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Peças com entrada franca na Oficina Oswald de Andrade, em São Paulo

Espetáculos Senhora X, Senhorita Y, Coisas boas acontecem por acaso, Homem-bomba e Hotel Mariana e

Espetáculos Senhora X, Senhorita Y; Coisas boas acontecem de repente, Homem-Bomba e Hotel Mariana

Mais de 10 espetáculos, com entrada gratuita, podem ser vistos na Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo). São trabalhos que pulsam com temas relevantes como crime ambiental, em Hotel Mariana, outras agressões contra a natureza e pessoas mais vulneráveis em Dezuó, Breviário das Águas, autoritarismo político, masculinidade tóxica.

São boas opções. Mas é bom se ligar que as salas tem disponibilidade de 30 a 60 lugares e as senhas são distribuídas uma hora antes. Com apenas uma sessão, lotada, foi exibida na segunda-feira, como Como (des)construir um macho?, com debate após a apresentação. Faltou lugar para tanta gente. 

No final do mês tem a versão de Dezembro, do Isso Não É Um Grupo e Corpo Rastreado Isso Não É Um Grupo e Corpo Rastreado para o texto do premiado dramaturgo chileno Guillermo Calderón. Ja Neva, também de Calderón com direção de Diego Moschkovich, explora a necessidade de prosseguir com o teatro, mesmo com o luto, – como o da primeira atriz do Teatro de Arte de Moscou, que sofre pela morte de seu marido Anton Tchekhov – ou o mundo que desmorona lá fora.

Luiz Arthur no solo Homem-Bomba

Luiz Arthur no solo Homem-Bomba

Os mineiros da Companhia Teatro Adulto vieram com Homem-Bomba e Coisas Boas Acontecem de Repente. As peças com Luis Arthur e Cynthia Paulino, respectivamente, estão inseridas na questão do autoconhecimento. Eles atacam os monstros adultos que habitam em cada um de nós. São figuras estranhas, vista pelo senso comum. O espaço diminuto de atuação, de até 2m², também faz parte da pesquisa do impacto da restrição de espaço.

Várias figuras se digladiam no solo Homem-bomba. Os vários eus. Com uma profusão de imagens e citações, o intérprete que se autodirigiu, problematiza “a sombra”, investigada pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Jung (1895- 1961). O monólogo tem como inspiração O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson (1850- 1894) para questionar essa ideia de tirar a parte ruim e ficar só com a boa. Além de Stevenson, a montagem tem citações de vários escritores, poetas e pensadores, como Aldous Huxley, William Shakespeare, Carl Jung, Franz Kafka, HP Lovecraft, Tadeusz Kantor, Augusto dos Anjos, Samuel Beckett, William Blake e Osho.

Em Coisas Boas Acontecem De Repente, a anti-diva MamaCy mistura influências, pinça entrevistas, músicas e textos da cantora Karine Alexandrino, a Mulher Tombada, faz adaptações. A personagem fala sem parar com a parede (que é o público) injeta power à força do feminino, se insurge contra o patronato. Diz coisas engraçadas e no final lê um manifesto que vale mais do que muitas terapias para as mulheres se valorizarem.

PROGRAMAÇÃO

HOMEM-BOMBA
Companhia Teatro Adulto

22 e 23/1 – terça-feira e quarta-feira – 20h
maiores de 12 anos
30 lugares – Retirar ingressos com uma hora de antecedência.
Duração: 50 minutos.

Em um mundo desigual, cada vez mais parecido com um grande abatedouro, um homem quer compreender os vários eus que o habitam. Livremente inspirado no clássico O médico e o monstro, título original O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson. O espetáculo integra o projeto ADULTOS EM CENA.

FICHA TÉCNICA:
Direção, trilha sonora e atuação: Luiz Arthur
Cenário: Cynthia Paulino e Luiz Arthur
Coordenação técnica e Iluminação: Marina Arthuzzi
Figurino: Cynthia Paulino
Adereços: Mauro Gelmini
Maquiagem: Linda Paulino
Assistente de produção e designer gráfico: Samara Martuchelli
Fotos: Catarina Paulino
Realização: Companhia Teatro Adulto.

COISAS BOAS ACONTECEM DE REPENTE
Companhia Teatro Adulto
22 e 23/1 – terça-feira e quarta-feira – 21h
maiores de 12 anos
30 lugares – Retirar ingressos com 1h de antecedência
Duração: 1h15

A anti-diva MamaCy diz tudo o que lhe vem à cabeça, antes do início de seu show de volta aos palcos. Texto de Cynthia Paulino + livre adaptação de manifestos, entrevistas, músicas e textos da anti-diva Karine Alexandrino, a Mulher Tombada.

FICHA TÉCNICA:
Dramaturgia, direção, cenário, trilha sonora e atuação: Cynthia Paulino
Iluminação: Luiz Arthur e Marina Arthuzzi
Coordenação técnica: Marina Arthuzzi
Figurino: Ananda Sette Camara, Cynthia Paulino e Jonnatha Horta Fortes
Maquiagem: Linda Paulino
Assistente de produção e designer gráfico: Samara Martuchelli
Fotos: Catarina Paulino
Realização: Companhia Teatro Adulto

FUENTE OVEJUNA
17 a 25/1 – quintas e sextas-feiras às 20h
maiores de 14 anos
30 lugares – Retirar ingressos com 1h de antecedência
Duração: 110 minutos

Cidadãos do pacato vilarejo Fuente Ovejuna (fonte das ovelhas, em português), sofrem com a tirania e as injustiças de um militar. O abuso de poder e as desonras desse tirano provocam a revolta dos moradores da vila, que clamam por vingança. 

