Teatro do Parque – Um memorial afetivo

Enquanto a reforma não acaba, os frequentadores do local relembram histórias. Foto: Ivana Moura

Enquanto a reforma não acaba, os frequentadores do local relembram histórias. Foto: Ivana Moura

“Era um tempo de desejos inteiros. Um adolescer. Ia ao Teatro do Parque em busca do encontro. O cinema, os shows e um namorado tão especial, que tudo se fazia cores e o Teatro, era espaço do beijo e da vida em movimento. Ali tudo parecia possível. Ser feliz algo palpável. Ouvir os sons, passear pelas varandas e o jardim. Tão vivo!!! Um parque de buscas e eu com a jornada à frente… A vida saudosa e na intenção de futuro o mais breve.

Luciana Lyra, atriz, diretora, professora

“Não vou lembrar a primeira vez em que pisei os pés no Teatro do Parque, em meus 25 anos de moradora do Recife, mas nunca esquecerei de seus corredores da frente lotados de gente em busca de ingressos em dia de cinema a preço módico ou de festivais lotados como os de teatro e dança da capital pernambucana. Já até pisei no palco como artista – amadora, é verdade, mas me achando a bailarina de verdade, quando fui aluna (sempre uma honra) da Academia Mônica Japiassú, de professores como a própria Mônica, de outra xará, a Lira (do Grupo Experimental de Dança), de Heloísa Duque (do Vias da Dança). Tenho um amigo dos tempos de colégio, hoje morando bem longe daqui, que outro dia me confessou que recorda ter estado na plateia naquela noite, e que eu não estava nem fantasiada de odalisca de dança do ventre, nem de Madonna nos idos de Vogue, com corpete preto de renda e cinta-liga, dançando um jazzão daqueles de jogar a perna lá em cima (sim, guardo estes momentos na memória com carinho, mas não sem alguma vergonha de tê-los enfrentado).

Mas voltemos ao Parque e seu entorno. Lá, fui à primeira sessão de cinema com um ex-amado para assistir ao filme franco-hollywoodiano O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Era começo de semana e o ingresso ficava ainda mais barato. Ele tinha ido naquele dia fazer a carteirinha de estudante (ainda era aluno do curso de Engenharia na faculdade, por muito pouco não havia sido jubilado) para disputar o direito à meia-entrada, mas na hora H esqueceu o dinheiro e quem pagou os dois ingressos fui eu (na faixa de R$ 2 somados, isso lá pelos meados de 2003). E a gente riu da situação e se emocionou com a história de amor do filme vendo tudo do alto, sentados nas cadeiras laterais do primeiro andar.

Na trajetória como repórter da editoria de cultura de jornal local, onde permaneci por 14 anos, perdi a conta de quantos espetáculos acompanhei ali. Da Mostra Brasileira de Dança, ao Festival Recife do Teatro Nacional, de obras dedicadas ao público adulto ou infantil, de Du Moscovis ao Palhaço Chocolate, passando por Duda Braz abalando nas sapatilhas de ponta em suas incontáveis piruetas e grupos de escolas ou profissionais dançando e interpretando, enfim…

Quando o carioca José Mauro Brant trouxe um espetáculo de contação de histórias e músicas dos meus tempos de criança (se não me engano, Contos, Cantos e Acalantos ou algo assim), me emocionei na plateia, entrando em contato com a criança que mora dentro de mim, mas andava adormecida.

Saudades das escadarias laterais, das cadeiras bem juntinhas umas das outras, dos camarins nos bastidores, de pegar fila para comprar pipoca, ir ao banheiro ou simplesmente para entrar. Até para estacionar, era um caos. Teve uma época com o ar-condicionado quebrado (igualzinho ao Santa Isabel). Mas o que mais lembro é da saudade.

Tatiana Meira, jornalista

“Teatro do Parque, o que estão fazendo com você? A saudade não tem tamanho. Lugar icônico da cidade do Recife, o Parque era ponto de encontro de gente que consumia cultura em todos os níveis. Como não lembrar das sessões de cinema a preços populares, do projeto Seis e Meia com excelentes shows de MPB e das peças de teatro, seja em temporadas ou em festivais. Vivi lindos momentos naquele lugar como artista e como público. Assisti O Rei da Vela, A Vida é Cheia de Som e Fúria, Melodrama, Fábulas e tantos outros espetáculos que marcaram minha vida. Fui testemunha de um momento histórico, o protesto espontâneo do público na abertura do primeiro Festival de Teatro do Recife, na apresentação da peça A Pedra do Reino, com Ariano Suassuna e Arlete Sales (homenageada do festival) na plateia. Foi uma vaia como eu nunca vi na vida até hoje. Era o teatro vivo, pulsante. Foi o Teatro do Parque que abrigou a temporada do primeiro espetáculo para infância e juventude do nosso grupo, Pinóquio e Suas Desventuras, e tinha um público muito bom que consumia cultura naquele lugar. O seu centenário de portas fechadas, numa obra sem fim que ultrapassa os limites do descaso é algo muito triste de se ver. O Teatro do Parque merece abrir suas portas, se encher de vida e trazer de volta ao Recife as pulsações no coração da cidade.

