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Os exilados de Newton Moreno

Escritor, dramaturgo e diretor Newton Moreno. Foto: Divulgação

Escritor, dramaturgo e diretor pernambucano Newton Moreno. Foto: Divulgação

O vozeirão da cantora transformista Elza Show reverbera contra as posições retrógradas de machistas disfarçados de deputados/pastores que exercem ação nefasta contra um rebanho sem discernimento. Em 2007, Elza sustentava, após a estreia do espetáculo Ópera, do Coletivo Angu de Teatro, que “O mundo é gay! ”. É verdade. O mundo é gay; é feminino e feminista, é negro e índio; é plural apesar do avanço dos podres poderes. É um pouco disso que registra a publicação Ópera e outros contos (114 páginas, R$ 30), do dramaturgo pernambucano radicado em São Paulo, Newton Moreno. A sessão de autógrafos ocorre nesta segunda-feira (16), às 18h, na Livraria Cultura do Paço Alfândega, com leitura dramatizada do Coletivo Angu para alguns textos.

Composta por 25 contos, a obra pinta cenários e personagens recifenses que não correspondem aos padrões do centro normativo. Essas figuras estão enroladas em aventuras afetivas e tragédias cotidianas. O escritor escala amores desmedidos, rasgados, exagerados, entre eles os que deram origem ao espetáculo Ópera, do Coletivo Angu e O Livro, que inspirou o espetáculo homônimo, com o ator Eduardo Moscovis.

Tatto Medinni, Andrea Closet e Fábio Caio

Tatto Medinni, Andrea Closet e Fábio Caio

A homossexualidade aparece nos contos Ópera, Surpresa, O primeiro casal, Virgem, João e Rosalinda, A despedida, O troféu e Tu nunca saberás o que é o amor.

Essa ‘margem da sociedade’ também é apresentada pelos contornos racial e econômico. Moreno dá visibilidade aos ‘exilados’, figuras que entram nas estatísticas como minoritárias; uma aquarela humana tomada pela diversidade. O autor instaura a poesia em personagens “esquisitos”, que quebram a hegemonia, que se reafirmam na sua estranheza, que mostram a força das bordas.

Entre as histórias estão a relação entre um cantor de ópera e um michê (que cede título ao livro); os dessabores da moça que perdeu a dentadura no primeiro dia do Carnaval no conto A Gaitada. Ou Surpresa, sobre o drama de uma tradicional família patriarcal pernambucana diante da descoberta da homossexualidade do cachorrinho doméstico.

Tem também Nega Sônia, que pegou uma doença que lhe embranquece e quer recuperar sua negritude, sua identidade; o escravo João que se liberta ao se assumir Rosalinda. Além de contos que utilizam recursos da literatura fantástica, do encantamento, como Ressurreição, A espera e Sem sangue.

O escritor Marcelino Freire assina o prefácio. O projeto tem incentivo do Funcultura, com produção de Daniela Varjal.

Newton Moreno coleciona prêmios, como o Shell e o da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Com Guel Arraes e Claudio Paiva, ele escreveu a série Amorteamo (Rede Globo), que investe na trama de um Recife mal-assombrado e com histórias de amor entre vivos e mortos.

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Armazém traz Inútil a chuva ao Recife

Inútil a chuva

Paulo de Moraes dirige a peça e assina o texto com o filho Jopa Moraes

O Armazém Cia de Teatro gosta dos trunfos cênicos para impactar a plateia. A “caixa mágica” de Alice Através do Espelho, com aqueles jogos enigmáticos de sensações, era uma lúdica ode ao teatro. O trilho de Inveja dos anjos, que cruzava o palco, perpetrava uma curva para cima, avançando até o teto, indicava que é preciso fazer as pazes com o passado.

Em Inútil a Chuva, um enorme barco abriga quatro tripulantes, Lotta e seus filhos (Slavoj, Claude e Sarah), que buscam uma explicação para o desaparecimento do patriarca. O espetáculo faz curta temporada no Recife, de sexta-feira (13/05) a domingo (15/05), no Teatro de Santa Isabel. Paulo de Moraes dirige a peça e assina o texto com o filho Jopa Moraes. Estão no elenco Patrícia Selonk, Andressa Lameu, Leonardo Hinckel, Tomás Braune, Marcos Martins e Amanda Mirasci.

