Sem orçamento, Secretaria de Cultura cancela edição 2014 do Festival Nacional

Carlos Carvalho diz que assina embaixo a não realização do FRTN, porque não havia recursos suficientes para fazer um bom festival. Foto: Pollyanna Diniz

Carlos Carvalho diz que assina embaixo a não realização do FRTN, porque não havia recursos suficientes para fazer um bom festival. Foto: Pollyanna Diniz

Agora é oficial. O burburinho que tomava conta das rodas de conversa dos artistas se concretizou: a 17ª edição do Festival Recife do Teatro Nacional (FRTN) não irá acontecer em 2014. Sem que a sociedade civil e a classe artística fossem ouvidas, a Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura Cidade do Recife, decidiu que o FRTN e o Festival Internacional de Dança do Recife serão intercalados. O Festival de Dança terminou este mês e agora só deve acontecer em 2016.

O Festival Nacional, como é chamado pela classe artística, sempre foi em seus bastidores um palco de lutas e afirmações, de buscas de políticas culturais mais amplas e quase nunca de consensos. A exceção talvez esteja no fato de que todos sempre concordaram com a importância da sua realização. Em 16 anos, a mostra ganhou alguns formatos, na busca pela excelência artística e também pelo cumprimento do seu papel social não só para os artistas e amantes do teatro, mas para o público em geral.

No ano passado, o Festival sofreu algumas alterações, na esteira da mudança política decorrente da gestão do PSB, que assumiu a Prefeitura do Recife. Foi uma edição bastante complicada – seja pela falta de planejamento, de orçamento, de qualidade artística. A discussão sobre o festival foi acalorada e pensou-se que iria render frutos, para uma próxima edição. Não foi o que aconteceu na prática. Sem verba, a edição 2014 do festival foi limada do calendário.

Em quase duas horas de conversa, o gerente geral do Centro de Formação e Pesquisa Apolo-Hermilo, Carlos Carvalho, responsável pela realização do festival, tentou explicar a decisão ao blog e reconheceu que a classe artística não foi ouvida, embora afirme que o momento é crucial para discussões.

Conversamos também sobre as ações que estão sendo executadas e planejadas para o Centro Apolo-Hermilo. Como a notícia sobre o cancelamento do festival já foi divulgada, resolvemos publicar logo a última parte da entrevista com Carlos, justamente sobre o FRTN. Logo mais, divulgaremos o restante da conversa.

Gestor garante que quer conversar com as entidades ainda este ano

Gestor garante que quer conversar com as entidades ainda este ano

ENTREVISTA // CARLOS CARVALHO

Isso não foi anunciado oficialmente (não havia sido até que a assessoria de imprensa da Prefeitura do Recife divulgasse uma nota no mesmo momento em que realizávamos a entrevista), mas o que se consta é que este ano não teremos Festival Recife do Teatro Nacional. Qual o motivo? Quem tomou essa decisão? Por quê?
De fato, não vai acontecer. Não há tempo para fazer o festival em 2014. O que levou a essa decisão? Primeiro: a diminuição dos recursos para o evento. Dois: um festival com a história que tem, seriam 17 edições este ano, não tem regularidade de orçamento. Penso também que, sendo coerente com o meu discurso de que gestão é feita não só pelos gestores, mas em parceria com a sociedade, que esse é o momento para sentarmos todos à mesa para discutir o que é esse festival, para quem, para que serve, a que ele atende? Porque, afinal de contas, estamos tratando de recurso público. Não estou pensando em números, números de quantas pessoas assistiram ou não, porque esse é um componente da discussão, mas não é fundamental. Para que serve, pra quem serve, para a cidade, para alguns? Esse debate precisa ser alargado. Essa foi a minha defesa. A decisão não foi minha, porque o festival não pertence ao Centro de Formação e Pesquisa, ele está aqui, por questões que o trouxeram para cá, mas ele pertence à gestão. Claro que todas as avaliações do festival (feitas ao final do festival), são escutas, onde se projetam coisas para o próximo ano; mas há muitas recorrências. Ao olhar as avaliações, de todos os anos, percebemos que, ora se fala mal do curador, ora se fala bem do curador, ora se fala mal do grau de excelência dos espetáculos. Creio que esse momento de não ter o festival, não ter para que no próximo ano ele seja bienal, acho que isso é uma coisa salutar. O fazer tem que ser precedido do planejar. Tem que ser discutido, planejado, consenso, vários olhares. Como agregar valor a esse festival? Tem tantas coisas a serem pensadas, sabe? Penso que a gente, ainda este ano, convide os entes todos, as entidades, e os interessados, os grupos, os artistas, enfim, pra discutir. Fazer talvez um grupo de trabalho para pensar o festival.

