A palavra cortante de Hilda Hilst

Hilda Hilst é homenageada em mostra no Recife

Hilda Hilst é homenageada em mostra no Recife

Com palavras, gestos e atitudes Hilda Hilst (21 de abril de 1930 – 4 de fevereiro de 2004) deixou sua marca revolucionária na literatura. Mas não foi fácil o reconhecimento tanto na poesia, quanto na dramaturgia e na prosa narrativa.

“Quero ser lida em profundidade e não como distração, porque não leio os outros para me distrair mas para compreender, para me comunicar. Não quero ser distraída. Penso que é a última coisa que se devia pedir a um escritor: novelinhas para ler no bonde, no carro, no avião. Parece que as pessoas querem livrar-se assim de si mesmas, que têm medo da ideia, da extensão metafísica de um texto, da pergunta, enfim”, argumentou a escritora em entrevista publicada no Estado de São Paulo, em 1975.

Mesmo uma obra profunda, complexa e rica, suas peças não eram montadas nem seus livros ganhavam novas edições. Ela resolveu, então, apelar para o que chamava de “bandalheira” e escreveu livros pornográficos. Mas não era uma pornografia qualquer, e sim textos repletos de ironia, com críticas afiadas a esse mundo dominado pelo capital.

Hilda Hilst escreveu a trilogia obscena e pornográfica: O caderno rosa de Lori Lamby (1990), Cartas de um sedutor (1991), Contos d’escárnio/ Textos grotescos (1992).

Surtiu efeito e toda sua obra foi relançada pela Globo Livros a partir de 2001. Mas ela veio a morrer em 2004,

A escritora teve uma vida social intensa na São Paulo dos anos 1950. Ela participou das farras da alta sociedade paulistana desfrutando de viagens, festas e amantes.

Quando cansou dessa roda, optou por um exílio voluntário, na década de 1960, numa propriedade da mãe, em Campinas, batizada de Casa do Sol.

Os grupos artísticos Duas Companhias, Unaluna e Coletivo Lugar Comum, em parceria com a Decanter Articulações Culturais e patrocínio da Inteligência XXI, celebram Hilda Hilst com uma programação de dois dias, na Galeria Café Castro Alves, com leituras dramatizadas, desenhos, instalações e cenários inspirados na escritora e sua obra. Vão entrar em cena Fabiana Pirro, Ceronha Pontes, Luciana Lyra, Silvia Góes, Samarone Lima e Conrado Falbo.

polêmica e deliciosa, obra da escritora ganha leitura dramatizada na Galeria Café Castro Alves

Obra da escritora ganha leitura dramatizada na Galeria Café Castro Alves

Serviço:
Mostra Hilda Hilst
Onde: Café Castro Alves (Rua Capitão Lima, 280, Santo Amaro)
Quanto: R$ 10 por noite

Terça-feira, às 20h – Fabiana Pirro, Ceronha Pontes, Luciana Lyra fazem leituras dramáticas. Em seguida, o Grupo Obscena conversa com o diretor do Instituto Hilda Hilst e amigo pessoal da escritora, Jurandy Valença

Quarta-feira, às 20h – O professor e psicanalista Pedro Gabriel fala sobre o Eros na obra de Hilda Hilst. Silvia Góes, Samarone Lima e Fabiana Pirro fazem leituras dramáticas

Oficinas da Mostra Brasileira de Dança

Kiran de Souza é o coordenador pedagógico da Mostra

Kiran de Souza é o coordenador pedagógico da Mostra

A Mostra Brasileira de Dança (MBD), chega a sua 11ª edição, com apresentações de 1º a 10 de agosto, de grupos profissionais, amadores e escolas de dança, nos mais diversos estilos (balé clássico, dança contemporânea, dança popular, dança de salão, dança de rua, dança árabe e outros). O programa é organizado por Iris Macedo e Paulo de Castro e conta com patrocínio dos Correios, Governo Federal, Funcultura/Governo do Estado de Pernambuco, programa O Boticário na Dança e Prefeitura do Recife. Este ano a homenageada é Mônica Japiassú.

Além da exibição de espetáculos completos e coreografias isoladas, a MBD oferece um série de oficinas de iniciação e reciclagem (no período de 28 de julho a 1º de agosto de 2014 -segunda a sexta-feira), seminários, exposições e exibição de vídeos sobre a arte do dançar.

As oficinas estão com inscrições abertas até sexta-feira, 25 de julho e podem ser feitas no próprio local das aulas ou pelo e-mail: pedagogico@mostrabrasileiradedanca.com.br (com dados e contatos do interessado). A coordenação pedagógica é Giorrdani de Souza – Kiran (PE). Outras informações: (81) 3421 8456 ou www.mostrabrasileiradedanca.com.br

OFICINAS DE INICIAÇÃO

Pele e Ossos – Corpos Fluidos, com José W. Júnior (PE). Número de vagas: 15. No Espaço Experimental (Rua Tomazina, 199, 1º andar, Recife Antigo. Fone: 3224 1482), das 19 às 21h. Gratuita.

Videodança: Contribuições Entre o Corpo e o Vídeo, com Marcelo Sena (PE). Número de vagas: 15. No Espaço Experimental (Rua Tomazina, 199, 1º andar, Recife Antigo. Fone: 3224 1482), das 15 às 17h. Gratuita.

Oficina Contemporânea de Dança Para Jovens Inspiradores, com André Aguiar (PE). Número de vagas: 25. Na sede da Umarle (Rua Deputado Luiz Dias Lins, s/n, Lagoa Encantada. Fone: 8768 5147), das 18 às 20h. Gratuita.

Iniciação à Dança em Cadeiras de Rodas, com Liliana Martins (PE). Número de vagas: 20, entre cadeirantes e andantes. Na Faculdade Uninassau (Rua Fernando Lopes, 778, sala 102, Bloco Capunga, Graças. Fone: 8867 5202), das 16 às 18h. Gratuita.

Andantes e cadeirantes podem participar da Oficina de Iniciação à Dança em Cadeiras de Rodas

Andantes e cadeirantes podem participar da Oficina de Iniciação à Dança em Cadeiras de Rodas

OFICINAS DE APERFEIÇOAMENTO PROFISSIONAL (para artistas já experientes)

Técnica Clássica Como Processo de Autoconhecimento, com Valéria Mattos (SP). Número de vagas: 25. No Studio de Danças (Rua das Pernambucanas, 65, Graças. Fone: 3231 4884), das 9 às 12h. Valor: R$ 30,00.

Videodança (Movimentos Para a Câmera), com Sofía Orihuela (Bolívia). Número de vagas: 25. No Teatro Hermilo Borba Filho (Av. Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife. Fones 3355 3321 / 3320), das 14 às 17h. Valor: R$ 30,00.

Danças Entrelaçadas – Dança Moderna (técnica de José Limón) e Dança Contemporânea, com Airton Tenório (PE/RJ). Número de vagas: 25. No Teatro Hermilo Borba Filho (Av. Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife. Fones: 3355 3321 / 3320), das 9 às 12h. Valor: R$ 30,00.

Danças Urbanas, com Octávio Nassur (PR). Número de vagas: 20. Na Academia Fátima Freitas (Rua Desembargador João Paes, 214, Boa Viagem. Fone: 3467 1140), das 9 às 12h. Gratuita, com seleção por currículo. Realizada graças à parceria entre a MBD e o Programa de Oficinas de Capacitação Artística e Técnica em Dança da Funarte 2014.

Professor paranaense Octávio Nassur. Foto: Espelho de Papel.

Professor paranaense Octávio Nassur. Foto: Espelho de Papel.

Dança Contemporânea, com Mário Nascimento (MG). Número de vagas: 20. Na Academia Fátima Freitas (Rua Desembargador João Paes, 214, Boa Viagem. Tel: 3467 1140), das 14 às 17h. Gratuita, com seleção por currículo. Realizada graças à parceria entre a MBD e o Programa de Oficinas de Capacitação Artística e Técnica em Dança da Funarte 2014.