O sumiço do pintor (o protagonista ausente; pai e marido nesta excêntrica família) e a valorização repentina de sua obra servem de alavanca para discussão do que é arte no mundo contemporâneo, como se dá a legitimação de artistas, e a engrenagem nesse mercado, povoado por curadores e críticos que ditam regras, os interesses da mídia, e no final da fila, o público.

A encenação é formada por um conjunto de oito quadros de impacto visual, com nuances e iluminação de Maneco Quinderé. O primeiro tem o sugestivo título de Verão em família, e eles vão se ligando uns aos outros O protagonista ausente deixou uma carta de despedida, mas que não é suficiente para elucidar o desaparecimento. A hipótese de suicídio é levantada entre várias outras, mas seu corpo não foi encontrado.

Nas remadas contínuas rumo ao desconhecido, os personagens atendem ao fluxo de transformações, ao devir. Nas curvas do caminho eles tentam se refazer. Lotta (Patrícia Selonk) resume na peça: “A gente vai continuar a remar, sem saber onde chegar, o que importa é seguir”.

Ficha Técnica
Direção: Paulo de Moraes
Dramaturgia: Paulo de Moraes e Jopa Moraes
Elenco: Patrícia Selonk, Andressa Lameu, Leonardo Hinckel, Tomás Braune, Marcos Martins e Amanda Mirasci
Iluminação: Maneco Quinderé
Cenografia: Paulo de Moraes e Carla Berri
Figurinos: Rita Murtinho
Direção Musical: Ricco Viana
Design Gráfico: João Gabriel Monteiro e Jopa Moraes
Produção de Vídeos: João Gabriel Monteiro
Assistente de Direção: Lisa Eiras
Técnico de Montagem: Regivaldo Moraes
Preparação Corporal: Maíra Maneschy e Patrícia Selonk
Produção Executiva: Flávia Menezes
Produção: Armazém Companhia de Teatro

Duração: 120 minutos
Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos 

Serviço
Inútil a Chuva
Quando: sexta-feira, (13/05) às 20h; sábado (14/05) às 20h; domingo (15/05) às 18h
Onde:Teatro de Santa Isabel (Praça da Repúlblica s/n)
Ingressos: R$ 40,00 e R$ 20,00 meia-entrada
Informações: 81- 3355.3323/3324
Ingressos: na bilheteria do teatro e online  www.compreingressos.com

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Celebrando Hilda Hilst

O caderno rosa de Lory Lamby, leitura com Silvia Gos. Foto: Divulgação

O caderno rosa de Lori Lamby, leitura com Silvia Góes. Foto: Divulgação

A escritora Hilda Hilst, que morreu em 2004 aos 74 anos, sempre falava da necessidade da poesia em tempos de brutalidade. A barbárie se faz disfarçada sob uma capa da legalidade interpretada ao bel prazer da plutocracia no Brasil. E a poesia expandida é urgente e arma de algumas pessoas. Entre elas, as atrizes Fabiana Pirro, Nínive Caldas, Silvinha Góes e o ator Cláudio Ferrário que juntos fazem uma leitura dramatizada da Trilogia Obscena, no Coletivo S6xto Andar (sexto andar do Edifício Pernambuco, na Avenida Dantas Barreto).

O programa faz parte do projeto Ocupação Casa do Sol: um encontro com Hilda Hilst, realizado pela Corujas, com algumas ações. Nesta sexta-feira, às 20h, os intérpretes vão dramatizar os personagens dos livros O caderno rosa de Lori Lamby, Contos D’escárnios, Cartas de um sedutor, Textos grotescos e Bufólicas.

O Caderno Rosa de Lori Lamby, por exemplo, flagra uma menina de oito anos que comercializa seu corpo estimulada por seus pais proxenetas.

O nome do projeto remete para a Casa do Sol, no interior de São Paulo, onde Hilda viveu dos 35 anos até a morte, atualmente sede do Instituto Hilda Hilst. A ação inclui outras atividades.