Porque isso não aconteceu antes? Tivemos um ano, desde o festival passado, já realizado com muitos problemas e críticas. A classe tem interesse nessa discussão. A avaliação, realizada aqui no Teatro Hermilo, estava lotada. É importante para a classe. De que forma ele vai ser reestruturado, debatemos, mas acho que a importância, não se discute. Tivemos pelo menos um ano para fazer isso. Queria saber o porquê disso não ter sido feito e, claramente, de quem foi a decisão de não ter festival e de ele ser bienal? Foi de Leda Alves?
É da Secretaria, em conjunto com a Fundação. Não teve um herói.

Mas, por exemplo, Romildo Moreira (gerente de artes cênicas da Prefeitura do Recife) foi consultado neste cancelamento?
Não sei lhe dizer. Sinceramente, não sei dizer se ele foi consultado.

Porque como ele é o gerente de artes cênicas, enfim…
Eu sei dizer que isso foi tema e eu participei de discussões, porque a gente estava esperando orçamentos, esperando orçamentos.

Essa decisão foi tomada quando?
Pouco tempo atrás.

Já se sabe que o orçamento para esse festival é bastante abstrato, assim como para qualquer outro evento de cultura da Prefeitura do Recife. Mas o Festival de Dança foi realizado agora há pouco. Também sabemos, historicamente, que é necessário que tenha alguém que vá atrás da captação de recursos, para que esse festival tenha, digamos, certa autonomia de verba.
A Secretaria tem um captador, que é Wellington (Lima). Onde a gente pode, nos editais, colocar o festival, colocamos, tanto Romildo por sua parte, como eu. Tive pouquíssimo contato com Romildo. Confesso que não era para ser assim. Mas as coisas aqui e lá e ele está distante, ele está no Pátio de São Pedro…

Por que as discussões não aconteceram?
As discussões aconteceram, aconteceram algumas discussões a respeito. Porque a luta continua. Ou seja: você espera que o orçamento seja consolidado em tal época, em tal tempo, aí não é consolidado, mas se abre uma perspectiva, então pra frente, pra frente. Na parte de captação, a gente colocou em vários editais o festival. Alguns não passaram, outros estamos esperando uma resposta.

Mas não dá mais tempo..
Sim, pra 2015. Estamos aguardando ainda alguns e estamos colocando noutros, além da Rouanet. Outro problema que já foi grave ano passado é que o festival estava com algumas pendências no Ministério da Cultura. A Secretaria, enquanto Festival de Dança, e de Teatro, eu soube. Isso teve que ser resolvido, de documentação, coisas desse tipo.

Mas isso foi importante na decisão de cancelar o festival? A Prefeitura não tem verba para fazer o festival? É isso?
A maior coisa foi falta de recursos.

Próximo ano teremos verba para fazer o festival?
Acho que sim. Estamos lutando para isso. Não posso dizer se teremos, porque nenhuma das pessoas pode dizer se próximo ano teremos, nem o prefeito; a não ser que ele diga assim: “eu vou tirar de tal lugar e colocar aqui”. A gente tem um orçamento que vai ser votado. Esse orçamento vai para a Câmara, tem um processo.

Porque Carnaval nós teremos…
Carnaval terá com a Prefeitura ou sem a Prefeitura.

Eu venho acompanhando esse festival desde o início. Em alguns momentos, o secretário de Cultura, ele chegou ao prefeito para garantir a realização do festival. E disse: “você tem que bancar esse festival, porque esse festival é muito importante para a cidade”. Eu acho que, talvez, mas isso é uma suposição, de que Leda não tenha peitado, cobrado isso do prefeito, como prioridade da gestão.
Eu não diria assim. Eu aceito a sua suposição, mas acho que isso é de fato uma suposição. A secretária despacha com o prefeito regularmente. Penso que Leda está puxando todas as questões que são pertinentes à secretaria e à sua gestão junto ao prefeito. Não tenho a menor dúvida disso. Acho que a questão foi exatamente orçamentária. Eu não sei dizer quanto foi que o Festival Internacional de Dança captou ou quanto foi o orçamento definitivo dele, uma vez que é da Fundação, e eu não tenho acesso aos recursos da Fundação. E louvo o festival ter acontecido, como eu louvo ter feito o FRTN ano passado. Foi uma dificuldade enorme para fazer o festival, com aquele dinheiro.

