MITsp traz ao palco conflitos, discussão e crítica

As irmãs Macaluso

As irmãs Macaluso

Na cidade mais cosmopolita do Brasil, um festival que discute o teatro feito além do nosso umbigo. Produzido no mundo. Que coloca em pé de igualdade a apresentação da obra e as reverberações que podem surgir a partir daí: encontros com diretores, grupos, pesquisadores, crítica. É exatamente pela combinação desses elementos que a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp – é, mais uma vez, tão potente de possibilidades.

A segunda do festival, aberto na noite de ontem, no auditório Ibirapuera, em São Paulo, com a presença do prefeito Fernando Haddad, de representantes do Ministério da Cultura, do Sesc, do Itaú Cultural e da Oi, traz este ano espetáculos da Rússia, Alemanha, Inglaterra, Ucrânia, Holanda, Itália, Israel, Colômbia e Brasil.

Matando o tempo. Foto: Juan Carlos Mazo

Matando o tempo. Foto: Juan Carlos Mazo

Antônio Araújo, diretor do Teatro da Vertigem, e Guilherme Marques, diretor geral do CIT-Ecum (Centro Internacional de Teatro Ecum) pensaram uma programação a partir da ideia de conflito, inclusive territorial. O espetáculo israelense Arquivo, por exemplo, com direção e autoria de Arkadi Zaides, usa imagens projetadas do arquivo do Centro de Informação Israelense pelos Direitos Humanos nos territórios ocupados. Voluntários palestinos que vivem na Cisjordânia receberam câmeras para gravar o dia a dia na ocupação.

As montagens geralmente também apresentam radicalidades com relação à encenação. Stifters Dinge, da Alemanha, direção de Heiner Goebbels, propõe uma performance sem atores, “uma instalação sonora e imagética que experimenta o cruzamento das artes visuais com a música erudita contemporânea”, diz o material do programa da MIT.

Stifters Dinge. Foto: Mario del Curto

Stifters Dinge. Foto: Mario del Curto

O festival traz ainda a sua primeira coprodução: o espetáculo Canção de muito longe, da Holanda, com direção de Ivo van Hove, que estreia no Brasil. Na montagem, “um jovem banqueiro retorna de Nova York para sua cidade natal, Amsterdã, para assistir ao funeral do seu irmão mais novo”, antecipa o programa.

As atividades de debate e formação incluem, por exemplo, uma ação intitulada Diálogos Transversais, que traz nomes geralmente de outros campos do conhecimento que não as artes cênicas, para discutirem os espetáculos logo após a apresentação. Para exemplificar, José Miguel Wisnik vai tratar de Canção de muito longe; Raquel Rolnik de Julia, espetáculo de Christiane Jatahy, e Bernardo Carvalho, de Arquivo.

Canção de muito longe

Canção de muito longe

Uma das mesas de discussão mais esperadas acontece no dia 15, às 11h, no Itaú Cultural, com Josete Féral, José Antonio Sánchez, Kil Abreu e Luiz Fernando Ramos.

Crítica

O Satisfeita, Yolanda? participa mais uma vez da MITsp como integrante do coletivo DocumentaCena, formado ainda pelos espaços virtuais Teatrojornal, Questão de crítica e Horizonte da Cena. Ao DocumentaCena, juntam-se outros críticos convidados – Beth Néspoli, Daniel Schenker, Michel Fernandes, Ruy Filho e Wellington Andrade – para que todos os espetáculos possam ter pelo menos três apreciações críticas. Os textos vão circular em publicações impressas nos próprios teatros e serão postados também no blog Olhares críticos, dentro do site da MITsp. Os textos dos integrantes do coletivo DocumentaCena serão publicados também aqui no Satisfeita, Yolanda?.

Oficina DocumentaCena

O DocumentaCena propôs também uma laboratório de crítica de teatro, que será realizado dias 11 e 12 de março, das 10h às 14h, no Centro de Pesquisa e Formação, no Sesc SP. O encontro pretende debater questões inerentes à crítica teatral, desde um recorte histórico sobre a crítica no Brasil, até a relação com outras artes, as especificidades da crítica jornalística e acadêmica e o local do espectador diante da crítica. As inscrições para a oficina estão abertas e podem ser feitas através do e-mail inscricoes@mitsp.org .

Confira a programação da MIT no site da mostra.

