Crimes contra a cidade

Quase nada, um drama psicológico remete ao tônus épico da metrópole

Quase nada, um drama psicológico remete ao tônus épico da metrópole

Quase nada. O título da peça já convoca para a banalidade de algo sem importância. O fato “irrelevante” no caso é o assassinato de um menino de rua no semáforo de uma grande cidade. Um casal de classe média alta foi abordado, se assustou com a presença do garoto e o marido atirou à queima-roupa. O pivete morreu e foi largado no asfalto. Alguns jornais noticiam esse tipo de crime, mas nem sempre são apontados os culpados. A violência tornou-se tão corriqueira que a dor da perda e o valor da vida caíram de cotação no imaginário do brasileiro, principalmente quando o alvo são esses seres invisíveis.

O texto do dramaturgo cearense Marcos Barbosa é de 2002 (ele tinha 20 e pouco anos quando criou a peça) e já foi encenado em Londres, Itália, EUA, São Paulo e Bahia. A montagem que participa da 10ª edição de Teatro de Fortaleza é assinada por Altemar di Monteiro, com o grupo Nóis de Teatro.

A primeira apresentação dentro do festival foi no sábado, no Cuca Barra; e a segunda será no Centro Cultural Banco do Nordeste, na quinta-feira (27/11), às 19h.

Personagens sofrem com o crime cometido, mas não o suficiente para pagar por ele

Personagens sofrem com o crime cometido, mas não o suficiente para pagar por ele

Para discutir a violência urbana a montagem mostra uma intricada conexão com a impunidade, a consciência individual e a falta de senso de coletividade. E ainda traz ideias de superioridade baseada no poderio econômico, desrespeito às leis e negação de cidadania. Todo esse arcabouço poderia cair num panfletário social. Mas a montagem, apesar de apregoar toda a questão política, vai por outro caminho. Percorre a trilha psicológica.

Os personagens estão metidos em espaços claustrofóbicos, que alimentam o sentido dos diálogos. As frases curtas e os silêncios ecoam. Os atores se encarregam de modificar o cenário formado basicamente por módulos de persianas que delimitam o espaço.

Temos três posições nesse drama. O casal amedrontado em ser descoberto; uma mulher que diz ter presenciado o homicídio e é supostamente a mãe da vítima que aceita dinheiro para ficar calada e um pistoleiro profissional que se oferece para apagar as pistas do crime.

Compra-se consciência, passa-se por cima das leis ou de convenções sociais.

O espaço público é negado como lugar democrático e se mostra um território perigoso. Mas isso é exibido a partir do ambiente doméstico, de cômodos do apartamento em que o público também exerce esse olhar indiscreto, acusador. A apresentação ocorreu no palco do Teatro Cuca Che Guevara (Cuca Barra, um dos Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte que funcionam na periferia de Fortaleza), com a plateia em volta da cena. Isso contribui para criar um clima intimista.

Cena de ameaças e chantagem entre o casal e a suposta mãe do garoto assassinado

Cena de ameaças e chantagem entre o casal e a suposta mãe do garoto assassinado

O espetáculo Quase nada abre e fecha com um vídeo. Antônio e Sara na madrugada. O tiro. Com medo da marginalidade, o marido comete um crime. E abandona o corpo. E eles aparecem em casa. A opressão da violência urbana se volta por algum tempo contra os autores em forma de depressão.

A atmosfera é dos filmes noir, uma guerra de nervos. A direção utiliza desse clima claustrofóbico para situar o estado de penúria psicológica do casal. Tudo é uma ameaça. Inclusive a relação dos dois.

Eles se estranham. Não se reconhecem. A violência cometida detona algo dentro deles. A peça está dividida em três movimentos. Nesse primeiro momento os dois tentam aceitar a situação. A pouca iluminação contribui para o clima opressivo. Dois outros dois atores leem rubricas ao microfone e complementam falas, grunhidos.

Há uma ligação com roteiro de cinema e plano-sequência. Há silêncios secos ou amplificados. Desconfortantes, que intercalam as falas dos personagens. Houve um crime. Há um autor que não deseja pagar por seus atos. A sociedade está anestesiada. E o casal busca assegurar o lugar de conforto e segurança.

Para falar de uma cidade em crise, do tônus épico, a montagem investe no miudinho da relação interpessoal.