Que foi quanto?
Foi R$ 700 mil. Mas R$ 700 mil para fazer um festival daquele? É uma loucura.

Quanto disso foi recurso próprio?
Teve um patrocínio da Caixa Cultural, acho que era R$ 50 mil. Pouquíssimo foi captado. Acho que esse festival precisa, com todo respeito a tudo que já foi feito, passar por um alargamento do olhar, não só dos que fazem teatro, mas aumentar o olhar sobre o festival, para que ele aumente em importância. Defendo, colaboro, assino em baixo, a não realização, pela razão dos recursos não serem os necessários para se fazer um bom festival. E acho que fazer capenga demais, não é bom, nem para quem está fazendo, nem para o público. Penso que é o momento não só para discutir o festival, mas para discutir política cultural.

Qual é o reflexo para a cidade e para a classe a não realização do festival?
Acho que serão muitas críticas. Tenho certeza que serão muitas críticas. Mas a gente está aqui também para receber críticas.

Mas, além das críticas, quais os reflexos para a nossa formação? Estamos dentro de um Centro de Formação, para a ampliação do olhar…
Eu acho que o Festival ele cumpre um papel. Mas, como ele, tem outros. A gente tem agora a Cena Cumplicidades, o Festival de Circo do Brasil, o Palhaçaria, o Janeiro de Grandes Espetáculos, que é internacional. Essa formação do olhar, a cidade não tem essas carências todas, da formação do olhar, da acuidade dos sentidos. Não vejo como a falta do festival vai influir de forma tamanha que vai ser um desastre para os apreciadores desta arte. Não vejo assim. Acho que não fazer vai gerar alguns desconfortos, mas esse desconforto, até aproveito aqui para convocar: vamos conversar?

O que eu soube era que o festival teoricamente já estava pensado.
Tinha muita coisa que a gente avaliou, a questão da curadoria, a questão do edital, a questão da ocupação dos espaços. Fizemos algumas leituras de como alargar o festival para a cidade, em espaços que habitualmente o festival não foi. Tem uma série de coisas que a gente discutiu e formulou para, exatamente, na deflagração, “vai ter, o orçamento é esse”, a gente trabalhar.

Por que o Festival de Dança aconteceu? De que forma ele conseguiu recursos? Você falou que o Festival de Teatro precisa reencontrar um conceito. E o Festival de Dança?
Não posso te responder isso, infelizmente. Acho que essa é uma pergunta que Romildo (Moreira) deve te responder. Não quero nem tocar nesse assunto. Quando eu digo que o Festival de Teatro precisa ser repensado, é porque acabou o tempo dos sólidos. A gente pode ser mais fluido. Não é porque esse modelo está consolidado ou foi consolidado, que ele não precisa ser revisitado. Não estou dizendo que ele é ruim. Estou dizendo que ele precisa ser revisitado, outros olhares, outras maneiras de ver.

Foi batido o martelo que o festival vai ser bienal? Ou isso ainda vai ser definido?
Acho que está consolidado que será bienal, alternadamente, um ano um, um ano outro.

A Secretaria já tomou essa decisão, isso já está consolidado?
É.

Próximo ano a gente não vai ter Festival de Dança?
Não.

A sociedade civil foi consultada para essa decisão, a classe artística?
Acho que não.

Quando a gente diz que a gestão é compartilhada, que tinha que ter o diálogo…
Eu estou dizendo que é preciso ter. Estou dizendo que é preciso a gente avançar nisso. Acho que é bom, é salutar.

A não realização do festival de teatro, em parte, seria uma responsabilidade da sociedade civil, das entidades, que não estão acompanhando…?
Não estou dizendo que a culpa é de ninguém. Estou dizendo que aconteceu.

Se as pessoas estivessem mais atentas…
Pode ser. Ou pelo menos a explicação de que não tem. Você só faz feira se tiver dinheiro. Então, se você não tem o dinheiro… Agora, no ano passado, já foi muito difícil fazer. A gente emprestou a nossa competência pessoal nos diálogos para diminuir cachê, diminuir custo de transporte. Foi muito difícil fazer.