E se elas fossem para Moscou? Foto: Aline Macedo

E se elas fossem para Moscou? Foto: Aline Macedo

Janeiro faz festa para as artes cênicas

O Som na Rural, de Roger de Renor, vai animar a premiação

O Som na Rural, de Roger de Renor, vai animar a premiação

image Prêmios projetam e dão credibilidade e o cinema tira muito proveito desse mecanismo. Um filme que ganha destaque em Um festival de peso desperta o desejo do público, e, em consequência, rentabilidade financeira. Já faz um tempo que o teatro brasileiro diminuiu essa prática de entregar troféus. E nunca chegou próximo do glamour da sétima arte. Mas pode ter seu charme. O Janeiro de Grandes Espetáculos é um dos poucos no país, e o mais importante em Pernambuco, que distribui estatuetas.

Chegou o dia. A Associação Produtores Artes Cênicas de Pernambuco entrega nesta quarta-feira o Prêmio Apacepe de Teatro e Dança aos melhores do 21º Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival Internacional de Artes Cênicas de Pernambuco.

É o Oscar do teatro pernambucano. A cerimônia será a partir das 20h, na rua em frente à Galeria Café Castro Alves (Rua do Lima, 280, Santo Amaro. O Som na Rural, de Roger de Renor, com apresentação do ator Arilson Lopes garante a animação, com várias homenagens e distribuição de troféus. Após a premiação, a festa de confraternização, ocorre no Castro Alves, com discotecagem de Carlinhos Harmed. A entrada é franca.

As comissões que escolheram os vencedores é formada por Moisés Neto, Antônio Rodrigues e Ana Elizabeth Japiá, para o teatro para infância e juventude. Flávia Pinheiro, Marcia Rocha e Daniela Santos selecionaram os ganhadores de dança. E Luiz Felipe Botelho, Paulo Michelotto e Breno Fittipalfi são os responsáveis pelos nomes do teatro adulto.

INDICADOS – TEATRO ADULTO

Melhor Maquiagem
Não houve indicação

Melhor Figurino
Agrinez Melo (Ombela)
Aníbal Santiago e Manuel Carlos (Doroteia)
Fabiana Pirro (A Dona da História)
Marcondes Lima (A Mandrágora)
Pedro Gilberto (Tapioca)

Ombela. Foto: Thaís Lima

Ombela. Foto: Thaís Lima

Melhor Cenário
Nara Menezes e Luciana Lyra (Cara da Mãe)
Dóris Rollemberg (Doroteia)
Fernando Melo da Costa (Rei Lear)
Nara Menezes (Obscena)
Pedro Gilberto (Tapioca)
Samuel Santos (Ombela)

Cara da mãe. Foto: Giovanni Chamberlain

Cara da mãe. Foto: Giovanni Chamberlain

Melhor Sonoplastia/Trilha sonora
Alexandre Lemos e João Arruda (Gaiola de Moscas)
Beto Lemos (A Dona da História)
Ricardo Brazileiro (Obscena)
Samuel Lira (A Mandrágora)
Sônia Guimarães (Tapioca)
Tomás Brandão e Miguel Mendes (Rei Lear)

Rei Lear. Foto: Guga Melgar

Rei Lear. Foto: Guga Melgar

Melhor Iluminação
Aurélio di Simoni (Rei Lear)
Ednilson Leite (Frei Molambo)
Játhyles Miranda (A Mandrágora)
Luciana Raposo (A Dona da História)
Luciana Raposo (Doroteia)

A dona da história. Foto: Pollyanna Diniz

A dona da história. Foto: Pollyanna Diniz

Ator Revelação
Houve apenas uma indicação

Atriz Revelação
Houve apenas uma indicação

Melhor Ator Coadjuvante
Eduardo Albergaria (Gaiola de Moscas)
Mário Miranda (A Mandrágora)
Mauro Monezi (Doroteia)
Múcio Eduardo (A Mandrágora)
Normando Roberto Santos (A Mandrágora)

Doroteia. Foto: Laryssa Moura

Doroteia. Foto: Laryssa Moura

Melhor Atriz Coadjuvante
Não houve indicação

Melhor Ator
Bóris Trindade Jr./Borica (Tapioca)
Carlos Lira (Doroteia)
Lineu Gabriel (Gaiola de Moscas)
Naldo Venâncio (Frei Molambo)
Tiago Gondim (A Mandrágora)