Há muito de cênicas para ver no FIG

Público para assistir à aula-espetáculo de Ariano Suassuna e do Grupo Arraial. Foto: Costa Neto/Secult-PE

Púbico para assistir à aula-espetáculo de Ariano Suassuna e do Grupo Arraial. Foto: Costa Neto/Secult-PE

Todos sabemos da capacidade do escritor Ariano Suassuna de magnetizar grandes plateia. Foi assim na noite de ontem com a Aula-Espetáculo Tributo a Capiba, no teatro Luiz Souto Dourado, em Garanhuns. Com o Grupo Arraial, Ariano concorreu com o final da telenovela global e pelo menos lá no teatro, ganhou disparado.

A palestra, com apresentação musical e coreográfica, sobre o compositor Lourenço Barbosa da Fonseca, o nosso Capiba, é ampliada para o escritor realizar a sua defesa da cultura brasileira. E com muito humor reforça suas posições e desta vez também repicou piada da internet sobre a derrocada do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo.

Ele é um invejável contador de histórias, e não poupa nem a si mesmo das piadas sempre certeiras, que o público responde com aplausos e boas gargalhadas.

O escritor também fez mais uma declaração de amor a Zélia, sua esposa, que estava na plateia.

Ariano Suassuna na aula-espetáculo em homenagem a Capiba, em Garanhuns

Ariano Suassuna na aula-espetáculo em homenagem a Capiba, em Garanhuns

A aula-espetáculo de Ariano, com instrumentistas, cantores e bailarinos do Grupo Arraial. Investe numa faceta menos conhecida do mestre do frevo Capiba. Ganham destaque choros, valsas, maracatus, inclusive poemas de Manuel Bandeira e Carlos Pena Filho musicados por Capiba. Dos frevos foi executado Tributo a João Pernambuco. A direção coreográfica é assinada por Maria Paula Costa Rêgo e a Direção Musical por Antônio Madureira.

Grupo Arraial em ação, com coreografias de Maria Paula Costa Rêgo

Grupo Arraial em ação, com coreografias de Maria Paula Costa Rêgo

A programação de artes cênicas da 24ª edição do Festival de Inverno de Garanhuns (FIG) começa realmente hoje e prossegue até o dia 26, no palco e na rua totaliza 33 espetáculos de 9 estados e do Distrito Federal. Segundo a assessoria de imprensa, “a seleção dos espetáculos foi realizada por meio de convocatória pública”.

Alguns destaques são A dona da história, com texto de João FAlcão e em cena mão e filha Lívia Falcão e Olga Ferrário; Eduardo Moscovis em O Livro, com direção de Christiane Jatahy; Lesados, do Grupo Bagaceira de Teatro do Ceará; O Natal de Harry, com Marat Descartes e direção de Georgette Fadel; H(eu)stória – O Tempo em Transe, que ganhou o troféu de melhor montagem do Janeiro de Grandes Espetáculos; Brincando no Picadeiro (Circo), com a Caravana Tapioca e direção de Anderson Machado. Além do espetáculo de dança Terra, do Grupo Grial, com Maria Paula Costa Rêgo. Mas há muitas opções. É só escolher.

PROGRAMAÇÃO DE ARTES CÊNICAS

TEATRO ADULTO

TEATRO LUIZ SOUTO DOURADO
Local: Centro Cultural Alfredo Leite Cavalcanti (próximo a Praça Mestre Dominguinhos (antiga Esplanada Guadalajara)
Horário: 19h
Ingressos serão distribuídos gratuitamente das 10h às 11h e das 15h às 16h. Cada pessoa pode receber até 2 ingressos. Lotação máxima: 600 pessoas.

Quinta-feira, 17/07
Abertura oficial do FIG – Homenagem a Ivo Amaral
Show Arco do Tempo, com Soraya Ravenle – Rio de Janeiro-RJ
Duração: 1h20
Atriz-cantora do teatro carioca, Soraya Ravenle é protagonista no ressurgimento do gênero musical no Brasil nos últimos 20 anos. No show faz um apanhado dos mais importantes musicais que protagonizou em 30 anos de carreira.

Sexta-feira, 18/07
Aula-Espetáculo Tributo a Capiba
Ariano Suassuna e Grupo Arraial | Recife-PE
Direção Musical: Antônio Madureira
Coreografias: Maria Paula Costa Rêgo
Duração: 1h20

No papel de mestre de cerimônia e acompanhado de músicos, bailarinos e cantores do Grupo Arraial, Ariano Suassuna detalha a origem de cada música, relembra os poetas que inspiraram composições de Capiba e faz uma grande caminhada em torno da cultura brasileira.

A dona da história, com Lívia Falcão e Olga Ferrário

A dona da história, com Lívia Falcão e Olga Ferrário

Sábado, 19/07
A Dona da História
Duas Companhias – Recife-PE
Direção: Duda Maia
Classificação indicativa: Livre
Duração: 1h
O dramaturgo João Falcão apresenta uma mulher de meia idade conversando com seu passado, ela própria 20 anos mais jovem, e reinventando sua história. Lívia Falcão e Olga Ferrário, mãe e filha na vida real, dividem a cena.

Domingo, 20/07
A Dama da Noite
Cia. de Teatro Popular de Garanhuns – Garanhuns-PE
Direção: Pacheco Neto
Classificação indicativa: 18 anos
Duração: 55 minutos
Livre adaptação do livro Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, de Caio Fernando Abreu, com o ator Marcelo Francisco.

Segunda-feira, 21/07
Guerra, Formigas e Palhaços
Grupo Estação de Teatro- Natal-RN
Direção: Rogério Ferraz
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 1h10
Dois militares, remanescentes de um batalhão de combate, aguardam reforços para defender um território ainda não tomado pelas forças inimigas. E não sabem se sairão vivos dessa situação.

Marat Descates em O Natal de Harry

Marrat Descates em O Natal de |Harry


Terça-feira, 22/07
O Natal de Harry
Marat Descartes- São Paulo-SP
Direção: Georgette Fadel
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 1h10
Em uma espécie de auto psicanálise e às vésperas do natal, Harry vive um embate patético e angustiado consigo mesmo, em sua tortuosa tentativa de compreender e combater sua solidão.

Quarta-feira, 23/07
O Livro
Eduardo Moscovis| Rio de Janeiro-RJ
Direção: Christiane Jatahy
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 45 minutos
Sessões: 17h e 19h
Peça questiona o poder da visão e da palavra. O personagem, sem nome, recebe um livro do seu pai. O Livro é o aviso que a perda de visão pode acontecer a qualquer momento.

Situações absurdas são exploradas em Lesados

Situações absurdas são exploradas em Lesados


Quinta-feira, 24/07
Lesados
Grupo Bagaceira de Teatro| Fortaleza-CE
Direção: Yuri Yamamoto
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 1h
Negligentes, indolentes, lentos. Prejudicados física e moralmente. Assim são (ou estão) as personagens de Lesados. A peça aborda as tentativas desajeitadas de pessoas que precisam sair de onde estão, mas não querem, não conseguem ou simplesmente não sabem por onde começar.

Junior Aguiar e Márcio em

Junior Aguiar e Márcio em H(eu)stória – O Tempo em Transe


Sexta-feira, 25/07
H(eu)stória – O Tempo em Transe
Gota Serena – Recife-PE
Direção: Júnior Aguiar
Classificação indicativa: 18 anos
Duração: 1h20
O espetáculo é estruturado a partir das cartas trocadas entre o cineasta baiano Glauber Rocha, o educador Jomard Muniz de Brito e o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes. A encenação aborda as questões que levaram o país a uma ditadura militar.

Sábado, 26/07
As Três Irmãs
Traço Cia. de Teatro- Florianópolis-SC
Direção: Marianne Consentino
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 1h20
O clássico texto do dramaturgo russo Anton Tchékhov é encenador a partir da técnica do palhaço.

ESPETÁCULOS DE RUA
Local: Espaço de Cultura Popular (Centro)
Horário: 10h

Quinta-feira, 24/07
Brincando no Picadeiro (Circo)
Caravana Tapioca- Recife-PE
Direção: Anderson Machado
Duração: 50 minutos
Cavaco e Nina apresentam um espetáculo de variedades circenses com as melhores cenas do repertório do grupo.