Você como gestor, e como artista, se sente frustrado, pela não realização do festival?
Não. Sinto que foi necessário. É uma decisão madura, pelo menos minha. Penso que essa é uma atitude honrada. Acho que é uma atitude de quem tem responsabilidade, entendeu? E acho que, aproveitando esse momento, que provavelmente será de insatisfação de muitos, vamos pensar juntos e aí avançar para o próximo ano. Penso que esse festival pode ser muito melhor do que foi. Penso que o festival pode ser mais propositivo em várias questões.

Festival Recife do Teatro Nacional não irá acontecer

FRTN 2014 não irá acontecer. Grupo Galpão abriu festival ano passado

FRTN 2014 não irá acontecer. Grupo Galpão abriu festival ano passado

Há mais de duas semanas tentamos entrevistar o gerente geral do Centro de Formação Apolo-Hermilo, Carlos Carvalho. Depois de algumas investidas frustradas, finalmente conversamos durante quase duas horas na manhã desta quarta-feira (29) sobre os rumos do Apolo-Hermilo e sobre o Festival Recife do Teatro Nacional (FRTN), o seu cancelamento e a decisão de torná-lo bienal. Enquanto estávamos entrevistando o gerente, a assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura soltou uma nota para os veículos de comunicação tratando justamente do FRTN.

Segue a nota sobre da Prefeitura do Recife:

“REORGANIZAÇÃO
29.10.14 – 11h49
Festivais de Dança e Teatro do Recife passam a ser bienais
A iniciativa pretende aprimorar o planejamento e execução dos festivais que demandam investimentos significativos para cada segmento

A partir deste ano o Festival Internacional de Dança do Recife (FIDR) e o Festival Recife do Teatro Nacional (FRTN), ambos promovidos pela Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura (Secult) e da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR), passam a ser bienais, em caráter de alternância. Desta maneira, em 2014 será realizada a 19ª edição do Festival dedicado à dança, em 2015 será a vez da 17ª edição do Festival do Teatro, e assim sucessivamente.

A decisão foi tomada pela Secretaria de Cultura e pela Fundação de Cultura Cidade do Recife no intuito de possibilitar um planejamento adequado a estas iniciativas, uma vez que a gestão reconhece o importante papel que estas ações cumprem na formação dos realizadores das artes cênicas, no intercâmbio entre diferentes expressões artísticas e ainda na formação de plateia. Contudo, são também Festivais que requerem volumes maiores de recursos da pasta e que precisam ser ajustados às demandas dos respectivos segmentos, garantindo investimento significativo para a produção do Teatro e da Dança na capital pernambucana.

Ainda no mês de novembro os representantes do setor do Teatro, produtores, atores, representantes do Conselho Municipal de Política Cultural e sociedade como um todo serão convidados para discutir os fundamentos e objetivos que devem nortear o FRTN, pensando não só naqueles que fazem e apreciam o teatro, mas também nos recifenses e visitantes da cidade.

OUTRAS AÇÕES – Para dar suporte e fomentar a cadeia produtiva cultural da cidade do Recife, a Secretaria de Cultura e a Fundação de Cultura Cidade do Recife estão elaborando o edital do Prêmio de Fomento às Artes Cênicas 2014/2015, que terá por objetivo promover a montagem de novos espetáculos da produção recifense de Teatro, Dança e Circo, contribuindo com o desenvolvimento da produção cultural e com a diversidade da programação da cidade. O edital, que não é realizado desde 2010, irá contemplar nove projetos, sendo três de cada linguagem artística, e deverá ser lançado até o mês de dezembro.

Além disto, a Secretaria de Cultura vem desenvolvendo ações para que o Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo Hermilo se estabeleça, de fato, como um espaço para estudo e aprimoramento dos profissionais do Teatro, da Dança, do Circo e da Ópera. Atualmente, está sendo elaborado o Programa de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas, que deve atender às necessidades introdutórias para iniciantes nas linguagens artísticas e também contribuir para a formação daqueles que desejam ampliar seus conhecimentos. Outro projeto que vai aprimorar as atividades dos artistas locais é o Espaço de Criação.

Como aconteceu neste ano de 2014, em 2015 os dois teatros, Apolo e Hermilo, serão cedidos, por três meses, para companhias de teatro e dança realizarem suas montagens. Projetos como Palavra da Sombra, de Anamaria Sobral Costa ( que estreou no Teatro Santa Isabel e esta indo para São Paulo cumprir temporada); Rei Lear, da Remo Produções (que estreou com pequena temporada no Rio de Janeiro e entrará em temporada agora em novembro no Teatro Apolo); e também o espetáculo Três mulheres e um bordado de sol, da Compassos Cia de Dança realizaram suas respectivas atividades. Nos primeiros meses de 2015 deve ser divulgada a convocatória que fará a seleção das propostas de ocupação dos espaços. Cada grupo terá 4 horas por dia, de segunda a quinta-feira, para trabalho, além de contar com apoio técnico de luz e som duas vezes por mês.

