Arquivo mensais:março 2011

O nome do teatro

O Parque Dona Lindu será inaugurado sábado. Com ele, o recifense ganha o Teatro Luiz Mendonça, homenagem ao ator e diretor Luiz Gonzaga Lucena de Mendonça, nascido no Brejo da Madre de Deus, em 1931 e morto no Rio de Janeiro em 1995.

Ele é descendente da família Mendonça, que fundou o Teatro de Nova Jerusalém, onde é encenada a Paixão de Cristo, na qual ele interpretou Jesus de 1952 a 1968.

Em 1956, participou como ator da primeira e histórica montagem do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, pelo Teatro Adolescente do Recife, com direção de Clênio Wanderley. No Recife, a peça sai de cartaz no quinto dia. Mas no ano seguinte, obtém o primeiro lugar do 1º Festival de Amadores Nacionais, no Rio de Janeiro, consagrando o grupo e projetando para todo o Brasil o dramaturgo Suassuna.

Mendonça também participa ativamente do Movimento de Cultura Popular – MCP, no Recife, fundado por Miguel Arraes. Até sua morte montou dezenas de peças, no Recife e no Rio de Janeiro.

A programação da inauguração do Parque Dona Lindu ainda não foi divulgada pela prefeitura do Recife. A PCR já ensaiou alguns anúncios desse lançamento, o que deve ser feito hoje. (A Prefeitura anunciou hoje que a coletiva de imprensa será nesta terça. No Teatro de Santa Isabel! Oi?!)

O dramaturgo Luiz Marinho e o escritor Osman Lins também estavam no páreo para emprestarem seus nomes ao teatro.

O que você achou da escolha do nome de Luiz Mendonça? Vote na nossa enquete.

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , ,

O palco gira no Recife

Como de costume, o festival Palco Giratório no Recife será realizado no mês de maio. A grade de programação completa – que inclui convidados de outros estados que não estão na circulação nacional e atrações locais – não está totalmente definida. Ainda assim, Galiana Brasil adianta que está dando maior foco para as estreias ou para espetáculos que não conseguiram tanta visibilidade.

Uma das novidades deste ano é a criação de um circuito gastronômico aliado ao festival, com pratos que vão fazer homenagens a espetáculos da programação. As criações serão do chef César Santos, do restaurante Oficina do sabor. “Os locais que vão participar deste circuito ainda estão sendo fechados, mas sei, por exemplo, que o restaurante do Senac já foi confirmado”, diz Galiana.

O Espaço Muda (Rua do Lima), que vem se firmando como reduto e alternativa para vários espetáculos cênicos, foi incluído no festival. Vai sediar a Cena bacante, programação que será realizada no final das noites, depois das sessões nos teatros tradicionais. “Será uma celebração com teatro e vinho”, propõe a curadora.

O recurso de audiodescrição, utilizado ano passado em alguns espetáculos locais, para facilitar o acesso às pessoas com deficiência ou dificuldades visuais, deve ser ampliado. “Queremos que tenha audiodescrição para um número maior de espetáculos. Rebú, por exemplo, da companhia Teatro Independente, do Rio de Janeiro, terá o recurso”.

Rebú terá recurso de áudiodescrição / Foto: Paula Kossatz

A expectativa é que a grade de programação tenha entre 15 e 20 espetáculos de várias linguagens – assim como é a própria seleção do Palco nacional – com montagens de teatro adulto, infantil, dança, teatro de rua, de animação. Alguns acertos ainda precisam ser fechados. “Queríamos muito trazer o Teatro Piollin, de João Pessoa, com o espetáculo Retábulo, mas ainda não sabemos como será, porque eles precisavam de um espaço como era o Teatro Armazém, e talvez o Nascedouro de Peixinhos, que poderia ser uma alternativa, esteja em reforma”, diz.

Espetáculo do Piollin pode vir ao Recife no Palco

Os espaços que vão participar da mostra, aliás, também não foram decididos. O Parque Dona Lindu, por exemplo, poderia ser uma opção. Para alguns teatros municipais, no entanto, como o Teatro Apolo e o Barreto Júnior, o festival terá que arcar com alguns custos extras, como o aluguel de iluminação. “É ruim, porque esse dinheiro poderia servir para trazer mais grupo”, finaliza Galiana.

