As lutas pela Terra dos índios

Terra, Maria Paula Costa Rêgo. Foto: Guto Muniz /Dvulgação

Maria Paula Costa Rêgo espalha beleza no espetáculo que fala sobre indígenas Foto: Guto Muniz /Divulgação

Quanta deslealdade, covardia, desumanidade enfrentam os indígenas brasileiros até hoje. Os gananciosos da terra impingem a pecha de inimigo aos povos primordiais. E partem para o ataque pelas vias legais, com criações de leis que retiram direitos das tribos. Operam na parcialidade da mídia e constroem narrativas que tentam justificar o saque aos territórios. As ideias tacanhas de superioridade persistem na mente dos que defendem commodities, manipulados pela política neoextrativista do governo e pelos saqueadores legitimados em ruralistas e poderosas mineradoras. 
Os estragos são medonhos aos recursos naturais do País. É possível que não tenhamos noção.

Um pouco desse quadro inspirou a coreógrafa e bailarina Maria Paula Costa Rêgo, do Grupo Grial de Dança, a montar o solo Terra. O espetáculo rendeu o prêmio de melhor criadora-intérprete da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) para Maria Paula. Além de cinco troféus do Prêmio Apacepe de Dança 2014, do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, nas categorias Melhor Espetáculo, Trilha Sonora, Figurino, Bailarina e Iluminação. 

A peça coreográfica traz uma radicalidade política dos guerreiros que persistem na luta contra a destruição da Amazônia, suas riquezas e culturas e de outros territórios. Dos que resistem pela terra a dentro desse Brasil afora. Nos passos e gestos pulsam uma ligação com o solo venerável e com a natureza.

Após penúltima apresentação de Terra, sexta-feira (10/02), na curta temporada do espetáculo na Caixa Cultural Recife, pergunto o que Maria Paula encontrou no lugar mais próximo que chegou do índio brasileiro. Ela responde, tristeza. E explica que sua pesquisa ficou à margem de tribos de resistências, que não dão confiança ao “homem branco”, com razão; que sofrem com as manipulações governistas de entidades que deveriam defendê-las. 

Na sua investigação Maria Paula e seu diretor Eric Valença encontraram os indígenas desgarrados de suas tribos, bêbados e degradados vivendo das migalhas do capitalismo e ainda assim levando na bagagem sombras dos símbolos de sua cultura. Dessas raspas, dessas frestas, dos assombros cometidos pela barbárie de grupos anti-indígenas são erguidas imagens de uma força metafísica.

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foto: Guto Muniz / Divulgação

 Meia tonelada de areia no palco. Foto: Marcos Aurélio / Divulgação

Meia tonelada de areia no palco. Foto: Marcos Aurélio / Divulgação

Maria Paula ocupa o espaço com seu virtuosismo e abraça a luz de Luciana Raposo. Com essa iluminação, o local é povoado de outros seres, a guerrear, brincar e fazer seus rituais. Os movimentos e a materialidade formada pela areia jogada ao ar e a iluminação precisa criam corpos que dialogam com a bailarina. A lona, que ora representa a terra invadida, que resiste, que esconde riqueza, possibilita ótimas combinações coreográficas.

A trilha sonora de Naná Vasconcelos convoca tribos diversas desses Brasil das desigualdades. Elas vão para a guerra, mas também mostram inocência e alegria da descoberta e muitos atributos estéticos, traduzidos nos efeitos sonoros desconcertantes, que criam  onomatopeias e sons da natureza com muito rigor.

São muitas problematizações desse estanho mundo contemporâneo levantadas pela encenação Terra, guiadas nos passos da tradição dos brincantes populares, que já fazem parte da pesquisa do Grial.

Plena e consciente do domínio da emoção que pode extrair do seu corpo, Maria Paula vivencia os vários estados de espírito dos índios nossos irmãos de misérias e de grandezas.

Para o índio, a terra é sagrada. Não pode ser encarada como algo que a cobiça desmedida do homem civilizado sangra até exaurir. A intérprete insiste nesse acorde e cria imagens que traçam um caleidoscópio histórico, desde os exploradores das primeiras colonizações europeias, aos violentados atuais nos seus direitos conquistados.

Esse é um dado aterrador. Mas, segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade, durante a ditadura militar brasileira, pelo menos oito mil indígenas foram assassinados, por ação ou por omissão do Estado. 

A invasão dos territórios continua, os massacres e todas as violências se inscrevem nos giros no ar desse espetáculo tão repleto de sentidos, nos rolamentos e em toda a habilidade da bailarina de jogar com meia tonelada de areia instalada na cena.

Como defende o organizador do livro Memórias sertanistas: Cem anos de indigenismo no Brasil (Ed. Sesc), “Não é preciso ‘genocidar’ os indígenas para que outros brasileiros, nas cidades, sejam felizes”. Terra grita pela defesa do índio e mostra as armas se for necessário ir pro ataque. Com coragem, humanidade e beleza.

Ficha técnica:
Direção: Maria Paula Costa Rêgo e Eric Valença
Intérprete: Maria Paula
Trilha sonora: Naná Vasconcelos
Figurino: Gustavo Silvestre
Luz: Luciana Raposo
Pintura de cenário: Manuel Dantas Suassuna.

