incentivo do Funcultura, reconstrói uma década em que o strip-tease convivia com a censura, a crítica arrasava peças sem pudor e o picante fazia a sua própria política. Foto: Fábio Anjos

Toda Donzela Tem um Pai Que é Uma Fera, 1964, com Barreto Júnior no papel de Porfírio, um velho conquistador, falso celibatário, que procura os amores de uma jovem, foi apresentado no Teatro de Santa Isabel, Foto: Acervo Projeto Memórias da Cena Pernambucana 

Teatro Marrocos, com Luiz Lima. Foto: Divulgação

O Recife que entrou em 1960 era uma cidade em plena inauguração de si mesma. Em 1º de janeiro, Miguel Arraes tomava posse na Prefeitura; em abril, nascia Brasília; em maio, numa sexta-feira 13, abria na Avenida Conde da Boa Vista, nº 629, o primeiro Teatro de Arena do Nordeste, o terceiro do país, com ar-condicionado Westinghouse e reserva de cadeiras por telefone, luxos para a época. Em junho, a televisão chegava primeiro pelo Canal 6 da Rádio Clube, dias depois pelo Canal 2 do Jornal do Commercio, pronta para disputar com o palco atores, técnicos e plateias. E na Praça da República, a poucos passos do Palácio do Campo das Princesas, sede do governo estadual, e do Teatro de Santa Isabel, o Teatro Marrocos anunciava “muita pimenta, pouca roupa e muito humor”. O Marrocos, porém, não nascera ali: criado em 1954 pelo humorista Barreto Júnior como um barracão de madeira de 400 lugares na Avenida Dantas Barreto, fora derrubado em 1958 para o alargamento da via e reconstruído na Praça da República, onde se tornara no período, talvez, o único teatro de strip-tease do Brasil, com os ingressos mais caros nas primeiras filas, o “gargarejo”, de onde se via de perto as vedetes.

É esse território que o jornalista e pesquisador Leidson Ferraz, doutor em Artes Cênicas pela UNIRIO e atualmente em pós-doutorado na UFSJ, reconstitui ano a ano no livro Do Picante à Política: o teatro no Recife dos anos 1960, mergulhando em milhares de jornais, periódicos, fotografias raras e programas de espetáculo. A pesquisa começou em 2024 e levou mais de dois anos. O que o autor mais insiste em destacar é a pluralidade da cena teatral no Recife: “A gente sempre teve uma diversidade enorme de produções”, diz, ao recusar a ideia de que essa variedade seria uma marca exclusiva dos anos 1960.

O que a década teve de específico, segundo o Leidson, foi uma dualidade: a convivência entre o que podia e o que não podia chegar ao palco. “Eu cito vários textos que não puderam vir à cena, e ao mesmo tempo toda a polêmica com esse teatro picante, esse teatro rebolado. Se pensar na ideia de espírito do tempo, fica como um espírito contraditório”. O livro documenta essa contradição em casos concretos. Um Santo Homem, texto de Otto Prado, ficou proibido de 1968 a 1972, apesar de sucessivos recursos. Aconteceu em Paris, espetáculo levado por Hamilton Fernandes, esperou meses pelo parecer da censura já centralizada em Brasília. Em 1963, O Homem dos Chifres de Ouro, comédia apimentada de Ítalo Cúrcio, empresário carioca que levava suas companhias ao Marrocos, saiu da mão do censor rebatizada O Homem da “Testa” de Ouro. No fim da década, em 1969, De Bocage a Nelson Rodrigues, espetáculo erótico do grupo carioca Mini-Teatro da Guanabara, provocou escândalo moral a ponto de o vereador Wandenkolk Wanderley tentar censurá-lo, em meio a debate sobre seus méritos artísticos.

Antes de chegarmos ao fim da década, porém, vale voltar a um dos momentos em que o palco respondeu à censura com mais firmeza. Em outubro de 1961, o Teatro de Arena de São Paulo trouxe ao Santa Isabel Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, com direção de José Renato e figurinos de Ded Bourbonnais. A peça chegava premiada pela Comissão de Teatro de São Paulo, recomendada pela Ação Católica Nacional, depois de cinco meses de temporada no Rio e seis em São Paulo. Para o Recife, a previsão era modesta: cinco dias e seis récitas, com patrocínio das Lojas Paulistas, da Loide Aéreo e do Hotel São Domingos, e entradas populares.

