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Pelo resgate da dignidade esgarçada

Depois de cinco anos sem estrear espetáculo, retorna aos palcos com Ossos, de Marcelino Freire. Joanna Sultanum

Depois de cinco anos sem estrear espetáculo, Angu de Teatro retorna aos palcos com Ossos. Foto: Joanna Sultanum

A peça Ossos, do Coletivo Angu de Teatro, é a estreia mais aguardada do Recife deste ano; ou pelo menos deste primeiro semestre de 2016. Com texto de Marcelino Freire, adaptado pelo autor do romance Nossos Ossos (Record, 2013) para o dramático, a montagem reafirma a parceria entre o escriba e o grupo teatral, que começou em 2003 com a encenação de Angu de Sangue, passou por Rasif – Mar que arrebenta, e chega a Ossos. O espetáculo dirigido por Marcondes Lima inicia temporada neste sábado, dia 11 de junho, no Teatro Apolo e segue até 26 de junho, com sessões nas sextas, às 20h, nos sábados, às 18h e 21h, e nos domingos, às 19h.

Cada um carrega o que o constitui. Lembranças, fantasmas, decepções, alegrias e muitas pessoas – vivas ou mortas – que atravessaram o caminho. O cadáver do amante do dramaturgo Heleno de Gusmão está no centro da narrativa de Ossos. O protagonista precisa entregar os restos mortais do garoto aos familiares em Sertânia, no interior de Pernambuco. Em nome de uma dívida de sobrevivência e da dignidade esgarçada.

Os acontecimentos são expostos de modo não linear, embaralhados no tempo/espaço. Parte se desenvolve no submundo paulistano e outra se move na estrada que leva o escritor até o Sertão pernambucano de sua infância.

Com temática LGBT, peça mostra o lado humano e sentimental de personagens ainda estigmatizados

Com temática LGBT, peça mostra o lado humano e sentimental de personagens ainda estigmatizados

A peça dramatiza a subjetividade de Heleno de Gusmão, com estilhaços de memória, cenas de sonho e materialização de uma vida suprarreal. A atmosfera carregada de sombras, formas bizarras e distorções visuais, remete para o universo fronteiriço de sonho e pesadelo.

Nessa narrativa fragmentada, a peça dá saltos para a frente e para trás, explorando cortes secos, sobreposições e fusões de cenas, nas pegadas de um processo cinematográfico.

O clima sombrio é reforçado pela presença de um coro de urubus, permeado pela presença da morte; e subvertido pelo humor e o colorido da ação de alguns personagens.

No elenco estão os atores André Brasileiro, Marcondes Lima, Arilson Lopes, Ivo Barreto, Daniel Barros e Robério Lucado. A trilha sonora, assinada por Juliano Holanda, conta com mais de 20 canções. O autor Marcelino Freire é aguardado na estreia.

A montagem de Ossos é patrocinada pelo prêmio Myriam Muniz da FUNARTE – Ministério da Cultura – Governo Federal.

SERVIÇO
OSSOS
Estreia: 11 de junho, às 21h
Temporada: de 11 a 26 de junho – Sextas, às 20h; Sábados, às 18h e 21h; Domingos, às 19h
Onde: Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)
Ingressos: R$20,00 inteira / R$10,00 meia-entrada
Informações: 81 3355-3321
Classificação indicativa: 16 anos

FICHA TÉCNICA
Texto: Marcelino Freire
Direção: Marcondes Lima
Direção de arte, cenários e figurinos: Marcondes Lima
Assistência de direção: Ceronha Pontes
Elenco: André Brasileiro, Arilson Lopes, Daniel Barros, Ivo Barreto, Marcondes Lima, Robério Lucado
Trilha sonora original – composição, arranjos e produção: Juliano Holanda
Criação de plano de luz: Jathyles Miranda
Preparação corporal: Arilson Lopes
Preparação de elenco: Ceronha Pontes, Arilson Lopes
Coreografia: Lilli Rocha e Paulo Henrique Ferreira
Coordenação de produção: Tadeu Gondim
Produção executiva: André Brasileiro, Fausto Paiva, Arquimedes Amaro, Gheuza Sena e Nínive Caldas
Designer gráfico: Dani Borel
Fotos divulgação: Joanna Sultanum
Visagismo: Jades Sales
Assessoria de imprensa: Rabixco Assessoria
Técnico de som Muzak – André Oliveira
Confecção de figurinos: Maria Lima
Confecção de cenário e elementos de cena: Flávio Santos, Jorge Batista de Oliveira.
Operador de som e luz: Fausto Paiva / Tadeu Gondim
Camareira: Irani Galdino

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Vamos abraçar O Poste!