O jogo cênico é bastante intrigante enquanto possiblidade de levantar a dúvida. Os atores Edna Freire, Magno Carvalho, Kelly Enne Saldanha e Henrique Gonzaga defendem com garra os papeis. De marido e esposa que passam por um turbilhão de emoções, mas se agarram à impunidade do crime cometido para seguir a vida. Da provável mãe do garoto que comete a chantagem e tem pouca articulação verbal. E do pistoleiro mestre da intimidação. O elenco é jovem e trabalha com desenvoltura seus personagens. Talvez falte um pouco mais de repertório gestual e vocal para verticalizar em densidade das questões. Mas o que apresentam já é de grande valia, com os recursos metalinguísticos estruturados a partir do uso das rubricas do autor.

Um espetáculo que ajuda a pensar no jogo de aparências, do ambiente familiar que esconde ações puníveis. E da responsabilidade ética de cada um com seu território urbano.

Boas atuações dos jovens atores do Nóis de Teatro, de Fortaleza

Boas atuações dos jovens atores do Nóis de Teatro, de Fortaleza


Serviço
Quase nada
Nóis de Teatro
Direção: Altemar di Monteiro
Texto: Marcos Barbosa
Elenco: Edna Freire, Magno Carvalho, Kelly Enne Saldanha e Henrique Gonzaga
Quando: dia 27/11/14, às 19h
Onde: Centro Cultural Banco do Nordeste

Para que serve a consciência de Till

Inês Peixoto (centro) interpreta Till com graça e humor. Foto: Ivana Moura

Inês Peixoto (centro) interpreta Till com graça e humor. Foto: Ivana Moura

Já fazia dias, semanas até, que não caia uma gota de chuva em Fortaleza. Mas ontem durante a apresentação do espetáculo Till, a saga de um herói torto choveu o suficiente para interromper por duas vezes a exibição do grupo Galpão. O que poderia ser um desastre transformou-se num detalhe de congraçamento entre palco e plateia. O público buscou se proteger do aguaceiro colocando cadeiras na cabeça ou fugindo para qualquer abrigo ali por perto. Aquilo parecia provocação de São Pedro, talvez para assegurar o interesse dos espectadores. A plateia ficou por ali, e quando a chuva cessou pediu com palmas ao elenco para que voltasse para concluir a sessão. Foram momentos de comunhão do teatro, em ato encarado pelos presentes com algo precioso. Bonito de ver.

Till, a saga de um herói torto, abriu ontem a 10ª edição Festival de Teatro de Fortaleza (Ceará), ao ar livre no Estoril, na praia de Iracema. É uma montagem do Galpão de tradição mambembe, popular, de rua, fincado na comédia com doses cavalares de reflexões sobre questões contemporâneas – da necessidade de se pensar sobre a exclusão dos que já nascem enjeitados à vontade da ressurreição das utopias para um mundo melhor. A encenação é de 2009, com direção de Júlio Maciel, um dos integrantes do grupo mineiro; e já rodou o mundo. E isso traz a vivência do palco, mas também um desgaste do que poderíamos chamar do frescor do espetáculo. Talvez por isso, o fator surpresa do vento, da chuva, e principalmente da reação do público agregou valor de experiência única à exibição.

O texto de Luís Alberto de Abreu resgata Till Eulenspiegel da cultura popular da Idade Média. Essa figura do folclore alemão conserva parecença com Gargantua e Pantagruel, personagens de François Rabelais (1493-1553), na crítica aos pequenos poderes e na referência ao grotesco e ao escatológico, mas sem a radicalidade do autor francês. A cena em que o anão escafandrista é enfiado dentro da mãe do protagonista para arrancar o preguiçoso Till lá de dentro é “tempero Rabelais”, mas as ações na sequência são suavizadas e suas estripulias o aproximam de João Grilo, do Auto da Compadecida de Ariano Suassuna.

o diabo é sempre sedutor, defendido por Chico Pelúcio

o diabo é sempre sedutor, defendido por Chico Pelúcio

Till nasce de uma aposta entre o Demônio e Deus. O Belzebu joga que o humano é criação falida e que bastaria tirar algumas de suas qualidades para a criatura cair em perdição. Till é a cobaia. O coitado já chega desprovido de qualquer inteligência útil e perde sua Consciência numa negociação com o Demônio.

Nessa peleja entre o Altíssimo e o Diabo, só o segundo aparece. Ele está vestido de vermelho, e porta chifres que acendem. É defendido por Chico Pelúcio com graça e humor. Entra e sai do Inferno com estardalhaço e os efeitos de gelo seco.

As interpretações são propositalmente exageradas, para destacar o teor grotesco das personagens. Inês Peixoto interpreta esse presepeiro encantador, com desenvoltura explorando as facetas de tolo/esperto, poético mas com doses escatológicas.