A pré-estreia, na tarde de 26 de outubro, foi dedicada aos estudantes da Universidade do Recife. Mas o chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas de Pernambuco, Olímpio Mendonça, já havia determinado que a palavra “revolução” fosse substituída por “movimento” em todo o texto, inclusive no título, por considerá-la “altamente subversiva”. Ao conferir a primeira sessão, com 659 pessoas na plateia, e ver que suas instruções não haviam sido cumpridas, o censor levantou-se da poltrona, caminhou até a ribalta e ameaçou interditar o Santa Isabel e prender a equipe inteira caso a “façanha” se repetisse.

O impasse terminou na política. O prefeito em exercício, Artur Lima Cavalcanti, tranquilizou os artistas; e o vice-governador Pelópidas Silveira entrou no teatro na noite seguinte, enquanto o censor mantinha treze páginas de cortes e a classificação para maiores de 18. A conversa foi curta: Pelópidas pediu que deixassem o caso com ele, a obra seria apresentada. Submisso, Mendonça declarou encerrada a sua missão. A União Brasileira de Escritores, seção Pernambuco, ainda mandaria telegrama ao governador Cid Sampaio, falando em “censura mais descabida”. O desfecho: a Prefeitura ampliou a temporada em mais sete récitas, e 5.221 pessoas viram a peça, numa recepção que Medeiros Cavalcanti resumiu em “surpresa e entusiasmo” diante de um “texto absolutamente moderno, fluente e empolgante”.

A liberdade conquistada por aquele texto, porém, era a exceção que confirmava a regra: a censura barrava palavras e vigiava corpos. Em 1966. Les Girls em Op-Art, espetáculo carioca de travestis que se tornara referência desde a estreia na boate Stop, no Rio, em 1964, foi expulso do Santa Isabel por decisão do prefeito Augusto Lucena depois de 11 sessões e 9.445 espectadores, caso que o livro trata abertamente como homofobia do período. Valdemar de Oliveira, crítico do Jornal do Commercio, comemorou o veto; Adeth Leite e Ângelo de Agostini defenderam o espetáculo. Em 1967, o transformista Mendez, que se apresentava em rádio e casas de espetáculo do Recife, foi eleito Rei Momo do carnaval e teve o mandato cassado por causa da profissão.

O golpe, aliás, já havia produzido a primeira baixa do teatro pernambucano: A Grande Estiagem, tragédia de Isaac Gondim Filho que o conjunto Os Bancários pretendia montar em abril de 1964, foi adiada sem data e depois abortada, porque o Sindicato dos Bancários, sede do grupo, era visto como polo de subversão comunista. A peça, que seria a terceira versão da obra, nunca chegou ao palco. No mesmo 1º de maio de 1964, o teatro picante fazia o caminho oposto: Barreto Júnior, dono do Marrocos, programou uma vesperal em homenagem ao Dia do Trabalho e às novas autoridades, convidando pessoalmente o governador Paulo Guerra, o prefeito Augusto Lucena, o comandante do IV Exército, general Justino Alves Bastos, e os comandantes da 7ª Região Militar, do 3º Distrito Naval e da 8ª Base Aérea. “A lembrança do ator Barreto Júnior em homenagear o Dia do Trabalho e as autoridades constituídas foi recebida com aplausos gerais dos profissionais do teatro no Recife”, registrou Adeth Leite. O picante, sugere a pesquisa, também era um lugar de poder, e de adesão.

A Mandrágora de Maquiavel, segundo trabalho do TPN, apresentado no Teatro do Parque, foi “um retumbante fracasso perseguido até pela Igreja Católica”. Com direção de Hermilo Borba Filho, e com Clênio Wanderley, José Pimentel, Hiran de Lima Pereira, Joel Pontes, Otávio da Rosa Borges, entre outros. Foto: Divulgação

O teatro que se queria moderno também produziu sua maior polêmica. Em 1962, o Teatro Popular do Nordeste (TPN), fundado por Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna, estreou A Bomba da Paz, farsa política escrita e dirigida por Hermilo. O próprio autor a definiu como “uma peça de circunstância, que nasceu de uma raiva pessoal”, de uma desavença com Germano Coelho, então à frente da Secretaria de Cultura e do Movimento de Cultura Popular (MCP). A farsa, que satirizava o comunismo de uma perspectiva cristã e ridicularizava o MCP, foi recebida com críticas majoritariamente negativas, expondo as tensões internas de um grupo que se queria de esquerda, em disputa com irmãos de causa.

