Ressurreição de Soledad Barrett no palco

Hilda Torres interpreta Soledad - A terra é fogo sob nossos pés

Hilda Torres interpreta Soledad

Há espetáculos que falam destes tempos que pulsam, mesmo que remetam a outro. Soledad – A terra é fogo sob nossos pés faz parte dessa arte urgente e inadiável. Necessária e bela. Imperiosa para o presente ameaçado, e ajuste de conta com a História. E isso amplia sua escala de arte fincada no real e com as garras e os dentes afiados para não sermos devorados pelo obscurantismo. Não, de novo, não.

A entrega da interpretação de Hilda Torres é algo que precisa ser aplaudido. De pé. É a primeira dramatização da vida da guerrilheira paraguaia Soledad Barrett Viedma para palcos brasileiros. Ela foi caluniada como terrorista e ficou conhecida como a mulher do Cabo Anselmo, o policial infiltrado na guerrilha que a entregou a Fleury em 1973. Soledad e mais cinco militantes contra a ditadura foram executados no “O massacre da granja São Bento”. Ela estava grávida.

A peça faz única apresentação nesta quinta-feira, às 20h, no Teatro Hermilo Borba Filho, dentro da programação do Trema! Festival de Teatro.

Hilda Torres é idealizadora do espetáculo junto com a diretora Malú Bazan, que assinam o texto. O monólogo faz referências ao livro Soledad no Recife, de Urariano Mora, a uma série de entrevistas e pesquisa documental realizadas por ambas, à publicação 68, a geração que queria mudar o mundo“, compilação de relatos de uma centena de ex-militantes políticos, organizados e sistematizados Eliete Ferrer, do grupo Os Amigos de 68. Além de consultas ao tijolaço da Comissão da Verdade e registros do Tortura Nunca Mais. E poemas de Marco Albertim e da artista plástica Ñasaindy de Araújo Barrett, filha de Soledad, que assina composições e empresta sua voz de cantora ao espetáculo.

A montagem se expressa generosa e caudalosa para recuperar a vida e a luta de uma mulher entregue à repressão pelo marido, numa farsa encenada pelo Estado de terror e traição no Recife da ditadura militar. A peça manifesta o poder da arte, de promover a reparação – pelo menos da imagem púbica – das violações a direitos fundamentais. Para reescrever a História e subverter a ordem do esquecimento.

O monólogo poético, que também faz alusões ao período atual da política brasileira, traça o percurso de Soledad Barret, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Os seus conflitos como mulher, mãe, filha, militante perseguida. E recupera as facetas dessa musa política das esquerdas da América Latina.

Como já disse Urariano Mota, “Soledad Barrett Viedma é um dos casos mais eloquentes da guerra suja da ditadura no Brasil”. A peça é uma vitória pelo resgate da memória, da verdade e da justiça.

Serviço
Soledad – A terra é fogo sob nossos pés
Quando: Nesta quinta-feira, às 20h;
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho

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Totem ressignifica rituais indígenas

Retomada, como Grupo Totem. Foto: Fernando Figueiroa/ Divulgação

Retomada fala da luta pela terra, da alma coletiva, da ancestralidade. Foto: Fernando Figueiroa/ Divulgação

O Grupo Totem já está na estrada da performance há quase 30 anos. 28 para ser mais exato.  Muito antes da prática ser consagrada nas várias linguagens a trupe já estava no campo de luta, emanando energia vital pelo direito de minorias, da educação, dos povos originários, num enfrentamento político contínuo, visível ou invisível. A trupe dirigida por Fred Nascimento não trabalha com textos dramáticos, mas com processo de criação extraídos do corpo.  O espetáculo de teatro performático Retomada ganha uma apresentação nesta quarta-feira, às 20h, no Teatro Hermilo Borba Filho, como parte da programação do Trema! Festival de Teatro.

O procedimento para essa montagem começou em agosto de 2015. O coletivo enveredou pela  espiritualidade indígena. A primeira residência foi junto ao Povo Pankararu, no município de Tacaratu. Lá, a turma vivenciou com os indígenas a tradição do Menino do Rancho. Em Pesqueira praticou o ritual do Dia de Reis do povo Xucuru e conheceu melhor a história de luta e resistência dessa tribo e o episódio que abateu o cacique Xicão. Com os Kapinawás, próximo do município de Buíque, a turma interiorizou um jeito diferente de dançar o toré e sambada de coco. Também teve acesso a furna sagrada e colheu o sentimento de ligação dos indígenas junto aos encantados.