Também no quesito de recuperação de equipamentos, o Teatro do Parque, vai receber obras de reforma e restauro, de acordo com a licitação divulgada no dia 16 de agosto, com a publicação no Diário Oficial do Município. A previsão é de que a ordem de serviço da reforma seja assinada em novembro de 2014 e que a obra tenha duração de 24 meses.”

A entrevista com Carlos Carvalho será transcrita e postada no Satisfeita, Yolanda? .

Todos os motivos para rir

atriz francesa Hélène Gustin abre a programação adulta da 2ª edição do  Palhaçaria

atriz francesa Hélène Gustin abre a programação adulta da 2ª edição do Palhaçaria

O mundo é das palhaças. Se isso não for verdade, deveria ser. Tudo o que elas tocam viram graça, alegria, sentimento e diversão. Recife vai sediar um encontro dessas criaturas iluminadas que transformam o universo ao nosso redor muito melhor.

A 2ª edição do PalhaçAria – Festival Internacional de Palhaças do Recife começa sábado e segue até o dia 20, com apresentações em vários locais (confira programação abaixo). O evento vai juntar palhaças do Brasil, Áustria, Japão, França, Espanha e Argentina.

As Levianinhas em Pocket show para crianças (Cia Animé / PE)

As Levianinhas em Pocket show para crianças (Cia Animé / PE)

A iniciativa é da Cia. Animée, com incentivo do Funcultura/Governo do Estado de Pernambuco e apoio do Sesc Pernambuco, Centro Apolo-Hermilo e Prefeitura do Recife.

Os ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia) e estarão disponíveis 1h antes de cada apresentação, na bilheteria dos teatros.

Programação:


AS LEVIANINHAS EM POCKET SHOW PARA CRIANÇAS (Cia. Animée / PE)
Dia 13 de setembro (sábado), às 16h, no Teatro Hermilo Borba Filho (Av. Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife. Fone: 3355 3321), R$ 10 e R$ 5

COLETTE GOMETTE (Hélène Gustin / França)
Dia 13 de setembro (sábado), às 20h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife. Fone: 3355 3320), R$ 10 e R$ 5

trueque com a cia animee foto mari frazao
TRUEQUE (Cia. Animée / PE)
Dia 14 de setembro (domingo), às 16h, no Teatro Apolo, R$ 10 e R$ 5

CREATIVE COMMONS (Aina Moreno, da companhia Té a Tres / Espanha)
Dia 14 de setembro (domingo), às 19h, no Teatro Hermilo Borba Filho, R$ 10 e R$ 5

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XULETA MON AMOUR (Gyuliana Duarte / MG)
Dia 15 de setembro (segunda), às 20h, no Teatro Apolo, R$ 10 e R$ 5

OLGA, A PULGA (Tereza Gontijo / SP)
Dia 16 de setembro, às 19h, no Teatro Hermilo Borba Filho, R$ 10 e R$ 5

CABARÉ DE PALHAÇAS (atrações diversas, tendo como mestras de cerimônias: Florência Santángelo, Maria Angélica Gomes e Cristiana Brasil / RJ)
Dia 16 de setembro, às 21h, no Teatro Apolo, R$ 10 e R$ 5
Números da noite:
A Voz, com Tereza Gontijo (SP) – Direção: Fernando Escrich
Japa em Fulô, com Angela Maria Quinto (SP)
Diva do Prazer, com Antonia Vilarinho (DF)
Gigi do Egito, com Regina Oliveira (Teatro de Anônimo/RJ)
Rien do Rien, com Tanja Simma (Áustria)
Um empregado no Japão, com Madoka Nishino (Japão)
As Super Heroínas, com Tereza Gontijo e Luciana Viacava (SP) – Direção: Anderson Spada
Un, Deu … Euh…, com Hèléne Gustin (França)
Marciele, a Cantora Bêbada, com Regina Oliveira (Teatro de Anônimo/RJ)

i will survave
I WILL SURVIVE (Antonia Vilarinho / DF)
Dia 17 de setembro, às 19h, no Teatro Apolo, R$ 10 e R$ 5