A régua da crítica, porém, mudava conforme o alvo. Em 1960, A Mandrágora, de Maquiavel, comédia renascentista sobre adultério e engano, foi atacada como “imoral”; Medeiros Cavalcanti chegou a compará-la, em desvantagem, às comédias populares de Procópio Ferreira. Seis anos depois, o mesmo grupo, com O Inspetor, adaptação de Gógol dirigida por Hermilo, seria celebrado como o mais importante espetáculo de um grupo local em cinco anos, com 81 apresentações. A crítica que condenara o clássico do adultério coroou a sátira à corrupção.

A crítica feita ao Teatro Novo do Recife em sua estreia foi, segundo Leidson Ferraz, uma das mais violentas da década. A casa abriu as portas na noite de 4 de outubro de 1968, num casarão da Avenida Rui Barbosa, no bairro das Graças, que até pouco antes servira de residência ao arcebispo. Dom Hélder Câmara, no exercício do cargo, havia acabado de trocar o aristocrático imóvel pela sacristia da Igreja das Fronteiras, e o prédio anexo ao Palácio dos Manguinhos virou sala de 80 lugares, com estacionamento privativo, bancada pelo monsenhor Marcelo Carvalheira, pela socialite Helena Pessoa de Queiroz e até pelo prefeito Augusto Lucena. À frente do grupo, homônimo da casa, estava o ator e diretor Marcus Siqueira.

Para a inauguração, a aposta foi O Doente Imaginário, de Molière, com Clênio Wanderley, convidado, no papel do hipocondríaco Argan, e figurinos doados pelo estilista Marcílio Campos. A direção coube ao francês Jean Claude Tabet, e a proposta declarada era desmistificar o clássico, sublinhando o popularesco sem trair o autor. A peça ficou em cartaz até 10 de novembro, atraindo bom público e personalidades.

A reação nos jornais foi marcante. Ângelo de Agostini, no Diário da Manhã de 4 de novembro, arrasou o espetáculo, chamando-o de “amontoado inteiramente fragmentado de cenas e sequências da pior categoria possível” e ironizando a pretensão de modernidade que, na sua leitura, não passava de bagunça. O crítico também não perdoou Marcus Siqueira pela contracapa do programa, em que o ator e diretor definia Molière como “de mau gosto, grosseiro, vulgar, chanchadeiro, mas antes de tudo, a obra de um gênio”, contradição que Agostini tratou como sintoma do equívoco geral. Valdemar de Oliveira, no Jornal do Commercio de 13 de novembro, foi na mesma direção, apontando “astigmatismo de direção” e um estilo “anti-Molière”. Quando um espectador escreveu a Agostini lamentando a violência da crítica, o jornalista não recuou: “Não sabemos mentir, nem tirar de uma cartola mágica palavras de aplausos que não refletem a verdade”.

 O Noviço, comédia de Martins Penna, com direção de Alfredo de Oliveira, do Teatro de Arena em 1961. No elenco, Yara Lins, Margarida Cardoso, José Pimentel, Paulo Ribeiro, Belarosa Azolino, Octávio Catanho, Barbosa Santos, Edmilson Catunda e o garoto Bianor de Oliveira. Foto: Divulgação

O Burguês Fidalgo, com Paulo Autran como protagonista e produtor, Isolda Cresta e elenco grande, cumpriu temporada entre novembro e dezembro de 1968, no Teatro de Santa Isabel.  Foto: Divulgação

I Festival de Teatro do Nordeste, ocorreu em 1969, no Santa Isabel, promovido pelo TUP. Foto: Divulgação

Os últimos anos da década trouxeram o fechamento de palcos. O Santa Isabel, que em 1963 deixara de exigir paletó do público, fechou para obras; o Teatro do Parque também; o Marrocos virou “Novo Marrocos” e seria demolido em fevereiro de 1973. O epílogo do livro registra ainda o fechamento do TPN, do Teatro Novo do Recife e do Teatro da AIP. Sob o AI-5, com as plateias minguando, o Recife recebeu em setembro de 1969 a remontagem de Morte e Vida Severina, o poema de João Cabral de Melo Neto musicado por Chico Buarque, dirigida por Silnei Siqueira, o mesmo encenador da versão histórica de 1965. Era a quarta temporada nacional da Companhia Paulo Autran, que já circulava com Liberdade, Liberdade, Édipo-Rei e O Burguês Fidalgo; Paulo Autran vivia o Mestre Carpina, e Carlos Miranda, o Severino, papel que já fizera na primeira montagem da obra, em 1958. A equipe ficou hospedada no Grande Hotel, com apoio do governo do estado, e a renda da primeira apresentação foi destinada às crianças do Juizado de Menores. No mesmo ano, a cidade sediou a única edição do I Festival de Teatro do Nordeste, de 29 de julho a 3 de agosto, no Santa Isabel, promovido pelo TUP. O evento foi repleto de atropelos: convidados do Rio e de Alagoas não vieram, palestras foram canceladas, e apenas cinco grupos se apresentaram, entre eles a Comédia Cearense e o TEA de Caruaru, com Feira de Caruaru, primeiro grande sucesso de Vital Santos. Não havia prêmios, apenas troféus de participação.