Postado com as tags: , , , , , , , , ,

Teatro nos quatro cantos do país

Na última semana estive em Florianópolis, Santa Catarina, para o lançamento nacional do Palco Giratório. É o maior circuito de artes cênicas do país. Não duvide do adjetivo. Aqui, o ´maior` tem razão de ser. Ou você já teve notícias de algum festival que percorra todos os estados brasileiros, incluindo o Distrito Federal, passando por 114 cidades, com 728 apresentações no total? Pois é. Esse é o Palco Giratório, promovido pelo Sesc, neste ano na 14ª edição.

Em Pernambuco, as apresentações começam no mês de abril. O espetáculo catarinense do grupo Persona cia. de Teatro & Teatro em Trâmite, chamado A galinha degolada, vai circular por cinco cidades do interior: Garanhuns, Caruaru, Arcoverde, Triunfo e Petrolina. No mês seguinte, é a vez do Festival Palco Giratório tomar conta da capital pernambucana, com espetáculos que compõem a grade nacional de circulação, outros grupos convidados e ainda companhias locais. Outras quatro cidades ainda vão receber encenações do projeto ao longo do ano.

Galinha Degolada, da Persona cia. de Teatro & Teatro em Trâmite (SC)

Escolher os 16 grupos que vão se apresentar por todo o país, com 37 espetáculos, e montar a logística do circuito são os principais desafios. Cerca de 80 montagens disputaram a seleção este ano. “As coordenações regionais, que participam da escolha, têm autonomia para fazer sugestões de espetáculos, que são copiados em DVDs para todos os participantes. Quem é do estado do grupo e está fazendo a indicação tem que ter visto o espetáculo ao vivo. Depois, durante dez dias, temos um encontro para discutir quais serão os grupos”, explicou Raphael Vianna, técnico de teatro que faz parte da coordenação nacional do projeto.

Galiana Brasil, representante pernambucana no grupo de curadores, diz que existe uma verdadeira ´defesa` dos espetáculos. “O curador tem que conhecer a cena do seu estado porque a escolha é feita através de indicações. Não há, por exemplo, um edital, com requisitos a serem cumpridos”.

O fato é que a seleção possibilita um amplo panorama do que está sendo produzido em artes cênicas em todas as regiões do país. Este ano, algumas particularidades ou, quem sabe, tendências, puderam ser elencadas. “Percebemos, por exemplo, o fim da era dos monólogos e o teatro de grupo aparecendo com muita força”, explica Galiana. Além disso, cada vez mais espetáculos de dança participam da seleção (o pernambucano Leve, do coletivo Lugar Comum, foi um dos contemplados pelo projeto e há ainda espetáculos de dança do Ceará e de Manaus) e houve dificuldade para selecionar espetáculos de teatro de rua.

O mundo tá virado, do Imbuaça (SE)

Um dos escolhidos nesta área foi o grupo Imbuaça, de Sergipe, que não vai ao Recife há cerca de dez anos. “Nós devemos circular por 15 estados e fazer 70 apresentações. Que outro projeto nos permite isso? Uma programação anual de espetáculos?”, questionou Lindolfo Amaral, do Imbuaça. O grupo, aliás, esteve na 1ª edição do Palco Giratório, em 1998, com o espetáculo A barca do inferno, sob direção de João Marcelino. À época, fizeram apresentações somente em Pernambuco. Neste ano, o grupo completa 34 de carreira.

“É mais que um prêmio. É a oportunidade de ficar um ano inteiro apresentando um espetáculo, o que normalmente é muito difícil conseguir”, explicou a atriz Pagu Leal, do grupo curitibano Delírio, que no Recife deve apresentar o espetáculo Evangelho segundo São Mateus, a história de um filho e seu retorno hipotético à casa dos pais.

Evangelho segundo São Mateus, do grupo Delírio (PR)

“É um processo de troca rico para o próprio trabalho, porque você tem que repensar a obra por conta do olhar das outras pessoas, das dúvidas e questões que vão surgindo”, explicou Vinícius Arneiro, diretor do espetáculo Rebú, do grupo Teatro Independente, do Rio, que abriu a programação de itinerância em Florianópolis. Em São Miguel do Oeste, o espetáculo apresentado foi Frankenstein, da Cia. Polichinelo, de São Paulo.

