Dança investiga “a pele que habitamos”

Foto: Divulgação

Espetáculo pernambucano Segunda Pele questiona padrões que oprimem. Foto: Divulgação

Foto de Leandro Lima

Sobre fortalezas e delicadezas. Foto de Leandro Lima

Agre . Foto: Leandro Lima

Maria Agrelli em cena . Foto: Leandro Lima

Cena do espetáculo de dança contemporânea Segunda Pele. Foto: Divulgação

Cena do espetáculo de dança contemporânea do Coletivo Lugar Comum. Foto: Divulgação

Maria Clara Camarotti em cena. Foto: Divulgação

Maria Clara Camarotti em cena. Foto: Divulgação

O espetáculo pernambucano de dança contemporânea Segunda Pele é povoado de afetos. Desses que o mundo carece. De respeito pelas singularidades; de amorosidade nas relações, nos toques; de humor que valoriza. Para chegar a esse território, as atrizes-bailarinas expõem com coragem as feridas provocadas por intolerâncias sociais. É forte, é terno, é includente. Isso vem desde o nascedouro, da escolha do nome do grupo – Lugar Comum, inspirado num conceito do escritor Edouard Glissant, da criação de espaço que conectem realidades multiétnicas, plurivocais, não etnocêntrica, com vistas a forjar novos parâmetros para a arte e para a vida nos tempos que seguem. Não é pouco.

As peles que habitam o corpo, o corpo nu, o corpo social, o corpo casa – cidade, pelo, olhar, prazer, toques, cortes, pudor, memória. Troca de peles, desnudamentos, a peça de dança coloca no centro um debate sobre a diversidade dessas matérias que nos compõem. Traça um mapa emocional sobre infinitas possibilidades de estar no mundo e questiona os padrões que oprimem, ofendem, dilaceram.

Em desnudamentos, em transformações, as artistas Liana Gesteira, Maria Agrelli, Maria Clara Camarotti e Renata Muniz escamam suas cascas, compartilham experiências de suas vidas. Algumas bem dolorosas como traduz o depoimento de Maria Clara, de suas cirurgias e as facas mais afiadas dos olhares e julgamentos de parcela da sociedade.

Segunda Pele trafega por identidades, pertencimentos, intimidades e coletividades. Investiga a políticos dos corpos e os discursos avessos. A reação do contato com outros materiais humanos e de outras naturezas como elástico, velcro, plástico, arame, poliestireno. Cada uma das artistas tem seu momento de protagonismo e também de cumplicidade feminina, amparo, proteção, amizade.

O Coletivo Lugar comum foi instigado pelas ideias de Friedensreich Hundertwasser, o arquiteto ícone da Viena mais vanguardista, para montar esse trabalho. O pensamento do artista austríaco – que desenvolveu sua obra numa perspectiva mais humanizada e ecológica-, defende que o terráqueo tem cinco peles: a epiderme, o vestuário, a casa, o meio ambiente – social e cultural – onde vive e, a última, a pele planetária ou crosta terrestre ou a natureza ou o planeta Terra.

Também Segunda Pele vivencia transformações desde sua estreia, em 2012. Mutações que acompanham os debates de resistência e empoderamento da mulher que passam por vestimentas em sentido ampliado.

A peça combina a força expressiva dos corpos, em suas peculiaridades. Com entusiasmo reivindica o poder, de fala e de atuação, mas reparte com a plateia suas inquietas pulsões. Exercita idiomas de muitas gestualidades. Toma posição e responde ao mundo a partir de lugares do feminino com habilidade de quem está na luta política. Cada uma com seus registros de vida. Engajam espaço e tempo para fazer circular na cena questões urgentes. Chega como um breve manifesto pela liberdade plena.