Curiosidades não faltam pelo caminho desse livro que já é uma referência sobre teatro no Recife na década de 1960, com mais de 600 páginas. O pernambucano Aguinaldo Silva, então com 20 anos, jornalista e cofundador do Teatro de Equipe de Pernambuco, teve a primeira peça, O Estranho Caso do Homem Que Gostava de Mulher, montada pelo grupo em outubro de 1963, com direção de Clênio Wanderley; apesar da forte publicidade, foi um fracasso comercial. Ele se tornaria, décadas depois, um dos autores mais conhecidos da teledramaturgia brasileira. Em 1960, Procópio Ferreira fizera longa temporada no Marrocos com comédias ligeiras como Essa Mulher é Minha e A Família do Antunes.

A capa de Do Picante à Política resume a aposta do livro: em cima, o glamour do teatro de revista, personificado pela modelo Daise Alves, cuja foto foi gentilmente liberada pelo site Universo Retrô; embaixo, os porões da Ditadura. Com design de Claudio Lira, a publicação estará disponível para download gratuito no site www.leidsonferraz.com.br a partir da noite do lançamento, na quarta-feira (26 de agosto), às 19h, no Teatro Arraial Ariano Suassuna (rua da Aurora, 457, Boa Vista), com entrada franca e projeção de imagens raras do processo de pesquisa.

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Quando teatro era resistência

Paulo José. Foto: Pollyanna Diniz

Paulo José. Foto: Pollyanna Diniz

Foram duas horas de conversa. Não lembro exatamente qual era o teatro em Curitiba, mas ficava afastado do Centro. Fui ver Murro em ponta de faca e pedi uma entrevista. Gentil, ele disse que me atenderia na tarde do dia seguinte, antes da nova sessão do espetáculo.

Paulo José faz parte da história do teatro brasileiro – e, definitivamente, essa não é só uma frase de efeito. Ele, Augusto Boal, Vianinha, José Renato Pécora, Gianfrancesco Guarnieri. Um tempo em que o teatro era, muito mais do que hoje, atividade de resistência. O que o Arena, o Centro Popular de Cultura (CPC) queriam era, além de levar ao palco a realidade dos trabalhadores, da exploração, do capitalismo, discutir sobre os processos históricos que determinavam essa realidade, sem que isso significasse um teatro chato – muito pelo contrário.

Como Murro em ponta de faca, peça que tem direção de Paulo José, faz curta temporada no Centro Cultural da Caixa desta quarta-feira (6) até o próximo sábado, resolvi resgatar essa entrevista com o ator, diretor e dramaturgo, realizada em 2011, no Festival de Curitiba.

Entrevista // Paulo José

Qual a diferença de dirigir Murro em ponta de faca em 1978 e em 2011?
Esta versão agora nos dá a possibilidade de mergulhar no personagem. Naquele momento, tudo tinha acontecido. Era muito mais ebulição do que razão. Hoje a peça intriga, provoca, dá vontade de conhecer mais da época. É saber o princípio, a origem desse mal. Na época, o sucesso dela, o encontro dela com o público, era natural por causa das circunstâncias, da luta pela anistia, da campanha Tortura nunca mais. Não precisava nenhuma teatralidade especial. Poderia ser quase uma leitura. Agora é mais profundo, estamos menos presos à superfície, ao aparente. E são muitas as referências a coisas que aconteceram naquela época, que não necessariamente as pessoas sabem hoje. Há uma referência clara, por exemplo, ao chileno Víctor Jara (professor, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, músico e ativista), que teve as mãos cortadas. É cheio de referências também ao Marighella (Carlos). Apesar de que, no Brasil, a ditadura foi menos dura do que na Argentina e no Chile. Os militares aqui tinham origem de classe média, classe média baixa. Em muitas situações, eles se encontravam tendo que reprimir a própria família. Diferente do exército argentino, que tinham inimigos de raízes. Aqui, os militares se viam às voltas com parentes presos, tendo que resolver “pepinos” familiares.