CABARÉ DE PALHAÇAS (atrações diversas, tendo como mestras de cerimônias: Nara Menezes e Fabiana Pirro / PE)
Dia 17 de setembro, às 21h, no Teatro Hermilo Borba Filho, R$ 10 e R$ 5
Números da noite:
Um Estrangeiro no Brasil, com Madoka Nishino (Japão)
Silene, a Mulher Cobra, com Maria Angélica (Teatro de Anônimo/RJ)
Procurando Marido, com as palhaças da Cia. Dois Em Cena de Teatro, Circo e Dança (PE)
As Amazonas e a Lenda do Fim do Matriarcado, com Geni Viegas (As Marias da Graça/RJ)
Carmem, com Lily Curcio (Seres de Luz Teatro/SP)
Dance Madley, com Tanja Simma (Áustria)
Donde Estavas, com Maria Angélica e Regina Oliveira (Teatro de Anônimo/RJ)
Um Sac Poubelle (Trash Bag), com Hèléne Gustin (França)
Número Surpresa da Noite (SP/PE)

FÓRUM. Debate com intermediadora sobre intercâmbios e visibilidade para as palhaças nacional e internacionalmente.
Dia 18 de setembro, das 14 às 17h, no Teatro Marco Camarotti, com entrada franca – Aberto ao público interessado.

ANNA DE LIRIUM ALIVE! – IN CONCERT (Tanja Simma / Áustria)
Dia 18 de setembro, às 20h, no Teatro de Santa Isabel, R$ 10 e R$ 5

PARAÍSO NA TERRA (Elke Maria Riedmann / Áustria)
Dia 19 de setembro, às 19h, no Teatro Hermilo Borba Filho, R$ 10 e R$ 5

SPAGUETTI (Seres de Luz Teatro/Lily Curcio/SP, com participação especial de Vanderléia Will/SC)
Dia 19 de setembro, às 21h, no Teatro Apolo, R$ 10 e R$ 5

MABEL, UMA HISTÓRIA MUSICAL (Maby Salerno / Argentina)
Dia 20 de setembro, às 20h, no Teatro Apolo, R$ 10 e R$ 5

Maby salerno

Como será o amanhã?

Peça Tomorrow, da escocesa Vanishing Point Theatre Company. Foto: Junior Aragão

Peça Tomorrow, da escocesa Vanishing Point Theatre Company. Foto: Junior Aragão

Se houver amanhã, ele será decrépito. Sem apelação. Sem melodramas. Cruel? Talvez. C’est la vie. Tomorrow, da escocesa Vanishing Point Theatre Company, traduz esse vaticínio. O espetáculo foi inspirado em estudo sobre o envelhecimento da população mundial. Graças à tecnologia, os humanos passaram a viver mais tempo e com isso, o número de idosos triplicou nos últimos 50 anos. A previsão é de que em 2050 o total de velhos no mundo chegue a dois bilhões. Mas essa longevidade não é garantia de saúde. Pelo contrário, traz ameaças de doenças, sendo a demência (o Alzheimer é uma delas) a que deve atingir um terço da população.

Primeira coprodução internacional do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, Tomorrow, toca nessas feridas abertas, que nega a humanidade e as relações amorosas (fraternas ou filiais) entre jovens e velhos, quando as limitações dos segundos exigem atenções especiais dos primeiros.

Antes do início da apresentação, o jovem diretor Matthew Lenton explicou que o cenário da peça ficou retido na alfândega, em São Paulo, e que este era o maior desafio da estreia. Lançar-se com uma cenografia arranjada em três dias.

Lenton também sugeriu ao público a não ficar preso às legendas (a peça foi apresentada em inglês com legendas em português), porque os atores poderiam improvisar algumas frases e, principalmente, que era melhor entrar na viagem sonora das palavras casadas com as imagens exibidas.

De fato, as imagens são impactantes. Principalmente porque conta com um projeto de luz que esfria, esquenta, indica, esconde, clareia, enfim, uma iluminação criativa que se torna um elemento imprescindível da encenação. Uma luz deslumbrante que dá a medida das situações, trabalhando inclusive com efeitos de “fade in” e “fade out” semelhante ao cinema.