FICHA TÉCNICA:
texto: Lope de Vega
tradução e adaptação: Marcos Daud
direção geral: Juliano Barone
direção musical: Wagner Passos
Elenco: Dudu Oliveira, Pipo Belloni, Lucas Lentini, Juliane Arguello, Lisi Andrade, Luiz Amorim, Marieli Goergen, Marcos Veríssimo, Pedro Casali, Lino Colantone, Priscilla Dieminger e Thiago Azevedo

HOTEL MARIANA
idealização e pesquisa: Munir Pedrosa
21/1 a 12/2– segundas-feiras e terças-feiras – 20h
maiores de 14 anos
50 lugares| Retirar ingressos com 1h de antecedência
Duração: 70 minutos

Depoimentos perturbadores e surpreendentes são colocados no palco e evidenciam a simplicidade de pessoas que perderam tudo ou quase tudo o que tinham no desastre no Vale do Rio Doce, em Mariana- MG.. Da criança do grupo escolar ao velho da folia de reis, do ativista de direitos humanos à aposentada que escreve poemas, somos convidados a escutar os sobreviventes que, com suas histórias, traçam um panorama político, histórico e cultural do nosso país.

FICHA TÉCNICA:
Idealização e Pesquisa: Munir Pedrosa
Dramaturgia: Munir Pedrosa E Herbert Bianchi
Direção: Herbert Bianchi
Designer De Luz: Rodrigo Caetano
Cenário: Marcelo Maffei
Figurinos: Bia Pieratti e Carol Reissman
Assistente De Direção: Letícia Rocha
Direção De Produção: Munir Pedrosa
Operador De Luz: Ricardo Bretones
Assessoria De Imprensa: Vanessa Fontes
Elenco: Anna Toledo, Bruno Feldman, Clarissa Drebtchinsky, Fani Feldman, Isabel Setti, Letícia Rocha, Marcelo Zorzeto, Munir Pedrosa, Rita Batata E Rodrigo Caetano.

VALSA Nº 6
Direção: Bernadeth Alves
14/1 a 12/3 – segundas e terças – 20h (não haverá apresentações nos dias 4 e 5/3 – Carnaval)
maiores de 16 anos
35 lugares | Retirar ingressos com 1h de antecedência
Duração: 50 minutos

Sônia, após ser apunhalada entra em um estado de confusão mental e interroga o público na tentativa de reconstruir o quebra cabeça de sua vida, apoiando-se em breves encontros com os personagens que povoam seu subconsciente.

Ficha Técnica:
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Bernadeth Alves
Assistência de Direção: Vanessa Reimberg
Atuação: Pâmy Rodrigues
Guitarrista: Viney Lourenço
Espaço Cênico: O Grupo
Figurino: Pâmy Rodrigues
Designer Gráfico: Rodrigo Florentino
Produção: O Grupo

Ator Edgar Castro em Dezuó, Breviário das Águas. Foto: Reprodução do Facebook

Ator . Foto: Reprodução do Facebook

DEZUÓ, BREVIÁRIO DAS ÁGUAS
Núcleo Macabéa
24/1 a 16/2 – quintas e sextas às 20h e sábados às 18h. (Excepcionalmente dia 25/1 – sexta-feira – às 18h).
maiores de 14 anos
30 lugares – Retirar ingressos com 1h de antecedência
Duração: 75 minutos

Trajetória de um menino da Amazônia que, após a expulsão de sua vila natal – devido à construção de uma usina hidrelétrica –, cresce e se transforma em um andarilho das grandes cidades, por onde passa a perambular desenraizado,mas ciente de seu passado ancestral.

FICHA TÉCNICA:
Texto e Idealização: Rudinei Borges
Direção: Patricia Gifford
Elenco: Edgar Castro
Direção musical/músico em cena: Juh Vieira
Instalação cenográfica e figurinos: Telumi Hellen
Diretor de palco: Andreas Guimarães
Apoio à cenotecnia: Leandro Lago
Adereços: Clau Carmo
Iluminação: Felipe Boquimpani
Fotografia: Cacá Bernardes
Preparação corporal e vocal: Antonio Salvador
Direção de produção: Paula Borges
Realização: Núcleo Macabéa/Cooperativa Paulista de Teatro/Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo/Secretaria Municipal de Cultura – SP

DEZEMBRO
Isso Não É Um Grupo e Corpo Rastreado
31/1 a 2/2 – quinta-feira, sexta-feira às 20h e sábado
maiores de 16 anos
30 lugares – Retirar ingressos com uma hora de antecedência.
Duração: 75 minutos

Uma ceia de Natal de 2020 durante uma guerra fictícia na América Latina. O irmão mais novo e recém-chegado do front é recebido de forma tragicômica pelas gêmeas Paula e Trinidad, que divergem em seus posicionamentos ideológicos. Lá fora há uma guerra, enquanto questões íntimas afloram da dramaturgia do chileno Guillermo Calderón.