Sexta-feira, 25/07
InkaClown Show (Circo)
Cia. Circo Rebote| Brasília-DF
Direção: Atawallpa Coello
Duração: 40 minutos
InkaClown é um palhaço que tem muitos truques, acrobacias, danças, equilibrismos e malabarismos. É acompanhado por sua “Lhaminha” acrobática.

Sábado, 26/07
A Farsa do Advogado Pathelin (Teatro)
Cia. Rosa dos Ventos| Presidente Prudente-SP
Direção: Roberto Rosa
Duração: 1h10
Jogo do palhaço, acrobacia, malabarismo, pernas de pau e música ao vivo para contar a história do advogado Pathelin, engenhoso trapaceiro que, sobrevive de pequenos golpes em troca de alguns parcos benefícios.

TEATRO PARA INFÂNCIA
Local: Pavilhão da Dança e do Teatro para Infância (Parque Euclides Dourado)
Horário: 16h
Ingressos serão distribuídos gratuitamente das 14h às 15h30. Cada pessoa pode receber até 2 ingressos. Lotação máxima: 400 pessoas

Segunda-feira, 21/07
Bichos do Brasil
Pia Fraus – São Paulo-SP
Direção: Beto Andreetta
Duração: 50 minutos
Com a utilização de bonecos, da música e da coreografia, o espetáculo apresenta uma sucessão de 15 esquetes que buscam por meio de recursos plásticos, mostrar a riqueza da fauna brasileira.

Terça-feira, 22/07
A Menina Lia
Cia do Fubá- São Paulo-SP
Direção: Fernanda Gama
Duração: 1h
Garota inteligente e incompreendida pelos pais, Lia só encontra refúgio na literatura.

Quarta-feira, 23/07
Aruá, o Boi Encantado
Troupe Azimute| Garanhuns-PE
Direção: Julierme Galindo
Duração: 50 minutos
Lourenço, vaqueiro rico, dono de Voador que é o cavalo mais rápido da região, perturba-se com um boi estranho em suas terras e decide tentar capturá-lo.

DANÇA
Local: Pavilhão da Dança e do Teatro para Infância (Parque Euclides Dourado)
Horário: 16h
Ingressos serão distribuídos gratuitamente das 14h às 15h30. Cada pessoa pode receber até 2 ingressos. Lotação máxima: 400 pessoas

Sábado, 19/07
Disse Me Dança
Em Cena Arte e Cidadania| Recife-PE
Coreografia: Mieja Chang e Valéria Medeiros
Direção: Marcos Rodrigues
Duração: 50 minutos
Inspirado na literatura de Luciano Pontes. O roteiro revela a passagem das primeiras brincadeiras de infância, seguindo pelas descobertas da adolescência até os desafios e conquistas da juventude. A

Domingo, 20/07
Ritmo é Tudo
Irmãos Brothers| Rio de Janeiro-RJ
Direção: Alberto Magalhães
Duração: 45 minutos
A montagem apresenta os diversos ritmos do dia a dia de um casal, desde que acordam até a hora de dormir.

Quinta-feira, 24/07
O Tempo Perguntou ao Tempo
Grupo Acaso- Recife-PE
Direção: Bárbara Aguiar
Coreografia: Grupo Acaso e Escola Bailado de Fafe
Duração: 1h
Uma viagem lúdica ao mundo das lendas, cantigas e brincadeiras de nossas infâncias.

Sexta-feira, 25/07
Os Sete Buracos
Compassos Cia. De Danças| Recife-PE
Coreografia: Luís Roberto
Duração: 50 minutos
O jogo cênico propõe o encontro entre a dança e o teatro em quatro atos com ritmos próprios, desenvolvidos a partir da leitura do coreógrafo e do elenco, daquilo que entra e sai pelas narinas, pela boca, pelos olhos e pelos ouvidos.

Sábado, 26/07
Guia improvável para corpos mutantes
Projeto Guia improvável para corpos mutantes| Porto Alegre-RS
Direção: Airton Tomazzoni
Duração: 45 minutos
Através da ideia de manuais e guias com orientações, o espetáculo busca jogar com os sentidos possíveis e criar um universo imaginário e lúdico para o corpo que dança.

CIRCO
Local: Av. Caruaru – Heliópolis (próximo ao Terminal Rodoviário de Garanhuns)
Horário: 16h
Ingressos serão distribuídos gratuitamente das 13h30 às 15h. Cada pessoa pode receber até 3 ingressos. Lotação máxima: 1.300 pessoas. Atenção: Nos dias 25/07 e 26/07 haverá duas sessões, 14h e 16h, da Mostra de Números Circenses e do espetáculo O Reencontro de Palhaços na Rua é a Alegria do Sol com a Lua. Por isso, apenas nestes dias, os ingressos serão distribuídos das 11h30 às 13h.

Sábado, 19/07
Circo dos Irmãos Brothers
Irmãos Brothers- Rio de Janeiro-RJ
Duração: 1h
Espetáculo cômico de circo-teatro, recheado de ilusionismo. Guitarra, trapézio, monociclo, bateria, vozes, perna-de-pau, teclado, acrobacia, trombone, danças, baixo, teatro e percussão dialogam entre si.

Domingo, 20/07
Tradição Centenária
Circo Itinerante Alves| Jaboatão dos Guararapes-PE
Duração: 1h

O espetáculo inclui apresentações de laço, chicote, pirofagia, acrobacia, malabarismo, corda indiana, trapézio, aro russo, tecido, giro, monociclo, palhaço, magia, entre outros.

Segunda-feira, 21/07
Cabaré
Cia. Brincantes de Circo| Recife-PE
Duração: 50 minutos
Apresentação de variedades circenses que reúne diversos números de circo tradicional.

Terça-feira, 22/07
Família Vidal – 5ª Geração
Disney Circo- Recife-PE
Duração: 1h
Sob o comando dos palhaços Zunguinha e Peteleco, o espetáculo tradicional de circo apresenta malabares em dupla, tecido, passeio aéreo, equilíbrio em monociclos e bicicletas e outros

Quarta-feira, 23/07
Alegria, Alegria, O Circo Chegou!
Circo Itinerante Millennium| Cabo de Santo Agostinho-PE
Duração: 1h
Um espetáculo de tradição familiar com números de malabares, magia, arame, equilibrismo, acrobacias, corda indiana, trapézio, giro espacial e contorcionismo, além do talentoso Palhaço Mentirinha.

Quinta-feira, 24/07
Atração a definir

Sexta-feira, 25/07
Mostra de Números Circenses
Duração: 1h
Sessões: 14h e 16h
Apresentados pelo mestre de cerimônias Williams Sant’Anna, as mostras têm a participação de Victor Abreu (SP)| Cesar Rossi (SP)| Irmãos Michel (PE)| Mickael Marvey (PE)| Kelly Trindade (PE)| Cia. 2 em Cena de Teatro, Circo e Dança (PE)| Trupe Circus – Escola Pernambucana de Circo (PE)| Caravana Tapioca (PE)| Alequissandro Barbosa (PE)| Jaqueson Santana (PE) | Atawallpa Coello (DF).

Sábado, 26/07
O Reencontro de Palhaços na Rua é a Alegria do Sol com a Lua!
Companhia Teatral Turma do Biribinha| Arapiraca-AL
Duração: 1h
Sessões: 14h e 16h
O espetáculo conta a história do reencontro de dois palhaços de circo que não se veem há muito tempo e, num encontro inusitado, relembram o maravilhoso passado vivido juntos.

COMUNIDADE QUILOMBOLA CASTAINHO
Horário: 16h30

Teatro para Infância
Terça-feira, 22/07
A Família Sujo
Cuidado que Mancha| Porto Alegre-RS
Direção: Mirna Spritzer e Raquel Grabauska
Duração: 50 minutos
Uma radiopeça para crianças executada ao vivo, contando a história de uma família que não se empenha na limpeza.

Circo
Quarta-feira, 23/07
Circuluz Brincante
Trupe Circuluz| Olinda-PE
Direção: Raquel Franco
Duração: 50 minutos
A palhaça Keke Kerubina leva à cena brincadeiras, risos e absurdos.