Serviço
Terra – Grupo Grial de Dança
Onde: CAIXA Cultural Recife (Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife, Recife/PE)
Quando: 2 a 4 e 9 a 11 de fevereiro de 2016, às 20h
Ingresso: R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia)
Informações: (81) 3425-1915
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 45 minutos

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Coletivo Angu flerta com afetos de canções

Elenco Angu de Canções. Fotos: Pedro Portugal / Divulgação

Elenco Angu de Canções. Fotos: Pedro Portugal / Divulgação

Isadora Melo e André Brasileiro. Foto: Pedro Portugal /Divulgação

Isadora Melo e André Brasileiro. Foto: Pedro Portugal /Divulgação

Marcondes Lima. Foto: Pedro Portugal /Divulgação

Marcondes Lima. Foto: Pedro Portugal /Divulgação

Almérico Foto: Mery Lemos /Divulgação

Almérico Foto:  Mery Lemos /Divulgação

Nínive Caldas e Ivo Barreto. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

Nínive Caldas e Ivo Barreto. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

“Que descuido meu / Pisar nos teus espinhos / É essa mania minha / De olhar pro céu…”, as músicas de Juliano Holanda não saem da minha cabeça desde que assisti Angu de Canções. E a linda voz de Isadora Melo (que o Brasil inteiro ainda vai descobrir e reverenciar) embalam meus pensamentos. Ouriço, Morrer em Pernambuco, Pés, Altas Madrugadas, Cinema embaralhando minhas ideias sobre amor, abandono, sofrimento, salvação, superação, sublimação, morte. Potente, forte, doído.

Com elenco do Coletivo Angu de Teatro – Nínive Caldas, Hermila Guedes, Marcondes Lima, André Brasileiro e Ivo Barreto – além dos convidados Isadora Melo, Almério e Henrique Macedo – traz aquela revolta do amor ferido, um pouco da sujeira do rock sem rock e a política do ato de existir e se expor.

É show marcado pela melancolia que está presente principalmente no espetáculo Ossos. A vida é bruta e o seu pior inimigo pode ser aquele a quem você entregou seu coração, como acontece com o protagonista da peça, o dramaturgo Heleno de Gusmão. É dessa vida sem floreios, de um Recife manchado, atingido na sua honra, violento, que os seres dessas canções buscam sobreviver.

Marcelino Freire, autor de três peças montads pelo coletivo: Rasif, Ossos e Angu de Sangue. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

Marcelino Freire, autor de três peças montadas pelo coletivo: Rasif, Ossos e Angu de Sangue. Foto: Pedro Portugal 

As intervenções poéticas do escritor Marcelino Freire davam o tom da tragicidade desses tempos. “Merece um tiro quem inventou a bala”, alardeou com os versos de Miró da Muribeca para emendar com o posicionamento político “E quem inventou Temer e Trump merece o quê?”, para voltar a Miró com suas frases de efeito, em Reflexões sobre a construção civil: “Cimento na cabeça dos outros é isopor”.

Freire articulou na voz novas leituras da poesia Testamento, de Manuel Bandeira, escrita em 1943: “O que não tenho e desejo / É que melhor me enriquece..”. Os textos declamados por Marcelino se encaixavam às interpretações musicais do Coletivo Angu de Teatro e convidados.

E os textos corriam entre músicas, a pontuar e se irmanar com as trilhas sonoras (de Juliano Holanda, Henrique Macedo), a iconografia, os figurinos de Ossos; Angu de Sangue, Rasif – Mar que Arrebenda, Ópera e Essa Febre que Não Passa. A prosa contundente de Macelino assumiu sua leitura de autor em Amor Cristão, dos contos de Rasif: “Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca. (…) Amor salvador. Cristo mesmo quem nos ensinou. Se não houver sangue. Meu filho. Não é amor”.

Marcelino com aquele vozeirão, com uma autoridade de rebelião, com a pertinência na corpo e na postura das coisas impreteríveis que beliscam e arrancam pedaços. Sobre negros e pobres dos cantos da injustiça social, o escritor saca Trabalhadores do Brasil, do livro Contos negreiros com a urgência do grito represado: “Hein seu branco safado? Ninguém aqui é escravo de ninguém”.

E os atores-cantores soltaram a voz, com seus erros e acertos. Em modulações quentes e apaixonadas. Com uma falha aqui outra ali, que tornam mais humanas e calorosas essas canções. 

Hermila Guedes e Henrique Macedo lembrando Socorrinho lá do início da carreira do Angu, sobre o abuso à inocência, essa composição em parceria entre Macedo e Carla Denise.

Lágrimas com Marcondes Lima, De onde você vem, com Ivo e Nínive, Cinema, com Ivo e elenco, Tire seus olhos de mim, com André Brasileiro Ouriço, com Isadora e Juliano Holanda e a marchinha tristíssima e encantadora Morrer em Pernambuco.

Hermila Guedes e Henrique Macedo. Foto: Mery Lemos /Divulgação

Hermila Guedes e Henrique Macedo. Foto: Mery Lemos /Divulgação

Banda formada por Juliano Holanda, Marcondes Lima. Foto: Mery Lemos/ Divulgação

Banda formada por Juliano Holanda, Rafa B e Rogê Victor. Foto: Mery Lemos /Divulgação

Com arranjos de Juliano Holanda, as músicas foram tocadas pela banda composta pelo próprio Juliano (violão, voz e guitarra), Rafa B (bateria) e Rogê Victor (baixo). Uma dramaturgia que corria num fluxo sonoro envolvente, com suas letras imagéticas que carregam reflexões poéticas e existenciais. Que toca a pele mas atinge o osso.

Angu de canções foi apresentado no Teatro de Santa Isabel, em 26/01, dentro do Janeiro de Grandes Espetáculos.