Foram experiências preciosas de intercâmbios culturais, alimentados por trocas rituais, performáticas e espirituais. A montagem é fruto final do projeto Rito Ancestral Corpo Contemporâneo, financiado pelo edital do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura).

vivenciar ritualísticas

O espetáculo capta a energia metafísica que emana dos rituais

O sagrado integra o cotidiano dos povos nas coisas mais simples. A relação é de respeito e as divindades são sempre consultadas. Mas como destaca o diretor do grupo, Fred Nascimento, a turma não reproduz os rituais das aldeias. O processo criativo captar a força, a energia metafísica que emana desses rituais e penetra os corpos contemporâneos.

As vozes ancestrais ecoam no presente. Além da questão mais transcendente, o teor político impregna a montagem. A luta pelo solo sagrado, o sentimento de pertencimento aquela terra inspirou a trupe a corporificar a sacralidade das terras indígenas e o sentimento de resistência.

A interlocução entre a ancestralidade e a tecnologia faz parte do método Totem de ser. Fred explica que a performance multimídia traça uma espécie de simbiose entre o físico, o sonoro, o espaço circundante e a metafísica, a fim de criar uma atmosfera ritual. “Através dos corpos expandidos das atrizes-performers, tomadas por suas personas, mostraremos simultaneamente o corpo contemporâneo e a alma coletiva dos povos, que os séculos de colonização não conseguiram anular”, adianta.

Atrizes do Grupo Totem

Atrizes do Grupo Totem

A pesquisa e a criação são coletivas, a encenação é assinada por Fred Nascimento, que também assina a trilha sonora da peça, em parceria com Cauê Nascimento. A iluminação de Natalie Revorêdo. No elenco estão Lau Veríssimo, Taína Veríssimo, Gabi Cabral, Gabi Holanda, Inaê Veríssimo, Juliana Nardin e Tatiana Pedrosa.

As atrizes-performers acionam o conceito de alma coletiva identificada nas aldeias. O termo foi desenvolvido nos estudos da performance e antropologia de Richard Schechner. Além de Schechner o coletivo buscou sustentação teórica nos estudos do professor, pesquisador brasileiro Cassiano Sydow Quilici e nas ideias do poeta Antonin Artaud, que defendia que o teatro deve ser “antes de tudo ritual e mágico”

SERVIÇO

Retomada
Quando: quarta-feira, 4 de maio, às 20h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia),
Informações: (81) 3355-3320

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Artistas discordam sobre uso de teatro pela polícia

Teatro Santa Isabel. Foto: Marcelo Lyra

Teatro de Santa Isabel. Foto: Marcelo Lyra

Quando a atriz e produtora Paula de Renor soltou um post no Facebook com a marcação de mais de 60 pessoas, pensei: Aí vem bomba. Virou o principal assunto do pessoal de teatro e das pessoas ligadas à cultura de Pernambuco nesta terça-feira. O Teatro de Santa Isabel foi cedido, na semana passada, para a festa dos 199 anos da Polícia Civil de Pernambuco. A reação da classe artística foi imediata e inundou de críticas as redes sociais quanto à postura da Prefeitura do Recife, em especial da Secretaria de Cultura do Recife e da titular da pasta, Leda Alves.

No decreto municipal de maio de 2006 está registrado que o palco do Teatro de Santa Isabel é exclusivamente dedicado a atividades de caráter cultural, “especialmente nas linguagens artísticas da música, do teatro, da dança e da ópera”.

Não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que o governo do estado ou a prefeitura do Recife, desta ou de gestões anteriores, utilizam (ou cedem) o teatro-monumento para ações que não pertencem ao campo artístico stricto sensu. A casa de espetáculos já abrigou ritual de nomeação de guardas municipais do efetivo que atua no trânsito do Recife, em 2012; Programa de Aceleração de Estudos de Pernambuco – Travessia e aniversário de empresa jornalística, entre outros eventos.

A cerimônia comemorativa da Polícia Civil contou com apresentação da Banda Sinfônica do Recife. E é neste ponto que a Secretaria de Cultura arma sua defesa. Em nota à imprensa explicou que a festividade “não desrespeitou o decreto, uma vez que a solenidade foi marcada pela apresentação da Banda Sinfônica do Recife. Sempre que houver uma apresentação artística é uma norma de ocupação de pauta no teatro”.

Entrega das medalhas pelo governador. foto: Foto: Roberto Pereira/ SEI

Entrega das medalhas pelo governador. Foto: Foto: Roberto Pereira/ SEI

O governador Paulo Câmara destacou no seu discurso “a integração entre as diferentes instituições que atuam no combate à violência”. Isso foi publicado na página da Secretaria da Casa Civil Pernambuco do dia 29 de abril. O evento ocorreu na quinta-feira (28/04), no Teatro de Santa Isabel, às 17h.