Antônio Rodrigues, ator e diretor da Cênicas Cia de Repertório

“No Teatro do Parque eu assisti minha primeira peça teatral, Mito ou Mentira, de Luiz Felipe Botelho. Vi tanta coisa boa no projeto Seis e Meia. Vi Elomar, Xangai e Ângela Rô Rô. Vi peças infantis, vi dança e vi espetáculos na pracinha do Parque. Vi uma multidão assistir à peça adulta Concerto para Virgulino dentro do festival Peça a Nota. Vi Cinema Paradiso. Vi e fui visto. Foi no Teatro do Parque que fiz, dentro do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, A Terra dos Meninos Pelados. Foi lá que foi realizado o primeiro festival de vídeo do Recife e participei com o filme Matarás, de Camilo Cavalcante.
O teatro era meio que nosso escritório. Qualquer coisa:
– Vamos marcar no Teatro do Parque?
Ou
– Eu te espero no Teatro do Parque.
Quando não:
– Que horas a gente se encontra no Teatro do Parque?
Era nossa referência.
Eu te espero …
Eu espero Teatro …
Do Parque”
.
Samuel Santos, diretor do grupo O Poste Soluções Luminosas

Quer participar do nosso memorial? É só enviar seu depoimento, texto, poema, vídeo, para o e-mail satisfeitayolanda@gmail.com .

Para acessar outros depoimentos, é só acessar os links: Memorial 1 / Memorial 2.

Um Shakespeare acessível

Gustavo Gasparani interpreta Ricardo III e mais de 20 personagens. Fotos: Rômulo Juracy

Gustavo Gasparani interpreta Ricardo III e mais de 20 personagens. Foto: Rômulo Juracy

log-cena-bsb Ao revelar a potência da maldade humana, Richard III se tornou uma das figuras mais fascinantes da galeria de William Shakespeare. Explorada pelos mais diversos ângulos e distintas abordagens, essa tragédia pelo trono da Inglaterra já rendeu montagens e filmes memoráveis. A encenação com Gustavo Gasparani, um dos fundadores da Cia dos Atores, com direção de Sergio Módena, é reduzida a um único intérprete, que narra e abarca os principais papéis.

A cena de Ricardo III é despojada. Uma extensa lousa ao fundo exibe a árvore genealógica dos Plantageneta. Enquanto o público se ajeita no auditório, Gustavo fala feito um professor sobre a Guerra das Rosas – o confronto de trinta anos (1455-1485) que contrapôs as castas dos York (cujo símbolo era a rosa branca) e os Lancaster (a rosa vermelha). Gasparani também avisa que vai precisar da participação da plateia em algumas cenas e que conta com a imaginação dos espectadores para preencher os trechos narrados, da Inglaterra na Idade Média, com seus castelos, trajes palacianos e batalhas sangrentas.

O protagonista shakespeariano quer ser rei. Mas entre ele e o trono existem algumas figuras como prioridade. O rei Edward IV e George, Duque de Clarence, seus irmãos, os dois filhos do rei, ainda meninos.

Além do quadro branco, o cenário, assinado por Aurora dos Campos, é constituído por um cabideiro, uma mesa, uma cadeira, uma luminária e uma dúzia de canetas pilotos. Esses objetos podem assumir função de personagem em algum momento. A iluminação de Tomás Ribas rompe um pouco o clima de sala de aula. O figurino, assinado por Marcelo Olinto, é composto por uma calça básica, uma blusa cinza e tênis.

Com algumas nuances, gestos, movimentações de palco e inflexões de voz, Gasparani assume as principais figuras do espetáculo, do vilão principal às suas vítimas. E narra na acepção do narrador benjaminiano, de sugerir experiências, aproximando inclusive da realidade brasileira, atual ou remota. Ao destrinchar os bastidores da política, o ator ironiza que aquelas intrigas, imoralidade, lutas pelo poder são coisas da Idade Média. Até parece.