Dança
Quinta-feira, 24/07
Coreológicas Recife
Acupe Grupo de Dança| Recife-PE
Direção geral e assistente de coreografia: Paulo Henrique Ferreira
Concepção, direção e coreografia: Isabel Marques
Duração: 1h
Fruição da dança contemporânea num espetáculo interativo.

DANÇA
Local: Casa Galeria Galpão (Av. Dantas Barreto, 34, Santo Antônio)
Horário: 20h
Ingressos serão distribuídos gratuitamente a partir das 19h30. Lotação máxima: 60 pessoas.

Domingo 20/07
Piranha
Wagner Schwartz| São Paulo-SP
Criação: Wagner Schwartz
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 50 minutos
PIRANHA é um assunto, uma conversa, um bate-papo e, também, uma apresentação.

Sexta-feira 25/07
Ouriço
Leonardo França/DIMENTI| Salvador-BA
Criação: Leonardo França
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 40 minutos
Mais recente trabalho do coreógrafo e performer Leonardo França que remixa informações do maracatu rural, butô e experimentações sonoras para expandir o entendimento da dança como relação intensa entre corpo, objeto e som.

Maria Paula Costa Rêgo em Terra

Maria Paula Costa Rêgo em Terra


Sábado 26/07
Terra
Grupo Grial – Recife-PE
Direção: Maria Paula Costa Rêgo e Eric Valença
Coreografia: Maria Paula Costa Rêgo
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 45 minutos
Trabalho coreográfico inspirado no universo indígena e que coloca o corpo dançante de todos os folguedos da tradição já experenciados pelo Grupo Grial à disposição de uma história mil vezes repetida, mil vezes esquecida: a do direito de ser.

90 anos de Osman Lins

Escritor Osman Lins teria completado 90 neste mês de julho

Escritor Osman Lins teria completado 90 neste mês de julho

É louvável a iniciativa do grupo Teatro Dubando, que homenageia o escritor Osman Lins pela passagem dos seus 90 anos, com o evento Leituras Cruzadas III: Lendo Osman Lins, de hoje a domingo no Teatro Hermilo Borba Filho, com entrada franca.

O programa incentivado pelo Funcultura/Governo do Estado de Pernambuco conta com palestras, leitura dramática, ensaio de espetáculo, exibição de curtas e debates.

Sabemos que o autor pernambucano de Vitória de Santo Antão merece muitas outras celebrações.

E que venham.

Máquina de escrever do autor de Avalovara

Máquina de escrever do autor de Avalovara

Numa entrevista feita por Esdras Nascimento, (publicada no Estado de S. Paulo em 24 de maio de 1969), Lins diz que o escritor tem, sim, uma missão social a cumprir. E que ela não deve ser confundida com o engajamento político, “sob nenhum pretexto, ser imposta pelo estado ou partidos. Isto não em nome de uma vaga liberdade do artista, e sim porque nenhuma instituição está em condições de impor, à conduta do escritor, leis e normas concebidas para outros tipos de atividades, Repito, com André Gide, que ‘uma literatura submetida é uma literatura envilecida’. O escritor não chega a certa orientação estética, a certas invenções, a certos experimentos, a determinadas descobertas, por acaso. Ele caminha duramente para tudo isso. Os livros de Kafka, resultado de toda sua existência, têm-nos ajudado enormemente a ter, do homem contemporâneo e de seus dilemas, uma visão que não seria tão clara se ele não tivesse existido. Ou se lhe houvesse imposto, ao invés de escrever O castelo, redigir algum romance trivial sobre patrões e operários. Não quero dizer que seja impossível a um romancista realizar um grande livro sobre tal assunto. Mas ele só o fará se chegar a isto. E seu trabalho, em nenhuma hipótese, deverá transpor para o papel a visão que os políticos têm do problema. Terá de ser, a sua visão, a visão do romancista, de um criador de ficção. Em todo caso, uma visão nova, pessoal, sem o que seria dispensável”.

Lins deixou, além de uma obra ficcional de importância, uma obra ensaística em que se posiciona com rara coragem sobre questões ainda hoje cruciais da realidade brasileira.

A postura ousada e na maioria das vezes solitária do autor se projeta na sua ficção. Ele combateu a censura, questionou as manipulações políticas na área da cultura, defendeu a educação, refletiu sobre as conjugações da indústria cultural e tornou os espaços na imprensa uma tribuna para defender suas ideias.

Um intelectual à frente do seu tempo

Um intelectual à frente do seu tempo

O percurso teatral de Osman é curto, mas marcante, e está em paralelo com sua ficção em prosa. Suas primeiras peças são mais tradicionais. No início da carreira, o autor investiu na linha cômico-popular e ganhou os aplausos do público e da crítica com Lisbela e o Prisioneiro. O drama realista Guerra do Cansa-Cavalo teve boa acolhida e até mesmo a recepção fria à montagem A Idade dos Homens – com sua crítica social urbana – gerou um bom debate na mídia.

Com as inovações da trilogia Santa Automóvel e Soldado, (composta pelas peças Mistério das Figuras de Barro, Auto do Salão do Automóvel e Romance dos Dois Soldados de Herodes) o autor redirecionou sua escrita dramática para o épico, depois de ter formulado uma teoria teatral que dava primazia ao texto teatral.

A programação ilumina pontos importantes da obra de Osman Lins.

Osman Lins

PROGRAMAÇÃO

Leituras Cruzadas III: Lendo Osman Lins
Teatro Hermilo Borba Filho (Av. Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife.
Fones: 3355 3321 e 3355 3319.
Entrada gratuita.

Dia 18 de julho (sexta)
Percursos da História
19h Abertura com coquetel
19h30 Palestra com Ângela Lins e Leda Alves sobre momentos significativos da vida e da obra de Osman Lins.
Debatedor: Fábio Andrade.

Dia 19 de julho (sábado)
Osman Lins em Cena
18h Ensaio aberto do espetáculo Perdidos e Achados (peça inspirada em narrativa homônima de Osman Lins), com o Teatro Dubando e participação especial do ator Tatto Medinni

Luiz Carlos Vasconcelos montou Retábulo, com o grupo Piollin

Luiz Carlos Vasconcelos montou Retábulo, com o Piollin

19h20 Palestra com Luiz Carlos Vasconcelos (PB), sobre sua experiência ao montar a narrativa Retábulo, dirigindo o Grupo Piollin (PB); e Robson Teles, sobre as narrativas osmanianas da obra Nove, Novena. Debate aberto com o público ao final

Dia 20 de julho (domingo)
16h Leitura dramática da peça “Mistério das Figuras de Barro”, de Osman Lins, pela Companhia Fiandeiros de Teatro.
Direção: André Filho

16h30 Palestra O Teatro da Palavra de Osman Lins, com Ivana Moura

17h10 Exibição do curta metragem A Partida, direção de Sandra Ribeiro, além de Os Gestos, ambos inspirados em obras de Osman Lins

Sandra Ribeiro dirigiu A Partida para o cinema

Sandra Ribeiro dirigiu A Partida para o cinema

17h50 Palestra com Sandra Ribeiro e Adriano Portela. A diretora falará de sua experiência em filmar a obra osmaniana. Já o jornalista analisará o percurso da obra de Osman na cinematografia.

19h Palestra Cruzando Leituras, com Arnoldo Guimarães e Rosana Teles, sobre o universo melódico e poético de Osman Lins.
Debatedor: Lourival Holanda.

Saudades de Milaré

Sebastião Milaré em foto de Bob Souza

Sebastião Milaré em foto de Bob Souza

Dizer que o teatro brasileiro está de luto é pouco para traduzir a falta que Sebastiao Milaré já faz.

O crítico, dramaturgo e pesquisador teatral paulista migrou para outra dimensão nessa quinta-feira. Ele foi internado na segunda-feira, dia 7, no Hospital Cruz Azul, no bairro do Cambuci, em São Paulo para tratamento de um câncer no intestino.

O enterro será no Cemitério Jardim da Colina, em São Bernardo do Campo.