FICHA TÉCNICA:
Texto: Guillermo Calderón
Direção: Diego Moschkovich
Elenco: Carolina Fabri, Ernani Sanchez e Michelle Gonçalves
Cenário e iluminação: Rafael Souza
Figurinos: Diogo Costa
Realização: Isso Não É Um Grupo e Corpo Rastreado

NEVA
Isso Não é Um Grupo e Celso Curi
7/2 a 9/2 – quinta-feira, sexta-feira às 20h e sábado às 18h
maiores de 16 anos
30 lugares – Retirar ingressos com uma hora de antecedência.
Duração: 75 minutos

No inverno de 1905, em São Petesburgo, a atriz Olga Knipper, primeira atriz do Teatro de Arte de Moscou, fundado por Stanislavski, vive o luto da morte de seu marido, o dramaturgo Anton Tchekhov, e com os atores Masha e Aleko tenta prosseguir o ensaio da peça O Jardim das Cerejeiras, último texto escrito pelo esposo. Eles aguardam a chegada dos outros atores da companhia, mas enquanto o ensaio ocorre na sala de um teatro, do lado de fora está acontecendo o Domingo Sangrento, massacre em que boa parte dos manifestantes foi cruelmente assassinada pela guarda do Czar. Talvez os outros atores não cheguem, podem ter sido mortos, mas os três permanecem ali.

FICHA TÉCNICA:
Texto: Guillermo Calderón
Tradução: Celso Curi
Direção: Diego Moschkovich
Elenco: Ernani Sanchez, Flávia Melman e Michelle Gonçalves
Concepção estética, cenografia e Iluminação: Rafael Souza
Figurinos Diogo Costa
Coordenação de Produção: Corpo Rastreado
Idealização: Isso Não é Um Grupo e Celso Curi

MÚSICA PARA VER
E² Cia de Teatro e Dança

20/2 a 1/3 – quartas, quintas-feiras e sextas-feiras às 20h
maiores de 14 anos
30 lugares – Retirar ingressos com uma hora de antecedência.
Duração: 50 minutos

Deste ato simples e primordial, surge o movimento, e a partir dele, estados corporais e poesia cênica. As canções, delicadamente selecionadas a partir do vasto repertório da música popular brasileira, reafirmam o interesse pela literatura (e pela palavra), presente em vários trabalhos anteriores da E² Cia de Teatro e Dança. Partindo da escrita musicada, poemas se reinventam e se refazem no corpo da intérprete e na cena.

Ficha técnica:
Direção e interpretação: Eliana De Santana |
Direção de arte, espaço cênico e iluminação: Hernandes de Oliveira |
Seleção musical e figurinos: Eliana de Santana |

LEITURA DRAMÁTICA
GUERRA À LA CARTE
Grupo Durame
8/3 – sexta-feira – 20h
maiores de 14 anos
30 lugares – Retirar ingressos com uma hora de antecedência.
Duração: 55 minutos

Pessoas que se relacionam na ambivalência da gentileza à crueldade em plena guerra. Entre destroços e bombardeios, eles conversam animadamente incitando o ódio à diferença, a cordialidade exagerada de forma acrítica e intelectualmente passiva. A partir da obra original Piquenique no Front de Fernando Arrabal.

FICHA TÉCNICA:
Dramaturgia coletiva a partir da obra original Piquenique no Front de Fernando Arrabal
Roteiro e Direção: Carlla Juliano
Elenco: Bruno Henrique, Douglas Soares, Raul Negreiros e Samara Pereira
Iluminação: Carmine D’Amore
Fotografia: Gustavo Falqueiro
Revisão e Arte gráfica: Breno Manfredini

A MÁQUINA DA AMNÉSIA
Plataforma Shop Sui
14 a 16/3– quinta-feira e sexta-feira às 20h e sábado às 18h
maiores de 16 anos
30 lugares – Retirar ingressos com uma hora de antecedência.
Duração: 50 minutos

A encenação trafega por uma atmosfera repleta de esquecimentos e interrompimentos, onde cada indivíduo propõe seu mergulho e compartilha seu momento de compreensão da pesquisa. O espetáculo integra o projeto Brain Diving- procedimento para cena contemplado pela 24ª edição do Programa Municipal de Fomento à Dança/2018.

FICHA TÉCNICA:
Diretor/Coreógrafo e Pesquisador: Fernando Martins
Intérpretes Colaboradores: Dalilla Leon e Fernando Martins
Cenografia: Leo Ceolin – Estudioscópio
Figurino: João Pimenta
Designer de Luz: Rodrigo Silbat
Artista audiovisual e programador: Caleb Mascarenhas
Produção Musical e Trilha Sonora: Fernando Martins
Captação e Edição de Vídeo: Osmar Zampieri
Fotografia: Silvia Machado

Ana Paula Lopez e Sol Faganello em Senhorita X, Senhora Y. Foto: Manu / Divulgação

Ana Paula e Sol Faganello em Senhorita X, Senhora Y. Foto: Manu Costa / Divulgação

SENHORA X, SENHORITA Y
Damas & Cia.
13 a 30/3 – quintas e sextas-feiras às 20h e sábados às 18h.
Maiores de 18 anos
Duração: 1h 15m

Baseada na peça A Mais Forte 1889, escrita pelo dramaturgo sueco August Strindberg, a peça discute o papel da mulher na sociedade contemporânea. A direção de Silvana Garcia investe na repetição do confronto das duas mulheres do título, mas em outros tempos e com outras circunstâncias. Com escalas de humor e grotesco.