O gestor – que não é visto prestigiando as produções teatrais pernambucanas – comandou a entrega das Medalhas de Honra ao Mérito Policial – classe Ouro a pernambucanos que sua administração destaca na promoção da segurança pública. O estado condecorou 200 personalidades: figuras da sociedade civil, oficiais civis, militares bombeiros e polícia cientifica, entre eles o deputado federal que votou a favor do impedimento da presidenta Dilma Rousseff, Francisco Tadeu Barbosa de Alencar.

Reprodução do Facebook

Reprodução do Facebook

“Quinta (28/04) passada tomei um susto ao ver tanto policial civil na porta do teatro [de Santa Isabel]. Achei que alguma confusão estava se armando por ali. Fiquei sabendo, então, que era a comemoração do Aniversário da Polícia Civil com celebração dentro do teatro”
                  Paula de Renor – atriz e produtora cultural

O decreto que regulamento a ocupação do Santa Isabel tem como critérios (1) a excelência da qualidade artística da programação cultural a ser apresentada; e (2) a comprovação da trajetória dos eventos mencionados e/ou da equipe de criação do espetáculo, já testada e devidamente comprovada com base em filmes, crítica em jornais ou revistas, fotografias, CD’s DVD’s, etc.

Paula de Renor questionou em sua conta pessoal no Facebook.

“O Santa Isabel é o único que está funcionando AINDA bem: teatros do Parque e Barreto Júnior fechados, Apolo e Hermilo se ultimando, sem ar, sem equipamentos. Agora estão voltando as carteiradas que conhecemos muito bem, e a Secretaria de Cultura sob pressão, se obriga a ceder o nosso teatro monumento para eventos não culturais, desrespeitando o Decreto nº 21.924 de 2006, que trata exatamente da utilização do teatro, permitindo exclusivamente sua ocupação para eventos culturais?!

Desde quando niver da Polícia Civil é cultura? Só porque uma banda musical tocou no meio da cerimônia?! Se pautas estão sobrando, cedam para ocupação de espetáculos (não falta quem queira!)”.

Banda Sinfônica. Foto: Andrea Rego Barros

Banda Sinfônica. Foto: Andrea Rego Barros

DECRETO Nº 21.924 DE 10 DE MAIO DE 2006
EMENTA: Regulamenta a ocupação da pauta do Teatro Santa Isabel.
O PREFEITO DO RECIFE, no uso de suas atribuições constantes no Art. 54, IV, da Lei Orgânica do Recife,
CONSIDERANDO a necessidade de definir regras para ocupação da pauta do Teatro Santa Isabel;
CONSIDERANDO a importância do estabelecimento de critérios para a definição da programação do referido Teatro;
DECRETA:
Art. 1º A Pauta do palco do Teatro Santa Isabel deverá ser ocupada exclusivamente por atividades de caráter cultural, especialmente nas linguagens artísticas da música, do teatro, da dança e da ópera.
Art. 2º Além do observado no artigo anterior, deverão ser considerados os seguintes critérios:
I – Excelência da qualidade artística da programação cultural a ser apresentada;
II – Comprovação da trajetória dos eventos mencionados e/ou da equipe de criação do espetáculo no Art. 1º, já testada e devidamente comprovada com base em filmes, crítica em jornais ou revistas, fotografias, CD´S, DVD´s, etc;

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Foto: Marcelo Lyra

Repercussão

“Vergonha”, “absurdo”, “vamos compartilhar” foram as frases mais publicadas nas redes sociais. O sentimento de indignação vem na esteira de uma política cultural débil, que não prioriza a cultura como aposta na economia. Mas, ao mesmo tempo, esses gestores estaduais e municipais utilizam da imagem de um estado e de uma cidade de efervescência cultural para projetar suas gestões, mesmo não incentivando devidamente essas “minas de ouro”. É uma contradição.

“Falta respeito aos que fazem cultura. Ouvi uma vez do prefeito que iria trabalhar para os artistas daqui não precisarem ir embora da cidade… Estamos neste lugar e trabalhando aqui há anos e vamos continuar realizando, mesmo que ele ao invés de criar política pública, tire de nós o pouco que ainda temos!!!”
Mônica Lira Coreógrafa e bailarina, fundadora e diretora do Grupo Experimental, que integrou o Conselho de Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife (2001-2003), e mais recentemente, ocupou o cargo de gerente de dança da Fundação de Cultura Cidade do Recife.

