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Arte em tempos sombrios

O ano em que sonhamos perigosamente é o o oitavo trabalho do Magiluth. Foto: Renata Pires

O ano em que sonhamos perigosamente é o oitavo trabalho do Magiluth. Fotos: Renata Pires

Vivemos em tempos sombrios. Contribuímos para a escravidão de seres humanos e nem ligamos. Em todo mundo milhares de pessoas trabalham em condições abomináveis (longas jornadas, baixos salários, alta pressão) para fabricar produtos, como roupas que você e eu vestimos. Numa cena curta, direta, agressiva de O ano em que sonhamos perigosamente, que estreou na última quinta-feira (11), no Teatro Apolo, no Bairro do Recife, um integrante do Magiluth acusa outro a colaborar com essa situação, pois o segundo está com uma camiseta de uma marca que tem esse histórico.

Há dois dias, o Papa Francisco recebeu o presidente da Rússia, Vladimir Putin, no Vaticano, e fez um apelo para que Putin se comprometa com um esforço grande e sincero para alcançar a paz na Ucrânia, através do diálogo e do cumprimento do acordo de Minsk. Esse foi o segundo encontro entre os dois.

Putin é visto como novo vilão da cena internacional desde o ano passado, quando a tensão entre a Rússia e o Ocidente chegou ao nível mais elevado nos 15 anos da “era Vladimir Putin”, reforçado pela crise ucraniana e a anexação da Crimeia. As chancelarias ocidentais subiram o tom acusatório contra Moscou e chefe do Kremlin respondeu que a Rússia deve ser tratada como uma grande potência. “Os russos não vão pedir permissão a ninguém”, já esbravejou Putin.

Os atores do Magiluth gritam em vários momentos do espetáculo O ano em que sonhamos perigosamente: “Nós somos russos”, ou “Vocês são russos”. O espectador entenda como quiser, ou como puder, já que sabemos que a interpretação está articulada com a bagagem cultural, a imaginação, a memória de cada um. E que a virtualidade de sentido de uma obra fica à espreita de ser concretizada pela recepção, para não esquecer de Wolfgang Iser, e todo espectador pode ser afetado à sua maneira.

Mas temos outro russo muito importante na montagem: Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904). A partir de sua obra, o grupo articula procedimentos ousados de recortes do clássico, iluminando as questões contemporâneas, como as políticas para os espaços públicos nas cidades.

Tchekhov foi um transgressor da tradição literária clássica e criador de um novo paradigma estético do drama contemporâneo, como nos aponta a pesquisadora e professora russa Elena Nikolaevna Vássina, da Universidade de São Paulo (USP), que esteve na capital pernambucana em uma das edições do Festival Recife do Teatro Nacional.

Os rapazes do Magiluth extraem o típico humor tchekhoviano (aquele misto de engraçado e triste ao mesmo tempo), de cenas de A Gaivota, O Jardim das Cerejeiras e As três irmãs. Lembra um drible de craque numa jogada de futebol. É desconcertante.

ESpetáculo está em cartaz às quintas e sextas no Teatro Apolo

Espetáculo está em cartaz às quintas e sextas no Teatro Apolo

O metateatro de A Gaivota assume dimensões ambiciosas se refletirmos que a nova montagem do Magiluth investe em todos os sentidos no processo de criação, nos procedimentos do teatro, na crise da representação (e que extrapolam a questão do palco e se projetam nos atos revolucionários). O poeta Tréplev investe na composição de um novo jeito de fazer teatro. Arkádina, sua mãe é uma veterana atriz ligada aos velhos moldes. Nina é uma atriz em formação e Trigórin é um escritor famoso. Entre ambição, decadência, amores não correspondidos, o autor russo trabalha com um fiapo de conflito, com várias linhas vagas. Nesse sentido, parece um modelo para a trupe pernambucana.

Ao construir essas teias emaranhadas, a rapaziada berra que na sua criação é o teatro que está no centro, como o mais radical dos dispositivos. Isso com todas as citações e cruzamentos. A cena de O ano em que sonhamos perigosamente expõe os aparatos do teatro, com o palco praticamente nu e iluminado. Tchekhov ironiza o dramaturgo protagonista, como parece-me que o Magiluth troça com a criação e suas circunstâncias. E, com a ajuda do escritor russo, eles fazem um acerto de contas com o teatro burguês.