FICHA TÉCNICA:
Direção: Silvana Garcia
Direção de Movimento: Kenia Dias |
Elenco: Ana Paula Lopez e Sol Faganello
Luz: Sarah Salgado | Figurino: Damas & Cia.
Trilha: Camila Couto | Assessoria de imprensa: Arteplural
Direção de produção: Damas & Cia
Fotografia: Manu Costa

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Bia Lessa propõe transcriação de Grande Sertão: Veredas para os palcos

Antes de definir papeis, todos os atores do elenco ensaiaram todos os personagens. Foto: Roberto Pontes/Divulgação

Antes de definir papeis, atores do elenco ensaiaram todos os personagens. Foto: Roberto Pontes

Grande Sertão: Veredas é um livro que impressiona por sua magnitude. Nele, Guimarães Rosa (1908-1967) empregou o máximo de sua inventividade poética para contar a história de um dos personagens mais marcantes da literatura brasileira: Riobaldo, cuja vida é um pano de fundo para mostrar a eterna tensão entre o mundo e o homem. E como trazer para os palcos uma obra importante para a literatura brasileira justamente por inovar tanto na linguagem escrita? Essa é a pergunta que Bia Lessa tenta responder em seu penúltimo trabalho (o mais recente, Pi – Panorâmica Insana, está em cartaz em São Paulo até 29 de julho, e tem no elenco Claudia Abreu, Leandra Leal, Rodrigo Pandolfo e Luiz Henrique Nogueira) baseado diretamente no clássico de Guimarães. Grande Sertão: Veredas, a peça-instalação, tem única apresentação no dia 8 de julho, domingo, no Centro de Convenções, em Olinda.

Cancelada por conta da greve dos caminhoneiros, em maio passado, a peça finalmente se apresenta em Pernambuco após pouco mais de um mês de espera. A diretora e cenógrafa, que tem o Paço do Frevo em seu portfólio, optou por fazer mais uma transcriação da obra rosiana do que a adaptação do livro, embora toda a dramaturgia do espetáculo seja composta por passagens de Grande Sertão: Veredas, sem adições de fora desse universo. Para isso, ela e sua equipe imaginaram uma estrutura em U, parecida com uma gaiola, onde ficam sempre em cena os dez atores do elenco. Estão nele desde nomes bastante conhecidos do público, como Caio Blat e Luiza Arraes, até atores “verdes”, com pouca experiência no palco. Todos eles ensaiaram todos os personagens antes de definirem seus papeis. Cerca de 250 bonecos de feltro em tamanho natural também estarão no palco-instalação e poderão ser vistos por quem circular pelo Centro de Convenções no domingo, durante o dia.

A relação de Bia com a obra de Guimarães Rosa se estreitou em 2006, quando ela ficou encarregada da montagem da primeira exposição do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Foi só ao aceitar essa tarefa que ela leu o livro pela primeira vez. “Por uma questão óbvia, pensei em Grande Sertão: Veredas, pois Guimarães é um inventor de linguagem, um grande estudioso da tradição oral. Na época, achei empobrecedor colocar imagens naquele trabalho. Não cabia naquele momento, então resolvi fazer uma mostra só com palavras. Dez anos depois, me vi com o desejo de voltar a fazer teatro e sempre achei que essa linguagem cobra da gente uma outra vida. Escolhi retornar a essa obra porque o processo em si já seria muito rico, mesmo se não conseguíssemos montar um espetáculo”.

Cerca de 250 bonecos de feltro em tamanho natural compõem o palco-instalação. Foto: Roberto Pontes/Divulgação

Cerca de 250 bonecos de feltro em tamanho natural compõem o palco-instalação. Foto: Roberto Pontes

O processo, segundo a criadora, se desenvolveu a partir de uma provocação. “Todo mundo me desaconselhava a montar esse livro. Chamei vários escritores e eles me diziam: ‘não mexe nisso’. O fato de as pessoas me desencorajarem, na verdade, me encorajava. Peguei trechos do livro e montei como foi escrito. A adaptação foi feita durante o jogo cênico. Era importante falar sobre a linguagem, pois o estilo dessa obra me atraía tanto quanto seu conteúdo”. Já o diálogo de Grande Sertão: Veredas com o Brasil atual, segundo Bia, é fácil de ver. A história de Riobaldo, ex-jagunço que vendeu a alma ao diabo e teve uma relação delicada com Diadorim, figura andrógina das mais fascinantes da literatura brasileira, tem desdobramentos diretos na atualidade. “Estamos em um retrocesso mundial gravíssimo. Ele apresenta uma questão importante de gênero, mostra a importância do indivíduo e coloca o homem onde ele de fato deve estar: em uma relação equivalente com os bichos, os minerais, em vez de superior à natureza”.

A passagem do tour de force cênico pelo Recife faz parte de uma turnê nacional – sem patrocínio, é bom que se diga. Sem subsídio, os ingressos ficaram com um preço acima da média mesmo em comparação a outros espetáculos nacionais de grande porte. O valor deles também está diretamente atrelado à experiência do público. Ao contrário das temporadas no Rio e em São Paulo, que foram encenadas em locais nos quais a plateia ficava muito próxima dos atores, respectivamente no Centro Cultural Banco do Brasil e no Sesc Consolação, a apresentação no Recife vai ocupar uma casa de espetáculos que pode ser tudo, menos intimista.

Os mais de 2 mil lugares do Teatro Guararapes devem alterar de forma radical a experiência proporcionada pela montagem. Apenas 200 pessoas que pagarem o valor mais elevado – R$ 200, sem direito a meia-entrada – poderão ficar no palco em uma estrutura similar à original. Elas terão direito a fones de ouvido com um desenho de som que mistura as falas dos atores, a trilha de Egberto Gismonti e os efeitos sonoros do sertão. Já o restante da plateia, que terá uma experiência menos imersiva, terá acesso a uma paisagem sonora diferente, com as vozes amplificadas dos atores preenchendo o espaço.