Os três cegos que peregrinam em busca de Jerusalém. Foto: Ivana Moura

Os três cegos que peregrinam em busca de Jerusalém. Foto: Ivana Moura

Paralelamente ao percurso de Till, na sua luta pela sobrevivência e seus encontros com o diabo; também é mostrada a história de três cegos andarilhos (Alceu, Borromeu e Doroteu) que sonham em chegar à Jerusalém. O elenco trabalha com mais de uma chave interpretativa, incluindo a narração, com quebra da ilusão no interior da cena com a exposição da artesania teatral e da tradição do teatro épico.

O cenário, de Márcio Medina, traz alçapões de onde sai o diabo, deslizam Till ou emerge o anão escafandrista. Isso provoca efeitos que dão ritmo e agilidade na movimentação, que conquistam a plateia. Mas toda a estrutura está fincada na relação frontal.

Da competência do elenco já sabemos, e do domínio da arte da representação. Os atores compõem figuras hilárias, grotescas, mas com algum toque de dignidade. O figurino esfarrapado é de impacto e robustece a ambiência da história, associada à maquiagem pesada.

Com humor a peça investe na necessidade da utopia. E indica quão frágil e pequeno é esse humano formado de corpo, alma e consciência. A ação do trio de cegos capricha nas fissuradas relações humanas com sua disputa por poder, onde cabem dependência, ciúme, inveja e falsa bondade, entre outras coisitas.

Foi uma noite memorável. A saga foi tão bem recebida em Fortaleza que até o Diabo, que teoricamente perdeu a batalha para Deus e teve que devolver a consciência de Till, conseguiu uma voluntária para subir ao palco e conhecer o seu cantinho quente.

Teuda Bara, Mãe de Till

Teuda Bara, Mãe de Till

FICHA TÉCNICA
Elenco

Antonio Edson (Borromeu / Povo / Anão)
Arildo de Barros (Parteira / Juiz / Camponês / Carrasco / Padre / Miserável)
Beto Franco (Parteira / Português / Padre / Camponês / Miserável)
Chico Pelúcio (Demônio / Camponês / Voz do Soldado)
Eduardo Moreira (Doroteu / Povo)
Inês Peixoto (Till)
Lydia Del Picchia (Parteira / Consciência / Cozinheira / Menino)
Simone Ordones (Alceu / Povo)
Teuda Bara (Mãe / Miserável)
Direção: Júlio Maciel
Texto: Luís Alberto de Abreu
Cenografia e Figurino: Márcio Medina
Direção musical – arranjos, adaptações e composições: Ernani Maletta
Preparação corporal para cena: Joaquim Elias
Iluminação: Alexandre Galvão, Wladimir Medeiros
Caracterização: Mona Magalhães
Adereços: Luiza Horta, Marney Heitmann, Raimundo Bento
Sonorização: Alexandre Galvão
Cenotécnica e contra-regragem: Helvécio Izabel
Assistente de figurino: Paulo André
Assistentes de cenografia: Poliana Espírito Santo, Amanda Gomes
Preparação vocal: Babaya
Técnica de Pilates: Waneska Carvalho
Construção do palco: Tecnometal
Ajudante de cenotécnica: Nilson Santos
Costureiras: Taires Scatolin, Idaléia Dias
Fotos: Guto Muniz / Casa da Foto
Projeto gráfico: Lápis Raro
Consultoria de planejamento: Romulo Avelar
Assessoria de planejamento: Ana Amélia Arantes
Assessoria de comunicação: Paula Senna
Estagiários de comunicação: Ana Alyce Ly e João Luis Santos
Consultoria de patrocínio: Mauro Maya
Assistente de produção: Anna Paula Paiva
Produção executiva: Beatriz Radicchi
Direção de produção: Gilma Oliveira
Produção: Grupo Galpão
Patrocínio: Petrobras

Janeiro de Grandes Espetáculos divulga selecionados

A coordenação do Janeiro de Grandes Espetáculos divulgou a lista dos espetáculos pernambucanos selecionados para participar da próxima edição do festival, que será realizada entre 14 e 31 de janeiro de 2015. Outros espetáculos pernambucanos devem integrar a grade do festival, mas como convidados.