Melhor Atriz
Bruna Castiel (Rei Lear)
Lívia Falcão (A Dona da História)
Naná Sodré (A Receita)
Paula de Renor (Rei Lear)
Sandra Possani (Rei Lear)

Naná Sodré, em A Receita. Foto: Ivana Moura

Naná Sodré, em A Receita. Foto: Ivana Moura

Melhor Direção
Ana Cristina Colla (Gaiola de Moscas)
Antonio Cadengue (Doroteia)
Duda Maia (A Dona da História)
Marcondes Lima (A Mandrágora)
Moacir Chaves (Rei Lear)

Melhor Espetáculo Teatro Adulto
A Dona da História (Duas Companhias)
A Mandrágora (Galharufas Produções)
Doroteia (Antonio Cadengue e Companhia Teatro de Seraphim)
Gaiola de Moscas (Grupo Peleja)
Rei Lear (Remo Produções Artísticas e Centro de Diversidade Cultural Teatro Armazém)

A Mandrágora , de Galharufas Produções. Foto: Ivana Moura

A Mandrágora , de Galharufas Produções. Foto: Ivana Moura

*A comissão deseja conceder três (3) prêmios especiais.

INDICADOS – DANÇA

Melhor Figurino
Beth Gaudêncio (Três Mulheres e Um Bordado de Sol)
Carol Monteiro (Breguetu)
Maria Agrelli (Cara da Mãe)
Maria Agrelli (Rio de Contas)

Rio de Contas. Foto: Lizandra Martins.

Rio de Contas. Foto: Lizandra Martins.

Melhor Cenografia
Henrique Celibi (Breguetu)
Nara Menezes (Cara da Mãe)
Tonlin Cheng (PEBA)

Melhor Iluminação
Beto Trindade (Breguetu)
Eron Villar (Três Mulheres e Um Bordado de Sol)
Luciana Raposo (Rio de Contas)
Natalie Revorêdo (Elégùn, Um Corpo Em Trânsito)
Tonlin Cheng (PEBA)

Melhor Sonoplastia/Trilha sonora
Caio Lima (Elégùn, Um Corpo Em Trânsito)
Isaar França (Cara da Mãe)
Sônia Guimarães (Rio de Contas)
Tonlin Cheng (PEBA)
Valéria Vicente, Flaira Ferro, Spok e Lucas dos Prazeres (Frevo de Casa)

Frevo de casa. Ju Brainer.

Frevo de casa. Ju Brainer.


Melhor Bailarino
Saulo Uchôa (Anticorpo)
Alexandre Santos (Rio de Contas)
André Vítor Brandão (Rio de Contas)
Giordani de Souza/Kiran (Elégùn, Um Corpo Em Trânsito)
Jorge Kildery (Breguetu)
Jorge Kildery (Elégùn, Um Corpo Em Trânsito)
Anticorpo. Foto: Chico-Ludermir

Anticorpo. Foto: Chico-Ludermir

Melhor Bailarina
Flaira Ferro (Frevo de Casa)
Iara Sales (PEBA)
Júlia Gondim (Rio de Contas)
Marcela Felipe (Três Mulheres e Um Bordado de Sol)
Mary Ane Nascimento (Rio de Contas)
Rafaella Trindade (Breguetu)

Melhor Coreografia
Giordani de Souza/Kiran (Elégùn, Um Corpo Em Trânsito)
Iara Sales e Sérgio Andrade (PEBA)
Jailson Lima (Rio de Contas)
Mônica Lira (Breguetu)
Valéria Vicente e Flaira Ferro (Frevo de Casa)

bregaetu. Foto: Sobrado423/Rogerio Alves

bregaetu. Foto: Sobrado423/Rogerio Alves

Melhor Espetáculo de Dança
Breguetu (Grupo Experimental)
Elégùn, Um Corpo Em Trânsito (Giordani de Souza/Kiran e Jorge Kildery)
Frevo de Casa (Valéria Vicente, Flaira Ferro, Spok e Lucas dos Prazeres)
PEBA (Iara Sales, Tonlin Cheng e Sérgio Andrade)