Movido pela egolatria, vingança e perversidade e usando da sedução, dissimulação e cinismo, o personagem-título faz de sua inteligência e habilidade de manipular as pessoas armas robustas para chegar ao seu destino. Para compor o invejoso e corcunda Duque de Gloucester o ator inclina o quadril, manca ao andar, torce uma das mãos.

Pilotos azul e vermelho representam os exércitos inimigos

Pilotos azul e vermelho representam os exércitos inimigos

É corajosa a iniciativa de erguer a difícil história de Ricardo III com recursos mínimos. E nisso há vantagens e desvantagens. O intérprete consegue prender a atenção da plateia que acompanha e vez por outra é questionada se está entendendo a trama. É uma montagem que atende bem a grupos não iniciados na complexidade da peça. Também fascinante é a experimentação entre espaços, os diálogos dramáticos e os comentários e reflexões aproximando da contemporaneidade. Desse contraponto entre diegese e mimese.

A tradução em verso de Ana Amélia Carneiro de Mendonça rasga o palco praticamente vazio de beleza em várias ocasiões. E é muito bom que Ricardo III chegue numa linguagem acessível. Inclusive sustentar que a natureza humana, em seu lado mais sombrio, é muito suscetível perante o mais insignificante vislumbre de poder até hoje.

Mas por outro lado estar sozinho para se multiplicar em tantos personagens traz limites. Ao compor a personagem corcunda, deformada e maquiavélica de Shakespeare dividido com dezenas de papeis, inclusive os femininos, utilizando tão poucos elementos compromete a intensidade. O ritmo exigido pela multiplicação dilui a vilania, a maldade do protagonista. Ao exibir esse “horrendo conto” Gustavo Gasparani exerce mais sedução do que seu protagonista.

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é

Montagem A geladeira, da Companhia AntiKatártiKa Teatral (AKK). Fotos: Junior Aragão

Montagem A geladeira, da Companhia AntiKatártiKa Teatral (AKK). Fotos: Junior Aragão

log-cena-bsb Nelson Baskerville, diretor de A geladeira, argumentou em uma entrevista que qualquer obra que se posicione a favor dos “direitos LGBT é de extrema importância, pois o preconceito é um erro e não apenas uma piada. Ele mata”. Copi, pseudônimo do franco-argentino Raúl Natalio Roque Damonte Botana, (1939-1987) impregnou seu trabalho de um caráter transgressor e advogou pela plena liberdade de se ser o que é. Esse dado contra o preconceito aufere relevância no Brasil em que grupos fundamentalistas ganham espaços de poder e carregam atrás de si fiéis que acreditam nas asneiras preconceituosas, inclusive na “cura gay”.

A crítica ao preconceito é uma linha de uma rede dessa montagem da companhia AntiKatártiKa Teatral (AKK), com o ator Fernando Fecchio. Mas não é a única. A geladeira envereda por questões caras da nossa modernidade líquida, de identidades estilhaçadas e de solidão que beira ao absoluto.

“O texto traz a marca da caricatura, do desenho cômico, que busca marcar o gestual, ‘fixar’ expressões ou situações, como se o tempo congelasse neste quadro, mas se seguisse o gesto pela sua retomada no quadro imediatamente seguinte. Certo ‘exagero’, típico da caricatura, é artifício para se vislumbrar a realidade aumentada, potencializada em todas as possibilidades.” Atesta a poeta e pesquisadora pernambucana Renata Pimentel sobre a obra do escritor, dramaturgo, cartunista e ator travesti, em seu livro Copi – Transgressão e Escrita Transformista (Editora: Confraria do Vento, 2011).

A produção de Copi é difícil por estar revestida de grossas camadas culturais. Baskerville aponta para alguns fundos falsos na peça. O primeiro plano de A Geladeira explora o lado engraçado e cheio de clichês da situação vivida pela protagonista. Ao atingir uma certa profundidade, outra cava é desvendada para provocar outras reflexões. A cena mostra complexidades, em meio a tiradas irônicas, sarcásticas, mordazes.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman nos indica que a “‘identidade’ só nos é revelada como algo a ser inventado, e não descoberto” na modernidade líquida. E que “as identidades ganharam livre curso, e agora cabe a cada indivíduo capturá-las em pleno voo”.