É a segunda vez que Paulo José dirige texto de Boal

É a segunda vez que Paulo José dirige texto de Boal

Como você enfrentou a ditadura. Mesmo não tendo sido exilado, teve essa sensação aqui mesmo?
Claro! Eu era do Teatro de Arena. E a peça que estava em cartaz na época do golpe era O filho cão. Era do Guarineiri (Gianfrancesco) e eu dirigia e atuava. A polícia foi lá para fechar o teatro. Mas nós escapamos todos. Guarnieiri e o Juca de Oliveira foram para Bolívia. Augusto Boal foi para uma fazenda. Fiquei na casa de Cacilda Becker, que morava numa cobertura, esquina com a Avenida Paulista. Fiquei lá um mês. Depois de 15 dias na Bolívia, o Guarnieri e o Juca decidiram voltar. Disseram que preferiam morrer. Depois disso, o Boal foi preso, torturado. Éramos privados da liberdade de ir e vir, de todos os bens, de qualquer conforto que o dinheiro pudesse dar, dos teus discos, filmes, instrumentos musicais. Esse sentimento não tem idade. E hoje as pessoas, noutra situação, também são desprovidas de tudo. Mas naquela época, essas pessoas iam para a Sérvia, para a Croácia. Ficavam sem dinheiro, precisavam da família no Brasil. Mas mandar dinheiro também não era fácil. Então, às vezes, era fome, necessidade mesmo. Era uma indignação, uma vergonha, a gente ser tutelado por imbecis. Apresentar uma peça para a censura, para que eles dessem o parecer. Pessoas desqualificadas, ignorantes. Às vezes a gente colocava, por exemplo, um palavrão na peça, só para poder negociar. Porque eles iam implicar com aquilo e deixavam outras coisas passar. Os policiais entravam na tua casa. Os livros perigosos ficam no fundo falso do guarda-roupa. Lembro de perguntarem que eram Aristófanes.

O Boal chegou a ver a peça sendo encenada? Qual a importância dele para o nosso teatro?
O Boal escreveu no exílio. E quando voltou em 1983, acho (na realidade, 1986), a peça já tinha sido encenada. O Boal era devotado ao teatro. Enquanto nós éramos “adúlteros”, namorávamos o cinema, a tv, ele era fiel. Quem sustentou o Arena foi o Boal, por mais de dez anos. Nós íamos para o TBC, para o Oficina. Mas o Boal estava no Arena.

Falando nisso, atuar na televisão, cinema ou teatro é a mesma coisa?
São formas diferentes de trabalhar, mas não há dificuldade. Tenho preferência por cinema e teatro. A televisão é redundante, não é muito inovador. A comunicação é horizontal. Se todo mundo tem que entender, o foco é menor. No teatro, se uma pessoa entender, tudo bem. A programação da televisão também tende a ter um discurso homogêneo, desde a manhã ate a hora que acaba. E o meio se transforma na própria mensagem.

A música é importante? Neste trabalho, o senhor está “brincando” no teclado…
Sempre trabalho com música. Gosto muito, por exemplo, do trabalho do Galpão, porque é muito musical, porque todos tocam. Gosto muito do teclado, mas eu não toco mesmo, por causa do Parkinson. Até para escrever no computador é difícil. Quero digitar uma tecla e vou para outra.

Como foi a descoberta de que tinha a doença e lidar com isso?
Foi em 1992. Uma doença degenerativa, progressiva e irreversível. Foi o que me disse o médico. Ele estava lá, receitando o remédio e eu perguntei “por quanto tempo vou tomar?”. “Durante toda a vida”, ele me disse. E aí, olhando para ele, um homem quase careca, perdendo o cabelo, descobri que ele também tinha o Parkinson dele: o envelhecimento. Que é progressivo, irreversível, degenerativo. A diferença é que eu tinha a certeza que ia morrer e ele não. Como se fosse eterno. Você passa a ter limitações, mas você descobre outras coisas, a introspecção, a concentração. Passei a escrever bem. A minha acuidade musical aumentou. Os meus sentidos foram aguçados. Cada um tem o seu Parkinson. E eu tenho 74 anos, já estou fora da garantia. É só manutenção, não troca mais peça nenhuma.

Mas quais são os cuidados?
Remédios. E hoje faço aula de voz, ginástica, hidroginástica.

Você já fazia ginástica?
Não! Ginástica faz mal! (Risos) Queima! Nunca fiz. Fazia exercício, mas tinha que ser prático, com bola, ou andar a cavalo.