Não é por acaso a escolha desse dramaturgo que supera a trama dramática espetacular, com seus finais abertos. Tchekhov convoca o espectador a ser um participante ativo no ato da criação. Neste novo trabalho, o Magiluth também faz isso. Só que com uma estrutura da peça totalmente fragmentada.

Nesse teatro dentro do teatro, em As três irmãs Prósorov – Irina, Olga e Macha – no plano material estão em situação pior no final da peça. Seus sonhos e esperanças de um futuro promissor escaparam entre as mãos.

Já o trecho escolhido pelos dramaturgos Giordano Castro e Pedro Wagner de O jardim das cerejeiras faz o público pensar que o personagem está falando sobre o Ocupe Estelita e todo o processo de especulação imobiliária que envolve essa questão. É incrível.

Atores ousam ao traçar conexões teóricas e processo criativo. Foto: Renata Pires

Em O ano em que sonhamos perigosamente, as crises política, social e econômica daqui e dali, e do todo mundo e a existencial, deles e nossa, ganham corpo por provocações teóricas vindas do cinema, da crítica, da arte. De maneira rizomática, esse grupo de jovens traça as linhas de resistência ético-estético-político, onde elementos e conceitos se tocam, fazem conexões, explodem em todas as direções. Deleuze e Gattari presentes com seus agenciamentos das máquinas desejantes.

E como corporificar tantos conceitos, tantas referências? Fluxos… Cinco rapazes ensaiam, ou melhor treinam na elaboração de um momento belo. Os urdimentos do palco estão expostos. Com umas frases e movimentos em várias direções, saltos, esforços, o grupo convoca pensamento sobre a beleza em Sócrates e Platão, a beleza da natureza de Kant e a beleza da arte em Hegel. É denso.

Thiago Liberdade deita no chão, baixa a calça e deixa a bunda à mostra e desliza num movimento ondulatório que parece uma cobra, um boto. Giordano Castro admira e comenta: “Isso é lindo!”.

Cinco atores do grupo estão em cena

Os movimentos contestatórios estão no espetáculo

A expressão persa war nam nihadan – “matar uma pessoa, enterrar o corpo e plantar flores sobre a cova para escondê-la”, usada pelo filósofo esloveno Slavoj Žižek, um dos mais provocativos teóricos da contemporaneidade, é dita várias vezes no espetáculo. O titulo da peça, por sinal, é emprestado do seu livro O ano em que sonhamos perigosamente no qual o filósofo traça uma análise corajosa sobre o que chama de “sonhos emancipatórios” (Primavera Árabe, Occupy Wall Street, manifestações em Londres e Atenas) como também dos “sonhos destrutivos”, como a chacina de Anders Breivik, na Noruega, e outros movimentos racistas e ufanistas pelo mundo. Žižek usa a frase para descrever o processo de abafar as mobilizações populares.

O elenco simula resistência: atira pedras ou bombas imaginárias. Há um grito abafado desses homens, que vez por outra eclode. Stela em explosão emocional!!!

O palco vira um campo de forças onde o capitalismo está em xeque com protestos, acampamentos, reivindicações e barricadas desenhadas pelos cinco homens. A revolução continua. Ocupações ganharam o espaço público, o espaço midiático e as redes sociais.

O grego Yorgos Lanthimos – cineasta,que realiza “gênero de filmes em que não se compreende tudo” e ganhou fama internacional com Dente Canino (Prêmio Un Certain Regard, Cannes em 2009) entra no jogo com sua influência de falar do micro para atingir o macro.

O grupo encara os riscos. É muito interessante a exposição dos conflitos da cidade no corpo do ator, essa máquina desejante. Mário Sergio Cabral mostra os pontos de tensões, os lados esquerdo e direito, as nervuras.

Cinco atores no palco. Pedro Wagner, que também dirige a peça, está vestido de tenista. Os outros de camiseta e calça/short. Com a ajuda de caixas de som eles remixam frases e idéias. Dançam em ritmos sincopados. Fazem pequenas intervenções. Contaminam uns aos outros. Mostram os perigos de desejar. Questionam se existem caminhos possíveis e alternativos ao capitalismo neoliberal.

Os sonhadores acordaram do pesadelo. Somos losers/ perdedores? Esse teatro aguça a lucidez nesses tempos da ultra-globalização. Hora de reavaliar o papel da política e dos intelectuais. E também da criação e do teatro.