Ficha técnica
Concepção: Liana Gesteira, Maria Agrelli, Maria Clara Camarotti, Renata Muniz e Silvia Góes
Interpretescriadoras: Liana Gesteira, Maria Agrelli, Maria Clara Camarotti e Renata Muniz
Preparação corporal: Silvia Góes
Concepção e Criação de figurino: Juliana Beltrão, Maria Agrelli e Maria Ribeiro
Execução de figurino: Xuxu e Fatima Magalhães
Colaboração na execução de figurino: Ilka Muniz e Maria Lima
Trilha sonora original: Rua (Caio Lima e Hugo Medeiros) + convidados (Cyro Morais e Paulo Arruda) + letra de Silvia Góes
Criação e execução de iluminação: Luciana Raposo
Operação de Luz: Luciana Raposo
Assistente de iluminação/ cenotécnico: Sueides Leal (Pipia)
Execução de cenário/estrutura: Gustavo Araújo e Marcos Antonio
Produção geral: Vi Laraia
Design gráfico: Thiago Liberdade
Fotos e vídeo: Ju Brainer e Tuca Soares
Realização: Coletivo Lugar Comum

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Como manter-se vivo, em São Paulo

Flávia Pinheiro em Como Manter-se Vivo. Foto: Danilo Galvão / Divulgação PMPA

Flávia Pinheiro desafia os limites do corpo em Como Manter-se Vivo. Foto: Danilo Galvão / Divulgação PMPA

O capitalismo tenta transformar tudo em mercadoria. As pessoas, seus sentimentos, suas relações. É uma luta medonha investir contra esse gigante que procura transtornar em matéria gasosa os afetos, ideologias, mentalidades. Seus agentes manipulam tudo para normatizar essas ações. Flávia Pinheiro usa sua arte como arma de guerra para assinalar as pulsões de vida e combater a inércia diante das tecnologias no espetáculo Como Manter-se Vivo?

O trabalho circula com o programa Palco Giratório, do Sesc, e nesta quinta-feira, às 21h faz a segunda apresentação no Sesc Belenzinho (São Paulo), seguido do Pensamente Giratório, uma roda de conversa sobre a relação do corpo em movimento com a Arte e Tecnologia.

Coreógrafa, dançarina e professora, Flavia Pinheiro é uma criadora de muita força física e ousadia intelectual. Ela se arrisca e expõe seu corpo ao limite do esgotamento, do colapso. Suas pesquisas e experimentos envolvem Arte e Tecnologia e investigam em várias plataformas maneiras de hackear o corpo; explora as gambiarras e práticas distópicas de sobrevivência na vida e na prática artística. Como também perscruta a resistência como um dos mecanismos de aprendizagem, que desafia a vertigem e a queda. Seu último trabalho Utopyas to everyday life, junto com a artista Carolina Bianchi (SP), vai ao limite da capacidade física humana, beirando o colapso em horas e horas de movimentos ininterruptos.

Como manter-se vivo aponta que prosseguir em movimento é um processo urgente de sobrevivência. Há alguns anos, Flávia esquadrinha a urgência de seguir em ação como ato de sobrevivência. Questiona como nos pautamos diante da imaterialidade da proposta pela interface dos dispositivos e a certeza da nossa impermanência. Como continuar em movimento? Como resistir ao desequilíbrio e à instabilidade da existência? Como persistir no tempo? Uma prática circular calcada na insistência e na certeza do limite da matéria.

Dança/Performance Como manter-se vivo
Classificação: livre
50 minutos
Quando: 9 de agosto, às 21h
Onde:Sala de Espetáculos II, Sesc Belenzinho

Ficha técnica:
Criação e Performance: Flavia Pinheiro 
Direção de arte: Flavia Pinheiro 
Coaching: Peter Michael Dietz 
Desenho sonoro: Leandro Olivan 
Desenho de luz: Natalie Revoredo 
Designer gráfico: Guilherme Luigi 
Produção: Flavia Pinheiro e Maria Santana 

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Cadengue deixa um vazio imenso no teatro

Encenador pernambuco estava remontando espetáculo Em Nome do Desejo. Foto: Reprodução do Facebook

Encenador pernambuco estava remontando espetáculo Em Nome do Desejo. Foto: Reprodução do Facebook

Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.
                                                 Calderón de La Barca

Antonio Edson Cadengue, um dos mais intensos encenadores brasileiros, morreu na madrugada desta quarta-feira (1). De forma súbita. Assim, de repente, como a morte chega e arrebata quem está muito ocupado com sua arte. O diretor, escritor e professor Cadengue preparava a nova montagem de Em Nome do Desejo, a partir da obra de João Silvério Trevisan. No fim de semana exibiu o primeiro ensaio aberto para o dramaturgo e passearam pelas praias de Pernambuco. Parecia feliz em levar de volta aos palcos seu maior sucesso, da década de 1990.