Cena em que George é "forçado" a envelhecer

CEna em que George é “forçado”a envelhecer

Personagem se debateu muito antes de ficar senil

Personagem se debateu muito antes de ficar senil

Pela temática, não há como não lembrar da montagem Sobre o Conceito do rosto do Filho de Deus, da companhia teatral Socìetas Raffaello Sanzio, com direção de Romeo Castellucci, que esteve no Brasil durante a 1ª Mostra Internacional de Teatro – MITsp, em março. Mas enquanto a obra do italiano é carregada de culpa cristã e referências à fé e sua negação, parece que Tomorrow está esvaziada dessas problematizações.

Matthew Lenton faz uma brilhante articulação do teatro com quadrantes de espaços e inversões e supressões de tempo em Tomorrow. Mas a cena é fria, no sentido de não apelar para sentimentos mais melodramáticos do espectador. Com maestria o encenador agrupo componentes que desestabilizam o espectador.

Atroz, bárbaro, desumano é seu contexto – dos velhos “abandonados” em asilos sob a responsabilidade de cuidadores profissionais. E esses cuidadores da encenação se aproximam muito dos profissionais da saúde – médicos e paramédicos – quando tratam de doentes em hospitais e ostentam sua atitude técnica ao lidar com aqueles corpos frágeis, indefesos, ao dispor deles.

Presumo que o diretor equalizou para o mínimo a pulsação do afeto na cena para produzir um outro efeito inquietante. Penso ser proposital e calculadas as opções do encenador, para não tocar na emoção mais à flor da pele, que a matéria em si já incita.

Ele expõe um quadro duro, difícil de encarar, mas ao mesmo tempo avisa que aquilo ali pode acontecer com qualquer um de nós, espectadores. Não há consolação para a perda de liberdade e o sofrimento dos internos daquele lugar. E muito menos sacrifícios dos filhos deles.

Diretor não apela para sentimentalismo que o tema já desperta

Diretor não apela para sentimentalismo que o tema já desperta

A ironia perpassa a cena na hora das “brincadeiras internas”, as conversas de intervalo, quando um cuidador pergunta para o outro qual dos velhos escolheria para “ficar”.

A montagem é muito plástica e se resolve com os poucos artefatos, cadeiras e mesas basicamente. As máscaras de borracha, fabricadas nos Estados Unidos, são elementos de destaque na composição dos personagens. Aliás, o elenco é de uma afinação de orquestra. Os atores que interpretam os velhos ostentam uma técnica segura e eficiente. Os cuidadores fazem um contraponto, dando leveza ao ambiente, também com interpretações convincentes.

A primeira cena é de uma potência dura e bárbara. Um velho caminha pelas ruas geladas de um determinado lugar, carrega flores consigo. Esbarra em George, um jovem que está muito apressado para chegar ao hospital onde sua mulher pariu a filha do casal. No primeiro momento ele procura ajudar o velho, que cai, e George volta a ajudá-lo. Mas aí o velho se agarra às pernas do jovem e dois travam uma luta desesperada, quase um abraço de afogado. É uma cena forte.

Durante 90 minutos acompanhamos inquietos essa passagem das horas, dias, meses, na ficção. Crianças chegam, brincam, os velhos olham. A passagem do tempo. O tempo que se confunde. Apesar de expor situações humilhantes dos velhos, já tão limitados em seus corpos, a peça não despertou comiseração, pelo menos não em mim. Mas esse trabalho perturbador invade a consciência e sem pedir licença brada forte sobre o que queremos para o futuro.

O amanhã apresentado numa máscara de borracha

O amanhã apresentado numa máscara de borracha

FICHA TÉCNICA
Direção e Concepção: Matthew Lenton
Dramaturgia: Pamela Carter
Texto: Pamela Carter e a Companhia
Elenco: Aleksandra Kuzenkina (Rússia), Elicia Daly (Inglaterra), Jenny Hulse (Escócia), Mercy Ojelade (Inglaterra), Peter Kelly (Escócia), Samuel Keefe (Escócia), Stephen Docherty (Escócia) e William Ferreira (Brasil)

Outras notícias sobre o festival, programação completa e as atividades formativas no próprio site do Cena Contemporânea:

* A jornalista Ivana Moura viajou a convite da organização do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília. Texto escrito no âmbito da DocumentaCena – Plataforma de Crítica, iniciativa que envolve os espaços digitais Horizonte da Cena, Satisfeita, Yolanda?, Questão de Crítica e Teatrojornal.