Na cena, eles usam um pó branco, que produz vários efeitos ao ser lançado para o alto, sobre ventiladores, passado na cara dos atores. A luz de Pedro Vilela ressalta o mecanismo do ser teatro, suas entranhas e processos de construção.

A peça provoca. Desde uma música romântica para descansar a incitações criativas mais duras uns com os outros. A parte da peça em que o grupo articula o gozo teórico me pareceu muito explicativa, o que desestabiliza a força e a fúria de outros momentos.

O elenco está inteiro, entregue ao trabalho com todos os riscos de problematização da mímesis. Com seus corpos como máquinas de guerra, seus jogos a desafiar os limites. A fragmentação, as repetições estilísticas, a gramática de cada ator contribuem para a potência do espetáculo.

E isso é teatro contemporâneo dos bons.

Serviço:
O ano em que sonhamos perigosamente
Quando: Dias 11, 12, 18, 19, 25 e 26 de Junho de 2015, às 20h
Onde: Teatro Apolo (R. do Apolo, 121 – Bairro do Recife)
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)
Informações: (81) 3355-3320

Mário Sergio Cabral e Pedro Wagner ensinam a beijar

Mário Sergio Cabral e Pedro Wagner ensinam a beijar


Ficha Técnica:
Direção: Pedro Wagner
Dramaturgia: Giordano Castro e Pedro Wagner
Atores:  Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sergio Cabral, Pedro Wagner, Thiago Liberdade
Preparação corporal: Flávia Pinheiro
Desenho De Som: Leandro Oliván
Desenho De Luz: Pedro Vilela
Direção De Arte: Flávia Pinheiro
Fotografia: Renata Pires
Design Gráfico: Thiago Liberdade
Caixas De Som: Emanuel Rangel, Jeffeson Mandu e Leandro Oliván
Técnico: Lucas Torres
Realização: Grupo Magiluth

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Escritura clássica no foco da Cia Fiandeiros

Companhia Fiandeiros de Teatro realiza segunda edição do projeto Espaço Fiandeiros Dramaturgia neste mês de junho

Companhia Fiandeiros realiza segunda edição do projeto de Dramaturgia neste mês de junho

A Companhia Fiandeiros de Teatro investe nos processos formativos em artes nesses 12 anos de trajetória. Em 2009, o grupo criou a Escola de Teatro Fiandeiros, que veio suprir uma demanda de formação artística no Recife. Para se ter uma ideia de que existe procura pelo aprendizado na área, somente neste semestre são cinco turmas e 119 alunos matriculados. E os aprendizes já participaram de 13 peças ao longo desses anos.

O texto teatral é uma preocupação constante da trupe. Tanto é assim que no seu repertório constam montagens com escrituras originais compostas a partir de pesquisas inspiradas na dramaturgia pernambucana: Vozes do Recife – um concerto poético (2004), O capataz de Salema (2005), Outra vez, era uma vez…. (2008) e Noturnos (2011).

De 16 a 19 de junho o grupo realiza a primeira etapa da segunda edição do projeto Espaço Fiandeiros – Dramaturgia, com incentivo do Funcultura. O programa é composto de leituras dramáticas dos textos clássicos Antígona, de Sófocles; O canto do cisne, de Tchekhov e A tempestade, de Shakespeare, seguido de debates. Além da palestra A dramaturgia clássica e o teatro contemporâneo: tensões, relações e interseções, com professor da UFPE Rodrigo Dourado, que vai contar com tradução simultânea em Libras.

As leituras serão interpretadas por atores profissionais e alunos da Escola de Teatro Fiandeiros. No segundo semestre haverá apresentação de solos a partir de personagens extraídos das leituras, com participação de diretores convidados.

Na primeira edição do projeto, em 2013, o foco foi sobre os textos inéditos de autores pernambucanos. Desta vez o grupo propõe reflexões e conexões entre história, sociedade, dramaturgia e contemporaneidade à partir dessas obras clássicas.

PROGRAMAÇÃO
Dia 16/06 (terça-feira), às 19h30
Palestra A dramaturgia clássica e o teatro contemporâneo: tensões, relações e interseções – com Rodrigo Dourado

Leitura dramática seguida de debate:

Dia 17/06 (quarta-feira), às 19h30
Antígona, de Sófocles
Direção: Daniela Travassos
Elenco: Sandra Rino, Ivo Barreto, André Riccari, Eduardo Japiassú e Lili Rocha

Dia 18/06 (quinta-feira), às 19h30
O canto do cisne, de Anton Tchekhov
Direção: Manuel Carlos
Elenco: Ricardo Mourão e André Filho

Dia 19/06 (sexta-feira), às 19h30
A tempestade, de William Shakespeare
Direção: André Filho
Elenco: Domingos Soares, Célio Pontes, Marília Linhares, Jefferson Larbos, Carlos Duarte Filho, Geysa Barlavento, Pascoal Fillizola, Manuel Carlos, Luís Távora, Wellington Júnior e Quiércles Santana.