Serviço:
Grande Sertão: Veredas
Quando: 08 de julho (domingo), às 19h
Onde: Teatro Guararapes – Centro de Convenções, s/n, Salgadinho, Olinda
Ingressos: R$ 200 (assentos na plateia com fone de ouvido, sem meia-entrada); R$ 160 e R$ 80 (meia) para plateia AA até BB; R$ 140 e R$ 70 (meia) da plateia BC em diante e R$ 100 e R$ 50 (meia) para o balcão, com ingressos à venda pelo site Eventim e na bilheteria do teatro
Informações: (81) 3182-8020

Ficha Técnica
Concepção, Direção Geral, Adaptação e Desenho de Luz: Bia Lessa
Elenco: Balbino de Paula, Caio Blat, Daniel Passi, Elias de Castro, José Maria Rodrigues, Leonardo Miggiorin, Lucas Oranmian, Luisa Arraes, Luiza Lemmertz, Clara Lessa
Concepção espacial: Camila Toledo, com colaboração de Paulo Mendes da Rocha
Música: Egberto Gismonti
Colaboração: Dany Roland
Desenho de som: Fernando Henna e Daniel Turini
Adereços: Fernando Mello Da Costa
Figurino: Sylvie Leblanc
Desenho de luz: Binho Schaefer
Projeto de áudio: Marcio Pilot
Diretor assistente: Bruno Siniscalchi
Assistente de direção: Amália Lima
Direção executiva: Maria Duarte
Produtor executivo: Arlindo Hartz
Colaboração: Flora Sussekind, Marília Rothier, Silviano Santiago, Ana Luiza Martins Costa, Roberto Machado
Idealização e realização: 2+3 Produções Artísticas Ltda
Apoio institucional : Banco do Brasil | Globosat
Duração: 140 minutos
Classificação: 18 anos
Apoio: BMA Advogados | Instituto-E | Om Art
Agradecimento especial à viúva do autor, a quem a obra foi dedicada, Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa, à Nonada Cultural e a Tess Advogados

 

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A Visita da Velha Senhora reacende debate entre ética e sobrevivência

Denise Fraga protagoniza espetáculo de Friedrich Dürrenmatt e divide a cena com mais doze atores, incluindo o pernambucano Tuca Andrada. Foto: Cacá Bernardes

Denise Fraga protagoniza espetáculo de Friedrich Dürrenmatt e divide a cena com mais doze atores, incluindo o pernambucano Tuca Andrada. Foto: Cacá Bernardes

Ao chegar ao Recife em 2016 com a peça Galileu Galilei, de Bertolt Brecht, Denise Fraga disse, em mais de uma entrevista, que encenou o espetáculo para refletir sobre o incômodo que sentia ao ver pessoas justificando o injustificável e fazendo cara de paisagem para os mais diversos absurdos. É com o mesmo espírito que ela vem novamente ao Recife com o espetáculo A Visita da Velha Senhora, peça de Friedrich Dürrenmatt que se tornou um clássico instantâneo do teatro contemporâneo. A peça terá quatro sessões no Teatro de Santa Isabel, desta quinta (24) até o domingo (27). Junto com A alma boa de Setsuan, que a atriz protagonizou em 2008, Denise diz ter encenado uma trilogia que põe no palco o dilema entre ser ético e sobreviver em um mundo que incentiva a injustiça.

Quem conta essa história é um elenco de 13 pessoas, incluindo, além de Denise, o pernambucano Tuca Andrada. A bilionária Claire Zahanassian chega a Güllen, cidade onde viveu os primeiros anos de sua vida, e a encontra falida. Seu objetivo é colocar a localidade inteira a serviço de seu plano de vingança, propondo doar um bilhão aos seus habitantes se eles matarem Alfred Krank, uma antiga paixão que a abandonou grávida para se casar com outra por interesse. De início, todos acham a oferta um absurdo, mas a ricaça desarma, aos poucos, a resistência da cidade com a frase “eu posso esperar”, instalando-se no hotel da cidade com seu séquito. Previsivelmente, a morte de Krank passa de algo absurdo a necessário.

Como poucas coisas no mundo, o humor pode servir, ao mesmo tempo, como instrumento de cumplicidade e reflexão. É o que parece ser a opinião de Denise, mais uma vez mergulhando no teatro épico. “A peça não só é atual como dá a impressão de ser quase encomendada para os dias de hoje. Dürrenmatt escreve uma série de cenas que demonstram como nossos valores morais vão se adequando ao poder econômico. Ele é genial porque escreveu uma tragédia em timing cômico. A Claire é a encarnação do capital na figura de uma mulher que foi massacrada. O autor não a concebeu como uma vilã absoluta. Ela é simpática, espirituosa, muito carismática e, além disso, a dor dela está em cena. Luiz Vilaça [diretor do espetáculo] inclui a plateia como cidadãos dessa cidade. Quem vê a peça fica dividido, pois fica com raiva mas diz entender o lado dela”.

O pernambucano Tuca Andrada, que interpreta Alfred Krank, volta à cidade com A visita da velha senhora após mais de dez anos longe dos palcos locais. De acordo com o ator, o caráter duvidoso do personagem vai sofrer uma transformação profunda ao longo do espetáculo. “Krank é o único personagem verdadeiramente trágico da peça. Os outros são o que são. Ele percebe a amplitude de seu crime e começa a refletir quando não encontra mais saída. É preciso ter muita atenção ao fazer um personagem como esse, pois ele não é vilão e nem mocinho. Todos nós cometemos erros, todos nós somos vítimas. A situação dele é uma metáfora da sociedade, pois o texto traz uma discussão muito inteligente sobre o que é justiça e a quem ela serve. No Brasil, por exemplo, quem rouba milhões não vai preso, mas um pobre que rouba um pão morre dentro da cadeia. São muitas discussões e recusei outros trabalhos para vivenciar isso, especialmente com um elenco tão bom de 13 pessoas. Não sei quando vou ter essa chance de novo”.