“Quando Diego Rocha, Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, diz que “Cultura não é prioridade”, nós vamos para onde depois disso?”
Maria Paula Costa Rêgo Coreógrafa e bailarina, fundadora e diretora do Grupo Grial de Dança.

“Quando pedimos autorização à Prefeitura para fazer rodas de leitura voluntárias do meu livro Bichos Vermelhos, na Praça de Casa Forte, para uma escola pública estadual, só liberaram o asfalto. Fizemos na grama por teimosia. Já imaginou as crianças sentadas na pedra quente? Isso porque os livros foram doados, viu? É assim que tratam bens imateriais e patrimônios materiais”.
Lina Rosa Vieira Publicitária, diretora de criação da Aliança Comunicação e Cultura, escritora e idealizadora e diretora do Sesi Bonecos do Mundo.

“Isso é uma completa falta de respeito, de compromisso, de consideração com a população, com a comunidade. Infelizmente o poder público deveria se envergonhar cada vez que temos que passar por situações como essa. Infelizmente a classe artística, de pesquisa sofre com esse descaso”.
Fernando Tranquilino Professor

“É assustador como os politiqueiros desse feudo chamado Recife andam tratando os artistas e os equipamentos de cultura. Uma vergonha. Lamentável!!! Bora gritar!!!”
Waldomiro Ribeiro Produtor e diretor de teatro do Grupo Longânime, Ator e Professor de Música

“Absurdo! Tratam os espaços públicos como se fossem suas casas (da mãe Joana!) É preciso que tomemos uma atitude!”
Ana Elizabeth Japiá Mota Dramaturga, professora e diretora teatral

“É realmente um absurdo. Abram o teatro para à infância e juventude!”
Benedito Jose Pereira Ator e diretor de teatro, Tv, cinema e publicidade

“Temos que saber quais os meios pra entrar com uma denúncia formal contra a Prefeitura e a Secretaria de Cultura. Eles não podem agir nessa cara de pau e ficar por isso. Leda Alves, minha filha? Que porra é essa?”
Iara Campos Atriz e bailarina

“O Teatro de Santa Isabel é “para as linguagens artísticas da música, do teatro, da dança e da ópera”. Exigimos isso!”
Leidson Ferraz Jornalista, pesquisador, ator, diretor e professor

“Fazem o que querem como quem sabe que nada vai acontecer com eles. Se “nossos políticos” “cuidam” do bem público, quem cuida dos nossos políticos?”
Luiz Felipe Botelho Dramaturgo, Diretor de teatro e cinema, professor

“É uma vergonha a maneira como a cultura está sendo tratada em nosso Estado. A degradação total dos aparelhos públicos e a redução de incentivos é uma afronta a todos os artistas e produtores. Pernambuco tem se tornado uma verdadeira ditadura, com sua política cultural aos cacos e um Governo, nos parecendo, cada vez mais preocupado em restringir o direito de acesso à arte, artifício este de uso frequente em outros governos ditatoriais como maneira de subjugar uma população.”
Fabio Pascoal Diretor e produtor teatral.

“Creio que a falta de uma classe organizada em prol do Teatro e da cultura vai de encontro às propostas dos governantes que quase sempre são depreciativas ao teatro e à cultura… E ir de encontro aos governantes ninguém quer, nem sindicatos, nem produtoras, nem grupos… pois todos mamam nas tetas, seja leite tipo A ou leite azedo. Todos mamam!
Ninguém quer se indispor com os senhores gestores e perder uma pauta livre (leite azedo) ou um cargo comissionado (leite tipo A)… Melhor deixar pra lá e ir levando…
Os que falam são rotulados como loucos, faladores, polemizadores…
Tem um mói de gente que meteu a boca no trombone outrora é hoje, anos depois, viraram gestores de diversos escalões e vivem caladinhos… O que era errado antes consertou-se e tá tudo bem? É isso? Claro que não. Resumindo: não vejo previsão de uma classe unida e organizada. Cada um só defende o seu! E é o que inclusive vou fazer agora: O Mascate, A Pé Rapada e Os Forasteiros estreia nesta sexta no Espaço Cênicas e fica em temporada todas sextas e sábados sempre às 20h”
Diogenes D.Lima Ator e produtor teatral

“Engraçado que esta mesma polícia tem um Teatro só deles que não abrem pra ninguém, o Teatro do Derby. Boraaaa cair na real, políticos, vão ver as leis e ponham em prática. … Até porque outubro está chegando…”
Sharlene Esse Atriz, participou do Grupo Vivencial

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Por uma pedagogia da libertação