Frankenstein, da Cia. Polichinelo (SP)

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , ,

Breves cenas em Manaus

Foto: Guto Muniz / Ensaio para outra história (MG)

15 cenas com até 15 minutos de duração. Experimentos que são resultados de processos colaborativos. Esse é o principal diferencial de um festival que foi realizado em Manaus: o Breves Cenas de Teatro, que terminou neste domingo (20). As apresentações foram no Teatro Amazonas.

Essa é a 3ª edição do festival e sete estados participaram. Pernambuco nunca esteve na programação – pelo menos não no palco. Este ano, estiveram por lá o ator, jornalista e pesquisador teatral Leidson Ferraz (que mediou os debates), o diretor Wellington Júnior (coordenando o núcleo Ensaios quadriláteros, um espaço para discussão crítica da programação através de textos) e Luciano Rogério e Roberto Carlos, produtores da Renascer Produções Culturais. Esses dois últimos pretendem realizar ainda este ano no Recife a 1ª Mostra de Teatro da Amazônia em Pernambuco.

A programação da mostra foi bastante diversa. Teve drama, comédia, performance e muitos experimentos de linguagem híbrida. No primeiro dia, por exemplo, se apresentaram Grupo Baião de Dois (AM), Izabel Stewart (MG) e a Clã de Nós, do Rio de Janeiro. Neste domingo, encerraram a programação Rívisson Zürc (BA), a Cia. Amattores Eventos (AM), Gerrah Tenfuss (SP) e o grupo Quarto de teatro (RJ). Queremos saber por aqui como foi o festival e, inclusive, a premiação, que não estabelece categorias pré-determinadas. Ano que vem, quem sabe teremos mais pernambucanos em Manaus!

Foto: Dyego Monnzaho / O Teatro Amazonas

Postado com as tags: , , , , , , , ,

Madleia, de Celibi

Foto Ivana Moura

Amor e ódio eletrificam Medeia, protagonista da tragédia grega de Eurípides, escrita em 431 a.C., que tem como fonte o mito dos Argonautas e a busca do Velocino de Ouro. Em Eurípides, o retrato dessa mulher desesperada frente a consumação da perda de seu homem para outra mais jovem, mais rica e temporariamente mais poderosa é de uma fúria de tsunami, que irá destruir parte da realidade que a rodeia.

Na tragédia grega, Jasão larga Medeia e seus dois filhos para se casar com a filha do rei de Corinto, Creonte. Esposa repudiada e estrangeira perseguida, a protagonista vai resolver as mágoas (ou parte delas) com as próprias mãos. Medeia já havia “traído” sua pátria e sua família, para promover e proteger Jasão, por quem se apaixonou e com ele se exilou em Corinto, depois de provocarem a morte do rei de Iolco.

Para vingar-se do homem que ama, Medeia assassina os próprios filhos, frutos do casamento com Jasão. Mas antes envia um presente de grego à nova noiva, um manto que mata a princesa e o rei. E sai de cena vitoriosa e sobre-humana, após abandonar sua condição humana, no carro de seu avô, o Sol.

Em Gota D’Água, de Chico Buarque de Hollanda e Paulo Pontes, o território é transferido para a periferia do Rio de Janeiro, um conjunto habitacional popular chamado Vila do Meio-Dia, onde os subalternos se viram de todo jeito para sobreviver.

Creonte de Vasconcelos é o proprietário dos imóveis populares, e impõe aos seus moradores salgadas taxas juros, o que provoca alto índice de inadimplência.

O sambista Jasão de Oliveira é o futuro genro do dono do império imobiliário, que ganhou visibilidade graças ao seu samba Gota d’água.

E mestre Egeu é uma espécie de liderança comunitária, fruto da combinação do rei de Atenas que promete exílio para Medeia, e o preceptor dos filhos dela. Indignado, ele estimula os vizinhos a combaterem os juros abusivos cobrados por Creonte. Mestre Egeu lidera o “coro dos descontentes”.

A feiticeira grega Medeia transforma-se na macumbeira brasileira Joana.

A primeira montagem dessa tragédia urbana estreou em 26 de dezembro de 1975 e teve Bibi Ferreira no papel de Joana, com direção de Gianni Ratto e direção musical de Dory Caymmi. Bibi Ferreira gravou o áudio de sua atuação que influenciou gerações futuras.