Tem medo da morte?
Não tenho medo. Mas você tem que se preparar bem. As pessoas morrem mal porque não se preparam. São surpreendidas. Estou procurando deixar um testemunho pessoal das coisas que fiz. Estou passando a limpos coisas que escrevi para publicar. Cadernos de direção, de cinema. Dei aula de cinema em Cuba, por exemplo. Na Globo, dei aula para diretores e atores.

Nas duas últimas peças em que você esteve envolvido, você trabalhou com as suas filhas (Um navio no espaço ou Ana Cristina César e Histórias de amor líquido). É diferente? E o seu trabalho de direção também tem sido diferente com o tempo?
Acho que não…Cada peça tem suas exigências, necessidades. Mas a diferença que é estou ficando calmo, sossegado, não fico sofrendo. Até porque percebi que é só uma peça de teatro, tem limites previamente estabelecidos. Então fico mais calmo, tranqüilo. O que me interessa no teatro são as relações humanas, é ajudar a desenvolver potencialidades nos outros. E as pessoas me ouvem, me respeitam. Então me aproveito disso. Eu “chupo” o sangue destes atores jovens, a energia deles para mim.

Vamos falar de televisão. Como é o próximo papel?
É nessa novela nova..Morde e assopra. Entro e fico até o fim da novela. Representa o amor na terceira idade. É o Plínio. Ele volta para a cidadezinha onde tinha deixado a namorada. Gosto de trabalhar como ator. Tenho contrato com a Globo desde 1969. Então tenho que fazer algo de vez em quando. Faço a novela..aí passo mais algum tempo fazendo teatro e cinema.

Falando em cinema…o que o senhor acha da produção pernambucana?
Ah…o Cláudio Assis, o Lírio Ferreira, já estão consagrados, sabem fazer. Cláudio Assis é um louco! Aspirinas e urubus é um filme muito bom. Tem baianos também muito bons no cinema. Meu próximo papel é no filme Palhaço, de Selton Mello, que deve ser lançado em maio. É um filme autoral, que o Selton escreveu, produziu. Temos uma safra muito boa.

E deixa eu perguntar…o que o senhor acha da ministra Ana de Hollanda?
A linhagem é boa…é filha de Sérgio Buarque, de uma família que tem respeito pela cultura. Mas está apenas começando…Mesmo o governo da Dilma ainda é muito cedo. Já percebemos que ela tem diferenças de Lula, mas ainda é cedo…

Uma pergunta clássica: algum papel que gostaria de fazer e ainda não teve oportunidade?
Tem personagens da literatura, personagens reais, que a gente gosta. Mas eu não estou sofrendo com isso. Tenho tanta coisa para fazer sempre!

E vai fazer teatro até quando?
Até morrer!

Não existe aposentadoria para o teatro?
Não existe! Até porque, no teatro, tem papel para todo mundo, independentemente da idade. Aos 90, ainda terão papeis que são ideais pra mim.

Montagem faz curta temporada no Recife

Montagem faz curta temporada no Recife

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O senhor do teatro

Paulo José. Fotos: Pollyanna Diniz

Quando penso no Paulo José, a minha primeira lembrança é o personagem Orestes, da novela de Manoel Carlos Por amor, de 1997. Era um alcoólatra que fazia a esposa e a filhinha de olhos azuis sofrerem muito. Ele me gerava momentos alternados de raiva e pena. Mas essa referência é bem recente para um ator de 74 anos que dedicou praticamente toda a vida ao teatro, cinema e televisão.

Ao encarar a pergunta sobre o personagem mais marcante, ele me diz que foi a “Xuxa da infância de muita gente”. Está se referindo ao seriado da década de 1970 Shazan, Xerife & Cia. Interpretava Shazan e fazia dupla com o ator Flávio Migliaccio.

Hoje, Paulo José continua esbanjando disposição para trabalhar e lucidez, mesmo lutando contra o Mal de Parkinson desde 1992. Está em cena na novela Morde e assopra, no filme Palhaço (que tem direção de Selton Mello e previsão para estrear em maio) e dirigindo, pela segunda vez, a peça Murro em ponta de faca. A primeira vez foi em 1978, quando o amigo e autor do texto, Augusto Boal, falecido em 2009, ainda estava no exílio, vítima da ditadura.

No Festival de Curitiba, ele abriu a sala de ensaios de Murro em ponta de faca ao público. Fui assistir e pedi para marcarmos uma conversa. No dia seguinte, mesmo com chuva, ele chegou ao teatro com duas horas de antecedência, como combinado. Falou sobre a peça, que tem no elenco só atores curitibanos (Gabriel Gorosito, Laura Haddad, Erica Migon, Sidy Correa, Abílio Ramos, Espedito Di Montebranco e Nena Inoue), sobre a carreira, sobre a doença. E me disse que está cada vez mais certo de que “Teatro é teimosia. As pessoas querem fazer. E fazem”.