FICHA TÉCNICA DO PROJETO
Concepção e coordenação geral: Daniela Travassos
Produção executiva: Renata Teles e Jefferson Figueirêdo
Estágio em produção: Tiago Gondin (Faculdade Senac)
Realização: Companhia Fiandeiros de Teatro / Espaço Fiandeiros

SERVIÇO
Espaço Fiandeiros – Dramaturgia
Quando: De 16 a 19 de junho, sempre às 19h30
Dia 16 de junho: palestra A dramaturgia clássica e o teatro contemporâneo: tensões, relações e interseções, com Rodrigo Dourado
Dia 17 de junho: leitura dramática de Antígona, de Sófocles + debate
Dia 18 de junho: leitura dramática de O canto do cisne, de Tchekhov + debate
Dia 19 de junho: leitura dramática de A tempestade, de Shakespeare + debate
Onde: Espaço Cultural Fiandeiros: Rua da Matriz, 46, 1º andar, Boa Vista, Recife
Quanto: Entrada franca
Informações: (81) 4141.2431

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Magiluth para doer no osso

Magiltuh estreia O ano em que sonhamos perigosamente. Foto: Renata Pires

“Vocês tão muito ‘fudidos’, né?”. A pergunta, quase cúmplice, aos atores do Magiluth, veio do vigilante do Centro Apolo-Hermilo, no Bairro do Recife, onde foi ensaiado o novo espetáculo do grupo: O ano em que sonhamos perigosamente. A estreia é nesta quinta-feira (11), às 20h, no Teatro Apolo. O mesmo vigilante – que também fez outros comentários igualmente afetivos, sempre terminados por um ‘né?’, do tipo “a peça de vocês é muito cabeçuda, né?” – foi um dos funcionários do Centro que acompanhou a intensa rotina de trabalho.

Desde o segundo semestre do ano passado, com as apresentações pelo país por conta do Palco Giratório e o aumento do preço das locações de imóveis, o Magiluth entregou a sede que ocupava no Recife Antigo. Como não houve inscrições para o Programa Espaço de Criação, do Centro Apolo-Hermilo, o grupo foi convidado a ocupar o local.

Em entrevista no Bar Central, em Santo Amaro, onde os atores de 30 e poucos anos circulam bastante, eles deixam claro, no entanto, a postura política adotada pelo grupo: “a gente continua sendo oposição a essa Prefeitura e a esse Governo, principalmente pela atuação deles na Cultura, mas não podemos perder espaços. Não é um favor. O Centro Apolo-Hermilo é um espaço nosso. Se a gente não se utiliza disso, eles vão fechar. Não é uma oposição cega. Estamos ocupando porque é da cidade. Não é da Prefeitura. É público”, explica o ator e dramaturgo Giordano Castro. As críticas à gestão não se ampliam aos funcionários do Centro, todos citados nos agradecimentos do programa do espetáculo. “As pessoas que administram o Centro também são artistas. Eles estão lá defendendo aquele local e aquele fazer. Os técnicos, por exemplo, são muito disponíveis”, complementa Giordano.

Erivaldo Oliveira

Erivaldo Oliveira

Cena 2 – O ano em que sonhamos perigosamente, título emprestado do livro do filósofo esloveno Slavoj Žižek (a peça não é baseada na obra), é o trabalho mais político da trajetória de 11 anos do Magiltuh. Em Aquilo que o meu olhar guardou para você a cidade era um pano de fundo, mas vista de maneira bastante afetiva e simbólica; nas performances realizadas em vários pontos no projeto Intervenções urbanas com mídias locativas, a postura era bem mais crítica. Foram detidos, por exemplo, quando resolveram mudar os nomes das ruas do Bairro do Recife: adesivaram todas as placas com o nome do então governador Eduardo Campos.