Denise também diz ser questionada pelas pessoas sobre o porquê de ser vista muito mais em trabalhos cômicos. Embora, em A visita da velha senhora, o tema tenha um quê trágico, a atriz afirma que o humor é uma escolha ética, além de estética, para sua carreira. “Acredito no humor e na ironia como trilha para o pensamento. A peça diverte e, ao mesmo tempo, dá voz à nossa angústia. Talvez essa seja uma das maiores funções do teatro hoje: dar a palavra às pessoas. A arte funciona como um espelho para a gente se ver”.

Serviço:
A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt
Quando: Dias 24, 25, 26 e 27 de maio – quinta a sábado, às 20h; domingo, às 18h
Onde: Teatro de Santa Isabel (Praça da República, s/n, Santo Antônio)
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 120 min
Gênero: Comédia Trágica
Ingressos: R$ 70 e R$ 35 (meia) para a plateia e R$ 50 e R$ 25 (meia) para o terceiro piso
Informações: (81) 3355-3323

Ficha Técnica: 
Autor: Friedrich Dürrenmatt
Stage rights by Diogenes Verlag AG Zürich
Tradução: Christine Röhrig
Adaptação: Christine Röhrig, Denise Fraga e Maristela Chelala
Direção Geral: Luiz Villaça
Direção de Produção: José Maria
Elenco: Denise Fraga, Tuca Andrada, Fábio Herford, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Maristela Chelala, Renato Caldas, Beto Matos, David Taiyu, Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino
Direção de Arte: Ronaldo Fraga
Direção Musical: Dimi Kireeff
Trilha Sonora Original: Dimi Kireeff e Rafael Faustino
Desenho de Luz: Nadja Naira
Produção Executiva: Marita Prado
Preparação Corporal e Coreografias: Keila Bueno
Direção Vocal: Lucia Gayotto
Preparação Vocal: Andrea Drigo
Visagismo: Simone Batata
Assistente de Direção: André Dib
Assistente de Produção Musical: Nara Guimarães
Engenheiro de Mixagem: Fernando Gressler
Camareira: Cristiane Ferreira
Assistente de Iluminação e Operador de Luz: Robson Lima
Operador de Som: Janice Rodrigues
Cenotécnicos: Jeferson Batista de Santana, Edmilson Ferreira da Silva
Assessoria Financeira: Cristiane Souza
Fotografia: Cacá Bernardes
Making Of: Pedro Villaça e Flávio Torres
Redes Sociais: Nino Villaça
Programação visual: Gustavo Xella
Assessoria de Imprensa BH: Personal Press
Projeto realizado através da Lei Federal de Incentivo à Cultura
Produção Original: SESI São Paulo
Patrocínio Exclusivo: Bradesco
Realização: NIA Teatro, Ministério da Cultura e Governo Federal

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Teatro de Fronteira encena Ligações Perigosas para falar da sociedade de hoje

Rodrigo Dourado (à esq.) e Rafael Almeida voltam a trabalhar como atores após anos afastados a partir do texto clássico de Choderlos de Laclos, com direção de João Denys. Foto: Ricardo Maciel

Rodrigo Dourado (à esq.) e Rafael Almeida voltam a trabalhar como atores após anos afastados a partir do texto clássico de Choderlos de Laclos, com direção de João Denys. Foto: Ricardo Maciel

O livro As ligações perigosas, clássico de Choderlos de Laclos, já seduziu muitos artistas no cinema e no teatro. Basta lembrar da versão levada ao cinema por Stephen Frears em 1988, que tomou um lugar cativo na cultura pop. A marquesa de Mertreuil e o conde de Valmont são mais do que personagens, mas arquétipos de uma elite insensível e libertina, que destrói vidas por pura diversão. O Teatro de Fronteira, que sempre apostou em uma linguagem mais documental, baseada no biodrama, usa o mesmo material para dar um ponto de inflexão em sua trajetória.

Em Ligações perigosas, que estreia nesta sexta (18) e fica em temporada até o próximo dia 29, no Teatro Hermilo Borba Filho, no Bairro do Recife, o vazio barroco da aristocracia pré-Revolução Francesa é mostrado em uma encenação mais próxima das origens do livro, um romance epistolar, focado na troca de cartas entre os aristocratas. Para quem não leu o livro nem viu as várias adaptações para o cinema, os ex-amantes competem entre si para ver quem corrompe garotas ou jovens mulheres, fazendo-as trair suas convicções de castidade e fidelidade.

Mais do que falar sobre intrigas amorosas, o texto é uma crítica social afiada de uma sociedade à beira do colapso, nada muito diferente de hoje, segundo o Teatro de Fronteira. Além de apontar o dedo para uma elite cuja insensibilidade parece ser eterna, o grupo também coloca em xeque um certo tipo de fazer teatral por meio da paródia. A decadência da elite francesa da época, alheia ao sofrimento do povo e entretida em seus jogos de sedução é posta em cena a partir da contracena dos dois atores ao redor de uma mesa, como se estivessem em um banquete.