Para ajudar na campanha de manutenção do espaço o Programa “Mês Iluminado”, conta com várias atrações, como O Velho Diario da Insônia. Foto: Divulgção

Campanha em prol do espaço conta com várias atrações, como O Velho Diario da Insônia. Foto: Divulgação

O Espaço O Poste Soluções Luminosas é um ponto de resistência cultural do Recife. Desde 2014 funciona no bairro da Boa vista, no térreo do prédio da Rua da Aurora esquina com Princesa Isabel. É neste local que a trupe liderada por Samuel Santos desenvolve uma pesquisa continuada, de matriz africana na busca de uma ancestralidade corporal e vocal. O grupo se lança na investigação para aproximar o Candomblé e Umbanda dos processos de Michael Chekhov, Vsevolod Meyerhold, Eugenio Barba e Jerzy Grotowski. Seus trabalhos sustentam nos procedimentos de construção e reconstrução A Dança dos Ventos, a Antropologia Teatral, a Biomecânica, a irradiação, as entidades xamânicas e o imaginário dos Orixás.

Mas além da produção de seus espetáculos – como Cordel do Amor sem Fim-, O Poste abriga outros trabalhos, e é considerado um palco democrático de oficinas, ensaios e montagens. A sede não recebe subvenção pública para manutenção e, como já ocorreu com outros refúgios alternativos, estava ameaçada de interromper suas atividades. Mas artistas de perfis diferentes se uniram para dar uma força.

“A ideia surgiu de uma forma espontânea por parte dos artistas que estão na programação e que souberam que o Espaço O Poste está passando por dificuldades e resolveram fazer uma campanha. O primeiro grupo a nos procurar foi o Grupo de Vitória de Santo Antão que dispôs-se a  doar o cachê da apresentação para o espaço. Achamos isso muito digno. Depois veio Junior Barros e quando vimos vários outros artistas se juntaram nessa ação”, conta o diretor do grupo Samuel Santos.

Humor nordestino à exaustão em Deu com a Pleura. Foto: Divulgação

Humor nordestino à exaustão em Deu com a Pleura. Foto: Divulgação

Até o dia 18 de junho uma programação com espetáculos , leituras dramatizadas, solos de humor e textos poéticos movimentam O Poste. O clássico do teatro brasileiro O Santo Inquérito, de Dias Gomes, ganha leitura dramatizada sob direção de Renata Phaelante. A Cia. Experimental de Teatro de Vitória apresenta a peça O Peso da Carne. Deu Com a Pleura, da Aratu produções, também está entre as atrações e abastece a montagem com humor nordestino.

Entre poesias e canções da era do rádio, um homem reconstrói sua memória. A tragicomédia O Velho Diário da Insônia é costurada por poesias e canções. O tempo, o arrependimento e a saudade ganham relevo na encenação de Alessandro Moura, sob supervisão artística de Márcia Cruz.

Já o humorista Júnior Barros criou um show de humor exclusivamente para o Poste chamado Na Intimidade, desenvolvido por seu personagem Vagiene Cokeluche. A atriz Naná Sodré trafega pela submissão e libertação feminina com o espetáculo A Receita.