Ele coordenava um projeto hercúleo Teatro e Circunstância, do SESC-TV, de São Paulo. Para a série Milaré entrevistou mais de 100 grupos de teatro, de Belém a Porto Alegre, delineando a produção teatral contemporânea, a partir da década de 1970.

Especialista na obra cênica de Antunes Filho, escreveu três livrossobre o encenador: Antunes Filho e a dimensão utópica (Perspectiva), Hierofania – o teatro segundo Antunes Filho (Edições Sesc) e Antunes Filho – poeta em cena (Edições Sesc), este último com posto a paritr das fotografias de Emidio Luisi. Milaré também publicou A Batalha da Quimera — Renato Viana e o Modernismo Cênico Brasileiro.

Esse homem gentil e bem-humorado, intelectual incansável, definia o teatro como “encontro com o sagrado”.

Milaré participou do 15º Festival Recife do teatro Nacional, em 2012. Em maio de 2013 foi publicado trechos da entrevista feita por Pollyanna Diniz. Segue na íntegra:

ENTREVISTA // SEBASTIÃO MILARÉ

De que forma você conheceu o teatro?
O teatro se aproximou de mim e me dominou quando criança ainda. Minha família mudou de São José do Rio Preto para São Paulo quando eu tinha dez anos de idade. Mas antes disso, lembro que eu ia ao circo, adorava! E em São Paulo sempre fui ao teatro, frequentava grupos amadores. Não era uma coisa de família. Muito pelo contrário, era só eu mesmo.

E com o tempo você começou a fazer direção de espetáculos?
É. Vem dessa história de começar bem jovem a fazer teatro de amadores. Eu dirigia, gostava disso. E depois comecei com um grupo que não era mais tão amador, mas era bem experimental, isso nos anos 1960: chamava Teatro Experimental de Jovens. E também dirigi um grupo criado dentro do Sesc. Tinha uma unidade do Sesc em São Paulo na Rua do Carmo que tinha um teatro de arena e eu fiquei dirigindo um grupo dentro desse teatro por alguns anos: o grupo Tarefa. E isso nos anos 1960 ainda. Era uma fase muito dura quando eu me profissionalizei mesmo, era muito difícil fazer teatro naquela época, por conta da censura. E eu já estava no jornalismo, então comecei como crítico de cinema na Folha da Tarde. E fui convidado para trabalhar na revista Artes, que naquela época acho que era a única publicação brasileira sobre artes mesmo, sobre todas as linguagens. Terminei me envolvendo com outras linguagens: sempre gostei muito de artes plásticas, fiz cobertura de Bienais, e também teatro. Então eu escrevia tanto sobre artes plásticas, quanto sobre cinema e teatro. Mas comecei a desenvolver um trabalho de crítica de teatro e me interessei muito pela parte teórica. Então fui abandonando a criação. Comecei a achar que a minha praia era teoria; não era a criação. Gosto de ver a criação alheia, de acompanhar todo o processo criativo, mas eu mesmo me colocar como criador já era uma coisa que não estava me interessando muito.

Como veio a aproximação com Antunes Filho. Quando você viu uma peça dele pela primeira vez?
É inesquecível. Eu tinha 16 anos quando fui ver, em 1962, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), a montagem que ele fez de Yerma, de Garcia Lorca. Eu não conhecia nem ele, nem o texto. Claro, ia ver muitas coisas, muita comédia, mas eu não conhecia realmente as figuras do teatro. Quando eu vi aquela Yerma, para mim o teatro começou a significar alguma coisa de extraordinário. Era uma revelação muito grande. No dia seguinte, comprei as obras completas de Garcia Lorca, comecei a ler tudo e a acompanhar o que Antunes fazia. Eu o admirava muito, que era bem jovem também. Depois, em 1965, ele foi convidado pelo Alfredo Mesquita para ser o professor de interpretação do terceiro ano da EAD (Escola de Arte Dramática da USP), que era o responsável pela encenação do final do curso. E ele optou por fazer A falecida, do Nelson Rodrigues. Eu tinha vários amigos dentro da EAD. Então eu freqüentava muito aquele espaço e de certa maneira acompanhei a montagem. E foi aí que tive os meus primeiros contatos rápidos com Antunes. Só bem mais tarde, quando eu já estava na revista Artes, foi quando comecei a fazer matérias bastante extensas sobre o teatro dele. Antunes sempre gostou também das coisas que eu escrevia. Nós já tínhamos um respeito mútuo profissional. Eu me lembro quando ele estava fazendo Peer Gynt em 1971; e era o grande espetáculo daquele ano. Pedi uma entrevista para o Antunes. Marcamos o dia e quando cheguei ao teatro, o Antunes, aquele jeitão dele, me pegou pelo braço: “vem cá, vem cá”, me levou para uma sala. E para a minha surpresa numa mesa estavam nomes como Maria Bonome, que era a figurinista da peça, Laonte Klawa, que era cenógrafo, Stênio Garcia, que fazia Peer Gynt, Jonas Bloch, Ariclê Perez. E Antunes me disse: a entrevista tem que ser com todos, porque todos são criadores do espetáculo.

Isso em 1971 era uma visão bastante avançada?

Com certeza. E era realmente o reflexo do que ele fazia, que hoje é uma coisa muito comum, de criar a peça através de workshop e tudo mais. Antunes foi o primeiro que fez laboratório no teatro brasileiro, em 1964, com Vereda da Salvação. Então a partir de Peer Gynt a minha relação com Antunes ficou mais próxima, mas também era uma fase difícil, o Antunes trabalhava muito por contrato, não conseguia manter uma linha de trabalho dele. Isso até 1976, 1977, quando começou a fazer Macunaíma. A partir de Macunaíma passei a acompanhar sistematicamente e estar muito junto do Antunes.

E daí para o primeiro livro – Antunes Filho e a Dimensão Utópica – qual foi o caminho?

Esse primeiro livro foi muito engraçado. Porque eu escrevi muitos artigos sobre o Antunes. Quando o Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) já estava instituído dentro do Sesc, quando ele tinha esse lugar que possibilitava a continuidade do trabalho, fiz um ensaio muito grande sobre o CPT. E percebi que o Antunes estava realmente trabalhando algo que era método para ator. Ele dizia que não. E eu me interessei muito e falei para o Ulysses Cruz, que era assistente dele, que estava pensando em escrever um livro, porque só as matérias não eram suficientes. Mas Ulysses disse que eu não falasse nada para ele, porque Antunes tinha medo: “ele acha que escrever um livro sobre ele é anunciar a morte”. Mas eu não podia fazer uma biografia não autorizada! Fiz um projeto do que eu pretendia e mostrei ao Antunes. E ele fechou comigo imediatamente e ainda me disse que eu não precisava nem fazer pesquisa em arquivos, em jornais, porque ele tinha tudo, todos os recortes que eu precisasse. E daí comecei a acompanhar sistematicamente o trabalho de ensaios no CPT, a montagem toda de A hora e a vez de Augusto Matraga (1986) Isso para eu ir realmente me assegurando de como era o trabalho dele; porque eu sabia, mas de uma maneira um pouco distanciada, e eu precisava estar no olho do furacão. Os processos do Antunes são sempre demorados. E o meu processo foi demorado exatamente acompanhando o ritmo dele. Tive um apoio muito grande de pessoas que me deram entrevistas, depoimentos sobre o Antunes maravilhosos, como Osmar Rodrigues Cruz, que foi parceiro dele logo no início, Décio de Almeida Prado. E fiz Antunes Filho e a dimensão utópica, que foi o primeiro livro, que trata dele até Macunaíma (1978).

Mas por que até Macunaíma?

Porque como eu estava dentro do CPT vendo o que estava acontecendo ali, cada vez mais ia ficando claro – e aí o Antunes já começou a admitir sim – que ele estava constituindo um método, mas estava muito no início, embora já desse resultado em cena. E sabia que tinha que fazer um livro especificamente sobre o CPT e sobre o processo criativo do Antunes lá dentro. Já no prefácio, na introdução do primeiro livro, prometo o segundo livro – que aí avança no aspecto da obra dele a partir de Macunaíma, já dentro do CPT e dentro do grupo Macunaíma. Era um projeto já desde aquela época, mas eu não sabia que ia demorar tanto! A elaboração do livro tinha que acompanhar o ritmo do Antunes e o processo dele lá dentro do CPT. Eu só poderia dar por terminado um livro sobre o método quando ele desse por concluída também a sistematização que ele estava fazendo. Por isso levou quase 20 anos!