Confira:

Teatro Adulto:
A dona da história (Duas Companhias)
Doroteia (Companhia Teatro Seraphim)
Frei Molambo (Naldo Venâncio Produções)
Gaiola de Moscas (Grupo Peleja)
Estreia: A Mandrágora (Galharufas Produções)
Comissão de seleção: Marcelino Dias, Ana Nogueira, Moisés Neto, Paulo de Castro

A dona da história. Foto: Renata Pires

A dona da história. Foto: Renata Pires

Frei Molambo

Frei Molambo

Teatro para infância e juventude:
Como a Lua (Elias Vilar e Mambembe Produções)
Haru – A Primavera do Aprendiz (Rapha Santa Cruz Produções Artísticas)
Trueque (Cia Animée)
Comissão de seleção: Paulo de Castro, Paula de Renor, Carla Valença

Como a lua. Foto: Pedro Portugal

Como a lua. Foto: Pedro Portugal

Trueque. Foto: Renata Pires

Trueque. Foto: Renata Pires

Dança:
Anticorpo (Saulo Uchôa)
- Frevo de Casa (Hudson Wlamir)
Peba (Iara Sales e e Tonlin Cheng)
Rio de Contas (Cia de Dança do Sesc Petrolina)
Estreia: Cara da Mãe (Coletivo Cênico Tenda Vermelha)
Comissão de seleção: Francini Barros, Adriana gueres, Will Robson e Paula de Renor

Anticorpo. Foto: João Paulo Lira

Anticorpo. Foto: João Paulo Lira

Rio de contas

Rio de contas. Foto: Lizandra Martins

Prefeitura discute festivais de teatro e dança

*Atualizada às 17h29

Errata:
A assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura do Recife entrou em contato para esclarecer que a Prefeitura do Recife ainda não voltou atrás na decisão de tornar os festivais bienais. Segundo a assessoria, a reunião foi de escuta; e isso será decidido entre as representações de classe, a Secretaria de Cultura do Recife e a Fundação de Cultura Cidade do Recife. Uma nova reunião está marcada para o dia 9 de dezembro, às 10h. De acordo com algumas pessoas entrevistas pelo blog, o recuo da Prefeitura ficou subentendido pelo decorrer da reunião.

Confira a nota publicada pelo blog:

A Prefeitura do Recife resolveu recuar. Depois de anunciar que o Festival Recife do Teatro Nacional e o Festival Internacional de Dança do Recife seriam bienais, realizados de forma intercalada, sem que a sociedade civil e a classe artística fossem ouvidas, a decisão foi revista.

Leda Alves, secretária de Cultura do Recife, e o presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, Diego Rocha, tiveram uma reunião na manhã de ontem (10), no gabinete da secretária, no prédio da Prefeitura, com representantes da Associação de Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe), da Federação de Teatro de Pernambuco (Feteape), do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão no Estado de Pernambuco (Sated), da Associação de Realizadores de Teatro de Pernambuco (Artepe) e do Movimento Dança Recife.

De acordo com informações, Leda Alves teria pedido desculpas à classe artística por anunciar que os festivais seriam bineais sem nenhuma discussão pública prévia. Mesmo com o recuo, não haveria recursos e tempo hábil para realizar a edição 2014 do Festival Nacional. A promessa é de que novas reuniões devem ser realizadas mensalmente entre os sindicatos e a Prefeitura do Recife.

Leda Alves pediu desculpas à classe artística. Foto: Ivana Moura

Leda Alves pediu desculpas à classe artística. Foto: Ivana Moura

Militância na gestão pública

Romildo Moreira, chefe da Divisão de Artes Cênicas da Fundação de Cultura Cidade do Recife

Romildo Moreira, chefe da Divisão de Artes Cênicas da Fundação de Cultura Cidade do Recife

O nome dele está vinculado a ações significativas no teatro pernambucano. Idealizou o Janeiro de Grandes Espetáculos, o Festival Recife do Teatro Nacional, o Circuito Pernambucano de Artes Cênicas, realizado entre 2001 e 2006, participou da criação do Centro Apolo-Hermilo, lutou pela climatização do Teatro do Parque e pela reforma do Teatro de Santa Isabel. Como gestor, o dramaturgo, diretor e ator Romildo Moreira já passou pela Prefeitura do Recife, pelo Governo do Estado de Pernambuco, pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria da Cultura do Governo do Distrito Federal.

Atualmente, Romildo Moreira é o chefe da divisão de Artes Cênicas, na Fundação de Cultura Cidade do Recife. Por ironia, recentemente viu seus superiores tomarem a decisão de cancelar a edição 2014 do Festival Recife do Teatro Nacional e ainda de torná-lo bienal, sendo realizado alternadamente com o Festival Internacional de Dança do Recife, evento que hoje está sob a responsabilidade de Moreira e que foi realizado no mês passado com apenas R$ 200 mil de desembolso da Prefeitura do Recife. O restante, R$ 450 mil, veio de parcerias construídas pelo gestor e por sua equipe.

Em entrevista ao Satisfeita, Yolanda?, Romildo Moreira diz que não foi consultado sobre as mudanças nos festivais, admite que a Prefeitura do Recife possui um déficit de atuação na área da cultura, mas se diz motivado a continuar militando na atual gestão. A entrevista foi concedida ao blog na semana passada.