Em O ano em que sonhamos perigosamente, no entanto, a crise política, social, econômica e existencial é detonadora do espetáculo. As provocações teóricas que ajudaram a construir o espetáculo começaram quando Pedro Wagner, que assina direção e dramaturgia, essa última em parceria com Giordano, apresentou ao grupo a filmografia do grego Yorgos Lanthimos, especialmente o filme Dente canino (Dogtooth). “No filme, o pai tranca a família dentro de uma casa. Ele faz as próprias regras, até vocabulário novo. E a premissa é que eles só poderiam sair de casa quando o dente canino caísse. Yorgos usa o microcosmo de uma família para falar da Grécia e da situação que o país vivencia”, pontua o ator Erivaldo Oliveira.

Passaram por outros filmes gregos como Miss Violence (Alexandros Avranas) e Attenberg (Athina Rachel Tsangari), chegaram a Žižek, intelectual que consegue analisar, quase que concomitantemente, movimentos como a Primeira Árabe o Ocuppy Wall Street. Também leram Adorno. Revisitaram a Ditadura no Brasil, na América Latina. E se agarraram à Deleuze, com suas “máquinas desejantes” e à noção de estrutura rizomática, onde elementos e conceitos entrecruzam-se, apresentam incidências uns sobre os outros, se alteram.

Cinco atores do grupo estão em cena

Cinco atores do grupo estão em cena

Cena 3 – Mas o espetáculo, mesmo cabeçudo (o vigilante deve mesmo estar certo), traz uma fábula? Com começo, meio e fim, não. O espetáculo, tentam explicar os atores, é divido mais ou menos em três etapas: na primeira, cinco homens estão buscando construir um momento belo. Ensaiam e treinam pra isso; na segunda, eles encenam trechos de Tchékov (A Gaivota, O jardim das cerejeiras e As três irmãs); e a terceira…bom, nosso texto não podia ter spoiler.

Mas eles já avisam que estão jogando no nível hard. “Antes de chegar ao espetáculo que temos hoje, tínhamos outro. Todo montadinho. Foi quando paramos e nos questionamos. A gente ‘tava falando em Deleuze, em rizoma, mas ainda estávamos presos a Aristóteles. Peraí: vamos sair do nível 4 e vamos para o nível 6. Bagunçar tudo!”, anuncia Giordano.

Assim como para outros grupos da cena contemporânea, o Magiltuh está mais preocupado com a presentificação do ator do que com a construção tradicional de um personagem. Criaram um jogo próprio, que vem se desenvolvendo ao longo dos trabalhos do grupo. “Não é improviso. É um trabalho de composição, mas que está aberto. É um risco. Todas as noites poderemos ter espetáculos diferentes”, opina o ator Thiago Liberdade.

Cena Ad infinitum com ou sem hiatos – Se você é daqueles que detesta ser chamado ao palco, a possibilidade de ter que participar com uma frase que seja no espetáculo já te deixa tenso ou cansado, nem se preocupe. “Aqui a maneira de afetar foi exatamente não tentar aproximação com o público. Não vamos te tocar, não vamos te olhar, não vamos fazer nada. Estamos aqui e vocês aí”, adianta Castro.

“Mas não vá assistir com expectativas”, é o que diz Erivaldo Oliveira. “Talvez algumas pessoas não entendam. Talvez não seja pra entender tudo. É duro. Não tem como lidar com esse tema de forma delicada, fazendo graça ou de maneira superficial”, complementa. Incensados como grupo cult-pop-queridinho da cena contemporânea, o Magiluth tem um público cativo – de artistas, mas principalmente de não artistas. Mas, se chegaram até aqui, é porque não se furtaram ao risco, pautado naquela máxima tão conservadora da labuta diária. “Rapaz, a gente se problematiza, enfrenta as crises de todas as formas num processo desse. Mas, no final, a percebemos que só sabemos fazer isso: só sabemos fazer teatro. E queremos estar juntos, ali, no palco”.

Serviço:
O ano em que sonhamos perigosamente
Quando: Dias 11, 12, 18, 19, 25 e 26 de Junho de 2015, às 20h
Onde: Teatro Apolo (R. do Apolo, 121 – Bairro do Recife)
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)
Informações: (81) 3355-3320

Ficha Técnica:
Direção: Pedro Wagner
Dramaturgia: Giordano Castro e Pedro Wagner
Atores:  Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sergio Cabral, Pedro Wagner, Thiago Liberdade
Preparação corporal: Flávia Pinheiro
Desenho De Som:Leandro Oliván
Desenho De Luz: Pedro Vilela
Direção De Arte: Flávia Pinheiro
Fotografia: Renata Pires
Design Gráfico: Thiago Liberdade
Caixas De Som: Emanuel Rangel, Jeffeson Mandu e Leandro Oliván
Técnico: Lucas Torres
Realização: Grupo Magiluth