Para Antunes o ator é a peça fundamental.

Antunes deixa claro que para fazer teatro você pode dispensar cenário, luz, figurino. Pode dispensar até o texto. Mas sem o ator não tem teatro. Na realidade, Antunes fez no Brasil a mesma coisa que outros da geração dele fora do Brasil. E estou falando de Grotowski, de Eugenio Barba. Antunes fazia um trabalho muito sintonizado com tudo isso. Sempre briguei muito com essa história: “ah, o Antunes está fazendo Grotowski”. Não está fazendo Grotowski! Ele está bebendo nas mesmas fontes, porque é da mesma geração, tem a mesma inquietação, o mesmo espírito do tempo está dominando ele. Desde o início da carreira dele, Antunes sempre lutou para que o ator brasileiro tivesse alguns meios de criação muito adequados à cultura do ator brasileiro, ao físico, ao corpo do ator brasileiro. Mas isso desde os anos 1950, quando ele fez Anne Frank; depois quando ele faz Vereda da salvação em 1964, que surgem os laboratórios, algo extremamente controverso, polêmico. Tinha gente de teatro que dizia que o Antunes estava fazendo uma coisa de destruir o teatro, que era uma loucura. Mas o que ele estava fazendo era o que Grotowski fazia, cada um na sua realidade. Depois de um tempo é que, de repente, começam todos eles a ficarem internacionais e aí vamos tendo notícia de cada um. Desde que se instituiu realmente o CPT, que já tem 30 anos, o número de atores que já passaram por lá, que se inscrevem, que passaram pelo CPTZINHO, é um número imenso. E grande parte desses atores estão aí no teatro, constituíram uma carreira e trazem essa herança do Antunes. E dessa maneira as ideias dele vão “contaminando” o teatro brasileiro e o ponto de vista que se tem hoje do ator já é muito diferente do que há 30 ou 40 anos.

Quem é o ator para Antunes Filho?

Antes de tudo, o ator em que lutar muito para resolver todos os bloqueios, tanto no físico quanto no espírito. O ator tem, para o corpo, uma carga extraordinária de exercícios, até que seu corpo fique completamente destravado e obedeça a um comando qualquer que você dê. O corpo não pode ter tensões desnecessárias. Ombros duros, por exemplo, isso acaba com a respiração. Quando o ator consegue chegar a um estado de relaxamento ativo, consegue ter domínio da respiração. E quando há domínio da respiração, ele consegue tudo. Porque, para Antunes, ator é respiração. E, por outro lado, a questão do intelecto, da psique, do espírito. O ator tem que ser desbloqueado. Temos muitas travas culturais, muitos condicionamentos. As pessoas são todas muito carregadas de preconceitos. O ator não pode ter isso; é a mesma coisa de travas no corpo; a trava de um pensamento condicionado a certas manias, certos preconceitos. Acaba com a possibilidade de criação. Então para isso é muita leitura, conversa e um permanente trabalho de autoconhecimento. O processo do Antunes está atrelado sempre ao processo de individuação, como prega o Jung. Porque o ator tem que questionar sempre a postura dele frente ao que ele faz. Ele vai trabalhar com o outro, que é o personagem, então ele não pode ter uma ideia preconcebida do outro. Ele tem que começar a examinar o outro, as razões do outro e buscar primeiro uma identificação. Esse é o princípio. Mas eu não posso me identificar com um personagem colocando as minhas coisas, como diria Antunes Filho, “seus problemas de Édipo, seus problemas com o pai, com a mãe” no personagem. O ator não pode projetar as coisas dele no personagem e sim trazer as coisas do personagem para ele e sentir como ele reagiria dentro disso. É sempre um processo de autoconhecimento que ele vai desenvolvendo.

Neste sentido, como você encara as muitas montagens contemporâneas que levam à cena o ator como personagem de si mesmo?

É diferente você pegar a biografia de uma pessoa, a vida, analisar, ter as suas conclusões e criar em cima disso; ainda que seja uma pessoa atual, viva e tudo mais. Agora quando o ator se coloca ele mesmo em cena, é meio complicado. Porque ele não tem um distanciamento do outro. Não sei te citar exemplos nem de uma coisa positiva, nem de uma coisa negativa nesse sentido. Só acho que é algo que está se fazendo hoje, mas que temos que examinar com cuidado, pensar quais caminhos o ator vai tomar nesta criação. Um pintor pode fazer um autorretrato, mas ele tem uma distância, ele está noutro suporte. O ator não tem outro suporte, o suporte dele é o próprio corpo, a própria cabeça. É uma coisa meio complicada. Eu acho que sempre que se coloca um ator que está se expondo em cena, usando seu próprio material pessoal para uma criação, acho que entra mais na psicanálise do que na verdadeira criação artística, pelo menos por enquanto. Acho que é uma coisa mais terapêutica do que realmente uma criação. Agora, não é inválido. Acho que as pessoas que estão trabalhando nessa linha tem um desafio pela frente, que é o de superar uma série de problemas que existem nesse conceito e de encontrar meios expressivos que tornem isso uma coisa artisticamente válida. Mas é muito atual.

Voltando a falar em Antunes, quais os paralelos entre Nelson Rodrigues e Antunes, e como foi a relação entre os dois?

Quando falamos em Nelson Rodrigues estamos falando do maior poeta dramático de Língua Portuguesa desde Gil Vicente. Acho que Nelson está à altura dos grandes clássicos. Está à altura de Ibsen, de Shakespeare. Não tem diferença. O que Shakespeare fez foi contar aquele seu momento, aquela sua realidade e construir toda uma visão de mundo a partir daquela realidade. Nelson fez a mesma coisa e num nível poético de extraordinária beleza, de força e vigor. A relação do Antunes com o Nelson foi muito importante para os dois e transformadora. Porque quando o Antunes fez, em 1981, Nelson Rodrigues – O eterno retorno mudou a visão de todo mundo em relação a Nelson Rodrigues. Infelizmente Nelson não chegou a ver o espetáculo: morreu seis meses da estreia. Mas a assistente do Antunes na época, a Leonor Chaves, que é uma grande amiga minha, ia para o Rio e era recebida pelo Nelson para consultá-lo sobre questões e era recebida com a maior afetividade e muito feliz por Antunes estar fazendo aquele trabalho. Uma pena que ele tenha morrido antes. Acho que ele ficaria surpreso quando visse aquela obra, que era uma coisa surpreendente mesmo. E mudou a visão que se tinha do Nelson Rodrigues. A partir daí Nelson começa a ser realmente considerado um gênio e é repudiada aquela ideia que se fazia antes de um autor pornográfico, de comédia de costumes. Nelson é um patrimônio nosso, do Brasil, e da humanidade. Uma das maiores referências do teatro no século 20 e onde ele é descoberto, é louvado. Acho que o Antunes tem uma familiaridade com a obra do Nelson que possibilitou ele fazer, por exemplo, A falecida Vapt-Vupt, que estreou aqui no Recife, em um mês e meio e como possibilitou fazer agora Toda nudez será castigada em menos de dois meses. Eles estão muito próximos.

O teatro é um processo histórico. Mas mesmo sem o distanciamento geralmente exigido, você consegue delimitar em que momento estamos e que caminhos vamos trilhar?

Acho que o teatro brasileiro tem uma maturidade e uma vitalidade. Estou falando de teatro brasileiro mesmo, de Norte a Sul. Não estou falando de eixo Rio-São Paulo. O que se percebe é que existem projetos artísticos audaciosos muitas vezes e uma preocupação e uma consciência dos criadores – sejam eles diretores, dramaturgos, atores. Uma consciência muito grande de que para chegar a realizar aquela ideia, ele tem que se preparar intelectualmente, pesquisar muito, a cabeça dele tem que estar abrindo para novos horizontes. Assim como ele tem que trabalhar o corpo, para que o corpo responda e corresponda àquela ideia. E isso você percebe em muitos grupos de teatro do Brasil inteiro e muitos conseguem realizar obras que são surpreendentes. Agora… se está assim, e se assim continua, o futuro a Deus pertence!