A dissonância desse grupo social com a realidade, segundo Rodrigo, é sublinhada pelos elementos visuais do espetáculo. “A mesa é acionada como um local do encontro e também do enfrentamento. Ao mesmo tempo, o figurino e a maquiagem nos deixam com aspecto de usados, gastos, em referência a uma elite que insiste em permanecer fazendo um teatro enquanto o resto do mundo está se explodindo. Alguém pode pensar que estamos fazendo um ‘teatrão’ de fato, mas esse é o risco de fazermos uma paródia”.

A peça também traz de volta ao palco dois artistas que não pisavam nele havia alguns anos: Rodrigo Dourado, há dez anos sem atuar, e Rafael Almeida, há seis anos fora de cena. A dupla convidou, então, o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) João Denys Araújo Leite para dirigi-los em um processo que leva a teatralidade às últimas consequências. “Queríamos esse exagero. Acho que um bom texto é atemporal. Ele sempre vai falar a quem quiser ouvi-lo. Choderlos de Laclos põe as vísceras de uma sociedade sobre a mesa. Ligações perigosas fala muito das relações sociais e podemos usar a obra como metáfora para entender também o Brasil”, reflete Rafael.

O processo da montagem foi iniciado com a vontade de Rodrigo, também professor da Universidade Federal de Pernambuco, de voltar a trabalhar como ator, após consolidar uma carreira no Recife como diretor. Rafael, por sua vez, faz doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), já foi da Trupe do Barulho e trabalhou no teatro em várias frentes, seja como diretor ou como cenógrafo. O que liga ambos a João Denys é a ligação dos três com a palavra. “Sempre me interessei pelos clássicos e começamos uma pesquisa para um texto para dois atores e nos deparamos com esse texto. Minha formação é a da dramaturgia e minha escola de atuação é ‘old school’. Eu, Rafael e Denys temos em comum essa conexão com a literatura e enxergamos em As ligações perigosas uma potência teatral muito grande. Mertreuil e Valmont encenam os jogos de conquista deles. Eles brincam de interpretar”, detalha Rodrigo.

Embora o Teatro de Fronteira tenha trabalhado, em seus espetáculos, um material dramatúrgico vindo diretamente da experiência de vida dos atores ou recorrido a uma dramaturgia costurada a partir de acontecimentos reais, Rodrigo não considera uma contradição montar Ligações perigosas. “Esta adaptação é bastante literária, metafórica e até um pouco barroca. Talvez o público estranhe essa opção por uma linguagem cheia de licenças poéticas em relação ao que ele tem visto como obra do nosso coletivo, mas, no fim das contas, acho isso bom. Teatro é conflito, e o grupo está vivendo esse paradoxo”, reflete Rodrigo.

Serviço:

Ligações Perigosas, do Teatro de Fronteira
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife)
Quando: 18 a 27 de maio de 2018 (sextas e sábados às 20h; domingos, às 19h)
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação Indicativa: 16 anos
Duração: 70 minutos
Informações: 3355-3320 / 3355-3321

Ficha Técnica:

Elenco: Rafael Almeida e Rodrigo Dourado
Direção: João Denys Araújo Leite
Adaptação dramatúrgica: Teatro de Fronteira
Direção de produção: Rodrigo Cavalcanti
Figurinos, adereços e maquiagem: Marcondes Lima
Confecção de adereços: Álcio Lins e Rafael Almeida
Cenografia: João Denys Araújo Leite
Assistentes de cenografia: Manuel Carlos e Rafael Almeida
Cenotecnia: Israel Marinho, Manuel Carlos e Rafael Almeida
Design e execução de luz: João Guilherme de Paula
Sonoplastia: João Denys Araújo Leite
Assistente de sonoplastia: Rafael Almeida
Execução de sonoplastia: Marconi Bispo
Identidade visual: Michel Souza
Fotos e vídeo: Ricardo Maciel
Assessoria de Imprensa: Cleyton Cabral
Realização: Teatro de Fronteira

 

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Nostradamus quer ser superprodução pernambucana

Médico chamou a atenção do clero da sua época com profecias. Foto: Leandro Lima

Médico chamou a atenção do clero da sua época com profecias. Foto: Leandro Lima

O espetáculo Nostradamus, da Delfos Produções, estreia no dia 16 de maio, esta quarta-feira, com o desejo de ser uma superprodução pernambucana. Com 13 atores e um custo divulgado de R$ 150 mil, o carro-chefe do espetáculo é a dramaturgia de Doc Comparato, roteirista famoso por seus trabalhos no cinema e na TV, mas pouco visto nos palcos. O texto é uma visão pessoal de Doc sobre a figura controversa de Michel de Nostradame (1503-1566), médico francês que ficou famoso por suas profecias.

Para divulgar o espetáculo para a imprensa, a produção do espetáculo agendou uma entrevista coletiva num lugar inusitado: a Assembleia Legislativa de Pernambuco. Quem intermediou o uso do espaço foi o deputado estadual Waldemar Borges (PSB), por quem a equipe da peça e jornalistas tiveram de esperar durante uma hora para que ele começasse o evento com um breve discurso. O ambiente formal da Alepe também levou várias pessoas da equipe do espetáculo a usarem roupas sociais e maquiagem. Já o criador do texto, Doc Comparato, chegou na capital pernambucana na semana passada e foi tratado como convidado de honra. Ele estará na plateia durante a estreia e toda a sua estadia está sendo bancada pela Delfos.