Vamos injetar um novo fôlego a esse espaço cultural alternativo. “Participe do nosso ‘Mês Iluminado’ e colabore com a manutenção. O Poste é seu!”, convida Samuel Santos

Programação
Mês Iluminado

02/06, 20h
Apresentação da 2 Gira de Diálogo dentro do projeto O corpo Ancestral Dentro da Cena contemporânea
Entrada Franca

03/06, 20h
Na Intimidade, com Vagiene Cokeluche
Performance com Jr. Barros
Um show de humor feito exclusivamente para o Poste pelo humorista Júnior Barros.
Ingresso: R$ 20

04/06, 20h
Espetáculo Peso da Carne – Uma casa com quatro irmãos, da Cia Experimental de Teatro (Vitória). Direção de César Leão.
Após a morte dos pais, dois deles escravizados por não ter o mesmo sangue. Começa um embate sobre o direito de ser dono de si mesmo ou de se pertencer a alguém.
Diante de um jogo de questionamentos e humilhações, os irmãos de sangue intimidam e pressionam os outros dois a abdicarem de suas liberdades e serem seus servos no contexto de que “tudo que existe tem o seu dono”.
Ingresso: R$ 20

Naná Sodré concentra na personagem várias mulheres do mundo que sofrem com a violência

Naná Sodré concentra na personagem várias mulheres do mundo que sofrem com a violência. Foto: Divulgação

05/06, 19h
A Receita, Com direção e texto de Samuel Santos
A todas as mulheres do mundo! Grita com o corpo a atriz carioca Naná Sodré, nesta obra tragicômica que descreve o universo de uma mulher num processo de libertação.
Num acerto de contas, a inominada confessa como temperou suas ilusões com sal, alho e coentro com cebolinha…
Ingresso: R$ 20

09/06, 20h
A procura DoEU, Finalização do curso de formação/ Iniciação ao Teatro Antropológico.
Performance teatral que consiste em personagens criados a partir do trabalho realizado no Teatro. A partir da frase “A procura de que…” surgiram personagens mitológicos, religiosos e profanos. Um universo real e mágico.
Com Álcio Lins, Aline Gomes, Maria Belo, Luiz Sebastião, Gabirela Fregapane, Darlly Ravanelly, Mariana Lucena, Romulo Moraes, Erica Simona.
Ingresso: R$ 20

10/06, 19h30
Severinos, Virgulinos e Vitalinos.
Texto: Samuel Santos. Direção: Álcio Lins. Trilha sonora ao vivo: Víctor Chitunda. Elenco: Álcio Lins, Duda Martins e Lívia Lins.
Saga de dois filhos de artistas. Um, é filho de palhaço, e o outro, de uma atriz mambembe. Os dois partem para o Sertão na busca dos seus pais e acabam deparando-se com a morte (Severina), a violência (Virgulino) e, por fim, o sonho (Vitalino).
Ingresso: R$ 20

11/06, 20h
Espetáculo Peso da Carne – Uma casa com quatro irmãos, da Cia Experimental de Teatro (Vitória). Direção de César Leão.
Após a morte dos pais, dois deles escravizados por não ter o mesmo sangue. Começa um embate sobre o direito de ser dono de si mesmo ou de se pertencer a alguém.
Diante de um jogo de questionamentos e humilhações, os irmãos de sangue intimidam e pressionam os outros dois a abdicarem de suas liberdades e serem seus servos no contexto de que “tudo que existe tem o seu dono”.
Ingresso: R$ 20

12/06, 20h
O Velho Diário da Insônia, com texto, encenação e atuação de Alessando Moura.
A montagem é feita a partir de lembranças contidas em um diário, remontando uma noite de insônia de um homem à beira da loucura. A reflexão é sobre o tempo, a saudade e o arrependimento. Supervisão artística de Marcia Cruz.
Ingresso: R$ 20

16/06, 20h
Leitura Dramatizada O Santo Inquérito
Texto de Dias Gomes.
Direção Renata Phaelante
Elenco:Tiago Gondim, André Lombardi, Silvio Pinto, Renata Phaelante, Zanel Reis, Carlos Pinto, Eduardo Japiassu e José Barbosa
Conta a história da jovem Branca, condenada pelo tribunal do “Santo Iinquérito”. Sua maior heresia era crer que Deus está na Vida, na Natureza, no prazer, na Luz. Foi queimada viva, numa fogueira. Ela morava no interior da Paraíba, em 1750.
Ingresso: R$ 20

17/06, 19h
A Receita, Com direção e texto de Samuel Santos
A todas as mulheres do mundo! Grita com o corpo a atriz carioca Naná Sodré, nesta obra tragicômica que descreve o universo de uma mulher num processo de libertação.
Num acerto de contas, a inominada confessa como temperou suas ilusões com sal, alho e coentro com cebolinha…
Ingresso: R$ 20