ENTREVISTA // ROMILDO MOREIRA

O que você achou do cancelamento do festival deste ano e da transformação do festival em bienal? Como você, enquanto gestor que criou o festival, enxerga isso?
Não dá para separar o artista Romildo Moreira, que esteve na gestão que criou o festival e que coordenou três edições, do atual gestor, que voltou para a Fundação de Cultura, 13 anos depois. Acho que é lamentável. Depois de tanto tempo que o festival se mantém como projeto anual, que ele tenha essa interrupção. Já tive uma experiência parecida: no terceiro ano consecutivo do festival, a gente optou por não torná-lo bienal, quando surgiu essa proposta, porque nós estávamos com pouca verba e tínhamos o compromisso com o Ministério da Cultura para a reforma do Teatro de Santa Isabel. O festival era o único recurso disponível na prefeitura até então para a área das artes cênicas. Então nós nos reunimos com as entidades, chamamos algumas pessoas notórias das artes cênicas, eu lembro bem, Germano Haiut, Reinaldo de Oliveira, discutimos essa proposta e vimos que não seria a melhor opção. Uma das discussões que a gente levantava era: havendo uma crise por algum motivo, no ano em que ele seria executado, o festival deixaria de acontecer não só um ano, mas por três anos. Nesta situação atual, não sei quais os discursos de defesa dessa proposta e quais os discursos que foram postos contrários a essa bienalidade. Talvez tenham até me poupado, em função de que eu estava muito atarefado com a realização do Festival Internacional de Dança.

Você foi consultado com relação a essa decisão?
Eu não fui consultado. Precisamos esclarecer: mesmo que a gestão cultural da Prefeitura seja uma só para a sociedade de modo geral, existem duas instituições públicas que trabalham com ela. O Festival é ligado ao Centro Apolo-Hermilo e o Centro Apolo-Hermilo é ligado diretamente ao gabinete da secretária. Na minha instância de hierarquia, eu passo por outro segmento, que é o da Fundação de Cultura. Isso também não impede que a gente sente, em comum acordo, para discutir. Mas eu não fui consultado; e aí, repito, talvez até em função das minhas atividades, que estavam muito fortes nesse período, em função do festival. Agora, se eu tivesse sido consultado, certamente teria defendido o contrário. Acho que não teria sido difícil mostrar até o ponto de vista do prejuízo político para a instituição. Dezoito anos depois, tornar o festival bienal, quando nenhuma gestão anterior se colocou neste lugar.

Qual o prejuízo político dessa decisão?
A Prefeitura do Recife está com um déficit muito grande dentro da história de sua participação no universo cultural da cidade, em especial nas artes cênicas, que é onde milito. Esse prejuízo é político, quando isso acontece exatamente numa gestão em que a secretária de Cultura é uma pessoa de teatro, sensível às questões teatrais, uma gestão cheia de pessoas de artes cênicas. É difícil para a sociedade entender como o cancelamento do festival é uma necessidade inadiável; não fica muito claro. Esse prejuízo se estende também ao lado artístico, porque passar dois anos alheios ao que está acontecendo em cena no país inteiro é ruim para a história local, como uma cidade receptora de grandes espetáculos, através exatamente do Festival Recife do Teatro Nacional e do Janeiro de Grandes Espetáculos. O Janeiro de Grandes Espetáculos não supre sozinho essa necessidade.

Um dos argumentos utilizados por Carlos Carvalho, coordenador do festival, é de que não teríamos um prejuízo muito grande, já que a cidade possui muitos festivais. Mas sabemos que o Festival Recife do Teatro Nacional tem um perfil e um objetivo muito específicos.
Acho que passa exatamente pelo que você pontua: perfil. Quando o poder público percebe que ele cumpre um papel e define esse papel como uma função sua, ele não pode ser comparado a outros, tem que ter um diferencial. Temos que voltar mesmo à história do festival: quando, nas três primeiras edições, ele tinha uma curadoria enorme, um grupo grande de pessoas para pensar e realizá-lo, do ponto de vista da programação, era exatamente essa discussão que a gente levantava: qual o diferencial que o Festival Recife do Teatro Nacional tem para o Festival de Curitiba, para Porto Alegre, para os grandes festivais de teatro do país que existiam na época? E a gente via que a importância que o festival iria adquirir para o cenário brasileiro, era exatamente esse seu perfil singular. A gente queria reunir, como reunimos, grandes espetáculos, tendo como mote para cada ano um ponto de vista, a partir desse olhar viriam os convites. O primeiro ano foi a reunião de grupos consolidados. Trouxemos pela primeira vez ao Recife, o Galpão, o Latão, que estourou nacionalmente aqui no Recife, porque era muito conhecido por um gueto de intelectuais em São Paulo, mas à medida que veio para cá, com dois espetáculos, despontou para o resto do Brasil – isso está no livro que o Sérgio de Carvalho escreveu quando o grupo completou 15 anos. É este perfil de trazer o que de melhor se produz, na forma como originalmente foi produzido. Uma coisa não substitui outra. Mas sei que deve ter sido bem doloroso também para os diretores da secretaria e da fundação tomarem essa medida, mas é lamentável, porque quebra uma história.