Elégùn, Um Corpo Em Trânsito.  Foto: Ivana Moura

Elégùn, Um Corpo Em Trânsito. Foto: Ivana Moura

**A comissão deseja conceder dois (2) prêmios especiais.

NDICADOS – TEATRO PARA A INFÂNCIA

Melhor Maquiagem
Centro de Criação Galpão das Artes (Mané Gostoso)
Lano de Lins (A Energia de Um Polegar)
Marcondes Lima (Haru – A Primavera do Aprendiz)

Mané Gostoso. Foto: Helder Santana

Mané Gostoso. Foto: Helder Santana

Melhor Figurino
Claudio Lira (Como a Lua)
Enne Marx, Tâmara Floriano e Fernando Escrich (Trueque)
Joana Gatis (As Travessuras de Mané Gostoso)
Marcondes Lima (Haru – A Primavera do Aprendiz)

Melhor Cenário
Marcondes Lima (Haru – A Primavera do Aprendiz)
Rai Bento (As Travessuras de Mané Gostoso)

Haru - A Primavera do Aprendiz. foto: Silvio Barreto

Haru – A Primavera do Aprendiz. foto: Silvio Barreto

Melhor Sonoplastia/Trilha Sonora
Fernando Escrich (As Travessuras de Mané Gostoso)
Fernando Escrich (Trueque)
Marcelo Sena (Haru – A Primavera do Aprendiz)
Samuel Lira (Como a Lua)

Trueque. Foto: reprodução Facebook

Trueque. Foto: reprodução Facebook

Melhor Iluminação
Eron Villar (Haru – A Primavera do Aprendiz)
Luciana Raposo (As Travessuras de Mané Gostoso)
Luciana Raposo (Trueque)

Ator revelação
Houve apenas uma indicação

Atriz revelação
Não houve indicação

Melhor Ator Coadjuvante
Jadenilson Gomes (Mané Gostoso)
Pascoal Filizola (Como a Lua)
Tarcísio Queiroz (Mané Gostoso)
Tiago Gondim (Como a Lua)

Melhor Atriz Coadjuvante
Geysa Barlavento (Como a Lua)
Sandra Rino (Como a Lua)

Melhor Ator
Arilson Lopes (As Travessuras de Mané Gostoso)
Charlon Cabral (Mané Gostoso)
Luciano Pontes (As Travessuras de Mané Gostoso)

As travessuras de Mané Gostoso. Foto: Rogério Alves

As travessuras de Mané Gostoso. Foto: Rogério Alves

Melhor Atriz
Enne Marx (Trueque)
Tâmara Floriano (Trueque)

Melhor Direção
Fernando Escrich (As Travessuras de Mané Gostoso)
Fernando Escrich (Trueque)
José Manoel Sobrinho (Como a Lua)
Marcondes Lima (Haru – A Primavera do Aprendiz)

Melhor Espetáculo de Teatro Para a Infância
Haru – A Primavera do Aprendiz (Rapha Santacruz Produções Artísticas)
Trueque (Cia. Animée/As Levianas)
As Travessuras de Mané Gostoso (Cia. Meias Palavras)
Como a Lua (Mambembe Produções Artísticas)

Como a Lua. Foto: Divulgação

Como a Lua. Foto: Divulgação

***A comissão deseja conceder um (01) prêmio especial.

Encontro com Hilda Hilst

Fabiana Pirro estreou primeiro monólogo. Foto: Renata Pires

Fabiana Pirro estreou primeiro monólogo. Foto: Renata Pires

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A peça teatral contraria o seu próprio título e é pouco pornofônica, lasciva, desbocada, devassa, libidinosa, indecente, despudorada, escandalosa. Outro jeito de ser Hilda Hilst. A obra da criadora paulista é rica e ampla, escapa de rótulos. Seus textos estão além, porque ela é múltipla. É certo que a fase mais popular de escritura de Hilda é de conteúdo deliberadamente erótico e pornográfico. Mas a encenação cria deslocamentos e lembra que a palavra “Obscena” também remete para aquilo que está fora da cena.

O espetáculo agrega trechos dos escritos e de entrevistas de Hilst, rasgos de memória e dos estudos da atriz Fabiana Pirro e de Luciana Lyra (atriz, diretora e dramaturga pernambucana radicada em São Paulo, que assina a dramaturgia e encenação) para criar sua poética cênica.