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Sessão de Espaçamento na UFPE

Dança e arquitetura se cruzam em espetáculo experimental[

Dança e arquitetura se cruzam em espetáculo experimental

A ideia de juntar dança e arquitetura poderia soar incongruente. Afinal, a dança de natureza estética que traça na efemeridade o movimento através do tempo; e a arquitetura formada por materiais inorgânicos e que tem a estaticidade como marca, têm características muito distintas. O pesquisador, bailarino e coreógrafo pernambucanoCláudio Lacerda propôs cruzar essas propriedades e o resultado é o espetáculo experimental Espaçamento, que faz apresentação nesta terça (9), às 17h, o hall de entrada do Centro de Artes e Comunicação (CAC/UFPE), na Cidade Universitária.

Além do próprio Cláudio Lacerda dançam os bailarinos Juliana Siqueira e Jefferson Figueirêdo. A trilha sonora, neste dia, será produzida ao vivo pelos músicos Thiago Fournier, Publius, João Vasconcelos e Tiago Araújo.

A exibição finaliza a temporada nacional iniciada em 2013 e retomada no ano passado com sessões no espaço Octógono, da Caixa Cultural, e no Festival Cena Cumplicidades. Durante o mês de maio foram realizadas apresentações no Teatro Marco Camarotti. O projeto tem incentivo do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura – Funcultura.

Cláudio Lacerda

Jefferson Figueirêdo, Claudio Lacerda e Juliana Siqueira

O espetáculo parece o mesmo, mas vai mudando a cada nova apresentação. Altera o espaço. O acompanhamento sonoro, que, no início foi o silêncio, ganhou outras propostas: as trilhas podem ter músicas de J. S. Bach; composição eletrônica a partir de samples; intervenção de músicos ao vivo e subjetividade dos dançarinos, com narração em off. Além de projeção de vídeo, com imagens de obras arquitetônicas, gravações de ensaios e apresentações.

Claudio Lacerda destaca que o espectador torna-se autor, a partir de escolhas de pontos de vista e interpretações. “Ficou bastante claro que não podemos nunca subestimá-los –– com suas subjetividades, memórias corporais e bagagem de seus contextos socioculturais ––, independente de faixa etária, condição social, portador ou não de necessidades especiais, conhecedor ou não de artes. A experimentação ganha projeções a partir do contato com eles(as), gerando significados no mundo”, escreveu o pesquisador no artigo apresentado no VII CONGRESSO – ABRACE – Tempos de memória: Vestígios, Ressonâncias e Mutações, em Porto Alegre, em outubro de 2012.

SERVIÇO
Espetáculo Espaçamento
Quando: Terça (09/06), às 17h
Onde: Centro de Artes e Comunicação – CAC/UFPE
Duração: 50 min
Classificação: Livre
Entrada gratuita

Ficha técnica
Concepção, Direção e Coreografia: Cláudio Lacerda.
Bailarinos: Cláudio Lacerda, Jefferson Figueirêdo e Juliana Siqueira.
Iluminação: Eron Vilar.
Figurinos Paulinho Ricardo e o grupo.
Produção Executiva: Clarisse Fraga / Bureau de Cultura.
Trilhas sonoras/Composição eletrônica: Thiago Fournier.
Edição de som / trilha Bach e trilha subjetividade dos bailarinos João Vasconcelos.
Direção e Edição de Vídeo e fotografias: Val Lima.
Consultores durante o projeto de pesquisa: Jonatas Ferreira, Gentil Porto Filho e Arnaldo Siqueira.
Design gráfico; Fernanda Lisboa.

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O foco é o mito no teatro contemporâneo

Usina Teatral inclui debates, performances e apresentação de peças, como Agda. Foto: Claudia Echenique

Estão abertas somente até às 19h desta segunda-feira (8) as inscrições para o evento intitulado Usina Teatral, que pretende discutir o teatro contemporâneo. Em sua primeira edição, o tema escolhido foi “Teatro e Mito: o imaginário e a cena contemporânea”. A programação começa nesta terça-feira (9) e vai até 12 de junho. A realização é do Sesc Santa Rita, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e o Centro Apolo-Hermilo. As atividades vão acontecer tanto no Centro de Artes e Comunicação (CAC) da Ufpe quanto no Teatro Hermilo Borba Filho.