O que é a vida?, pergunta Calderón. Sabemos pouco. Antonio Edson deixa um vazio imenso e isso não é força de expressão. É real. A paixão pelo teatro exalava por seus poros; os olhos brilhavam. E como todo amante defendia sua arte com toda a força. Discordava, brigava. Nunca foi uma unanimidade. Colecionou afetos e alguns desafetos. Viveu profundamente as emoções, que articulava para os palcos.

Cadengue faleceu às 3h30, aos 64 anos. Levou uma queda em casa. Coisa que pode acontecer a qualquer um. Um acidente doméstico. Foi internado na unidade médica do Hospital Hapvida, no Recife. Complicou e chegou a óbito. “Infarto agudo secundário a uma arteriosclerose coronariana, que levou a um edema agudo do pulmão” é o que diz o laudo oficial como causa da morte.

O Teatro Valdemar de Oliveira será o palco para as despedidas, a partir das 8h de quinta (2). É uma merecida homenagem, já que o pesquisador escreveu sua tese de doutorado sobre o Teatro de Amadores de Pernambuco – TAP, do qual o Teatro Valdemar de Oliveira é sede. No livro ele avalia cinco décadas da história do longevo grupo teatral recifense. O trabalho foi publicado em dois volumes pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).

O sepultamento será no Cemitério de Santo Amaro, às 15h desta quinta-feira.

Antônio Cadengue nasceu em Lajedo, no Agreste de Pernambuco. Foi um dos fundadores da Companhia Práxis Dramática, nos anos 1970, e criou no início da década de 1990 a Companhia Teatro de Seraphim.

Montou clássicos, como Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare, muitas peças de Nelson Rodrigues – Toda Nudez Será Castigada, Senhora dos Afogados, Viúva, Porém Honesta e Doroteia e textos contemporâneos como os de Luís Reis: A filha do teatro, A morte do artista popular e Puro lixo, o espetáculo mais vibrante da cidade e de Aimar Labaki: Vestígios.

Mas qualquer palavra, essas palavras, tudo isso é muito pouco para falar de um artista tão brilhante, quer se goste ou não da arte que ele fazia. Ele deixa um vazio imenso. O teatro pernambucano está de luto.

Abaixo, um vídeo com um trecho da peça A Morte do Artista Popular, o merengue do Cadengue. Siga na luz.

 

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Bia Lessa propõe transcriação de Grande Sertão: Veredas para os palcos

Antes de definir papeis, todos os atores do elenco ensaiaram todos os personagens. Foto: Roberto Pontes/Divulgação

Antes de definir papeis, atores do elenco ensaiaram todos os personagens. Foto: Roberto Pontes

Grande Sertão: Veredas é um livro que impressiona por sua magnitude. Nele, Guimarães Rosa (1908-1967) empregou o máximo de sua inventividade poética para contar a história de um dos personagens mais marcantes da literatura brasileira: Riobaldo, cuja vida é um pano de fundo para mostrar a eterna tensão entre o mundo e o homem. E como trazer para os palcos uma obra importante para a literatura brasileira justamente por inovar tanto na linguagem escrita? Essa é a pergunta que Bia Lessa tenta responder em seu penúltimo trabalho (o mais recente, Pi – Panorâmica Insana, está em cartaz em São Paulo até 29 de julho, e tem no elenco Claudia Abreu, Leandra Leal, Rodrigo Pandolfo e Luiz Henrique Nogueira) baseado diretamente no clássico de Guimarães. Grande Sertão: Veredas, a peça-instalação, tem única apresentação no dia 8 de julho, domingo, no Centro de Convenções, em Olinda.