Essas questões de Bauman são projetadas no espetáculo. O ator Fernando Fecchio se desdobra em vários personagens da peça. Um ser andrógino, L. se apresenta como homossexual em estado de esgotamento ao completar 50 anos e ser presenteado com uma geladeira; sua psicóloga – A pastora/psiquiatra; a criada Goliasta, a sua própria Mãe, vozes do telefone – como o amigo Hugh, da Autrália; e do relógio da sala, ou o fantasma de si mesmo. No texto L., mostra-se um ser andrógino

Baskerville dispõe na beirada do palco de cubos de formar palavras, a frase “Todo mundo é gay”. Isso norteia o eixo do personagem homossexual, que se desdobra em outros. De ex-modelo histérico, que busca escrever sua autobiografia, que é estuprada pelo seu chofer, que é chantageado por sua mãe.

peça A geladeira do Companhia AntiKatártiKa Teatral (AKK). Foto: Junior Aragão

Espetáculo tem direção de Nelson Baskerville

A figura se desconstrói e se transforma em ações non senses, que ressignificam o mundo contemporâneo. Desses tempos marcados pela fragmentação do indivíduo. O ator transita com propriedade pelos personagens, dança, modula vozes, desnorteia o espectador.

Fernando Fecchio opera o jogo, a sobreposição, a aglutinação e o confronto em uma cena frenética, em que muda de papéis com um ou outro adereço cênico, ou manipulação de uma boneca de tamanho humano.

O ritmo é acelerado, num jogo de diálogos aparentemente ilógicos. Carregados de estranhamento, com toques grotesco, imagens de distorções, elementos kitsch, exageros. O intérprete se estica com potência nesse jogo entre personagens, em que essas figuras da cena buscam esconder o fator precário, às vezes dolorido da existência, típico da criatura contemporânea.

É interessante que o título e o elemento propulsor seja um refrigerador, objeto de consumo comum a todos e que remete para o paradigma do gasto da pós-modernidade em batimento com a ideia de produção da modernidade. Esse sujeito plural, heterogêneo está fraturado por carências, falhas, urgências.

Fernando Fecchio se multiplica em vários papéis

Fernando Fecchio se multiplica em vários papéis

O fotógrafo David LaChapelle – com sua leitura escrachada “de contrastes assustadores e nuances surrealistas”, que para suas imagens capta o clima da excitada sociedade de consumo é uma referência na concepção visual do espetáculo. As cores vibrantes do cenário e a tentativa desesperada de glamour para o personagem da peça traz esse toque de beleza e bizarro. Em algumas fotos de LaChapelle, o mundo desmorona e um elemento na imagem tenta manter o charme.

Mas se o diálogo com o fotógrafo puxa para o universo pop o século 21, a geladeira vermelha instalada no meio da cena é vintage, e sobrevive entre outros adereços que parecem sucatas e que conferem um clima de decadência.

A trilha sonora reforça o ambiente entre os anos 1970 e 1980, com clássicos de artistas como Barry Manilow, Queen e Love Unlimited Orchestra e números típicos das boates gays.

Os apontadores setecentistas e oitentistas também colocam um pé no freio no vigor do texto de Copi com suas bizarrarices e contradições, de traços extravagantes. É como se a audácia e o universo avassalador de Copi se perdesse um pouco pelo caminho em planos estilísticos já repetidos à exaustão.

O dramaturgo franco-argentino Copi vem sendo descoberto no Brasil

O dramaturgo franco-argentino Copi vem sendo descoberto no Brasil

Ficha Técnica

Autor: Copi.
Direção: Nelson Baskerville.
Assistente de direção: Thais Medeiros.
Assistente de movimento: Erika Puga.
Elenco: Fernando Fecchio.
Preparação corporal: Tutto Gomes.
Figurino: Marichilene Artisevskis.
Cenário: Amanda Viera e Nelson Baskerville.
Aderecista: Amanda Vieira.
Boneca adereço: Marcela Donato.
Visagismo: Emi Sato .
Iluminação: Wagner Freire.
Trilha Sonora: Daniel Maia e Nelson Baskerville.
Assistente Técnico: Felipe Jóia.
Fotos: Sossô Parma e Raul Zito.
Apoio teórico: Renata Pimentel.
Produção: Fernando de Marchi -De Marchi Produções.
Criação: AntiKatártiKa Teatral (AKK).
Duração: 50 minutos

Teatro do Parque – Um memorial afetivo

Teatro do Parque. Foto: Ivana Moura

Teatro do Parque. Foto: Ivana Moura

“Fui de um tempo em que não havia ar-condicionado por lá e isso não impedia a ida dos espectadores para ver, numa ante-sala do inferno, shows inesquecíveis como o de Itamar Assunção; ou de Marlene cantando Brecht; ou de Egberto Gismonti (com gente gritando lá fora, a plateia mais que lotada e ele pedindo para que os portões fossem abertos para que o povo entrasse), numa apresentação que durou até quase meia-noite.