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Premiados da Apacepe 2017

Ganhadores do Prêmio Apacepe de Teatro e Dança de 2017. Foto: Pedro Portugal / divulgação

Ganhadores do Prêmio Apacepe de Teatro e Dança de 2017. Fotos: Pedro Portugal / divulgação

Atores Alexandre Guimarães e Sonia Bierbard, apresentadores da noite

Atores Alexandre Guimarães e Sonia Bierbard, apresentadores da noite

Músicos Beto do Bandolim e Beto Hortis

Músicos Beto do Bandolim e Beto Hortis

Improvisação dançada da bailarina Inaê Silva

Improvisação dançada da bailarina Inaê Silva

O Teatro Apolo estava lotado na plateia baixa, ontem, noite de entrega do Prêmio Apacepe de Teatro e Dança, do 23º Janeiro de Grandes Espetáculos. Como é previsível, quem não é indicado não pisa lá.

Os atores Alexandre Guimarães e Sônia Bierbard conduziram o anúncio da premiação com humor, doses de ironia e habilidade para manter um bom clima.

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Momento de lembrar as perdas recentes. Naná Vasconcelos fez a trilha de As Três Mulheres de Xangô

Homenagem a Flávio Santos pelo equipe do espetáculo Sistema 25. Fotos: Pedro Portugal

Homenagem a Flávio Santos pelo equipe do espetáculo Sistema 25. Fotos: Pedro Portugal

Cena do guarda-chuva do Sistema 25

Cena do guarda-chuva do Sistema 25

Mãe de Flávio Santos na plateia da homenagem

Mãe de Flávio Santos na plateia da homenagem

Alguns momentos de destaque na premiação, da lembrança dos que partiram, com Beto Hortis ao bandolim e as fotos projetadas. O dueto dos músicos Beto do Bandolim e Beto Hortis, com improvisação dançada da bailarina Inaê Silva. O ator Flávio Santos recebeu uma homenagem da produção do Sistema 25, que cantou a cena do guarda-chuva e emocionou a todos que conheceram essa figura humana maravilhosa. A mãe de Flávio Santos estava lá e não conteve as lágrimas. Nem eu.

Outro momento interessante foi a apresentação do mágico Rafa Santacruz, que levou até a cantora Cristina Amaral para o palco para ajudá-lo nos truques de sumir bolas e lenços e garantir o humor da noitada.

Mágico Rafa SantaCruz

Mágico Rafa SantaCruz

Em princípio estavam concorrendo as peças de teatro adulto A Rã; A Mulher Monstro; O Mascate, A Pé Rapada e Os Forasteiros; Puro Lixo; Alguém Pra Fugir Comigo; Olhos De Café Quente; Martelada; Histórias Bordadas em Mim; Pa(Ideia) – Pedagogia da Libertação; Terror e Miséria No Terceiro Reich – O Delator; A Partida; Baba Yaga; Severinos, Virgulinos e Vitalinos; Ossos. Os espetáculos de dança Tijolos De Esquecimento; Bacnaré: 31 Anos de Resistência; Os Superficiais; Grito; Amor, Segundo As Mulheres De Xangô; Dúvido; Enchente; Segunda Pele e Microclima. E os infantis Doralice; Vento Forte Para Água e Sabão; Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo.

Algumas dessas produções não foram indicadas a nenhuma categoria.

Na área de dança foram indicados Amor, Segundo as Mulheres de Xangô, do Grupo Grial (Recife); Enchente, de Flávia Pinheiro (Recife); Os Superficiais, da Cia. Etc. (Recife) e Segunda Pele, do Coletivo Lugar Comum (Recife) para Melhor Espetáculo.

Para melhor bailarina concorreram Iara Campos, de Microclima; Maria Agrelli, de Segunda Pele; Marcela Felipe, de Enchente e Maria Paula Costa Rêgo, de Amor, Segundo as Mulheres de Xangô. Houve apenas uma indicação para melhor bailarino.

Estavam no páreo por Melhor Iluminação os projetos de Cleison Ramos, de Dúvido; Luciana Raposo duplamente, por Amor, Segundo as Mulheres de Xangô e Segunda Pele. Foram indicados a Melhor Figurino Gustavo Silvestre, de Amor, Segundo as Mulheres de Xangô e Marcondes Lima, de Os Superficiais. Concorreram a Melhor Sonoplastia ou Trilha Sonora Caio Lima e Hugo Medeiros, por Segunda Pele e Tarsísio Resende, por Amor, Segundo as Mulheres de Xangô.

Os Jurados Dielson Pessôa, Nadja Maria e Viviane Ferreira consideraram que não havia merecedores a serem indicados para Melhor Coreografia; Melhor Cenário; Bailarino Revelação e Bailarina Revelação.

Foram entregues também Prêmios Especiais do Júri de Dança ao elenco do espetáculo Dúvido, da Cia Sopro-de-Zéfiro/Cecília Brennand; ao elenco do espetáculo Bacnaré: 31 Anos de Resistência, do Balé de Cultura Negra do Recife (Bacnaré), justificado porque “demonstraram forças congruentes na excelente execução de suas performances”.

Não havia nenhuma representante de Segunda Pele na hora da premiação, além de Luciana Raposo, que é a coordenadora técnica do Janeiro e estava cuidando da luz e outros detalhes, que depois pegou os prêmios do Coletivo Lugar Comum, inclusive o troféu dela mesma.