Cancelada por conta da greve dos caminhoneiros, em maio passado, a peça finalmente se apresenta em Pernambuco após pouco mais de um mês de espera. A diretora e cenógrafa, que tem o Paço do Frevo em seu portfólio, optou por fazer mais uma transcriação da obra rosiana do que a adaptação do livro, embora toda a dramaturgia do espetáculo seja composta por passagens de Grande Sertão: Veredas, sem adições de fora desse universo. Para isso, ela e sua equipe imaginaram uma estrutura em U, parecida com uma gaiola, onde ficam sempre em cena os dez atores do elenco. Estão nele desde nomes bastante conhecidos do público, como Caio Blat e Luiza Arraes, até atores “verdes”, com pouca experiência no palco. Todos eles ensaiaram todos os personagens antes de definirem seus papeis. Cerca de 250 bonecos de feltro em tamanho natural também estarão no palco-instalação e poderão ser vistos por quem circular pelo Centro de Convenções no domingo, durante o dia.

A relação de Bia com a obra de Guimarães Rosa se estreitou em 2006, quando ela ficou encarregada da montagem da primeira exposição do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Foi só ao aceitar essa tarefa que ela leu o livro pela primeira vez. “Por uma questão óbvia, pensei em Grande Sertão: Veredas, pois Guimarães é um inventor de linguagem, um grande estudioso da tradição oral. Na época, achei empobrecedor colocar imagens naquele trabalho. Não cabia naquele momento, então resolvi fazer uma mostra só com palavras. Dez anos depois, me vi com o desejo de voltar a fazer teatro e sempre achei que essa linguagem cobra da gente uma outra vida. Escolhi retornar a essa obra porque o processo em si já seria muito rico, mesmo se não conseguíssemos montar um espetáculo”.

Cerca de 250 bonecos de feltro em tamanho natural compõem o palco-instalação. Foto: Roberto Pontes/Divulgação

Cerca de 250 bonecos de feltro em tamanho natural compõem o palco-instalação. Foto: Roberto Pontes

O processo, segundo a criadora, se desenvolveu a partir de uma provocação. “Todo mundo me desaconselhava a montar esse livro. Chamei vários escritores e eles me diziam: ‘não mexe nisso’. O fato de as pessoas me desencorajarem, na verdade, me encorajava. Peguei trechos do livro e montei como foi escrito. A adaptação foi feita durante o jogo cênico. Era importante falar sobre a linguagem, pois o estilo dessa obra me atraía tanto quanto seu conteúdo”. Já o diálogo de Grande Sertão: Veredas com o Brasil atual, segundo Bia, é fácil de ver. A história de Riobaldo, ex-jagunço que vendeu a alma ao diabo e teve uma relação delicada com Diadorim, figura andrógina das mais fascinantes da literatura brasileira, tem desdobramentos diretos na atualidade. “Estamos em um retrocesso mundial gravíssimo. Ele apresenta uma questão importante de gênero, mostra a importância do indivíduo e coloca o homem onde ele de fato deve estar: em uma relação equivalente com os bichos, os minerais, em vez de superior à natureza”.

A passagem do tour de force cênico pelo Recife faz parte de uma turnê nacional – sem patrocínio, é bom que se diga. Sem subsídio, os ingressos ficaram com um preço acima da média mesmo em comparação a outros espetáculos nacionais de grande porte. O valor deles também está diretamente atrelado à experiência do público. Ao contrário das temporadas no Rio e em São Paulo, que foram encenadas em locais nos quais a plateia ficava muito próxima dos atores, respectivamente no Centro Cultural Banco do Brasil e no Sesc Consolação, a apresentação no Recife vai ocupar uma casa de espetáculos que pode ser tudo, menos intimista.

Os mais de 2 mil lugares do Teatro Guararapes devem alterar de forma radical a experiência proporcionada pela montagem. Apenas 200 pessoas que pagarem o valor mais elevado – R$ 200, sem direito a meia-entrada – poderão ficar no palco em uma estrutura similar à original. Elas terão direito a fones de ouvido com um desenho de som que mistura as falas dos atores, a trilha de Egberto Gismonti e os efeitos sonoros do sertão. Já o restante da plateia, que terá uma experiência menos imersiva, terá acesso a uma paisagem sonora diferente, com as vozes amplificadas dos atores preenchendo o espaço.