Espetáculo belga L’AssautdesCieux não viria ao Recife através de produtores independentes. Foto: Irandi Souza/PCR

Espetáculo belga L’AssautdesCieux não viria ao Recife através de produtores independentes. Foto: Irandi Souza/PCR

O Festival Internacional de Dança foi realizado sob sua coordenação. Como você conseguiu viabilizar o festival financeiramente, já que a falta de verba seria um dos motivos pelos quais o Festival Nacional foi cancelado?
A viabilidade do Festival de Dança este ano realmente foi muito difícil. Este ano para a cultura no Brasil não foi fácil e para Recife em especial. Politicamente houve uma ruptura entre o governo federal e o governo estadual e, consequentemente, com o municipal. Isso implicou na questão de verbas da Prefeitura. Para se ter uma ideia: parte dos recursos do Ministério do Turismo para o carnaval ainda não foi liberado, da mesma forma com o ciclo junino. Ou seja: a Prefeitura teve que arcar com despesas que não estavam pré-orçadas para tal, teve que tirar de eventos próprios, como foi tirado do Festival de Dança. O Festival de Dança estava orçado em R$ 700 mil, depois baixou para R$ 500 mil. Ele foi realizado com quase R$ 650 mil em desembolso direto, dos quais R$ 200 mil apenas foram da Prefeitura. O restante foi parceria. A programação realizada no Paço Alfândega, por exemplo, se nós fôssemos pagar todas as despesas lá: aluguel de linólio, aluguel de som, aluguel do espaço, por duas semanas, isso ultrapassaria R$ 50 mil e nós conseguimos como parceria. O grupo da Bélgica, que veio com onze pessoas, o Ministério da Cultura da Bélgica pagou as passagens de ida e volta; o grupo do Sesc de Petrolina, com 22 pessoas, foram passagens de avião pagas pelo Sesc. Foram aportes que se somaram, para que o festival acontecesse, inclusive de forma grandiosa. Não foi menor do que o do ano passado, muito pelo contrário, pela opção que fizemos de espalhar a programação pela cidade inteira, essa programação que foi realizada no Paço Alfândega, diariamente, pegando outro tipo de público, no horário do almoço, resultou muitíssimo bem, tudo isso foi ampliando mesmo o volume do festival. O Paço do Frevo também, que foi outro parceiro, apoiador maravilhoso. O espetáculo da filha de Antônio Carlos Nóbrega, Maria Eugênia, apresentado lá, até o cachê do espetáculo foi o próprio Paço quem pagou. Enfim, a gente saiu buscando parceiros para que, de fato, a gente politicamente cumprisse o prometido com a categoria.

Quem buscou essas parcerias? Quem fez essa produção?
A Gerência de Artes Cênicas, nós, sob minha responsabilidade.

Vocês tiveram algum recurso vindo do setor de captação da própria Prefeitura?
A captação de recursos institucional a gente tentou através das leis de incentivos, que foram poucas, mas não tivemos resposta positiva. Isso foi negociação direta mesmo da Gerência com os apoiadores. O chefe dessa divisão de captação de recursos é Wellington Lima. Eu estive com ele, fizemos projeto para o BNDES e algum outro, que não foram aprovados. Mas essa captação que resultou em verbas alocadas para o 19° Festival Internacional de Dança do Recife veio através de negociação direta com a Gerência.

Como foi a negociação com o Presidente da Fundação de Cultura para que o festival fosse realizado?
Quando eu soube que só tinha R$ 200 mil em desembolso para realizar o festival – porque precisa ainda computar outros gastos, por exemplo, manter um Teatro como o Santa Isabel funcionando a semana inteira em função do festival, isso tem uma despesa muito grande, energia, funcionário, hora extra de funcionário. Mas, de desembolso mesmo, de orçamento para liberação de recursos, só tinha R$ 200 mil. Então tinha duas opções: realizá-lo fazendo a multiplicação dos pães, ou não realizá-lo, porque o dinheiro, de fato, não atenderia às necessidades. E eu, com a minha equipe, resolvemos arregaçar as mangas e investir na realização dele.