Grupo bom é grupo morto

Performance de Gabriel F. em Adaptação. Foto: Junior Aragão

Performance de Gabriel F. em Adaptação. Foto: Junior Aragão

A companhia Teatro de Açúcar, de Brasília, “morreu” em 2012. Mas depois disso montou alguns espetáculos, inclusive o criativo Adaptação, monólogo defendido por Gabriel F., que foi exibido na 15ª edição do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília. (Adaptação estreou em Brasília em janeiro de 2013, financiado pelo Ministério da Cultura do Distrito Federal. E no início deste ano participou do Janeiro de Grandes Espetáculos, no Recife). Os motivos do óbito são fáceis de adivinhar: dificuldades financeiras para manter as atividades da equipe – sintomas que acometem outros conjuntos Brasil à fora.

O monólogo leva ao palco uma transexual, atriz, que ensaiou durante três ou quatro meses com um encenador de ideias vacilantes e hoje é sua estreia. Precisa improvisar.

Adaptação_Foto Junior Aragão1

Vermelho para celebrar a vida, de toda forma

E para falar de ameaças de desaparecimento, o bando institui paralelismos dentro da cena com personagens que buscam driblar a extinção. No caso um diretor que vive uma crise de criação do espetáculo e já pensa em mudar de profissão, uma atriz que veio do interior e precisa se acostumar ao novo estilo na capital, uma transexual – que por sinal é a atriz- às voltas com sua nova identidade e um dinossauro de futuro incerto.

Os procedimentos para tratar de todas essas questões são inventivos. O que fica é que todos querem sobreviver.

Para formar o quadro estão na cena um minúsculo piano, um microfone com pedal, uma caixa de equipamentos sonoros, uma mesa coberta por toalha, um dinossauro de brinquedo e uma taça. No chão, um jarro.

Entra uma figura estranha, mas bonita. Traz flores. Peruca loura, sapatos vermelhos de salto alto e um ar que mistura uma personagem interiorana com uma figura que vai sobreviver. Mesmo que para isso precise adaptar-se.

O verbo que faz referência ao fato de ajustar uma coisa à outra. Então, se acomodar a diversas circunstâncias e condições. A personagem faz bem isso e o registro do intérprete a esse processo é o meio-tom em que alguém vai expondo sua situação, seus limites, e ao dizer coisas com tanta sinceridade dribla o ato ridículo e consegue a cumplicidade da plateia.

É um progressivo conquistar do público, ao falar da crise do teatro, das estacas do contemporâneo, das técnicas ironizadas pelo ator.

A primeira parte de Adaptação é uma sequência de justificativas sobre o vazio da cena, com frases de inteligência mordaz e pelo menos dois momentos de uma beleza crítica desconcertante. Quando ele mostra, com as mãos, um dinossauro (e neste caso a iluminação é determinante) e a evolução disso quando o ator explora gestos e finaliza com uma frase de que adora dança contemporânea.

Toca música de Ângela RoRô

Toca música de Ângela RoRô

Esse discursar sobre o vazio é redirecionado para a música (Gota de Sangue, de Angela Rô Rô e uma outra autoral) e para uma pequena fábula de um encontro quase amoroso e sua impossibilidade diante das convenções sociais. No caso, da atriz transexual e seu professor de piano na sua cidade do interior.

O registro interpretativo, num tom de negociação, vai conquistando o seu interlocutor aos poucos, também me parece um pouco dessa camuflagem como mecanismo de defesa da qual fala a personagem sobre o camaleão que engana os possíveis predadores.

É uma encenação que destaca a ironia desse viver contemporâneo, sem lições de moral. Tem potência, mesmo quando parece falar do nada. É uma dramaturgia original, com humor sutil, uma peça divertida para falar do medo do fim. A caracterização do ator é ponto alto da montagem.

Dispensaria apenas o cigarro fumado em cena.

FICHA TÉCNICA
Texto, direção e interpretação: Gabriel F.
Música original e direção musical: Marco Michelângelo
Produção musical: Rubi
Assistência de Direção e Luz: Igor Calonge
Cenotécnico: Rodrigo Lelis
Cenografia e Figurino: Gabriel F.
Produção: Gercy Fernandes
Piano: Renio Quintas

Outras notícias sobre o festival, programação completa e as atividades formativas no próprio site do Cena Contemporânea:

* A jornalista Ivana Moura viajou a convite da organização do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília. Texto escrito no âmbito da DocumentaCena – Plataforma de Crítica, iniciativa que envolve os espaços digitais Horizonte da Cena, Satisfeita, Yolanda?, Questão de Crítica e Teatrojornal.