Os questionamentos íntimos da intérprete vão buscar ressonância na elaboração criativa da escritora, que articula um eixo propagador de invenção no teatro – e através do teatro. É assim que a relação com os homens de sua vida, principalmente o pai, passa por ajustamento ficcional e friccional da composição de personagens de teatro, que estabelecem diálogos e buscam respostas.

Na cena, as complexas relações com Deus, com o pai, com a natureza, com os animais são apresentadas em camadas. A personagem Líria, uma mulher de mais de 40 anos, investiga desejos e lacunas; revezando com a figura da própria Fabiana, que dá espaço para a voz narrativa da atriz em solilóquio ou em diálogos com interlocutores fictícios.

A representação de uma árvore assume as forças divinas e da natureza, de extrema importância para o desenvolvimento da encenação, seja como cenografia ou elemento articulador do discurso.

No espetáculo, Fabiana Pirro vive Líria

No espetáculo, Fabiana Pirro vive Líria

Obscena é o primeiro solo de Fabiana Pirro e costura sentimentos. É um espetáculo de desenho bonito no palco, palavras fortes. A montagem apresenta uma intérprete que se jogou de cabeça nesse projeto. Que faz reluzir desejos, vindos da experiência. Que cresceu como atriz. A montagem deve amadurecer. Mas já nasceu bonita.

A expressividade da atriz ainda pede uma modulação mais definida do seu repertório vocal que, em muitos momentos, está impregnada das vozes de espetáculos anteriores. Não vejo acréscimo nos breves momentos de nudez e isso me fez lembrar um show de Gal Costa dirigido por Gerald Thomas, em que a cantora aparecia de peitos à mostra.

As sutilezas também podem ser intensificadas com uma possível temporada e o azeitamento do espetáculo. A poesia inundou a equipe de criação, mas a emoção, a intensidade, o que arde de misto de loucura e invenção, amor e desejo são comportas que não foram liberadas totalmente para atingir o público nas duas sessões.

Obscena foi apresentada no Teatro Marco Camarotti, como parte da programação do Janeiro de Grandes Espetáculos.

Montagem tem direção e dramaturgia de Luciana Lyra

Montagem tem direção e dramaturgia de Luciana Lyra

Ficha técnica:

Idealização do projeto e atriz-criadora – Fabiana Pirro
Dramaturgia, encenação e direção – Luciana Lyra
Trilha sonora – Ricardo Brazileiro
Preparação corporal – Silvia Góes
Direção de arte – Nara Menezes
Design de luz – Agrinez Melo
Operação de luz – Leo Ferrario
Figurino – Virgínia Falcão
Colaboração artística – Conrado Falbo
Produção – Fabiana Pirro e Lorena Nanes
Filmografia – Ernesto Filho e Renata Pires
Design gráfico – Tito França
Fotos – Renata Pires
Realização – Duas Companhias, Unaluna e Coletivo Lugar Comum

Tempo subvertido

Materia prima, do grupo madrilenho La Tristura

Materia prima, do grupo madrilenho La Tristura

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Quatro crianças desafiam o público com explanações filosóficas sobre o amor, o futuro, questionamentos da existência na peça Materia prima. Essas palavras profundas vindas de bocas tão inexperientes clamam por outras chaves de interpretação. Subversão de lógica nesses discursos contaminados de histórias de vida vindas de seres imaturos.

Há rupturas das convenções teatrais. Muitas coisas escapam nessas falas impregnadas de nostalgia que não são deles, mas dos adultos da companhia espanhola La Tristura. O elenco mirim é atravessado pelo tempo, pelo devir e isso é projetado sobre a plateia. Instaura-se um clima de desconforto.

Crianças  apresentam discurso de adulto

Crianças apresentam discurso de adulto

Intrigante. Teatro que provoca posições divergentes. Dissenso. “Eu odiei. Teatro tem que ter ator. E eles não interpretam. São apenas jovens”, dizia um. “Falta criatividade. O diretor poderia ter explorado de forma inventiva aqueles corpos jovens, verdes”, dizia outro. “Achei uma chatice”, comentava um terceiro. “Eu gostei. Da juventude e como ela é apresentada. Das músicas. A gente sai pensando”.

Isso ocorreu em outras praças, a plateia dividida. Em edições anteriores do FIT-BH, Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, Festival Internacional de Londrina (Filo).