Com relação à qualidade artística, não conseguimos acompanhar o festival, mas soubemos de espetáculos imperdíveis; e, ao mesmo tempo, de espetáculos questionáveis…
Realmente, nós tivemos umas oscilações, tivemos alguns espetáculos fracos mesmo. As pessoas até disseram: ‘como uma comissão de avaliação deixa passar isso?’. Mas, em compensação, tivemos outros maravilhosos. Ficamos muito felizes. A exemplo do Dois Mundos, com a atriz e bailarina Mariana Muniz. Ela faz um espetáculo onde o corpo todo se expressa em libras; inclusive ela é daqui, maravilhosa. O grupo da Bélgica, um espetáculo daquele nenhum produtor independente traz, um espetáculo que, para entrar em cena, você tem que adquirir três metros e meio de areia, um botijão de gás hélio que custou R$ 930 só para encher o balão, comprar um monte de tralhas que não dá para trazer da Bélgica, tem que comprar aqui, como pá de construção.

2 Mundos, espetáculo de Mariana Muniz, foi destaque no Festival Internacional de Dança. Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR

2 Mundos, espetáculo de Mariana Muniz, foi destaque no Festival Internacional de Dança. Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR

Voltando às decisões da Prefeitura, o que foi divulgado é que os Festivais de Dança e de Teatro serão bienais, realizados de forma alternada. Isso envolve o Festival de Dança, sob a sua batuta. Ele virou bienal à sua revelia?
Eu não diria à minha revelia porque não tenho poder de decisão. Tenho superiores. Tenho um cargo muito pequeno diante de quem tem as decisões. Lamento não ter podido estar presente, para defender a manutenção dos festivais. Talvez eu tivesse argumentos suficientes para a gente rever. Para mim, seria muito mais coerente politicamente falando dentro de uma gestão que tem esse elenco de pessoas envolvidas até a medula com a questão da cultura na cidade, como a secretária Leda Alves. Seria muito mais fácil a gente sentar com a comunidade e dizer: “olha, este ano não dá para fazer porque não tem dinheiro. A gente não quer colocar as pessoas para trabalhar e não saber se vai poder pagar. Isso não é uma coisa responsável, não seria uma atitude responsável. Mas, a gente vai se comprometer com vocês que, no ano seguinte, a gente faz o festival, tentar até alocar mais recursos, trazer mais parceiros, para fazer o festival à altura, como a cidade merece”. Acho que as pessoas entenderiam que este ano era impossível fazer, porque foi um ano de Copa, um ano que teve muitos problemas de infraestrutura na cidade, por causa das chuvas, foi um ano atípico, com coisas que justificam a queda de arrecadação da Prefeitura. Agora, o que acho que a gente fica devendo, de fato, é tomar uma medida dessas que não é fácil de ser aceita pela comunidade, sem ter tido esse diálogo, essa oportunidade.

Você já conversou com o presidente depois disso? Você acha que essa é uma decisão reversível? Você vai tentar fazer o Festival Internacional de Dança ano que vem?
Ainda não. Se for uma decisão superior, não posso me opor, muito pelo contrário, tenho que acatar, porque não sou secretário de Cultura, presidente da Fundação ou prefeito do Recife. A possibilidade de voltar a ser anual, acho que tem muito mais a ver com a mobilização da comunidade artística do que da nossa própria interferência lá dentro. Não sei quais os argumentos que levaram a se ter essa decisão, eu não ouvi, pode ser até que essa minha ausência nessa reunião também tenha me deixado sem argumentos suficientes para defender essa posição, porque não ouvi os discursos que levaram a essa decisão, não sei quais foram. Sei que falta de dinheiro existe, mas gostaria mesmo que fosse revista essa posição e que a gente tivesse no próximo ano tanto o festival de dança quanto o de teatro. Até mesmo porque ambos os festivais já têm inscrições em leis de incentivo para o ano de 2015. Então vai ficar muito difícil se um dos projetos que enviamos para uma dessas leis de incentivo for aprovado e a gente não realizá-lo. Ainda tem uma situação delicada, na medida em que se tornou público isso, porque se uma comissão que vai analisar os projetos de 2015 sabe que o nosso festival passou a ser bienal, é óbvio que ela não vai votar no nosso. Já existe um prejuízo. Politicamente é difícil tramitar agora com projetos prévios para um festival que deixou de ser anual, quando a gente já tinha perspectiva de realizá-lo ano que vem.