Foto: Ivana Moura

O avassalador ressentimento amoroso da heroína ganha contornos melodramáticos em Madleia + ou – Doida, da Companhia do Chiste, que tem roteiro de Henrique Celibi, direção de Carlos Bartolomeu e Henrique Celibi e Daniel Silva no elenco. A montagem busca na Música Popular Brasileira (MPB) as expressões de desvario dessa mulher traída e revoltada, que conclama os orixás para trazer “seu” homem de volta.

Madleia retira a força das relações estáveis para inserir a personagem numa contemporaneidade líquida. Ao convocar um repertório da música popular brasileira de teor romântico, a montagem parece dividir a protagonista em várias outras. A que reage de várias formas ao abandono; a que não suporta o desamor do homem que ela ajudou a construir. Da maquiavélica que elabora uma vingança cruel contra a mulher que fisgou seu amado. E a que atenta contra seus filhos pequenos, como forma de punir o pai.

No centro do palco encontramos Henrique Celibi, que comemora 30 anos de carreira. Nessa bricolagem dos textos de Medeia de Eurípedes e Gota d´Água de Chico Buarque de Hollanda e Paulo Pontes, com enxetos popularíssimos de dor-de-cotovelo, Celibi projeta seu talento e ganha a plateia, às vezes com mínimos gestos, uma virada de cabeça, uma sutileza com as mãos. Mas tudo com um timing preciso e pessoal.

Em alguns momentos, para representar os fantasmas de Madleia, aparece o bailarino Daniel Silva, proporcionando imagens de alguma beleza.

Ao optar pelo brega, pela melodramático, os artistas fazem uma manobra difícil. Enquanto absorvem o que predomina na indústria cultural, criticam esse modelo da sociedade de consumo. Mas não é uma crítica quadrada, chata, mas munida da irreverência, a partir das suas próprias heranças culturais.

Vale lembrar que tanto Celibi, quanto o diretor Carlos Bartolomeu participaram do Vivencial Diversiones. O grupo teatral que se desenvolveu em Olinda, foi influenciado pelo tropicalismo e pela contracultura. Entre os anos 1970 e 1980 foi um campo de irreverência e transgressão da cena cultural pernambucana. E ninguém passou pelo Vivencial impunemente. Ele deixou marcas.

Foto: Paulinho Mafe

Tanto no cenário quanto nos adereços predomina um vermelho que se aproxima mais do kitsch das manifestações da indústria cultural, como os programas televisivos populares, do que do pathos da tragédia grega. Com direito até a coraçãozinho de pelúcia.

A partir das músicas que formam uma nova dramaturgia e dos pedaços de Medeia e Joana, Madleia cria seu pastiche com músicas inteiras ou trecho de canções escritas e conhecidas na voz de Chico Buarque, Paulo Pontes, Vanderléia, Roberto Carlos, Fernando Mendes, Maria Bethânia e outras figuras.

Bartolomeu e Celibi dessacralizam a tragédia grega e sob uma determinada perspectiva zombam desse conceito de amor como sentimento natural e universal, que deve estraçalhar a figura que “perde” o objeto amado. Em outra camadas de leitura, o amor passa a ser encarado com uma uma construção social, que em algumas situações passa a ser ridículo. Com Álvaro de Campos e a lembraça dos sentimentos esdrúxulos.

O pastiche carrega também uma carga de ressignificação do mundo, o esvaziamento de sentidos e a banalização do amor. E com isso Madleia faz evaporar a função social presente nas obras de referência anteriores.

Mas o que é realmente maior nessa montagem é a performance de Henrique Celibi. Além de seguro de seu trabalho, ele é carismático e tem personalidade ao atuar. E passa dos excessos melodramáticos, arranca risos e por alguns instantes convence da grande dor de sua personagem.

SERVIÇO
Espetáculo: Madleia + ou – doida
Onde: Teatro Arraial (Rua da Aurora)
Quando: Sábados e domingos, às 19h, até 27 de março
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia)

Roteiro, Figurino e Cenografia: Henrique Celibi
Sonoplastia e Direção: Carlos Bartolomeu
Intérpretes: Henrique Celibi e Daniel Silva

Postado com as tags: , , ,