Entre os pesquisadores e artistas que participam do evento está Luciana Lyra, atriz, diretora e professora da Unesp; Verônica Fabrinni, atriz e mestre em Artes Cênicas; Danielle Pitta, professora da UFPE e criadora do primeiro Centro de Pesquisas sobre o Imaginário do Brasil; Luís Reis, Doutor em Teoria da Literatura e coordenador do curso de Teatro da UFPE; Robson Haderchpek, professor pós-doutor da UFRN e pesquisador da área de Artes Cênicas.

O evento inclui ainda oficina (com inscrições esgotadas) e a apresentação dos espetáculos Agda e Fogo de Monturo. Fogo de Monturo tem dramaturgia e direção de Luciana Lyra e conta a jornada de Fátima, que está prestes a ser coroada como rainha do Maracatu, mas decide partir para a capital e estudar Direito. Com a sua migração, a pequena Monturo sofre com o retorno da assombração da prostituta Gaba Machado, morta por choques elétricos. No vilarejo, a energia de Gaba toma o corpo e o pensamento dos moradores, trazendo à tona seus mais recônditos desejos. Enquanto isso, Fátima, na Capital, envolve-se com o movimento estudantil e uma professora de Direito que poetiza a revolução contra o poder ditatorial dos militares. A Direção Musical é de Alessandra Leão, com Colaboração Artística de Robson Haderchpek. A realização é do Arkhétypos Grupo de Teatro e Unaluna – Pesquisa e Criação em Arte. Já Agda é um espetáculo dos grupos Matula e a Boa Companhia, de São Paulo, que leva à cena a história de uma mulher que rompe de tabus.

PROGRAMAÇÃO

TERÇA-FEIRA – 09/06

14h – Teatro Milton Bacarelli (térreo do Centro de Artes e Comunicação da UFPE)
Debate Teatro e Mito: o Imaginário e a Cena Contemporânea, com a atriz e mestre em Artes Cênicas pela Unicamp, Verônica Fabrinni, e a professora da UFPE e criadora do primeiro Centro de Pesquisas sobre o Imaginário do Brasil, Danielle Pitta. Mediação da atriz, diretora e professora de Artes Cênicas da UNESP, Luciana Lyra.

Agda é uma co-produção de Matula e Boa Companhia, Sesc Campinas e Instituto Hilda Hilst. Foto: Anabela Leandro

Agda é uma co-produção de Matula e Boa Companhia, Sesc Campinas e Instituto Hilda Hilst. Foto: Anabela Leandro

20h – Teatro Hermilo Borba Filho
Espetáculo Agda, com os grupos Matula e a Boa Companhia, ambos de São Paulo.
* Adaptação do conto homônimo de Hilda Hilst. Narra a história de uma mulher que rompe tabus e provoca a ira da comunidade onde vive.
Ficha Técnica
Atuação: Alice Possani, Aldiane Dalla Costa, Melissa Lopes e Verônica Fabrini
Texto Original: Hilda Hilst
Direção e Adaptação: Moacir Ferraz
Iluminação: Alice Possani e Moacir Ferraz
Figurinos: Juliana Pfeifer e Sandra Pestana
Cenografia: Juliana Pfeifer
Orientação Tango: Natacha Muriel e Lucas Magalhães
Trilha sonora: Mauro Braga e Silas Oliveira
Fotografia: Anabela Leandro e Claudia Echenique
Identidade Visual: Léo Ferrari
Produção: Anna Kuhl, Cassiane Tomilhero
Realização: Grupo Matula Teatro e Boa Companhia
Duração: 60 minutos
Classificação Etária: 18 Anos

QUARTA-FEIRA – 10/06 

Das 14h às 17h –  Sala de dança do Centro de Artes e Comunicação (CAC) Oficina Corpo e Mito – destinada a atores, bailarinos e estudantes de artes cênicas, com os grupos Matula e a Boa Companhia               * A partir das imagens arquetípicas da tríplice deusa – Diana, Vênus e Hécate – presentes na obra de Hilda Hilst, os participantes da oficina trabalham improvisações dirigidas a partir de investigações de imagens literárias e do Método da Análise Ativa de Michael Checkov para a materialização no corpo e na voz.