Representante de Dilùvio

Ana Emília Freire, diretora de Dùvido

Luciana Raposo, com Bruna Castiel

Luciana Raposo, com Bruna Castiel

Representante do Bacnaré

Tiago Batista Ferreira, diretor do Bacnaré

DANÇA

Melhor Espetáculo
Segunda Pele – Coletivo Lugar Comum (Recife)

Melhor Bailarino
Julio Roberto – Bacnaré: 31 Anos de Resistência

Melhor Bailarina
Maria Agrelli – Segunda Pele

Melhor Iluminação
Luciana Raposo – Segunda Pele

Melhor Figurino
Gustavo Silvestre – Amor, Segundo as Mulheres de Xangô

Trilha Sonora
Caio Lima e Hugo Medeiros – Segunda Pele

dividiram o prêmio de melhor atriz de teatro infantil

Juliene Moura, de Chico e Flor e Daniela Travassos, de Vento Forte, dividiram o prêmio de melhor atriz de infantil

DORalice

Alexsandro Silva, diretor de DORalice recebeu um prêmio especial

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André Filho, Samuel Lira e Bruna Castiel

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André Filho, diretor de Vento Forte para Água e Sabão

Mãe de Tiago Gondim, que mandou o filho estudar técnicas de palhaço

Mãe de Tiago Gondim, que “mandou” o filho estudar técnicas de palhaço

Eram quatro os infantis concorrendo a prêmios Doralice, com o espinhoso tema do abuso sexual; o lúdico Vento Forte Para Água e Sabão; Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo, que mergulha nos mitos e lendas do Rio São Francisco. A comissão foi formada por Ana Elizabeth Japiá, Márcia Cruz e Samuel Santos. Um dos momentos mais engraçados da noite foi quando a mãe de Tiago Gondim foi receber o prêmio pelo filho, que ela “mandou” estudar palhaçaria, numa curso em São Paulo,  e disse que era uma sensação muito boa estar no palco. 

TEATRO PARA A INFÂNCIA

Melhor Espetáculo
Vento Forte Para Água e Sabão – Companhia Fiandeiros de Teatro (Recife)

Melhor Diretor
André Filho – Vento Forte Para Água e Sabão

Melhor Ator
Tiago Gondim – Vento Forte Para Água e Sabão

Melhor Atriz
Juliene Moura – Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo
Daniela Travassos – Vento Forte Para Água e Sabão

Melhor Ator Coadjuvante
Ricardo Angeiras – Vento Forte Para Água e Sabão

Melhor Atriz Coadjuvante
Geysa Barlavento – Vento Forte Para Água e Sabão

Atriz Revelação
Gabriela Melo – Brinquedos & Brincadeiras

Trilha Sonora
André Filho e Samuel Lira – Vento Forte Para Água e Sabão

Melhor Iluminação
Carlos Tiago Alves Novais – Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo

Melhor Cenário
Antonio Veronaldo e Uriel Bezerra – Chico e Flor Contra os Monstros na Ilha do Fogo

Melhor Figurino
João Denys e Manuel Carlos – Vento Forte Para Água e Sabão

* Prêmios Especiais do Júri:
• A Giordano Castro e Amanda Torres pela dramaturgia da peça Vento Forte Para Água e Sabão;
• À Cia. 2 Em Cena de Teatro, Circo e Dança pela pesquisa temática sobre abuso de vulneráveis na peça DORalice.

Alguém Pra Fugir Comigo, a grande surpresa da noite, recebeu prêmio das mãos do secretário de Cultura Marcelino Granja

Equipe Alguém Pra Fugir Comigo, a grande surpresa da noite, ao lado do secretário de Cultura Marcelino Granja

Soraya, Olhos de Café Quente

Soraya Silva, Olhos de Café Quente

Daniel Barros, melhor ator

Daniel Barros, melhor ator coadjuvante

Diogenes D Lima, melhor ator

Diogenes D Lima, melhor ator

As indicações aos Prêmios de Teatro Adulto causaram estranhamento. Alguns pontos chamaram a atenção. A montagens Martelada, com Claudio Ferrário; Terror e Miséria No Terceiro Reich – O Delator, com Stella Maris Saldanha e Germano Haiut; A Partida; Severinos, Virgulinos e Vitalinos não receberam nenhuma indicação.

Cada equipe de jurados usa seus critérios para avaliar os espetáculos, comparar atuações e escolher o que considera melhor do que viu.

Mas fiquei constrangida com a não indicação do ator Germano Haiut para melhor ator, tendo como perspectiva a designação dos outros cinco: André Brasileiro, de Ossos; Diógenes D. Lima, de O Mascate, a Pé Rapada e os Forasteiros; Gil Paz, de Puro Lixo, o Espetáculo Mais Vibrante da Cidade, José Neto Barbosa, de A Mulher Monstro e Júnior Aguiar, de pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação. Nenhum deles, na minha humilde opinião, melhor que a performance de Germano.

A atuação de Haiut espelha uma insegurança do personagem, uma hesitação e coloca o coração na boca para mostrar o que é estar no limite de uma pressão política de opressão. E qualquer argumento de fragilidade no gesto, na voz titubeante ou na intenção eu considero exatamente o contrário, a potência desse ator maduro, grande e que volta ao teatro após 30 anos apartado dos palcos, com aparições no cinema brasileiro e televisão. E abraço Germano Haiut na sua volta, que deveria ser saudada pelo JGE.

Com relação à melhor atriz, até a vencedora ficou incomodada de não haver outras concorrentes e externou isso no palco. Agri Melo, Stella Maris Saldanha, Cláudia Soares, Lívia Lins, para ficar nos espetáculos que vi, não estavam em condições de serem indicadas? É uma pergunta.

A atuação de Arilson Lopes, em Ossos, também vejo como merecedora de prêmio. O trabalho de Daniel Barros, em pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação é bom, mas eu ficaria com Arilson. São opiniões divergentes e não vou me prolongar nessa seara.

A decisão de uma comissão de prêmio é soberana e deve ser respeitada.

Mas penso que três não é um bom número para uma comissão julgadora para o JGE. Talvez fosse bom pensar para as próximas edições um planejamento que garanta uma verba para montar um júri com cinco ou sete pessoas, que contemple a diversidade de olhares. Uma outra sugestão, e isso dá um trabalho, é que a comissão justifique com um breve arrazoado suas escolhas.