Junior Aguiar e Daniel Barros. Fotos: Amanda Pietra

Daniel Barros e Junior Aguiar. Fotos: Amanda Pietra

O pernambucano Paulo Freire (1921-1997), autor da Pedagogia do Oprimido, defende em sua obra que o estudo é uma ponte para habilitar o aluno a “ler o mundo”. A educação é uma avenida para os mais pobres trespassarem a “cultura do silêncio” e mudarem a realidade, “como sujeitos da própria história”. Seu pensamento pedagógico é assumidamente político. E é a partir dessa posição que o Coletivo Grão Comum ergue o espetáculo pa(IDEIA) – pedagogia da libertação, que faz sua estreia nesta terça-feira, no Teatro Hermilo Borba Filho, às 20h, dentro da programação do Trema! Festival de Teatro.

Os atores Daniel Barros e Júnior Aguiar investigam e incorporam o papel o patrono da educação brasileira, que se contrapunha à escola conservadora como modelo de acomodação e defendia a pedagogia libertária, com ética, política e consciência.

A montagem faz parte da Trilogia Vermelha, que distingue a vida e obra de três nordestinos; o cineasta baiano Glauber Rocha, com o montagem h(EU)stória – O tempo em transe; Paulo Freire e o bispo cearense Dom Helder Câmera, com pro(FÉ)ta – O bispo do povo. h(EU)stória estreou em 2014, no Teatro do Arraial.

“São espetáculos que valorizam formas híbridas de narração (mesclando o lírico, o épico e o dramático). Encenações que reacendem e contribuem para dimensionar a importância do teatro político na sociedade brasileira e na América Latina”, explica Júnior Aguiar. O ator e diretor aponta que as obras reabrem novos “diálogos dialéticos-críticos-criativos” sobre as dimensões da nossa identidade contemporânea.

A peça explora os quatro dias de interrogatório a que Paulo foi submetido no Recife. “Identifiquei que no momento do Golpe de 1964, Freire estava em Brasília, a convite de Jango, para aplicar a Pedagogia do Oprimido no Brasil. E é deste ponto dramatúrgico que o espetáculo começa sua narrativa”, comenta Aguiar. O espetáculo está dividido em três partes e 16 cenas. (1ª parte – Prisão por 70 Dias; 2ª Parte – Exílio por 16 Anos e a 3ª Parte – Redemocratização).

Como afirma o educador Paulo Freire, não existem territórios neutros.

Como afirma o educador Paulo Freire, não existem territórios neutros.

Quando exilado, Freire viaja o mundo e chega à África. O território no Brasil e na América Latina é de confronto. Um clima hierático é instalado na segunda parte da peça, com a evocação do poder dos ancestrais. A plateia se transforma numa grande sala de aula. E é revelada a história de Dona Maria, que tinha o sonho de aprender a ler. É retratada como exemplo do papel da velha educação castradora, que reprova e exige a reprodução de que está estabelecido.

Nas relações com o real e o político, o Coletivo mira a ignorância paralisante, a alienação submissa e a opressão inaceitável.

A pesquisa, a encenação, o roteiro e a iluminação também são assinados por Aguiar, que idealizou o projeto e tem a figura do cineasta Jomard Muniz de Britto como inspiração.

Com poucos recursos visuais em cena – acessórios que remetem a outros símbolos, como tecido vermelho, bandeira do Brasil, malas, livros e artefatos religiosos – a dramaturgia textual ganha destaque. A costura do argumento se dá por trilha sonora com depoimentos de arquivos, como os de Paulo Freire e do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes – que também foi preso e exilado na época da repressão.

“As palavras de Paulo Freire são vivas de ideias transformadoras, elas movem nossa consciência e esclarecem dimensões que nos tornam mais lúcidos, mais éticos e mais humanos”, condensa o diretor.

E como já defendeu o  professor de estudos teatrais na University of Kent, Canterbury, Inglaterra, Patrice Pavis, (no artigo Uma redefinição do teatro político, publicado na revista Sala Preta, da Universidade de São Paulo): “Nesses tempos pós-modernos e pós-dramáticos, nesses momentos de desânimo sociopolítico, é preciso coragem para recusar as facilidades do teatro de entretenimento e de conforto, esse teatro que arrisca pouco e se conforma rapidamente à moda e ao mainstream. É preciso, em suma, a coragem de engajar a vida na recusa das injustiças, na confiança dos poderes da arte e na vontade irrepreensível de pensar sobre o real”.