O espetáculo Materia Prima teve duas apresentações no Janeiro de Grandes Espetáculos. O grupo La Tristura apresenta ainda El Sur de Europa – Dias de amor dificíles, neste sábado (31), em duas sessões, às 18h30 e às 21h30, no Teatro Luiz Mendonça.

Teatro contemporâneo – O grupo La Tristura coloca em cena quatro garotos (duas meninas e dois meninos), 13 anos em média, e lindos. A encenação encerra a chamada Trilogía de la Educación Sentimental e os pequenos atuadores entraram quando tinham entre 9 e 10 anos. Os criadores adultos defendem que a peça faz parte de um estudo sobre herança, educação e futuro.

Começa com o palco limpo. Apenas uma cama de casal do lado direito. Um garoto sem camisa entra e deita no chão de costa para a plateia. Divagações sobre o amor, a duração, intensidade, a vida e o tempo são elencados com a tradução projetada no meio da cena. Parece que há um abismo entre as palavras ditas e aquele jovem imberbe deitado ali. São reflexões adultas, de experiências vividas. Mas o texto também está carregado por inocência da fase infantil. É um tempo atravessado e carregado de significados e deslocamentos de épocas de vida.

Isso atinge em cheio a não convocada verossimilhança e a performance atinge outro patamar. Isso gera mal-estar nos estatutos de verdades e planos lineares. Depois dessas reflexões pesadas, outros três garotos entram em cena. O primeiro e carregado para a cama, onde todos deitam e mais elucubrações são disparadas.

Em cena, os garotos  brincam como crianças

Em cena, os garotos brincam como crianças

Materia Prima não conta uma história. O La Tristura prima pela experimentação. Ginebra Ferreira, Gonzalo Herrero, Siro Ouro e Candela Recio se distanciam do realismo, flertam com a performance, e patinam em possibilidades interpretativas. Melhor não classificá-los como atores ou intérpretes no sentido mais convencional. São corpos em expansão.

Eles jogam bola, tomam banho de tinta, escorregam no palco. Brincam como crianças. Mas o discurso é que cria atritos, atira contra fórmulas prontas. Meninos discorrem sobre utopias, morte, culpa, sonhos, maldade. O contraste entre forma e conteúdo cria uma explosão. Mudanças de perspectiva.

Dos marcos de um dia – de amanhecer ao anoitecer – Materia Prima traça uma metáfora do ciclo da vida. E isso também faz lembrar Virgínia Wolff. “O que haverá depois de uma noite? Um dia. O que haverá depois de um amor? Outro amor”, diz uma das partes do texto.

Itsaso Arana, Pablo Fidalgo, Violeta Gil e Celso Giménez, os integrantes do La Tristura, assinam a direção. A iluminação é de Eduardo Vizuete. E a trilha original de Merran Laginestra.

E o texto é lindo, poético, namora bem com a música, que ressalta as emoções da dramaturgia. A trupe cria um mundo próprio.

FICHA TÉCNICA
Materia Prima, do grupo espanhol La Tristura
Texto: Itsaso Arana, Pablo Fidalgo, Violeta Gil e Celso Giménez
Elenco: Ginebra Ferreira, Gonzalo Herrero, Irene Paniagua Bolaños e Siro Ouro
Design de Luz e Coordenação Técnica: Eduardo Vizuete
Assistente Técnico: Ana Muñiz
Assistente de Direção: David Mallols
Música Original: Merran Laginestra
La Tristura: Celso Giménez, Itsaso Arana e Violeta Gil

Cada um carrega sua dor

Marcelo Oliveira faz um personagem que briga com formigas. Fotos: Ivana Moura

Marcelo Oliveira faz um personagem que briga com formigas. Fotos: Ivana Moura

image Deixa ser eu. O título é muito sugestivo e convoca tantas subjetividades. Obra imagética. Vem com uma torrente de desejos e revela camadas de dores, amor, apego, violência, abandono. O espetáculo ocupa a casa 300 da Rua da Glória, no bairro dos Coelhos, a residência do ator e diretor Jorge Clésio. O lugar aceita as inquietações dos artistas Marcelo Oliveira, Wagner Montenegro e Greyce Braga. São três histórias principais, três respiros e um epílogo. E faz parte da Mostra Teatro em Casa.