A noite prosseguiu no no Bar Apolo 17 (Rua do Apolo, 170) com o DJ Sangue no Olho (Giordano Bruno) e foi movimentada e dançante. Mas gostaria de sugerir que o nosso querido magiluth investisse nas suas discotecagens num som soul, samba, funk, hip hop, afro groove, maracatu mais feminino e feminista. Há mulheres poderosas com umas músicas demais nas paradas. O trabalho da DJ Shaitemi Muganga, a artista mineira Nina Caetano arrasa nesse assunto e indica bons caminhos.

E por último e não menos importante. Sinto algo de muito conservador neste festival Janeiro de Grande Espetáculos e no Prêmio Apacepe de Teatro e Dança. Não consigo fazer um diagnóstico preciso, mas vejo seus sinais. Um deles estava estampado no hall de entrada do Teatro Apolo, ontem, noite de entrega da premiação. Folhas de jornais com matérias sobre o evento que ocorreu de entre os dias 12 a 29 de janeiro, numa realização da Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe). Nenhuma reprodução das outras mídias. O blog Satisfeita, Yolanda publicou um material sobre o Janeiro e os links estão no final do post.

No futuro, se ignorasse essas outras plataformas, um pesquisador perderia nuances sobre o evento. 

Isso pode parecer um detalhe sem importância, mas é o reflexo de um pensamento e é preciso pontuar as coisas para que elas não sejam naturalizadas.

TEATRO ADULTO

Melhor Espetáculo
Alguém Pra Fugir Comigo – Resta 1 Coletivo de Teatro

Melhor Diretor
Analice Croccia e Quiercles Santana – Alguém Pra Fugir Comigo

Melhor Ator
Diógenes D. Lima – O Mascate, a Pé Rapada e os Forasteiros

Melhor Atriz
Soraya Silva – Olhos de Café Quente

Melhor Ator Coadjuvante
Daniel Barros – pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação

Melhor Trilha Sonora
Juliano Muta, Leonardo Vila Nova e Tiago West – pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação

Melhor Iluminação
Elias Mouret – Alguém Pra Fugir Comigo
Júnior Aguiar – pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação

Melhor Cenário
Diógenes D. Lima, Gustavo Teixeira, Triell Andrade e Bernardo Júnior – O Mascate, a Pé Rapada e os Forasteiros

Melhor Figurino
Marcondes Lima – Ossos

Melhor Maquiagem
Manuel Carlos de Araújo – Puro Lixo, o Espetáculo Mais Vibrante da Cidade

Prêmios Especiais do Júri:
• Ao Resta 1 Coletivo de Teatro pelo elenco da peça Alguém Pra Fugir Comigo;
• A Ana Paula Sá, Quiercles Santana e o Resta 1 Coletivo de Teatro pela dramaturgia da peça Alguém Pra Fugir Comigo;
• A Diógenes D. Lima pela dramaturgia da peça O Mascate, a Pé Rapada e os Forasteiros.

Corpo de Jurados Teatro Adulto: Breno Fittipaldi, Jorge de Paula e Rita Marize

Coordenação/Produção de Corpo de Júri: Augusta Ferraz

José Manoel recebeu prêmio especial da Apacepe.

José Manoel recebeu prêmio especial da Apacepe.

Rudimar Constâncio, do Sesc Piedade, recebeu prêmio especial da Apacepe

Rudimar Constâncio, do Sesc Piedade, recebeu prêmio especial da Apacepe

 

TROFÉUS CONCEDIDOS PELA APACEPE

Aos 50 anos de carreira do ator e diretor José Francisco Filho;

A José Manoel Sobrinho, por sua parceria e colaboração na trajetória do festival Janeiro de Grandes Espetáculos;

A Rudimar Constâncio, pela qualidade de produção nos espetáculos de conclusão do Curso de Interpretação Para Teatro do SESC Piedade.

 

 

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Breve passeio pelo Janeiro dos Espetáculos – parte 1

Teatro de Santa Isabel lotado, foto da segunda sessão de O Avesso do Claustro. Foto: Pedro Portugal

Teatro de Santa Isabel lotado, foto da segunda sessão de O Avesso do Claustro. Foto: Pedro Portugal

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Na sua fala para o programa do Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival Internacional de Artes Cênicas de Pernambuco, o produtor Paulo de Castro confessa que quase não acreditavam (o trio de realizadores: ele, Paula de Renor e Carla Valença) que a edição deste ano iria mesmo acontecer, diante das dificuldades cada vez mais desafiadoras. Conseguiram. E mexeu com a cidade do Recife neste primeiro mês do ano de 2017.

Em termos de público, a 23ª edição foi um sucesso. Somadas as plateias das produções de teatro adulto e infantil, dança, leituras dramáticas e shows musicais do Recife e Caruaru chegou-se a 15 mil pessoas. É um número muito bom. Janeiro de Grandes Espetáculos ocorreu entre os dias 12 a 29 de janeiro, numa realização da Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe).

É um programa consolidado e isso talvez seja um problema. O mundo gira muito rápido. Novos paradigmas das artes do espetáculo ocupam os espaços e não dá para ficar preso às glórias do passado. O Janeiro precisa de ousadias.

O JGE já cumpriu durante muitos anos a função retrospectiva de montagens pernambucanas do ano anterior, numa posição de ampliar o fôlego dessas encenações. Entraram as estreias como aposta durante o trajeto, mais peças nacionais e algumas atrações internacionais. A música chegou com seu irresistível encanto e ficou.