Serviço:
Grande Sertão: Veredas
Quando: 08 de julho (domingo), às 19h
Onde: Teatro Guararapes – Centro de Convenções, s/n, Salgadinho, Olinda
Ingressos: R$ 200 (assentos na plateia com fone de ouvido, sem meia-entrada); R$ 160 e R$ 80 (meia) para plateia AA até BB; R$ 140 e R$ 70 (meia) da plateia BC em diante e R$ 100 e R$ 50 (meia) para o balcão, com ingressos à venda pelo site Eventim e na bilheteria do teatro
Informações: (81) 3182-8020

Ficha Técnica
Concepção, Direção Geral, Adaptação e Desenho de Luz: Bia Lessa
Elenco: Balbino de Paula, Caio Blat, Daniel Passi, Elias de Castro, José Maria Rodrigues, Leonardo Miggiorin, Lucas Oranmian, Luisa Arraes, Luiza Lemmertz, Clara Lessa
Concepção espacial: Camila Toledo, com colaboração de Paulo Mendes da Rocha
Música: Egberto Gismonti
Colaboração: Dany Roland
Desenho de som: Fernando Henna e Daniel Turini
Adereços: Fernando Mello Da Costa
Figurino: Sylvie Leblanc
Desenho de luz: Binho Schaefer
Projeto de áudio: Marcio Pilot
Diretor assistente: Bruno Siniscalchi
Assistente de direção: Amália Lima
Direção executiva: Maria Duarte
Produtor executivo: Arlindo Hartz
Colaboração: Flora Sussekind, Marília Rothier, Silviano Santiago, Ana Luiza Martins Costa, Roberto Machado
Idealização e realização: 2+3 Produções Artísticas Ltda
Apoio institucional : Banco do Brasil | Globosat
Duração: 140 minutos
Classificação: 18 anos
Apoio: BMA Advogados | Instituto-E | Om Art
Agradecimento especial à viúva do autor, a quem a obra foi dedicada, Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa, à Nonada Cultural e a Tess Advogados

 

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A Visita da Velha Senhora reacende debate entre ética e sobrevivência

Denise Fraga protagoniza espetáculo de Friedrich Dürrenmatt e divide a cena com mais doze atores, incluindo o pernambucano Tuca Andrada. Foto: Cacá Bernardes

Denise Fraga protagoniza espetáculo de Friedrich Dürrenmatt e divide a cena com mais doze atores, incluindo o pernambucano Tuca Andrada. Foto: Cacá Bernardes

Ao chegar ao Recife em 2016 com a peça Galileu Galilei, de Bertolt Brecht, Denise Fraga disse, em mais de uma entrevista, que encenou o espetáculo para refletir sobre o incômodo que sentia ao ver pessoas justificando o injustificável e fazendo cara de paisagem para os mais diversos absurdos. É com o mesmo espírito que ela vem novamente ao Recife com o espetáculo A Visita da Velha Senhora, peça de Friedrich Dürrenmatt que se tornou um clássico instantâneo do teatro contemporâneo. A peça terá quatro sessões no Teatro de Santa Isabel, desta quinta (24) até o domingo (27). Junto com A alma boa de Setsuan, que a atriz protagonizou em 2008, Denise diz ter encenado uma trilogia que põe no palco o dilema entre ser ético e sobreviver em um mundo que incentiva a injustiça.

Quem conta essa história é um elenco de 13 pessoas, incluindo, além de Denise, o pernambucano Tuca Andrada. A bilionária Claire Zahanassian chega a Güllen, cidade onde viveu os primeiros anos de sua vida, e a encontra falida. Seu objetivo é colocar a localidade inteira a serviço de seu plano de vingança, propondo doar um bilhão aos seus habitantes se eles matarem Alfred Krank, uma antiga paixão que a abandonou grávida para se casar com outra por interesse. De início, todos acham a oferta um absurdo, mas a ricaça desarma, aos poucos, a resistência da cidade com a frase “eu posso esperar”, instalando-se no hotel da cidade com seu séquito. Previsivelmente, a morte de Krank passa de algo absurdo a necessário.

Como poucas coisas no mundo, o humor pode servir, ao mesmo tempo, como instrumento de cumplicidade e reflexão. É o que parece ser a opinião de Denise, mais uma vez mergulhando no teatro épico. “A peça não só é atual como dá a impressão de ser quase encomendada para os dias de hoje. Dürrenmatt escreve uma série de cenas que demonstram como nossos valores morais vão se adequando ao poder econômico. Ele é genial porque escreveu uma tragédia em timing cômico. A Claire é a encarnação do capital na figura de uma mulher que foi massacrada. O autor não a concebeu como uma vilã absoluta. Ela é simpática, espirituosa, muito carismática e, além disso, a dor dela está em cena. Luiz Vilaça [diretor do espetáculo] inclui a plateia como cidadãos dessa cidade. Quem vê a peça fica dividido, pois fica com raiva mas diz entender o lado dela”.