No sábado (07/05), a partir das 16h, o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Mamam) abriga atrações de ‪‎Música‬ + Poesia + Pole Arte com Ana Carolina Mac Dowell; Audição da Rádio HH – 911 MHZ, com Poema aos Homens do Nosso Tempo, do artista Paulo Meira; Exposição da artista Ceci Silva inspirada na obra Contos de Escárnio/Textos Grotescos; Vídeoarte de Mariana de Matos estudo sobre a obra Do Desejo. E encerra com uma conversa aberta entre a artista plástica Olga Bilenky, do Instituto Hilda Hilst, o artista plástico Paulo Meira, a produtora Bruna Leite e o público.

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Grace Passô é invadida por Uma Voz

Grace Passô no colo Grão da Imagem: Vaga Carne. Foto: Kelly Knevels

Grace Passô no solo Grão da Imagem: Vaga Carne. Foto: Kelly Knevels

As peças da dramaturga, atriz e diretora mineira Grace Passô têm um toque surreal, porque a realidade – sob determinada perspectiva – é mesmo um absurdo. Na ciranda de medos e afetos, abacates desabam sem pudor na montagem Por Elise, do grupo Espanca!. “Cuidado com o que planta no mundo!”, avisa a mulher que cultivou a árvore e tem medo das frutas que caem. O homem dorme, mesmo quando acordado em Amores Surdos, também do Espanca!, porque os personagens não se ouvem, não se enxergam, não se percebem. Um estranho acordo de amor. Na peça Grão da Imagem: Vaga Carne, com texto, direção e atuação de Grace Passô, os elementos kafkianos se aproximam da realidade ilógica (ou perversa) subvertendo seu status a partir de temas identitários.

Grãos da Imagem: Vaga Carne é a atração desta sexta-feira (6), no Teatro Hermilo Borba Filho, às 20h, da programação do Trema Festival.

A personagem é Uma Voz errante, que invade matérias sólidas, líquidas ou gasosas, e decide, pela primeira vez, apossar-se de um corpo humano. “A peça parte da noção de construção da identidade, do contraste do ser social e subjetivo, dos conflitos e comunhão entre público e privado, do que há entre o julgamento social e as existências”, conta Grace no relato íntimo sobre o espetáculo, publicado na revista Trema!.

É uma jornada de auto reconhecimento, onde Uma Voz ocupa o cenário, “um corpo de mulher”, narrando o que sente ou finge sentir; o que é insondável em si, como sua imagem chega aos outros que veem. A proposta é de uma experiência complexa. São investigações e urgências estéticas de Passô contaminadas pelas inquietações do real.

Em Grãos da Imagem: Vaga Carne a atriz verticaliza sua identidade de mulher e negra. Uma instigação contra prescrições de nossa sociedade falocêntrica e racista. E nessa plataforma de gênero e étnica que o discurso é desenvolvido, os fragmentos de vida dessa Uma Voz vão aquém e além do corpo.

Jeito de moleca da atriz camaleônica. Foto: Lucas Ávila

Jeito de moleca da atriz camaleônica. Foto: Lucas Ávila

O espetáculo estreou no Festival de Curitiba em março, mesmo evento que a projetou junto com seu ex-grupo Espanca! em 2005. A atriz de 35 anos tinha 24 quando apresentou Por Elise no Fringe. Seu domínio técnico e carisma ficam mais apurados no decorrer dos anos.

Grace Passô é uma intérprete admirável. Que cria e encara provocações, que surpreende, que modula com expressões corporais e vocais, que sabe carregar bem as emoções, que faz seus gestos transbordarem de sentidos. E que usa tão bem a ironia com poderosa arma crítica. É incrível como ela pode se transformar nos seus personagens. Com uma propriedade que desperta a cumplicidade do público. É uma alegria acompanhar desde Por Elise da trajetória dessa artista brasileira.