18/06, 20h
Espetáculo Deu com a Pleura
Deu Com a Pleura é um resgate da “matutice” que habita as grandes cidades. Na montagem, Deocrécio Gogó de Ganso, Tico Cachacinha e Deco Chupa Prego se reúnem no Bar do Seu Nado para colocar as conversas em dia. Entre um copo e outro, os amigos satirizam os costumes de quem vive na cidade grande. No bom e velho “nordestinês”, eles compartilham situações hilariantes, ao som de canções do universo boêmio.
O elenco é formado por Eduardo Gomes, Benedito Serafim, Alessandro Moura e Talles Ribeiro. A supervisão artística é assinada por Fábio Calamy.
Ingresso: R$ 20

Encerramento fechação
Com música, poesia e performances
Após o espetáculo Deu com a Pleura

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Flávia Pinheiro baila com a filosofia

58 Indícios sobre o corpo é inspirado no pensamento do filósofo francês Jean Luc Nancy. Foto: Leandro Olivan

58 Indícios sobre o corpo é inspirado no pensamento do filósofo francês Jean Luc Nancy. Foto: Leandro Oliván

Uma quase amiga comentou que a artista Flávia Pinheiro é “cabeçuda”.

Não, ela não estava dizendo que a atriz/bailarina se parece com as tanajuras, aqueles “frutos” que caem do céu em determinada época do ano, que deliciavam os indígenas na época da colonização portuguesa e prosseguem valorizados até hoje em algumas regiões. Dizem que o gosto lembra o do camarão e tem alto valor proteico.

Mas a expressão não se refere à fina iguaria da culinária cabocla.

Ser “cabeçuda” é um elogio, mesmo que o termo seja um pouco antiquado.

58 Indícios sobre o corpo Foto: Leandro Olivan

Imagem e filosofia estão na base da performance. Foto: Leandro Oliván

Os trabalhos de Flávia forçam à expansão de pensamentos e de reflexões sobre corpo, movimento, presenças, ausências e um punhado de coisas que dizem respeito ao existir contemporâneo.

Nas pegadas de Giles Deleuze, suas obras testam a deformação do chichê e buscam truncar o “conjunto visual provável” para fazer emergir a imagem, contaminada de sensações de diferentes níveis. “Só transformando o clichê, ou, como dizia Lawrence, maltratando a imagem, isso poderia ocorrer, como nas imagens-cinema de Eisenstein, ou nas imagens-foto de Muybridge,” provoca Deleuze em Francis Bacon: Lógica da Sensação.

Imagem e a filosofia estão na base da criação 58 indices sur le corps, performance inspirada no texto do filósofo francês Jean-Luc Nancy, professor emérito da Universidade Marc Bloch, de Estrasburgo. Ele é autor de livros sobre muitos pensadores, entre eles Hegel, Kant, Descartes e Heidegger. Entre as principais influências de Nancy estão Derrida, Bataille, Blanchot e Nietzsche.

Nesta sexta (27/05) e sábado (28/05) Flávia Pinheiro apresenta 58 Indícios sobre o corpo, na Aliança Francesa Derby, com entrada gratuita.

O ensaio de Nancy sobre o corpo, um escrito anti-cartesiano em forma e conteúdo publicado em 2006, medita sobre os problemas do mundo. E é partir dele que a atriz/bailarina traça uma cartografia sobre a corporeidade.

O corpo de J-L.Nancy é o corpo que transborda. No fragmento 52, ele diz: “O corpo funciona por espasmos, contrações e distensões, dobras, desdobramentos, nós e desenlaces, torções, sobressaltos, soluços, descargas elétricas, distensões, contrações, estremecimentos, sacolejos, tremores, horripilações, ereções, arquejos, arroubos”.

Na performance de Flávia Pinheiro a dança é praticada como uma arte de todos e de qualquer pessoa, mas que desobstrui o gesto e movimento de marcas narrativas. Esse corpo que “grita”, até exceder o limite do próprio corpo, está tomado por intensidades.