Mas o caminho passa pelo teatro de grupo?

Por enquanto, na realidade que estamos vivendo hoje, passa sim. Acho que o teatro de grupo possibilita a continuidade de uma pesquisa. Então tem grupos, por exemplo, que não tem o diretor, que contratam os diretores. Mas eles têm uma ideia, uma proposta estética que quem chega acompanha. Cito, por exemplo, o Teatro de Anônimo, do Rio de Janeiro, que funciona assim. Se o diretor tem uma ideia e os atores têm outra, fica a ideia do ator! Porque a continuidade do trabalho está neles. E acho que isso é importante. O grupo possibilita ter essa continuidade do trabalho e a criação artística é um processo contínuo. O produtor contrata, o diretor, o ator que tem o physique du rôle para aquele papel num sei das quantas. E está fazendo a reprodução de um teatro antigo, de uma ideia antiga de teatro, que termina nela mesma. O teatro de grupo possibilita a continuidade, todos estarem dentro de um projeto, e trabalhando por aquilo. E esse projeto pode ir se transformando; pode começar de uma maneira e virar outra coisa lá na frente, mas dentro de um esforço conjunto. O teatro é sempre uma arte coletiva. O teatro não é uma coisa isolada, fragmentada, mas é um esforço coletivo de criação. E esse coletivo tem necessariamente que estar junto dentro de uma ideia: do que é uma obra de arte, o que é uma peça de teatro, como o que é uma escultura.

Como você enxerga especificamente o teatro feito no Recife?

Isso tudo que eu estou falando do teatro brasileiro, encontramos aqui, em João Pessoa, Porto Alegre, Brasília. O que vejo é que Recife tem uma tradição de teatro que tem que ser respeitada. E isso é batalha. Acho sacanagem contar a história do teatro moderno brasileiro sem apontar Recife: ficar naquela história – Os comediantes, depois o TBC. Acho que tem que entrar o Gente Nossa como processo histórico, Valdemar, o Teatro de Amadores de Pernambuco, Hermilo Borba Filho. Hermilo não estava importando o que estava acontecendo em São Paulo. É claro que estava dialogando com aquilo sim, mas estava correspondendo a uma realidade daqui. Especialmente Hermilo, ele vai trazer muito essa consciência: nós temos uma realidade e temos que trabalhar e transformar essa realidade em códigos artísticos dentro do teatro. Isso tudo é o processo de modernização e Recife participou de maneira muito intensa, com figuras muito importantes. O que percebo hoje é que esse vigor, essa herança do passado está trazendo frutos hoje. No panorama do que eu conheço, isso passa pela Companhia Teatro de Seraphim, que pega essa herança dessa modernização, tanto do Teatro de Amadores quanto do Hermilo, com as contradições todas implícitas nessas linhas e vai trazer para o Seraphim outra coisa, que já se transforma noutros grupos. Acho que um dos grupos mais recentes, por exemplo, é o Magiluth. Acho o Magiluth um grupo de uma capacidade de percepção teatral muito grande, de propostas teatrais. Quando eles fazem Um torto, Aquilo que meu olhar guardou para você são experiências cênicas importantes. E eles têm a coragem de fazer Gregório com aquela capacidade artesanal, mostrando que eles sabem realmente fazer teatro sim. Pegam Uma viúva, porém honesta; tem a inteligência de pegar uma obra de Nelson Rodrigues que permite isso e fazem como se fosse uma extensão do Nelson Rodrigues. Eles têm as mesmas condições do Nelson Rodrigues porque são da mesma terra, têm as mesmas heranças culturais da região. Tenho muita admiração pelo povo todo que está fazendo teatro no Recife, que sempre me surpreende. Vejo um teatro muito vital e que tem raízes, tem tradição, não é uma coisa que está acontecendo por acaso.

Neste panorama nacional, em que situação está a crítica, principalmente com a diminuição dos espaços formais?

Senti isso na carne. Há décadas me recuso a fazer crítica na imprensa diária, estar na redação fazendo crítica. Vamos voltar ao Viúva, porém honesta. Acho perfeito o que o Nelson Rodrigues faz. Tem uma tradição na imprensa brasileira que vem lá dos anos 1910, 1920. Naquela época o crítico para entrar no teatro tem que ter uma casaca. “Ah, quem trouxe uma casaca? Então hoje você é o crítico do dia”. Não mudou tanto. Porque muitos críticos são eleitos pelo editor porque acham que “o carinha” leva jeito, quando a crítica é uma coisa muito séria. Ou então vamos publicar só críticas de espetáculos que tem estrelas de televisão. Acho que é uma visão tão falha… e por isso a imprensa está tão mal das pernas, enchendo o saco por assinatura. Os espaços estão cada vez menores ou inexistentes. Em São Paulo, vejo que tem um movimento teatral de periferia, de grupos de importância extraordinária na periferia que não tem espaço nenhum na imprensa. Ou algumas vezes, o Grupo Clariô, por exemplo, que faz um trabalho extraordinário. Hospital da gente é uma obra antológica. Eles ganharam páginas inteiras nos jornais, porque a sede deles, que é junto de uma favela, num local sujeito a enchentes, sofreu algumas enchentes. E não pelo trabalho extraordinário que eles fizeram em cima do texto do Marcelino Freire. Por outro lado, existe um pensamento crítico no Brasil hoje? Existe. Tem muita gente escrevendo, fazendo críticas importantes, pensando o teatro no campo da teoria, de uma maneira muito séria. Mas essas pessoas raramente aparecem na imprensa diária. Elas estão publicando livros, fazendo ensaios, artigos que você vê em revistas de vez em quando. Então existe sim um pensamento crítico acompanhando tudo isso. Não estamos numa terra de ninguém. Mas as pessoas quando falam de crítica já pensam naquela coluninha que sai no jornal.

Qual o seu processo quando vai escrever uma crítica?

Sempre procuro amadurecer muito as ideias. Quando é para uma publicação que eu tenha tempo, trabalho muito, volto muitas vezes àquilo, me questiono. Mas quando faço críticas em festivais, por exemplo, que é uma coisa mais rápida, o que procuro sempre é perceber no espetáculo o que há de positivo. Isso que me interessa. E sempre há alguma coisa positiva. Porque aí acho que você está dialogando com os criadores de uma maneira mais honesta, mais justa e você está dando ao espectador, ao leitor, a ideia de que, ainda que seja um espetáculo com problemas, mas você pode prestar atenção em algo, um caminho, um viés, revela um pensamento mais consistente daquele criador. Essa é uma função importante da crítica.

Você acompanha a crítica teatral na internet?

Eu realmente não observo tanto, por causa de tempo. Procuro me atualizar e verificar o que as pessoas estão fazendo, pensando, mas não com um acompanhamento sistemático. Até porque é muita coisa. Acho que na internet você encontra alguns trabalhos críticos que, às vezes, não têm espaço na imprensa tradicional. Porque a internet rompe um pouco com as exigências editoriais, então permite que o crítico tenha um raciocínio um pouco mais dilatado. Mas o que percebo é que a grande maioria escreve ainda como se estivesse escrevendo para um jornal diário; estão dentro dos mesmos conceitos, das mesmas preocupações editoriais, que interferem no pensamento crítico. A internet é um campo que possibilita uma democratização e isso traz também o aparecimento de um mundo de coisa ruim, mas também de coisas de excelente nível. A internet está possibilitando que as pessoas se pronunciem. Quando eu fiz o Anta profana (www.anaprofana.com.br), foi por uma insistência de um sobrinho meu, o Alexandre Werneck, que fez o site. E eu achei legal quando a ideia maturou. Mas a minha preocupação primeira é que eu estava com muito trabalho de pesquisa e eu tinha que colocar na roda. Acho que o pesquisador vai acumulando muita coisa e eu tinha que dar acesso a outras pessoas a esse material. E para isso o Anta profana, antes de ser a divulgação de um pensamento crítico, era a distribuição do conhecimento de um pesquisador. Mas já tem dois anos que estou com muita dificuldade de atualizar, por conta do trabalho. Mas vou retomar. Anta profana é minha casa e eu sou uma anta, porém não sagrada, profana.