Fui de um tempo em que chovia tanto sobre a plateia quanto sobre o palco. Quando isso acontecia, ficava difícil escutar o que falava a pessoa ao lado. E nem mesmo as intempéries deixavam a casa fechada por tanto tempo. E aconteciam shows, espetáculos e exibição de filmes.

Vi cenas de cinema sem ser exibido filme algum: a queda de uma vara de cenário (ou luz, já não me lembro) ao fundo de uma cena da montagem de Zé Manoel para As Filhas do Sol; a curra não ensaiada do público para a leitura de A Pedra do Reino; o passamento de Beatriz Segall por conta do calor; um bailarino da Quasar Cia de Dança salvar a plateia de uma barata voadora; balés de morcegos no ar e passeios felinos em cenas que não lhe pertenciam.

Subi uma única vez naquele palco como ator em Olinda Olanda Olindamente Linda, que marcou a reabertura do Parque após a última reforma feita. Lembro da alegria e do orgulho ao me deparar com as pinturas descobertas e restauradas, das cadeiras das frisas cobertas de veludo vinho, da cortina novinha, do madeiramento do chão sem farpas ou pregos… A última vez que estive trabalhando lá foi como cenógrafo, numa curta temporada de O Fogo da Vida, de Sônia Bierbard.

Vi bons filmes, a preço simbólico, com plateias lotadas: mostras de Hitchcock e Bergman… Foi para lá que levamos nossa Muriel (com dois anos), para ver o seu primeiro – Les Triplettes de Belleville. Também tínhamos que levar repelente para não sermos sugado por nenhum Nosferatu em forma de mosquito.

Como sobre todos os teatros dessa triste cidade, sempre pairou sobre ele a ameaça do descuido institucional. Triste mesmo. Rogo aos céus que essa realidade seja modificada…”

Marcondes Lima, professor, diretor, ator, cenógrafo, figurinista

“A primeira vez que pisei profissionalmente em um palco de Teatro foi no Teatro do Parque, em 1998, na estreia de Sobrados e Mocambos, da Cia. Teatro de Seraphim, dentro do Festival Recife do Teatro Nacional. De lá pra cá, foram muitas alegrias, histórias, encontros, experiências vividas naquele espaço que hoje amarga o centenário triste de uma das mais belas arquiteturas teatrais que já vi. O abandono e o descaso da gestão pública calaram há cinco anos o Teatro do Parque, acostumado a receber a população recifense em festa para apreciar teatro, dança, exposições, cinema, música, festivais e projetos de todo o tipo.

Não há como lamentar qualquer tentativa de política cultural que não priorize a história, o lugar. O primeiro sentido da palavra “cultura” está em “cultivo”. Não se cultiva sem terra. Não se faz cultura sem território. E o território do artista é o palco. Em resposta à isso, diversos espaços nascidos das inciativas particulares de artistas e grupos estão tomando força na cidade, como um grito, um respiro dos artistas e da cultura recifense que tanto têm a dizer de sua estética para a cidade.

O Espaço Fiandeiros, que é o território do nosso Grupo, tinha pouco tempo de nascido quanto o nosso vizinho, o Teatro do Parque, fechou os seus portões. Ainda não tivemos o prazer de dialogar artisticamente com o nosso vizinho centenário. Em 2012, pesquisei para minha monografia o Plano Municipal de Cultura da Cidade do Recife em um paralelo com a gestão dos espaços cênicos que estavam crescentes na cidade. Pude perceber diversos pontos de interseção na ideia de política do plano e nas ações dos grupos que poderiam estar hoje atuando em rede, juntamente com os equipamentos culturais do nosso município, a exemplo do que já está acontecendo com o diálogo entre esse espaços e ações de festivais, projetos, intercâmbios entre os grupos, os artistas e a inciativa privada. Mas, infelizmente, as ideias até hoje não foram transformadas em ações. Enquanto trabalhamos todos os dias no nosso Espaço, olhamos vizinhos ilustres: a praça Maciel Pinheiro, a casa de Clarice Lispector, o Teatro do Parque… que poderiam estar formando junto conosco, com a sede do Grupo João Teimoso e agora com a sede do Magiluth (recém chegados na vizinhança), um efervescente corredor cultural na cidade. Ao contrário disso, sofrem juntos o amargo gosto da falta de vontade política.