Entrevista // Paulo José

Qual a diferença de dirigir Murro em ponta de faca em 1978 e em 2011?
Esta versão agora nos dá a possibilidade de mergulhar no personagem. Naquele momento, tudo tinha acontecido. Era muito mais ebulição do que razão. Hoje a peça intriga, provoca, dá vontade de conhecer mais da época. É saber o princípio, a origem desse mal. Na época, o sucesso dela, o encontro dela com o público, era natural por causa das circunstâncias, da luta pela anistia, da campanha Tortura nunca mais. Não precisava nenhuma teatralidade especial. Poderia ser quase uma leitura. Agora é mais profundo, estamos menos presos à superfície, ao aparente. E são muitas as referências a coisas que aconteceram naquela época, que não necessariamente as pessoas sabem hoje. Há uma referência clara, por exemplo, ao chileno Víctor Jara (professor, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, músico e ativista), que teve as mãos cortadas. É cheio de referências também ao Marighella (Carlos). Apesar de que, no Brasil, a ditadura foi menos dura do que na Argentina e no Chile. Os militares aqui tinham origem de classe média, classe média baixa. Em muitas situações, eles se encontravam tendo que reprimir a própria família. Diferente do exército argentino, que tinham inimigos de raízes. Aqui, os militares se viam às voltas com parentes presos, tendo que resolver “pepinos” familiares.

Paulo José dirige Murro em ponta de faca pela segunda vez

Como você enfrentou a ditadura. Mesmo não tendo sido exilado, teve essa sensação aqui mesmo?
Claro! Eu era do Teatro de Arena. E a peça que estava em cartaz na época do golpe era O filho cão. Era do Guarineiri (Gianfrancesco) e eu dirigia e atuava. A polícia foi lá para fechar o teatro. Mas nós escapamos todos. Guarnieiri e o Juca de Oliveira foram para Bolívia. Augusto Boal foi para uma fazenda. Fiquei na casa de Cacilda Becker, que morava numa cobertura, esquina com a Avenida Paulista. Fiquei lá um mês. Depois de 15 dias na Bolívia, o Guarnieri e o Juca decidiram voltar. Disseram que preferiam morrer. Depois disso, o Boal foi preso, torturado. Éramos privados da liberdade de ir e vir, de todos os bens, de qualquer conforto que o dinheiro pudesse dar, dos teus discos, filmes, instrumentos musicais. Esse sentimento não tem idade. E hoje as pessoas, noutra situação, também são desprovidas de tudo. Mas naquela época, essas pessoas iam para a Sérvia, para a Croácia. Ficavam sem dinheiro, precisavam da família no Brasil. Mas mandar dinheiro também não era fácil. Então, às vezes, era fome, necessidade mesmo. É uma indignação, uma vergonha, a gente ser tutelado por imbecis. Apresentar uma peça para a censura, para que eles dessem o parecer. Pessoas desqualificadas, ignorantes. Às vezes a gente colocava, por exemplo, um palavrão na peça, só para poder negociar. Porque eles iam implicar com aquilo e deixavam outras coisas passar. Os policiais entravam na tua casa. Os livros perigosos ficam no fundo falso do guarda-roupa. Lembro de perguntarem que eram Aristófanes.

O Boal chegou a ver a peça sendo encenada? Qual a importância dele para o nosso teatro?
O Boal escreveu no exílio. E quando voltou em 1983, acho (na realidade, 1986), a peça já tinha sido encenada. O Boal era devotado ao teatro. Enquanto nós éramos “adúlteros”, namorávamos o cinema, a tv, ele era fiel. Quem sustentou o Arena foi o Boal, por mais de dez anos. Nós íamos para o TBC, para o Oficina. Mas o Boal estava no Arena.

Falando nisso, atuar na televisão, cinema ou teatro é a mesma coisa?
São formas diferentes de trabalhar, mas não há dificuldade. Tenho preferência por cinema e teatro. A televisão é redundante, não é muito inovador. A comunicação é horizontal. Se todo mundo tem que entender, o foco é menor. No teatro, se uma pessoa entender, tudo bem. A programação da televisão também tende a ter um discurso homogêneo, desde a manhã ate a hora que acaba. E o meio se transforma na própria mensagem.