Alguns fragmentos de Nancy impregnados no corpo vivo e desejante de Flávia Pinheiro.

1.  O corpo é
material. É denso.
Impenetrável. Se
o penetram, fica
desarticulado,
furado, rasgado.

3.  Um corpo não
é vazio. Está cheio
de outros corpos,
pedaços, órgãos,
peças, tecidos,
rótulas, anéis,
tubos, alavancas
e foles. Também
está cheio de si
mesmo: é tudo o
que é.

5.  Um corpo é
imaterial. É um
desenho, um con-
torno, uma ideia.

9.  O corpo é visível, a alma, não. Vemos que um paralítico não pode mexer sua perna direito. Não vemos que um homem mau não pode mexer sua alma direito: mas devemos pensar que isto é o efeito de uma paralisia da alma. E que é preciso lutar contra ela e obrigá-la a obedecer. Eis aí o fundamento da ética, meu caro Nicômaco.

43.  Por que indícios em vez de
caracteres, signos, marcas distintivas?
Porque o corpo escapa, nunca está
bem seguro, deixa-se suspeitar, mas
não identificar. Poderia sempre ser
não mais que uma parte de um corpo
maior, que supomos ser sua casa, seu
carro ou seu cavalo, seu burro, seu
colchão. Poderia não ser mais que um
duplo desse outro corpo tão pequeno e
vaporoso que chamamos de sua alma e
que sai de sua boca quando ele morre.
Só dispomos de indicações, traços,
pegadas, vestígios

58.  Por que 58 indícios? Porque 5 + 8
= os membros do corpo, braços, pernas e
cabeça, e as 8 regiões do corpo: as costas,
o ventre, o crânio, o rosto, as nádegas,
o sexo, o ânus, a garganta. Ou, senão,
porque 5 + 8 = 13 e 13 = 1 & 3, 1 valendo
pela unidade (um corpo) e 3 valendo
pela incessante agitação e transformação
que circula, se divide e se excita entre a
matéria do corpo, sua alma e seu espíri-
to… Ou, senão, ainda: o arcano XIII do
tarô designa a morte e a morte incorpora
o corpo no inconsumível corpo univer-
sal dos lodos e dos ciclos químicos, dos
calores e dos brilhos estelares.

59.  Surge, por conseguinte, o quinquagésimo-nono indício, o
supranumerário, o excedente, o sexual: os corpos são sexuados.
Não existe corpo unissex como hoje se diz de certas peças de
roupa. Ao contrário, um corpo é por toda parte também um sexo:
assim os seios, um membro, uma vulva, os testículos, os ovários,
as características ósseas, morfológicas, fisiológicas, um tipo de
cromossoma. O corpo é sexuado em essência. Esta essência é de-
terminada como a essência de uma relação com a outra essência.
O corpo é assim determinado como essencialmente relação, ou em
relação. O corpo é relacionado com o corpo do outro sexo. Nessa
relação, trata-se da sua corporeidade à medida que ela toca pelo
sexo em seu limite: ela goza, quer dizer, o corpo é sacudido fora
de si mesmo. Cada uma de suas zonas, gozando por si mesma,
emite no fim o mesmo clarão. Isto se chama uma alma. Porém,
mais frequentemente, isto permanece apreendido pelo espasmo,
no soluço ou no suspiro. O finito e o infinito se cruzaram, inter-
cambiaram-se por um instante. Cada um dos sexos pode ocupar a
posição do finito ou do infinito

Sessões gratuitas na Aliança Francesa do Derby, Foto: Leandro

Sessões gratuitas sexta (27) e sábado (28), na Aliança Francesa do Derby, Foto: Leandro Oliván

Ficha Técnica:
Performer: Flavia Pinheiro
Imagens : Leandro Olivan
Produção : Coletivo Mazdita
Apoio: Aliança Francesa

SERVIÇO
58 Indícios sobre o corpo
Onde: Aliança Francesa Derby (Rua Amaro Bezerra 466)
Quando: Sexta-feira 27 às 17h; Sábado 28, às 19h
Quanto: Grátis

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O Beijo no Asfalto faz temporada no Apolo

Peça volta neste fim de semana e fica em cartaz no Teatro Apolo até 5 de junho. Foto: Américo Nunes