Daniela Travassos, atriz e diretora de produção da Companhia Fiandeiros

“Ao contrário de muitos dos meus amigos, a minha relação com o Teatro do Parque é mais musical que teatral. Todas as vezes que passo na Rua do Hospício, sinto um aperto no peito, porque tem coisas na vida que não podemos mudar, mas nesse caso, podemos mudar sim. Se o poder público tivesse o mínimo de respeito à cultura, aos artistas, aos produtores e ao povo, tudo poderia ser diferente. Ver um dos nossos patrimônios culturais mais importantes fechados e no estado em que ele se encontra, é de partir o coração. Eu, particularmente, evito passar na frente, por que dói mesmo, no fundo.

Tive o prazer de trabalhar naquele Teatro no início de minha jornada como produtor, no projeto Seis e Meia, com a banda Malakaii e Max de Castro. Também presenciei shows memoráveis como o de Paulinho da Viola, Chico César, Edson Cordeiro e Xangai. Cada vez temos menos espaços e os espaços que temos estão mal tratados. O Teatro de Santa Isabel, Teatro Apolo, Teatro Hermilo, Teatro Barreto Júnior seguem sua trajetória sofrendo com problemas de iluminação, manutenção, ar-condicionado, sonorização. Precisamos não só do Teatro do Parque de volta, precisamos de políticas públicas que protejam os nossos espaços culturais.

Maurício Spinelli, produtor e assessor de comunicação

“O nome Parque não é por acaso.
Não… Ia ao teatro ver espetáculos, shows, filmes e, antes de entrar, ficava no Parque batendo papo com os amigos sobre teatro e afins. O Teatro do Parque era um espaço para troca, aprendizados, emoções. Foi em seu jardim que assisti pela primeira vez a atriz Augusta Ferraz – e quis ainda mais ser atriz. Lá apresentei um dos espetáculos mais inesquecíveis para mim, Poemas Esparadrápicos, e lá, muitas vezes, tive certeza que nasci para o meu ofício. Esperando ansiosa que os anjos que ali habitavam, os duendes e as fadas, espalhem amor na cabeça dos governantes, para que eles reconheçam a grandiosidade da história na vida de todos nós.”

Enne Marx, atriz, palhaça e produtora da Cia Animée e dos Doutores da Alegria

Provocações do Cena Contemporânea

Salina (A última vértebra), em montagem da Amok Teatro, Junior Aragão

Salina (A última vértebra), em montagem da Amok Teatro. Foto: Junior Aragão

log-cena-bsb É uma alegria voltar ao Cena Contemporânea, um ano depois com a programação mais robusta. A 16ª edição do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília começou terça-feira passada (18/08) e abriga 27 espetáculos cênicos, sendo nove internacionais, outros nove de seis estados brasileiros e mais nove produzidos no Distrito Federal. A edição de 2015 comemora os 20 anos de festival.  E neste ano voltaram as oficinas teatrais, os debates e os shows musicais. A maratona do Satisfeita Yolanda para acompanhar as peças começa hoje, com A geladeira, com o Antikartátika Teatral, direção de Nelson Baskerville e atuação de Fernando Fecchio.

O teatro contemporâneo, com as possibilidades de intervenções tecnológicas e diálogos com o cinema, e o chamado “teatro puro” são vértices da programação. Uma epopeia africana sobre exílio, ódio e perdão da companhia Amok Teatro foi uma das atrações. Levou ao palco o Salina (A última vértebra), com texto inédito no Brasil, do francês Lurent Gaudé, um espetáculo com mais de três horas e apenas atores negros em cena. Outro destaque foi a exibição de The mother, um texto de Stanislaw Ignacy Witkiewicz também inédito no Brasil, com a célebre atriz polonesa Jolanta Juszkiewicz.

Também já passaram por aqui os delicados e instigantes Jacy, do Grupo Teatro Carmin, de Natal e Isso te interessa?, da companhia brasileira de teatro. Uma adaptação do texto Bon, Saint Cloud, da dramaturga francesa Noëlle Renaude, com direção de Marcio Abreu.

E se elas fossem para Moscou?, foto: Junior Arag

E se elas fossem para Moscou?. Foto: Junior Aragão

A abertura foi E se elas fossem pra Moscou?, da Cia Vértice, do Rio de Janeiro, obra que mescla teatro e cinema ao produzir, simultaneamente, uma peça e um filme.  Sob direção de Cristiane Jatahy, o trabalho de intercâmbio entre as linguagens cênica e fílmica é inspirado em As três irmãs, de Anton Tchekhov.

Alaôr Rosa, um dos coordenadores do Cena Contemporânea, na abertura do festival. Foto: Junior Aragão

Alaôr Rosa, um dos coordenadores do Cena Contemporânea, na abertura do festival. Foto: Junior Aragão

A provocação do cena a partir do palco começou em 25 de agosto de 1995, por iniciativa do ator, diretor Guilherme Reis, que assumiu a Secretaria de Cultura no começo do ano. Quem coordena o evento em 2015 é o produtor Alaôr Rosa ao lado de Michele Milani. Alaôr divide a curadoria do festival com o diretor Francis Wilker.