O pernambucano Tuca Andrada, que interpreta Alfred Krank, volta à cidade com A visita da velha senhora após mais de dez anos longe dos palcos locais. De acordo com o ator, o caráter duvidoso do personagem vai sofrer uma transformação profunda ao longo do espetáculo. “Krank é o único personagem verdadeiramente trágico da peça. Os outros são o que são. Ele percebe a amplitude de seu crime e começa a refletir quando não encontra mais saída. É preciso ter muita atenção ao fazer um personagem como esse, pois ele não é vilão e nem mocinho. Todos nós cometemos erros, todos nós somos vítimas. A situação dele é uma metáfora da sociedade, pois o texto traz uma discussão muito inteligente sobre o que é justiça e a quem ela serve. No Brasil, por exemplo, quem rouba milhões não vai preso, mas um pobre que rouba um pão morre dentro da cadeia. São muitas discussões e recusei outros trabalhos para vivenciar isso, especialmente com um elenco tão bom de 13 pessoas. Não sei quando vou ter essa chance de novo”.

Denise também diz ser questionada pelas pessoas sobre o porquê de ser vista muito mais em trabalhos cômicos. Embora, em A visita da velha senhora, o tema tenha um quê trágico, a atriz afirma que o humor é uma escolha ética, além de estética, para sua carreira. “Acredito no humor e na ironia como trilha para o pensamento. A peça diverte e, ao mesmo tempo, dá voz à nossa angústia. Talvez essa seja uma das maiores funções do teatro hoje: dar a palavra às pessoas. A arte funciona como um espelho para a gente se ver”.

Serviço:
A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt
Quando: Dias 24, 25, 26 e 27 de maio – quinta a sábado, às 20h; domingo, às 18h
Onde: Teatro de Santa Isabel (Praça da República, s/n, Santo Antônio)
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 120 min
Gênero: Comédia Trágica
Ingressos: R$ 70 e R$ 35 (meia) para a plateia e R$ 50 e R$ 25 (meia) para o terceiro piso
Informações: (81) 3355-3323

Ficha Técnica: 
Autor: Friedrich Dürrenmatt
Stage rights by Diogenes Verlag AG Zürich
Tradução: Christine Röhrig
Adaptação: Christine Röhrig, Denise Fraga e Maristela Chelala
Direção Geral: Luiz Villaça
Direção de Produção: José Maria
Elenco: Denise Fraga, Tuca Andrada, Fábio Herford, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Maristela Chelala, Renato Caldas, Beto Matos, David Taiyu, Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino
Direção de Arte: Ronaldo Fraga
Direção Musical: Dimi Kireeff
Trilha Sonora Original: Dimi Kireeff e Rafael Faustino
Desenho de Luz: Nadja Naira
Produção Executiva: Marita Prado
Preparação Corporal e Coreografias: Keila Bueno
Direção Vocal: Lucia Gayotto
Preparação Vocal: Andrea Drigo
Visagismo: Simone Batata
Assistente de Direção: André Dib
Assistente de Produção Musical: Nara Guimarães
Engenheiro de Mixagem: Fernando Gressler
Camareira: Cristiane Ferreira
Assistente de Iluminação e Operador de Luz: Robson Lima
Operador de Som: Janice Rodrigues
Cenotécnicos: Jeferson Batista de Santana, Edmilson Ferreira da Silva
Assessoria Financeira: Cristiane Souza
Fotografia: Cacá Bernardes
Making Of: Pedro Villaça e Flávio Torres
Redes Sociais: Nino Villaça
Programação visual: Gustavo Xella
Assessoria de Imprensa BH: Personal Press
Projeto realizado através da Lei Federal de Incentivo à Cultura
Produção Original: SESI São Paulo
Patrocínio Exclusivo: Bradesco
Realização: NIA Teatro, Ministério da Cultura e Governo Federal

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