Peça volta neste fim de semana e fica em cartaz  até 5 de junho. Foto: Américo Nunes

Jornalista de batente, o dramaturgo Nelson Rodrigues conhecia bem os mecanismos da produção de notícias nas redações. E é demolidor ao compor personagens do métier. Em Viúva porém honesta julga tanto o publisher quanto o crítico teatral fisgado do reformatório. Em O Beijo no Asfalto, a imprensa inescrupulosa, na figura do repórter Amado Ribeiro, aliada à justiça submissa – representada pelo delegado Cunha, compõem um quadro de poder em que o cidadão comum pode ser caluniado, vilipendiado, coagido, destruído diante de uma sociedade hipócrita.

Parece até teatro do real.

Mas a peça O Beijo no Asfalto foi escrita 1961 especialmente para o Teatro dos Sete e estreou naquele ano, no Rio de Janeiro, sob direção de Gianni Ratto, com Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sérgio Britto e Ítalo Rossi no elenco, entre outros.

Na trama, um anônimo atropelado pede um beijo a um desconhecido, que foi em seu socorro após o acidente no trânsito num grande centro. O flagrante faz com que a curiosidade mórbida ganhe o lugar da indiferença que domina o caos da metrópole.

A vida do jovem Arandir, que atende ao último pedido do atropelado à beira da morte, se transforma num inferno. O repórter inescrupuloso e oportunista converte o ato de misericórdia em um caso de polícia com grande espaço na imprensa. Sem pudor em explorar com extrema crueldade, jornalistas e policiais sem ética invadem a privacidade da família, destroem a reputação de Arandir e fazem até com que nem mesmo a mulher do cidadão, Selminha, acredite na sua inocência.

A montagem acrescenta a obsessão pela internet. A cena é registrada por dezenas de pessoas munidas de aparelhos celulares e o caso ganha repercussão imediata nas redes sociais. O espetáculo reflete sobre a fabricação das celebridades instantâneas, ética e os meios de comunicação.

O espetáculo O Beijo no Asfalto utiliza do procedimento clássico do coro para expor facetas da sociedade que rumina opiniões, muitas vezes clandestinamente, nas redes sociais. São as manifestações sub-reptícias  de figuras sem identidade revelada, mas com os dentes afiados para condenar fatos e pessoas.

Assinada pelo diretor Claudio Lira, a encenação pernambucana estreou no Rio de Janeiro em agosto de 2012, como parte do projeto Nelson Brasil Rodrigues: 100 Anos do Anjo Pornográfico, organizado pela Funarte. Depois fez temporada no Recife e circulou por algumas cidades.

O Beijo no Asfalto volta neste fim de semana e fica em cartaz no Teatro Apolo, até 5 de junho, com sessões às sextas e sábados, às 20h, e aos domingos, às 19h. A temporada faz parte do projeto Nelson Rodrigues e o Óbvio Ululante (Temporada Jornalística de O Beijo no Asfalto), incentivada pelo Funcultura.

No elenco estão Arthur Canavarro, Andrêzza Alves, Eduardo Japiassu, Ivo Barreto, Pascoal Filizola, Sandra Rino, Daniela Travassos e Lano de Lins.

Ingressos antecipados pelo site www.eventick.com.br/temporada-de-o-beijo-no-asfalt.

FICHA TÉCNICA
Direção: Claudio Lira
Elenco: Andrêzza Alves, Arthur Canavarro, Daniela Travassos, Eduardo Japiassú, Ivo Barreto, Lano de Lins, Pascoal Filizola e Sandra Rino | Participações em Vídeo: Cardinot, Clenira de Melo, Cira Ramos, Márcia Cruz, Renata Phaelante, Sônia Bierbard e Vanda Phaelante
Voz da Locução: Gino Cesar
Música Final / Voz: Lêda Oliveira e Pianista: Artur Fabiano
Direção de vídeo cenário: Tuca Siqueira
Iluminação: Luciana Raposo
Cenário: Claudio Lira
Figurinos: Andrêzza Alves e Claudio Lira
Direção Musical e Preparação Vocal: Adriana Milet
Preparação Física e Coreografias: Sandra Rino
Fotografias: Caio Franco e Américo Nunes
Programação Visual: Claudio Lira
Produção Executiva: Renata Phaelante e Andrêzza Alves