Ficha Técnica
Atores: Daniel Barros E Júnior Aguiar
Encenação, Roteiro E Iluminação: Júnior Aguiar
Música Original: Leo Vila Nova, Juliano Muta, Tiago West, Glauco César Ii. Participação Especial dos Intérpretes: Geraldo Maia E Otiba.
Operador De Som E Luz: Roger Bravo
Elementos Cenográficos: Alexandra Jarocki, Isabelle Santos E Amanda Cristal
Tease: Gê Carvalho Galego
Programação Visual: Arthur Canavarro
Idealização E Produção: Grão Comum

SERVIÇO
Espetáculo pa(IDEIA) – pedagogia da libertação
Quando: Terça-feira, 03/05, às 20h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Quanto: R$ 20 e R$ 10

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Bolhas de poesia na cena para as crianças

Vento Forte para Água e Sabão, montagem da Cia Fiandeiros de Teatro. Foto: Divulgação

Vento Forte para Água e Sabão, montagem da Companhia Fiandeiros de Teatro. Foto: Rogério Alves/Divulgação

Intensidade ou permanência. Há gente para tudo neste mundo. Uns preferem o furor e desfrutam com a máxima magnitude tudo que a existência oferece. Outros optam pela duração, sem grandes riscos. Na ficção também acontecem lances assim. Com muitas possibilidades de gradação nas escolhas entre os dois pontos. Em Vento forte para água e sabão, oitavo espetáculo e o segundo infanto-juvenil (o primeiro foi Outra Vez, Era Uma Vez, de 2008) da Companhia Fiandeiros de Teatro, a bolha Bolonhesa tentou se preservar, ficar parada no seu cantinho, sem grandes emoções. Mas Arlindo, a rajada de vento, a seduziu com o anúncio dos encantos do mundo. E Bolonhesa aceitou viver uma aventura incrível, de tocar e ser tocada pela essência das coisas.

A partir da metáfora dessa excêntrica amizade entre uma bolha de sabão e uma rajada de vento, os dramaturgos Giordano Castro e Amanda Torres criaram um texto que descama o sentido errático da vida e inexorável da morte, com uma roupagem lúdica. O musical trata de assuntos considerados mais espinhosos para os pequenos, como rompimentos de relações, traições, dificuldades, decepções e luto.

O diretor da companhia e do espetáculo André Filho aposta que é possível dialogar sobre absolutamente tudo com os miúdos. A dramaturgia toma corpo com músicas originais, nutridas de jazz e referências populares. E lembra que é preciso nos reconciliarmos com nossas crianças interiores, mais puras e frágeis, mas também repletas de coragem.

A peça está em cartaz no Teatro Hermilo Borba Filho, aos sábados e domingos, às 16h, até o final de maio. Participam dessa empreitada os atores Tiago Gondim, Daniela Travassos, Geysa Barlavento, Kéllia Phayza, Victor Chitunda e Ricardo Angeiras.

Na entrevista que segue, André Filho fala sobre a montagem de Vento Forte para Água e Sabão, além de temas como criação teatral e política cultural no Recife.

Serviço
Peça Vento forte para água e sabão
Quando: Sábados de domingos de maio, às 16h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho – Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife
Quanto: R$ 5 (meia-entrada para todos nos dois primeiros fins de semana); R$ 10 (restante da temporada)
Mais informações: (81) 4141.2431 e 3355.3320

André Filho é diretor da Cia. Fiandeiros. Foto: Daniela Travassos

ENTREVISTA // ANDRÉ FILHO

A passagem do texto à cena é um momento de escolhas. Quais as opções em Vento Forte para Água e Sabão?

Vento Forte para Água e Sabão é um texto que traz várias discussões interessantes. Uma delas, se não a mais importante, é a temática da morte. Este tema é sempre repleto de muito tabu quando se escreve ou quando se encena para esse público específico. Mas a maneira inteligente e lúdica que os autores encontraram me cativou. Resolvi seguir então o caminho dessa discussão justamente pela contramão, ou seja falar sobre morte a partir da vida, o sopro da criação, a relação com o divino que vem de nosso pulmão. Procurei contrastar o macrocosmo e o microcosmo, aqui simbolizado pelo clássico e pelo popular respectivamente, mas sem mensurar valores de importância. Vida e morte, luz e sombra, ausência e conteúdo, tudo se complementa, assim como tudo que existe no universo. Gosto muito da musicalidade que a peça me propõe, neste sentido também procuramos dialogar com partituras populares e clássicas, fazendo referências que vão desde as antigas bandas de Jazz, até musicais mais contemporâneos.

Quais os caminhos que o texto indica?

O texto indica várias possibilidades de discussão além da vida e morte. Conceitos como tempo e espaço, novas descobertas, eternidade e efemeridade. Estas são apenas algumas possibilidades. É uma dramaturgia que não se prende apenas a cores, à magia, ao encantamento.