Algumas coisas foram se esvaindo ao longo dos anos. Na sua atuação pela valorização das criações pernambucanas e o erguimento de pontes de circulação, o Janeiro trouxe curadores. Isso possibilitou que algumas peças participassem de festivais brasileiros importantes. O Palco Brasil, um acordo entre a Apacepe e a prefeitura do Recife facilitou o deslocamento de companhias de teatro e dança para festivais nacionais, o que já não acontece. Também não há mais espaço para reflexão crítica no festival, como as conversas com os críticos.

As crises financeiras e políticas, a falta de um pensamento de curadoria mais definido, as opções pela ideia de que em time que está ganhando não se mexe, as opções adotadas e o Janeiro perdeu ano a ano algumas dessas coisas.

Numa conversa que tive com os três coordenadores – Paula de Renor, Carla Valença e Paulo de Castro – ficou bem claro de que a ideia de que no Janeiro “cabe tudo”, defendida por Paulo de Castro, não era pactuada pelas duas outras produtoras. O resultado foi espelhado na programação do Janeiro.

Houve uma série de desconexões entre as atrações e desníveis de qualidade. Como então cumprir o papel da arte de sacolejar as pessoas e tirá-las do estado de comodidade? O Janeiro cometeu erros? Muitos. Talvez seja a hora desse festival se reinventar.

Quem sabe não seja um assunto para ser discutido numa reunião de avaliação entre os dirigentes/gestores/equipe e os artistas e produtores da cidade que funcionam como parceiros da empreitada, como faz questão de destacar Paula de Renor?!

Na sua coluna dessa sexta-feira no jornal Folha de São Paulo, o professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo) Vladimir Safatle chama para a necessidade de pensar, de forma indissociável, crítica social e crítica cultural, que foi característica da tradição do pensamento crítico do século 20. E que : “A produção cultural deveria ser analisada a partir da emancipação social que ela seria capaz de gerar”. Para que surjam novos circuitos de afetos. Coisas pra pensar sobre o papeis da cultura nesses tempos de autoritarismos e de líderes protofascistas.

Sebastião Alves, Sebá, homenageado do JGE. Foto: Viviane Santos / Divulgação

Sebastião Alves, Sebá, homenageado do JGE. Foto: Viviane Santos / Divulgação

Dito isso, vamos flanar pela memória desse primeiro mês de 2017, enquanto Saturno não chega. O contato amoroso com uns, o atrito com outros, também foi uma época de aprendizado acelerado. E no meio disso o encontro com apaixonados por essa arte tão da presença, tão do aqui/agora, sua dedicação e sacrifício também me tocaram. E foi possível nesse percurso forjar escutas outras, deslocar algumas e exercitar o respeito que é um tirocínio constante.

Meu passeio esbarra com o artista Sebastião Alves, Sebá, homenageado do festival. Em síntese, um guerreiro. Ele começou a trabalhar ainda adolescente em sua cidade Sertânia, como assistente de obra, mudou-se para Caruaru onde encarou várias funções. Foi-se embora para o Rio de Janeiro, em 1974, na busca de reconhecimento na arte e ganhar uma grana para comprar uma casa para a mãe. Na cidade maravilhosa labutou na construção do metrô. E voltou sem alcançar seu objetivo.

Em Caruaru, enveredou pelas artes cênicas e participou de montagens como Solte o Boi na Rua(1979), de Vital Santos, com o Grupo de Teatro Ivan Brandão; O Auto das Sete Luas de Barro, do Grupo Feira de Teatro Popular e outras que se seguiram.

Venceu um câncer e outras doenças e, aos 60 anos (completados no dia 20), se diz um sobrevivente. É mais: um emblema. Um mestre de mamulengo que mantém o espaço Teatro Garagem Mamusebá, nas dependências de sua casa, e o Teatro Oficina Mamusebá, que fica ao lado da estação ferroviária de Caruaru.

Aquele garoto que que sonhava ser ator de cinema – inspirado pelos filmes bangue-bangue, mas planejava ser do time dos mocinhos – foi a inspiração de Vital Santos para montar a peça Olha pro Céu, Meu Amor, que abriu o Janeiro no Teatro de Santa Isabel.

Olah pro Céu Meu Amor em apresentação no Teatro de Santa Isabel. Foto: Divulgação

Olah pro Céu Meu Amor em apresentação no Teatro de Santa Isabel. Foto: Divulgação

Olha Pro Ceu Meu Amor é um espetáculo político de Vital Santos e que guarda os aspectos de sua criação original, de protesto contra a desigualdade social, a condição dos nordestinos que seguem para o Sudeste no intuito de melhorar de vida. O espetáculo estreou em 1980 e não foi atualizado em sua dramaturgia ou direção. Então é um retrato de uma época que traz reflexos ao Brasil até hoje. Mas a montagem desconsidera as mudanças reais ocorridas nos 16 anos do governo Lula /Dilma, como o retrocesso protagonizado pelo atual governo.

Baseada na vida do protagonista, o musical emocionou a plateia que compareceu ao Teatro de Santa Isabel, na sua estreia. Sebá representando ele mesmo e o elenco dividido entre pessoas da família do protagonista que ficaram no interior de Pernambuco e figuras do trabalho, em posições subalternas ou de chefia.

Os desenhos coreográficos, as falas engraçadas e terríveis de exclusão, o acalentar de sonhos, as músicas prosseguem a mostrar a potência desse espetáculo Olha pro Céu Meu amor.

h(EU)stória - o tempo em transe com Júnior Aguiar e Márcio Fecher

h(EU)stória – o tempo em transe com Júnior Aguiar e Márcio Fecher

h(EU)stória – o tempo em transe parte das cartas do cineasta Glauber Rocha para o poeta Jomard Muniz de Britto e o ex-governador Miguel Arraes, mote para falar de pressões. O esmagamento político e público sobre o cineasta é mostrado em surtos criativos, depressões e a vida arrancada. Coisas que a desumanidade faz com eficiência atualmente nas redes sociais. Glauber Rocha combatia com sua arte as barbáries sofridas em seu país. As repercussões danosas atravessaram seu corpo e atingiram seu espírito. Isso Junior Aguiar e Marcio Fecher defendem no primeiro espetáculo da Trilogia vermelha.