SERVIÇO:
O Beijo no Asfalto
Onde: Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife. Fone: 3355 3321)
Quando: A partir desta sexta-feira (20/05) até 5 de junho. Sextas e sábados às 20h; e domingos, às 19h
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Duração: 1h30m
Indicação: 16 anos

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Santa Isabel tem aniversário trivial

Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR

Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR

O Santa Isabel é uma das mais belas casas de espetáculos brasileiras, um dos 14 teatros monumentos do país. E mais uma vez o equipamento cultural da Prefeitura do Recife recebe uma celebração burocrática na passagem do aniversário de 166 anos. Visitas guiadas, apresentações de dança e concerto da Banda Sinfônica do Recife fazem parte de uma programação raquítica promovido pelo executivo municipal.

Em outra época aguerrida, o Santa Isabel funcionou como centro cultural e palco do exercício da cidadania e da liberdade no Recife. Grandes oradores defenderam boas causas no tablado do TSI. Entre eles Joaquim Nabuco, Castro Alves e Tobias Barreto, que soltaram o verbo em prol da abolição e da emancipação.

O Imperador Pedro II festejou, em 1859, seu aniversário nas dependências do teatro, com um grande espetáculo de gala. Mas isso foi no século 19, da monarquia no Brasil com seu rei coroado.

Recentemente, os artistas protestaram contra o descumprimento por parte da Prefeitura do Recife, responsável por gerir o teatro, do decreto nº 21.924 de 2006, que afirma que o teatro é exclusivamente dedicado a atividades de caráter cultural, “especialmente nas linguagens artísticas da música, do teatro, da dança e da ópera”. No dia 28 de abril, o teatro foi cedido para a festa dos 199 anos da Polícia Civil de Pernambuco. Leia aqui sobre o caso. Mesmo com o levante da sociedade civil, no dia 6 de maio, o teatro voltou a ser cedido, desta vez para o Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), para que a nova reitoria tomasse posse.

Comemoração morna – A Prefeitura do Recife defende que a programação de aniversário é especial, embora pareça-nos uma pauta corriqueira; de qualidade, é bom ressaltar, mas sem nenhum tratamento específico para a data.

As visitas guiadas ocorrem em três dias. A primeira, nesta terça (17), a partir das 14h, para alunos de escolas públicas e privadas, já pré-agendadas, como parte do Projeto de Educação Patrimonial. A Ópera Studio da UFPE fará uma apresentação ao final do passeio. Sábado (21) e domingo (22), as visitas são abertas ao público, sem pré-agendamento, em três horários: 14h, 15 e 16h, tem duração de 50 minutos e limite de 25 pessoas, por grupo.

Espetáculo Tres Mulheres e um Bordado de Sol. Foto: Rogério Alves / Sobrado423

Espetáculo Três Mulheres e um Bordado de Sol. Foto: Rogério Alves / Sobrado 423

Também está reservada para sábado a apresentação do espetáculo Três mulheres e um bordado de Sol, da Compassos Cia. de Dança, que intercala vida e obra da escritora pernambucana nascida na Ucrânia Clarice Lispector, da cantora francesa Edith Piaf e da artista mexicana Frida Kahlo. A direção é do bailarino e coreógrafo Raimundo Branco, com a dramaturgia em conjunto com a artista Silvia Góes, do Coletivo Lugar Comum. O trabalho explora o eco no corpo dos bailarinos dessas vivências literárias, musicais e visuais.

As sessões serão em dois horários: 18h e 20h30, com lotação para 65 lugares. Os ingressos estarão disponíveis gratuitamente na bilheteria do Santa Isabel, uma hora antes de cada apresentação, limitado a 1 (uma) entrada por pessoa.

O encerramento das celebrações ocorre domingo (22), às 18h, com um concerto da Banda Sinfônica da Cidade do Recife, sob o comando do maestro Nenéu LIberalquino. A retirada dos ingressos gratuitos pode ser feita a partir das 17h, sendo liberados dois ingressos por pessoa.

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