Ficha Técnica
Direção, texto e atuação: Grace Passô.
Fotografia: Lucas Ávila.
Identidade Visual: 45 Jujubas.
Interlocutores: Ricardo Alves Jr. e Kenia Dias.
Luz: Nadja Naira.
Produção: Nina Bittencourt.
Gênero: Drama
Classificação indicativa: Livre
Duração: 60 minutos

Serviço
Grãos da Imagem: Vaga Carne
Quando: Sexta-feira, 6 de maio, às 20h
Local: Teatro Hermilo Borba Filho (rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)
Ingressos: R$ 20 e R$ 10
Informações: (81) 3355-3320

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Totem ressignifica rituais indígenas

Retomada, como Grupo Totem. Foto: Fernando Figueiroa/ Divulgação

Retomada fala da luta pela terra, da alma coletiva, da ancestralidade. Foto: Fernando Figueiroa/ Divulgação

O Grupo Totem já está na estrada da performance há quase 30 anos. 28 para ser mais exato.  Muito antes da prática ser consagrada nas várias linguagens a trupe já estava no campo de luta, emanando energia vital pelo direito de minorias, da educação, dos povos originários, num enfrentamento político contínuo, visível ou invisível. A trupe dirigida por Fred Nascimento não trabalha com textos dramáticos, mas com processo de criação extraídos do corpo.  O espetáculo de teatro performático Retomada ganha uma apresentação nesta quarta-feira, às 20h, no Teatro Hermilo Borba Filho, como parte da programação do Trema! Festival de Teatro.

O procedimento para essa montagem começou em agosto de 2015. O coletivo enveredou pela  espiritualidade indígena. A primeira residência foi junto ao Povo Pankararu, no município de Tacaratu. Lá, a turma vivenciou com os indígenas a tradição do Menino do Rancho. Em Pesqueira praticou o ritual do Dia de Reis do povo Xucuru e conheceu melhor a história de luta e resistência dessa tribo e o episódio que abateu o cacique Xicão. Com os Kapinawás, próximo do município de Buíque, a turma interiorizou um jeito diferente de dançar o toré e sambada de coco. Também teve acesso a furna sagrada e colheu o sentimento de ligação dos indígenas junto aos encantados.

Foram experiências preciosas de intercâmbios culturais, alimentados por trocas rituais, performáticas e espirituais. A montagem é fruto final do projeto Rito Ancestral Corpo Contemporâneo, financiado pelo edital do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura).

vivenciar ritualísticas

O espetáculo capta a energia metafísica que emana dos rituais

O sagrado integra o cotidiano dos povos nas coisas mais simples. A relação é de respeito e as divindades são sempre consultadas. Mas como destaca o diretor do grupo, Fred Nascimento, a turma não reproduz os rituais das aldeias. O processo criativo captar a força, a energia metafísica que emana desses rituais e penetra os corpos contemporâneos.

As vozes ancestrais ecoam no presente. Além da questão mais transcendente, o teor político impregna a montagem. A luta pelo solo sagrado, o sentimento de pertencimento aquela terra inspirou a trupe a corporificar a sacralidade das terras indígenas e o sentimento de resistência.

A interlocução entre a ancestralidade e a tecnologia faz parte do método Totem de ser. Fred explica que a performance multimídia traça uma espécie de simbiose entre o físico, o sonoro, o espaço circundante e a metafísica, a fim de criar uma atmosfera ritual. “Através dos corpos expandidos das atrizes-performers, tomadas por suas personas, mostraremos simultaneamente o corpo contemporâneo e a alma coletiva dos povos, que os séculos de colonização não conseguiram anular”, adianta.

Atrizes do Grupo Totem

Atrizes do Grupo Totem

A pesquisa e a criação são coletivas, a encenação é assinada por Fred Nascimento, que também assina a trilha sonora da peça, em parceria com Cauê Nascimento. A iluminação de Natalie Revorêdo. No elenco estão Lau Veríssimo, Taína Veríssimo, Gabi Cabral, Gabi Holanda, Inaê Veríssimo, Juliana Nardin e Tatiana Pedrosa.

As atrizes-performers acionam o conceito de alma coletiva identificada nas aldeias. O termo foi desenvolvido nos estudos da performance e antropologia de Richard Schechner. Além de Schechner o coletivo buscou sustentação teórica nos estudos do professor, pesquisador brasileiro Cassiano Sydow Quilici e nas ideias do poeta Antonin Artaud, que defendia que o teatro deve ser “antes de tudo ritual e mágico”

SERVIÇO

Retomada
Quando: quarta-feira, 4 de maio, às 20h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia),
Informações: (81) 3355-3320

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