Outros espetáculos também investem no teor político com maior ou menor densidade. O Mascate, a Pé Rapada e os Forasteiros, com texto e atuação de Diógenes D. Lima usa do humor e da galhofa para fazer crítica à falta de políticas do Recife e de Olinda. Nessa montagem de teatro de objetos, as duas cidades são homem e mulher explorados por forasteiros, como Portugal e Holanda, e corrompidos pela ganância e cobiça.

Numa outra chave crítica, a dança Microclima, com Iara Campos, focaliza as consequências das decisões desastrosas sobre as grandes cidades. No Recife, o que vai da política pública para o corpo da população, que sofre na pele com o calor insuportável, o trânsito caótico e a especulação imobiliária. Distopia.

A Mulher Monstro pega um conto atualíssimo de Caio Fernando Abreu, escrito na ditadura militar, para falar das contradições gritantes, das intolerâncias e do ódio que a sociedade brasileira ostenta. Sozinho no palco, José Neto Barbosa imita figuras públicas e as que se escondem por trás de perfis no facebook.

Enchente faz pensar sobre isolamentos forjados pelos piores sentimentos que envolvem o poder do mundo capitalista. Os desastres humanos migratórios e econômicos.

Grito, que estreou no festival, expõe o medo da violência nas ruas do Recife em uma coreografia forte assinada por Lilli Rocha. E a cumplicidade feminina para encontrar um lugar de superação.

Stella Maris Saldanha e Germano Haiut. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

Stella Maris Saldanha e Germano Haiut. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

Com todas as sete sessões esgotadas, Terror e miséria no Terceiro Reich – O delator registra a volta do ator Germano Haiut aos palcos. Nos últimos 30 anos, fez cinema, televisão. Na peça – adaptação de um trecho da obra escrita pelo poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht, com direção de José Francisco Filho – Haiut divide a cena com Stella Maris Saldanha e interpretam um casal alemão de classe média que vive o medo da traição dentro da própria casa. Eu aplaudo a volta de Germano Haiut.

A participação estrangeira não trouxe o brilho esperado. O Comuna Teatro de Pesquisa (Lisboa/Portugal), que veio com três montagens, incluindo a peça Do Desassossego (baseado no Livro do Desassossego, de Bernardo Soares e Fernando Pessoa) mostrou-se um grupo conservador nos seus procedimentos cênicos, sem diálogos mais estreitos com as pulsações do teatro contemporâneo, por exemplo.

Esse Janeiro de Grandes Espetáculos é muito grande e não vou dar conta de falar sobre todas os questões neste post. Hoje temos a festa do Prêmio Apacepe de Teatro e Dança, quando serão entregues às estatuetas aos melhores do 23º Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival Internacional de Artes Cênicas de Pernambuco, segundo a comissão formada por Breno Fittipaldi, Jorge de Paula e Rita Marize (Teatro Adulto); Ana Elizabeth Japiá, Márcia Cruz e Samuel Santos (Teatro Para Crianças); Dielson Pessôa, Nadja Maria e Viviane Ferreira (Dança). A Coordenação/Produção de Corpo de Júri ficou com Augusta Ferraz.

A festa dançante segue no Bar Apolo 17 (Rua do Apolo, 170) com o DJ Sangue no Olho (Giordano Bruno).

Teremos concordâncias e discordâncias com os resultados. Estranho a ausência do nome de Germano Haiut como indicado para Melhor Ator. Também chama a atenção a indicação única de Melhor Atriz e a não indicação para Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Ator Revelação e Melhor Atriz Revelação, por exemplo.

Mas como pontuei em post anterior, os resultados dependem de quem faz os julgamentos e nenhuma verdade é absoluta.

Esse Janeiro vai ter repercussão.

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Coragem de ser Terra para mãos, pés e vistas

 

Maria Paula Costa Rêgo no espetáculo Terra. Foto: Guto Muniz / Divulgação

Maria Paula Costa Rêgo no espetáculo Terra. Foto: Guto Muniz / Divulgação

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As conquistas e perdas dos povos indígenas e a certeza de que a luta continua. Foto: Guto Muniz/ Divulgação

O quanto de índio há em você, cidadão brasileiro? questiona o espetáculo Terra, derradeira parte da trilogia Uma história, duas ou três, do Grupo Grial, concebido e dançado pela bailarina e coreógrafa Maria Paula Costa Rêgo. E se posiciona a favor dos povos primordiais, que historicamente foram ameaçados, subjugados e rebelados; que tiveram seus territórios confiscados por leis feitas pelos beneficiários. Resistiu, Resiste.

Terra condena nos passos da dança contemporânea o genocídio desses povos e o preconceito que persiste até hoje. No corpo da bailarina pulsa a identidade e os movimentos das manifestações populares indígenas do Nordeste brasileiro.

Diálogo com o presente e com a luta. A peça coreográfica tem direção assinada por Maria Paula Costa Rêgo e Erick Valença. A trilha sonora, criada pelo percussionista Naná Vasconcelos, está carregada de efeitos sonoros, com onomatopeias e sons da natureza. E o cenário é assinado pelo artista plástico Manuel Dantas Suassuna.