16h – Auditório do Niate CFCH/CCSA da UFPE   Debate O imaginário mítico de Hermilo Borba Filho, com a atriz e secretária de Cultura do Recife, Leda Alves, e do doutor em Teoria da Literatura e Coordenador do Curso de Teatro da UFPE, Luís Reis. Mediação do escritor e jornalista Raimundo de Moraes.

19h30 – no Jardim externo do CAC da UFPE

Intervenção poética pelo universo da obra de Hilda Hilst, com os grupos Matula e a Boa Companhia, a partir de poemas, fragmentos de contos e novelas . Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 14 anos.

QUINTA-FEIRA – 11/06 

14h as 17h –  Sala de dança do Centro de Artes e Comunicação (CAC) – UFPE
OficinaCorpo e Mito

19h30 – Teatro Milton Bacarelli, CAC
Aula-espetáculo Joana Apocalíptica, com a atriz, diretora e professora de Artes Cênicas da UNESP, Luciana Lyra.
* A performance poetiza a história da atriz que ritualiza por meio da máscara da guerreira mítica Joana d’Arc.

SEXTA-FEIRA-  12/06

Das 14h às 16h – Auditório Evaldo Coutinho, 2° andar do Centro de Artes e Comunicação (CAC) da UFPE
Debate Matizes da Cena Contemporânea – o Teatro e seus Reversos , com o professor pós-doutor da UFRN e pesquisador da área de Artes Cênicas, Robson Haderchpek, o doutor em Teoria da Literatura e Coordenador do Curso de Teatro da UFPE, Luís Reis, e a atriz Luciana Lyra. Mediação da atriz, mestra em Teatro e doutora em Comunicação, Anamaria Sobral.

Fogo de Monturo, espetáculo da Universidade do Rio Grande do Norte

Fogo de Monturo, espetáculo da Universidade do Rio Grande do Norte

20h – Teatro Hermilo Borba Filho
 Espetáculo Fogo de Monturo, do grupo Arkhétypos de Teatro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
* A encenação traz como plano de fundo a assombração da prostituta Gaba Machado, morta por choques elétricos, cuja energia toma o corpo e os pensamentos dos moradores do vilarejo de Monturo, trazendo à tona seus desejos mais secretos.
Ficha Técnica
Dramaturgia – Encenação – Direção Geral: Luciana Lyra
Direção Musical: Alessandra Leão
Cenografia – Design De Luz: Ronaldo Costa
Indumentária: Paula Vanina
Trilha Sonora: Alessandra Leão, Rafa Barreto
Atores-Criadores: Aldemar Pereira, Alice Jácome, Clareana Graebner, Leila Bezerra, Marília Negra Flor, Paul Moraes, Tatiane Tenório
Colaboração Artística: Robson Haderchpek
Produção Geral: Paul Moraes E Leila Bezerra (Grupo Arkhétypos De Teatro)
Realização: Grupo Arkhétypos De Teatro; Unaluna – Pesquisa e criação em Arte
Classificação indicativa: 18 anos.

INSCRIÇÕES
Interessados em participar da Usina Teatral devem se inscrever presencialmente até às 19h do dia 8 de junho, na Central de Atendimento do SESC Santa Rita, munido de RG, CPF, Comprovante de Residência e Foto 3 x 4 para a confecção de carteira cadastral e beneficiária de serviços do SESC, item obrigatório para a inscrição na Usina Teatral. A carteira, com valor de R$ 6,00 para o público em geral e R$ 3,00 para comerciários, é emitida no ato da inscrição no evento.

Estudantes de Teatro da UFPE e do SESC-PE são isentos da taxa de inscrição, mas necessitam dirigir-se ao SESC Santa Rita para emitir a carteira e efetivar o cadastro. Aos demais participantes, a inscrição em todas as atividades propostas, nos quatro dias de evento, é mediante valor de R$ 80. Caso prefira, o usuário pode inscrever-se apenas nas atividades de interesse, com investimento de R$ 10 para cada palestra ou debate direcionado, R$ 60 para a oficina e R$ 12 para ingresso em cada espetáculo. Comerciários e estudantes de outros cursos e instituições interessados em participar da Usina Teatral tem meia-entrada nos valores apresentados, passando a pagar R$ 40, R$ 5, R$ 30 e R$ 6 respectivamente. A emissão do certificado de participação, com a carga horária do Usina Teatral, será feita durante o evento e entregue após a conclusão da última atividade do participante ao longo da semana.

Informações:
Sesc Santa Rita: (81) 3224.7577

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