A música é importante? Neste trabalho, o senhor está “brincando” no teclado…
Sempre trabalho com música. Gosto muito, por exemplo, do trabalho do Galpão, porque é muito musical, porque todos tocam. Gosto muito do teclado, mas eu não toco mesmo, por causa do Parkinson. Até para escrever no computador é difícil. Quero digital uma tecla e vou para outra.

No teclado, no ensaio aberto da peça em Curitiba

Como foi a descoberta de que tinha a doença e lidar com isso?
Foi em 1992. Uma doença degenerativa, progressiva e irreversível. Foi o que me disse o médico. Ele estava lá, receitando o remédio e eu perguntei “por quanto tempo vou tomar?”. “Durante toda a vida”, ele me disse. E aí, olhando para ele, um homem quase careca, perdendo o cabelo, descobri que ele também tinha o Parkinson dele: o envelhecimento. Que é progressivo, irreversível, degenerativo. A diferença é que eu tinha a certeza que ele ia morrer e ele não. Como se fosse eterno. Você passa a ter limitações, mas você descobre outras coisas, a introspecção, a concentração. Passei a escrever bem. A minha acuidade musical aumentou. Os meus sentidos foram aguçados. Cada um tem o seu Parkinson. E eu tenho 74 anos, já estou fora da garantia. É só manutenção, não troca mais peça nenhuma.

Mas quais são os cuidados?
Remédios. E hoje faço aula de voz, ginástica, hidroginástica.

Você já fazia ginástica?
Não! Ginástica faz mal! (Risos) Queima! Nunca fiz. Fazia exercício, mas tinha que ser prático, com bola, ou andar a cavalo.

Tem medo da morte?
Não tenho medo. Mas você tem que se preparar bem. As pessoas morrem mal porque não se preparam. São surpreendidas. Estou procurando deixar um testemunho pessoal das coisas que fiz. Estou passando a limpos coisas que escrevi para publicar. Cadernos de direção, de cinema. Dei aula de cinema em Cuba, por exemplo. Na Globo, dei aula para diretores e atores.

Nas duas últimas peças em que você esteve envolvido, você trabalhou com as suas filhas (Um navio no espaço ou Ana Cristina César e Histórias de amor líquido). É diferente? E o seu trabalho de direção também tem sido diferente com o tempo?
Acho que não…Cada peça tem suas exigências, necessidades. Mas a diferença que é estou ficando calmo, sossegado, não fico sofrendo. Até porque percebi que é só uma peça de teatro, tem limites previamente estabelecidos. Então fico mais calmo, tranqüilo. O que me interessa no teatro são as relações humanas, é ajudar a desenvolver potencialidades nos outros. E as pessoas me ouvem, me respeitam. Então me aproveito disso. Eu “chupo” o sangue destes atores jovens, a energia deles para mim.

Vamos falar de televisão. Como é o próximo papel?
É nessa novela nova..Morde e assopra. Entro e fico até o fim da novela. Representa o amor na terceira idade. É o Plínio. Ele volta para a cidadezinha onde tinha deixado a namorada. Gosto de trabalhar como ator. Tenho contrato com a Globo desde 1969. Então tenho que fazer algo de vez em quando. Faço a novela..aí passo mais algum tempo fazendo teatro e cinema.

Falando em cinema…o que o senhor acha da produção pernambucana?
Ah…o Cláudio Assis, o Lírio Ferreira, já estão consagrados, sabem fazer. Cláudio Assis é um louco! Aspirinas e urubus é um filme muito bom. Tem baianos também muito bons no cinema. Meu próximo papel é no filme Palhaço, de Selton Mello, que deve ser lançado em maio. É um filme autoral, que o Selton escreveu, produziu. Temos uma safra muito boa.

E deixa eu perguntar…o que o senhor acha da ministra Ana de Hollanda?
A linhagem é boa…é filha de Sérgio Buarque, de uma família que tem respeito pela cultura. Mas está apenas começando…Mesmo o governo da Dilma ainda é muito cedo. Já percebemos que ela tem diferenças de Lula, mas ainda é cedo…

Uma pergunta clássica: algum papel que gostaria de fazer e ainda não teve oportunidade?
Tem personagens da literatura, personagens reais, que a gente gosta. Mas eu não estou sofrendo com isso. Tenho tanta coisa para fazer sempre!

E vai fazer teatro até quando?
Até morrer!

Não existe aposentadoria para o teatro?
Não existe! Até porque, no teatro, tem papel para todo mundo, independentemente da idade. Aos 90, ainda terão papeis que são ideais pra mim.

No papel de diretor

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