Metido em terno e gravata e com uma maleta inseparável ao seu lado, Doc disse ter começado a comemoração de seus 40 anos de carreira no Recife e descreveu como esta montagem de Nostradamus passou a ganhar forma. “Vim ao Recife em 2016 para dar um curso de roteiro e acabei cedendo os direitos de duas peças da minha autoria: Jamais, Calabar, com direção de Jorge Farjalla, e esta. Criei Nostradamus em 1982, em Nova Friburgo. Estava de férias no sítio do meu pai e escrevia uma ou duas cenas por dia. Li muito sobre a época na qual ele viveu, mas depois de estar embebido daquilo, joguei fora”.

O potencial da vida de Nostradamus como material dramático, segundo Doc, foi explorado a partir da incompreensão das pessoas de sua época e do fascínio provocado por sua figura. “Imagine aquele homem falando do terceiro milênio, da 2ª Guerra Mundial no século 16. Aquilo ali não dizia respeito às pessoas daquele tempo. Também achava aquilo uma besteira e, recentemente, reli algumas profecias de Nostradamus e levei um choque. Peguei o que me chamou mais atenção, o que era mais vibrante, e o que ele falou realmente aconteceu. A grande pergunta da peça é a seguinte: nós temos destino ou cada um de nós tem poder sobre o livre-arbítrio? Ele era um visionário, um sonhador e Shakespeare diz que somos feitos da mesma matéria dos sonhos”.

A primeira montagem de Nostradamus, encenada em 1986, teve Antônio Fagundes como carro-chefe e Antonio Abujamra como diretor. A peça faz parte do que o autor chama de Trilogia do Tempo, que contém também os textos Michelangelo e O círculo das luzes. “Ninguém me encomenda peças para teatro. Eu é que sento para escrever. Sai da minha alma. É como se fosse um vestido de alta costura, dá um trabalho enorme. Já a televisão é um prêt-à-porter”, reflete Doc.

Mas um texto como esse tem relevância para os dias de hoje? O diretor da peça, Anderson Leite, acredita que sim. O encenador é, originalmente, do grupo São Gens de Teatro e foi chamado pela Delfos Produções para tocar o projeto e ajudar a escolher o elenco. “Nostradamus é visto sobre a ótica do tempo, em um triângulo entre passado, presente e futuro. Os três são uma coisa só. O texto tira o Nostradamus do endeusamento e o coloca como humano”. Em complemento à dramaturgia, ele diz ter tomado algumas liberdades. Uma dramaturgia paralela e não-verbal foi criada com a participação do multiartista Messias Black, que encarna um personagem misterioso. “Ele é um prisioneiro do tempo, um personagem que aparece em momentos de transição”.

A montagem, por sua vez, é a culminância de um processo que já dura dois anos, tempo necessário para montar o elenco, fazer a troca de alguns atores e levantar recursos financeiros, no caso dessa peça específica bastante volumosos para uma produção local – especialmente em tempos de crise. “Usamos recursos próprios e muita coisa não foi orçada em dinheiro, mas em serviços”, justifica Ana Patrícia Vaz Manso, produtora da peça junto com Matheus Vaz. Ela foi a responsável por comprar os direitos do texto após participar do curso de roteiro que Doc ministrou no Recife em 2016.

Os planos para a produção são ambiciosos. Os produtores dizem estar em negociações para levar o espetáculo a todas as capitais do Nordeste até janeiro de 2019, em 22 apresentações, quatro delas no Recife. A dupla também afirma estar em captação de recursos para circular pela Região Norte e colocaram outra meta que parece ainda mais difícil de realizar: levar a montagem até o Festival de Avignon, na França, um dos mais importantes do mundo, no ano que vem. “Nostradamus viveu na cidade, então tem tudo a ver. Já faz quatro anos que nenhuma peça brasileira se apresenta lá. Se não conseguirmos entrar na programação oficial, queremos encenar Nostradamus em alguma produção paralela”, sonha Ana Patrícia.

Serviço:
Nostradamus, da Delfos Produções
Quando: 16 de maio (quarta), às 20h
Onde: Teatro de Santa Isabel – Praça da República, s/n, Santo Antônio
Quanto: R$ 60 e R$ 30 (meia)
Informações: (81) 3355-3323 ou espetaculonostradamus@gmail.com

Ficha técnica: 
Dramaturgia: Doc Comparato
Direção: Anderson Leite
Produção executiva: Ana Patrícia Manso e Matheus Vaz
Elenco: Alberto Oliveira, Anaýra Bandeira, Cristiano Primo, Halberys Morais, Hannah Minervino, Isabela Leão, Mário Coelho, Messias Black, Patrícia Manso, Paulo César Freire, Thiago Leal, Ulisses Nascimento e Vanessa Sueidy
Trilha sonora: Raphael Souto
Cenografia: Anderson Leite
Cenotécnico: Paulo Régis
Iluminação: João Guilherme de Paula
Figurino: Deivison Maciel e Patrícia Manso
Preparação de elenco: Manoel Constantino
Programação visual: Matheus Vaz
Maquiagem: Ana Paula Oliveira
Adereços: Lourdes Alves e Paulo Régis
Assistentes de produção: Halberys Morais, Ivaldo Cunha Filho, Paulo César Freire Ulisses Nascimento
Sonoplastia: Paulo César Freire
Assistente administrativo: Magno Holanda
Música tema “Sabina”: Vanessa Sueidy
Assessoria de Imprensa: Deva Mendes
Fotografia: Leandro Lima e Matheus Vaz
Realização: Delfos Produções

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