A DocumentaCena – Plataforma de Crítica, que articula ideias e ações dos blogs Horizonte da Cena e Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena participa do 16º Cena Contemporânea. As críticas referentes aos espetáculos da programação são postadas no site do festival e também nos blogs que integram a plataforma do DocumentaCena:

www.cenacontemporanea.com.br

www.satisfeitayolanda.com.br/blog

www.horizontedacena.com

www.teatrojornal.com.br

www.questaodecritica.com.br

The Mother, com a célebre atriz polonesa. Foto: Rômulo Juracy

The Mother, com a célebre atriz polonesa Jolanta Juszkiewicz . Foto: Rômulo Juracy

Programação Completa – Cena 2015
18/08 – TERÇA

20h – Teatro Sesc Newton Rossi – Ceilândia
Albert Herring – Casa da Cultura Brasília (DF)

19h e 21h30 – Teatro Funarte Plínio Marcos
E Se Elas Fossem Pra Moscou? – Cia Vértice (RJ)

19/08 – QUARTA

20h – Teatro Sesc Newton Rossi – Ceilândia
Albert Herring – Casa da Cultura Brasília (DF)

21h - Teatro SESC Garagem
Quarteto – Teatro NU (BA)

19h e 21h30 – Teatro Funarte Plínio Marcos
E Se Elas Fossem Pra Moscou? – Cia Vértice (RJ)

21h – Teatro da Caixa
D’eux #2 E Gravité – Fabrice Lambert (França)

20h – Teatro Sesc Paulo Gracindo – Gama
2 + 2 = 2 – Akhmeteli Theatre/Rodrigo Fischer (Geórgia/Brasil)

19h – Teatro Goldoni
The Mother – Kropka Theatre (Polônia/Austrália)

21h – Teatro Dulcina
Casaverde – Cia de Teatro O Bando (Portugal)

20/08 – QUINTA

21h - Teatro SESC Garagem
Quarteto – Teatro NU (BA)

21h – Teatro da Caixa
D’eux #2 E Gravité – Fabrice Lambert (França)

20h - Teatro Sesc Newton Rossi – Ceilândia
2 + 2= 2 – Akhmeteli Theatre/Rodrigo Fischer (Geórgia/Brasil)

19h – Teatro Goldoni
The Mother – Kropka Theatre (Polônia/Austrália)

19h – Teatro Funarte Plínio Marcos
Salina (A Última Vértebra) – Amok Teatro (RJ)

21h - Teatro Dulcina
Casaverde – Cia de Teatro O Bando (Portugal)

21/08 – SEXTA

20h - Teatro Sesc Paulo Gracindo – Gama
Albert Herring – Casa Da Cultura Brasília (DF)

20h - Espaço Pé Direito da Vila Telebrasília
Uma História Simples – Trapusteros Teatro (DF)

20h – Teatro Sesc Paulo Autran – Taguatinga
Iara – O Encanto Das Águas – Cia. Lumiato Teatro De Formas Animadas (DF)

19h - Teatro Funarte Plínio Marcos
Salina (A Última Vértebra) – Amok Teatro (RJ)

21h – Teatro Dulcina
2 + 2 = 2 – Akhmeteli Theatre/Rodrigo Fischer (Geórgia/Brasil)

22/08 – SÁBADO

20h – Teatro Sesc Paulo Gracindo – Gama
Albert Herring – Casa Da Cultura Brasília (DF)

20h – Centro Social Comunitário Zilda Arns – Varjão
Quando O Coração Transborda – Esquadrão Da Vida (DF)

19h - Teatro Goldoni
Jacy – Grupo Teatro Carmin (RN)

21h – Teatro da Caixa
Isso Te Interessa? – companhia brasileira de teatro (PR)

20h – Teatro Sesc Paulo Autran – Taguatinga
2 + 2= 2 – Akhmeteli Theatre/Rodrigo Fischer (Geórgia/Brasil)

21h – Teatro SESC Garagem
Staying Alive – Matarile Teatro (Espanha)

19h – Local Secreto
En Contra #experimento 1 – Teatro do Instante (DF)

23/08 – DOMINGO

19h - Teatro Funarte Plínio Marcos
Iara – O Encanto Das Águas – Cia. Lumiato Teatro De Formas Animadas (DF)

20h – Teatro Dulcina
Desbunde – Juliana Drummond (DF)