A primeira cena se passa em off, enquanto as três vozes discutem sobre proibições e usam respostas da linguagem de rua (ou chulas, a depender dos ouvido de quem tem) para contrapor os interditos sociais. É uma dinâmica interessante. O público ajeitado na primeira sala, com as portes e janelas abertas, mas com grades como proteções, escuta, às vezes ri. Paira uma tensão cênica no ar.

Um homem solitário vive a matar formigas enquanto fala da sua experiência insana de prosseguir vivo diante da ausência de um irmão / amigo / amado que que foi assassinado. Marcelo Oliveira interpreta na segunda cena (a primeira história) essa criatura fragilizada, que enfrenta um exército de formigas, enquanto expõe sua aflição. Ele está sentado na cama e a plateia espalhada pela sala nas cadeiras e pelo chão. A dramaturgia clama por trabalhar melhor a poética desse ser em pedaços que fala de doces para os insetos enquanto sua vida é muito amarga. Há momentos de força, de construções tocantes (frases, imagens e tempos), mas que se desmancha muito rapidamente pela questão da dramaturgia.

Greyce Braga como a crítica de teatro.

Greyce Braga como a crítica de teatro.


O segundo respiro é mais engraçado. Greyce Braga caricatura uma repórter / crítica de um jornal / blog. E como é fácil satirizar esses seres em extinção que se dediquem ao ofício da crítica de teatro!!! É divertido o seu diálogo com o público, a inteiração com a cena local e sua desenvoltura salientando a pressa, a falta de paciência e um olhar obtuso sobre seu objeto de análise. Engraçado.

Violência doméstica

Violência doméstica


“Estava trabalhando” repete a mulher para o marido várias vezes ao voltar para casa. A assistência já havia sido deslocada para outra sala. E acompanha ávida o que em princípio é uma cena quente de dois amantes. Eles se deslocam para o quarto enquanto ouvimos os sons de violência doméstica. Um respiro tenso, terrível se pensarmos que essas coisas estão mais próximas da realidade do que da ficção.

Wagner Montenegro como o travesti Jacinta

Wagner Montenegro como o travesti Jacinta


Jacinta (Wagner Montenegro), a protagonista da segunda história é um travesti que trabalha na Boa Vista, tem um romance com um padre e conta detalhes sórdidos de seus encontros com homens casados. Narra que faz tudo por dinheiro e finge gozar, mas se contradiz revelando o desejo por uma relação afetiva em outros termos. Sonha em ser atriz de Hollywood. O ator narra as desventuras de suas personagem, mas delimita seu espaço de atuação em um pequeno espaço entre o espelho e o vão da porta. Precisa destacar mais as nuances dessa figura, para tirar o peso do clichê que ronda esse papel social. É uma personagem facilmente reconhecível.

É ótima a atuação de Greyce Braga

É ótima a atuação de Greyce Braga


Iracema tomou como missão ensinar aos noivos da Igreja da Soledade como cuidar de flores. A crueza dessa personagem é despetalada com a narração de sua história, do marido, dos aprisionamentos, do lado dos espinhos das flores. A atuação de Greyce Braga é comovente. Extrai a delicadeza de uma tarefa preservada no trato dessa mulher que foi oprimida, castigada e inventa outros parâmetros para sobreviver.

Tocantes são esses gritos, apelos, pedidos de socorro desses personagens, que situados no Bairro da Boa Vista/ Coelhos se mostram nossos vizinhos, que ignoramos. Mas a intimidade deles está exposta ali, para esse pequeno grupo – que é a plateia – acompanhar e refletir sobre a crueza desses dias que correm tão solitários. A fluidez com que as cenas são organizadas no casarão também leva para ressignificações do nosso convívio social e a falta de humanidade que deixamos escapar nas pequenas coisas.

Eles, os personagens, podem ser qualquer um. E o elenco trabalha nesse campo sensorial, na proximidade. E o espectador pode sentir a respiração do intérprete e suas pulsações. E isso é algo especial.

Ficha técnica
Texto e Direção: Marcelo Oliveira
Elenco: Greyce Braga, Marcelo Oliveira e Wagner Montenegro
Direção de arte: Greyce Braga, Marcelo Oliveira e Wagner Montenegro
Realização: Hazzô

SERVIÇO
Deixa ser eu, de Hazzô
Quando: Segunda (26) e terça (27), às 20h
Onde: Casa Outrora – Rua da Glória, 300, Boa Vista
Ingresso: R$ 20 e R$ 10