Giordano Castro já disse que quando escreve não se preocupa com a cena, como as coisas vão ser materializadas na cena. Como foi o processo de construção da peça?

Começamos pela desconstrução de que teatro para criança tem que ser bobo. Um texto como Vento Forte para Água e Sabão requer um olhar desprovido de preconceitos sobre o que deve ser dialogado com o universo da criança. Nosso processo iniciou-se a partir da ideia do sopro da criação, o sopro da palavra, do canto. Construir pontes entre coisas simples, como bolhas de sabão, planetas, estrelas. Brincar com o clássico e o popular esse foi o inicio do processo de construção, que ainda está em processo.

Que valores você destaca na peça?

Não gosto muito de destacar valores em uma obra de arte, prefiro falar em sintomas, valores soa para mim como algo pré-definido e majorado como sendo o politicamente correto. É uma história muito simples, de uma bolha de sabão e sua amizade com uma rajada de vento, duas entidades com essências tão diferentes uma da outra, mas que ao mesmo tempo se complementam. A bolha necessita do vento para existir e por sua vez o ar necessita da bolha para justificar a sua função de sopro, de flutuação. Talvez esse seja o grande sintoma, a tolerância às diferenças. Esse fator que é cada vez mais raro em nosso mundo de hoje.

Como a peça dialoga com o Brasil de hoje?

O Brasil de hoje é um país sem rumo político, com pessoas se agredindo mutuamente por diferenças raciais, religiosas, sexuais, políticas. Falta-nos a capacidade da tolerância, a compreensão de que por alguém ser, ou pensar, diferente de nós ele não precisa ser reprimido por isso. Nesse sentido acho a peça bem antenada com nosso momento atual. Falta-nos a capacidade de “poetizar”, de olhar o outro não como um estrangeiro mas como um parceiro na construção de uma sociedade mais justa. Que os ventos de um novo tempo nos levem, como bolhas de sabão, a conhecer outros ares melhores que este em que estamos vivendo.

 É mais difícil encenar para crianças do que para adultos?

Sim, muito mais. Não apenas pela questão do critério da observação que a criança tem sobre a peça. O olhar da criança é sempre mais vertical que o olhar do adulto, justamente por estar livre de conceitos pré-concebidos. Mas é difícil principalmente porque precisamos primeiro agradar a nossa criança interior, e esta muitas vezes está adormecida há bastante tempo. Trilhar este caminho até a criança que está dentro de nós é um labirinto escondido entre tantos preconceitos de adultos que às vezes, durante esse caminho de descoberta, dá vontade de desistir e queremos ir pelo caminho mais fácil da caricatura. Esse foi, é e sempre será o maior desafio para quem trabalha com teatro para crianças. É um processo que leva tempo, mas bastante enriquecedor.

 

                      “A capacidade criativa dos nossos artistas de teatro                                                      é inversamente proporcional às ações                                    de nossos gestores públicos para a cultura”

 

O que percebe do teatro pernambucano atual?

A pergunta é bastante ampla. Seria preciso um recorte mais objetivo para uma resposta mais precisa. Há vários caminhos para responder. Do ponto de vista da criação, vejo que vivemos um momento bastante interessante se olhamos pela ótica dos grupos. São eles que vêm oxigenando o debate mais intenso sobre o fazer teatral em Pernambuco. Não vai aqui nenhuma crítica a produtoras convencionais, absolutamente, mas a resistência dos grupos em discutir questões espinhosas vem sendo o grande diferencial do nosso teatro. O trabalho continuado é nosso grande trunfo. É ele que nos dá identidade, que nos alimenta de novas possibilidades e nos junta em torno de algo comum. No entanto ainda persiste o déficit de políticas públicas voltadas especificamente para este segmento, houve avanços é verdade, mas ainda tímidos. Lamento profundamente que tenhamos perdido o bonde da história com a morte do Plano Municipal de Cultura. Ali tínhamos várias possibilidades de ver o Recife dar um salto qualitativo no nosso fazer teatral. O fechamento de casas de espetáculos, a precariedade dos equipamentos das que ainda funcionam, a não abertura de Edital de Ocupação para o Teatro de Santa Isabel e mais recentemente a diminuição das linhas de crédito do SIC estadual, valores que já estavam defasados há mais de dez anos, são reflexos de que a capacidade criativa dos nossos artistas de teatro é inversamente proporcional às ações de nossos gestores públicos para a cultura. Mas o grande problema do nosso teatro não está na cena e sim na nossa falta de organização política. Isso tem sido o grande entrave para uma melhoria nas nossas condições de trabalho que se refletiria sem dúvida alguma num debate mais aprofundado de nossa estética local.