18h – Teatro Goldoni
Jacy – Grupo Teatro Carmin (RN) 

20h - Teatro da Caixa
Isso Te Interessa? – companhia brasileira de teatro (PR)

20h - Teatro SESC Garagem
Staying Alive – Matarile Teatro (Espanha)

19h – Local Secreto
En Contra #experimento 1 – Teatro do Instante (DF)

25/08 – TERÇA

20h – Teatro Sesc Paulo Autran – Taguatinga
Albert Herring – Casa Da Cultura Brasília (DF)

21h - Teatro Dulcina
Ricardo III – Gustavo Gasparani (RJ)

20h – Espaço Usina – Centro de Arte e Entretenimento
A Geladeira – Antikatártika Teatral – AKK (SP)

21h - Teatro SESC Garagem
Teatro Invisible – Matarile Teatro (Espanha)

26/08 – QUARTA

20h – Teatro Sesc Paulo Autran – Taguatinga
Albert Herring – Casa Da Cultura Brasília (DF)

20h - Teatro Sesc Paulo Gracindo – Gama
Vinil De Asfalto – Edson Beserra E Seu Composto De Ideias (DF)

20h – Teatro Sesc Newton Rossi – Ceilândia
Los Cuerpos – Federico Fontán e Ramiro Cortez (Argentina)

21h - Teatro Dulcina
Ricardo III – Gustavo Gasparani (RJ)

20h – Espaço Usina – Centro de Arte e Entretenimento
A Geladeira – Antikatártika Teatral – AKK (SP) 

21h – Teatro Funarte Plínio Marcos
Brickman Brando Bubble Boom – Agrupación Señor Serrano (Espanha)

21h- Teatro SESC Garagem
Teatro Invisible – Matarile Teatro (Espanha)

27/08 – QUINTA

19h – Teatro Goldoni
Para Acabar Com O Julgamento De Deus – Adeilton Lima (DF)

20h - Teatro Sesc Paulo Gracindo – Gama
Los Cuerpos – Federico Fontán e Ramiro Cortez (Argentina)

21h – Teatro Funarte Plínio Marcos
Brickman Brando Bubble Boom – Agrupación Señor Serrano (Espanha)

28/08 – SEXTA

21h - Teatro Dulcina
Vinil De Asfalto – Edson Beserra E Seu Composto De Ideias (DF)

19h - Teatro Goldoni
Quando O Coração Transborda – ESQUADRÃO DA VIDA (DF)

19h – Teatro Sesc Newton Rossi – Ceilândia
Desbunde – Juliana Drummond (DF)

17h e 21h – Teatro da Caixa
Hamlet – Processo De Revelação – Coletivo Irmãos Guimarães (RJ/DF)

21h - Teatro SESC Garagem
Capivara – Lina do Carmo (Alemanha)

20h – Teatro Sesc Paulo Autran – Taguatinga
Los Cuerpos – Federico Fontán e Ramiro Cortez (Argentina)

29/08 – SÁBADO

20h – Teatro Levino de Alcântara – Escola de Música de Brasília
Albert Herring – Casa Da Cultura Brasília (DF)

20h – Teatro Sesc Paulo Gracindo – Gama
Nó Na Garganta – Estupenda Trupe (DF)

21h - Teatro Funarte Plínio Marcos
Punaré & Baraúna – Ata – Agrupação Teatral Amacaca (DF)

17h e 21h – Teatro da Caixa
Hamlet – Processo De Revelação – Coletivo Irmãos Guimarães (RJ/DF)

21h - Teatro SESC Garagem
Capivara – Lina do Carmo (Alemanha)

19h – Teatro Goldoni
Los Cuerpos – Federico Fontán e Ramiro Cortez (Argentina)

19h – Local Secreto
En Contra #experimento 1 – Teatro do Instante (DF)

30/08 – DOMINGO

20h – Teatro Levino de Alcântara – Escola de Música de Brasília
Albert Herring – Casa Da Cultura Brasília (DF)

20h - Teatro da Caixa
Nó Na Garganta – Estupenda Trupe (DF)

19h - Teatro Sesc Garagem
Uma História Simples – Trapusteros Teatro (DF)

20h – Teatro Funarte Plínio Marcos
Punaré & Baraúna – Ata – Agrupação Teatral Amacaca (DF)

15h e 17h – Teatro Dulcina
GIBI – Grupo Lamira (TO)

18h - Teatro Goldoni
Los Cuerpos – Federico Fontán e Ramiro Cortez (Argentina)

19h - Local Secreto
En Contra #experimento 1 – Teatro do Instante (DF)