Na nota que anunciou o cancelamento do Festival Nacional, a Prefeitura aproveitou para anunciar o fomento às artes cênicas. Os artistas sabem do seu empenho, desde o encontro que você teve com a classe no Forte das Cinco Pontas, no início do ano, para que o fomento fosse retomado. Mas como, neste momento, você vai defender esse fomento, com um valor que não é o ideal e que pode ser visto como um ‘cala a boca’ para os artistas?
Ele já estava previsto. A gente precisa fazer um histórico disso também. No último ano que o fomento saiu foi de R$ 20 mil. Quando se descontava os percentuais de praxe, de um desembolso público, isso ficava um valor tão irrisório… Mas o poder público trabalha com orçamentos e a gente não pode pensar num orçamento ilusório, a gente tem que pensar um orçamento real, viável, possível. Então, obviamente, paulatinamente, esses valores vão melhor atendendo às necessidades. Sei que R$ 33 mil, dependendo do tipo de produção é um aporte pequeno, mas é alguma coisa. Até mesmo porque o fomento não impede que um projeto contemplado capte recursos noutras fontes, como o Funcultura. Estamos dando uma pequena parte para incentivar. Fomento não é um patrocínio, é um aporte de apoio mesmo.

Ele não viabiliza. Ele fomenta…
Não produz, ele fomenta. Ele dá o incentivo, não a produção. O Funcultura sim, se você consegue aprovar 100% do seu projeto, é um patrocínio. Agora como foi dito e discutido nesse encontro em fevereiro do ano passado, a gente tinha uma verba de R$ 300 mil. Como dividir? Até porque, ele tinha sido pensado em valores diferentes, para teatro e dança era um e para circo era outro. E lá, nesse encontro, as pessoas de circo não foram favoráveis a esse desnível de valores e conseguiram sensibilizar todos, de que não deveria ser assim. Agora a ideia é que, paulatinamente, a gente vá adequando esses valores, até mesmo porque a inflação existe, é real, está voltando, então a gente precisa fazer com que essas verbas não estacionem. Agora, nunca vai ser suficiente para a montagem. Vai ser sempre uma verba de apoio e nem é um apoio tão pequeno, para iniciar uma produção, já cumpre um bom papel.

R$ 33 mil sem descontos?
A gente está querendo que saia via Fundo, o que tem um implicador burocrático, porque o Fundo é controlado pelo Conselho Municipal de Cultura. Ele tem uma ligação direta com o Conselho. De forma que, se pudermos liberar esses recursos através do Fundo Municipal de Cultura, ele sai como prêmio; caso contrário, o fomento é dado com os descontos normais, de praxe. Mas estamos tentando que ele saia como prêmio do Fundo.

Nós sabemos que, desde sempre, a falta de espaços ou a precariedade dos espaços
Existe já há algum tempo, isso não é recente, não vem dessa gestão atual, um departamento chamado Goe, Gerência de Operação de Espaços, que não está ligada diretamente às artes cênicas. Então todos os teatros, museus, galerias, bibliotecas, os espaços físicos da área de cultura são gerenciados por esse departamento. Existe sempre algum diálogo entre a Divisão de Artes Cênicas e esse departamento. No caso do Barreto Júnior, em especial, ele não está fechado. Está em condições precárias para uso. De forma que os produtores que o buscam sabem que o ar-condicionado de lá não tem mais retorno. Já foi feito agora o processo de levantamento de custos para a compra de um novo equipamento, porque ali é em cima do mar e a maresia acabou com toda a estrutura da máquina. Agora, no Festival, nós usamos o teatro. Teve um custo enorme para colocar aqueles ar-condicionados portáteis, que são alugados para eventos. Colocamos seis aparelhos, quatro no auditório, um nos camarins e um no palco. Ficou um clima agradável. Mas, por exemplo, uma produção independente que vá cumprir temporada não vai conseguir arcar com essa despesa para tirar de bilheteria.

Qual a previsão?
A partir do primeiro semestre de 2015. Essa foi uma notícia recente, que o próprio diretor do teatro, Marcelino Dias, me passou. Que o GOE já está fazendo esse processo de custos, para abrir processo de compra, os trâmites burocráticos. Segundo Marcelino, vai ser adquirido no primeiro semestre de 2015.

Porque além dos festivais, a casa abre edital para ser ocupado, faz parte da política de ocupação do espaço. Então até o fim do primeiro semestre isso não vai acontecer?
Parece que é para bem antes, pelo que Marcelino me passou. Esse processo de compra se encerraria ainda este ano; no Janeiro de Grandes Espetáculos provavelmente ele não vai estar instalado, mas a ideia é que logo após carnaval, o teatro já esteja com o equipamento.