A temporada integra as comemorações de 20 anos do grupo Grial, criada por Ariano Suassuna e Maria Paula Costa Rêgo e vai de 2 a 4 e de 9 a 11 de fevereiro de 2017, na CAIXA Cultural Recife.

A encenação é uma das mais premiadas do grupo. Terra ganhou o Prêmio APCA de 2013, na categoria Intérprete-Criadora, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte. O solo também arrebatou cinco troféus do Prêmio Apacepe de Dança 2014, do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos.

Entrevista: Maria Paula Costa Rêgo

 Bailarina e coreógrafa do Grupo Grial. Foto: Victor Muzzi

Bailarina e coreógrafa do Grupo Grial. Foto: Victor Muzzi

Ariano Suassuna criou junto com você o Grupo Grial em 1997. Que falta faz Ariano Suassuna para você?
Eu gostava de mostrar a obra finalizada para Ariano, e discutir aquele material. A conversa era sempre muito maior, ele mostrava vídeos e músicas e dava muitas voltas em torno da arte almejada por nós. Este PAR, está me fazendo muita falta.

Qual a importância do Balé Popular na sua vida?
Foi minha segunda grande vivência, e sem ter passado pelo Balé Popular do Recife, eu certamente não teria chegado ao Grupo Grial.

Prêmio é importante? Por quê e para quê?
Quando uma instituição de respeito reúne pessoas conceituadas na sua área, para decidirem quem deve ganhar um prêmio pela sua obra, este prêmio tem um valor imensurável. Abre portas, chama olhares, além de confirmar que as suas escolhas estéticas reverberam de alguma forma.

Como você ultrapassou os limites territoriais e venceu o Prêmio APCA de 2013?
Os limites territoriais são ultrapassados quando acreditamos que ele não existe. Existe a dificuldade financeira, mas criamos espetáculos pensando em alcançar o mundo, então estas dificuldades diminuem.

Qual o seu pensamento em dança e como ele foi construído?
A minha primeira experiência de dança foi com Improvisação, e com o aprimoramento desta técnica, eu tive conhecimento do meu corpo e da capacidade que este corpo tem de materializar sentimentos através da qualidade dos seus movimentos. Ao vivenciar o Balé Popular, eu me joguei naquilo que, para mim, era muito mais que o movimento da dança popular, era o jogo cênico da brincadeira. Estava largada a minha jornada no universo das tradições.
Quando viajei para a França, meus estudos giravam em torno desta questão, mas eram sempre na teoria que eu evoluía. A prática deste discurso veio a se concretizar com a criação do Grupo Grial em 1997. De lá para cá, são as criações que me dão as respostas para minhas questões de construção de uma dança onde o cerne é a tradição popular. Cada criação coreográfica, uma pergunta e, certamente, 2500 respostas!

Poderia elucidar a frase de que o Grupo Grial faz criações com temas e inspirações populares trabalhadas numa chave erudita, porque isso parece um bordão.
O Grupo Grial trabalha com o UNIVERSO DAS TRADIÇÕES festivas e sagradas brasileiras. Quando adentramos nestes universos, os percebemos pelos nossos “olhos” de estrangeiros. Vivenciamos de dentro, ao mesmo tempo que ligamos uma segunda intenção que fica no alerta, “à cata” de elementos de criação contemporânea, de composição coreográfica (e tudo que ela engloba). Essa percepção pode acontecer muito rápido, como pode durar anos! Esse material (imaterial) se amalgama com nosso fazer de dança diário (estudos técnicos e teóricos), e que, juntos, ficam à serviço das nossas criações coreográficas.

Terra é um solo da Maria Paula, criação do grupo Grial que leva para a cena uma discussão densa sobre as origens do Brasil, através da metáfora da terra, do chão que pisamos. O que você acrescenta para falar de Terra.
TERRA, é também uma metáfora do homem moderno que tem se deixado roubar seus espaços (a palavra espaço significa também conquistas sociais).

O tempo traz experiência, mas deixa suas marcas no corpo, na presteza do gesto. Como criadora o que significa dançar hoje? Quais as diferenças de 20 atrás?
TODAS AS DIFERENÇAS! Antes eu colocava o vigor à serviço do que eu estava interpretando, hoje eu coloco a minha dramaturgia corporal a serviço da história.

Sempre me parece muito estranho traduzir corpo em movimento, energia, desenho coreográfico, a dança contemporânea para texto. Colocações como “O trabalho aborda temáticas como memória, tempo e transformações da nossa história” me parecem muito vagas.
Então o que significaria: “As coreografias trazem referências das manifestações populares do Nordeste transformadas em DNA para os passos de Maria Paula Costa Rêgo”?

DNA é algo que nos pertence, do que somos feitos. O Brasil tem muita dificuldade de assumir sua descendência indígena ou africana. Para a maioria de nós, somos descendentes apenas dos povos europeus!! Quando falamos que trago nos meus movimentos este DNA é que assumo a minha herança e a do lugar em que vivo, e coloco minhas criações à serviço deste norte.

Ficha técnica:
Direção: Maria Paula Costa Rêgo e Eric Valença
Intérprete: Maria Paula
Trilha sonora: Naná Vasconcelos
Figurino: Gustavo Silvestre
Luz: Luciana Raposo
Pintura de cenário: Manuel Dantas Suassuna.

Serviço
Terra – Grupo Grial de Dança
Onde:CAIXA Cultural Recife (Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife, Recife/PE)
Quando: 2 a 4 e 9 a 11 de fevereiro de 2016, às 20h
Ingresso: R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia)
Bilheteria: vendas a partir das 10h do dia 1/02 (para os dias 2 a 4) e do dia 8/02 (para os dias 9 a 11)
Informações:(81) 3425-1915
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 45 minutos

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