Queria falar um pouco sobre a Lei de Fomento ao Teatro em São Paulo, que completou uma década ano passado, e a importância dessa experiência para o resto do país. Você presidiu a comissão que escolhia os projetos contemplados algumas vezes, não é isso?

A Lei de Fomento estabeleceu um modelo de apoio. Foi resultado de um movimento da categoria que foi o Arte Contra a Barbárie, um movimento realmente muito importante e que desembocou num momento favorável, que foi quando a Marta Suplicy foi eleita prefeita de São Paulo. Então alguns vereadores acolheram a proposta da categoria, apresentaram projeto de lei e depois a prefeita aprovou, sem alterar o projeto de lei que tinha sido feito pela categoria. Acho que a Lei de Fomento inova de uma maneira extraordinária porque não é destinada à montagem de espetáculo. Toda lei de incentivo está sempre pensando em montagem. E a Lei de Fomento não é para isso, mas para a continuidade de trabalho de grupo. Possibilitar que um coletivo possa desenvolver seu trabalho de pesquisa sem essa opressão de colocar algo logo em cena, buscar patrocinadores. Você tem que ter esse tempo para estudo, um espaço que possibilite isso. Acho que é um desdobramento legal, por exemplo, que a Petrobras está fazendo, também promovendo a manutenção de grupo. Muitos grupos no Brasil estão conseguindo desenvolver seus trabalhos. Dentro da própria categoria, por outro lado sempre tem aqueles que não são contemplados ou os que nem mandam projetos: “essa comissão é um compadrio”. A lei não impede que um grupo seja contemplado várias vezes e até em sequência. Se um grupo apresenta um projeto e demonstra que está trabalhando, que está realizando, precisa ganhar de novo para continuar. O espírito da lei sempre foi esse. Então dentro da classe surgia essa história de compadrio, que realmente, nunca existiu. As nove vezes que eu presidi a comissão, as reuniões sempre foram aguerridas. Cada projeto votado é discutido exaustivamente. E outra coisa é dentro do próprio governo. Alguns acham que a prestação de contas tinha que ser como a da Lei Rouanet, que sacrifica os grupos. Felizmente, criou-se logo no início a continuidade do Arte Contra a Barbárie. Então os grupos se reúnem. Por exemplo, a secretaria colocou um edital e tem alguma coisa que fere o espírito da Lei de Fomento, imediatamente tem uma manifestação pública e por duas vezes a secretaria já teve que cancelar o edital e refazer. Isso é importante. São Paulo tem um movimento teatral hoje muito forte, com grupos que surgiram nos anos 1990 e tem uma expressão bastante grande e a possibilidade da existência desses grupos está ligada à Lei de Fomento. Acho que é um modelo que poderia ser aplicado nacionalmente.

Uma discussão recorrente: como formar plateia no Brasil?

O teatro é o ator antes de tudo, mas sem a plateia o ator não existe, é aquele bobo que está falando sozinho. Ele tem que ter o interlocutor. Mas é complicado formar plateia. Eu dou um exemplo claro. Os grupos de periferia de São Paulo. Tem vários grupos de um nível extraordinário: a Brava, Dolores Boca Aberta, Clariô. São grupos de um trabalho estético de importância muito grande. E o trabalho estético deles nasce do convívio deles com a comunidade onde atuam. Eles não estão na coisa paternalista: “ah, coitadinhos, nunca viram teatro”. Não é isso. A atitude é: esta era uma realidade que nos interessa como matéria prima para a nossa criação e não para fazer discursos panfletários, nada disso. Porque o drama humano está ali e isso é o que interessa. Mas tenho que conhecer profundamente esse drama humano para conseguir transformá-lo em códigos artísticos em cena. Esses grupos todos, quando eu vou para a periferia para ver um trabalho deles, embora você não precise ir para a periferia, porque muitos deles estão nos festivais, a receptividade daquele público para as obras é uma coisa extraordinária. Não lhes falta público jamais e um público cúmplice. São códigos que eles criaram. Não é uma coisa fácil, que você vê na televisão. Não! É uma obra de arte que eles estão criando ali! Mas tem um diálogo maravilhoso e aquele público está completamente entregue a eles. Essa é a formação de plateia que vejo, esse diálogo. Não é criar evento. Acho que o que esses grupos estão fazendo – estou falando da periferia porque é mais óbvio, mas outros estão fazendo isso, como o Teatro da Vertigem -, é resgatar para o teatro a sua condição ritualística. É um ritual. E o ritual envolve o que está celebrando e quem está participando: a plateia. Quando o teatro interessa realmente àquele público aí o teatro se torna uma coisa sagrada, aí acontece um encontro do homem como o divino. Isso é formação de público. Eu lembro de uma experiência que tive há muito tempo, aqui no Cabo de Santo Agostinho. Fiquei impressionado com o teatro, não só de rua, mas de palco também. E como uma parte da plateia, molecada mesmo, entrava na cena. E aí é que está: não tem uma educação burguesa, quer participar também, então fala, mas dialoga. E eu achava aquilo lindo, não me incomodava. Depois, sim, vamos educando a plateia. Mas esse jogar-se lá dentro é tão fundamental! Aí se cria a plateia. Não é aquela plateia que vai ver espetáculo e depois come pizza. Essa plateia não me interessa. Como não me interessa quem faz teatro para isso. Acho que teatro é uma coisa muito mais séria. Aquelas ‘comediazinhas’…você ri, ri, depois vai comer pizza. E esquece. Não leva nada daquilo. O teatro tem que imprimir na alma do espectador alguma coisa muito importante.

Quais os seus próximos projetos?

Estou completamente envolvido na série Teatro e circunstância. Nós ficamos cinco meses rodando pelo Brasil e tomando depoimentos. Entrevistei mais de cem grupos. Do Brasil inteiro, ou pelo menos de Belém a Porto Alegre. Tem alguns vazios: eu não podia ir para Manaus, por exemplo, para Mato Grosso, porque era muito dispendioso. Então tive que me concentrar: o Nordeste inteiro, Minas Gerais, Rio de Janeiro, os estados de Sul. Entrevistei mais de 100 grupos e ainda intelectuais, pessoas envolvidas com o teatro. É um material de pesquisa extraordinário, como acho que ninguém tem. E isso me traz uma responsabilidade. Porque terminando de construir os roteiros da série – 28 roteiros, de uma hora cada um, vou fazer um livro. Estou feliz porque é um painel como nunca houve. No final das contas, são 55 programas de uma hora cada. E o que pretendo fazer, o projeto que vou me dedicar inteiramente é escrever um livro sobre o teatro brasileiro contemporâneo. Esse teatro que realmente existe e não aquele que as pessoas imaginam que exista e que fica restrito a determinadas áreas e nada mais. Tem coisas surpreendentes nesse país. Trabalhos, pessoas pensando teatro nos lugares onde você nem suspeitava.

O que é o teatro para você?

O teatro para mim é uma religião. Acho que o teatro é sim um espaço sagrado. É sempre um ritual. Acho legal, por exemplo, quando o Amir Haddad defende a ideia da arte pública. A arte pública não é uma arte feita pelo governo. É uma arte feita pelo cidadão e para o cidadão. E acho que o teatro é realmente isso. O teatro tem que ser uma arte pública. Quando o artista vai para a cena, ele tem que estar carregado dessa responsabilidade social, o ato político de você estar se dirigindo ao outro. Em primeiro lugar isso, essa responsabilidade na comunicação e quando ela se efetiva de uma maneira generosa, bonita, bela, porque quando você está fazendo arte você tem que buscar a estética, você chega ao ritual e ao que é o teatro. É uma coisa sagrada. É o divino de cada um. Quando você supera todas as suas coisas mesquinhas, imediatas, e tudo mais e passa para outro plano da realidade, um plano superior. É aí que o teatro tem que esta