E o que é feito para o público infantil no Recife?

Recife sempre teve uma tradição de teatro para criança muito interessante.  Há pessoas que trabalham sério neste segmento e fazem um trabalho com muita dignidade. A Companhia Fiandeiros, penso eu, deu uma contribuição importante para o teatro para infância em Pernambuco com a montagem do Outra Vez, Era Uma Vez… e agora estamos novamente buscando este público e estamos ávidos por encontrá-lo novamente. Mas claro que existem tentativas que buscam dialogar mais com a televisão e com o cinema do que com o teatro propriamente dito. A linguagem do teatro é densa de significados não apenas de expressão, de luzes ou de cores. Nesse sentido vejo bons trabalhos sendo feitos, apesar de toda limitação de espaço para apresentações e para ensaiar.  Vi tão bons trabalhos para a criança nos últimos anos, mas eles não conseguem se manter por um tempo mais longo. Cumprem temporada e se encerram rapidamente. Falta espaços para apresentações, espaço para discussões, organização política. O Funcultura precisa sistematizar linhas de ações que valorizem mais o teatro para infância e juventude, mas a questão não é apenas financeira, creio se tratar também, como sempre, de formação.

 

             “Quando falo em organização política me refiro                  especificamente ao nosso quintal, aqui no Recife”

 

E como você enxerga o teatro brasileiro?

Não sei se conseguiria traçar um pensamento sobre o teatro brasileiro. O que eu acho bacana de observar é que é possível identificar o fenômeno do teatro de grupo se fortalecendo em todo país. Recentemente estivemos em contato com alguns grupos do Brasil, mais especificamente do Paraná, São Paulo, Goiás e Rio de Janeiro. As dificuldades são as mesmas que qualquer outro coletivo em qualquer lugar do Brasil. O que nos diferencia é a organização e mobilização política. Em lugares como São Paulo e Rio de Janeiro há avanços significativos na política pública, onde podemos ver grupos fazendo residências e participando ativamente da gestão dos equipamentos administrados pelo Estado. Só consigo ver um caminho para nosso teatro dentro do contexto nacional, é o da organização política. E quando falo em organização política me refiro especificamente ao nosso quintal, aqui no Recife. Não adianta fortalecer mobilizações nacionais e esquecer de que é aqui, a nossa casa que precisamos arrumar primeiro. É impossível não perceber que onde há um processo de formação continuado em teatro o resultado estético é nitidamente modificado.

Qual é a peça de teatro que você mais gostou de fazer? Como diretor e intérprete?

Não dá para especificar uma peça apenas, todas as peças que dirigi para a Companhia Fiandeiros têm em si momentos que foram marcantes no processo de criação, O Capataz de Salema foi um momento bacana, Vozes do Recife, o Outra Vez, Era Uma Vez…, foi um momento bem bacana porque além de dirigir também escrevi o texto e fiz as músicas, enfim. Também gostei muito do processo de Noturnos. Mas particularmente eu gostei muito da experiência de ter montado Vento Forte para Água e Sabão, foi mais uma oportunidade de mergulhar na minha criança e de olhar o mundo através de seus olhos. Fiz recentemente um trabalho como intérprete, sob a direção da professora Marianne Consentino que foi muito enriquecedor.  Fizemos um solo a partir da obra A Tempestade, de William Shakespeare. Foi um momento muito especial pra mim e que eu destacaria.

O que é preciso para ser um “bom” encenador?

Um “bom” encenador? Poxa, como responder isso se não sou nem nunca pretendi ser um. Apenas procuro fazer um teatro que busca dialogar com a plateia, ser compreendido e me sintonizar com o mundo à minha volta. Uma vez vi uma entrevista com Abujamra que ele dizia que “ser encenador é a arte de ser dispensável”. Acho que é por aí. O que é mais bacana é que nosso trabalho é completamente invisível, quem brilha no palco é o ator. O trabalho do diretor é escrever no palco uma dramaturgia, escrita ou não, de maneira poética. Eu acho que para ser um bom encenador a primeira coisa que se tem a fazer é compreender que seu trabalho é invisível e que a cada novo processo se volta à estaca zero, do aprendizado. Quando isso não acontece corremos o risco de ficarmos repetitivos e presos ao passado. O tempo do teatro passa e não volta. Não adianta. Quanto mais tentarmos voltar ao que nos deu brilho um dia, mais nossa luz se apagará. Toda vez que penso nisso sinto quanto estou distante de ser um bom encenador.

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